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sexta-feira, 7 de abril de 2017

O fantástico mundo de Luisa Maita


O fantástico mundo de Luisa
Não é todo dia que podemos ter a honra de ouvir uma cantora como Luisa Maita nas plataformas digitais, mas posso garantir que quem compra seus CDs ou assiste aos seus shows, reconhece sua importância dentro da música popular brasileira. Simplesmente, Luiza é uma cantora diferenciada, culta, refinada, intelectualmente cult e popularmente do povão. Se a massa encefálica ainda não descobriu Luisa Maita, então tem alguma coisa estranha nesse nicho: ela está aqui, bem no meio do povo, cercada por equipamentos refinados, mas com letras que simbolizam a tenra estrutura que pertencem à população. Se você não a ouviu, se você não a viu, se você não a conheceu ainda, peço para que corra e ouça Lero-Lero (2010) e seu mais novo lançamento, Fio da Memória (2016), que são obras-primas dignas dos melhores prêmios. Ela está ali bem diante de seus olhos, bem perto de seus ouvidos e ao alcance de suas mãos e se você perde essa oportunidade, infelizmente não há o que fazer. Seis exatos anos distanciam Lero-Lero de Fio da Memória e esse tempo foi primordial para que um fosse a extensão de complemento do outro, sem que ambos tivessem ligações diretas. Quando lançou o primeiro disco, a cantora era um dos nomes mais fortes do cenário musical, onde um pouco antes a cantora Céu despontava com sendo uma das melhores. Não há semelhança alguma entre ambas as cantoras e enquanto Céu seguiu uma linha mais vanguardista, Luisa optou por seguir uma linha mais atemporal, mas sofisticada, mais popular com requintes de intelectualidade. Não que Céu não tenha esses requisitos, mas enquanto uma seguiu uma linha mais popularesca dentro de um padrão não blindado, a outra seguiu por uma linha tênue entre a sofisticação e a beleza de uma pluralidade, que para entrar é preciso de senha. Se lá no início desse artigo eu disse que você precisava conhecer Luisa Maita e aqui digo que você precisa pegar uma senha, é porque não é qualquer um que vai escutar a rigor as músicas de Luisa com o mesmo afinco que escutam a música de Céu. Aqui entra a senha. Céu não é mais blindada, assim como não é mais Roberta Sá nem Mariana Aydar, enquanto que Luisa continua com uma blindagem que requer senha para entrar. Isso é bom porque a blindagem a cerca dos cunhões das paranerfálias musicais existentes. Mas é ruim porque Luisa pode viver em uma blindagem existencial por muito tempo. Lero-Lero é brasileiro, orgânico e com cheiro da zona sul de São Paulo: um cheiro cinzento, com mistura de barro e árvores secas. Fio da Memória é um disco que, a princípio, causa um estranhamento mórbido, secular, personificada e homeopática. É preciso ouvir de novo e de novo e de novo e quando você menos perceber, estará cansado de tanto que não ouviu ainda. Contraditório? Nenhum pouco. Faço referências à Lero-Lero porque para entrar no mundo maitense, você precisa ouvi-lo antes de entrar de cabeça em Fio da Memória. É como ler Platão sem entender Sócrates. Precisamos manter um pouco a blindagem de Luisa para que tenhamos certeza de que seu próximo disco será ainda mais categorial que Lero e Fio. Por enquanto, pegue uma senha enquanto não há filas exorbitantes de uma população insana e embarque no fantástico mundo de Luisa Maita.

 

Fio da Memória (2016) / Luisa Maita
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Gal é Estratosférica (2015)

Gal é Gal
Se Recanto  (2013) trouxe a sonoridade estranha, barulhenta e deliciosa de Caetano Veloso como forma de trazer à tona toda a magnitude e potência exuberante de Gal Costa, seu mais recente álbum vem com uma carga experimental acompanhada de jovialidade e bossa novista que deu certo. Estratosférica (2015 / Sony Music / 27,00) não remete a Recanto, assim como não remete a nenhum outro disco que Gal veio a lançar, mas em se tratando de ousadia, podemos dizer que Gal acertou em cheio ao fazer este belo álbum. A começar pela capa em que seus cabelos estão esvoaçantes e cada vez mais negros e seu sorriso demonstrando toda a sua felicidade (e sua marca registrada), o disco tem um regozijo que não se encontram em seus discos anteriores e nem lembra o ar pesado e político e sombrio de Recanto. O tropicalismo de Junio Barreto em Jabitacá faz com que Gal reinvente um jeito novo de soletrar as palavras e fazer desta canção uma linda história de cruzamento entre seu início de carreira e e seu tempo real. Sem Medo Nem Esperança (Antônio Cícero / Arthur Nogueira) remete perfeitamente ao mundo tropicalista, com suas instrumentações intimistas e cheia de parafernália que nos tende a crer que Gal não está de brincadeira e que no alto de seus mais de 70 anos, ainda pode nos mostrar coisas maravilhosas. O que Gal fez foi juntar uma boa galera atual e antiga para dar o ar da graça nesse disco. Assim como Ney Matogrosso fizera em seus discos desde o início dos anos 2000, Gal chamou os melhores artistas da atualidade para lhe darem canções novas e harmonias refinadas. O que se vê em Estratosférica é um disco bem acabado, muito bem cantado e muito bem produzido. Mas chama a minha atenção para que todos esses adjetivos acima soassem como algo que valem a pena uma reflexão. Todos os compositores que lhe entregaram as músicas parecem que a fizeram como se eles mesmos estivessem cantando. Explico: a música Estratosférica (Pupillo / Junio Barreto / Céu), está muito perto de do disco Caravana Sereia Bloom (2012), lançada por Céu. Assim como Quando Você Olha Pra Ela (Mallu Magalhães), sinto que mais parece ter saído do álbum Pitanga (2009), de Mallu. Se percebermos mais atentamente, Por Baixo (Tom Zé) é uma continuação de e Amor Se Acalme, de Arnaldo Antunes, Marisa Monte e Cezar Mendes, é uma continuação de Aquela, lançada por Marisa no CD Infinito Particular (2006). Ainda colhendo os bons frutos do disco anterior e tentando arriscar as guitarras elétricas, Caetano surge com seu filho Zeca na composição de Você me Deu, que soaria bem em Recanto. Thalma de Freitas se junta a João Donato para comporem a romântica e sensacional Ecstasy e Criolo aparece com Dez Anjos, juntamente com Milton Nascimento, sendo talvez a grande parceria inédita do disco, demonstrando toda a força dramática de ambos os compositores para narrarem suas histórias Espelho d’água (Marcelo Camello / Thiago Camello) é uma baladinha sentimental que nos lembra e muito o bom tempo de Los Hermanos. Ilusão à Toa fecha com chave de ouro o disco, fazendo com que Johnny Alf seja relembrado com muita saudade. Mesmo sendo uma faixa que não estava prevista no álbum (e sim encomendada para ser trilha de novela global), Gal conseguiu passar uma enorme emoção com essa canção de 1961. Estratosférica veio para ficar e ser o disco do ano, tendo em vista que muitos críticos de música assim o elegeram e eu mesmo sou suspeito para dizer o contrário. Gal conseguiu reunir um timaço de estrelas contemporâneas para darem o ar de suas graças no cenário da música popular e conseguiu, mais uma vez, ser a estrela maior da nossa música. Mesmo deixando Chico Buarque (que não anda tendo inspirações coerentes) e Gilberto Gil (que não compõe há um tempo algo inédito) de lado, o novo disco de Gal é resultado de um trabalho satisfatório, energizante, cristalino e doce. Cantando cada vez melhor, tendo uma subordinação total de sua voz, Gal consegue nos hipnotizar, chegando a fazer deste disco um tropicalismo sem igual, adentrando em nossas almas assim como em nossas bocas, peles, mentes e casas. E é por isso que Gal é Gal.
 

Gal é Estratosférica (2015)
Nota 9
Marcelo Teixeira

domingo, 7 de setembro de 2014

Zerima, o novo disco de Luiz Melodia


Zerima por Melodia
Sem sombra de dúvidas, Luiz Melodia lança seu melhor disco nos últimos anos. Embora Zerima esteja bem próximo do álbum Pérola Negra, Luiz Melodia prova que é um dos melhores cantores da música popular brasileira e toda essa semelhança passa desapercebido já na segunda audição embora o Pérola não tivesse tantos sambas quanto este. Mas teve essa variedade de ritmos. Em 1973, o cantor e compositor carioca marcava a estreia da carreira musical com o lançamento de Pérola Negra, sua marca registrada até hoje e imortalizada na voz de Gal Costa. Aclamado pela crítica à época, o disco é até hoje notado pelas composições bem ordenadas e pelo atrevimento do carioca ao se enveredar pelo samba, choro, rock, forró, soul e o blues em um único trabalho. Esta mistura virou uma marca do artista e volta a se repetir em Zerima (2014 / 26,99 / Som Livre), seu 14º álbum em mais de 40 anos de estrada, recém-lançado maravilhoso trabalho. No novo álbum, a excursão musical de Luiz Melodia faz escalas no samba, bossa, blues, jazz, reggae, funk, valsa, entre outros ritmos. Tudo isso em 14 faixas, sendo 11 autorais inéditas e três regravações. Entre estas, a composição Maracangalha, de Dorival Caymmi. A cantora Céu, assim como o filho de Melodia, Mahal, dão as caras em Zerima. Ela empresta a voz na canção Dor de Carnaval. O resultado é um belo dueto em forma de bossa nova. O convite de Céu, cantora que Melodia aprecia muito, aconteceu como forma de retribuição ao convite que ele recebeu para fazer uma ponta no disco Vagarosa, que a cantora lançou em 2009, onde os dois artistas ilustres fizeram uma parceria formidável.

 

Zerima / Luiz Melodia
Nota 10
Marcelo Teixeira

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

A beleza de Céu


O primeiro disco de Céu: ótimo
Que a música brasileira é cheia de grandes cantoras, belas vozes, elegantes, sensuais, e de muito bom gosto não é novidade. Mas quando uma nova cantora aparece com repertório novo, banda nova, cara nova, tudo novo, e de muito boa qualidade é sempre uma delícia. É o caso da cantora Céu, que apareceu com este disco homônimo de 2004, onde a mistura da tradição, violão, cavaquinho, pandeiro e percussão típica do samba, com a modernidade de scratches e loops eletrônicos convive com tamanha suavidade que mal se percebe a inusitada mistura. Em Lenda, Céu canta suavemente uma ameaça a príncipe encantado: num instante você vira sapo. É ela quem manda, e já avisa de saída. O choro Malemolência é executado com scratches acompanhando cavaquinho, e em Roda ela adverte de cara que caiu na roda ou acorda ou vai rodar... Lúcio Maia (da Nação Zumbi) é convidado para tocar guitarra nesta faixa. Rainha é minha música predileta, coincidentemente é a única que ela assina sozinha a composição. A música é levada por um baixo hipnótico que comanda o ritmo da seção percussiva e o naipe de metais. O refrão em forma de pergunta-resposta é um primor e na música toda, Céu contrapõe força e suavidade magistralmente.

10 Contados é um lamento acústico (na harmonia, porque o ritmo é recheado de loops eletrônicos) de saudade, bem-humorado e Céu faz voz e contracanto, ficou lindo! Segue Mais um Lamento, de saudade como o anterior, só que mais sóbrio. Neste mais um lamento entre tantos já feitos, Céu é mais mulher que a criança-adolescente do anterior. Concrete Jungle é um dos dois covers do disco, e ficou sensacional. Céu mais uma vez suaviza a Selva de Concreto e a ginga lenta do reggae fica mais suingada, mais abrasileirada aqui. Lúcio Maia, de novo, ajuda nas guitarras ao lado parceiro e produtor Beto Villares.

Véu da Noite é quase um jam session da banda já que o verso da música é mínimo. Uma concessão justa, já que a música ficou excelente, muito bem temperada na seção rítmica e com o balanço certo de guitarra, teclado e sopros. O chorinho Valsa pra Biu Roque vem em seguida, apresentando um formato mais tradicional só de voz, violão e bandolim. Ave Cruz é uma queixa, meu deus faça o favor de retornar o recado... o meu cabelo insiste em acordar despenteado. Até pra se queixar ela mantém o bom-humor. Essa aparentemente foi a música de rádio do disco, que apesar da roupagem eletrônica é um samba.

De João Bosco e Aldir Blanc vem O Ronco da Cuíca, que ficou excelente nesta roupagem moderna, mostrando que o caminho que seu som indica encaixa muito bem na tradição da MPB. O disco termina com o sambinha Bobagem e o delicioso Samba na Sola, um elogio ao povo brasileiro, antes de uma versão remix de Malemolência. A foto da capa ilustra o primeiro verso de Bobagem: minha beleza não é efêmera como o que eu vejo em bancas por aí... Só essa foto já vale o disco.

 

Céu / Céu

Nota 10

Marcelo Teixeira

quarta-feira, 25 de julho de 2012

João Bosco - 40 Anos Depois


João Bosco em sua plena forma
Se Elis Regina estivesse viva, na certa gravaria Papel Marchê, música composta por João Bosco e Aldir Blanc nos anos 90 e que foi a música mais executada e gravada por grandes nomes da MPB. Se João Bosco tivesse composto a canção nos anos 70, certamente Elis a gravaria e com estrondoso sucesso. Zizi Possi, que fora cogitada como a sucessora de Elis após sua morte precoce, gravou a canção lindamente, que não precisaria de retoques ou outra grande interprete para canta-la. Assim como Milton Nascimento, as músicas de João Bosco foram feitas para Elis, mesmo as compostas nos anos 90 e no início do século vinte e um. As músicas do disco Na Esquina remete ao disco Elis 1973, tamanha a bela conjuntura de jogos de palavras. Isso acontece com o disco Os Malabaristas do Sinal Vermelho (2003), em que algumas faixas nos dão a dimensão de que Elis está ali, captando o som, administrando as palavras, sentindo a letra da canção.

Se 40 minutos são uma eternidade, 40 horas são demoradas e podem-se produzir maravilhas, imagina o que se pode fazer em 40 anos! São tantos se, que João Bosco, completando 40 anos de sucesso e carreira, pode se dar ao luxo de dizer que fez muito pela música, pela MPB, pela cultura brasileira e por todos nós. Cantado por ilustres bambas da MPB, de Clementina de Jesus a Caetano Veloso, Ana Carolina, Céu, Maria Rita, Chico Buarque, Clara Nunes e Rebecca Matta, João Bosco é um ícone a ser respeitado no cenário musical de todos os tempos e seu legado é de extrema competência.

Aos 65 anos, o cantor e compositor de Ponte Nova, cidade da zona da mata mineira, retorna para onde tudo começou: a canção Agnus Sei, parceria dele com Aldir Blanc, lançada em 1972, num disco de bolso comercializado pelo jornal O Pasquim. Com forte influência da arte barroca mineira, o cantor dá nova roupagem à canção ao contar com a participação especial dos também mineiros Milton Nascimento e Toninho Horta. Faces sob o sol, os olhos na cruz / Os heróis do bem prosseguem na brisa da manhã / Vão levar ao reino dos minaretes / A paz na ponta dos arietes / A conversão para os infiéis.

Os tais mestres da tradição e de geração escolhidos por João Bosco são Tom Jobim, presente com Fotografia; o cubano Ernesto Grenet, com a charmosa Drume Negrita; Paulinho da Viola, com Tudo Se Transformou; Noel Rosa, na parceria com Vadico, Pra Que Mentir; e Milton Nascimento, com a parceria com Márcio Borges, Tarde (um dos símbolos do Clube da Esquina) e instrumental Julia (ironicamente o nome de sua filha, a também cantora Julia Bosco), que conta com a participação do amigo de longa data e pianista Cristóvão Bastos. Chico Buarque é o autor de Bom Tempo, a qual interpreta com João Bosco e que termina como se fosse um poderoso samba-enredo.

Chico Buarque faz outro dueto com João Bosco num dos maiores sucessos deste, O Mestre-Sala dos Mares, parceria com Aldir Blanc lançada no álbum Caça a Raposa, de 1975. Do mesmo trabalho, vem outras três parcerias com Blanc – a faixa-título, “Bodas de Prata, que conta com Toninho Horta e Cristóvão Bastos; e De Frente Pro Crime, com a cantora Roberta Sá e o instrumental Trio Madeira Brasil. Esse trio também está presente em Plataforma, outra composição de Blanc-Bosco, originalmente do álbum Tiro de Misericórdia, de 1977.

Da safra mais recente, aparecem Tanajura, do disco Não vou pro céu, mas já não vivo no chão, de 2009; Jimbo no Jazz, parceria com Nei Lopes, do mesmo trabalho; e a maravilhosa Eu Não Sei Seu Nome Inteiro, do disco Os Malabaristas do Sinal Vermelho composta com o filho Francisco Bosco e o eterno amigo João Donato, que participa tocando piano.

João Bosco é acompanhado de músicos que já estiveram com ele nas estradas da vida. São eles: Ricardo Silveira (guitarra), Nelson Faria (guitarra), Jorge Helder (baixo acústico), João Baptista (baixo elétrico), Armando Marçal (percussão) e Kiko Freitas (bateria). E, desse modo, o artista estabelece, mesmo que sem se valer das músicas mais conhecidas do grande público, um intenso diálogo com seu passado e com o futuro.



João Bosco – 40 Anos Depois

Nota 10

Marcelo Teixeira

terça-feira, 17 de julho de 2012

4º lugar: Céu - As 20 Melhores Cantoras dos Últimos 10 Anos




Céu na 4º colocação
A cantora Céu é, em minha opinião, uma das mais inovadoras e criativas da nova safra de cantoras brasileiras. A música de Céu transcende as barreiras, quebra paradigmas. Ela é moderna, tem um pé na MPB e ao mesmo tempo abusa dos recursos eletrônicos. Não é uma artista que simplesmente reproduz sambas antigos, ela recria, transforma. Também tem na sua musicalidade algo de África, o afro-beat e a música etíope e também de Jamaica, com forte presença do Dub. A cantora e compositora brasileira que vem conquistando mundo afora, está no cenário musical há 10 anos, com suas canções envolventes que mesclam MPB, bossa nova, afrobeat e jazz. Com 5 álbuns gravados, participação em trilhas sonoras de famosas novelas, a cantora ganha notoriedade por onde passa. Vencedora do Grammy de melhor disco de World Music em 2007, Céu já apresentou o seu mais novo trabalho, Caravana da Sereia Bloom, lançado em fevereiro. Lembrando que seu primeiro álbum CéU lançado em 2005, teve uma incrível repercussão internacional, vendendo 25 mil cópias na Holanda e na França e nos Estados Unidos chegando a 100 mil cópias. A crítica diz que seu último álbum demonstra maturidade, justamente porque a cantora viajou pelo mundo, conheceu outras culturas, presenciou cotidianos distintos, experimentou emoções contraditórias, e agora ela volta renovada e madura. É sabido que o Brasil já se rendeu ao seu carisma e espera por mais novidades dessa impressionante artista.

Suas raízes estão fincadas no Samba, mais precisamente na sola do pé, como diz a cantora. Com uma rara maturidade e elegância, Céu atinge um patamar importante na cultura brasileira com seu estilo musical eclético e muito rico sonoridade e experimentação. Por este motivo e por todas as suas qualidades artísticas, que Céu desponta na quarta colocação da lista das 20 Melhores Cantoras dos Últimos 10 Anos.



Quarto Lugar: Céu

As 20 Melhores Cantoras dos Últimos 10 Anos

Marcelo Teixeira

terça-feira, 22 de maio de 2012

A elegância de Juliana Kehl


O primeiro disco de Juliana
Fã de Gal Costa, Chico Buarque e Tom Jobim, Juliana Kehl é uma das cantoras e compositoras mais singelas, mais românticas e mais sensacionais que surgiram nos últimos tempos, estando sempre ao lado de novos talentos, como Tiê, Tulipa Ruiz e Céu.  Na voz, imagine uma mistura de Leila Pinheiro com Elis Regina. A música carrega os tons do samba e do eletrônico, a mistura de tintas, como ela mesma diz. E as letras levam a marca autoral que anuncia Juliana Kehl no hall das novas cantoras brasileiras em que vale a pena ficar de olho.

Por pouco, no entanto, a música perde esse talento. Quando adolescente, Juliana integrou o coral da Escola Rudolf Steiner, que a permitiu se apresentar em Nova York aos 17 anos. Contudo, a garota optou por direcionar a carreira para as artes plásticas, em que se graduou pela FAAP. Não tardou, enfim, para que a paulistana assumisse a veia musical. Anos depois musicou poemas da irmã, a psicanalista Maria Rita Kehl. O resultado é o álbum de estreia independente Juliana Kehl (2009 / Independente / 19,99), com 12 canções -- dez delas de sua autoria - recheadas de poesia e belas histórias.

Enigmas do meio artístico. Antes, um nome com pretensões de estrela teria de estourar até os 25 anos, a indústria não via com bons olhos os retardatários. Hoje, uma cantora como Juliana Kehl pode lançar seu primeiro disco aos 32 e ainda conseguir enxergar uma longa carreira pela frente. Para satisfazer a exigente aquariana, o novo álbum contou com 32 músicos diferentes. Desta maneira, Juliana deu o verniz necessário para que cada faixa fosse pintada com climas e texturas diferenciadas. O processo durou um ano. Das 12 canções, dez delas foram compostas por ela.

O disco chegou da fábrica no começo de 2009, mas quase um ano foi necessário para que fosse lançado. Convites de gravadoras como o da Som Livre brecaram o processo, mas Juliana decidiu lançá-lo de maneira independente. Até na arte do CD ela deu seu pitaco. A foto que estampa a capa é, propositalmente, uma forma de levar o imaginário aos anos 60. Elogiada pela imprensa e alçada a revelação da música nacional, seu disco teve a primeira tiragem de mil cópias rapidamente esgotada.

Juliana já nasceu musicada, envolta pela música, sua base disciplinar já estava estabelecida deste os tempos de coral, aonde chegou a se apresentar no Camegie Hall em Nova Iorque. Completa, a bela jovem formada em artes plásticas empresta às suas composições um pouco do universo artístico que a inspira… Além da música, também são notáveis as nuances da literatura e até da dança no caso da concepção do clipe de “Rede de Varanda” em seu primeiro trabalho autoral.

Delicada e forte, sua música parece romper os estigmas da crítica acostumada com a pastinha das cantoras brasileiras. Um trabalho rico em detalhes rítmicos confundindo a metrópole com o interior e o sul com o norte. Se perder, talvez seja essa a direção da música dessa jovem.

Para nos perder, ou para nos encontrar entre ritmos, sons e poesia.



Faixas

·       01. Rede de Varanda

·       02. Ele Não Sabe Sambar (Pedrarias, Prata e Pó)

·       03. Oiê

·       04. Viação Cometa

·       05. A Música Mais Bonita

·       06. Sinhô do Tempo

·       07. Outras Mulheres

·       08. A Ciranda e a Moça

·       09. Tá Perdido, Nego

·       10. Diadorim, o Sertão é do Lado de Dentro

·       11. Vinheta Carnação

·       12. Carruagem





Nota 10



Juliana Kehl / Juliana Kehl



Marcelo Teixeira

quinta-feira, 26 de abril de 2012

A persistência de Maurício Mattar na música


O neo-cantor Maurício Mattar: persistência
Quando uma carreira de um ator que fica famoso pelo seu talento meramente reconhecido pelo público, pela crítica e pelos colegas de profissão, tudo se resume em uma única e bela palavra: talento. A arte de representar um papel, a arte de dominar os palcos ou a cena de uma novela é para ser vivida pelos grandes nomes que a TV e o teatro já proporcionaram à muitos. Representar não é uma tarefa fácil e fazer isso requer muito estudo, muito aprendizado e muita dedicação. Mas quando um ator enfrenta os obstáculos que a vida lhe impõe e ele passa a usar destes dotes artísticos para se auto promover a outros dons, como cantar ou escrever uma telenovela, as coisas mudam de figura e requer um novo estudo sobre a personalidade, o dom e principalmente o talento.

Existe uma variedade de ator e atriz que viram cantores e vice versa. Para enumerar, temos Miguel Falabella, que é um excelente ator, dançarino, mas perde credibilidade ao escrever uma telenovela, aonde se perde totalmente do meio da trama para o final. Assim acontece com Daniel Boaventura, que tem um dom excepcional para a teledramaturgia, mas se perde totalmente no disco que lançou recentemente. O último desta seita satânica foi o humorista Rafael Côrtes, que é um excelente repórter, mas se perde na sua musicalidade e seu disco, também lançado recentemente, é um show de horror de bestialidades infames.

Disco de 2007: horripilante, mas ele insiste
Outras personalidades importantes da TV brasileira já se arriscaram a trocar de papel e arriscar sua voz (ou seria riscar a voz?) e garimpar pelo mercado fonográfico sem o maior êxito. Marília Gabriela e Hebe Camargo já lançaram discos tão cabisbaixos (embora Marília cante muito bem e atua estupendamente), tão insonsos, que fica a pergunta no ar: vale a pena arriscar uma carreira bem sucedida? Roberto Justus que o diga: grande empresário e apresentador, ele diz que gravou o disco por hobby, o que não deixa de ser uma verdade, tendo em vista que muitas lojas do segmento não vendem seus discos. Susana Vieira, a maravilhosa atriz, se envolveu recentemente numa batalha feroz com todos, desde mídia até público, para se defender de seu disco de estreia que, de tão ruim, virou artigo de piada pública.

Por enquanto, Roberto Justus, Susana Vieira, Marília Gabriela e Hebe Camargo lançaram discos para deleite próprios, talvez não pensando em lançar discos futuros, voltando toda as suas atenções para seus respectivos trabalhos, mas isso talvez não podemos esperar de Daniel Boaventura e Rafael Côrtes, tendo em vista que eles até cantam bem, mas lamentavelmente, seu estilos e vozes não agradam a ninguém.

Parafraseando e contrariando a todos estes artistas citados acima, talvez a única atriz que consiga desmistificar esse processo seja Thalma de Freitas: além de excelente atriz, ela também é cantora e o Mais Cultura! já se deleitou com seu belíssimo disco de estreia e, mesmo contendo apenas seis faixas, o disco é uma obra-prima consagrada, porém Thalma hoje em dia tenha dado preferências para vocalização em discos primordiais das cantoras Tiê, Mariana Aydar, Céu e Andrea Dias.

Persistir no erro talvez seja uma emenda que muitos não conseguem entender e por este motivo, Mauricio Mattar, grande ator do passado, mas esquecido pela própria emissora, é o campeão de futilidades. Gravou discos que não ganham prêmios algum, não tem relevância no mercado fonográfico e ninguém fica sabendo o que ele grava, mesmo um ou outro programa dar vazão ao seu novo trabalho.

Ouvi, através de sites, as músicas de Mauricio Mattar e pude constatar: além de ser um festival de horror, aquilo que ele canta são musiquinhas aquém de um grande ator. Ele poderia investir em qualquer outra carreira, menos a de cantor, que é um oficio para grandes interpretes da música popular. Mauricio Mattar não acrescenta em mais nada na cultura brasileira e suas músicas são horríveis, chatas, deprimentes e sua voz não agrada, não estimula e nem embevece nossa autoestima.

Ouvir Mauricio Mattar, literalmente, é de matar.



Marcelo Teixeira

terça-feira, 24 de abril de 2012

Efêmera, de Tulipa Ruiz: espetacular




A cantora Tulipa Ruiz
Tulipa é um gênero de plantas angiospermas (plantas com flores) da família das liláceas. Com cerca de cem espécies, as tulipas têm folhas que podem ser oblongas, ovais ou lanceoladas (em forma de lança). Do centro da folhagem surge uma haste ereta, com flor solitária formada por seis pétalas. Cores e formas são bem variadas. Existem muitas variedades cultivadas e milhares de híbridos em diversas cores, tons matizados, pontas picotadas, etc.

Efêmeras são aquelas transitórias, passageiras ou que duram pouco tempo. O antônimo de efêmera é duradouro, prolongado e distante e essa palavra, efêmera, também está relacionado com tempo delicado, feminino, afeminar.

Tulipa Ruiz é uma cantora e, diga-se de passagem, excelente compositora, uma das melhores que o Brasil já conheceu. Filha de Graziella Ruiz, escritora, Tulipa apareceu tardiamente no cenário musical, mas veio muito bem acompanhada por familiares e amigos muito próximos, cujo já estão na estrada há um tempo e com sucessos garantidos, caso de Tiê, Céu, Thalma de Freitas, Mariana Aydar e Anélis Assumpção, filha do maravilhoso compositor e cantor Itamar Assumpção, morto em 2003. Vale ressaltar que o pai de Anélis, Itamar, é responsável pelos maiores sucessos de Ná Ozzetti, Zélia Duncan e Virgínia Rosa. Seu pai, Luiz Chagas, é o responsável pela faixa mais longa do disco, porém, a mais bonita e dançante  e que nos leva a um som meio roqueiro, meio abusivo e muito estiloso, que recebeu o título de Às Vezes. Ao ouvirmos esta música, uma sensação de que a Jovem Guarda está presente é notório. Chagas também ganha vivacidade, além das composições, da sua potente guitarra, que dá uma sonoridade extra em algumas boas faixas.

Efêmera: singelo e maravilhoso
Efêmera (2010 / YB / 22,90) veio para comprovar a essência de Tulipa Ruiz, que anda fazendo um certo barulho com sua musicalidade simples e rica ao mesmo tempo, com um sabor de quero mais, um sentido maior de encantamento profundo e mistérios por parte desta cantora simplesmente maravilhosa. O disco é recheado por músicas belas, redondamente bem compostas, tendo um começo, meio e fim e por uma suavidade, um refinamento e uma pronúncia muito bem elaboradas por Tulipa. O disco não poderia receber outro nome senão Efêmera, que de passageiro não tem absolutamente nada.

Efêmera, que abre o disco, é a prova disso: deliciosamente harmoniosa, o timbre de Tulipa penetra em nossos poros, dando a dimensão de sua mensagem e deixando evidente que nada realmente é temporário. Pontual, que segue na segunda faixa, prontamente é uma crítica moralmente reconhecível, mas de uma forma contextuada, uma comédia romântica que trata da falta de pontualidade das pessoas até para ir ao cinema e perder a sessão das dez! Pedrinho é a mais divertida e sensual, desses tipos de Pedros que encontramos ao nosso lado sempre, que é amigo, companheiro, cúmplice e que pode ser nosso amante também.

Já na faixa Aqui tem uma particularidade: ao final da canção, tem uma citação a uma música de Caetano Veloso cantada no CD Livro (1997), chamada How Beautiful Could A Being Be, cujo não consta nos créditos. Só sei Dançar Com Você foi gravada primeiramente pela delicada Tiê no seu segundo disco de carreira, A Coruja e o Coração (2011), e a canção tem a participação vocal de Zé Pi. Exceto pela música Às Vezes, composta por Luiz Chagas, todas as outras faixas foram compostas por Tulipa Ruiz sozinha ou na companhia de Gustavo Ruiz, seu irmão. Tendo a tiracolo participações especiais, como Duani, marido de Mariana Aydar, Kassin, Tatá Aeroplano e Iara Rennó, o disco só poderia sair do forno com uma qualidade refinada, com um gosto de quero mais e com a nítida certeza de que Tulipa veio para ficar.

O disco de Tulipa é uma graciosidade: além de várias tulipas desenhadas por várias cantoras e amigas, como Ná Ozzetti, Tiê e pela própria Tulipa, ela foi considerada uma das 50 melhores cantoras da década e seu CD é classificado como Pop Florestal, um gênero criado como brincadeira pela cantora. Músicas de altíssima qualidade, com determinação e garra, com sentimentalismo aflorado à flor da pele e com muito chão pela frente de poder mostrar todo o seu carisma e seu talento, esperemos que Efêmera não seja temporário e que venha outros discos igualmente a este ou melhores que este.



 
Faixas

·       1 - Efêmera (Gustavo Ruiz / Tulipa Ruiz)

·       2 – Pontual (Tulipa Ruiz)

·       3 – Do Amor (Gustavo Ruiz / Tulipa Ruiz)

·       4 – Pedrinho (Tulipa Ruiz)

·       5 – A Ordem Das Árvores (Tulipa Ruiz)

·       6 – Sushi (Luiz Chagas / Tulipa Ruiz)

·       7 – Brocal Dourado (Gustavo Ruiz / Tulipa Ruiz)

·       8 – Aqui (Tulipa Ruiz)

·       9 – Às Vezes (Luiz Chagas)

·       10 – Da Menina (Tulipa Ruiz)

·       11 – Só Sei Dançar Com Você (Tulipa Ruiz)

ü  Part. Especial de Zé Pi



Nota 10

Efêmera / Tulipa Ruiz



Marcelo Teixeira