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quarta-feira, 20 de novembro de 2013

A música negra brasileira

Dia de festa ao povo negro
A cultura brasileira e, logicamente, a rica música que se faz e consome no país estruturam-se a partir de duas básicas matrizes africanas, provenientes das civilizações conguesa e iorubana. A primeira sustenta a espinha dorsal dessa música, que tem no samba sua face mais exposta. A segunda molda, principalmente, a música religiosa afro-brasileira e os estilos dela decorrentes. Entretanto, embora de africanidade tão expressiva, a música popular brasileira, hoje, ao contrário da afro-cubana, por exemplo, distancia-se cada vez mais dessas matrizes. E caminha para uma globalização tristemente enfraquecedora. A presença africana na música brasileira, pelo menos em referências expressas, vai se tornando cada vez mais rarefeita. Aparece, via Jamaica, no carnaval dos blocos afro baianos e nos sambas-enredo das escolas cariocas e paulistanas – especialmente nas homenagens a divindades. Mas nada de modo tão intenso como ocorre na música que se faz em Cuba e em outros países do Caribe. Mesmo com a explosão comercial da chamada salsa, a partir de Porto Rico e via Miami, na música afro-caribenha de hoje é raro um disco que não contenha pelo menos uma cantiga inspirada em temas da religiosidade africana e interpretada com fervor apaixonado. Tito Puente, Mongo Santamaría, Célia Cruz, Rubén Bladez e muitos outros são exemplos fortes, o mesmo não acontecendo no Brasil, pelo menos na música mais largamente consumida. No Brasil, o pagode, a partir da década de 1990, apesar da voga inicial de grupos cujos nomes, mas só os nomes, evocavam a ancestralidade africana (Raça Negra, Negritude Júnior, Suingue da Cor, Os Morenos etc.), entendemos que foi se transformando em um produto cada vez mais fútil e imediatista para se preocupar com etnicidade. E isto talvez por conta do conjunto de estratégias de desqualificação que ainda hoje sustentam as bases do racismo antinegro no Brasil. É esse racismo que, no nosso entender, vai cada vez mais separando coisas indissociáveis, como o samba e a macumba, a ginga e a mandinga, a música religiosa e a música profana, desafricanizando, enfim, a música popular brasileira. Ou africanizando-a só na aparência, ao sabor de modas globalizantes made in Jamaica ou Bronx.

 
Clementina de Jesus, cantora nascida em Valença, RJ, em 1901, e falecida no Rio, onde vivia desde menina, em 1987, foi uma grande presença de personalidade negra no Brasil. Descoberta para a vida artística já sexagenária, afirmou-se como uma espécie de elo perdido entre a ancestralidade musical africana e o samba urbano. Seu trabalho de maior expressão fez-se através da interpretação de jongos, lundus, sambas da tradição rural e cânticos rituais recriados, como o já Benguelê, de Pixinguinha. Logo depois do surgimento de Clementina, outra importante interseção entre a música popular brasileira e a religiosidade africana ocorre com os afro-sambas (Canto de Ossanha, Ponto do Caboclo Pedra Preta etc) lançados por Baden Powell e Vinícius de Moraes em 1966. E é o mesmo Vinícius que, agora em parceria com Toquinho, veio a lançar um Canto de Oxum, em 1971, e um Canto de Oxalufã, em 1972. Daí em diante, a vertente começa a se rarefazer, com raras incursões, como a do cantor e compositor Martinho da Vila, que, em um de seus discos do final dos anos 70, registrou uma seqüência de cantigas rituais da umbanda.

Clara Nunes nasceu em Minas Gerais no ano de 1942 e morreu no Rio de Janeiro no ano de 1983 e foi uma das maiores cantoras do Brasil, considerada uma das maiores influências do país na música negra. Pesquisadora damúsica popular brasileira, de seus ritmos e de seu folclore, Clara também viajou várias vezes para a África, representando o Brasil. Conhecedora das danças e das tradições afro-brasileiras, ela se converteu à umbanda. Também foi a primeira cantora brasileira a vender mais de 100 mil cópias, derrubando um tabu segundo o qual mulheres não vendiam discos. Clara e Clementina gravaram juntas um partido alto reverenciando a música negra, o lundu, os atabaques. E festejaram juntas este feito.

Desafricanização, como sabemos, é o processo por meio do qual se tira ou procura tirar de um tema ou de um indivíduo os conteúdos que o identificam como de origem africana. À época do escravismo, a principal estratégia dos dominadores nas Américas era fazer com que os cativos esquecessem o mais rapidamente sua condição de africanos e assumissem a de negros, marca de subalternidade. Isto para prevenir o banzo e o desejo de rebelião ou fuga, reações freqüentes, posto que antagônicas.O processo de desafricanização começava ainda no continente de origem, com conversões forçadas ao cristianismo, antes do embarque. Depois, vinha a adoção compulsória do nome cristão, seguido do sobrenome do dono o que representava, para o africano, verdadeira e trágica amputação. Então, vinham as distinções clássicas entre da costa e crioulo, entre boçal e ladino. Acreditamos que a música popular brasileira, de raízes tão acentuadamente africanas, seja vítima de um processo de desafricanização ainda em curso. Senão, vejamos. Quando a bossa-nova resolveu simplificar a complexa polirritmia do samba e restringir sua percussão ao estritamente necessário, não estaria embutido nesse gesto, tido apenas como estético, uma intenção desafricanizadora? E quando a indústria fonográfica procura modernizar os ritmos afro-nordestinos (de maracatu para mangue-beat, por exemplo), não estará querendo fazer deles menos boçais e mais ladinos, pela absorção de conteúdos do pop internacional? Pois esse pop milionário, sem pátria e sem identidade palpável (mesmo quando pretende ser étnico), é exatamente aquela parte da música dos negros americanos que a indústria do entretenimento desafricanizou. Por tudo isso e como sempre disse a grande dama negra da música popular brasileira, Elza Soares, a música preta pede passagem, que o dia da Consciência Negra é celebrado com maestria e com muita música por artistas negros de ontem e de hoje em eventos espalhados por todo o Brasil. De Negra Li a Elza Soares, passando por Jorge Ben e Fabiana Cozza, a música negra é rica em elementos sofisticados diferenciados do pagode do início da década de 1990 e menos conturbado, hoje, do que na época de início de carreira da dama Elza Soares. Viva a música negra brasileira, viva o povo negro, viva o povo brasileiro. Negro na sua maioria!

 

A Música Negra Brasileira
Marcelo Teixeira

terça-feira, 14 de maio de 2013

O Recanto de Gal Costa


A mansidão de um recanto escuro
O que poderia ser um disco de mesmices, transformou-se em um dos mais belos discos ao vivo da carreira de Gal Costa, que coleciona inúmeros álbuns neste formato, desde homenagens à Tom Jobim como gravando os maiores sucessos. Recanto, disco que saiu no finalzinho de 2011, foi um estranhamento a primeira audição, mas que foi entrando em nossos poros a cada música sentida. Se foi experimentalismo ou inovação, como eu enfatizei no texto, não importa mais. O disco Recanto é um primor e alça mais uma vez, graças às mãos de Caetano Veloso, que fez com que Gal Costa saísse do marasmo de canções ora tropicalientes, ora bossa novista e/ou canções regravadas. O acerto foi tamanho, que o publico mais jovem passaram a ver Gal Costa com mais brasilidade e ao mesmo tempo, passaram a ouvi-la com mais intensidade.

Recanto Gal Ao Vivo por si só já valeria as canções originais do original, pois são de um brilhantismo maravilhoso ouvir músicas como Miami Maculelê e Tudo Dói, mas a direção assinada por Caetano Veloso preferiu inserir canções que fizeram sucesso na voz de Gal em cada etapa de sua vida, fazendo, assim, uma nova roupagem para músicas como Folhetim, Modinha para Gabriela, Baby e Vapor Barato. Destaque para Barato Total, que ficou bacanérrima.

Exceto Folhetim (Chico Buarque), Barato Total (Gilberto Gil), Deus é o Amor (Jorge Bem), Vapor Barato (Jards Macalé / Waly Salomão), Um Dia de Domingo (Michael Sullivan / Paulo Massadas) e Modinha para Gabriela (Dorival Caymmi) o resto do repertório é de autoria de Caetano Veloso sozinho ou acompanhado, caso de Divino Maravilhoso, que foi feita em parceria com Gilberto Gil.

Geralmente, as grandes músicas, os grandes sucessos, quando vem embalada de novos sons, nova sonoridade e novo arranjo, tendem a mascarar as músicas que estão sendo trabalhadas ultimamente e aqui em Recanto Ao Vivo não é o que acontece. Grande sacada colocarem Baby (cantadíssima até hoje dentro e fora do país) e que foi acoplada com o mega sucesso dos anos 70, Diana, como música incidental.  Outra grande sacada foi não estender as canções antigas, talvez para não abafar e soterrar as novas; sendo assim, Modinha para Gabriela, Meu Bem Meu Mal e algumas outras do passado glorioso de Gal, tiveram tempos curtos no álbum ao vivo.

A homenagem à Tim Maia fica por conta de Um Dia de Domingo, cantada na primeira parte por Gal e na segunda por uma Gal imitando, engraçadamente, a voz de Tim Maia. O público vai à loucura e ri e canta e aplaude, tudo isso num misto de encantamento.

Gal está leve no show e isso fez com que o CD saísse praticamente perfeito. Sua dramaticidade, suas emoções, sua voz, sua música, tudo se encaixou perfeitamente no recanto escuro que se tornou o Teathro Net Rio.

Em comum, Recanto traz o desejo de transgredir, de ir além, e mostra as várias Gals que pontuam uma carreira prestes a completar meio século de estrada. Além da voz límpida e do repertório que mescla composições inéditas com clássicos da MPB, todos devidamente reembalados para o século 21, o êxito do novo álbum também deve muito ao clima familiar dos bastidores e do visto em cena.

Por isso Recanto Gal Ao Vivo tem tudo para ser o melhor CD de 2013.

 

Recanto Ao Vivo – Gal Costa

Nota 10

Marcelo Teixeira

quarta-feira, 8 de maio de 2013

As releituras de Seu Jorge e Almaz vão muito além da música


Ótimo disco em releituras e vozes
A voz de Seu Jorge consente a ele cantar o que ambicionar. Do estrondo do trovão ao sussurro, passando por diversos matizes timbrísticos, tudo cabe na voz de Seu Jorge. Do mesmo modo, mimeografando o passado e imprimindo futuros, os músicos da Nação Zumbi aprofundam a pesquisa de uma brasilidade braseira. Aconteceu o projeto que estava há anos engavetado e que saiu no finalzinho de 2009. Seu Jorge e Almaz. Sem mais. Sem palavras. O melhor de Seu Jorge sem o poder das grandes canções comerciais e indo mais fundo, mais profundo, mais adentro de músicas mais elaboradas, mais sofisticadas, mais elitizadas, mas ainda assim sem perder o preceito de uma música comercial. Para o projeto Seu Jorge e Almaz (EMI / 2010 / 29,99), o cantor acoplou sua energia vocal à tonelada rítmica de dois componentes do grupo Nação Zumbi - Pupillo e Lucio Maia -, além do conhecimento em trilhas sonoras de Antonio Pinto. O resultado é um disco forte: com sonoridades mestiças, volteios agradáveis e surpresas. Boas.

Reciclando canções diversas - de Tim Maia a Rodney Temperton, passando por Jorge Ben e Dorival Caymmi -, o quarteto compôs um conjunto sonoro autoral: um som livre de fixações universais e misturados. A poética Juízo final, de Nelson Cavaquinho e Élcio Soares, sem perder o cavaquinho, ganhou uma moldura melódica atômica, biônica e eletron-sansônica irradiando a mensagem do amor que será eterno novamente.

Aqui, longe da destruição apocalíptica, o juízo final traz a esperança do sol que brilhará. A produção do grupo Almaz investe em uma tempestade de sons eletronicamente modificados para adensar o canto do desejo do sujeito à espera de mudança.

A performance vocal preguiçosa de Seu Jorge parece contrastar com o desejo do sujeito exposto. Porém, tal dicção pode ser lida como a tematização dos angonismos presentes na letra. Aliás, em Seu Jorge e Almaz o cantor investiu a mais não poder na sua dicção malandra, desleixada e, por isso, única. Em ritmo crônico, o sujeito da canção caminha rumor a além do horizonte, onde tropa de todos os baques existentes comporão com sons psicodélicos a luz do dia seguinte.

Recriar Baden Powell e Vinicius de Moraes com sofisticação, reconstruir Martinho da Vila com solidez, descaracterizar Dorival Caymmi com elegância e refazer Jorge Ben com sagaz complacência só poderia ser feito com a tenra desenvoltura de um cantor à altura de Seu Jorge, com sua voz de trovão e seu canto endiabrado.

Salve, Seu Jorge!

 

Seu Jorge e Almaz

Nota 10

Marcelo Teixeira

quarta-feira, 24 de abril de 2013

A briga das cantoras Maria Rita e Rita Maria perdura desde 2003


A afinadíssima Rita Maria
A briga começou em 2003 e até hoje rende uma fofoca ali ou acolá sobre o assunto: a cantora Maria Rita (não a filha de Elis) foi obrigada a trocar de nome para não ter complicações na carreira e, assim, passou a ser chamada de Rita Maria. Na estrada há quinze anos, a cantora agora chamada de Rita Maria descobriu ao longo de 2003 que ia ter de mudar de nome. Virou Rita Maria, para escapar da confusão com a outra Maria Rita, a filha de Elis Regina, a que agora todo mundo conhece e que lançou seu primeiro disco em 2003, fazendo enorme sucesso de público e crítica. Definindo-se cantora genérica num divertido texto em seu site (www.mariarita.mus.br), Rita Maria conta o auge a que chegou a confusão, quando um show seu coincidiu com o de Chico Pinheiro, no qual estreava Maria Rita Mariano: “As pessoas iam ao camarim chorando e me dizendo: 'Você é a cara da sua mãe, sua voz é igual à dela'. Caíram muitas fichas para mim.

Rita Maria é cantora e compositora paulistana, que desde o início de sua carreira desenvolve trabalho autoral e inédito. O primeiro registro dessa trajetória é o CD FORA DE ÓRBITA – gravação independente com distribuição da Tratore. Sua formação musical inclui aulas de canto lírico (com Elenis Guimarães na Escola Municipal de Música de São Paulo), canto popular com Beth Amin e Regina Machado, percussão corporal (com Fernando Barbosa – barbatuques), piano, improvisação vocal, arranjo vocal e regência coral.

Rita Maria também é professora de canto popular em escolas renomadas da capital paulista (Espaço Musical, Canto do Brasil e Intermezzo) e aluna do curso de licenciatura em música da Universidade de São Paulo. Atualmente prepara a gravação de seu segundo CD, com produção de Gilberto Assis.

Assim como Rita Ribeiro, que hoje assina Rita Benedditto ou a cantora Anna Luiza, que agora assina Anna Ratto, Rita Maria trocou o nome para não haver confusão futuramente. Já chegou ao ponto de Rita Maria estar sendo entrevistada e tocar ao fundo uma música de Maria Rita.

Zélia Duncan já fora Zélia Cristina, Gal Costa era Maria da Graça, Gonzaguinha já fora Luiz Gonzaga Junior, Jorge Ben Jor agora é Jorge Ben, Sandra Sá agora é Sandra de Sá, Joyce virou Joyce Moreno, Marisa Gata Mansa virou apenas Marisa, Baby Consuelo agora é Brasil. No caso de Rita Benedditto e Anna Luiza, as cantoras também eram confundidas aqui no Brasil e no exterior com outras cantoras com mesmo nome. Anna Luiza é uma outra cantora que canta ao lado de Luiz Felipe Gama e que tem uma voz cristalina e de difícil alcance e que não se parece com a Anna Luiza que agora virou Ratto. Já Rita Ribeiro é muito confundida em Portugal. Confuso? Um pouco, ainda mais quando não se conhece profundamente as cantoras.

Como toda grande estrela, Rita Maria deixou de ser Maria Rita, mas não perdeu sua verdadeira identidade.


Maria Rita vira Rita Maria porque Maria Rita é a filha de Elis Regina

Marcelo Teixeira