sexta-feira, 13 de junho de 2014

Os malabaristas de João Bosco (2002)


Ótimo disco de João Bosco
Se Elis Regina estivesse viva, na certa gravaria Malabaristas do Sinal Vermelho ou qualquer música deste CD feito por João Bosco em parceria com o filho Francisco. O clima relativamente calmo e suave, encadeado por baladinhas e bossas com cores de jazz não se parece com tons monocórdicos. Malabaristas do Sinal Vermelho (2002 / Sony Music / 22,00) é um clássico já no título do álbum. A capa vermelha nos dá a impressão certeira de que estamos diante um disco inquieto, intrigante e irresistível. E o é! João Bosco é um importante cantor da atmosfera brasileira e suas músicas foram cantadas por vários cantores de diversas gerações da MPB. Elis, considerada por muitos como a maior cantora de todos os tempos da música brasileira, foi a recordista em gravar canções do cantor e compositor e se viva estivesse, na certa cantaria com gosto e maestria qualquer música de Malabaristas. O disco nos fixa diretamente nos olhos e nos enquadra com um sorriso no canto da boca, como se João estivesse ao nosso lado, observando nossa cara de espanto e alegria conjuntas. Aqui temos um João sem disfarces nem adornos e seu estilo visceral para contar histórias está cada vez mais ácida. O conteúdo de Malabaristas do Sinal Vermelho é um livro aberto para quem quiser ler e suas músicas representam o que há de melhor na esfinge musical universal. Posto em evidência, João busca em sua música o homem delicado e sensível, moderno e jovial, adjetivos raros em tempos de velhice artistíca. João Bosco não tem pressa e o ritmo é calmo, ultrabalanceado com salsas e merengues, mineirices e carioquices e o resultado é simplesmente brilhante, divino, sensacional. O mestre João deu o recado e a carapuça serviu para quem quisesse. Há malabaristas espalhados por todos os cantos, como atesta o disco, não apenas nos semáfaros e esquinas, mas sim dentro de nossas casas, na casa do vizinho, no trabalho, na música. O eco de sua música nos deriva de qualquer suspeita momentânea: João capta os melhores ruídos e nos brinda com o melhor de sua música. Cada melodia tem um estilo monárquico de dizer algo, seja no campo amoroso, seja no campo político. Os malabaristas de João, assim como os escafandristas de Chico Buarque estão espalhados por todos os lados, por todos os campos, por todos os subníveis. Inclusive do seu.
 
 
 
Os Malabaristas do Sinal Vermelho / João Bosco
Nota 10
Marcelo Teixeira

segunda-feira, 9 de junho de 2014

O bolero brasileiro de Dani Calazans


O bolero de Dani Calazans
Dani Calazans é atriz, cantora, compositora, roqueira e defende com voz e categoria boa parte do cancioneiro da música popular brasileira ao lançar o CD Hard Bolero (2014 / Independente / 22,00), em que retrata toda a sua dramaticidade em um cabaré alemão. Dani é uma das melhores cantoras surgidas nos últimos anos dentro da MPB e sua voz é um afago tão tocante quanto certeira, tão imensa quanto duradoura, tão atual quanto sensível. Dani Calazans é uma cantora completa, reveladora, simples e determinada. Hard Bolero é um disco que não pode ser passado em branco: você precisa ouvir! Ouvir com atenção, com vontade, com garra, porque esses adjetivos são transpassados por Dani Calazans em todas as faixas do álbum. Com ênfase nas mazelas do Brasil, como na irresistível Classificados, passando por sua feminilidade com a música Salto Agulha, Dani dá um toque diferenciado na manjada Non, je ne regrette rien, que fecha o disco com chave de ouro. Antenada entre as artes cênicas e a música que dança em seu corpo, a cantora se inspira nos cabarés alemães para fazer um disco altamente brasileiro, sendo totalmente díspare daquilo que estamos acostumados a ouvir na música nacional. A grande sacada de Dani foi justamente essa: ser e fazer algo diferente. Hard Bolero é um disco de primeira grandeza e traz a cantora em um momento em que a música precisava de renovação: a voz, o estilo, a verdade de Dani Calazans surge em um momento ideal para a salvação da música brasileira. Com uma poesia rica em detalhes poéticos quanto observadora em idílios reveladores como a música Lagoa, a cantora passa a ser uma artista que admiro imensa e profundamente. Dani transmite a verdade e verdade significa música de primeira grandeza. Cada vez que ouço Dani Calazans, mais suas músicas me tocam, me atiçam, me deixam em plena felicidade. Hard Bolero é uma obra-prima a qual comunga a ideia de arte, musicalidade, teatralidade e poesia.  E é nesse meio todo que Dani Calazans, uma grande cantora, se firma como uma artista brasileira.

 

Hard Bolero / Dani Calazans
Nota 10
Marcelo Teixeira

quinta-feira, 5 de junho de 2014

O barulhinho bom de Marisa Monte


 

Marisa: barulhinho muito bom
O ano de 1996 foi de Marisa Monte. Barulhinho Bom (1996 / 29,99) causou tanto barulho, que foi obrigado a ser lacrado para não mostrar as fotos sensuais que o encarte trazia. Em países como os Estados Unidos, o disco teve que ser embalado em plástico preto, enquanto que aqui no Brasil, algumas lojas embalaram com plásticos rosas. Barulhinho Bom é um disco gravado ao vivo, duplo e com o melhor de Marisa Monte, mesclando músicas inéditas com o universo já particular da cantora, cantado em discos anteriores. Este é, sem sombra de dúvidas, um grande trabalho de Marisa e a complementação de Cor de rosa e carvão, seu disco anterior, foi gravado no Teatro  Guararapes, Recife e Carlos Gomes, no Rio de Janeiro.  É muito gratificante ouvir músicas inéditas como Panis et Circenses, De Noite na Cama, A Menina Dança e Give me Love na sua voz, que casam muito bem com sua voz e sua doutrina como cantora. Já nas canções de seus repertórios antigos, o álbum conta com Segue o Seco, Bem Leve e Xote das Meninas. Destaque para Arrepio, Maraçá e Magamalabares, que são sensacionais. Um disco indispensável na prateleira de qualquer pessoa que preza e respeita a música brasileira. Disco sublime, maravilhoso, simples, brasileiro e tem um barulhinho bom que somente Marisa Monte consegue nos transpassar. A intimidade de Marisa para com as músicas fez com que o público e a crítica especializada logo reconhecesse o extraordinário talento da cantora mais uma vez. Cantando melhor que o disco anterior, Marisa surpreendeu com este disco ao vivo cheio de magia e emoção.  Mais autêntica do que nunca, Marisa se sente leve e solta neste disco com ar de quero mais, em um clima contemporâneo e delicado. Bom de ouvir do começo ao fim, Barulhinho Bom reflete o que há de melhor no cancioneiro desta grande cantora ultra-moderna.  De Caetano Veloso, passando por Ed Motta e Paulinho da Viola e encontrando mais abaixo com os Novos Baianos, Barulhinho Bom é um disco que remete à qualidade artistica de uma das grandes intérpretes que o Brasil tem. Marisa Monte comprova todo o seu brilho matinal em um disco altamente qualificado, sem deixar cair na mesmicie que muitas cantoras de sua época cairam. Marisa Monte transforma um barulhinho bom em um barulhinho encantador.

 

Barulhinho Bom / Marisa Monte
Nota 10
Marcelo Teixeira

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Alberto Salgado: sopro novo na MPB


 

Além do Quintal: obra-prima
Se o homem foi feito para cantar, este homem é Alberto Salgado: sua voz é um alento e uma salvação para a música popular brasileira, na qual impera na sua maior riqueza o núcleo formado por bela vozes femininas. A leveza de suas músicas, poéticas na sua maioria, e a voz firme e grave, contrapõe um alto peso na sua musicalidade: um ritmo cadenciado de sambas, uma mistura heterogêna de notas e um emaranhado sincopado de elementos que neutralizam nossa alma, a ponto de sairmos cantarolando e sambando ao seu som. Impossível não resistir aos encantamentos musicais de Alberto Salgado: ele nos arremata já na música que abre o disco Além do Quintal (22,00 / 2014), Pra Você Sambar. Alberto é um sopro natural de calmaria em meio à fúria de sons tão distantes que assolam nossos ouvidos e que tem identidade própria ao desencandear um filandeiro de obras-primas deste álbum encantador. Trezes faixas embalam Além do Quintal, sendo todas de sua autoria ou em conluio com outros parceiros. Mas sua assinatura é pessoal e intransferível e essa mágica é que faz toda a diferença no disco. Alberto experimenta tons sambísticos neste disco, o que o deixa muito bem à vontade para cantar e compor melodias saborosas, com uma leveza pop sobre canções de amor.  A maneira de expressar emoções de forma delicada e poética surge em praticamente todas as canções e demonstra toda a sensibilidade rara do cantor ao abordar músicas como Planta Collhe 4 ou na encantadora Marinheiro. Há um peso de responsabilidade aqui, porque Alberto Salgado não é qualquer cantor. Com voz delicada, mas puramente intensa, valendo-se de um timbre de beleza aguda, ele canta com apurada gentileza e sabedoria. Sua afinação vai às

Alberto: sopro novo na MPB atual
notas como a seta ao alvo. Ouvi-lo é como um elogio à compotência caracterizada dos cantores brasileiros no exercício de seu ofício. Dois grandes momentos de seu disco estão em Pele do Mar, onde há uma conjuntura de frases ritmadas e jogo de palavras cruzadas e Sambaião, por onde os versos cantados diversificam que tudo o que é cantado vira samba. Alberto Salgado é um consagrado cantor, que consegue energizar toda a plateia que o prestigia nos seus aplaudidos shows realizados em Brasília, na capital federal. A palavra cantada, na sua vez, é uma arma direta e certeira para aproximar as pessoas e transmitir seus glorificados pensamentos em prol do bem comum. Sendo assim, a música popular brasileira se rende ao cantor que nos fascina com um disco a altura de seu talento e que consegue nos dobrar de joelhos pedindo bis para que o show não termine. Alberto Salgado é um cantor legitimamente brasileiro, desses raros de ser encontrado e que precisamos ouvir, ouvir e ouvir para termos a certeza de que ele é nosso. Compositor, cantor, artista determinado no cenário nacional, Alberto canta com emoção e carinho e faz de seu quintal um convite ao seu samba de primeira grandeza.


 

Além do Quintal / Alberto Salgado
Nota 10
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Por que Jair Rodrigues não poderia morrer?


 


Jair: sempre eterno
Jair Rodrigues foi um músico espetacular, de uma fineza sem constestamentos e um cantor extremamente brasileiro. Sua morte foi um abalo geral para todos nós, que não esperavámos por ela: dentro de sua casa, no seu lugar preferido, Jair estava morto. O clichê é gritante, mas faz parte: morreu o homem, mas não a sua voz, a sua trajetória de vida, o cantor. A voz de Jair estará sempre ecoando por este Brasil que não conhece o Brasil, em cada esquina e em cada coração brasileiro. Mas Jair era um cantor que não poderia (nem merecia) morrer. Jair era a parte viva de uma MPB morta. E era justamente por sua memória que o cantor não poderia morrer tão cedo. De todos os cantores que mais bradavam sobre os festivais da TV Record dos anos de 1960, a amizade com a cantora Elis Regina, o início do rap no Brasil, os encantamentos de uma música sertaneja, o samba, os amigos que não comentavam mais nada sobre a música do passado, tudo isso Jair contava em rima e prosa e agora tudo se calou. Jair Rodrigues gostava de contar os bastidores daqueles tempos áureos e tinha muita coisa na bagagem para ser contada ainda, mas o destino o quis calado. Assim como no último show de sua vida, registrado em Minas Gerais e que conta particularidades de Elis como se fosse um sussurro, Jair tinha muitas histórias e notas para contar. Morreu sabendo que fora feliz e que era um dos cantores de maior grandeza da música popular brasileira. Morreu no melhor momento de sua vida: trabalhando e fazendo samba. Assim como Caetano Veloso gosta de comentar o início da Tropicália e o movimento dos festivais, Jair Rodrigues também gostava de falar abertamente sobre tudo aquilo com sabedoria e maestria. Calou-se a voz de Jair aos 75 anos e espero que Caetano não se cale, embora já tenha quase 71 anos! Diferentemente de Gilberto Gil, Gal Costa ou Maria Bethânia, Caetano gosta de relembrar fases daqueles tempos em que lutar pela sobrevivência de uma boa música era significado maior de uma cantoria melhor para futuramente poder se expressar com o passado numa forma direta e franca. E assim como Jair, Caetano também tem cartas na manga ainda. Chico Buarque não fala praticamente mais nada sobre o tempo dos festivais; Geraldo Vandré não se mostra mais em público e nem em entrevistas; Nara Leão morreu; Roberto Carlos não fala mais de Jovem Guarda, embora Erasmo Carlos tenha boas recordações e cartas na manga também. Morreu o patrono do fino da bossa, morreu o menino pobre que vencera na música e se tornara amigo de uma das maiores intérpretes do país, morreu Jair Rodrigues no momento errado. Com a morte de Jair, a música fica mais pobre, mais cinza e mais triste, obviamente. Mas a morte de Jair traz outro significado ainda maior: aquietou-se o moleque cantor mais feliz da MPB e calou-se os bastidores de um festival!



 

Por que Jair Rodrigues não poderia morrer?
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Zizi Possi quebra o jejum em Tudo se Transformou



Zizi: velhas roupagens
Nove anos separam a cantora Zizi Possi do público. Nove anos separam Bossa, lançado em 2001 de Tudo se Transformou, lançado agora em 2014. Se Bossa tinha uma pegada mais pra MPB elitísta, Tudo se Transformou nos remete à Bossa. Zizi Possi pegou a todos de surpresa ao lançar um disco este ano, pois ninguém imaginava que isso fosse acontecer tão cedo, mesmo a cantora tendo feito shows com o mesmo repertório, aqui em São Paulo. Mas aconteceu e o que Zizi nos apresenta aqui é um álbum bonito, bem feito e com a boa música popular sendo bem representada, característica de sua carreira. Zizi deixou Bossa suspensa no ar, com muitas perguntas e sombras de sua carreira, mas Tudo se Transformou (2014 / Eldorado / 20,90) é um disco de capacidade única que consegue juntar uma excelente voz com um piano majestoso. Na verdade e musicalmente falando, o novo disco de Zizi é pura MPB, ressoando nas músicas a leveza e autenticidade de sua belissima voz. Zizi é uma das maiores cantoras deste Brasil e esteve no páreo de ser a nova sucessora de Elis Regina juntamente com Gal Costa, em 1982. Mas Zizi mostrou que seu talento é superior e trilhou seu caminho com discos de sucesso e músicas que adentraram na mente do público até hoje. Se Bossa foi friamente recebido pela crítica e público, aposto que certamente este novo lançamento não passará pelo mesmo crivo. Como disse, Zizi está cantando divinamente, o CD está com uma capa estonteante  e a cantora continua sendo a melhor dentre as melhores e os treze anos que separaram a cantora de seu público a fizeram selecionar as músicas e fazer um disco a sua altura. Mas erros fatais aconteceram para que Tudo se Transformou não entrasse de cabeça erguida para o mercado fonográfico como as boas vindas à Zizi. Primeiramente, a música de abertura, Filho de Santa Maria, foi composta sobre a poesia de Paulo Leminski musicada por Itamar Assumpção. E cadê o nome de Itamar nos créditos? Mas não precisava da voz de Webster Santos nos vocais desta música, porque ele não canta nada e mais parece um cantor esperando as notas dos jurados. Voz grave, forte e estranha que contrasta com a voz doce, pura e sentimental de Zizi. Outro erro fatal foi a regravação de Disparada, já cantada habilmente pela própria no disco Puro Prazer (1999), já que sua voz casou-se muito bem com o piano de Jether Garotti. Aqui a canção fica batida e mesmo tendo novos arranjos, ficou chato ter que ouvi-la em sua voz novamente. Tudo se transformou, do mestre Paulinho da Viola e que deu título ao novo trabalho da cantora, é um samba lamentação das dores ocorridas pelo amor e valeu a pena, porque Zizi dá um show de interpretação. O disco é todo caprichado desde a abertura até a décima e última faixa do show ao vivo, tendo neste meio tempo canções de Guilherme Arantes (Meu mundo e nada mais) e da estreante compositora Necka Ayala, No Vento. Luiza Possi, a filha ilustre, surge como compositora ao lado de Dudu Falcão na música arrastada Cacos de Amor, gravada no CD de Luiza, intitulado Seguir Cantando (2011) e Gonzaguinha ressurge das cinzas em Explode Coração. De Dominguinhos e Anastácia vem Contrato de Separação e Porta Estandarte (Fernando Lona e Geraldo Vandré) fecha o disco ao vivo com chave de ouro pela alegria contagiante que a música proporciona, alternando com Filho de Santa Maria. O bônus fica por conta dos tribalhistas Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown na música Sem Você, que fala dos sentimentos amorosos e da solidão. Aqui Zizi mostra todo o seu encanto ao dar vida a uma música de dois homens totalmente amorosos e a canção acaba sendo a melhor do disco. Tudo se Transformou é um disco sensível, aberto, curioso e com direção certeira na carreira Zizi em que revisita a obra dos amigos, pinça com dignidade uma música de cada e lança em disco. Mas o que se vê aqui é um disco novo e sensato e que acaba com o jejum da cantora. Merecidamente.

 

Tudo se Transformou (2014) / Zizi Possi
Nota 8
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 14 de maio de 2014

De Gilberto Gil a João Gilberto: deu samba no encontro de Gilbertos


 

Um disco e tanto
Gilberto Gil devia um disco a altura de João Gilberto. O pai da bossa nova acaba de ganhar um disco em sua homenagem pelo patrono do Tropicalismo e essa junção se deu por conta do lançamento de Gilbertos Samba (2014 / Sony Music / 26,99), um disco mais experimental do ponto de vista crítico do que um disco essencialmente não comercial. Experimental porque Gilberto Gil sempre teve essa vontade de fazer um disco de samba para exprimir seu sentimento para com seu conterrâneo e não comercial pelo fato de não ser um disco simples. A começar pela capa contrastando o vermelho em letras garrafais com o azul quase escuro ao fundo, o ouvinte pode se entediar com as músicas apresentadas já na primeira vista. Mas não se enganem: por mais que o disco traga canções já conhecidas do grande público, Gil dá uma aula de profissionalismo, determinação no ofício de cantar e sabedoria em sua essência.  Aqui a bossa é realmente nova e Gilberto Gil consegue transpassar toda a sua vibração positiva a cada faixa cantada. Ao todo são dez músicas do repertório de João mais duas homenagens, sendo a faixa-título Gilbertos, onde cita outros bambas de sua época, como Dorival Caymmi, Chico Buarque, o amigo Caetano Veloso e a instrumental Um Abraço no João. Gilbertos Samba é um disco em que o cantor e compositor reinterpreta os clássicos gravados por João Gilberto e isso ele o faz com maestria. Se na primeira audição ficamos meio chocados com a onda gritante de pesadas guitarras e calmos violões em algumas faixas, esse susto passa com a segunda chance de poder ouvir as melhores músicas gilbertianas, que tem como parceria Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Carlos Lyra e Caetano Veloso. Quase tudo o que João Gilberto cantou, até mesmo seus primeiros compassos na música universal brasileira, Gil fez questão em poder regravar, incluindo O Pato, Desde que o samba é samba, Você e eu (música de trabalho), Eu vim da Bahia. O disco tem assinatura musical de Moreno Veloso e Bem Gil e está recheado de músicas de sucesso que ficaram ainda mais tocantes, vivas e suaves na voz doce e angelical de Gil. Um presente e tanto de Gilberto para Gilberto e quem ganha com isso é o público, fiél e escudeiro público da boa música popular brasileira.



 
Gilbertos Samba (2014) / Gilberto Gil
Nota 10
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Morreu Jair Rodrigues!

Morreu um mestre da música
Pessoas especiais não morrem. Pessoas especiais são eternas. Jair Rodrigues morreu. Mas não morreu o artista, não morreu o cantor, não morreu o moleque que dançava, corria, pulava, instigava, cantava. Jair Rodrigues deixou um legado e tanto para a música popular brasileira: deixou sua marca ao lado da cantora Elis Regina, definitivamente nos festivais, marcou o início do rap no país, deixou sua pegada no samba brasileiro e, de quebra, entrou de cabeça erguida no sertanejo. Jair Rodrigues passeou por todos os ritmos brasileiros e em todos ele foi muito bem sucedido. Aos 75 anos, o cantor estava em alta, fazendo shows, feliz. No Brasil apenas dois cantores tem a capacidade de cantar com amor, emoção, carinho e devoção: Ivete Sangalo e Jair Rodrigues. Grande ícone da música, Jair partiu e deixará uma lacuna insubstituível. Ainda não dá para acreditar em sua morte, tão rápida e tão batida. Em momentos tão amargos neste mundo, tão delicados e tão comuns, o incomum aconteceu em um momento que não era para ser: sua morte não é uma morte nem uma passagem. Ele descansou. Descansou o nosso eterno moleque, nosso eterno garoto fanfarrão, nosso eterno Jair. Na música, ele misturava tudo e tudo dava certo. Sua voz ainda estava saudavel. Sua emoção ainda era passada para todos. Jair Rodrigues era o clima que o tornava brasileiro, moderno, atual, significativo.  Cantores como Jair, assim como Elis, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Roberto Carlos serão eternos e serão eternos porque na época deles fazer música era complicado. Se houve um Chico Buarque, uma Nara Leão, um Paulinho da Viola é porque houve público para eles. Assim como houve até hoje público e espaço para o Jair. Nunca mais teremos a chance de ver um astro da música popular brasileira surgir como surgiu um Jair Rodrigues, que mesmo tantos anos depois, continuava na ativa, fazendo shows com plateia lotada e cativando crianças e adolescentes e fazendo dos novos artistas uma colisão de aprendizagem e arte. Confesso que não sei o que escrever, pois as lágrimas me tomam neste exato momento. Mas não vamos fazer da morte de Jair uma tristeza sem fim. Não aceito sua morte. Mas o suspiro me faz acreditar que não o teremos mais por perto fisicamente. Suas músicas serão eternas. E Jair Rodrigues é eterno. Até logo, Jair.

 

Adeus, Jair Rodrigues
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 7 de maio de 2014

As colheitas de Mariene de Castro


A força no canto de Mariene de Castro é sagrada e a sua luz é tão forte que provavelmente demorará a se apagar. Mariene está de disco novo e talvez seja o melhor de sua carreira, mesmo depois de mostrar os santos de sua casa e a homenagem a Clara Nunes. Não que sejam trabalhos menores, mas até ali, a cantora vinha provando o que o público queria realmente saber de sua musicalidade e agora Colheita veio acolher o seu tempero e sua apuração. Mariene destoa música caprichadas, bem arranjadas e com fácil apelo popular. Mas não pensem que o tal apelo popular seja sinal de música comercial: a música de Mariene de Castro vai mais longe e alcança ares mais profundos. Quem assina a produção do disco é o competente Max Pierre, que já produzira discos importantes no cancioneiro nacional. Em temporadas de surgimento de cantoras deprovidas de talento e voz, entre o certo e o errado e entre música de qualidade com bordões exdrúxulos, a qualidade de Mariene surpreende pelo seu canto, pela força de sua voz, pelo eco de seu brilho e pela brasilidade que carrega. Colheita (23,99 / Universal / 2013) é um disco de samba de raiz, de predicado, de respeito e de ginga e tem a participação mais que especial de Maria Bethânia em A força que vem da raiz (Roque Ferreira) e na faixa título, Colheita (Zeca Pagodinho / Rildo Hora). Beth Carvalho é a outra convidade, não com o mesmo brilho de Bethânia, e canta Samba da benção (Baden Powell / Vinicius de Moraes) e o maestro Jaques Morelembaum juntamente com a bateria da Portela estão em Aquela da Amazônia (Toninho Geraes / Toninho Nascimento). Baiana de nascimento, Mariene entra para o rol das grandes divas da música popular brasileira com um disco a sua altura e competência, com faixas que demonstra toda a sua cultura de grande dama do samba. O samba está em seu sangue e sua voz está por todas as partes.

 

Colheita (2013) / Mariene de Castro
Nota 10
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 2 de maio de 2014

O samba pede passagem à Maria Rita

Emocionante e sensível
O samba pede passagem mais uma vez e Maria Rita consegue se desvencilhar da imagem da mãe, Elis Regina, para fazer um dos discos mais bonitos de sua carreira e de quebra, um dos mais belos deste ano de 2014. Coração a Batucar (2014 / Universal Music / 26,90) tem um pequeno deslize, mas o resultado soou muito bem, obrigado. O único deslize é a capa, que trouxe um ar sombrio, fúnebre e nada convencional com o samba, mas as músicas que abocanham o disco (e as fotos no encarte) por um todo faz com que esqueçamos rapidamente deste mero detalhe e entremos diretamente para o mundo do samba. Maria Rita cresceu e apareceu, ficou mais madura e responsável por sua voz e há uma diferença muito grande entre Samba Meu (2007) e Coração a Batucar (2014). Aqui as músicas foram selecionadas a dedo e Maria Rita está cantando divinamente, com uma voz brilhante, límpida e cristalina. Se no primeiro disco de samba não houve o tempo ou o respaldo para interagir com o manifesto, aqui a cantora conseguiu driblar toda a sua experiência e fazer com que Coração a Batucar batucasse nos corações e nas almas de todos aqueles que a odeiam e a amam. Sempre fui contra a carreira de Maria Rita. Desde que foi lançada a ideia de que a filha ilustre e desconhecida de Elis iria se lançar como cantora, em 2003, a imprensa, a mídia, a fonografia e todos os fãs se mobilizaram para a espera desta grande oportunidade. Todos estavam a espera de uma nova Elis e o que se viu foi uma Maria Rita timida, recatada e que cantava habilmente as canções que a MPB lhe propusera. O resultado foi um disco mediano, mas um disco a altura de Maria Rita. Os discos seguintes foram discos seguintes, sem grandes alardes em sua carreira, mas com um dedinho no samba, como na música Conta Outra, gravada ao vivo para o disco Segundo (2005), cujo teve uma repercussão plausível. A minha indignação com relação a Maria Rita trata-se apenas e oriundamente pelo fato da cantora estar sempre veinculada a imagem da mãe, desde em gestos faciais até posturas em palco. Mas quando Maria Rita canta samba tudo muda e ela encarna a própria Maria Rita. Como cita a música É corpo, é alma, é religião, Maria Rita não nasceu no samba, mas o samba nasceu em si numa forma complacente de que o seu terreno é a MPB, mas que o samba é seu ponto forte e é neste ritmo bem brasileiro que a cantora se mostra a que veio. Maria Rita canta divinamente todas as faixas do disco sem atropelar palavras, sem deixar a peteca cair, sendo uma grata surpresa até mesmo para mim, que retruco quando o assunto é o universo particular da cantora. Fica até mesmo dificil dizer qual a melhor música de todo o álbum, mas arrisco dizer que  No Mistério do Samba, composta pela competente Joyce Moreno é uma lição do que é ser sambista. Joyce, que adora jazz e foi descoberta na época da bossa nova, perambulou pela MPB e se caracterizou no samba, é mestre no que faz e seu recado foi dado: há um mistério que ronda o samba de Maria Rita e há uma fidelidade da cantora para com o estilo. A cantora poderia se lançar fielmente ao segmento e só cantar samba, pois aqui Maria Rita se diverte, se anima e faz com que muitos a sigam por onde passa. Na sua plenitude e dentro deste universo sambístico, Maria Rita reina única e absoluta, juntando o brilho de sua voz e a capacidade de sua emoção. Mistério do samba ou não, o fato é que a cantora brilha sensivelmente em seu estilo e consegue fazer um dos melhores discos, mais completos e mais autênticos de sua carreira, dando a volta por cima e sendo, mais uma vez, Maria Rita. Que os deuses do samba possam sambar, pois aqui tem samba de verdade; abram as rodas porque aqui tem samba no pé; deixem de lado as sandálias porque aqui tem um coração a batucar. Maria Rita não nasceu no hemisfério do samba, mas deixa seu coração batucar mais forte quando cai numa roda de bamba. Viva o samba de Maria Rita.
 

Coração a Batucar (2014) / Maria Rita
Nota 10
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Vanessa da Mata erra o som outra vez




Não segue o som, Vanessa!
Sinto uma enorme saudade da Vanessa da Mata que conheci em 2002, quando ainda era uma novata cantora que queria ser a salvadora da música popular brasileira, que encantava com seu canto, com suas letras, que abocanhava grandes nomes da música (como fizeram Maria Bethânia, Caetano Veloso e Chico César) e que era mais timida, recatada e solitária. Sim, Vanessa da Mata compunhava com vontade, voracidade e verdade, adjetivos raros em sua carreira ultimamente. Não que ela estivesse enfraquecida com os discos após o lançamento deste que levava o seu nome, mas nem todas as músicas seguintes agradariam aos seus fãs posteriores. Vanessa deixou de ser uma cantora de nome forte para ser uma cantora de MPB qualquer, compondo aqui ou ali umas músicas bacanas e fazendo de sua voz um arsenal de tiros de misericórdia. Lançando Segue o Som (2014 / Sony Music / 24,90), Vanessa da Mata deixa a desejar.  E muito. As músicas aqui cantadas não ecoam como no primeiro grande disco, não batem forte em nossos sentidos, não trazem mensagens positivas ou agradáveis, mas deixa um ar de insatisfação. Segue o Som é um disco de misturas eletrônica, pop, reggae, dance music e a voz de Vanessa soa cansativa, irritante e derivada de ajustes eletrônicos para se sair bem. Depois de Vanessa da Mata (2002), a cantora teria um grande momento em sua vida ao lançar Bicicletas, Bolos e Outras Alegrias (2010), em que cantava com uma jovialidade e uma serenidade inacreditáveis, tendo a participação até mesmo de Gilberto Gil encerrando uma das faixas mais encantadoras do álbum. Teria Vanessa da Mata entrado para o time das cantoras desgastadas da MPB ou estaria passando (por que não passeando?) pelo mundo fantástico do ostracismo imaginário? As canções de Segue o Som são contagiantes do ponto de vista comercial, alegres e auto-astral, porém, parece que todas as músicas foram feitas no mesmo dia, na mesma calibragem e no mesmo sentido horário: as batidas e as melodias são uniformes, parecendo que não há interrupção de uma canção para outra. A música Toda Humanidade Veio de uma Mulher não tem ritmos, assim como Rebola Nêga, a melhorzinha do disco, que soa como se a cantora estivesse errando as notas ao cantar (característica de Vanessa, que já fez isso várias vezes em shows ao vivo). Homem Preto é uma canção legal, tem uma pegada mais romântica, mas que não leva nada ao nada com sua voz estridente e custosa. E as canções em inglês dão o recado de que talvez Vanessa queira adentrar no mundo internacional, assim como já tentara com o álbum Sim (2007), mas sem grandes alardes. Do mesmo modo como acontecera com o disco de 2007, Vanessa trouxe para o álbum atual as questões que martelam dentro de sua cabeça com relação as causas sociais existentes ao redor do mundo, como forma de politizar esses assuntos. Como uma salvadora das causas impossíveis no mundo musical, a cantora peca ao adentrar em pautas como o amor passeando por lugares distantes e imprevisíveis, como canta na música capenga Por Onde Ando Tenho Você. Por vezes, sentimos que Vanessa não consegue mais compor ou a impressão maior que passa é que o disco foi feito às pressas, para que pudesse estar na próxima novela qualquer. Assim como aconteceu com Essa Boneca Tem Manual (2005), Segue o Som também foi feito para ser um disco meramente comercial, sem se importar com as letras aqui produzidas. O apelo é forte e Vanessa não soube aproveitar o momento para fazer um grande disco. Já tinha dito que a superficialidade da cantora ao lançar um disco em projeto com uma grande marca de cosméticos para homenagear Tom Jobim, disco este lançado em 2013 pela mesma gravadora em parceria com a Jabuticaba, era crescente e gritante e aqui a superficialidade continua em alta, deixando em baixa toda a pluralidade que Vanessa conseguiu atrair no início de carreira. Chega a ser caricato ouvir frases do tipo fique aqui, tome alguma coisa, converse pra se distrair, vai ver que sou uma menina, só quero me divertir, cantada na música Toda Humanidade Veio de Uma Mulher, que abre o disco. Confesso que não entendi o teor do álbum e qual a sua mensagem maior, mas confesso que os últimos trabalhos de Vanessa da Mata, a garota pobre de Mato Grosso que conseguiu driblar o pai rigoroso do sertão para se tornar em uma das maiores cantoras do país, estão deixando e muito a desejar, abandonando assim um estilo único e próprio de mostrar sua musicalidade, que era plausível e admirada. Por esse motivo e por todo o seu comercialismo desprovido de intelectualidade musical, por favor, não seguem o som de Vanessa agora.

 

Segue o Som (2014) / Vanessa da Mata
Nota 6
Marcelo Teixeira

 

sexta-feira, 25 de abril de 2014

O som que vem do Norte: Patrícia Bastos


Patrícia: encantamento de voz e som
Há uma singularidade particular com o som que vêm do Norte: eles são fortes, formosos e encantam já na primeira audição. Há segredos e mistérios nesta região do país que muitos desconhecem e muitos querem descobrir. Zulusa, o disco bem caprichado de Patrícia Bastos, é a prova disso: aqui há de tudo um pouco, desde o som dos índios, passando pelo marabaixo e pelas belas paisagens de Macapá, sua terra natal. A beleza no canto de Patrícia faz com que esquecemos do corpo presente cheio de dívidas para cairmos num mundo na qual pouco estamos habituados: o mundo da fantasia, o mundo fantástico, rico de sol, rico de mar. A voz de Patrícia Bastos encanta pelo fato de ser irretocável: um misto de beleza e sensualidade, carregada com um toque de emoção e sentimentos. Patrícia encanta e canta as belezas de um lugar escondido do Norte brasileiro, sendo bem conduzida por Dante Ozzetti, diretor musical e de arranjos de Zulusa (2012/ Tratore / 25,00). O disco é feito de histórias e é através da música que a história se confunde com os ritmos e nos contam uma bela narrativa que nos conduz por 14 faixas muito bem cantadas por uma cantora inspirada, que através de seu canto nos mostra que a beleza está bem aqui, diante nossos olhos, ouvidos e poros. Este é o quinto disco da cantora, mas o que mais representatividade lhe prôpos: um retorno de muito trabalho e dedicação, feito com muito esforço para mostrar ao mundo (e a nós, brasileiros), que o Brasil é isso, feito de misturas de raças, cores e palavras. Quem me apresentou o canto de Patrícia Bastos fora Dante Ozzetti, ao sairmos de um show de sua irmã, Ná Ozzetti. Falou-me de uma cantora que morava no Norte, era afinadíssima e antenada com a cultura de seu povo, pronta a demonstrar seu canto. E Patrícia me arrebatou já no primeiro som que abre o disco, Canoa Voadeira, que é um passeio pelo vasto rio-mar que se vê nas belas paisagens do encarte. O povo negro aqui está bem retratado na canção Linha Cruzada, onde a sutileza na voz da cantora ecoa pelos cantos numa forma absurda de bradar algo preso na garganta. Patrícia emociona em Boi de Rua, cujo canta as influências amazônicas e  em Incantu, fala sobre o povo indígena.  Encantador do começo ao fim, Zulusa é um disco para se ouvir com ouvidos atentos, ouvidos de curiosidade, com afinco e com amor. Um disco caprichado, bem acabado, com sutilezas repletas de sonoridades distintas, abordando um tema pouco comum nos dias de hoje. Zulusa. Negros vindos da África, índios amapaenses, mulatos. Patrícia revisita a grande obra esquecida por milhares de brasileiros e expõe um disco magnífico a altura de seu talento e respeitabilidade. Zulusa é história do Brasil esquecida por brasileiros que se tornaram americanizados num país dentro do país. Zulusa é o Brasil esquecido dentro do Brasil e é nesse resgate que Patrícia reina absoluta. Zulusa é um tiro de espingarda calibrada direta e certeira na alma lírica brasileira. Zulusa não é para poucos aventureiros. Trata-se de um disco e tanto para a nossa cultura pouco valorizada. Que Zulusa possa trazer-te bons frutos e que Zulusa seja bem interpretado por analfabetos que assolam governar nosso país sem memória.

Zulusa (2012) / Patrícia Bastos
Nota 10
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 23 de abril de 2014

O inquieto Tom Zé

O inquieto Tom
Tropicalista nato, Tom Zé veio ao mundo musical para provocar e incitar algo incomum que o desagrada. Faz tudo com ironia fina e requintada, que somente ele consegue fazer. Ilude corações amargurados ou felizes e diz em músicas que os americanos são tolos e eles aplaudem. Tom Zé é um marqueteiro da própria vida, tanto musical quanto a própria e é dessa profissão que o cantor e compositor baiano consegue irritar boa parte da população. Tudo o que Tom faz, canta ou compõe é fruto de alguma indgnação, de alguma euforia, de alguma felicidade e em Tribunal do Feicebuque (2013 / 19,99 / Independente) não foi diferente. Após uma polêmica com um grupo de bebidas gaseificadas, Tom Zé respondeu ao pessoas que o criticou pela rede social com a música título de seu EP lançado em 2013, num tom ácido, cortante e provacante.  No disco, o compositor divide autoria e interpretação de canções como a que batiza o EP com Marcelo Segreto e Gustavo Galo e traz versos como Tom Zé mané / baixou o tom / baba babe / bebe e baba / velho babão, além do provocador e irônico Que é que custava morrer de fome só para fazer música?. Além do tema que abre e abocanha todo o disco, o álbum tem ainda Zé a Zero, Papa Francisco Perdoa Tom Zé, Irará Iralá e Taí, feita por ele nos anos 1970 para um comercial de refrigerante.  Seja como for, o fato é que Tom irritou metade das pessoas com este EP fantástico e sensacional, que muitos jornalistas e críticos especializados praticamente negaram a comentar sobre ele em suas revistas eletrônicas. Mas Tom segue sua vida musical da melhor forma possível: irritando o próximo e sorrindo de tal gozação. Tom vive do seu jeito e do seu tom.

 

Tribunal do Feicebuque (2013) / Tom Zé
Nota 10
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Valesca é a grande aberração do século 21



Valesca: inteligência em outro lugar do corpo
Se a música popular brasileira for salva por Valesca (prefiro não colocar o seu sobrenome de guerra), prefiro a morte. Prefiro renunciar qualquer cultivo a música brasileira e em caráter de amor maior a minha vida e a minha cultura, prefiro esconder-me no mais fundo do fundo e do fundo do abismo para que ninguém possa me encontrar. A grande pensadora do século vinte e um é uma mulher loura, de curvas salientes, rosto feio que mais parece um E.T e que não pensa com a cabeça de cima e, sim, com o gosto popular. Valesca foi considerada a pensadora do século e eu me pergunto: o que escrever aqui agora? Resta-me fechar os olhos e rir da ignorância alheia, dos falsos pensadores, dos idiotas meretrizes da agonia, da falsa carapuça usada por quem está por trás desta grande pensadora de opiniões adversos. Valesca é a grande pensadora. E ponto. Mas há controvérsias. Quem é Valesca? Driblando todas as forças do mundo, essa persona saiu dos horizontes das trevas para poder estragar a música popular com sua voz fanhosa, fazendo com que todos entortacem as cabeças para um beijinho no ombro. Uma imbecilidade pueril, um ato retardado, uma ação desconjugada de rebeldia mútua de quem não tem o que fazer e apela qualquer coisa para estar no mais alto do topo. Valesca ultrapassou Anitta, agora plastificada, e ganhou status de a nova queridinha do funk. Ganhou fãs pelo mundo afora e seu cachê triplicou. Rebola seu gosto popular a torto e a direito e intimida as pessoas com seu olhar canibal. Valesca é o oposto da cultura: ela não canta, não sibila, não ensina, não tem moral, não tem musicalidade na veia, não sabe a que veio. Alguém poderia lhe mostrar o caminho da rua? Mais do que tentar cantar, Valesca chegou ao topo se mostrando uma cantora competente, com um clipe musical a altura de uma Lady Gaga e com vestimentas horrendas, fuleiras, capengas. Com um palavreado chucro, Valesca entrou para o mundo da fama pela porta que estava aberta, sabendo que não fora convidada para estar ali.  Logo o mais será despejada assim como fizeram com Anitta, a plastificada. Valesca é uma cantora fútil, que não agrega em nada na nossa cultura e que está se valendo de uma única música para se tornar a nova estrela nacional. Mas vale lembrar que o topo mais alto da fama é substituível e que toda estrela um dia se apaga.

 

Valesca, a grande pensadora!
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Zii e Zie (2009) e o transambas de Caetano Veloso


Zii e Zie: sambas e reflexões de Caê
Que Caetano Veloso é embalado por orixás e deuses da Bahia de todos os santos, disso todo mundo sabe, mas na música que fecha Zii e Zie,  Diferentemente, ele deixa claro que não crê em Deus, diferentemente de Osama e Condoleeza. A música fecha o disco com chave de ouro, tendo em vista que Zii e Zie (2009 / 28,99 / Universal Music) não trata de religião e sim, de sambas e mistérios que somente um certo Caetano consegue fazer. São sambas e bambas gingados com categoria de um grande disco, embora por vezes o inquieto e belo Rio de Janeiro deixe a impressão de que tudo é samba, paz e amor. Transambas é um subtítulo adquirido e muito bem aplicado no disco, mas Caetano ousou um pouco mais ao trazer músicas como Incompatibilidade de Gênios, de autoria de João Bosco e Aldir Blanc, destoando toda a sutileza irreal da atmosfera de todo o disco. Zii e Zie é um disco de samba sincopado, desses de se ouvir sentado, alimentando e digerindo cada palavra, cada som, cada melodia. Ao todo são treze faixas em que Caetano desfila sua eterna e alegre musicalidade, sendo na sua maioria a autoria e passeando por um Rio de Janeiro colorido das praias, das favelas, da Lapa e do Leblon, além de apontar para Guantánamo e outros distantes lugares do mundo. A denúncia em A Base de Guantánamo, sobre a base militar americana em solo cubano é retratada com afinco e sabedoria, assim como Lobão tem razão que, antes de ser gravada aqui, Caetano já havia apresentado em shows anteriores, tentando arrancar emoções do público por onde passava. Menina da Ria é um oposto e uma homenagem a Menino do Rio, eternizada na voz de Baby do Brasil e aqui ganha cores de uma negra, que tanto o compositor gosta. Contemplando o disco, ainda há pérolas como Perdeu, Cais, Por quem?, Falso Leblon, a engraçada Tarado ni você, Ingenuidade, Lapa e a atemporal Diferentemente. Caetano sabe que não é mais aquele jovenzinho que queria mudar o mundo e sabia que estava ficando velho ao lançar Zii e Zie, por isso talvez tenha se cercado de pessoas mais jovens para a realização deste trabalho. A ascensão brasileira, a política, o mar, as notas híbricas e a tristeza íntima mastigada por Caetano estão todos aqui retratadas de forma sublime em um disco de alto nível. É certo que o tempo passa para todos nós, porém Caetano sempre procura se manter atual, dentro do universo que o consagrou na juventude.

 

Zii e Zie (2009) / Caetano Veloso
Nota 10
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Jota Quest e um disco chato

Funky Boom: chato, chato, chato
Há muito tempo que a banda Jota Quest deixou de ser o Jota Quest. Suas músicas passaram a ser tediosas, suas letras paupérrimas e a voz de Rogério Flausino passou a ser chata, inaudível. Formada em 1993, o grupo só veio a calhar mesmo nos anos 2000, depois que a onda pagodeira suavizou e depois que o dilúvio sertanejo aquietou-se. Com propostas boas no início de carreira, o grupo desenrolou um bom desempenho frente aos grupos e bandas já existentes e conseguiu alcançar um patamar excelente dentro do segmento. Cinco anos separam Funky Funky Boom Boom (2013 / 21,99) do público jovem do Jota Quest, mas o disco, que nasceu para ser audacioso, não vingou por alguns deslizes fatais: a voz do vocalista é insuportável, a banda já está para lá de se aposentar e as modernidades do grupo não soam mais como antigamente. Chega a ser ridículo ver Rogério Flausino com roupinhas coloridas, pulando timidamente e cantando o amor romântico de adolescentes felizes. Porém, o resultado do novo disco é uma capa extraordinariamente criativa e algumas (poucas) músicas boas.  Resgatando raízes da soul music com certos elementos do funk, as músicas ditas descoladas até que deram certo em alguns momentos, como a música que leva o título do álbum. Mas só. Mesmo sendo um disco dançante, pulante e eletrizante (para alguns), o disco não passa do mesmo espetáculo fraquinho ao qual o grupo mineiro sempre se dispôs: de peripécias ultrapassadas a músicas sem graça, Funky Funky Boom Boom só se salva pela capa, na sua maioria.  Disco comercial do início ao fim, o grupo parece não ter se preocupado tanto assim com as letras, fazendo rimas desnecessárias para impactar ou tentando inflamar o ego insustentável deles mesmo para pensarem que estavam fazendo um excelente disco. Lero engano. O disco é fraco e chato, deixando o ar de nostalgia e cansaço no ar. Ela é do Rio mostra o único salto positivo do grupo, que é justamente a arte de se reiventar, dando ao título do trabalho o significado maior: a faixa é um funk que ecoa nos ouvidos com um som descontraído e engraçado. Imperfeito e o meio sambinha Jota Quest Convidou se tornaram destaques de todo o álbum, mas são músicas aquem, que logo desliga o som, já não importamos com a letra. Jota Quest é assim: um grupo que morreu à mingua, que lança discos fracos, deixando a desejar e tentando ser importante.
 

Funky Funky Boom Boom / Jota Quest
Nota 6
Marcelo Teixeira