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sexta-feira, 5 de abril de 2013

Na onda dos Novos Baianos


O quarteto baiano e original
Os Novos Baianos é uma banda excepcional, que além de ter um talento imenso para rock de todos os jeitos, consegue unir este rock aos ritmos baianos como o samba e o chorinho, às vezes até o frevo, de forma fantástica. Em meio à guitarras elétricas, pandeiro, letras singelas ou muito loucas (mas ambas muito bacanas) e vocais maravilhosos da Baby, do Paulinho e do Pepeu, os Novos Baianos conseguem passar uma leveza, um despojamento e uma simplicidade quase infantil que não se vê em outras bandas, eles passam a essência baiana, e isso torna ainda mais fantástico o som deles. Os Novos Baianos são mais do que uma banda, são uma família, é muito bacana observar as capas e os encartes dos discos deles pois podemos ver inúmeras crianças e bebes, filhos deles, eles eram uma comunidade, moravam juntos, tocavam juntos, viviam em grupo, e talvez por isso façam um som tão acolhedor.

Só o fato de a banda ter uma pessoa que não toca e não canta, apenas faz as letras, o Galvão, já é um diferencial muito interessante, assim como outra pessoa que intriga e merece destaque que é a excêntrica Baby Consuelo. Com um jeito muito louco, uma voz maravilhosa e uma personalidade muito figura, a Baby tem ainda mais prestígio comigo do que a Rita, pois não faz qualquer esforço para ser uma pirada muito leve, muito legal. Foi muitos anos casada com o Pepeu e é legal comentar a forma como se conheceram, já que foi bem... diferente:

Diz Pepeu que andava pelas ruas de Salvador com a turma que veio a se tornar a banda quando viram um brilho na testa de uma garota que também andava pela rua. Ao se aproximarem viram que o que brilhava era um espelho que a garota amarrara na testa, essa garota era Baby, que diz que amarrou o espelho para que as pessoas se vissem dentro da cabeça dela.

Os Novos Baianos é uma fenomenal e graças a Deus lançou muitos discos bons e maravilhosos e vale a pena ouvir todos eles, sem cansar a memória e aprimorando seu gosto musical.

 

Os Novos Baianos

Marcelo Teixeira

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

O retorno de Baby do Brasil


 

Baby e o filho, Pedro: a volta
Baby* sempre foi do Brasil, mesmo quando assinava Consuelo. Apesar de ter trocado o nome artístico em meados dos anos 90, a vida inteira misturou toda sorte de ritmos em seu caldeirão, prevalecendo sempre o sabor tropical, bem brasileiro. Não é por acaso que ela é a nossa única cantora brasileira que fez sucesso cantando chorinho depois da fase áurea da rainha do gênero, Ademilde Fonseca e, também uma das raras a cantar samba de um jeito furioso e esfuziante como outra de suas referências, Elza Soares. E Baby também sempre fora polêmica. Ora com a barriga de fora, ora cantando praticamente como se estivesse recebendo um santo qualquer, Baby reproduziu no Brasil a espécie de uma das cantoras mais populares e descoladas dos anos 1970.

Quando Baby e Pepeu Gomes (seu então marido na época) alcançaram o topo das paradas de sucesso, foram participar imediatamente do Festival da Música em Montreux [1980, Suíça], onde cada um gravou seu primeiro disco ao vivo. Vale ressaltar que naquela época, somente os verdadeiros e bons cantores da MPB ou de movimentos ricos de imaginação e criação, eram convidados a participar do Festival da Suíça. Também participaram do Rock In Rio [1985, Rio de Janeiro], onde Baby estava grávida do seu filho caçula. Foi um choque para a população ver Baby cantando com a barriga de fora, já que isso, na época, era uma coisa fora do normal. Baby também aparece coberta de metais entortados por Thomaz Green Morton. 

Depois de um tempo afastada da mídia e dos palcos e sem lançar praticamente nenhum disco, Baby troca o Consuelo pelo do Brasil e se torna evangélica (o que, para mim, é a mais pura identidade desprovida de consolidação artística). Encontrou-se única e detentora de seus direitos através da igreja a qual pertencia e a partir deste momento, uma nova transformação acontece na vida da cantora. Retornou aos palcos na década de 90, já casada com o produtor Nando Chagas. O casamento durou 8 anos. Baby finalmente assume o nome artístico Baby do Brasil. Grava um especial com os Novos Baianos [Infinito Circular], em 1997. Também lança um livro chamado Peregrina ... Meu Caminho no Caminho, onde conta a sua passagem pelo caminho de Santiago de Compostela [Espanha].

A verdadeira responsável pela volta de Baby aos palcos foi da cantora Gal Costa, que, em conversa com Pedro, filho guitarrista de Baby, propôs a ele a ideia de dirigir a mãe em comemoração aos seus 60 anos de carreira, a qual ficou denominado Baby Sucessos. Talvez seja um choque para todos, mais uma vez vinda de uma das cantoras mais loucas da MPB: com uma carreira marcada por polêmicas e por altos e baixos, igrejas evangélicas, filhas pastoras, maridos calados, filhos numerosos, musicalidade boa, troca de nomes, cabelos coloridos, viagens, livros e a comemoração de seus 60 anos. É esperar para ver.

 

O retorno de Baby do Brasil

Marcelo Teixeira

*artigo idealizado por Diogo Silva, escrito por Marcelo Teixeira.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Cê, de Caetano Veloso


O rock na MPB de Caetano
Quem disse que o clássico tem que ser velho? Quem criou a diferença entre rock e mpb? Quem foi que disse que os melhores discos do Caetano são os mais antigos? Acho esta história de que o antigo é melhor, que o novo não presta e por aí adiante, uma verdadeira balela, de quem não tem o que dizer, o que escrever e o que achar. Caetano é Caetano. E tanto faz se seus discos antigos sejam bons, com letras mais instigantes, com poesia mais rompantes, com a carnificina que só Caetano conseguia impor naqueles anos. Hoje o velho Caetano ainda merece aplausos efusivos sobre seus discos mais recentes, procurando aqui e ali se firmar entre os mais jovens e a cultuar ainda mais os mais velhos. Tudo isso com maestria. Caetano é Caetano.

Em 2006 Caetano lançou esse petardo (termo sempre usado no rock, mas que merece aqui sua presença) disco chamado . Rock, mpb, excelentes composições, timbres surpreendentes, vozes e melodias marcantes, espaços e silêncios entre os sons. Um clássico quase instantâneo. Quase, porque o disco merece várias audições antes de se apegar a ele. Claro que também admiro muito o trabalho dos anos 70 (claro que também têm clássicos do próprio a serem postados aqui), mas em geral os timbres, principalmente os de guitarra, são sofríveis. Que me desculpe o Genial Lenny. Nos anos 80, pós-Liminha produzindo o Gil e depois do BRock, os sons melhoraram muito. E o Caetano continuou a lançar excelentes discos.

Eu tenho uma viagem recorrente matinal, naquele estado sonâmbulo quase lisérgico ao despertar: eu ouço discos que não foram lançados, tipo Hendrix com Miles, Hermeto com Tom, Janis com Lennon, Gil com Jorge (ops, esse existe...). E às vezes eu ouço o Araçá blues, agora com pro-tools, com vozes de Carmen sobrepostas a loops de Timbalada, o silêncio de João mixado ao virtuosismo de Pepeu, vozes de Orlando Silva e Caymmi fundidas com a de Janis Joplin, um CD com 128 canais barrocamente trabalhados... Será que ainda ouvirei esse neofonismo? (Adoro essa palavra! Vale uma música).

Mas vamos ao disco: inicia com Outro, com um riff básico e forte, como um bom rock tem que ser; traz ainda a excelente frase feliz e mau como um pau duro! Tem um solo de guitarra excelente e atípico nos discos do Caetano. Na sequência muda o clima, minhas lágrimas é cheia de espaços e silêncios, com uma guitarra presente e discreta. Bonita.

Aí vem o primeiro orgasmo (cedo demais?): Rocks, reta e poderosa, com solo mete o dedo na guitarra com feedback e tudo. Você foi mor rata comigo é um excelente grito inimigo. Será que o Caetano pagou royalties ao Zeca? Deusa urbana pertence a linhagem de músicas inspiradas em fêmeas. Belo é ver o medo exposto, a mucosa roxa citada, uma guitarra com trêmolo e Overdrive. Waly Salomão é mais uma marca que os poetas (o homenageado e o cantor) deixaram pra nós, música tribal e boa, sentimental, bonita, carregada na emoção, uma emoção capaz de corrermos em busca de quem partiu, de quem se foi, de quem morreu. Waly!

Não me arrependo inicia com uma citação de Walking on the wild side, de Lou Reed e uma bateria que lembra a música anterior. Linda letra, sobre bons sentimentos em fins de relacionamentos (tema sempre inspirador). Há aqui, e em todo o disco talvez, uma tendência a interpretar a arte como autobiográfica (Caetano vinha de uma separação). Acho irrelevante, além de inútil e desinteressante. Talvez seja trabalho pra seu biógrafo. Musa híbrida, dançante, com uma guitarrinha safada e tem uma levada de bateria quase axé, uns falsetes quase gays, uma letra quase Carlinhos Brown. Mas afinal o que significa ‘cúprica’? Segundo o dicionário, significa cobre. Mais um orgasmo: Odeio, rockão, guitarra obsessiva e insistente. Mas a música muda, oscila, acalma. Tem alguns dos melhores versos do disco: todas ‘mucosas pra mim’, ‘forte e feliz feito um deus, feito um diabo’, ‘só eu, velho, sou feio e ninguém’, ‘veio e não veio quem eu desejaria se dependesse de mim’, ‘São Paulo em cheio nas luzes da Bahia / tudo de bom e ruim / era o fim, é o fim, mas o fim é demais também’. Uma guitarra esquizofrênica com filtro encerra com chave de Hendrix.

Homem diz o orgulho de sê-lo, e diz tudo e diz bem. Mas fica a inveja dos orgasmos múltiplos. Fazer o quê? Gozar? O que é o tema da música seguinte, porquê?. Estar-se a vir seria algo como estou gozando em Portugal. Vem acompanhada de um sotaque lusitano. Se eu fosse produtor teria limado essa, pois ela soa meio cansativa com a repetição da mesma frase por vários minutos. Embora no final ela soa engraçada. Apenas.

Um sonho parece que traz Morelembaum de volta, mas é uma guitarra em stacatto, bela música. O herói é uma das minhas preferidas, tema épico, dinâmica, temática bandida, narrativa que se aproxima do rap, vozes em dissonância de microtons no fim. Encerra irritando. Caetano é Caetano. E ele pode fazer o que bem entender quando o assunto é música. Caetano é rock and roll!!!!

 

Cê / Caetano Veloso

Nota 10

Marcelo Teixeira

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

O Melhor Álbum de Cássia Eller




Cássia Eller: única
Cássia era dotada de uma timidez desconcertante, quando conversava, e ao mesmo tempo, de uma rebeldia juvenil, quando subia aos palcos. Em suas apresentações, quase sempre se via gestos como coçar as partes íntimas, cuspir no chão ou mostrar os seios. Sua presença de palco era intensa e sua capacidade de se apropriar das músicas que cantava era indiscutível. Cássia compôs apenas três das muitas canções que interpretou. A artista cantava blues, rock, MPB e samba com a mesma maestria; sem criar diferenças ou barreiras entre um gênero musical e outro. Na verdade, em sua voz, tudo era simplesmente boa música. Não foi preciso mais que um disco para que a cantora Cássia Eller mostrasse personalidade e a sua reconhecida veia roqueira. Em sua estreia a cantora Cássia deixou clara a sua postura de intérprete e o disco foi puxado por sua regravação de Por Enquanto, da Legião Urbana, em uma época em que a banda ainda não era tão regravada.

Hoje o Mais Cultura! traz o melhor disco de Cássia Eller e de quebra um dos mais belos da MPB. Com a produção impecável de Nando Reis e Luiz Brasil, Cássia Eller grava em 1999 um disco que causa uma enxurrada de clássicos. Com um verdadeiro time de músicos e uma orquestra, Com Você...Meu Mundo Ficaria Completo, foi a concretização e o auge do sucesso da cantora no fim da década de 90. Como grande intérprete que sempre foi, Cássia traz no disco composições de diversos gêneros e de autoria de vários grandes nomes da música brasileira. O disco já começa com seu maior sucesso ao lado de Malandragem, Segundo Sol, que segundo a própria cantora, ela roubou de Nando Reis. A música é daquelas perfeitas para se tocar no violão e traz um belo arranjo de cordas.

A segunda faixa, Mapa do Meu Nada, é uma declaração amorosa de Carlinhos Brown e possui a participação especial de Jussara Silveira no disco. O final de Mapa do Meu Nada parece até uma ponte para Gatas Extraordinárias, de Caetano Veloso. O destaque da faixa são as flautas e, claro, a letra impecável do Caetano, que compôs a música especialmente para Cássia. Depois dessa dupla de canções de amor, aparece uma canção inversa, Um Branco, um Xis, um Zero, do trio Arnaldo Antunes, Marisa Monte e Pepeu Gomes. A canção tem uma forte influência do rock e a voz da Cássia sai, como de costume, extraordinária. A canção título do álbum, também composição de Nando Reis, tem o solo de guitarra do Walter Vilaça e uma letra muito bem construída, falando que perto do amor os problemas parecem pequenos.



Tenho que pegar

Tenho que pegar

Aquela criatura

Tenho que pegar

Tenho que pegar



Trecho de Gatas Extraordinárias, de Caetano Veloso





Seguindo, a sexta faixa traz mais um clássico, composição do baiano Moraes Moreira em parceria com a outra maravilhosa cantora Marisa Monte, Palavras Ao Vento, com Paulo Calasans tocando um órgão maravilhosamente bonito e Luiz Brasil e Rodrigo Garcia nos violões.  Mudando bruscamente o estilo, Cássia Eller mostra sua versatilidade interpretando Aprendiz de Feiticeiro, do gênio paulista Itamar Assumpção, oriundo da Vanguarda Paulista. Destaque para o acordeom e a percussão. Também com bastante percussão e acordeom, Cássia interpreta, absorvendo o estilo único do compositor baiano Gilberto Gil, Pedra Gigante, feita em parceria com Bené Fonteles. A nona faixa leva o nome da banda de apoio de seu compositor. Infernal, de Nando Reis, tem uma fortíssima influência de funk, expressada por Paulo Calasans em seu clavinete, que é completado pelos sopros. Maluca, de Luiz Capucho, é um samba muito bonito, praticamente montado pelo violão, o arranjo de cordas e a letra falando sobre o amor de uma mulher por flores.

Chegando ao final, temos mais uma do Nando Reis, As Coisas Tão Mais Lindas, muito bem interpretada pela Cássia e por último Esse Filme Eu Já Vi, de Luiz Melodia e Piau, com grande influência de jazz. Cássia Eller imprimiu seu nome na música com uma voz marcante, uma irreverência admirável, uma gargalhada despojada e muita simplicidade. Sem sombras de resquícios, Com Você...Meu Mundo Ficaria Completo é o melhor álbum da carreira brilhante, porém curta, de uma das maiores vozes que este Brasil pôde conhecer: Cássia Eller. Ela gostava de cantar e conseguiu agradar público e crítica. Não há como preencher o espaço vazio que deixou, mas há como lembrá-la sempre e não permitir que ela entre para o grupo dos grandes artistas que caíram no esquecimento popular.



Com Você... Meu Mundo Ficaria Completo / Cássia Eller

Nota 10

Marcelo Teixeira