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quinta-feira, 28 de março de 2013

A musicalidade de Gero Camilo


Retrato de Gero
Sou fã confesso do trabalho do ator, diretor, escritor e cantor Gero Camilo. Quem ouve Vai Desabar tem vontade de sair pulando e cantando junto o refrão que tem tino para obedecer a regra de que toda música boa lava a alma: (...) desabar água/Pra lavar o que tem que limpar/pra lavar o que tem/vai desabar água/e é pro nosso bem. A última canção do primeiro álbum que Gero Camilo lançou, fisga de primeira e dá a impressão de que já virou hit. O debut no meio musical do reconhecido ator dilapida inspiração em mensagens que falam sobre o amor, a modernidade, a arte e a cidade. E ainda agrega ótimas parcerias, como Ceumar, Celso Sim, Tata Fernandes, Simone Sou e Lirinha, entre muitos outros.

O álbum Canções de Invento é obra de uma fábula que começou a ser construída há pelo menos nove anos, quando Gero lançou o livro de contos e peças curtas Macaúba da Terra em 2002, escrito durante o curso da Escola de Arte Dramática, da Universidade de São Paulo, que frequentou entre 1994 e 1998. Do livro surgiu a ideia de montar um espetáculo dois anos depois, que batizou de Canto de Cozinha e contou com a participação dos músicos e amigos Ceumar, Kléber Albuquerque, Rubi e Tata Fernandes. Ali já experimentavam muitas das canções hoje contempladas nesse primeiro registro musical do ator, que vai do rock ao samba e tem também letras de companheiros de EAD, como Marat Descartes e Gustavo Machado. A confluência de gêneros é um grande alimento para o artista contemporâneo, que em vez de tentar se enquadrar, pode ampliar o seu espaço de atuação e afinar o seu discurso poético.

Vale a pena conferir esta faceta cantor de Gero Camilo.

 

Canções de Invento – Gero Camilo

Nota 10

Marcelo Teixeira

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

A poesia de Ceumar em Achou!, de 2006


Obra-prima de Ceumar
O terceiro CD de Ceumar é assinado em dupla com o compositor, violonista e arranjador Dante Ozzetti, irmão da maravilhosa cantora Ná Ozzetti. A cantora apresenta o repertório recente de Dante em parcerias com Zeca Baleiro, Zélia Duncan, Luiz Tatit, Alzira Espíndola, Chico César e Kleber Albuquerque. Achou!, lançado pela MCD, traz doze delícias, em sua maioria inédita. Tem mais país muito além da TV, diz um trecho do verso de Pra lá e é uma chave pra se perceber o sucesso de uma cantora mineira radicada em São Paulo há mais de quatro anos. Com sua voz particular e arranjos acústicos de primeira, Ceumar conquistou uma grande legião de fãs quase que apenas no boca a boca. Seus discos são sempre bem comentados na imprensa escrita, mas o repertório da cantora não costuma frequentar rádios e nem programas de TV. Nos palcos da vida, com parcerias interessantes, ela foi aos poucos formando seu público, fiel e apaixonado.

Dante Ozzetti tem uma longa estrada, chegando a ganhar o Prêmio Visa - Edição Compositores em 2000, o que lhe rendeu um único CD solo no ano seguinte. Seu nome é normalmente associado a da irmã Ná Ozzetti, para quem costuma fazer arranjos e produzir seus discos em uma parceria de ótimos resultados. O encontro com Ceumar aconteceu em 2005, quando Dante convidou a cantora para uma participação em seu show. Daí seguiram juntos para o Festival da Cultura defendendo a elogiada Achou!, faixa título desse CD. A química da dupla empurrou os dois para esse trabalho, gravado em apenas duas semanas de estúdio para manter o clima de ao vivo e não perder a emoção.

Oito das doze músicas foram compostas entre janeiro e fevereiro de 2006, mostrando a produção mais recente de Dante. Apenas Achou!, A tardinha, Visões e Parte B já estavam prontas antes. As composições de Dante têm uma sofisticação simples, que casa perfeitamente com o trabalho de Ceumar. Construído com mãos de escultor, os arranjos acústicos valorizam belas melodias e letras inteligentes. A grande maioria das músicas foi escrita com Luiz Tatit. Mas Dante também traz parcerias com Zeca Baleiro (Partidão), Zélia Duncan (Parei querer), Alzira Espíndola (Parte B), Chico César (Saia azul) e Kleber Albuquerque (Lenha na quentura). Destaques para as belas Alguém Total, Alto Mar, A Tardinha e a quase biográfica Saia Azul, cujo Ceumar recria com perfeição sua saída de Minas sem destino final. Música forte, mas de uma lindeza profundamente bela.

 

Quando eu vim de Minas

Comprei uma saia azul

Azul-Diamantina tipo furta-cor

Dessas a outra e outra igual

Dessas que combinam com blusa de flor

 

Beijei meu pai

Dei benção a mãe

Olhei pra trás, vi

Minas dando adeus

 

Trecho de Saia Azul, de Dante Ozzetti e Chico César

 

 

Paralelo ao lançamento de Achou! a gravadora MCD repõe nas lojas os dois primeiros trabalhos de Ceumar, os essenciais Dindinha (2000) e Sempreviva! (2002). Eu particularmente sou apaixonado por Ceumar e ela sempre terá seu espaço aqui no Mais Cultura!. Recentemente, a maravilhosa cantora Márcia Tauil, que está na estrada com o sensacional Elas Cantam Menescal, foi levar seu abraço à amiga e me veio uma sugestão: por que as duas ótimas cantoras não abraçam a causa e fazem um disco juntas? Assim como Márcia, que é mineira de Guaxupé, Ceumar é mineira de Itanhandu. Já disse isso à Márcia e a proposta está lançada, pois seria uma ótima parceria de vozes, violões, musicalidade e perfeita harmonia, ressaltando a elegância de ambas as cantoras.

Há muita teatralidade na música de Ceumar e isso é tão gostoso de ouvir, que as faixas entram em nossos poros e tentam se esconder em nossa mente. Ao ouvir o CD de Ceumar e Dante Ozzetti é impossível não achar que se deparou com o melhor disco dos últimos tempos da nossa contemporânea MPB que vive cheia de grandes nomes e pouca criatividade. Num disco simples e de um colorido ímpar que podemos apreciar logo pela capa intitulado simplesmente Achou! é de um lirismo e de uma pureza que evoca os cantinhos mais esquecidos de nosso belo país cheio de uma sonoridade que um dia Mário de Andrade quis tornar pública.

Achou! respira novidade e exala o talento dos artistas. A prova de que a arte não está nas grandes mídias é claramente sentida nas doze faixas do álbum. Inteligência e talento em um grande disco que, se não figura na lista dos mais vendidos, com certeza vai conquistando novos admiradores para a dupla. Quem tem ouvidos abertos para o novo, achou um oásis.

 

Faixas

1 – Prá Lá

2 – Partidão

3 – Achou!

4 – Alguém Total

5 – Alto Mar

6 – Parei Querer

7 – Parte B

8 – Saia Azul

9 – Visões

10 – A Tardinha

11 – Praga

12 – Lenha na Quentura

 

Achou! / Ceumar e Dante Ozzetti

Nota 10

Marcelo Teixeira

quinta-feira, 28 de junho de 2012

17º lugar: Márcia Castro - As 20 Melhores Cantoras dos Últimos 10 Anos




Márcia Castro e a harmonia baiana
A cantora baiana Marcia Castro tem 33 anos, está radicada em São Paulo desde 2008 e já havia mostrado talento no seu primeiro, homônimo e independente álbum, em 2007. Mas, apesar dos acertos, tanto que rendeu uma indicação ao Prêmio TIM 2008 de melhor cantora de pop rock, Pecadinho era um irregular cartão de apresentação tanto na produção, quanto no repertório. A estrada, porém, quase sempre faz bem a quem tem talento, como é o caso da cantora – e ela cresceu, ganhou experiências em palcos do Brasil, Suíça, Alemanha, Itália e Israel. Teve o privilégio, por exemplo, de acompanhar a lenda argentina Mercedes Sosa (1935-2009) em sua última turnê, e realizou gravações e/ou colaborações com veteranos da MPB como Tom Zé, Moraes Moreira, Luiz Melodia e Jards Macalé.

Com patrocínio da Natura, o novo álbum De pés no chão (Deck) traduz o crescimento de Marcia Castro em todos os aspectos. Faltam compositores mais contemporâneos no disco, com exceção de Otto (a provocante História de fogo), Kleber Albuquerque (Logradouro) e Luciano Salvador Bahia (Vergonha), mas o conjunto das 11 canções é muito bom. E a produção dá unidade a tudo, com arranjos bem criativos e que valorizam a intérprete.

No repertório – a maioria, regravação de grandes nomes da MPB -, destaque para De pés no chão (Rita Lee, do álbum Atrás do porto tem uma cidade, de 1974), Você gosta (Tom Zé), Catedral do inferno (Cartola e Hermínio Bello de Carvalho), Crazy pop rock (Gilberto Gil e Jorge Mautner) e 29 Beijos (Moraes Moreira e Galvão), que Marcia canta na companhia de Hélio Flanders, vocalista do Vanguart.

De pés no chão é um álbum extrovertido, mais divertido do que o anterior, incluindo as ironias e dubiedades que tanto agradam à cantora, como na espirituosa letra de Rita Lee que dá título ao trabalho: É só questão de gosto/ Lacinhos cor-de-rosa ficam bem/ Num sapatão/ Eu nasci descalça/ Pra que tanta pergunta?.

Mesmo uma escolha aparentemente pouco original do repertório como Preta pretinha (Moraes Moreira e Galvão), por ser tão conhecida, vira outra canção na versão cheia de personalidade e vibração rítmica de Marcia, com arranjo que acrescenta toques de samba de roda e música latina. Letieres Leite, da Orkestra Rumpilezz, assina o arranjo de sopros da música.

Sim, Marcia Castro está pronta para brilhar e é por este motivo que ela está na nona posição na lista de As 20 Melhores Cantoras dos Últimos 10 Anos do Mais Cultura!.



Décimo sétimo lugar: Marcia Castro

As 20 Melhores Cantoras dos Últimos 10 Anos



Marcelo Teixeira