sexta-feira, 13 de setembro de 2013

O senso (in)comum de Rodrigo Pitta em disco elitizado


Rodrigo: pouca voz em CD elitizado
Mesmo sendo um dos cantores e compositores da nova geração com um certo respeito no mundo da produção cinematografica e teatral, Rodrigo Pitta não me agrada como cantor. Suas letras são ótimas, com excelentes tiradas sobre o mundo moderno e sobre a cidade cinza que é São Paulo, mas sua voz não me agrada em nada. Ao menos suas canções estão no patamar de serem as melhores dos últimos tempos e as mesmas canções poderiam ser cantadas por cantores de qualquer estirpe dentro do melhor da MPB. Menos por Rodrigo Pitta, seu idealizador.  Disco de estreia do artista, Rodrigo lança Estados Alterados em um clima de mistério e sofisticação de elite. Sim, a música de Pitta não é para qualquer classe social e não é qualquer um que pode chegar e dizer que gosta de seu trabalho, até mesmo porque Rodrigo Pitta transpassa o ar de intelectual demais num país em que os jovens são mais ligados em estilos mais popularescos, como Anitta, Naldo ou qualquer outra aquisição menos comportamental. Mas o disco de estreia de Pitta é mediano, para ficarmos apenas no mediano. Estados Alterados foi gravado no Rio de Janeiro e masterizado no outro lado do mundo, no Japão e tem toda a cara de São Paulo por um único motivo: ser cinza demais. Produzido por Arto Lindsay, o disco exibe como tema capital a melodia Sambas Alterados, incluída na novela atual global, Amor à Vida e não por acaso, a faixa ganhou um eficiente clipe gravado na Ponte Estaiada, na zona sul de São Paulo, e traz intervenção de Racionais MCs, recitando a letra de Sampa, de Caetano Veloso.

O trabalho é definido por Rodrigo Pitta como diversas químicas que o levam a estados alterados e o amor é uma delas, assim como a dor. No disco há também músicas para dançar, temas do candomblé, drogas e suas alterações de consciência e senso de realidade. E a própria vida urbana com seus variados estados de ser, estar, permanecer e ficar. Assim como a melancolia urbana às vezes é árida, às vezes suave e melódica no seu interior, Pitta traduz uma felicidade ímpar num trabalho que teve dois anos de gestação, entre março de 2011 e março de 2013. O disco, repito, não é ruim, mas a voz de Rodrigo Pitta, por vezes, cansa, enjoa e nos faz forçar os dedos para desligar o som para que não possamos ouvir sua música devido a sua voz ser chata. Tirando isso, o disco tem um senso comum equilibrado, gostoso de ver, de pegar, de comentar. Apenas.

Da tristeza romântica de Blue Tuesday, a única música em inglês, ao mix de house e rock de Caos, o disco tem uma pitada brasileira nordestina em Água Tudo e Eletroquímico, assim como a saborosa Estados Alterados. Bad Trip e Minha Cabeça, Meu Avião são como sintomas de saudades sobre as viagens de Pitta e sobre desiluções amorosas do mesmo.

Estados Alterados é para a classe média e para o ouvinte mais ligado na música chique e bem elaborada. Não para qualquer um.



Rodrigo Pitta / Estados Alterados
Nota 4
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

O lado asco de Naldo: a sua música!


Naldo: totalmente oco
Nós tínhamos um excelente repertório no início de carreira”. A frase poderia ter saído da boca de um Caetano, um Chico, um Milton, um Gil ou um Djavan ou, até mesmo de uma Ná Ozzeti, Tiê, Tulipa Ruiz, Rita Lee, Maria Rita, mas não. Saiu da boca de um cantor fajuto que saiu da pobreza cantando marombas sem pé nem cabeça e embalando cabeças ocas e sem futuro. A frase é de Naldo agora Benny, porque talvez ele ache melhor ter um sobrenome americanizado. A frase dita por Naldo foi proferida no programa do apresentador Roberto Justus e quando dita, soltei uma risada iâmbica, assustadoramente igual ao da usurpadora Paola Bracho. Se Naldo tinha um excelente repertório no início de carreira, então o que ele canta hoje são louvores dignos de uma plateia repleto de ignorantes marginalizados que estão ali para ouvir e ver um cantor com mais músculos que inteligência musical. Naldo é um desses cantores que merecem ir para a latrina e ao darmos várias descargas, temos que ter a certeza de que ele não voltará a nos perturbar. Perturbação é com ele mesmo, por sinal. Ultimamente, o cantor tem participado de programas de auditorio e fazendo ar de garoto propaganda de vários patrocinadores com sua musiquinha horrenda e sem intelectualidade alguma.

Desejo vida curta ao Naldo pelo simples fato de que sua própria vida musical é digna de panfletagem mórbida. Naldo é a personificação da pior espécie de músico, o que consegue atrair para si um número gritante de loucas e alucinadas e ainda por cima consegue ser o centro das atenções até mesmo quando o assunto não é música, uma área que ele, definitivamente, não conhece. Lançando seu mais recente disquinho, Na Veia, Naldo emplacou apenas um sucesso, mas está mais conhecido como o garoto da dúvida entre wisk ou água de coco. Pra ele tanto faz.

A frase faz parte de uma pergunta de Justus sobre o início da carreira musical do cantor, que fazia dupla com o irmão, assassinado à tiros e que Naldo evitou tocar no assunto. Formavam um grupo de rap carioca e o tal disco fora lançado no inicio dos anos 2000. Nesse mesmo ano, quem estourava de norte ao sul do país era a diva baiana Daniela Mercury, que estava ao seu lado no programa e que mal conversaram. Deboche de si mesmo, Naldo é o pior cantor surgido nos últimos anos. Até mesmo um cantor sertanejo recém chegado ao mundo fonográfico seria melhor que ele. Venhamos e convenhamos, mas Naldo já deu o que tinha que dar.

 

O lado asco de Naldo: a sua música!

Marcelo Teixeira

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

A palavra de Chico Buarque



A nova fase de Chico em 1995

Uma Palavra (1995 / BMG / 22,99) é o 29° disco da carreira de Chico Buarque e é um paradoxo fascinante do ponto de vista crítico de um artista completo. Entre as quinze faias não figura sequer uma única composição inédita, mas o disco em si parece ser inédito, principalmente por novos adeptos ao mundo buarqueano. Todas as músicas, no entanto, compartilham ao menos três unanimidades sequenciais de beleza, sofisticação e intelectualidade. A primeira unanimidade visivel é que as quinze faixas integraram o repertório do show Paratodos, que rodou o Brasil entre 1993 e 1994. A segunda unanimidade é que nenhuma delas figura no álbum com esse mesmo nome que Chico lançaria dois anos antes, no caso, 1993. A terceira unanimidade e, de longe, o mais importante, é que em comum, Chico trouxe ao disco Uma Palavra todas as composições de maior relevância uma interpretação e releitura novas, idealizando assim, uma nova roupagem para músicas como Rosa (1979), Samba e Amor (1969) ou Pelas Tabelas (1984).

Canções tão diversas e distantes entre si no tempo, como Valsa Brasileira (1988) e Amor Barato (1981) tiveram estruturas rítmicas praticamente reinventadas e o resultado foi um disco marcante para o seu lançamento (1995), em que a obra de Chico Buarque explora novas e ricas fronteiras no território da musicalidade. Uma Palavra foi também o primeiro disco de Chico lançado no formato CD.

O disquinho, na verdade, é um discão. Capa bem caprichada, mostrando um Chico ao mesmo tempo novo e entrando na terceira idade, mistuando-se entre uma foto antiga, faziam toda a diferença. Sua faixa de abertura, Estação Derradeira, fora gravada originalmente no disco Francisco, de 1987. Morro Dois Irmãos, a seguinte, se alia à primeira e formam hinos agridoces ao Rio de Janeiro, em cujas letras se misturam entre o fascínio e as mazelas da cidade.

Este clima mais denso é quebrado na sequencia pela doçura da valsa-choro Ela é Dançarina, que fora gravada para o disco Almanaque (1981). Ofuscada na gravação original por obras-primas como As Vitrines ou O Meu Guri, a música desta vez explodiu. Ela narra o divertido relacionamento de um casal que mal se encontra diante da natureza de suas ocupações. Samba e Amor é a canção gravada no esquecido disco Chico Buarque de Hollanda 4, de 1969 e que ficou famosa na interpretação malemolente de Caetano Veloso. A Rosa, música que lhe fora encomendada pelo astro italiano Sergio Endrigo e Joana Francesa, composta em 1973 para um filme de Cacá Diegues, em cuja letras Chico faz incríveis jogos poéticos bilíngues, faz com que o disco soe mais atual.

O Futebol é um samba-homenagem aos craques Pelé e Mané Garrincha, Didi, Pagão e Canhoteiro, ídolos confessos de Chico. As canções finais do disco são marcos consideráveis e de maior relevância da carreira magistral de Chico. A assanhada e aquecida Pelas Tabelas tornou-se involuntariamente o hino da campanha pelas Diretas Já. Eu Te Amo é uma das mais belas parcerias entre Chico e Tom Jobim, praticamente dispensa comentários. Valsa Brasileira fora composta pelo amigo de longa data Edu Lobo e transformou-se em uma pérola clássica da MPB.
 
O deboche suave do samba Amor Barato, o balanço pessoal altamente poético contido nos versos de Vida e, por fim, a faixa-título são de uma beleza retumbante. Embora um tanto hermética, Vida ainda é uma tocante homenagem de Chico à matéria-prima de seu trabalho. Mesmo atravessando boa atuação da crítica e de fãs (que triplicaram desde o lançamento de Paratodos, em 1993), Chico resolveu ficar enclausurado no segundo semestre de 1995, escrevendo entre a ponte áerea Rio/Paris seu segundo romance, Benjamim.

Antes de aventurar-se pelas ideias de um cinquentão que revê sua vida sendo fuzilada, Chico Buarque nos presenteou com um belo disco, com clássicos de sua carreira, nos brindando, mais uma vez, com sua intelectualidade perversa, ácida e, ao mesmo tempo, impressionante.

 
Uma Palavra / Chico Buarque
Nota 10
Marcelo Teixeira


quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Clarice Lispector por Simone Guimarães


Clarice: ótimo
Milton Nascimento a definiu como selvagem e é através desta selvageria que Simone Guimarães abraça seu último disco, intitulado Clarice, numa justa homenagem à escritora ucraniana naturalizada brasileira, trazendo para a fonografia brasileira um registro audacioso e grandioso. Clarice é um dos mais belos discos brasileiros produzidos nos últimos anos e toda essa beleza e dramaticidade pode ser conferida através do som de uma das mais espetaculares cantoras surgidas nos últimos tempos. Seu nome é Simone Guimarães, a qual o Mais Cultura! teve o prazer de entrevistar este ano. Sempre tive vontade de escrever sobre livros e música e o universo particular de Clarice Lispector (1920 / 1977) invade a alma da musicista e toca fundo no coração de quem ouve Clarice (2013 / Café & Pupunha / 24,99), um dos mais belos discos de Simone Guimarães e praticamente selecionado ao posto de melhor CD do ano. Invadir a alma literária de um escritor renomado e transformar sua melancolia, sua vivência, seu carisma, seu mau humor, sua discrepância, sua circuncisão, sua solitude e sua maestria em música é algo realmente dificil, transgressor e um pouco rebelde. A selvagem Simone Guimarães entra em conluio a obra intimista e solitária de Clarice Lispector e nos brinda com canções altamente sofisticadas, com um lirismo profundo e sentimental, com convidados luxuosos que nos faz crer que a música e a literatura ainda possam andar juntas, lado a lado, num enrolar de mãos. Simone traz todo o louvor de categoria refinada e lustrosa e coloca em xeque-mate todo o seu sentimento pela escritora, através de músicas sublinhadas pelo equatorial senso comum que seus livros representam. Ao ouvir canções como Clarice e Como a Vida, o ouvinte mais atento já estará familiarizado com todo o resto do disco. E para o leitor mais assíduo de Clarice, este encontrará diversas nuances na musicalidade de Simone para com o tratamento da obra da escritora.

Com convidados mais que especiais, Clarice conta com um ninho de poesias e pilhas de versos diversos cantarolados em um misto de carinho e sentimentos. Toda a melaconlia bucólica e sofrida por Clarice ao longo de sua vida estão espalhadas em músicas como Sem Mais Tristeza ou Como a Vida. A claridade com que as músicas são disparadas a ouvidos solenes fazem com que o ouvinte mais atento agarre o disco por completo, tamanha a sua identificação com a obra da escritora. Prevalece também os duetos, sensacionais, a qual Simone nos presenteia. Está aqui as irmãs de Chico Buarque, Miúcha, mãe de Bebel Gilberto e Ana de Hollanda, assim como os filhos de Dorival Caymmi, Danilo e Tom Jobim, Paulo.

 

Basta olhar nos teus olhos, Clarice

Olhar que ninguém vê

Como são claros, os teus olhos Clarice!

Claros de convencer

Tão evidentes, manifestos, inequívocos

Claros, Clarice... mas distinto o seu caminho!

Saudades de você

Só pra encontrar o seu mundo Clarice

Procurei escrever

(Trecho de Clarice, letra e música de Simone Guimarães)

 

Dando um show de interpretação à parte, a cantora Ilessi canta com a alma a canção Rastros no Asfalto, composição que, álias, é de seu pai, o compositor Gonzaga da Silva. A música é sublime e o dueto de Ilessi com Simone é de arrepiar. Uma mistura de evidência e saudade é transpirada em Estrela do Mar, com a capacidade vocal de Danilo sagrando-se sobre a voz de Simone, entrelaçando e destoando toda a emoção sentimental e floral aquecida e coloquial sobre Yemanjá, estrelas e caminhos desertos.

O otimismo e a afetuosidade foram os pontos fundamentais para a elaboração deste trabalho tão genial e primoroso a qual Simone Guimarães adentrou de cabeça para projetar o universo de uma das mulheres mais influentes do País. Mostrar seus sentimentos, seus medos, anseios, círculos de amizades e repulsa pelo novo através de uma folha em branco e repassar tudo isso para a música não é uma das tarefas mais fáceis. Mas Simone conseguiu fazer um trabalho vigoroso, digno de merecimento de aplausos efusivos e contagiantes. Muito criativa, Simone possui um charme especial para com a música que entra em seus poros e sua sinceridade permite que mesmo diante das mais difícieis situações, encontra um lado positivo e entusiasma a todos a sua volta.

Simone soube aproveitar cada música com requintes intelectuais para fazer um excelente trabalho. Clarice nos mostra interiormente, mesmo que em planos distantes, o quanto nossas vidas não nos pertence e essa dimensão é transportada em melodias ricas de detalhes e vozes em uníssono carregadas de emoção. O desejo íntimo da alma, como reaginos, pensamos e somos, nossas esperanças, nossos sonhos, nossos ideais, nossas motivações, nossas forças resgatadas. Por vezes, a voz de Miúcha nos remete a pensar que Clarice Lispector está presente, em nossa frente, em nossa visão rente e humana. E isso é válido, pleno e sereno, pois Clarice nos faz crer que a alma é pertencente a este mundo, ao mundo em que vivemos.

Músicos de altíssima categoria, como Novelli e Leonel Laterza fazem um diferencial e tanto para o disco, em canções carregadas no alto valor afetuoso. Em Janaina, Meu Canto de Guerra, temos a certeza de que o além existe e as vozes de Novelli e Simone tornam a se misturar, entregando-se aos prazeres do místico. André Mehamari é um dos músicos mais competentes da atualidade e faz uma justa participação com seu piano em faixas como Clarice e Vi. Tem também Guilherme Arantes (Muito Diferente) e Leandro Braga no arranjo e piano em Como a Vida, Passarinhada, Rastros no Asfalto e Beija-flor Colibri.

Com um ar de Clube da Esquina, Simone recria com classe a música Vera Cruz, de Milton Nascimento e Márcio Borges e as vozes secundárias fazem toda a diferença, dando a dimensão da voz da cantora: selvagem, distinta, intrépida.

A realidade de Clarice Lispector transpassa para Simone Guimarães na mais pura e inquieta transição. Talvez seja um recado da cantora para a posteridade ou, quem sabe, para a modernidade conhecer a obra dessa grande escritora. Mas precisamos ouvir Clarice para termos a plena certeza de que a música popular brasileira como um todo, está a salva de intrépidos cavaleiros urbanos contrariados com a própria imagem surrealista. Precisamos abraçar Clarice para que tenhamos a nítida certeza de que a música popular brasileira está capacitada de vozes como a de Simone Guimarães, que é uma cantora excepcional, assim como seu mais recente disco.

 

Clarice Lispector por Simone Guimarães

Nota 10

Marcelo Teixeira

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Agenda Mais Cultura! Olivia Genesi lança novo disco no Vila Mariana


Oitavo disco da cantora
Lançando seu oitavo disco, Melodias de Sol em Pleno Azul, a cantora Olivia Genesi se apresentará no auditório do Sesc Vila Mariana hoje para apresentar o melhor da música popular brasileira, com influência do pop, rock, reggae, groove e jazz, contando com a participação dos músicos Fábio Rodrigues (guitarra), Bruno Balan (bateria) e André Sangiovanni (baixo). Moradora da cidade de São Paulo, Olivia Genesi consegue transmitir com muita criatividade, todos os aspectos cinzentos que a cidade produz e sua música é rica em detalhes e minunciosamente bem trabalhos.  Olivia é cantora, compositora, produtora musical, arranjadora e professora de música e seu estilo musical tem como formação o canto erudito, jazz, a música oriental, Tom Jobim, Mozart, Gilberto Gil, fazendo dessa mistura seu estilo próprio de fazer música. Sua voz é suave, acalentada e sua música é um bem-vindo convite aos prazeres que só a boa música consegue fazer: um misto de encantamento e sutileza capaz de nos transportar a mundos distantes. Melodias de Sol em Pleno Azul mostra toda a versatilidade de uma das melhores cantoras da atualidade em plena forma artística no seu melhor desempenho e isso pode ser comprovado hoje, no Sesc Vila Mariana.

 

Serviço

Agenda Mais Cultura: Olivia Genesi

Sesc Vila Mariana

Rua Pelótas, 141

Fone: 5080 3000

Horário: 20:30

Quando: Hoje, 30/08/2013

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

A bossa de Zizi Possi


A bossa sensível de Zizi
Quando Zizi Possi lançou Bossa, houve muita confusão, porque todos acharam que o disco seria uma homenagem à bossa nova e, quando ouvimos música a música, uma ou outra canção remetia ao movimento. Zizi Possi, na verdade, não queria fazer de Bossa um disco de bossa nova. Ou melhor, queria fazer um disco de não-bossa, armando-se de complexas explicações conceituais sobre células de bossa nova e outros babados. Ela cai numa contradição ao tentar explicar demais a obra, principalmente porque, entre a bossa e a anti-bossa, Zizi não escolhe nem uma nem outra: prefere a si mesma. Assim, não dá para deixar de notar que a tal reinterpretação do cânone bossanovístico nem ficou tão inovadora e inédita assim - pois mais do que qualquer conceito, o que impera em Bossa é a diva, cantora de técnica impecável e eternamente no fio entre a dramaticidade do canto e a aspiração cool dos arranjos que a cercam. Mediano como disco de bossa nova e meio frustrante como viagem criativa, o novo CD é, mais de tudo, ótimo em um gênero no qual a cantora é única: o ser Zizi Possi.

A bossa de Zizi é elegante, feita de sonoridades sutis (reforçadas pelas inevitáveis cordas gravadas em Londres). A condução do álbum é dada pelo violão de batida joãogilbertiana de Camilo Carrara, que permeia o disco (quase) de ponta a ponta. Assim como elegante também é a cantora que se derrama em um repertório quase todo já conhecido, à exceção de duas faixas. Uma delas, Qualquer Hora, talvez seja o melhor momento do CD, na qual Zizi sussurra a bordo de um arranjo intrigante e desconstruído.

A outra novidade é um Herbert Vianna não exatamente memorável (Eu Só Sei Amar Assim, que apesar de tudo tem um refrão bonitinho). Novidade também há na duplicada Preciso Dizer que Te Amo, que ganha uma versão normal para abrir o álbum e outra alterada para fechá-lo. Essa segunda passagem pela canção pode ser mais perto que Zizi poderia chegar de um trip-hop, sob a produção de Dudu Marote.

As referências mais explícitas à bossa ficam também nas entrelinhas - como o atropelamento da métrica tradicional em Caminhos Cruzados, e também na versão de Preciso Aprender a Ser Só (que ganhou ares de jazz-song, com contrabaixo e piano em primeiro plano). Mas quando desencana e canta com tudo o que pode - como na bela So Many Stars - Zizi faz a todos mais felizes.

 

Bossa / Zizi Possi

Nota 10

Marcelo Teixeira

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Agenda Mais Cultura! Brasília recebe Sandra Duailibe, Lúcia de Maria e Jô Alencar juntas


Três vozes
O Clube da Bossa apresenta neste sábado, dia 24 de agosto, três grandes vozes que conquistaram um lugar especial no coração dos brasilienses, mostrando toda a sua força, capacidade e elegância vocal. As cantoras Sandra Dualibe (conhecida há muito tempo do Mais Cultura!), Lúcia de Maria e Jô Alencar sobem juntas ao palco do Teatro Sílvio Barbato para cantarem pérolas da boa música brasileira. Para acompanhá-las, mais uma vez o compositor, pianista e arranjador musical José Cabrera, o baixista Paulo Dantas e o baterista Amaro Vaz estarão presentes para mais um espetáculo. Brasília é o pólo efervescente e musical dos últimos anos, com grandes cantoras e excelentes musicos que conseguem extrair a magnitude maravilhada de uma ampla musicalidade. O Agenda Mais Cultura! divulga hoje três grandes vozes, três grandes cantoras que conseguem agregar música com beleza e três grandes mulheres brasileiras: Sandra Duailibe, Jô Alencar e Lúcia de Maria.

 

Clube da Bossa

Com Sandra Duailibe, Jô Alencar e Lúcia de Maria

Local: Sesc Brasília (Teatro Sílvio Barbato)

Horário: 11:30 às 13 horas

Data: 24/08/2013

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

A decepção de Maria Gadú em Nós


O disco: sem novidades
Mais uma vez, Maria Gadú nos engana com seu disquinho mesquinho e sem grandes pretensões. Lançando Nós (2013 / Slap / 24,99), o CD é uma compilação de músicas gravadas em duetos com outros cantores em discos de terceiros e com qualidades superficiais (como anda ocorrendo vez por outra na carreira da jovem cantora). Maria Gadú foi lançada ao mercado fonográfico em 2009, trazendo um ótimo (mas cansativo) disco de estreia, cujo trazia releituras de Chico Buarque (mais tarde ela se renderia ao baiano Caetano Veloso) e uma canção capenga de Kelly Key. O disco de estreia era sensacional e hoje é apenas mais um disquinho qualquer guardado no fundo do baú e que só nos lembramos quando vamos limpar o ambiente. Mesmo assim, ouvir Maria Gadú está sendo uma das tarefas mais ordinárias no momento. Primeiro porque ela lança discos sensacionais, mas que cansam devido a sua voz ser estardalhada demais, cansativa demais, oriunda demais.  Segundo porque Maria Gadú se infiltrou no caminho de Ana Carolina, cantora mineira que arregaça qualquer tímpano sincero de boa musicalidade e terceiro porque Maria Gadú se sentiu estrela antes de ser estrela e com isso a sua estrela se apagou.

Não posso ser tão ignorante ao ponto de dizer que Maria Gadú é uma cantora em ascenção quando lança qualquer disco. O de estreia, como eu disse, é uma maravilhada quando ouvida duas ou três vezes no máximo. Em seguida vem o Multishow Ao Vivo, cujo reúne sucessos originários que não é preciso ser dito, para logo depois surgir o encontro de Maria Gadú com Caetano Veloso, a qual eu chamo de o encontro entre o velho e o novo, na qual o velho ainda predomina o que é novo. Mais Uma Palavra é um disco que, segundo a minha opinião, é melhor que o primeiro. Sai Chico Buarque, entra mais uma vez Caetano Veloso e aparece um Lenine meio escondido ao lado de músicas espanholas e americanas. Gadú ainda está perdida no próprio caminho.

E Gadú é sempre assim: lança um disco de inéditos, depois emenda com um disco de sucessos. Para tanto, lança agora (previsto para o lançamento oficial a partir do dia 15 de agosto) o CD Nós, em que canta músicas gravadas em discos de outros cantores em formato de duetos. O disco não trás muitas novidades e passará despercebido, mesmo sendo anunciado pela grande mídia como o lançamento do ano.

Maria Gadú precisa aprender a ser Maria Gadú e ainda precisa crescer, pois sua fase de garota infanto juvenil que sabe tocar violão,  sabe cantar em francês e que não é igual à Manu Gavassi está longe de ser apagada. Ainda é rodeada por verdadeiros profissionais que não sabem aproveitar o talento da cantora, que insiste em se mostrar culta perante os fãs cantando Caetano e Chico numa forma horrenda. Para que isso aconteça de verdade, Maria Gadú precisa fazer um disco de verdade, a altura de sua estatura!

 

Nós / Maria Gadú

Nota 3

Marcelo Teixeira

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Agenda Mais Cultura! Minas Gerais recebe o cantor Luiz Marques


O cantor Luiz Marques
Um dos maiores (e melhores) cantores e compositores surgidos nos últimos tempos, Luiz Marques marca presença na cidade mineira para lançar amanhã, dia 17 de agosto, o DVD Mira Certa, em que canta músicas autorais com um requinte de lirismo, poesia e sofisticação. Com coerografica da competente bailarina Sandra Magalhães, o show que será realizado amanhã em Ouro Preto será calcado nas maravilhas cantadas por este mineiro de voz cristalina e atitudes simples para um público ávido por boas canções. O DVD é uma obra-prima e conta com musicos do calibre de Alexandre da Mata (guitarra), Waldir Cunha (baixo) e Pedrinho Moreira (bateria) e nos  emociona de uma tal forma, que é capaz de nos transportar para outras dimensões com músicas leves, florais e sentimentais que nos arrepia a pele. Luiz Marques é um dos raros cantores surgidos na MPB que conseguem me deixar animado com sua ginga, com sua beleza musical e com seu profissionalismo. Minas Gerais será o local privilegiado e escolhido pelo grande artista para o lançamento deste DVD e para entrar basta levar 1 kl de alimento não perecível. Perder a chance de ver um artista completo, cantando pérolas sensacionais e se emocionar perante uma grande voz é perder um dos maiores espetáculos musicais já vistos no Brasil. Luiz Marques é brasileiro, mineiro, merecedor de todos os aplausos possíveis e conquista um espaço aqui no Mais Cultura!, pois sua genialidade musical e artistica é abençoada pelos deuses.

 

 

Minas Gerais recebe Luiz Marques

Data: 17/08/2013

Horário: 20 horas

Local: Teatro Municipal Casa da Ópera,

Rua: Brigadeiro Musqueira, s/nº

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Carla Visi estraga os clássicos de Clara Nunes em tributo


Carla: convidados sem graça
Vou direto ao ponto: Carla Visi estragou a obra deixada por Clara Nunes. Guerreira de Minas Gerais, Clara (1942 / 1983) deixou um legado e tanto para a posteridade, com grandes músicas e sambas cadenciados pelos melhores compositores de seu tempo e que se transformou em algo quase intocável e motivo de inspiração para muitas cantoras boas que surgiriam ao longo desses anos. Mariene de Castro, Fabiana Cozza e Virgínia Rosa são as cantoras que mais se inspiram na beleza no canto de Clara Nunes, assim como Mariana Aydar, Vanessa da Mata e Marisa Monte, que já deixaram claro e evidente em entrevistas que foram inspiradas pela Guerreira. Neste ano realiza os 30 anos de morte dessa grande cantora e homenagens foram pontuadas de canto a canto do país, deixando ainda mais um rastro de saudades e encantamento por Clara. Mas enquanto algumas homenagens são ditas boas, outras são capengas e mediocres a ponto de entrar para a história musical como o pior volume discogrÁfico dos últimos tempos.

Carla Visi é uma boa cantora, tem carisma, voz, mas seu canto não passa do insulto musical que embalou o Brasil com suas músicas baianas de baixo calão e duplo sentido oriundo.  Feito às pressas e com um acabamento horrendo, Carla homenageou Clara na pior das homenagens e fez do tributo algo comercial demais, horrível demais e sofrível demais. Talvez o que diferencie este trabalho de outros lançamentos, sejam as músicas praticamente esquecidas que Clara gravou no início de carreira e que hoje em dia quase ninguém reconhece. O fã mais ardoroso com certeza se sentirá privilegiado ao ouvir canções como Dia de Esperança, lançado em 1966 e que aqui é cantado em dueto com a neo-sertanejinha Paula Fernandes. Ou então sentir orgulho em ouvir Tributo aos Orixás, música competente e com lirismo puro, cujo quase não é tocado por outro músico e que foi gravado em 1972. De 1969 veio Foi Ele, composta por Carlos Imperial e que praticamente Visi a retirou do baú. Mas é só.

Sinto vergonha em poder ouvir Carla cantando sucessos de Clara ao lado de Paula Fernandes, Péricles ou Thiaguinho, músicos que talvez nem conheçam ou tenham intimidade com a obra maravilhosa de Clara. Ser diferente de outras grandes interpretes para fazer um disco em tributo é tudo o que uma cantora quer na vida, mas fazer estardalhaço com a obra da homenageada é outro patamar. Clara merecia tratamento melhor, assim como fizeram Virgínia Rosa no show que vem realizando desde o ano passado, o belissímo e emocionante Virgínia Rosa canta Clara ou da premiadissíma Fabiana Cozza, que vem emocionando corações com seu canto forte em Canto Sagrado, cujo foi realizado recentemente um DVD sobre o espetáculo.

Homenagem é homenagem, mas precisa ser muito bem feito, caprichado e ainda mais por se tratar de uma das maiores cantoras do Brasil. Cantores como Daniela Mercury, Péricles, Paula Fernandes e Thiaguinho dividem o microfone com a baiana em algumas das longas 17 faixas do álbum. Com Daniela, por exemplo, ela canta Morena de Angola e já em O Canto das Três Raças, a ex-vocalista da banda Cheiro de Amor faz dueto com Péricles.  Aí eu pergunto: qual a ligação dessas vozes com a obra de Clara? Paula Fernandes, rainha do sertanejo empobrecido cantando os sambas de Clara? Tem algo errado neste samba.

Carla Visi Pura Claridade (2013 / Sony Music / 29,99) é um dos piores momentos da música popular brasileira. Sem beleza, sem samba no pé, sem malemolência, Carla deixa a peteca cair a cada faixa embalada por seu canto, que não entusiasma em momento algum. O que poderia ser um verdadeiro caminho para o sucesso (como o caso de Mariene de Castro, Fabiana Cozza e Virgínia Rosa com seus shows abarrotados de pessoas ávidas por ouvirem as músicas de Clara), Carla deixou de mão o carinho, o afeto e a respeitabilidade oferecida para cair em um nicho cheio de pólvora incapaz de ser lembrado.

Carla Visi continua linda demais, cantando bem demais, mas errou e muito ao se apressar para fazer este disco como forma de tributo. Errou na capa, errou na escolha dos convidados e continuará errando quando não estudar o que se quer apresentar. Ser leiga no assunto requer estudos, requer profissionalismo, requer qualidade e Carla não soube aproveitar este momento tão importante que seria para a sua vida musical, tendo em vista que a cantora amargura vez por outra ostracismos longos.

 

Carla Visi estraga os clássicos de Clara Nunes em tributo

Nota 1

Marcelo Teixeira

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Agenda Mais Cultura! Brasília recebe Nathália Lima nesta sexta feira


Show de Nathália
Sempre digo que as minhas melhores cantoras brasileiras são as desconhecidas do grande público. Isso não é nenhuma demagogia ou querer ser alguém diferente de qualquer pessoa, mas acontece que muitos pensam igual à mim e talvez por isso, eu tenha recebido diversos tipos de CDs para que eu possa ouvir: na sua maioria, cantoras desconhecidas ou que fazem um certo barulho na região aonde moram. Nathália Lima é uma dessas cantoras brasileiras que a grande mídia ainda não descobriu e que já tem no currículo um disco em homenagem à Roberto Menescal, um dos pais da Bossa Nova, intitulado Elas Cantam Menescal, lançado no ano passado.

Admiradora de Gonzaguinha e Chico Buarque, Nathália Lima agora volta aos palcos brasilienses com um novo espetáculo, cheio de alegria, baianidade e sofisticação. No show Bem Leve, a cantora e Cairo Vitor trazem, no formato violão e voz, a leveza das canções de alguns dos maiores compositores brasileiros, entre eles Milton Nascimento, Rosa Passos e Dorival Caymmi.

Trata-se de um show imperdível e que você não pode perder, porque Nathália Lima nos encanta já na primeira audição e assisti-la cantando os grandes clássicos da MPB em sua bela voz, é nos apreciar e nos deleitar do melhor da MPB por cantoras de seu estirpe.



Sexta-feira 09/08 às 21h
Espaço Cultural Silvino Filho
Nosso Mar (115 Norte)
Reservas: (61) 33496556

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

O sabor de Dona Onete


Dona Onete: o Norte é dela



A semelhança fisionomica entre Dona Onete e a cubana Omara Portuondo é gigantesca. Para nossa sorte, Dona Onete é uma legitíma brasileira paraense e que tem um sorriso encantador e sedutor. Dona Onete me foi apresentado pela cantora amapaense Emília Monteiro, detentora atual do ritmo dançante que conseguiu me atrair e que está com o CD Cheia de Graça na praça, revelando os sons do Norte do país. Conheci o trabalho de Omara através de Maria Bethânia e mesmo eu gostando de MPB exclusivamente, me vi caído de joelhos pela cubana, assim como estou pela Dona Onete. Há quem confronte o prodígio nem tão moderno de redescoberta de Dona Onete com Emília Monteiro, pois ambas se juntam para mostrar o quanto nossa música é rica e maravilhosa. Nesse cenário, Dona Onete seria correspondente a Omara Portuondo, mas ela também pode ser comparada à grande dama do samba carioca Dona Ivone Lara - porque além de referência cultural do Pará, tendo exercido outra profissão ao longo de décadas, é mais compositora do que cantora. Com produção do compositor Marco André, lança agora o ótimo álbum de estreia, Feitiço Caboclo, pelo selo Na Music, com patrocínio da Conexão Vivo.

Aos 73 anos, Dona Onete é cheia de malícia e com apenas pouco mais de dez anos de carreira. A estrela de Belém faz tremer o chão e o público por onde passa. Recentemente, em show realizado em Brasília ao lado de Emília Monteiro para o lançamento oficial do CD desta, Dona Onete mostrou a que veio: dançou, cantou e encatou a todos. A expressão, usada tanto com conotação sensual, como pelo efeito anestésico provocado pela hortaliça jambu, típica da culinária local, que dá uma sensação de formigamento e "treme-treme", traduz bem o sentido da performance ao vivo da sacudida canção Jamburana.

Mas vamos falar de Dona Onete. Uma das canções do CD todo autoral, Jamburana  tem possível chance para alcançar outros cantos do País. A música é de uma inspiração única, rica em elementos do Norte e muito bem elaborada, composta e cantada. A veterana compositora é um dos destaques desse rico mapeamento da música paraense e reúne como convidados no CD artistas como Mestre Vieira, Pio Lobato, Manoel Cordeiro, Trio Manari, Gaby Amarantos, Lia Sophia, Luê Soares e Keila Gentil (da Gang do Eletro). Algumas de suas canções também figuram no repertório dos jovens expoentes.

Feitiço Caboclo tem influências eletrônicas que associam Dona Onete à nova geração do chamado tecobrega e o que ela canta é saboroso de ouvir, pois mistura um banquete recheado de gêneros diversos, como o afro, o caribenho, o carimbó, lumdu, guitarrada, lambada, merengue, brega, boi, samba e até uma levada de rap. Tudo isso acaba sendo inovador até mesmo para uma linda senhora de 73 anos de idade.

 

Salve, Dona Onete.

 

O sabor de Dona Onete

 
Marcelo Teixeira

domingo, 4 de agosto de 2013

Ceumar em edição especial


Ceumar: mineira internacional
Morando na Holanda há dois anos, a cantora e compositora mineira Ceumar lançou em 2010 seu disco Live in Amsterdam, gravado no Tropentheater. Após lançar o disco, a cantora vinha comentando que era uma estrangeira agora e isso tem vários caminhos, várias sutilezas. Este é o segundo disco que Ceumar grava com o marido, o produtor musical e técnico de som holandês Ben Mendes. No repertório de Live in Amsterdam, músicas de sua carreira, como a já conhecida Dindinha (Zeca Baleiro), Banzo (Itamar Assumpção) e Pecadinhos (Tatá Fernandes e Zeca Baleiro), as três de seu primeiro disco, de 1999. Do CD Meu nome (2009), o primeiro gravado fora do Brasil, Ceumar registrou as autorais Jabuticaba madura e Gira de meninos, além de Dança, composta com Yanel Matos. O trabalho é fruto de um encontro em 2006, quando Ceumar foi convidada pela Plataforma Brasil x Holanda para participar junto ao trio holandês, liderado pelo pianista Mike del Ferro, de um show em São Paulo, no Sesc Ipiranga. Desse evento, surgiu o desejo de prosseguir numa pequena turnê pela Holanda. Foram sete shows em diversas cidades, como Amsterdã, Roterdã, Groninga e também em Antuérpia, na Bélgica, em outubro de 2006. As canções do show foram escolhidas pelo grupo dentro do repertório de Ceumar.

Por ser um produto importado,
Live in Amsterdam custa em torno de 45,00.

 

Faixas


01 - Oração do Anjo - Ceumar e Mathilda Kóvak
02 - Banzo - Itamar Assumpção
03 - Dindinha - Zeca Baleiro
04 - Iá Iá - Zeca Baleiro
05 - Jabuticaba Madura - Ceumar
06 - Pecadinhos - Zeca Baleiro e Tata Fernandes
07 - Dança - Yaniel Matos e Ceumar
08 - Gírias do Norte - Onildo Jacinto Silva
09 - Gira de Meninos - Ceumar e Sérgio Pererê

 

 

Live in Amsterdam – Ceumar

 

Nota 10

 

Marcelo Teixeira

 

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

A superficialidade e pouca intimidade de Vanessa da Mata cantando Tom Jobim


A bossa pop de Vanessa: bom e médio
 

Superar Elis Regina ou Gal Costa em um disco homenageando Tom Jobim, não é tarefa fácil. Não somente Tom, que foi um dos maiores maestros que o Brasil já teve, mas qualquer grande compositor brasileiro, o trabalho é árduo e o resultado tem que sair perfeito. Vanessa da Mata bem que tentou, mas derrapou feio ao homenagear Tom Jobim, tendo em vista que a cantora não é familiarizada com o repertório do compositor e nem gravou (ao menos que eu me lembre) alguma música do cancioneiro jobiniano. Vanessa é a estrela da vez do Projeto Nívea que homenageia artistas que foram importantes para a música brasileira. Anteriormente, Elis Regina vinha embalada pela voz da filha Maria Rita, que emocionou no começo, mas depois derrapou na mesmice de ser apenas a filha de Elis. Em 2012, Vanessa da Mata fez uma temporada de shows no Sesc Pompéia, em São Paulo, abordando a obra de Luiz Gonzaga com resultado surpreendente. Era patente a identificação da artista com aquela obra, ora exposta de forma leve e moderna em poucas apresentações que não tenho notícia se foram ou não gravadas. Deveriam ter sido.

Vanessa também já tem um cd autoral pronto para lançamento. Boa compositora lançada por Maria Bethânia em 1999, soa natural que este trabalho inédito seja até aguardado com mais interesse. Mas veio o projeto da Nívea Viva com a proposta de uma série de espetáculos com canções de Tom Jobim. Depois de Elis, o repertório do maestro mais conhecido do Brasil acabou se transformado em cd de estúdio intitulado Vanessa da Mata canta Tom Jobim (2013 / Sony Music / 25,99).

Mesmo antes do lançamento já se ouvia rumores pouco edificantes sobre o trabalho. Puro preconceito. Com arranjos de Eumir Deodato, produção de Kassin e uma boa seleção de músicos convidados, Vanessa da Mata Canta Tom Jobim, não é um tragédia. Está, porém, anos luz de ser digno de lembrança histórica. As músicas selecionadas são manjadas do grande público e nenhuma novidade foi presenteada aos fãs. Mas a voz de Vanessa agrada do começo ao fim e mesmo soando pop demais, o disco é bacaninha. Pop no sentido de atrair o público mais jovem e que não tem contatos com a obra de Tom, podem se render ainda mais à carreira de ambos os artistas.

O maior acerto do trabalho é mesmo a produção de Kassin. Aparentando uma busca de rejuvenescimento de canções tão famosas e pertencentes ao imaginário coletivo do brasileiro, as soluções do produtor em momento algum descaracterizam o cancioneiro de Jobim. Ao contrário, ajudam a dar uma cara jovem e atualizada a estes clássicos. Eumir também acerta em muito na atmosfera reverente dos arranjos, principalmente os de cordas. O problema é mesmo a Vanessa cantora.

Ainda que a matogrossense tenha bons momentos nas interpretações de Caminhos Cruzados (Jobim / Custódio Mesquita), música que abre o cd, Chovendo na Roseira (Tom Jobim), Só Danço Samba (Jobim / Vinícius de Moraes) e Este seu Olhar (Tom Jobim), o tom que domina o trabalho é estridente demais, alto demais. Muito pouco à vontade na ambientação de temas que exigem um pouco mais que apenas afinação (não, Vanessa não desafina no cd), o descompasso atinge seu auge em Dindi (Jobim / Aloysio de Oliveira), quase gritada a cada final de frase, e, principalmente, em Por Causa de Você, densa parceria de Jobim com Dolores Duran, que na voz de Vanessa soa rasteira, sem pingo de originalidade ou inspiração. Dindi, aliás, só consigo ouvir, atualmente, na voz de Virgínia Rosa no belo disco Voz & Piano (2010 / Lua Discos / 24,99) com o pianista Geraldo Flach.

A média de Vanessa da Mata Canta Tom Jobim fica num patamar bem aquém de outros tantos tributos outrora dedicados a Tom Jobim. Em que pese a boa produção de Kassin, o cd derrapa na superficialidade e na pouca intimidade da cantora com a obra do maior maestro brasileiro. Mas o disco é bonzinho.


Vanessa da Mata Canta Tom Jobim / Vanessa da Mata
Nota 7

Marcelo Teixeira