sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Johnny Alf Entre Amigos (2011)

Alf, um mestre brasileiro
Um pouco antes de morrer, vi Johnny Alf passar por mim no cruzamento das ruas Vieira de Carvalho e Aurora, no Centro Velho de São Paulo e fiquei com um misto de espanto com admiração e cutuquei meu amigo e disse: é o cara! Ele entrou em um bar com o que parecia ser seu irmão mais velho e o vi sumir. Um breve tempo depois veio a notícia de que Johnny Alf estava morto. E para tornar a minha angustia ainda maior, o cantor e compositor veio falecer um dia depois do meu aniversário, 04 de março do ano de 2010. Sendo um dos compositores mais prestigiados de todos os tempos, Johnny deixou sua marca dentro da MPB como sendo um cantor de enorme carisma e de uma sintonia fina entre seu piano e seu dom de compor o amor. A música de Johnny é como um antidoto que nos desperta para uma melodia sem fim de musicalidade brasileira que precisa urgentemente ser ouvida e esmiuçada por aqueles que ainda não entenderam que o Brasil foi feito por músicos de verdade. Johnny Alf era (e é!) um dos músicos mais respeitáveis deste mundo e seu ponto crucial foi batizado em discos que hoje tornaram-se raros, com epítetos de colecionador e mais valorizado fora que dentro de seu país de origem. Ao longo de sua carreira artística fez diversos amigos, verdadeiros,  cúmplices, reais e que lhe transportaram para mundos tão díspares e atemporais que é quase impossível não dizer que ele fora de fato o pai e mentor da Bossa Nova. Há profundidades em sua música. Há riqueza de detalhes em suas composições. E é tão bela quanto suas notas. Apesar do enredamento harmônico de imensa categoria, tudo soa como algo que não podia ser de outro modo, por isso apesar de tão elaborada, soa natural, mais natural do que nunca. Há amor na música de Alf, assim como há paixão, há brasilidade, há bossanovismo e há verdades. E, para ser sincero, gosto da verdade musical de Alf, gosto da brasilidade atemporal das cores musicais de Alf, gosto da beleza que ronda a atmosfera de Alf e gosto daquilo que invadia a alma do compositor como uma forma única de expressar seu lado discreto de mostrar seu lado poeta. Prova de tudo isso foi o lançamento da caixa  Johnny Alf Entre Amigos (2011 / 28,99), que reúne um verdadeiro arsenal artístico que dividiram os vocais com o grande cantor em algum momento de sua vida. Essa caixa é dividida em três CDs, que fazem uma justa homenagem a Alf, como forma de homenagear esse mestre, quase desconhecido do grande público mas com uma obra bastante significativa. Entre eles estão Leila Pinheiro, Joyce Moreno, Cida Moreira, Wanderléa, Alaíde Costa, Toquinho e Filó Machado. Um CD que precisa estar no pedestal reverenciando um dos artistas mais complexos, mais amorosos e mais humildes da música popular brasileira. Johnny Alf.
 
Johnny Alf Entre Amigos (2011)
Nota 10
Marcelo Teixeira

sábado, 24 de outubro de 2015

A hora e a vez de MC Gaspar


 
 
 
O Rap é um dos movimentos que mais traduz a periferia brasileira e em todos os lugares dos quatro cantos deste país. Através de seu grito de alerta, muitos periféricos e moradores de comunidades diversas se sentem protegidos com o estilo de música que cantam, com o estilo de vida de levam e com o orgulho que sentem ao dizerem que pertencem ao movimento. Mesmo sendo um estilo musical tido como marginalizado, criminalizado, música de preto e favelado, o Rap é um dos movimentos mais respeitados dentro da música popular brasileira, sendo um dos estilos mais próprios e organizados de todos os tempos. O pobre, negro e favelado que veem em suas letras como um mantra, se sentem protegidos com as rimas compassadas e com os trejeitos que seus líderes adornam quando cantam. As vestimentas são referências únicas, capazes de demonstrar que são diferenciados, únicos e detentores de uma marca musical que por mais que pareça segregada de outras, é um meio de defesa para dizerem que estão ali prontos para entoar uma rima em defesa do pobre, do negro, do favelado. Com críticas pesadas a diversos temas como a religião, a polícia e o mundo que os cerca, o cantor Gaspar lidera um dos grupos de Rap mais populares da zona sul de São Paulo, sendo considerado um dos ícones e precursores do movimento, com discos lançados à espreita de consagração e sendo um dos cantores do movimento mais respeitado de todos os tempos. Homenageando a África e a comunidade negra brasileira, o nome do grupo surgiu como proposta a simbolizar o Z de Zumbi dos Palmares, líder e ícone da resistência negra no Brasil. MC Gaspar é o líder absoluto desse grupo, que passou a ser visto com bons olhos por cantores do naipe de Zeca Baleiro, Céu e Emicida. Depois de 20 anos a frente do grupo que ajudou a fundar, o cantor MC Gaspar agora canta solo e lançou este ano o CD Rapsicordélico (2015 / 26,99), sendo um dos mais significativos e alternativos discos de Rap brasileiro. Há um grito de misericórdia neste CD, uma luta incessante pela democratização da música preta e uma sincronização entre Gaspar e os periféricos deste país. MC Gaspar é um arroubo de musicalidade, de personalidade, de esfinge atemporal que busca na cor escura o seu próprio grito alucinante: ele, branco, de olhos claros, se junta aos pretos para cantar pra eles e com eles. MC Gaspar é o cantor mais nobre de todos os tempos dentro do segmento musical do Rap, dando a cara a tapa para se consolidar entre os maiorais da música preta e periférica de um Brasil sem dono.

 

A hora e a vez de MC Gaspar
Por Marcelo Teixeira

                              

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

A decadência moral de Joelma


A moral do ostracismo
Já vinha batendo numa mesma tecla desde quando a banda Calypso surgiu no cenário musical brasileiro: uma cantora fajuta, uma banda insossa e umas músicas bregas que não remetia em nada e a ninguém. A banda Calypso fora um grande sucesso dentro do Brasil e no Nordeste brasileiro pelo simples fato de ser uma banda pobre e sem graça e ao mesmo tempo uma banda que tinha uma cantora loura rebolando sem parar num palco qualquer e desafinando a todo momento suas músicas esdruxulas e sem conteúdo. Sim, Joelma é aquilo que representa as massas cinzentas menos favorecidas de conhecimentos, aquela aberração que sempre intimida o novo, uma cantora de baixo teor que explora o sentimento alheio com seus sentimentalismos fracos e redundantes. Pretendo não me estender tanto nesse artigo, pois não tenho mais argumentos para dizer que a pior cantora do Brasil trata-se de Joelma (e não vou atribuir todo o desprestigio a sua banda, pois os músicos não fazem parte desta semente embrionária), uma cantora que tentou monopolizar seus seguidores com pensamentos femininos, choradeira no palco e, agora, agressões verbais para com seu ex marido. Quem provocou o ostracismo da banda Calyspo fora a própria Joelma que, com seu humor negro, faz seu público agredir fisicamente Chimbinha, músico de quem gosto e aprecio por ser como ele é: autêntico e excelente guitarrista. Se tem uma pessoa que deveria colocar a mão na consciência e perceber todo o mal que fez às pessoas que estão ao seu redor, essa pessoa é a própria Joelma, que não percebe que faz um mal tremendo tanto para a sociedade quanto para a humanidade. Mas vamos lá: desde o início da banda Calypso, a cantora Joelma vêm recebendo críticas pela sua postura fora e dentro dos holofotes. Joelma é uma mãe que não gosta da filha, tornou-se evangélica e passou a perseguir os gays, destruiu seu casamento e fez com que o público virasse as costas para seu ex marido. Oras, se isso são assuntos pessoais, por que não trata-los em casa? Joelma assina um documento fatal em sua carreira ao silenciar a boca de Chimbinha e dizer publicamente que a lua a traiu, numa alusão ao seu ex companheiro. Suas danças de saias curtas agora passam a ser de calças longas, cabelos comportados e maquilagem menos carregada, dando a entender que a banda está a um passo do desaparecimento total. Óbvio que serei atacado mais uma vez por fãs enlouquecidos e por pessoas que idolatram a artista (?), mas vamos pôr os pingos nos is aqui: Joelma está estragando não apenas sua carreira musical, como pondo em risco a música popular brasileira com seus insultos e gestos sentimentais e, para complicar, contra-atacando seu lado feminino ao tentar se igualar à outras mulheres. Isso é um erro fatal para ela, que faz questão de ser vítima num momento em que tinha que ser mulher de verdade. Sua música não irá ser merecedora de qualquer ato político, muito menos de atos contra a moralidade de traições. Vamos ao exemplos mais reais: quando Marieta Severo resolveu se separar de Chico Buarque por uma suposta traição, os dois se trancaram num quarto e resolveram suas pendências. Ao abrir a porta, estavam rompendo uma separação de trinta anos. Marieta calou-se. Chico compôs a bela música Renata Maria numa alusão a suposta traição. Ambos são amigos, pais de belas e talentosas filhas. A mídia calou-se. E hoje quase não se fala mais nisso, até mesmo porque Marieta colocou sua profissão de atriz em um patamar ainda maior e Chico usou seu lado musical como primazia máxima. Quem ganhou a batalha foram os fãs de ambos artistas. No caso de Joelma e Chimbinha quem perde é aquele que mais contribuiu com seus sucessos: o fã. E é o mesmo fã que agride, bate, verbaliza e ironiza o outro. Essa foi a lição deixada pela banda Calyspo em seu tempo de existência: que a traição, para ser bem civilizada, precisa do apoio de todos para ser consentida. E sua música? Por onde anda?

 

A decadência moral de Joelma
Por Marcelo Teixeira

 

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

O lado B de Erasmo Carlos


Erasmo é rei no lugar do verdadeiro rei
Erasmo Carlos é um dos cantores mais populares do Brasil e o compositor que mais sucessos deu a Roberto Carlos nesses anos de musicalidade dividida entre os dois e para com o público. Se fossemos levar ao pé da letra, Erasmo é muito mais rei que o próprio rei Roberto, porque Erasmo é um cantor popular, de extrema timidez e de profunda simpatia com seu público cativo. Podemos levar em consideração também o fato de Erasmo atrair os jovens de hoje em dia em seus shows, cantando músicas antigas e novas e podendo demonstrar o quão argiloso e competente és em seu ofício. Sim, Erasmo é um cantor por excelência, um mestre em dominar os palcos, um sábio professor da magia musical e um conhecedor sistêmico da alma feminina. Dominação total sobre tudo e sobre todos, Erasmo deu um show à parte no Rock in Rio 30 Anos (2015) com seu brilhantismo roqueiro e sua altura galopante. Quem o assistiu ali no palco e pela televisão, pôde constatar a consagração de um monstro sagrado da música popular brasileira chamado Erasmo Carlos, que fez o público delirar, dançar, pular, chorar, se emocionar e cantar suas músicas com emoção e sentimentos profundos. Erasmo lançou este ano um disco que chamou a atenção do grande público em geral pela descrição que o mesmo fez sobre seu novo trabalho: o seu lado menos conhecido musicalmente. O cantor pincelou músicas que foram musicadas e que quase ninguém deu valor ou músicas que ele engavetou por diversos motivos. Eis agora que o fã mais que fã do cantor e o jovem admirador de Erasmo poderá desfrutar de Meus Lados B (2015 / Coqueiro Verde / 26,99), um disco autoral que mostra a versatilidade do Tremendão em todas as suas esferas. A aversão maior agora é abrir mão de uma vasta coleção de clássicos e mirar em seu repertorio em resgatar músicas menos conhecidas. O disco é completo e vale a pena ouvir cada faixa como se fosse a última, porque tudo soa como novo na voz de Erasmo. O formato é sensacional e bem caprichado e com um resultado perfeito, fazendo com que cada canção seja complemento da anterior. Sendo um dos melhores momentos do cantor, vale muito a pena ter um disco como este em casa, pelo simples fato do reconhecimento de Erasmo com suas músicas que tiveram pouco ou nenhum sucesso em alguma parte de sua carreira musical. Há várias surpresas, como Paralelas (Belchior), que fora lançada por Vanusa, De Noite na Cama (Caetano Veloso), grande sucesso na voz de Marisa Monte, Queremos Saber (Gilberto Gil), que ficu mais conhecida com Cássia Eller e até Gonzaguinha (Nunca Pare de Sonhar), entre outras. Erasmo mantém sua juventude de alma roqueira e coração de grande músico. Sem estrelismos e sabendo de sua importância dentro da música nacional, cismo em dizer que o verdadeiro rei da MPB é ninguém menos que o próprio Erasmo Carlos.

 

Meus Lados B / Erasmo Carlos
Nota 10
Marcelo Teixeira

sábado, 3 de outubro de 2015

O desespero de Ângela Ro Ro


Desespero ou desesperada?
Não há como negar a existência de Ângela Ro Ro na música popular brasileira, assim como não há que negar seus escândalos e suas aventuras amorosas e suas amizades esdruxulas. Ângela é uma cantora de peso, com sucessos gravados e regravados por diversos nomes de categoria refinada e que merece destaque quando falamos de música de qualidade ou de cantoras que lutaram pela inclusão da mulher na seara dominada por homens. É bem verdade que seus escândalos amorosos com a cantora Zizi Possi tornaram sua vida pública ainda mais saborosa, fazendo com que sua música ficasse em segundo plano, impossibilitando a cantora de ser uma referência musical nos dias de hoje. Antes mesmo de escrever este artigo emergencial, saí às ruas (adoro fazer isso) para perguntar quem conhecia a cantora e dez entre oito pessoas jovens não sabiam de sua existência. Ângela está esquecida do grande público, não tem gravadora, não tem patrocinador, não tem plateia e não tem fãs, porque estes debandaram para a nova safra de cantoras ou migraram para outros nomes de pesos que preferem lançar discos cada vez mais autênticos, rebuscados e completos. Mas Ângela é daqueles tipos de cantoras que não levam desaforos para casa, não tolera a intolerância do outro, não usa o modernismo para se proclamar como a detentora do saber, não aceita modismos, não acata a rivalidade, mas quando entra na briga ela sabe que é pra ganhar. Recentemente a cantora se envolveu em mais uma polêmica, humilhando fãs, rebaixando funcionários do teatro, agredindo a quem estava lhe assistindo e, para piorar a situação, revidou aos insultos que estava sendo acometida. Ângela errou apenas em uma coisa neste episódio: denegrir a imagem do Ceará, um dos cartões postais mais belos do Nordeste e se auto afirmando ser uma cópia original carioca. Tudo bem que a cantora não precisa de público para ir aos seus shows, não precisa mais provar a ninguém que sabe fazer música de qualidade e não precisa mais estar entre as grandes cantoras para estar no auge de um sucesso, mas a mesma não consegue ficar longe de um holofote. Chega a ser vergonhoso senão pecaminoso seus versos filosóficos neste lamentável caso, em que a integridade moral de uma senhora de cabelos brancos deixa transpassar para todos aqueles que a estimam. Humilhar fãs não é caráter de nenhum artista, ainda mais quando este fã é jovem e que está dedilhando em poder conhecer sua carreira. Humilhar fãs não é caráter de um artista que trilhou um caminho de longa estrada para se chegar nesse ponto da vida e se ver desesperada com tal situação. Se em 2002 a cantora lançou um dos melhores discos do ano com o sensacional Acertei no Milênio e recentemente a cantora voltou às paradas de sucesso com Compasso, sendo muito executado nas rádios de todo o Brasil, a mesma Ângela que um dia cantou Amor, Meu Louco Amor e recusou de Cazuza a música Malandragem (cantada brilhantemente por Cássia Eller) se rende a histeria do desespero compassado com a tristeza de um abismo profundo.


O desespero de Ângela Ro Ro
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Sandra Duailibe canta Nonato Buzar: uma bela homenagem


Bela homenagem
Nonato Buzar morreu em fevereiro do ano passado e deixou uma legião de canções imortalizadas nas vozes de Elis Regina, Maysa, Jair Rodrigues, Nana Caymmi, João Nogueira, Alcione e tantas outras personalidades importantes da nossa música nacional. Pouco se fala no cantor e compositor maranhense hoje em dia e muito de sua obra acabou sendo esquecida. Nenhum cantor ou cantora se debruçou para dedicar um disco inteiramente ao cancioneiro de Nonato e a cantora Sandra Duailibe, conterrânea de Nonato, teve a brilhante ideia em fazer jus às músicas desse grande artista brasileiro. Sandra Duailibe canta Nonato Buzar (2015 / 24,99) é um disco sensacional, com uma qualidade incrível na seleção de músicas e com a voz cristalina da cantora, que canta mais e melhor neste belo disco. Quinto disco da carreira de Sandra, esse tem um diferencial: além de ser um disco em forma de homenagem, a cantora transpassa uma energia positiva tão animadora, que fica difícil não dizer que Nonato está tendo essa felicidade também no plano de cima. As músicas selecionadas aqui rechaçam a ideia da capacidade poética e magnifica de Nonato, que conseguia transmitir beleza e garra, sensualidade e sofisticação, harmonia e fina flor. Sandra é uma das damas da música popular brasileira e sua voz cristalina é uma rica e poderosa arma a favor de sua musicalidade. Precisamos ouvir Sandra Duailibe, precisamos conhecer seu talento, seu trabalho, sua forma de expressar a qualidade de sua música. Seu mais novo CD é a articulação viva e real de que a música popular tem qualidade, tem um propósito, uma significação e uma reza.

 

Sandra Duailibe canta Nonato Buzar / Sandra Duailibe
Nota 10
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Luiz Marques lança Noite Azul (2015): um dos melhores discos do ano


Luiz Marques e a excelência no cantar
A música tem seus horizontes, suas profundezas, seus mistérios, suas sutilezas, seus meandros e seus prazeres, portanto, podemos senti-la como num todo, com seus aspectos característicos, sua delicadeza e sua simplicidade. O som que vem de Minas Gerais é um som puro, angelical, sentimental, sincero e dentro deste canto soa uma das melhores e mais bem aguçadas vozes: Luiz Marques é um cantor moderno, autoral, perspicaz e autêntico. Sua música é como um mantra, que adentra em nossa alma e esquecemos do mundo real, patético e irrisório. Sua voz é de uma delicadeza ímpar, capaz de nos hipnotizar, nos catalisar e nos intimar para que possamos ouvir mais e mais e mais. Dificilmente um cantor consegue me arrebatar tanto como Luiz Marques. Lançando Noite Azul (Luma / 24,00 / 2015), o cantor prova que realmente é um dos raros cantores que conseguem ser digno de sua profissão: Luiz sabe o que faz e gosta do que faz. Sendo todas as composições de sua autoria, o cantor lança seu quinto álbum em um clima de muita expectativa e recheado de sabores mineiros. Sua sonoridade é tão preciosa, que não damos margem para que ela se acabe. O regionalismo se faz presente em algumas faixas (como em Meu Quintal), assim como o romantismo, que é a marca registrada do cantor, perpassa em canções como A Luz de Lyon, Mistério e Paixão e a sensacional Redemoinho. Posso dizer com propriedade de causa que Noite Azul é um dos melhores discos do ano e, de quebra, o melhor da carreira de Luiz Marques, que conseguiu segregar este dos outros álbuns lançados, tendo uma parcimônia nas melodias e sabendo usar as letras a favor de seu tempo. Há muita singeleza escondida em cada canção e que pode ser explorada quando ouvimos com delicadeza faixa a faixa do disco. E é justamente disso que o povo brasileiro precisa: de discos mais rebuscados, mais suaves, com mensagens que nos inspiram e nos direcionam a um lugar comum e isso Luiz Marques o faz com uma maestria incrível. Todas as músicas deste belo álbum se complementam e se alternam entre o intocável e o real. As músicas são orquestradas numa qualificação única entre a essência da sintonia com o elogio da eloquência divina. Há arroubos de saberes nas canções de Luiz Marques e essa expressão significativa está sublinhada aqui, entre o imperceptível e o sensível. As canções de Noite Azul são de uma primazia sem igual: aqui há um jogo de situações que nos faz pensar em lugares por onde gostaríamos de estar ou em amores que esquecemos lá atrás, num passado não tão distante assim. Pelo conjunto da obra e pelo excelente cantor que é, Noite Azul merece todos os ouvidos, todas as palmas e todos os méritos por ter lançado um disco tão caprichado, tão harmonioso e com uma qualidade sensacional. Nos dias de hoje, com tanta aberração musical, não há nada melhor do que ouvir um dos melhores CDs do ano de 2015, na voz imaculada de um dos maiores cantores do Brasil (que precisa ser (re)descoberto), Luiz Marques.

 

Noite Azul (2015) / Luiz Marques
Nota 10
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

A loucura de Lupicínio Rodrigues por Adriana Calcanhotto (2015)

 

A loucura de Lupicínio por Adriana
Antes de iniciar este artigo, gostaria de te perguntar: você conhece a obra de Lupicínio Rodrigues? Já ouviu falar no cantor? Conhece alguma música dele? Na certa, não. Pode ser que tenha ouvido falar sobre ele aqui ou ali, mas nunca se atentou em tentar decifrar quem fora Lupicínio Rodrigues. Poucos o fizeram e poucos conhecem seu trabalho. Talvez suas músicas mais famosas sejam Nunca (cantada magistralmente por Zizi Possi), Cadeira Vazia (imortalizada na voz e na teatralidade de Elis Regina) e Felicidade (cantada quase na forma poética pelo próprio Lupicínio). Essa é a grande chance de poder conhecer um pouco mais sobre a obra intimista deste que foi o pioneiro na arte de cantar as dores e as incertezas do coração.  Elza Soares e Gal Costa bem que tentaram, mas foi Adriana Calcanhotto quem acertou no ponto ao trazer em CD o melhor do repertório deste cantor e compositor gaúcho, que conseguiu ser um dos compositores boêmios de maior prestígio dentro da música popular brasileira. Mas o que muitos deveriam fazer assim que comprarem Loucura (2015 / Sony Music / 24,99) é correr para saber que as músicas aqui cantadas não pertencem ao mundo de amores perdidos e corações amargurados vividos por Adriana, mas sim, de amores loucos e doentios vividos ou imaginados por Lupicínio. Vamos deixar uma coisa bem explicada ao fã de primeira viagem: Loucura é um registro em que Adriana cede seu lado atriz para interpretar canções de outro compositor. Lupicínio nasceu em 1934 e morreu em 1974, mas quase ninguém hoje em dia se atenta em querer regravar suas músicas e dedicar um álbum inteiramente a ele é arriscar alto para perder muito, pois o mercado fonográfico requer uma demanda muito crescente, mas com pouca qualidade. O que se vê em Loucura é algo totalmente inverso: Adriana causa arrepios furtivos em momentos delicados com sua densa e atemporal interpretação para músicas como Felicidade (1947), Volta (1957), Vingança (1951) e Homenagem (1961). Se estivesse vivo, Lupicínio estaria completando 101 anos de vida e esta homenagem é a mais justa de todas, pois há envolvimento mutuo entre o homenageado e a cantora. E ninguém melhor que Adriana para dar-te um exemplo de ajudar o público a reconhecer o talento de Lupicínio: assim como o cantor, Adriana também é gaúcha. Loucura surge em um momento maravilhoso no cenário musical e dentro da carreira de Adriana, que destila um verdadeiro arsenal de emoções cantando as dores, as emoções e os sentimentos vazios de um homem chamado Lupicínio.


Loucura (2015) / Adriana Calcanhotto
Nota 10
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Zeca Baleiro revive Zé Ramalho em CD duvidoso


Um disco comum
2015 foi o ano das homenagens feitas de cantores da nova safra por cantores de outras gerações. Depois de Adriana Calcanhotto lançar álbum homenageando Lupicínio Rodrigues, agora é a vez de Zeca Baleiro dedicar uma justa adequação em forma de música para o cantor Zé Ramalho, que nunca recebera homenagens em discos completos. Não chega a ser o grande lançamento do ano, muito menos fará deste disco ser o melhor da carreira emblemática de Zeca, mas vale a pena ouvir as já manjadas canções do cantor paraibano cantadas aqui pelo cantor e compositor maranhense. Algumas regravações ficaram boas, casos de Chão de Giz e Eternas Ondas, mas outras, como o mega sucesso Avohai e Táxi Boy, ficaram suspensas no ar, com aquele clima de consternação musical. A capa do álbum é simples, negra e com a imagem de Zeca ao lado, mas a atmosfera do disco não atrai muito e, quando se trata em homenagens (ainda mais quando o homenageado está vivo!), o resultado deveria sair melhor que o esperado. Neste caso, esperamos muito de Zeca para pouco resultado, porque as canções cantadas por ele não soam com a mesma empatia e elegância que o dono das canções nos transpassam. Zeca uniu um repertório já manjado em que todas as letras são muito conhecidas do grande público, mas infelizmente não teve o preparo de fazer um grande disco. Mesmo assim, fica registrado um trabalho que merece respeito pelo fato de que todos os cantores reverenciam a obra e a pessoa de Zé Ramalho, mas ninguém ousou em dedicar um trabalho inteiro sobre ele. Em seu décimo quinto álbum, Zeca parece se equilibrar entre aquilo que quer lançar e aquilo que acha que vai dar certo, tanto que o cantor deixou de ser ponto forte nas composições que cria para dar ênfase total a composições de outros cantores (isso já vem ocorrendo com certa frequência na carreira do cantor). Meio rock pesado com som leve, misturado a guitarras, violão, banjo e acordeom, Chão de Giz (2015 / Som Livre / 24,99) é um disco que merece atenção mais pela ousadia que pela voz de quem o canta. Calma! Não estou aqui denegrindo a imagem de Zeca Baleiro, mas acontece que o disco é mediano, pouco convincente e muito comercial. O fã de Zeca poderá se assustar com o resultado, mas o fã de primeira viagem poderá adorar o resultado. No meu caso, que estou acostumado com o Zeca dos tempos de vacas secas de início de carreira, prefiro me contentar em acreditar que ele voltará a ser um dia tão musical quanto popularesco.
 

 
Chão de Giz (2015) / Zeca Baleiro
Nota 8
Marcelo Teixeira

domingo, 23 de agosto de 2015

1980 foi o ano de Rita Lee?

Rita é Lee
1980 foi o ano de Rita Lee, mesmo tendo como concorrente grandes cantoras da categoria de Maria Bethânia, Gal Costa, Alcione, Clara Nunes, Elis Regina. Detentora única do rock brasileiro, Rita Lee já demonstrava que seus discos seguintes seriam pautados dentro de um segmento voltado para a ironia fina de um humor rebuscado, colocando em prática toda a sua sagacidade espontânea que a consagrou como artista. Rita Lee lançou um disco longe de ser intelectualizado demais, correto demais ou puritano demais: esse é um dos melhores e mais preciosos discos de toda a carreira da já considerada Rainha do Rock Nacional. Desfilando um enxoval de sucessos, como Baila Comigo, Nem Luxo Nem Lixo, Caso Sério, o disco, que vem como título o nome e sobrenome da cantora, também é popularmente conhecido como Lança Perfume, música que abre o álbum. Cantando maravilhosamente bem, o álbum Rita Lee (1980 / Som Livre / 29,99) alçou a carreira da cantora para a Europa e a América do Norte, fazendo com que a cantora adentrasse definitivamente no showbizz como uma das compositoras mais influentes daquele ano. Mas é correto eu afirmar que o ano de 1980 fora realmente de Rita Lee? Óbvio que esse questionamento é errado em ser afirmado por qualquer crítico de música, mas vale lembrar que Rita lançou um disco que não continha apenas um ou outro sucesso, mas sim, todas as faixas foram cantadas e recantadas por todas as faixas etárias, sendo uma epopeia de musicalidade de boa categoria de uma expoente do rock. Se em 1978 Rita veio com Babilônia, disco que trouxe poucas melodias ditas ótimas, Rita Lee trouxe um desfiladeiro de eternas canções, que ainda hoje, mais de trinta anos depois de seu lançamento oficial, continuam na boca do povo com um ar de saudosismo. Aquele ano de 1980 estava revolto: Elis não tinha lançado um bom disco, Clara Nunes estava em festa com seu álbum, Gal Costa brilhava com sua voz cristalina, Maria Bethânia lotava os teatros nacionais, João Figueiredo era o Presidente do Brasil, Chico Buarque enlouquecia a todos com a Geni e o Zepelin, o cantor Raimundo Fagner conseguira se desligar do Ceará e ganhar o Brasil por inteiro e Rita Lee lançava o disco que revolucionaria seu mundo e o mundo de muita gente.  A turnê Lança Perfume lotou as casas de shows do Brasil e sua música ficara mais rica e mais autoral. Sendo assim, Rita passou a ser pertencente a um grupo em que a boa música pediria passagem e entraria definitivamente para o rol das grandes artistas nacionais. Todos os anos são os anos de Rita, mas 1980 foi o seu ano, com um disco sensacional e que não pode ficar fora da coleção de qualquer colecionador ou amante da MPB e do Rock Brasileiro. E é por esse motivo que Rita é Lee.
Rita Lee (1980) / Rita Lee
Nota 10
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Gal é Estratosférica (2015)

Gal é Gal
Se Recanto  (2013) trouxe a sonoridade estranha, barulhenta e deliciosa de Caetano Veloso como forma de trazer à tona toda a magnitude e potência exuberante de Gal Costa, seu mais recente álbum vem com uma carga experimental acompanhada de jovialidade e bossa novista que deu certo. Estratosférica (2015 / Sony Music / 27,00) não remete a Recanto, assim como não remete a nenhum outro disco que Gal veio a lançar, mas em se tratando de ousadia, podemos dizer que Gal acertou em cheio ao fazer este belo álbum. A começar pela capa em que seus cabelos estão esvoaçantes e cada vez mais negros e seu sorriso demonstrando toda a sua felicidade (e sua marca registrada), o disco tem um regozijo que não se encontram em seus discos anteriores e nem lembra o ar pesado e político e sombrio de Recanto. O tropicalismo de Junio Barreto em Jabitacá faz com que Gal reinvente um jeito novo de soletrar as palavras e fazer desta canção uma linda história de cruzamento entre seu início de carreira e e seu tempo real. Sem Medo Nem Esperança (Antônio Cícero / Arthur Nogueira) remete perfeitamente ao mundo tropicalista, com suas instrumentações intimistas e cheia de parafernália que nos tende a crer que Gal não está de brincadeira e que no alto de seus mais de 70 anos, ainda pode nos mostrar coisas maravilhosas. O que Gal fez foi juntar uma boa galera atual e antiga para dar o ar da graça nesse disco. Assim como Ney Matogrosso fizera em seus discos desde o início dos anos 2000, Gal chamou os melhores artistas da atualidade para lhe darem canções novas e harmonias refinadas. O que se vê em Estratosférica é um disco bem acabado, muito bem cantado e muito bem produzido. Mas chama a minha atenção para que todos esses adjetivos acima soassem como algo que valem a pena uma reflexão. Todos os compositores que lhe entregaram as músicas parecem que a fizeram como se eles mesmos estivessem cantando. Explico: a música Estratosférica (Pupillo / Junio Barreto / Céu), está muito perto de do disco Caravana Sereia Bloom (2012), lançada por Céu. Assim como Quando Você Olha Pra Ela (Mallu Magalhães), sinto que mais parece ter saído do álbum Pitanga (2009), de Mallu. Se percebermos mais atentamente, Por Baixo (Tom Zé) é uma continuação de Tô e Amor Se Acalme, de Arnaldo Antunes, Marisa Monte e Cezar Mendes, é uma continuação de Aquela, lançada por Marisa no CD Infinito Particular (2006). Ainda colhendo os bons frutos do disco anterior e tentando arriscar as guitarras elétricas, Caetano surge com seu filho Zeca na composição de Você me Deu, que soaria bem em Recanto. Thalma de Freitas se junta a João Donato para comporem a romântica e sensacional Ecstasy e Criolo aparece com Dez Anjos, juntamente com Milton Nascimento, sendo talvez a grande parceria inédita do disco, demonstrando toda a força dramática de ambos os compositores para narrarem suas histórias Espelho d’água (Marcelo Camello / Thiago Camello) é uma baladinha sentimental que nos lembra e muito o bom tempo de Los Hermanos. Ilusão à Toa fecha com chave de ouro o disco, fazendo com que Johnny Alf seja relembrado com muita saudade. Mesmo sendo uma faixa que não estava prevista no álbum (e sim encomendada para ser trilha de novela global), Gal conseguiu passar uma enorme emoção com essa canção de 1961. Estratosférica veio para ficar e ser o disco do ano, tendo em vista que muitos críticos de música assim o elegeram e eu mesmo sou suspeito para dizer o contrário. Gal conseguiu reunir um timaço de estrelas contemporâneas para darem o ar de suas graças no cenário da música popular e conseguiu, mais uma vez, ser a estrela maior da nossa música. Mesmo deixando Chico Buarque (que não anda tendo inspirações coerentes) e Gilberto Gil (que não compõe há um tempo algo inédito) de lado, o novo disco de Gal é resultado de um trabalho satisfatório, energizante, cristalino e doce. Cantando cada vez melhor, tendo uma subordinação total de sua voz, Gal consegue nos hipnotizar, chegando a fazer deste disco um tropicalismo sem igual, adentrando em nossas almas assim como em nossas bocas, peles, mentes e casas. E é por isso que Gal é Gal.
 

Gal é Estratosférica (2015)
Nota 9
Marcelo Teixeira

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

O Guelã de Maria Gadú


Guelã: Audacioso e atemporal
Maria Gadú e aquele tipo de cantora que você ouve agora, mas descarta já em seguida. Ela não é única nesse segmento expressivo de música de momento, mas para não fugir do foco, ficarei apenas em Maria Gadú. Tudo soa como estranho em Guelã (2015 / 25,99 / Slap), mais recente trabalho da cantora, que aposta no sincronismo da música de qualidade e intelectualizada (isso aconteceu com Lenine em seu recente disco Carbono) e ao mesmo tempo aposta na sonoridade diferenciada daquilo que tanto Maria Gadú já fizera como com o som que rola ultimamente por ai. Diferentemente de seus trabalhos anteriores, Maria Gadú tenta se expressar através da música como sendo uma detentora daquilo que acredita ser seu mantra: a música que adentra em nossos poros e fixa-se em nossas mentes. Se em Maria Gadú (2009) havia um lado muito biográfico da cantora e Mais uma Palavra (2011) estivesse mais próximo da virada musical da cantora e apostando já na qualidade de seu som, Guelã é adverso a tudo aquilo que Gadú já fizera, desde composições e harmonias. Não é, definitivamente, o melhor CD da cantora e esse está longe de ser uma obra-prima, mas é um grande avanço de Gadú dentro da MPB, com uma sonoridade exclusiva de uma cantora que experimenta sons hibridamente conscientes e nada simplórios. Mas nem todas as faixas são boas: Guelã precisa ser ouvido várias vezes para se chegar a um determinado comum de aprovação ou satisfação completa e ainda assim sentimos que falta algo para ser de fato um grande disco. Maria Gadú não tem uma grande voz, não tem uma presença de palco marcante e até arrisco a dizer que ela não encanta quando canta, pois está mais interessada em interpretar o não entendido do que se banhar das canções, mas não posso negar que sua participação dentro da música popular brasileira ainda é uma qualificação imprescindível. Guelã não será um disco que muitos vão parar para ouvir, comentar ou dar de presente. Será um disco passageiro, remoto, quieto, calmo, denso e atemporal na carreira de Maria Gadú. Nem todas as faixas são importantes para a complementação deste álbum: Trovoa é uma música arrastada, inquieta e que cansa demais, mas se você a ouvir outras vezes com calma, talvez tente entender a mensagem da cantora (o que para mim transpassa um lado biográfico que o compositor Mauricio Pereira talvez a tenha imaginado para ela). Destaques mesmo são as músicas Obloco e Tecnopapiro, magnífica e ambas de sua autoria, que transmitem uma atmosfera de puro êxtase vindo de sua alma lírica. Com uma facilidade incrível em inventar palavras (talvez tenha aprendido com Caetano Veloso, seu ídolo maior), Gadú colocou tudo o que queria nesse disco, fazendo com que o público se distancie de seu trabalho para se aventurar em outras searas. A começar pelo dificílimo título do álbum, Guelã, que já faz com que o trabalho seja diferente, ousado, mas ao mesmo tempo incompreensível, difuso, estranho. E em todas as faixas pode-se encontrar sons ou visões ou retratos imaginados dentro daquilo que soa como estranheza para nossos ouvidos. Retifico: o ouvinte mais atento pode se deliciar com Guelã, mas aquele que não tem paciência ou não tem parcimônia ou até mesmo não se identificar com as novidades aqui encontradas, pode simplesmente evocar seu santo e desaparecer para o sempre. Maria Gadú bebe do próprio veneno ao lançar no mercado um disco tão complexo e audacioso, tão voraz e acalentador, tão atroz e contemporâneo. A música nos dias de hoje requer um distanciamento entre o tudo e o nada, ou seja, entre o presente e o futuro e o que se busca aqui é a perfeição da imperfeição. Se você ouvir detalhadamente Guelã como quem estivesse conversando com o seu eu interior, poderá saber que Guelã é um disco delicioso, difícil, sentimental, puro e com uma energia positiva de Gadú para tentar explicar algo que existe dentro dela mesma.

Guelã (2015) / Maria Gadu
Nota 9
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

60 anos sem Carmen Miranda

Carmen: um mito
Não houve, indiscutivelmente, uma cantora igual à Carmen Miranda. Precursora de um estilo de cantar único e intrasferível, a cantora conseguiu ser uma rara exceção entre as cantoras de todos os tempos e marcou definitivamente sua entrada na música brasileira, dando inclusive marcas de sua presença de palco em países como Argentina, Estados Unidos e Cuba. Graças à Carmen o Brasil é conhecido através de nossas canções, pois a cantora levou todo o seu gingado para países até então que desconheciam o nosso território. Mas o que é que a baiana tem? Como já disse Dorival Caymmi em sua lendária canção, tem torso de seda, brinco de ouro, saia engomada e sandália enfeitada, tudo aquilo que realmente representava (e ainda representa a verdadeira baiana). Portuguesa de nascença, a cantora nasceu no dia 9 de fevereiro de 1909 e morreu nos Estados Unidos no dia 05 de agosto de 1955, fazendo o mundo cala-se num choro embutido como nunca antes visto. Cantora e atriz luso-brasilera, a carreira artística de Carmen ocorreu no Brasil e nos Estados Unidos entre as décadas de 1930 e 1950, trabalhando no rádio, no teatro de revista, no cinema e na televisão. Seu salário era o maior até então pago para uma mulher nos EUA! Seu estilo eclético faz com que seja considerada precursora do tropicalismo de Caetano Veloso e Gilberto Gil, movimento cultural brasileiro surgido no final da década de 1960. No início de agosto de 1955, Carmen gravou uma participação especial no programa televisivo do comediante Jimmy Durante. Em um número de dança, sofreu um ligeiro desmaio, desequilibrou-se e foi amparada por Durante. Recuperou-se e terminou o número. Na mesma noite, recebeu amigos em sua residência em Beverly Hills, à Bedford Drive, 616. Por volta das duas da manhã, após beber e cantar algumas canções para os amigos presentes, Carmen subiu para seu quarto para dormir. Acendeu um cigarro, vestiu um robe, retirou a maquiagem e caminhou em direção à cama com um pequeno espelho à mão. Um colapso cardíaco fulminante a derrubou morta sobre o chão no dia 5 de agosto. Seu corpo foi encontrado pela mãe no dia seguinte, às 10h30 da manhã. A causa-mortis acima consta em seu atestado de óbito. Estamos sem Carmen há 60 anos! E o Brasil ainda precisa descobrir o significado de sua perda!
 

60 anos sem Carmen Miranda
Marcelo Teixeira

 

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Tropicália (1968): um álbum precioso e inacabado


1968 foi um ano emblemático para a história da música popular brasileira: de um lado tinha a turma de Roberto Carlos e sua Jovem Guarda, do outro os festivais de música da TV Record, de um outro lado horizontal tinha a Bossa Nova e suas nuances perfeitas para enaltecer o que era belo e mais sagrado e por um curto espaço de tempo, Caetano Veloso e Gilberto Gil se juntara a Nara Leão, Os Mutantes, Rogério Duprat e Gal Costa para criarem um movimento audacioso e inteligente, que ganharia o nome de Tropicália. Quase cinquenta anos nos separam do fatídico ano de 1968, época da ditadura militar no Brasil, para os dias atuais, em que a música carece de muita criatividade e audácia, para ficarmos nas lembranças temidas pelo disco e por depoimentos de quem vivenciou aquele precioso tempo. No meu caso, apenas carrego na bagagem cultural o que se falam ou escrevem sobre o movimento, tendo em vista que eu nem era nascido para poder contar história. Mas até hoje, muitos intelectuais, musicólogos, filósofos e críticos de música tentam explicar a necessidade poética e harmônica de Tropicália ou Panis et Circencis (1968 / Philips / 30,00), disco em que há uma miscelânea de vozes e uma caricatura autoral persistente dos artistas mais badalados de então. Caetano Veloso e Gal Costa eram amigos e já tinham gravado Domingo, música que abriu várias fronteiras para ambos, enquanto Gilberto Gil ainda engatinhava no cenário musical apenas nos bastidores, mas sua presença fora marcante e precisa para dar o pontapé inicial em um dos movimentos mais importantes não apenas para os criadores, como para toda uma geração. Em seu livro biográfico Verdade Tropical (1997), Caetano disse que Gil falava demais e com certa eloquência verbal que passara a ser hermético e cansativo demais, enquanto os demais tentavam falar a língua nativa, natural, habitual. Mas o que muitos talvez não entendessem na época, é que essa maneira de Gil falar fora totalmente importante para o surgimento de canções assimétricas, como Misere Nobis, que abre o álbum. Perguntas até hoje não respondidas persistem em nossos imaginários: por que Maria Bethânia, a irmã de Caetano e até então a única a brilhar efusivamente em teatros lotados, não participara do disco? Por que Gilberto Gil segura a foto emoldurada em quadro de Chico Buarque? Por que Nara Leão pertenceu ao grupo tropicalista? Apenas, talvez, a última pergunta tenha resposta e ainda assim contraditória. Nara Leão gostava de perambular por todas as esferas musicais, tais como a própria bossa nova, a MPB, o samba de morro e para ela não seria novidade pisar em ovos tropicalistas. Deu certo essa iniciativa. Mas uma quarta questão surge: por que Tom Zé, baiano de Irará, que era tropicalista como os outros, não participara do momento de fato, mesmo aparecendo na capa do álbum? A participação de Tom Zé fora pequena e passou desapercebida pelo grande público da época e até hoje associam a imagem do cantor à outras fases tropicalistas, menos nesse disco. Sua única canção, Parque Industrial, fora cantada por todos, menos por Nara, que cantou apenas Lindoneia, a quarta faixa do disco. Podemos afirmar então que Nara Leão era tropicalista? Nas palavras de Caetano, sim, ela pertencera ao grupo, mas isso não deixa de ser evidente, assim como a meia participação de Tom Zé. Seja como for, Tropicália é um disco que fora iniciado sem a pretensão de ser concluído: havia ali a intenção clara e objetiva de seus líderes, Caetano e Gil, em influenciar mudanças grotescas no mundo moderno. O ano de 1968 eclodia de um militarismo sem igual e fazer ou falar qualquer coisa resultaria em morte, mas a turma da Tropicália queriam mais: queriam ser alvo de visão e audição. Ganharam o mundo depois que Caetano Veloso tivera contato imediato com a obra de Glauber Rocha, o lendário cineasta morto precocemente e de Hélio Oiticica, o pai do tropicalismo, que influenciou e muito a obra e a vida dos músicos envolvidos. A propagação da causa tropicalista pelo disco Tropicália ou Panis Circences persevera por quase cinquenta anos com o mesmo brilho e com a mesma simbologia desde 1968 já com a intenção de nunca terminar. Havia uma necessidade incessante de Caetano e Gil preverem que o álbum seria histórico? Talvez sim. A capacidade intelectual de todas as cabeças pensantes fizera do disco uma obra-prima sem igual, elogiado até hoje por amantes e críticos da música universal. O ideário tropicalista foi formado não apenas pelas discussões ardilosas de seus condutores e/ou pelos ajuntamentos de intelectuais, como a dos poetas concretos Augusto de Campos e Décio Pignatari. Apesar de impactante para o momento e diante da importância dessa coleção de ideias e fatos revolucionários que formigaram a estrutura cultural nacional, é preciso lembrar que tudo girava em torno de discos sensacionais lançados naquele tempo e contra a censura enclausurada de outros movimentos que persistiam em lograr para um ponto certo no lugar certo. E Tropicália ou Panis et Circences permanece até hoje como reduto de um álbum magnífico, precioso e atual a tal ponto de nunca ser concluído.

 

Tropicália (1968): um álbum precioso e inacabado

Marcelo Teixeira

sexta-feira, 24 de julho de 2015

A eloquência distinta de Carbono, novo álbum de Lenine


Experimentos químicos de Lenine
Lenine é um tipo raro de cantor que conseguiu sair da atmosfera popular para adentrar, definitivamente, no âmbito da intelectualidade e a prova maior disso são suas músicas, cada vez mais rebuscadas e refinadas, não deixando margem para que a população sem cérebro possa compartilhar o que é belo e universalmente para poucos. Seu último trabalho, Chão (2011) foi uma experiência causada entre o efeito da solidão do cantor e a fase de aceitação do público, que estranhou de início o novo formato de se fazer música do cantor e compositor pernambucano, mas que aos poucos essa magia e esse encanto tomaram partido alto e maior dentro do universo leniniano. Quase no mesmo caminho que o álbum anterior, Carbono (2015 / Universal Music / 29,99) é um disco atemporal, fugindo de modismos e tropicalismos regionais que o consagraram e sendo ele mesmo: Lenine, um cantor pernambucano que tenta encontrar a cada verso uma explicação para o inexplicável, um ato, um hiato, uma sonoridade diferente e ampla, um significado para suas canções e para o desejo de se fazer canções. Carbono nasceu dessa necessidade conjunta de exemplificações: uma corrente entre as músicas para tentar decifrar os anseios da química e o elo entre Chão, com suas sonoridades ambivalentes e subsequentes da eloquência distinta. Há lirismo temperado com loucura e um certo desespero de Lenine na preocupação geral sobre o ambiente e a Terra, tópicos contestados em músicas que ministram água, carbono, pó, terra entre outros argumentos da natureza. Lenine está mais denso, mais calmo e até mesmo mais confortável para fazer de Carbono seu porto seguro de ilusões maniqueístas e está em um momento em que sua música pede passagem para o que realmente pede a música popular brasileira num todo: a qualidade musical. O cantor vem há um certo tempo se mostrando presente no lendário sistema de qualificação profissional, lançando discos mais distantes da plateia assimétrica de caráter duvidoso para figurar entre o intelecto e a formação de massa cerebral. Em Carbono percebe-se o instinto do saber voluntário do cantor, atestado em canções que vão da sofisticação ao regional sem precisar ser caricato ou descer um patamar de popular. O disco tem uma limpeza sonora incrível e o erro de Lenine, talvez, tenha sido esse: já que o cantor queria experimentar o lado minimalista dos ruídos em Chão, ele poderia usufruir para que esse novo trabalho tivesse sons que realmente atendem ao título. Há um distanciamento e uma proximidade muito larga entre um projeto e outro, mas Carbono consegue ser mais poético, mais autoral, mais visível e mais compreendido que os discos introspectivos do cantor lançados outrora. Mesmo sendo um disco particular, monossilábico (o álbum cai por vezes numa tristeza profunda), anti-tropicalista e pós MPB, Lenine nos mostra um álbum recheado de perguntas sobre o mundo da engenharia química, tentando nos transportar para o mundo daqui há alguns anos. Sua música, nesse quesito, pode explicar muitas coisas.

 

 

Carbono (2015) / Lenine
Nota 8
Marcelo Teixeira