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segunda-feira, 11 de agosto de 2014

As sete vidas de Pitty


As vidas de Pitty
Por trás daquela aparência de menina má que a cantora Pitty carrega em seu semblante, há um menina muito boazinha, capaz de nos hipnotizar e nos encantar. A prova disso é que seus discos são sempre muito bem aceitos pelo público e crítica especializada e sempre há um gostinho de quero mais. Pitty é uma baiana roqueira e que sente muito orgulho de ser o que é e sem demagogias e isso é tudo muito mágico em sua carreira (brilhante, diga-se de passagem). Lançando seu mais novo CD, 7 Vidas (2014 / Deck Discos / 24,99), a cantora mostra o bom e velho rock ao seu jeito, sem se preocupar com rotulagens ou manifestos contra a sua música. Sendo seu quarto disco de estúdio, a cantora mostra aqui toda a sua versatilidade como grande cantora de rock e que ainda tem muito chão pela frente, diferentemente de outras que cismam em querer ser o que não é. A personalidade forte e marcante da cantora está retratada em todo o disco, inclusive na capa, que tem o tom branco e preto denominante. Pitty está mais interessada em estender o olhar de sua música, que estava mais focada no frescor dos anos 1990 para um rebuscamento de horizontes mais adulto, colocando em alvo o público mais centrado em realmente querer ouvir suas canções. Suas músicas flertam com o rock tradicional dos anos 1960, que gruda facilmente em nossas mentes e que se transformam em pérolas do mundo pop, com arranjos, formas e cabeçalhos para um conteúdo maravilhoso sobre o seu mundo. Com um olhar mais atento, Pitty acaba trazendo à tona todo o seu esforço conceitual que envolve um trabalho generoso e preciso, rebuscados de tons e que acabam por se isolar em possibilidades que só sua música consegue fazer: um punhado de 7 Vidas é a carta de registro da cantora, que se mostra atenta ao mundo de hoje, sem tirar os pés do chão. E é por esse motivo que a cantora brilha por onde passa, com sua timidez redondamente caetanizada e humana e que faz de seu trabalho um achado e tanto. Mas engana-se quem acha que Pitty é totalmente tímida: seu trabalho mostra o contrário e essa inversão faz toda a diferença. Que a cantora tenha muitas vidas!

 

7 Vidas / Pitty
Nota 8
Marcelo Teixeira

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Virada Cultural 2013 - Os Mais Cotados


Virada Cultural 2013
Chico Buarque, o mais cotado para comparecer como uma das atrações principais da Virada Cultural, já disse que não vai. Prestes a fechar a lista com o nome dos artistas que se apresentarão na Virada Cultural deste ano, o cantor Chico Buarque nega o pedido de se apresentar no evento. Por outro lado, o Catraca Livre me mandou uma lista exclusiva e mostra as presenças confirmadas de Gal Costa, Tulipa Ruiz e Pitty. 

Seu Jorge, Criolo e Marisa Monte foram alguns dos nomes mais citados na votação que o Catraca Livre conseguiu através de pesquisas. A ideia era saber qual artista os paulistanos gostariam de ver na edição 2013 da Virada Cultural. Com exclusividade, já é sabido que Chico Buarque não aceitou o convite. Estão confirmadas, porém, nomes como Pitty, Gal Costa e Tulipa Ruiz, como citei acima. A Secretaria de Cultura da cidade se compromete a avaliar as indicações feitas pelos leitores do Catraca Livre.

Vale lembrar que o resultado da votação será encaminhado aos organizadores do evento, mas pode ser que o artista não seja contratado para se apresentar no evento. A Secretaria não tem obrigação legal de contratar os primeiros colocados. Trata-se, portanto, de uma consulta para democratizar a escolha dos nomes.

Confira os dez principais destaques da programação

1. Charile Brown Jr 2.62%

2. Chico Buarque 2.6%

3. Teatro Mágico 2.23%

4. Seu Jorge 2.22%

5. Nando Reis 2.22%

6. Criolo 2.02%

7. Marisa Monte 1.95%

8. Caetano Veloso 1.92%

9. Lenine 1.87%

10. Planet Hemp 1.82%

 

Virada Cultural São Paulo

Marcelo Teixeira

sexta-feira, 12 de abril de 2013

A polêmica de Chico César em Odeio Rodeio




Chico: polêmica desde 2005
Chico César vem com a coragem e o bom humor suficientes para dizer - e gravar - Odeio Rodeio, uma música que parece simples, mas que carrega um peso enorme nas costas e que proporcionou a quase retirada de Chico das rádios do Brasil. A parceira de reclamação não poderia ser melhor e trouxe a tiracolo a segunda maior defensora dos animais, a cantora e compositora Rita Lee. Os dois gravaram Odeio Rodeio, música e letra de Chico e uma das duas faixas do CD Compacto e Simples, que tem também a canção Brega. Trata-se de uma inovação no formato do CD ou um revival dos antigos compactos de vinil - que continham 2 ou 4 músicas. É o quarto lançamento do selo de Chico, o Chita Discos.

Odeio Rodeio acabou se tornando um grito de guerra das entidades protetoras dos animais e o bordão dá nome à campanha lançada pela Associação Paulista de Auxílio aos Animais (Apaa), que tem até adesivos. Odeio Rodeio também estampa camisetas - uma delas usada pela cantora Pitty, que usou ostensivamente após o lançamento da canção.

 

Odeio rodeio e sinto um certo nojo

 Quando um sertanejo começa a tocar

 Eu sei que é preconceito, mas ninguém é perfeito

 Me deixem desabafar

(Trecho de Odeio Rodeio, de Chico César)

 

Rodeio e religião: se me perguntarem, digo que sou contra aquele e antipatizo com este. Mas só se me perguntarem. Tolero bem a existência destas duas expressões – a cultural e a divinação ao culto, ao ponto de buscar algo que as una em mim para que eu possa dar minha opinião. Sei que ninguém pediu, mas ideias ganham vida própria sem que digamos sim ou não.

Lá se vão quase sete anos do lançamento do desafio do cantor sertanejo Zezé di Camargo à roqueira Rita Lee para que esta provasse denúncias de maus tratos a animais durante os muitos rodeios realizados Brasil afora. Houve, por aquela época da composição, em parceria cantada com Chico César (hoje ocupando o cargo de secretário estadual de cultura da Paraíba), a proibição da canção ODEIO RODEIO, que viria enfurecer a ala pop de intérpretes de música caipira (gênero dominante em eventos country).

Polêmica velha e que se consumiu no deslinde do mau enfrentamento de ideias preconceituosas (Rita/Chico) versus defesa baseada em números (não levaram em conta o sofrimento dos animais) tais como a quantidade de empregos que os rodeios geram, retorno financeiro para as cidades que sediam grandes eventos, e que tais sertanejos usam e abusam. Reclamaram da música, reclamaram de Chico e Rita, houve muita discussão entre sertanistas com calças apertadas e cabelos arrepiados e nada pensaram sobre os animais.

Acompanhei a pantomima saboreando um bom contrafilé assado e dando razão à vegetariana Rita, mas sem dizer a ninguém minha opinião. Dizia apenas de si para si que o desnecessário e o ocre do rodeio poderiam ser testados com os peões sendo montados pelos bois e cavalos. Opinar contra isto ou aquilo, só se encostassem um punhal de prata em um dos meus olhos e dissessem: - Opine! Diga! E eu diria que sou contra rodeio, que vejo naquilo apenas crueldade e sadismo, nada mais.

 

A calça apertada, a loura suada, aquele poeirão

 A dupla cantando e um louco gritando “segura peão”

 Me tira a calma, me fere a alma, me corta o coração

 Se é luxo ou é lixo, quem sabe é bicho que sofre o esporão

(Trecho de Odeio Rodeio, de Chico César)

 

O fato é que este que vos escreve é homem comum como outro qualquer, e por ser comum tem hábitos considerados normais, anseios e ambições rastaqueras, desejos inimputáveis e sonhos tão recorrentes quanto ordinários. Ou seja, uma estrela no céu, uma gramínea no descampado, um automóvel em um congestionamento. Apenas mais um. Mais um entre tantos.

Assim sendo posso afirmar que, no mesmo instante que a música causa repulsa e estranheza, a mesma me atrai, me completa e me comove. Me atrai porque me faz observá-la (mesmo que longe); me completa porque ainda aposto que a canção poderia fazer parte de uma aventura minha e me comove pois sei que, para o indivíduo sertanejo, não é nada bom ler ou ouvir aquilo que lhe causa prazer, noutro provoca profundo, danoso e irreversível asco.

 

É bom pro mercado de disco e de gato, laranja e trator

 Mas quem corta a cana não pega na grana, não vê nem a cor

 Respeito Barretos, Franca, Rio Preto e todo o interior

 Mas não sou texano, a ninguém engano, não me engane, amor

(Trecho de Odeio Rodeio, de Chico César)

 

Todavia, não sou do tipo que faz comícios ou ergo bandeiras. Confio acreditando que as pessoas são livres para sentirem o justo, o grande e pequeno daquilo que realmente sentem, pública ou sofregamente. Só não encostem um punhal colorido em um dos meus olhos, dizendo: - Opine! Diga! Direi que sou contra o sertanejo sujo que se propaga em praça pública.

Creio piamente que ideais não devam ser impostos. Então, que os peões guardem seus punhais e deixem as pessoas refletirem a cerca de questões postas, nunca na ordenança falsa de formadores de opiniões charlatãs, que visam esconder a verdade e destroem o direito de um prazer existir naturalmente. Não acho possível que um boi pule daquele jeito só porque tem um peão em seu dorso, nem acho justo que uma parada evangélica seja realizada com dinheiro público (no único evento do interior paulista foi utilizado este expediente). Se me perguntarem, digo que sou contra. Aliás, sou contra a tudo o que seja manifestação pública: contra rodeios, contra sertanejos rotos e contra evangelizações fora do contexto.

E a polêmica Odeio Rodeio, que lançou pelo seu próprio selo e foi recusada em praticamente todos os canais de rádio e televisão para não ferir interesses econômicos óbvios e a suscetibilidade de alguns colegas, fez com que Chico César ficasse recluso por um tempo, lançando discos maravilhosos, mas que a mídia controladora não as permitiu divulga-las com exatidão. Uma pena.

 

Compacto e Simples / Chico César

Nota 10

Marcelo Teixeira