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quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Ano Luiz Melodia no MCB: o clássico Pérola Negra (1973)

Pérola Negra: clássico dos clássicos
Luiz Melodia é o grande homenageado do Mais Cultura Brasileira neste ano de 2018 (título que no ano passado foi de Marisa Monte) e durante todo esse ano será lembrado aqui e ali por músicas, composições ou álbuns importantes de sua carreira. O artista foi considerado um dos 100 mais influentes do cancioneiro nacional pelo conjunto da obra e suas músicas são referência para muitos cantores que estão inserindo nessa caminhada de fazer música do bem.  Pérola Negra (1973 / Phillips / 19,99) foi o primeiro disco lançado por Melodia, que teve direção musical de Péricles Albuquerque e que foi recebida mornamente na época. A gravação do álbum veio após o sucesso estrondoso das gravações de Gal Costa e Maria Bethânia em 1971 e 1972, respectivamente, das canções Pérola Negra – que dá nome ao título e até hoje é cantada ou reverenciada pelo nome – e Estácio Holly Estácio. Apesar do sucesso de crítica, o álbum não teve o mesmo êxito comercialmente. O disco mescla elementos de diversos elementos ao universo sambista que caracteriza as origens do artista e reflete influências de blues, rock, soul e até samba-canção, de um universo habitado por jazzistas e artistas que Melodia fora influenciado.  Porém, o álbum é famoso por conter uma participação especial do musico dito marginal Daminhão Experiença, que foi convidado para contribuir com o backing vocal na faixa Forró de Janeiro.  Pérola Negra traz dez faixas arranjada pelo violonista Pedrinho Albuquerque. Um solo de flauta de Canhoto, acompanhado por seu regional, dá a largada à eternidade de Melodia, no samba Estácio, Eu e Você, inspirado em Cartola. A segunda faixa já é um blues (e dos bons) Vale Quanto Pesa, em instrumentação acústica. O disco ainda tem o clássico Magrelinha, que anos depois se transformou em outra marca registrada do cantor e compositor carioca. Pérola Negra é o ápice do ápice da música popular brasileira e pude dizer isso pessoalmente ao Melodia em um encontro que tivemos na Avenida Paulista no ano de 2016, quando ele já estava sentindo algumas dores lombares (coisa que a mídia ainda não sabia). Há estética, há beleza, há samba, há blues, há a voz de Melodia estrondando tudo e a todos. Todas as suas obras são e serão reforçadas pela tese de que o começo foi aqui, em 1973, com este emblemático disco que, anos e anos mais tarde, foi incluído na posição 32 na lista dos 100 maiores discos da música popular brasileira pela conceituada Revista Rolling Stone Brasil.


Pérola Negra (1973) / Luiz Melodia
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

A transformação de Eliana Printes em delicioso álbum de 2013

O disco: transição com o Brasil
A voz cintilante de Eliana Printes foi reconhecida nacionalmente quando ela interpretou maravilhosamente a canção Só vou gostar de quem gosta de mim, canção imortalizada na voz de Roberto Carlos nos anos 1980 e que estava no excelente álbum Pra lua tocar (2000). Transcorridos mais de quinze anos após esse lançamento, a cantora voltou a se radicar e a se dedicar ao Norte do país, onde faz festa entre seus nativos e é conclamada como rainha da música popular brasileira. Pudera: Eliana Printes é um poço de simpatia, uma riqueza em pessoa e tem uma voz cintilantemente pura, cristalina e purificada. Seus discos são tão bonitos e bem acabados, que fica impossível não elencar a sua carreira como a de uma verdadeira dama da MPB. Tudo em Movimento (2013) é o oitavo disco da cantora e que foi lançado em Manaus com tamanha festa, que passou despercebido por outros cantos do Brasil e que mesmo assim não perdera seu brilhantismo e sua importância. Seguindo uma tradição que se mantém há anos, a cantora fez de Manaus a sua primeira parada para todas as turnês de divulgação de cada disco e o Teatro Amazonas é a sua casa, seu refúgio e seu porto seguro. Mesmo sendo radicada no Rio de Janeiro, Eliana consegue se manter fiel às suas tradições e se impõe a cada dia como uma típica cantora que não se rotula e que não se propaga para ser tal. Produzido por Adonay Pereira e Julinho Teixeira, em parceria com a Indie Records e com distribuição nacional da Universal Music, Tudo em Movimento tem dez faixas que se entrelaçam. A ideia central do disco, expressamente dita no título, tem a ver com as mudanças que estavam acontecendo no país àquela época. A exemplo de seus predecessores, o disco teve participações para lá de especiais, como o falecido cantor Luiz Melodia, que divide os vocais em Congênito (autoria de Melô) e da cantora carioca Isabella Taviani, em Se tudo pode acontecer.  Outra participação especial do álbum aparece em La Condessa, composição de Ribamar Vaiz, Ricardo Bezerra e Soares Brandão. O registro dessa música foi feita na Alemanha, reforçando a tese de que o disco merece destaque.  Mas por que esse crítico de música veio nos mostrar apenas isso hoje, transcorridos quatro anos de seu lançamento? Por um motivo muito simples: os discos de Eliana Printes raramente chegam à São Paulo com pompas das grandes estrelas e para encontrá-los é preciso gabaritar muito. Encontrei esse disco em uma loja na zona Central de São Paulo e era peça única. Não hesitei em comprar. Mas não fique triste: se você não encontrar, poderá ouvir na internet algumas de suas belas faixas.

Eliana Printes / Tudo em Movimento (2013)
Nota 10
Por Marcelo Teixeira


sábado, 5 de agosto de 2017

A morte de Luiz Melodia


Até qualquer hora, Luiz!
FOI  como uma bomba caindo sobre minha cabeça quando recebi nas primeiras horas da manhã de ontem que Luiz Melodia havia morrido. O Brasil ficou sem Luiz e sem Melodia. Se já estava complicado ouvir música em um país descabido de música, o que será de nós agora sem Luiz Melodia? O nosso ébano, nosso Zé Bedeu, nossa voz do morro carioca e nosso negro gato se foi para tristeza de muitos. Em 2015 me encontrei com Melodia em plena Avenida Paulista, aqui em São Paulo, onde falamos sobre as diferenças entre São Paulo e Rio de Janeiro e sobre muita música. Para quem não sabe, Luiz era um grande defensor da raça negra e lutava pela igualdade de valores e pela desigualdade que assolava nosso país. Foi um encontro natural, como de dois amigos que se reencontram em um momento qualquer. Luiz Melodia atravessou por mim como quem atravessa suas músicas por nossos poros, mentes e corpo. Perdemos a voz, perdemos o encanto, o jeito danado e o soul jazz de um dos maiores e melhores cantores do Brasil. Ontem passei o dia chorando, triste, relembrando desse dia que, para mim, já era importante e agora será mais ainda. Luiz Melodia não foi um cantor qualquer e muito menos um cantor de um estilo único: Luiz fora de uma categoria ímpar, de uma excelência sem igual, de uma humildade tamanha e de uma reciprocidade igual. Desde julho do ano passado, o cantor vinha se tratando de uma doença autoimune e chegou a passar por um transplante de medula óssea. Luiz, carioca da gema, estava internado no Hospital Quinta d’Or e morreu ontem pela madrugada aos 66 anos, devido à complicações de um câncer que atacou sua medula. O cantor foi sepultado agora pela manhã no cemitério do Catumbi, Rio de Janeiro. Familiares, amigos famosos e anônimos compareceram ao velório. Ele deixa a esposa Jane Reis e dois filhos, Mahal e Hiran. Sentiremos saudades, Luiz. Muitas saudades.

O adeus a Luiz Melodia
Por Marcelo Teixeira

sábado, 30 de julho de 2016

Liniker - cantor e cantora ao mesmo tempo!


Liniker: ousadia e novidade em 2016
Sempre venho batendo na mesma tecla de que a música popular brasileira precisa de renovação e essa renovação não está apenas no sentido figurado de cantar, de compor ou de estar presente na representação conjunta de todo o conteúdo formal de musicalidade. É preciso uma reinventação única, capaz de nos hipnotizar, nos impactar, nos catalisar numa singela força de expressão, que nos faça arregar os olhos, abrirmos as bocas, arrepiar nossas peles e nos fazer sairmos do espetáculo com a mente inquieta, insana, cheia de música boa e com imagens jamais repartidas, quebradas ou esquecidas. Liniker nasceu homem, se comporta como homem, tem voz de homem e se apresenta como homem transvestido de mulher. Não chega a ser uma aberração para ninguém, mas Liniker soube provocar a ira de muitas pessoas ao se apresentar numa forma espontânea, capaz de nos prender o fôlego e prender a respiração tamanha a sua participação no palco, na música que canta e naquilo que produz. Liniker nasceu com o nome Liniker e é esse mesmo nome que o consagrou para que a música o revelasse ao Brasil com toda a sua formosura e sua docilidade em poder cantar suas canções numa totalidade máxima entre o prazer e o sabor de cada palavra soltada ao vento. A plateia delira, os músicos se rebelam ao bel-prazer geral e todos entram no clima. Sendo um misto de tudo aquilo que o Brasil já produziu de bom e da melhor qualidade artística, Liniker é o cantor de protesto que mais bem representa, nos dias de hoje, a sua verve artística, não se comparando com o fenomenal Filipe Catto e muito menos com o cafona Johnny Hooker. Ele é mais do que isso e seu testamento é maior que sua veia musical. Liniker pode ser uma miscelânea de tudo aquilo que já vimos anteriormente: um pouco de Luiz Melodia, uma pitada generosa de Itamar Assumpção, um sal de Maria Bethânia, um doce de Gonzaguinha, um gosto de Tulipa Ruiz, um  tempero de Rita Lee, uma gosto de Sandra Sá, um bocado de Tim Maia, um pedaço de Clara Nunes, um sorisso de Elis Regina, um canto Dolores Duran. Liniker é uma surpresa notória dentro da MPB e seu canto ecoará por muitos anos e ultrapassará fronteiras. É um cantor de verdade, com vontade própria, luz própria, sentimentos próprios e com carisma de artista generoso. O seu jeito feminino de cantar não assusta, pois sua música é muito maior que qualquer vestimenta ou adereço peculiar. Liniker é um cantor que já nasceu pronto, que tem astúsia pronta e que precisa ser ouvido o mais depressa possível.

Liniker – cantor e cantora ao mesmo tempo
Por Marcelo Teixeira

domingo, 7 de setembro de 2014

Zerima, o novo disco de Luiz Melodia


Zerima por Melodia
Sem sombra de dúvidas, Luiz Melodia lança seu melhor disco nos últimos anos. Embora Zerima esteja bem próximo do álbum Pérola Negra, Luiz Melodia prova que é um dos melhores cantores da música popular brasileira e toda essa semelhança passa desapercebido já na segunda audição embora o Pérola não tivesse tantos sambas quanto este. Mas teve essa variedade de ritmos. Em 1973, o cantor e compositor carioca marcava a estreia da carreira musical com o lançamento de Pérola Negra, sua marca registrada até hoje e imortalizada na voz de Gal Costa. Aclamado pela crítica à época, o disco é até hoje notado pelas composições bem ordenadas e pelo atrevimento do carioca ao se enveredar pelo samba, choro, rock, forró, soul e o blues em um único trabalho. Esta mistura virou uma marca do artista e volta a se repetir em Zerima (2014 / 26,99 / Som Livre), seu 14º álbum em mais de 40 anos de estrada, recém-lançado maravilhoso trabalho. No novo álbum, a excursão musical de Luiz Melodia faz escalas no samba, bossa, blues, jazz, reggae, funk, valsa, entre outros ritmos. Tudo isso em 14 faixas, sendo 11 autorais inéditas e três regravações. Entre estas, a composição Maracangalha, de Dorival Caymmi. A cantora Céu, assim como o filho de Melodia, Mahal, dão as caras em Zerima. Ela empresta a voz na canção Dor de Carnaval. O resultado é um belo dueto em forma de bossa nova. O convite de Céu, cantora que Melodia aprecia muito, aconteceu como forma de retribuição ao convite que ele recebeu para fazer uma ponta no disco Vagarosa, que a cantora lançou em 2009, onde os dois artistas ilustres fizeram uma parceria formidável.

 

Zerima / Luiz Melodia
Nota 10
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Todo Domingos (2010) traz Flávia Bittencourt homenageando Dominguinhos


Flávia: bela voz nordestina
Flávia Bittencourt é uma de nossas melhores cantoras surgidas na nova geração de belas vozes e com excelente repertório e hoje o Mais Cultura! traz toda a magia e sedução do CD Todo Domingos (2010 / Independente / 23,99 ) em que faz uma justa homenagem à Dominguinhos, morto recentemente. O disco tem participações especiais de nomes importantes da nossa música, como Gilberto Gil e Djavan, além do próprio homenageado. No repertório, alguns dos maiores sucessos do músico, como Sete Meninas, Tenho Sede, Abri a Porta, Lamento Sertanejo e o clássico dos clássicos, Eu Só Quero um Xodó. Entre as faixas, uma composição inédita completa o setlist do disco, Seu Domingos, uma homenagem querida e simpática à Dominguinhos. Flávia merece destaque na cena musical por ser uma das novas e promissoras cantoras e compositoras das mais elogiadas pelos críticos e por artistas e escritores do porte de Luiz Melodia, Zeca Baleiro, Ferreira Gullar e Dominguinhos, que antes de falecer, disse que ela seria o futuro musical do Brasil. As raízes culturais da maranhense estão presentes na escolha de seu rico repertório, que sempre traz manifestações da cultura popular de seu estado natal, dialogando naturalmente com composições próprias e de outros compositores. Vale a pena ouvir os clássicos de um grande músico na voz saborosa de uma grande cantora.

 

Todo Domingos / Flávia Bittencourt

Nota 10

Marcelo Teixeira

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

17º Maior Cantora do Brasil: Paula Lima


Paula Lima no 17º lugar
Paula Lima é formada em piano clássico e em Direito pelo Mackenzie, marcou a sua entrada no mundo da música com o grupo Unidade Bop (ex-Unidade Móvel), que teve lançamento pelo selo Eldorado. Logo em seguida, em 94, fez backing vocal para Jorge Ben Jor no disco 23; cantou no sucesso da dupla de rap Thaíde e DJ Hum (Senhor Tempo Bom), integrou o grupo Zomba e por fim caiu no baile do Funk Como Le Gusta, com o qual se destacou com a releitura de Meu Guarda-Chuva (composição de Ben Jor quando ainda era só Ben). Em 2001 lançou seu primeiro cd solo pelo selo Regata Records, o É Isso Aí, recebendo elogios de crítica e público. Com o álbum foi indicada à categoria de revelação pelo Prêmio Multishow. Dois anos depois, foi a vez de gravar o álbum Paula Lima, com o instantâneo sucesso Gafieira S/A, lançado pela Universal Music. Nesses dois álbuns compôs canções com Seu Jorge, Bernardo Vilhena e Ed Motta.

Em 2003 teve esses dois primeiros álbuns lançados na Europa e Japão, recebendo o É isso aí o título de Diva Paulista. Gravou com a banda japonesa Mondo Grosso, a música Life, obtendo reconhecimento internacional. Em dezembro de 2005 foi convidada para representar o Brasil na África do Sul, no principal evento musical do continente – o Kora Awards - que reúne personalidades musicais e políticas. O cd Sinceramente, lançado em 2006, pela Indie Records, terceiro de sua carreira, teve a primeira tiragem esgotada em menos de um mês. Conceituado por ela, na produção, além da própria, contou com outros dois produtores de primeira, Luís Paulo Serafim e Walmir Borges, este também diretor musical de sua banda. O repertório pesquisado e conduzido por Paula foi feito sob medida e conta com composições inéditas de alguns admiradores confessos como Seu Jorge, Ana Carolina, Zélia Duncan, Mart’nália, Arlindo Cruz, Leci Brandão, entre outros consagrados nomes da MPB.

O álbum também foi lançado no Japão e diante do sucesso, Paula foi capa da revista Latina, com 05 páginas sobre seu trabalho. O cd segue rumo à América Latina, iniciando sua entrada pelo México, Estados Unidos e Europa, com turnê agendada para o final de 2008 e início de 2009. Com Sinceramente a cantora recebeu duas indicações ao Prêmio Tim de Música, de 2007 e também foi indicada ao Prêmio Toddy como melhor Álbum de MPB. Recebeu ainda o prestigiado Troféu Raça Negra na categoria de melhor cantora.

Ainda no mesmo ano, deixou sua marca no Carnaval de Salvador: fez tremer e levou ao delírio o público presente no Camarote Oceania com seus 05 shows de puro balanço. Como mestre de cerimônia, convidou para participações especiais, três inusitados parceiros: Marcelo D2, Nasi do IRA! e Toni Garrido, mostrando assim um de seus pontos fortes: o livre trajeto e o respeito entre seus parceiros.

No final de 2007, recebeu o convite para evento internacional em Angola, Belas Divas, em homenagem às personalidades femininas que tiveram grande atuação no país. Acompanhada de sua banda, com sua marcante presença envolveu a todos, chegando a fazer um dueto com o presidente, que entoou isso é problema dela. Foi a única brasileira e estrangeira presente e também homenageada.

No percorrer de sua trajetória musical cantou ainda ao lado de outros grandes nomes da música brasileira, entre eles: Jorge Benjor, D. Ivone Lara, Milton Nascimento, Nando Reis, Luiz Melodia, Arlindo Cruz, Zélia Duncan, Zeca Pagodinho, Leci Brandão, Rita Lee entre outros. Para Jorge Benjor, ela é a sua Menina dos Olhos e para D. Ivone Lara, que se encantou também resumiu, O Samba Precisa Dela.

Com certeza outras histórias estão por vir da diva de voz, presença e originalidade ímpares, com muita brasilidade, balanço e swing únicos e é por toda a sua musicalidade que Paula Lima chega ao décimo sétimo lugar na seleta lista das grandes cantoras do Brasil.

 

17º Lugar: Paula Lima

As 30 Maiores Cantoras do Brasil de Todos os Tempos

Marcelo Teixeira

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

18º Maior Cantora do Brasil: Wanderléa


A musa dos anos 1960
Sendo uma das principais cantoras dos anos 1960, Wanderléa foi uma sensação à parte para homens de todas as idades e influenciou as mulheres de sua geração por ousar, abusar e inserir na cultura brasileira as famosas minissaias, que viraram febre e sensação de desrespeito pelo clã vanguardista. A cantora saiu de Minas Gerais para se tornar a mais importante cantora da Jovem Guarda. Já aos 10 anos ganhava concursos em rádios e lançou em 1962 o primeiro compacto. No ano seguinte sai o primeiro LP, Wanderléa, pela CBS. Na gravadora conhece Roberto e Erasmo Carlos, com quem passa a apresentar em 1965 o programa Jovem Guarda pela TV Record de São Paulo. Transmitido nas tarde de domingo, o programa teve uma das maiores audiências da época e lançou diversos artistas. Wanderléa e Celly Campelo foram as primeiras estrelas do rock brasileiro. Participou de filmes ao lado de Roberto Carlos e, depois de terminada a Jovem Guarda, continuou a carreira como cantora pop.

Pouca gente sabe, mas Wanderléa já gravou Gonzaguinha, Sueli Costa, Luiz Melodia, Joyce e não apenas a turma do iê-iê-iê. E isto se torna uma preconceito tão gigantesco contra a cantora marcada por uma geração, que chega a ser ridículo. Wanderléa é muito mais que o movimento que a consagrou. Grandes compositores e grandes músicas fizeram parte de sua vida e isso a torna uma das grandes cantoras do Brasil, chegando ao posto de 18º lugar. Ser marcada e reconhecida como uma cantora de um determinado tempo ou período é natural, mas ficar estacionada no tempo, jamais. E Wanderléa não parou no tempo, tanto que até hoje grava discos, DVDs e reúne em seu acervo musical a mais concreta e justa cultura brasileira. Atualmente se apresenta cantando seus maiores sucessos, como Pare o Casamento (versão de Luís Keller), Ternura (Rossini Pinto) e Prova de Fogo (Erasmo Carlos).

 

18º Lugar: Wanderléa

As 30 Maiores Cantoras do Brasil de Todos os Tempos

Marcelo Teixeira

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

O Melhor Álbum de Cássia Eller




Cássia Eller: única
Cássia era dotada de uma timidez desconcertante, quando conversava, e ao mesmo tempo, de uma rebeldia juvenil, quando subia aos palcos. Em suas apresentações, quase sempre se via gestos como coçar as partes íntimas, cuspir no chão ou mostrar os seios. Sua presença de palco era intensa e sua capacidade de se apropriar das músicas que cantava era indiscutível. Cássia compôs apenas três das muitas canções que interpretou. A artista cantava blues, rock, MPB e samba com a mesma maestria; sem criar diferenças ou barreiras entre um gênero musical e outro. Na verdade, em sua voz, tudo era simplesmente boa música. Não foi preciso mais que um disco para que a cantora Cássia Eller mostrasse personalidade e a sua reconhecida veia roqueira. Em sua estreia a cantora Cássia deixou clara a sua postura de intérprete e o disco foi puxado por sua regravação de Por Enquanto, da Legião Urbana, em uma época em que a banda ainda não era tão regravada.

Hoje o Mais Cultura! traz o melhor disco de Cássia Eller e de quebra um dos mais belos da MPB. Com a produção impecável de Nando Reis e Luiz Brasil, Cássia Eller grava em 1999 um disco que causa uma enxurrada de clássicos. Com um verdadeiro time de músicos e uma orquestra, Com Você...Meu Mundo Ficaria Completo, foi a concretização e o auge do sucesso da cantora no fim da década de 90. Como grande intérprete que sempre foi, Cássia traz no disco composições de diversos gêneros e de autoria de vários grandes nomes da música brasileira. O disco já começa com seu maior sucesso ao lado de Malandragem, Segundo Sol, que segundo a própria cantora, ela roubou de Nando Reis. A música é daquelas perfeitas para se tocar no violão e traz um belo arranjo de cordas.

A segunda faixa, Mapa do Meu Nada, é uma declaração amorosa de Carlinhos Brown e possui a participação especial de Jussara Silveira no disco. O final de Mapa do Meu Nada parece até uma ponte para Gatas Extraordinárias, de Caetano Veloso. O destaque da faixa são as flautas e, claro, a letra impecável do Caetano, que compôs a música especialmente para Cássia. Depois dessa dupla de canções de amor, aparece uma canção inversa, Um Branco, um Xis, um Zero, do trio Arnaldo Antunes, Marisa Monte e Pepeu Gomes. A canção tem uma forte influência do rock e a voz da Cássia sai, como de costume, extraordinária. A canção título do álbum, também composição de Nando Reis, tem o solo de guitarra do Walter Vilaça e uma letra muito bem construída, falando que perto do amor os problemas parecem pequenos.



Tenho que pegar

Tenho que pegar

Aquela criatura

Tenho que pegar

Tenho que pegar



Trecho de Gatas Extraordinárias, de Caetano Veloso





Seguindo, a sexta faixa traz mais um clássico, composição do baiano Moraes Moreira em parceria com a outra maravilhosa cantora Marisa Monte, Palavras Ao Vento, com Paulo Calasans tocando um órgão maravilhosamente bonito e Luiz Brasil e Rodrigo Garcia nos violões.  Mudando bruscamente o estilo, Cássia Eller mostra sua versatilidade interpretando Aprendiz de Feiticeiro, do gênio paulista Itamar Assumpção, oriundo da Vanguarda Paulista. Destaque para o acordeom e a percussão. Também com bastante percussão e acordeom, Cássia interpreta, absorvendo o estilo único do compositor baiano Gilberto Gil, Pedra Gigante, feita em parceria com Bené Fonteles. A nona faixa leva o nome da banda de apoio de seu compositor. Infernal, de Nando Reis, tem uma fortíssima influência de funk, expressada por Paulo Calasans em seu clavinete, que é completado pelos sopros. Maluca, de Luiz Capucho, é um samba muito bonito, praticamente montado pelo violão, o arranjo de cordas e a letra falando sobre o amor de uma mulher por flores.

Chegando ao final, temos mais uma do Nando Reis, As Coisas Tão Mais Lindas, muito bem interpretada pela Cássia e por último Esse Filme Eu Já Vi, de Luiz Melodia e Piau, com grande influência de jazz. Cássia Eller imprimiu seu nome na música com uma voz marcante, uma irreverência admirável, uma gargalhada despojada e muita simplicidade. Sem sombras de resquícios, Com Você...Meu Mundo Ficaria Completo é o melhor álbum da carreira brilhante, porém curta, de uma das maiores vozes que este Brasil pôde conhecer: Cássia Eller. Ela gostava de cantar e conseguiu agradar público e crítica. Não há como preencher o espaço vazio que deixou, mas há como lembrá-la sempre e não permitir que ela entre para o grupo dos grandes artistas que caíram no esquecimento popular.



Com Você... Meu Mundo Ficaria Completo / Cássia Eller

Nota 10

Marcelo Teixeira

quinta-feira, 28 de junho de 2012

17º lugar: Márcia Castro - As 20 Melhores Cantoras dos Últimos 10 Anos




Márcia Castro e a harmonia baiana
A cantora baiana Marcia Castro tem 33 anos, está radicada em São Paulo desde 2008 e já havia mostrado talento no seu primeiro, homônimo e independente álbum, em 2007. Mas, apesar dos acertos, tanto que rendeu uma indicação ao Prêmio TIM 2008 de melhor cantora de pop rock, Pecadinho era um irregular cartão de apresentação tanto na produção, quanto no repertório. A estrada, porém, quase sempre faz bem a quem tem talento, como é o caso da cantora – e ela cresceu, ganhou experiências em palcos do Brasil, Suíça, Alemanha, Itália e Israel. Teve o privilégio, por exemplo, de acompanhar a lenda argentina Mercedes Sosa (1935-2009) em sua última turnê, e realizou gravações e/ou colaborações com veteranos da MPB como Tom Zé, Moraes Moreira, Luiz Melodia e Jards Macalé.

Com patrocínio da Natura, o novo álbum De pés no chão (Deck) traduz o crescimento de Marcia Castro em todos os aspectos. Faltam compositores mais contemporâneos no disco, com exceção de Otto (a provocante História de fogo), Kleber Albuquerque (Logradouro) e Luciano Salvador Bahia (Vergonha), mas o conjunto das 11 canções é muito bom. E a produção dá unidade a tudo, com arranjos bem criativos e que valorizam a intérprete.

No repertório – a maioria, regravação de grandes nomes da MPB -, destaque para De pés no chão (Rita Lee, do álbum Atrás do porto tem uma cidade, de 1974), Você gosta (Tom Zé), Catedral do inferno (Cartola e Hermínio Bello de Carvalho), Crazy pop rock (Gilberto Gil e Jorge Mautner) e 29 Beijos (Moraes Moreira e Galvão), que Marcia canta na companhia de Hélio Flanders, vocalista do Vanguart.

De pés no chão é um álbum extrovertido, mais divertido do que o anterior, incluindo as ironias e dubiedades que tanto agradam à cantora, como na espirituosa letra de Rita Lee que dá título ao trabalho: É só questão de gosto/ Lacinhos cor-de-rosa ficam bem/ Num sapatão/ Eu nasci descalça/ Pra que tanta pergunta?.

Mesmo uma escolha aparentemente pouco original do repertório como Preta pretinha (Moraes Moreira e Galvão), por ser tão conhecida, vira outra canção na versão cheia de personalidade e vibração rítmica de Marcia, com arranjo que acrescenta toques de samba de roda e música latina. Letieres Leite, da Orkestra Rumpilezz, assina o arranjo de sopros da música.

Sim, Marcia Castro está pronta para brilhar e é por este motivo que ela está na nona posição na lista de As 20 Melhores Cantoras dos Últimos 10 Anos do Mais Cultura!.



Décimo sétimo lugar: Marcia Castro

As 20 Melhores Cantoras dos Últimos 10 Anos



Marcelo Teixeira