Mostrando postagens com marcador Marina de La Riva. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Marina de La Riva. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Marina de La Riva é a rainha do mar de Dorival Caymmi


Marina e Dorival: justa homenagem
Com um sotaque levemente cubano, a cantora Marina de La Riva lança um disco no mínimo curioso e ao mesmo tempo autêntico: uma bela homenagem ao baiano Dorival Caymmi.  Gravado ao vivo em São Paulo, Rainha do Mar – Marina de La Riva canta Caymmi (2017 / Universal Music / 26,99) é um projeto inovador em sua carreira, que marca um retorno à obra do compositor, cujo transitou perfeitamente em 2014, ano de seu centenário. De um total de quatro shows iniciais, o resultado acabou virando um disco, tamanho o sucesso de público e crítica nas apresentações e que acabou por se transformar em uma turnê muito aclamada que chegou até Macau, na China. Sendo uma simples e bela homenagem ao cancioneiro do patrono da Bahia, o resultado não poderia vir acompanhado de uma excelente voz e de uma competente cantora, que acabou convidando artistas do mais alto nível, como Danilo Caymmi em O Bem do Mar e Oração a Mãe Menininha, Ney Matogrosso em Só Louco / Dos Gardênias e João Donato em Marina e Canto à Yemanjá / Rainha do Mar. Para escolher o vasto e glorioso repertório de Dorival, bastou as formas da natureza e os ricos personagens femininos que tanto cantou e encantou. Somado a tudo isso encontramos a voz latina com raízes cubanas e porto brasileiro de Marina, construindo aqui uma original categoria musical de forma habilidosa e fenomenal. Misturando pérolas como Canto de Nanã, Oração à Mãe Menininha, Babalu e Oggure, o Acalanto de Dorival Caymmi se junta com o acalanto cubano Canción de Cuna, que seu pai cantava. Marina de La Riva trouxe ao público um registro histórico e profundo, que precisa ser ouvido e lapidado a cada instante.

 

Rainha do Mar (2017) / Marina de La Riva
Nota 10
Marcelo Teixeira

 

segunda-feira, 11 de março de 2013

O sorriso de Bruna Caram


O belo sorriso de Bruna Caram
Quando lançou Feriado Pessoal, Bruna Caram se firmava como uma das mais importantes e celebres cantoras da chamada Nova MPB, composta especialmente por cantoras jovens, bonitas e com talentos memoráveis. Feriado Pessoal vinha embalado por sucessos inquestionáveis de Guilherme Arantes e JC Costa Netto e por composições próprias que davam todo o brilho e diferença de seu trabalho e que estava a frente do mega sucesso disco anterior, Essa Menina, seu álbum de estreia a qual alcançou absoluto sucesso de público e crítica. O novo trabalho tem bons momentos em composições alheias e já pode ser considerado um marco na brilhante carreira de Bruna. Um bom exemplo é a graciosa Especialmente Criativa, de Mallu Magahães. Das músicas que levam a sua assinatura, Pode Se Animar (parceria com Pedro Luís) é bastante agradável (aquela música que vale um repeat).

Abrindo com Bem-vindo, uma graciosidade imensa, a música é um convite pra ouvir Bruna Caram do começo ao fim, de coração aberto. Síntese do disco com todo seu frescor, coragem, alegria e independência, Bem-vindo tem uma responsabilidade imensa perante todo o disco, pois é ele quem traz a essência do álbum, misturado com a bela voz da cantora. Não Perca o Final é uma pérola do mestre Zé Rodrix felizmente encontrada e abocanhada por Bruna, praticamente esquecida no cancioneiro do cantor e compositor falecido há pouco. Sabedoria bem-humorada, se torna uma canção irresistível.

Esfera é um retrato do desejo genuíno de que o mundo possa realmente ser melhor. Com a consciência de que a mudança começa dentro de cada um de nós. Minha Teimosia, Uma Arma Pra Te Conquistar até parece uma provocação, mas é mais uma das delicias de Jorge Ben Jor que Bruna alçou deliciosamente. Uma das mais deliciosas frases já usadas pra iniciar uma canção, a música reflete um momento único na carreira da jovem cantora. Quentura do início ao fim!

 

Ter que voltar

Ter que lamentar

Mas deixar levar

Me entender um pouco mais

Me entregar

A cada sonho, cada esquina, cada olhar

Quem sabe um dia a gente possa olhar pra trás

E se orgulhar

Da marca que hoje eu trago

 

(Trecho de Bem-Vindo, de Paulo Novaes)

 

Flor do Medo é a canção sobre o momento específico entre a sedução que instiga o amor e o beijo que o inaugura. Obra prima de Djavan, a música tem tudo para ser a mais tocada nas rádios que adoram MPB. Apaixonante assim. Assim como já fizeram em discos de cantores carimbados e respeitados dentro da MPB, como Ney Matogrosso, Zélia Duncan, Roberta Sá, Pedro Luís agora engata uma bem elaborada trama de enredos com a sensacional Pode se Animar, que trata de perdas e danos, de ganhos e recebimentos do amor. E se o amor que você perdeu pudesse voltar pra você? Canção-feitiçaria de Bruna com Pedro Luís traz seu amor de volta em até 5 audições.

Amanhecendo é uma música cíclica sobre um amor que precisa, mas não consegue terminar. A mais dolorosa do disco, com direito a lágrimas e lencinhos e que tem como arrebatadora a voz singela de Bruna, que adentra em nossos poros com uma desenvoltura tremenda. Divertida, engraçadinha, romântica e espetacularmente divina, Especialmente Criativa é alegre, irônica, clown, crítica, divertida, sincera. Canção-presente da Mallu Magalhães que fala sobre ser artista na vida real.

Ponto alto do disco, Segredo é uma das canções mais executadas do cancioneiro de Dalva de Oliveira, cantada por medalhões da MPB e que teve a mais sublime interpretação na voz do filho de Dalva com Herivelto Martins, o saudoso Pery Ribeiro, que nos deixou há pouco tempo. Canção do repertório da Rainha da Voz, como era chamada, Bruna aprendeu esta canção ouvindo com seus avós. E aqui ela canta brilhantemente com a excepcional cantora Marina de La Riva em um dueto de arrepiar.

Purinho é um frevo safado livremente inspirado nas folias dos carnavais do Recife e que foi composto pela foliã Bruna Caram. Atrás do bloco o mundo gira sem parar. Encerrando o disco com Peito Aberto a maior declaração de amor do disco. Vale a pena ressaltar que o produtor se emocionou no segundo take e não a deixou gravar mais. Portanto, a voz não foi editada e a performance é real.

Um dos mais brilhantes discos da MPB com a categoria de uma estrela chamada Bruna Caram.

 

Será Bem Vindo Qualquer Sorriso / Bruna Caram

Nota 10

Marcelo Teixeira

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

O futuro de Wanessa


A cantora pop Wanessa
A cantora Wanessa (sem o sobrenome famoso) está começando a cair no meu conceito. Sou uma pessoa exigente musicalmente falando e, em todos os aspectos, não gosto de música teen, nem norte-americana, dando vazão e preferencia à música inteiramente brasileira, ora com pitadas europeias ou de língua castelhana (como faz Marina de La Riva) e quando há a junção das línguas estrangeiras, como fazem as cantoras Bebel Gilberto, Thaís Gullín e Mallu Magalhães. Alguns cantores de excelente gabarito, como Maria Gadú e Lenine, interagem em uma canção ou outra em seus discos com outros idiomas, o que não fica chato, nem muito menos caricato. Mas dedicar sua carreira inteiramente à um estilo que não é o tradicional para poder cair definitivamente nas graças de uma galera nada exigente, que quer apenas dançar, pular e se divertir, sem se interessar pela mensagem da canção, é fazer rir da desgraça alheia e estar no patamar mais elevado para enfim, poder dizer que se tornou uma cantora rica de fãs, rica de personalidade, rica de atitudes e rica de muita burrice.

Assim a cantora Wanessa, que já foi criticada aqui no Mais Cultura! como umas das piores cantoras do Brasil, conseguiu cair no meu conceito: estive verificando sua nova trajetória há quase três meses e confesso que me orgulho em ver que ela saiu da barra da aba da cantora perdida Sandy, para viver o seu mundo, imitando, agora, cantoras de um país que adora eleger as louras ao topo das melhores do mundo, como Adele, Lady Gaga, Madona, Britney Spears. Para tanto, Wanessa tingiu os cabelos de louro, imagino eu que para ser confundida com uma delas futuramente. Sair da aba de Sandy para ser praticamente igual às americanas, é sofrer para não padecer e isso está tirando o meu sono, literalmente. Wanessa não precisava ir tão longe para se igualar às cantoras de um país que por aqui fazem enorme sucesso. Bastava virar a esquina que logo encontrava o seu caminho.

Mas Wanessa foi mais longe: seu idioma agora passa do português ao inglês como num piscar de olhos e sua trupe aumentou (ouvi dizer que já passam de trezentos mil dançarinos no palco para fazerem a volta dela ao show bizz) e sua roupa, seus colares, seu cabelo também mudaram. Se igualar a cantora Sandy não dera muitos frutos, se igualar às americanas, dará? Retirar o famoso sobrenome e dançar ao estilo de Madona a fará mais famosa internacionalmente, com toda a certeza cabível de sustentação de artigos como este, mas dizer que Wanessa será uma das maiores cobiças de cantoras nacionais que deram certo lá fora, isso será impossível. Nem Ivete Sangalo conseguiu este feito.

Que saudades eu tenho de Carmen Miranda, que colocou os EUA, o Brasil e Cuba em suas mãos! Mas deixo um recado à Wanessa: não tente imitar as americanas. Tente imitar a si mesma, assim, a esquina que você poderia entrar, estará totalmente iluminada. Ou não.

 

O futuro de Wanessa

Marcelo Teixeira

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Idílio, de Marina de La Riva: uma perfeição




Filha de pai cubano com mãe mineira, a cantora carioca Marina de La Riva acaba de lançar seu segundo álbum, Idílio (2012 / Universal / 25,90) em que retoma a saborosíssima mistura de música brasileira com cubana, como havia feito e chamado muita atenção em 2007, com o trabalho de estreia e homônimo. Ela volta agora muito mais amadurecida e acompanhada de músicos de primeiríssimo nível. As faixas não foram escolhidas e organizadas aleatoriamente. Muito pelo contrário. Umas dialogam com as outras. Ela começa mergulhando no baú da música cubana, recuperando Añorado Encuentro, de Piloto Bea e Vera Morua, que conta com a participação do consagrado trombonista Raul de Souza. Ela é acompanhada pela romântica Ausência, de Vinicius de Moraes e Marília Medalha, marcada pela percussão de Pedro Bandera e Ricardo Valverde: Eu tinha feito da saudade / A minha amiga mais constante / Ela a cada instante / Me pedia pra esperar / E foi tudo o que eu fiz, te esperei tanto.

A maneira como a voz de Marina de La Riva dialoga com o violão de Daniel Oliva e o baixo acústico e o arco de Fabio Sá, em Assum Preto, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, é de arrepiar. Já é uma das mais belas homenagens ao centenário do rei do baião. A delicadeza permanece na dengosa Canción de Las Simples Cosas, de Armando Tejada Gómez e César Isella, reforçada Pepi Olviedo, o baixo acústico de Fabian Garcia Caturía, o violino de Ernesto Villalobos e os timbales de Adel Gonzalez, que cuida das palmas junto com a cantora. É surpreendente observar como a voz de Marina de la Riva se transforma nesse canto de saudade: Por eso, muchacho, no partas ahoa, soñando el regreso / Que el amor es simple, y a las cosas simples las devora el tiempo.

Igualmente forte é Como Duele Perderte, de Flores, pontuada pelo tamborim de Ricardo Valverde e o violão de Emiliano Castro. Ela abre espaço para o bolero-ranchero Y, de Mario de Jesus, com direitinho a uma paradinha, que arrepia mais do que a feita atualmente pelas escolas de samba na Marques de Sapucaí, assim como a voz de Marina de La Riva, imitando um suave trombone: Y a que debo dime entonces tu abandono / Y em que rufa tu promesa se perdió / Y si dices la verdad yo te perdono / Y te llevo de recuerdo junto a Dios. É de arrepiar.

Idílio, novo disco de Marina de La Riva
Não à toa o álbum segue com o samba “Juracy”, de Antonio de Almeida e Cyro de Souza, gravada pelo rei da malandragem Moreira da Silva. Ela desbrava espaço para uma versão em mambo da dançante Estúpido Cupido, versão de Frank Jorge para sucesso de Neil Sedaka e Howard Greenfield, gravada por Celly Campello, na fase inaugural do rock brasileiro. Aqui ela é reforçada pelo piano de Pepe Cisneros e o sax-tenor de Ivan de Andrade. A canção seguinte é o chorinho Deixa Que Amanheça, de Oswaldo Santiago, gravada por Emilinha Borba e que aqui conta com o acompanhamento de um time de altíssimo nível, formado por Luizinho 7 Cordas, no violão de sete cordas; Alexandre Ribeiro, no clarinete; Deni Mastrodomenico, no cavaco; e Ricardo Valverde, na percussão. Ela abre espaço para “Dile Que Por Mi No Tema”, de T. Smith, que conta com arranjos de Pepe Cisneros e remete à chanson francesa.

Marina de La Riva parte, então, direto para a emplogante Muñeca, de Eddie Palmieri, mais uma faixa com arranjo de Pepe Cisneros, com o primoroso trombone de Raul de Souza e com uma letra safadíssima: Muñeca, quiero que me perdones / Muñeca, que yo no ló hago más / Me encontrastes em los brazos de otra nena / Son diversiones que no valen nada. Dá vontade de sair dançando pelo salão.

A cantora Marina de La Riva
Chega-se à faixa-título, Idílio, de Titi Amadeo, que conta com a bateria de Pupilo, da Nação Zumbi, e mantém o clima caribenho e bastante ensolarado. O álbum termina com mais duas canções charmosas e dançantes – Voy a Tatuarme, de Amaury Gutiérrez (vencedor do Grammy Latino de melhor cantautor em 2011), baseada no Soneto LXVI, de Pablo Neruda e Luiz Felipe Gama; e Voy a Guardar Mi Lamento, de Raul Vasquez, que conta com o trompete azeitadíssimo de Guizado, a guitarra de Junior Boca, a bateria de Pupilo e o baixo elétrico de Fabio Sá.

Portanto, Idílio reafirma Marina de La Riva como uma das melhores cantoras brasileiras da nova geração. Há quem diga que ela é apenas para ouvidos mais refinados. Mas, que nada, parece impossível escutar esse álbum e não se encantar e nem sentir vontade de sair dançando por aí, com uma pitada de saudade e um arco-íris ou uma Lua, rodeada de estrelas, no céu.



Nota 10

Idílio / Marina de La Riva

Marcelo Teixeira