sábado, 21 de março de 2015

O tempo de Ludmilla é hoje. E amanhã?


Ludmilla hoje, amanhã e...
Reduto especializado principalmente por homens, o funk está sendo tomado pelas mulheres que querem (ou tentam) revolucionar o mercado fonográfico com suas expressões marcantes, seus cabelos volumosos e seus batons florescentes. O tal funk ostentação nunca esteve tão em voga como nos dias atuais e isso se deve a crescente massa adolescente, que encontraram nesta batida (im)perfeita, uma maneira de protestar contra algo, a desculpa esfarrapada de encontrarem os amigos para uma noitada, para beijos furtivos e para a dança, muita dança. Ludmilla entrou neste terreno hostil e está aproveitando todas as mazelas que a música descartável e sem prioridade alguma de crescimento cultural poderia lhe retornar. Lançou um CD que teve uma grande aceitação imediata do público, ofuscou a cantora Anitta, roubou a cena em todos os espetáculos televisivos, ganhou notoriedade do dia para a noite, ficou mais bonita, menos caricata, deixou de ser dublê de uma cantora americana e ganhou madeixas louras, volumosas e junto com tudo isso surgiu a timidez. Ludmilla é hoje o que a Anitta representou no início de sua carreira: uma grande ostentação musical, uma cantora que surgia dos guetos, branca, bonitinha, mas sem conteúdo algum. Ludmilla é o oposto de tudo isso: mesmo sua música sendo distante do verdadeiro funk, a cantora consegue driblar os grupos sensacionalistas e tira de letra sua nova forma de se fazer música: canta como as cantoras negras do passado, não é vulgar em seus passos de dança e suas músicas são agraciadas pelo melhor do funk pop da atualidade. Hoje é o tempo de Ludmilla e esse tempo lhe trouxe responsabilidades futuras, que requer superar o estrondoso sucesso que faz hoje. Se isso não vir a acontecer, a cantora estará fadada a ser marionete do egocentrismo musical, que lhe colocaram na grande roubada de patrocinarem seu sucesso imediato. Mas pelo andar da carruagem, aposto que Ludmilla virá em breve com um novo CD e mais uma vez um novo sucesso. Talvez não arrebatador como o charmosinho Hoje, mas compensdor para sua voz. O tempo, por hora, está favorável à ela. Mas até quando?

 

O tempo de Ludmilla é hoje. E amanhã?
Marcelo Teixeira

sábado, 14 de março de 2015

Chitãozinho e Xororó estragam obra de Tom Jobim


Homenagem e tédio sobre Tom Jobim
Se Tom Jobim estivesse vivo, na certa estaria triste e chateado em qualquer canto do Rio de Janeiro ou tentando dizer onde foi que eu errei? Mas Tom está morto e na certa ele está se revirando lá no céu com Vinicius de Moraes, numa conversa demasiadamente risonha, tentando mandar uma carta telepática para seus fãs, ressaltando para ficarmos calmos, pois esta fajuta homenagem que a dupla sertaneja Chitãozinho e Xororó fizeram será passageira. E assim espero. O pai e tio de Sandy e Júnior fizeram questão de estragar a incrível obra de Tom Jobim, colocando por terra abaixo todo o prestígio e sabor de cada nota, cada respiração, cada sensação e cada sílaba cantada em verso. Se não bastasse, a dupla resolveu colocar no título o estranho nome de Tom do Sertão, sabendo todos que Tom Jobim nunca pisou em searas sertanejas. Sim, Chitãozinho e Xororó erraram ao homenagear um dos maiores compositores deste Brasil, erraram ao abordar músicas como Águas de Março e Eu Sei que vou Te Amar e erraram em escolher capas horrendas com teor caipira. Tom Jobim era muito mais que isso: era a essência de uma qualidade musical muito superior a de seu tempo, tendo a capacidade incrível de ser um dos pais da Bossa Nova, tendo a originalidade de lançar cantoras magistrais e fazer com elas duetos sensacionais. A busca incessante de Chitão e Xororó por novas tendências musicais revela o quão a dupla está inepta a novas musicalidades de seu próprio cancioneiro. E resolveram mastigar e triturar a obra de Tom, artista que não combina com a musicalidade da dupla sertaneja. Deterioraram a obra de Tom, arranharam notas, pisaram em falso sobre músicas já imortalizadas por grandes vozes e fizeram deste álbum, Tom do Sertão (2015 / 27,99), ser o pior lançamento do ano. Quando um determinado cantor não conhece a obra do homenageado, resulta nisso: um disco fraco, sem qualidade, feito às pressas, sem condição de notas inspiradoras e sem a essência exigida por amantes da verdadeira música popular brasileira. Sim, Chitãozinho e Xororó pisaram em ovos, pensando eles que esses ovos eram inquebráveis.

 

Tom do Sertão / Chitãozinho e Xororó
Nota 3
Marcelo Teixeira

sábado, 7 de março de 2015

Cadê a essência de Tiago Abravanel?


Cadê a essência?
Ainda que Tiago Abravanel, o neto ilustre de Silvio Santos, tente se distanciar da imagem e semelhança de Tim Maia, a figura espelhada do cantor do século vinte e um acaba se esbarrando na figura musical e mítica do rei do soul brasileiro do século vinte. Tiago Abravanel ficou marcado definitivamente pela imagem de Tim, o que pode ter lhe causado um certo prestígio e desconforto em sua carreira. Lançado recentemente o single Eclético, o cantor e ator tenta, propositadamente, se desligar por completo da alma e do peso nas costas de Tim, já que hoje em dia é quase impossível não olhar para Tiago e não se lembrar de Tim. Tarefa árdua será retomar sua própria personalidade, já que Tiago Abravanel ainda não se mostrou a que veio como cantor, mesmo tendo uma voz sensacional e um carisma incrível. Não é fácil ser cantor em um país hoje dominado por cantoras e é mais difícil ainda tentar emplacar um sucesso tendo a imagem de uma figura atemporal da música popular brasileira à sua frente. O tempo não será amigo de Tiago, que tenta, a todo custo, correr do vulto quase mística de Tim, cantor que embalou sucessos atrás de sucessos e que hoje se tornou referência na música brasileira. Ainda que tente ser um bom cantor, Tiago deixa a desejar como interprete, perdendo a sua essência e sua qualidade (mesmo tendo uma boa voz, mas um péssimo repertório) e o que salva é o seu carisma, sempre inabalável e com um alto astral imprevisto. Mas Tiago precisa repensar em sua carreira musical como um todo, senão ficará sempre a desejar em questão de música. Mesmo ganhando o Prêmio Qualidade Brasil em 2012 nas categorias melhor ator, direção e musical, o musico não ganhou o de melhor cantor, mesmo sendo considerado pela crítica especializada como um dos melhores da atualidade. Dançarino e ator eventual, Tiago é um dos poucos artistas que já coleciona, em apenas cinco anos de carreira, elogios e mais elogios à sua caminhada artística bem sucedida. Porém, o melhor elogio ainda não veio, porque seu CD não merece elogio nenhum.

 

Cadê a essência de Tiago Abravanel?
Marcelo Teixeira

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Pura, de Luciana Oliveira, revela a tradução de uma excelente cantora


Lu Oliveira: beleza pura
Sou apaixonado por cantoras e isso não é novidade para mais ninguém que acompanha o Mais Cultura Brasileira ou me conhece pessoalmente. O ofício de cantora requer uma postura disciplinar, um jeito único de cantar, ter uma bela voz, presença de palco, essencia. Se a cantora tiver todos esses atributos e um pouco mais, ela está no páreo de ser, para mim, ponto crucial para ser pertencente ao meu mundo, à minha música, a minha predileção. E Luciana Oliveira, uma cantora de excelente gabarito, conseguiu preencher todas as lacunas que a música popular brasileira exige e, de quebra, ganhou a minha simpatia e virei seu fã. Não é difícil dizer ou tentar explicar aqui o porque Luciana Oliveira caiu nas minhas graças: o seu canto ecoa dentro de seu coração, pulsa em suas veias e circula facilmente pelo sangue que corre em seu corpo numa ressonância que consegue exprimir a qualidade e a capacidade musical que habita em seu corpo. Luciana Oliveira é, sem sombra de dúvidas, a cantora que faltava no mercado fonográfico ou a cantora que o público seletivo de MPB precisava encontrar. E encontrou. Luciana Oliveira tem axé, tem afoxé, tem samba, tem bossa, tem o canto dos negros cravado na garganta, tem cabelos crespos volumosos e bonitos, tem pulseiras, miçangas, saia rodada, tem voz. A valorização de sua música vêm de raízes antigas e sua peregrinação por estes caminhos seria fatal: a música a fisgou, o público ganhou. Luciana Oliveira é uma cantora que pensa na música do passado e consegue exprimir na contemporaneidade a interpretação precisa para cada canção, sendo ela mesma, autêntica, única, perspicaz e guerreira. Luciana lançou seu segundo CD, intitulado Pura (2013 / 20,70), cujo teve a produção magistral do competente Alê Siqueira e teve uma boa repercussão entre os críticos especializados e pelo público, que soube valorizar o talento desta grande cantora. Com participações mais que especiais de Elza Soares na engraçada Condicionada, a segunda faixa do disco e vale a pena ouvir atentamente a esta faixa pelo simples fato de haver aqui um contraste, um contraponto de vozes entre as duas cantoras. O resultado ficou formidável e é impossível não ouvir a música várias vezes. Luciana solta sua voz doce ao sussurrar Pura (Eduardo Brechó), nos deixando arrepiados da cabeça aos pés e nos envolve a largar os tamancos em Samba em Pliet, de sua autoria. Luciana Oliveira está totalmente pura em um álbum solo, carregado de sonoridades distintas, ritmos negros, hip-hop bem cadenciado, sambas alegres, reggae e outros sons legais, que fica difícil não dizer que Luciana Oliveira é, sem qualquer sombra de resquícios, uma cantora completa.

 

Pura / Luciana Oliveira
Nota 10
Marcelo Teixeira

sábado, 21 de fevereiro de 2015

As esmeraldas de Tiê




As esmeraldas de Tiê
O passarinho está de volta na capa do novo disco de Tiê, que volta mais pop e alegre do que nos dois discos anteriores, nas quais foram classificados por mim como depressivos, outra marca registrada da excelente cantora que tenta afogar suas mágoas em suas canções muito bem compostas. Desilusões à parte, Tiê volta com um dos melhores discos de sua carreira e com participações mais que especiais. Produzido por Adriano Cintra e Jesse Harris, Esmeraldas (2014 / Warner Music / 24,99) foi concebido em São Paulo e Nova York e entre os convidados ilustres estão Guilherme Arantes, cantor e compositor sumido da praça, mas fazendo shows pelo Brasil a fora e o camaleão David Byrne, celebrado entre dez e dez estrelas mundiais. Só pelos dois nomes de pesos, Esmeraldas já ganha pontos subsequentes à carreira de Tiê.  David compartilha com Tiê a saborosa All Around You, que encerra o disco e traduz todo o trabalho de Esmeraldas e pela busca incessante em se distanciar dos trabalhos anteriores, dando uma nova voz ao novo fôlego que a cantora tenta demonstrar, apontando aqui para diversas sonoridades e diversas direções acústicas. De Guilherme Arantes surge a plenitude de saber de toda a astúcia de um grande mestre dos arranjos e pela necessidade de se comunicar entre o som, o público e sua própria voz. Aqui, Tiê e Arantes dividem Máquina de Lavar, deliciosamente pura e inocentemente encantadora. O novo disco de Tiê é uma missiva de novas mensagens contemporâneas e que reforçam o seu amadurecimento e sua confiança na música que canta. Tudo isso evidencia o quanto foi bom (no bom sentido) sofrer no passado com suas desilusões amorosas e a chegada de seus filhos, que confirmaram, talvez, um novo e pleno caminho em busca de uma felicidade incessante. Aqui temos o tradicional regional, batidas que nos remetem aos Beatles, depressão monárquica, revolução musical, modificação vocal, atitudes adultas, fortes apelações ao infinito musical e uma nova e verdadeira Tiê, que conseguiu, definitivamente, sair do chamado nova cantora da MPB.

 
Esmeraldas / Tiê
Nota 10
Marcelo Teixeira

 

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Elis Regina deu samba


Clara e Elis: samba em homenagem
Não foi difícil imaginar quem seria a campeã das escolas de samba de São Paulo no Carnaval 2015. Com um enredo que abordava o legado de Elis Regina para o cancioneiro brasileiro, o hino que marchou pela avenida foi pontuado com citações de suas músicas e de suas conquistas musicais ao lado de amigos mais próximos representados por bonecos gigantes e que simbolizavam a nata da música dos anos dourados da verdadeira musicalidade brasileira e de muita representação sobre a cantora. Maria Rita, Pedro Mariano e João Marcelo estavam todos lá, além, obviamente, do grande coro de artistas, fãs e admiradores do estilo carnavalesco de ser da escola do bairro da Bela Vista. Com toda a pompa, Maria Rita, a filha ilustre de Elis, brilhou mais que a escola toda e deteve, pra mim, o título de Rainha. Maior detentora de títulos do Grupo Especial do Carnaval do Estado, a escola definiu que a grande homenageada seria Elis Regina ainda no início de 2014, com  o título Simplesmente Elis – A fábula de uma voz na transversal do tempo, numa justa homenagem a trajetória de uma das maiores (e não a maior) vozes deste país. Já tenho dito em outros artigos mais sisudos que Elis Regina não é, definitivamente por mim pensado, a maior voz e nem a maior cantora deste país, mesmo tendo discos maravilhosos e com conteúdo excelente, mas temos que colocar na balança o teor e o dissabor desse conteúdo. Elis ainda é um nome que leva multidões à delírios, choros, risos e pensamentos furtivos sobre suas frases de impacto e efeito moral, mas não conseguiu, até hoje, levar o nome do Brasil para fora do Brasil, como fizeram Carmen Miranda (pioneira neste segmento) ou Clara Nunes (que conseguiu ter sucesso em alguns países da África). Mesmo assim, a Vai Vai trouxe para a avenida um samba animado sobre a cantora morta em 1982 com um misto de saudade, aventuras, samba no pé e uma multidão de espectadores entusiasmados. Mas já era esperado que a escola fosse campeã pelo simples fato de algumas semelhanças estarem em evidência: Elis completaria 70 anos este ano (e pode-se esperar um festival de homenagens igualmente fizeram a Clara Nunes e outros setentões que ainda estão vivo) e neste ano completam 33 anos de sua morte. Ainda assim, Elis Regina conseguiu levar para a avenida um punhado de gente bacana, animada, carnavalesca e ávidas pelo título. Mesmo sendo contraditório, a Vai Vai, a preto e branco da Bela Vista ganhou o título. E a madrinha fora Elis Regina, a cantora que se tornou uma das maiores vozes deste Brasil.

 

Elis Regina deu samba
Marcelo Teixeira

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Os dez melhores lançamentos de 2014


Os melhores CDs de 2014
De Alberto Salgado à Mônica Salmaso, passando por Ceumar e Criolo, o ano de 2014 foi um dos anos mais promissores para o mercado fonográfico: muitos lançamentos e muitas surpresas. Obviamente que nem tudo é flores e teve muitos CDs desprezíveis, mas na sua maioria, o ano foi de muitas novidades e, sobretudo, de muita qualidade musical. Sem ter uma posição para cada lançamento, o Mais Cultura Brasileira e, de quebra, o crítico que vos escreve, passou o decorrer do ano ouvindo muita música, muitas vozes, muitos CDs, garimpando aqui e ali nas lojas do ramo e muita coisa passou longe do meu crivo, pois não mereciam nem espaço numa linha em branco. Não foi muito difícil selecionar os dez melhores discos deste ano, mas houve algumas dúvidas, normais até então, para poder classificá-las de mediano. Mas depois de tudo acertado, eis que chego a conclusão dos melhores discos mais bem produzidos em 2014, de janeiro a dezembro e o leitor pode conferir agora. Lançando o ótimo Além do Quintal, Alberto Salgado é a revelação masculina de 2014 no Mais Cultura Brasileira!, assim como Tito Marcelo, cantor recifense residente em Brasília, uma das gratas e boas surpresas  no cenário musical. Alberto é um sopro natural de calmaria em meio à fúria de sons tão distantes que assolam nossos ouvidos e que tem identidade própria ao desencandear um filandeiro de obras-primas deste álbum encantador. Trezes faixas embalam Além do Quintal, sendo todas de sua autoria ou em conluio com outros parceiros. Mas sua assinatura é pessoal e intransferível e essa mágica é que faz toda a diferença no disco. Alberto experimenta tons sambísticos neste disco, o que o deixa muito bem à vontade para cantar e compor melodias saborosas, com uma leveza pop sobre canções de amor. Majestoso do começo ao fim, Silencia é um dos melhores discos da carreira de Ceumar, que volta mais brasileira que nunca mesmo estando radicada na Holanda. A definição de Silencia, talvez, seja a voz ímpar da cantora: impossível não se encantar com a doçura de sua voz, tão rica, tão saudável e tão acalentadora. Há força no seu canto e no seu campo musical e por esses motivos, Ceumar, mineira que és, procura demonstrar o quão verdadeiro é seu canto. Silencia promove o silêncio, a voz do sereno, a palavra mais doce que por vezes necessitamos. Juçara Marçal nos brinda com um disco sensacional. Sedutor, Encarnado demonstra toda a verve artística de uma grande cantora, em tempos que não estão para paz. O disco é forte, audacioso e a cantora ousou, inovou e surpreendeu em trabalhar em algo tão sério, tão visceral. Para a explicação desses temas, a cantora se infiltrou em matizes díspares do clássico para a sua rica interpretação. O samba pede passagem mais uma vez e Maria Rita consegue se desvencilhar da imagem da mãe, Elis Regina, para fazer um dos discos mais bonitos de sua carreira e de quebra, um dos mais belos deste ano de 2014. Maria Rita canta divinamente todas as faixas de Coração a Batucar sem atropelar palavras, sem deixar a peteca cair, sendo uma grata surpresa até mesmo para mim, que retruco quando o assunto é o universo particular da cantora. Dani Calazans é uma das melhores cantoras surgidas nos últimos anos dentro da MPB e sua voz é um afago tão tocante quanto certeira, tão imensa quanto duradoura, tão atual quanto sensível. Dani Calazans é uma cantora completa, reveladora, simples e determinada. Hard Bolero é um disco que não pode ser passado em branco: você precisa ouvir! Ouvir com atenção, com vontade, com garra, porque esses adjetivos são transpassados por Dani Calazans em todas as faixas do álbum. Com ênfase nas mazelas do Brasil, como na irresistível Classificados, passando por sua feminilidade com a música Salto Agulha, Dani dá um toque diferenciado na manjada Non, je ne regrette rien, que fecha o disco com chave de ouro. O rap nunca esteve tão representado com a imagem e a música racional de Criolo, um dos melhores e mais dignos artistas brasileiros de todos os tempos. Há muito caos e ecos na vibrante e tocante música que ele produz: tudo em Convoque Seu Buda é agressivo e é sereno ao mesmo tempo. A eloquência nos versos de Criolo é seu forte caminho para que a sua música seja sempre um apelo de sonoridade e respeitabilidade dentro da música e dentro daquilo que produz, porque tudo o que sai da boca do cantor é a prova ácida daquilo que viveu ou vivenciou alguém vivendo. Tito Marcelo é um desses cantores que nasceram para encantar: sensível, carismático, letrista, poeta, brasileiro. Nascido em Recife, Tito mora em Brasília e é da capital federal que surge mais um cantor de primeira grandeza na música popular brasileira. Pra Ficar no Sol é um disco interessante, irresistível, caprichado, moderno e com uma capa incrível. Aqui está todo o universo magnífico de Tito Marcelo, que se baseou nas estruturas do amor e na brejeirice das levadas infantis para compor boa parte do álbum. Corpo de Baile é um punhado de canções da dupla Guinga e Paulo César Pinheiro e mesmo sendo um disco de releituras, as músicas dão um novo frescor na delicada e sútil voz de Mônica Salmaso. Nesse disco houve um paralelo de divisor de águas na carreira de Mônica, por se tratar de um disco produzido com requintes de rica musicalidade e que no frescor de sua alma de cantora, expôs todo o seu sentimento para com as canções ali cantadas. Grata surpresa foi quando Mallu Magalhães se juntou a Marcelo Camelo e ao guitarrista e baterista Fred para formarem o Banda pro Mar , com músicas deliciosas e de altíssima qualidade musical. Em quase tudo aqui podemos lembrar o som de Marcelo Camelo no Los Hermanos (caso de Cidade Nova ou Hey Nana) ou de Mallu nos tempos de início de carreira, como na saborosa e divertida Muitos Chocolates ou Mais Ninguém. Por falar em Mais Ninguém, a canção é uma das melhores composições de Mallu, por mostrar que a cantora realmente amadureceu Zizi Possi mostra todo o seu encanto ao dar vida a Tudo se Transformou, que se transformou, sem querer, em um disco sensível, aberto, curioso e com direção certeira na carreira Zizi em que revisita a obra dos amigos, pinça com dignidade uma música de cada e o lança em disco. Mas o que se vê aqui é um disco novo e sensato e que acaba com o jejum da cantora, merecidamente. E assim se completa a lista de 2014: com qualidade e muita música, boa, os melhores lançamentos são sempre os melhores. E que venha 2015!

 

 

Os melhores lançamentos de 2014
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

O rei não é rei no país do samba


Roberto Carlos é rei?
Entre brigas na justiça com as leis sobre biografias não autorizadas e músicas do passado que são proibidas de serem regravadas, Roberto Carlos vai passando sua coroa (que nunca teve e que nunca mereceu) para frente, deixando talvez guardada em um local de difícil acesso ou até mesmo escondida. No país do futebol,  do samba e das mulatas, não se pode ter um rei e Roberto Carlos fora apelidado assim devido ao grande sucesso na Jovem Guarda. Mentor da época, o cantor e compositor Roberto Carlos reinava absoluto nas paradas de sucesso, cantando aquilo que o público, feminino na sua maioria, queria ouvir. Roberto dividia os holofotes com outros reis que eram tão bons quanto ele na sua época, como Paulo Sérgio, Antônio Marcos e Taiguara. Mas fora Roberto quem sobreviveu a todos os obstáculos e vendavais que vieram após o fim da Jovem Guarda, o início da Bossa Nova, o surgimento da Tropicália, o Samba, o Rock... Roberto Carlos conseguiu uma proeza e tanto para a sua velhice musical: se manter entre os melhores e maiores cantores brasileiros de todos os tempos. Mas há muitas cinzas no mundo artístico de Roberto Carlos: como uma cólera, o cantor sempre teve obsessões pela imagem e por sua vida retratada em livros. Não deixa praticamente ninguém cantar suas músicas sem sua devida autorização e exige ouvir antes de todos para ver se ficou realmente boa. Ficando de fora os TOCs que o cercam, o chamado dito popular rei não é rei em um país regido por pajés: Roberto Carlos está muito abaixo da cultura intelectual de Chico Buarque, Caetano Veloso ou até mesmo Milton Nascimento, artistas estes capazes de levar coroas sem serem reis.  É notória que a música dos anos 1970 e 1980 que Roberto produzia fazia muito mais barulho que as músicas lançadas nos anos 2000 e mesmo com essa distância de tempo, é impossível dizer que Roberto é o maior cantor do Brasil: ele continua muito abaixo de qualquer cantor racional deste país. Roberto produziu muita coisa bacana para a cultura brasileira, músicas românticas de qualidade nada duvidosa, mas essas músicas não chegam a ser de qualidade superior, não trazem intelectualidade alguma para o nosso dia a dia e não transmitem nada senão serem apenas músicas românticas. As cinzas musicais de Roberto são apenas cinzas cristalizadas no breu mais distante produzida para que a massa o alimentasse de qualquer forma e jeito, traduzindo o que há de melhor de sua capacidade mental: o de fazer música romântica sem ser apelativa, mas meramente comercial. Não duvido da capacidade intelectual de Roberto em se fazer crer que é o maior cantor do Brasil, assim como não questiono suas músicas, que são, de todo modo, caricaturas de rostos normais aqui e ali, mas o que quero dizer é que o rei Roberto Carlos não merece esse título que lhe designaram, pura e simplesmente porque no país do futebol, do samba, das mulatas, das coroas e das ninfetas, quem reina absoluto são os pajés, que mesmo com seus cocares de pena, ainda assim perdem sua majestade.

O rei não é rei no país do samba
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

A música e a religião de Rita Beneditto em Encanto (2014)



Rita: música e religião
Depois de lançar o emblemático Tecnomacumba e se ver rodeada de problemas religiosos por causa de sua música, a cantora maranhense Rita Beneditto volta após oito anos deste lançamento para enfim colocar voz no delicioso Encanto, que é uma sequencia do primeiro. Lançado pela Manaxica Produções em parceira com a Biscoito Fino, o novo disco comemora os vinte e cinco anos de carreira de Rita. Encanto (2014 / 24,99 / Manaxica – Biscoito Fino) é o primeiro disco de Rita após a mudança de nome de Ribeiro para Beneditto. A regravação em tom roqueiro de sucesso de Roberto Carlos impulsiona o disco, onde Rita apresenta músicas inéditas entre ousadas releituras de canções de compositores como Djavan, Gilberto Gil e Jorge Ben Jor. Em uma viagem às fronteiras do Brasil, Rita canta Babalu, um dos grandes sucessos da compositora cubana Margarita Lecuona, imortalizada na voz de Ângela Maria. Na matriz africana descende De Mina, música de Josias Sobrinho gravada com a guitarra de Roberto Frejat. E, como a fé a música nunca tiveram fronteiras, Encanto aporta ao fim do terreiro do samba com O que e dela é meu, samba bamba carioca de Arlindo Cruz feito especialmente para Rita. É o fecho simbólico de Encanto, disco que não deixa dúvidas de que, em qualquer terreiro ou lugar, a religião de Rita Beneditto é a música.

 

Encanto / Rita Beneditto
Nota 10
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

A Caixa Azul de Djavan


A Caixa Azul do Djavan
Beirando os 40 anos de carreira com mais altos do que baixos, o cantor e compositor Djavan sempre gostou mais de pensar e olhar para o atual momento e se deliciar com o futuro ao invés de parar no tempo. Com tantos trabalhos admirados e obras incríveis nesses longos anos, não havia tempo para voltar no tempo e se dedicar inteiramente à obra do passado, muito menos mensurar o tempo com a distância percorrida. Foi pensando nesse tempo e nessa distância de anos anteriores que nasceu um projeto audacioso e que os fãs do cantor alagoano agora podem respirar mais aliviados: surgiu a caixinha azul do Djavan. Aqui estão reunidas praticamente todo o acervo do cantor, que sempre se manteve flexível entre o erudito e o jazz, mas sempre focado na boa e velha MPB. São 20 álbuns remasterizados, incluindo aqui o primeiro disco, A Voz, O Violão, A Música de Djavan, lançado originalmente em 1976 e até Ária, de 2010, um dos pontos altos de sua carreira, por unir os velhos aos novos fãs.  Por toda a sua incalculável obra, nasceu um projeto reuniu 18 álbuns de carreira e dois discos extras – raridades, com músicas que entraram em projetos especiais, e outro com canções que gravou em inglês e espanhol, lançadas exclusivamente no exterior e até então inéditas por aqui. Todos eles com os áudios originais remasterizados, vale lembrar. Rua dos Amores, lançado em 2012, ficou de fora por ser seu mais recente álbum – que originou CD e DVD ao vivo, lançado este ano. Foi um trabalho criterioso: o Box traz ainda encarte com fotos, capas, informações gerais dos discos, letras de músicas e uma pequena introdução escrita pelo próprio Djavan pincelando histórias da própria trajetória. Aos 65 anos, o cantor reativou lembranças e emoções adormecidas e a partir de uma ordem cronológica de músicas e sons, decidiu garantir o Natal de muita gente mais feliz. Vale a pena conhecer a Caixa Azul de Djavan e saborear cada faixa deste grandioso artista nordestino, culto e brasileiro.

 

Caixa Djavan / Djavan
Nota 10
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Quando o Malta vai acabar?


Malta: o inferno está neles
Depois de Sambô, que não tem luz própria e não significa absolutamente nada na música popular brasileira, outra banda medíocre surge através desses programas de quinta categoria para alçar ainda mais o nível despretensioso do mercado fonográfico e fazendo com que a massa encefálica das pessoas ocas fiquem cada vez mais cinzenta. Lançando Supernova (2014 / Som Livre / 24,99), o grupo Malta ganhou maior destaque depois de ser eleito como favoritos em um programa dominical, abocanhando o tão imaginado primeiro lugar.  Mas já adianto que o grupo, liderado por um roqueiro dos tempos modernos, não chegará muito longe. As músicas do Malta não empolgam conforme sua propaganda e a voz do líder é tão cansativa e emblemática, que nem um xarope expectorante serviria para afrouxar suas cordas vocais. Se o rock brasileiro for denominado nos tempos modernos pelo grupo Malta, então está tudo errado nas diretrizes da música: o grupo não alçará voos longos e não ultrapassará mais a marca registrada em números como no primeiro lançamento. Não há nada de original aqui: desde as letras melosas e sem combinação com a atmosfera do grupo, o vocalista tenta impor uma categoria extra para o seu desempenho como cantor romântico, deixando evidente que seu limite vocal não chega a altos graves. Até onde chegará o grupo Malta, então? Tudo o que é produzido às pressas e com o desdém habitual das grandes gravadoras, acaba sendo uma grande frustração futura e o que foi produzido para ser eterno acaba morrendo logo na primeira leva de novas vozes. O público de hoje está mais exigente e o grupo Malta terá que provar do próprio veneno para se manterem vivos e autênticos a cada investida na música. E a pergunta que me faço neste exato momento é: quando o Malta vai acabar?

 
Quando o Malta vai acabar?
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

As Dolores de Nina Becker


A obra de Dolores por Nina: perfeição
Não é fácil dedicar um disco inteiramente a um artista, seja lá qual for este artista homenageado. Ainda mais nos dias de hoje, em que a música popular brasileira se renova a cada dia, passando por transformações mútuas e com passaportes distintos. Cantar Dolores Duran em pleno século vinte e um não é uma dessas tarefas fáceis e mesmo assim, a excelente cantora Nina Becker desafiou a tudo e a todos para fazer um disco para homenagear uma das cantoras menos comentadas da MPB, mas que tem uma participação fundamental na construção e estrutura de um ritmo que deveria ser mais respeitado. Dolores Duran nasceu em 1930 e morreu jovem e no auge de sua plenitude artística: aos 29 anos já era uma das cantoras e compositoras mais respeitadas de seu tempo. Minhas Dolores (2014 / Joia Moderna / 22,99) é um desses raros discos que nos norteiam pelo conjunto da obra: desde a brilhante capa com a brilhante ideia do título, quanto pela leveza e riqueza de sua voz, assim como a magistral herança musical de Dolores. Tudo em Minhas Dolores soa como inédito, até mesmo porque Nina é uma das cantoras menos conhecidas do grande público e ao mesmo tempo uma das melhores novidades da MPB: voz limpa e suave, muito afinada e excelente interprete. Talvez sendo seu trabalho mais expressivo, Nina faz com que todo o álbum seja rechaçado a puro lirismo com sua personalidade e sua beleza exuberante. Com uma pincelada de refinamento particular, Nina conseguiu extrair o melhor de seu talento para dar vida a obra de Dolores e esse refinamento particular se deveu muito aos tópicos de leveza e a quase percepção inédita que a cantora transpassa através de sua voz. Alguns samba-canções viraram verdadeiras obras-primas na voz de Nina, que vem embalada com violão de sete cordas e bandolim, acopladas de forma enxuta para relembrar momentos e sentimentos de uma cantora marcada pela dor e pelo sofrimento do amor. Este é o melhor momento para que a juventude que não conheceu uma cantora tão autoral e visceral como Dolores, possa (re)conhecer seu talento precoce na presença onipresente de Nina Becker, que soube como ninguém reinterpretar canções maravilhosas de um tempo áureo, sem perder a magnitude de sua criadora, muito menos inventar modinhas para que seja algo comercial. Merecidamente Becker, temos que aplaudir sua rebeldia e coragem ao lançar no mercado um disco de altíssimo nível com capacidade nada egocêntrica, de uma elegância primordial e sútil, marcando de vez seu nome na MPB, com a benção de Dolores Duran.

 

Minhas Dolores / Nina Becker
Nota 10
Marcelo Teixeira

 

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Buda, o amuleto de Criolo


Buda: o aguardado CD de inéditas
O rap nunca esteve tão representado com a imagem e a música racional de Criolo, um dos melhores e mais dignos artistas brasileiros de todos os tempos. Há muito caos e ecos na vibrante e tocante música que ele produz: tudo em Convoque Seu Buda (2014 / Oloko / 25,99) é agressivo e é sereno ao mesmo tempo. E é fácil de explicar essa junção de adejtivos cortantes: Criolo nasceu no gueto da zona sul de São Paulo, mais precisamente no Grajaú, bairro periférico de altissíma onda de violência que gera os melhores e mais dissabores toques de sabedoria. E Criolo, ignorante e inteligente, agressivo e humano, racional e compassivo, soube aproveitar toda a sua verve periférica para expor em versos e rimas sua vida de uma forma sensata e magnífica. Seu som é o melhor do rap nacional e alcança todas as expectativas possíveis: somente um cantor de seu porte consegue juntar a sua voz com a de cantoras como Juçara Marçal e Tulipa Ruiz, contrariando a todos e a tudo. Criolo não teve pressa ao lançar Convoque Seu Buda, porque ele sabia que a pressão após o lançamento mais expressivo de sua carreira, Nó na Orelha (2011) seria inevitável. E foi. Todos esperavam pelo tão aguardado álbum de inéditas do cantor e quando isso aconteceu foi uma chuvarada de correria tanto para a internet e seus malditos baixamentos gratuitos, quanto para as lojas do ramo. Convoque Seu Buda virou referência e Criolo volta ao topo da lista dos cantores mais dignos da nova música. A começar pela capa e pelo excelente título, Criolo se lança num mundaréu de vendaval que corre a seu favor, demonstrando que ele não tem medo de críticas e nem de aperto psicológico.Tudo aqui tem a cara de Criolo e nada se moveu, exceto que o som de Convoque Seu Buda seja diferente de Nó na Orelha do ponto de vista de que as músicas são mais bem produzidas e mais planejadas. Há várias influências musicais no som de Criolo em seu novo e autêntico disco: desde pegadas altamente fortes em Plano de Voo, passando pelo tropicalismo em Pegue Pra Ela até chegar nas orquestras de rimas e versos cantados em Esquiva da Esgrima, uma deliciosa e forte canção. A eloquência nos versos de Criolo é seu forte caminho para que a sua música seja sempre um apelo de sonoridade e respeitabilidade dentro da música e dentro daquilo que produz, porque tudo o que sai da boca do cantor é a prova ácida daquilo que viveu ou vivenciou alguém vivendo. O buda de Criolo está aí para que todos tenham acesso, seja mental, experimental ou físico. Ele convocou seu buda e você?

 

Convoque seu Buda / Criolo
Nota 10
Marcelo Teixeira

sábado, 15 de novembro de 2014

A grata surpresa de Bando do Mar

Banda do Mar: grata surpresa
Há uma diferença singular entre a Mallu Magalhães antes e depois de Pitanga (2011) seu delicioso disco lançado pós Marcelo Camelo. Desde o primeiro disco que Mallu já demonstrava toda a sua super potência musical, mas ainda estava indecisa quanto ao ritmo certo a cantar: considerada a nova Janis Joplin por alguns e uma legítima cantora que herdaria o folk como destino final, Mallu sempre demonstrou que era capaz de muito mais em discos lançados com o decorrer dos anos. A cantora e compositora que foi descoberta através da internet, sempre teve fama de ser uma péssima cantora e a mesma sempre esteve dividida entre a cruz e a espada entre os fãs e não fãs. Mallu cresceu, apareceu e mostrou, depois de Pitanga, que é sim uma excelente cantora. Assim como seus discos, Mallu Magalhães mostrou que sabe cantar, compor e rir dessas e outras críticas que fazem a seu respeito. A participação de Marcelo Camelo foi fundamental para que o crescimento da menina/cantora/desafinada desenrolasse naturalmente e ela produzisse mais e mais e mais. Sempre com categoria afinada e buscando pelo ideal refinado dentro da música brasileira e dentro de seu limite musical, Mallu se juntou ao próprio Marcelo Camelo e ao guitarrista e baterista Fred para formarem o Banda do Mar (2014  / Sony Music / 19,99) , com músicas deliciosas e de altíssima qualidade musical. Em quase tudo aqui podemos lembrar de Marcelo Camelo no Los Hermanos (caso de Cidade Nova ou Hey Nana) ou de Mallu nos tempos de início de carreira, como na saborosa e divertida Muitos Chocolates ou Mais Ninguém. Por falar em Mais Ninguém, a canção é uma das melhores composições de Mallu, por mostrar que a cantora realmente amadureceu compondo versos mais decisivos e fortes e isso já tinha acontecido em Pitanga, quando disse, à época, que poderiam falar o que quisesse dela, pois ela estava ficando velha e louca. Assim como no disco solo anterior, a cantora mais uma vez manda indiretas para os críticos ferrenhos que insistem em debochar de sua carreira, dizendo que está ótima na faixa Me Sinto Ótima. Marcelo, por sua vez, tece delicadeza acentuada nas faixas Pode Ser, que tem vocais de Mallu fazendo contraponto delicioso e sentimental. Nada deixa a desejar em Banda do Mar, exceto o estilo de gravação: as músicas que Mallu compôs foram cantadas por ela como uma declaração de amor a Camelo, suas artimanhas para se mostrar que é uma menina-moleca-que-canta (e bem!), suas indiretas certeiras e para falar de amores guardados em seu peito tanto por homens maduros e pela sua gata Mia (retratada em música). Marcelo também segue a linha romântico e deixa fluir naturalmente músicas singelas como Vamo Embora e Solar. Infelizmente, não houve uma troca de identidade musical entre os dois: Marcelo poderia cantar a música de Mallu e vice versa, mas isso não aconteceu. Mesmo assim, só pela brilhante ideia de saírem de casa para fazerem um disco juntos foi uma grata surpresa. Tanto para o público brasileiro, quanto para os fãs de ambos os cantores (e compositores) e para dizer que Marcelo sobrevive sem o Los Hermanos e Mallu, pela força e vitalidade de seu canto, sobrevive a qualquer tempestade em um copo d’água.
 

Banda do Mar / Mallu Magalhães, Marcelo Camelo e Fred
Nota 10
Marcelo Teixeira

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Emília Monteiro em São Paulo

Emília: do Norte pra São Paulo
No dia 30 de abril de 2013 escrevi um artigo em que pedia para que o som da cantora amapaense Emília Monteiro saísse do reduto nortista para invadir os quatro cantos do país, pois sua voz merecia ser ouvida. No dia 26 de maio do mesmo ano, saiu no Jornal do Amapá, na coluna da Tica (jornalista de grande repercussão no Amapá) partes desse meu artigo. Portanto, minhas preces foram ouvidas. Emília Monteiro desembarca em São Paulo para duas únicas apresentações: uma no Sesc Sorocaba, no dia 15/11, e o mais aguardado será realizado na Vila Madalena, reduto dos mais morderninhos em questão de sonoridade, com seus barzinhos charmosos e pessoas descoladas. Emília cantará no Espaço Cultural Puxadinho da Praça (Rua Belmiro Braga, 216, Vila Madalena / São Paulo) na segunda feira dia 17 agora, às 20 horas, ao lado das cantoras Nátalia Matos e Luciana Oliveira, que farão uma participação especial. Valor: apenas R$ 15 reais!!! Única apresentação, vale a pena conferir o talento desta grande cantora, um verdadeiro talento brasileiro e que está conseguindo, aos poucos, mostrar sua brasilidade aos quatro cantos deste país. Entrevistada pelo Mais Cultura Brasileira!, a cantora considera Clara Nunes e Elis Regina como as maiores vozes do Brasil e já foi até mesmo elogiada pelo ex-titã Charles Gavin, hoje referência musical no país. Emília é uma dessas raras cantoras que nos encantam apenas com seu olhar: encantador e suave.  Dona de uma voz magistral e de um carisma incrível, a cantora apresentará seu CD Cheia de Graça (divulgado no Mais Cultura! em Abril de 2013), considerado um dos melhores dos últimos tempos e que contém composições de Ellen Oléria, Márcia Tauil, Simone Guimarães, Zeca Baleiro, Célso Viáfora, Val Milhomem e a diva Dona Onete, criadora dos sucessos Veneno de Cobra e Este Quero Este Moreno Pra Mim. Emília merece ser ouvida, assistida, admirada e aplaudida de pé por todos os brasileiros, pois seu canto é de uma beleza profunda e única. Uma das cantoras que merecem a sua atenção graças ao seu canto, sua graça, sua beleza e sua espontaneidade. Emília Monteiro é uma dessas cantoras que faltavam no mercado fonográfico para falar do povo do Norte, cantar suas referências e seus estilos e nos mostrar seus mantras. Cheia de Graça, Emília desembarca em São Paulo trazendo na bagagem um grande disco e uma grande voz!  

 

Emília Monteiro em São Paulo
Marcelo Teixeira

sábado, 8 de novembro de 2014

Três anos de Mais Cultura Brasileira

Três anos de Mais Cultura
E o Mais Cultura Brasileira! chegou ao seu terceiro ano. Para chegar até aqui não foi uma tarefa fácil, mas sim uma tarefa de muito trabalho, muita dedicação, pesquisas, conversa com cantores, horas e mais horas ouvindo músicas, recebendo convites para shows, enfim, um ano marcado pela amplitude de um trabalho que gosto muito: o de ser crítico de música. Este ano de 2014 foi melhor que o ano passado, porque o blog teve mais reconhecimentos por cantoras e cantores carimbados da nossa música e teve mais respeito por entre os leitores. Falar de música de qualidade em um país em que se preza a música descartada não é tarefa fácil, mas com um pouco de esforço e dedicação podemos chegar um pouco mais longe. Este ano o Mais Cultura Brasileira! alcançou vôos mais longos e chegou com mais força ao Nordeste e ao Norte do Brasil e aterrizou com mais afinco na capital federal, Brasília. As entrevistas foram determinantes para que a credibilidade e a assiduidade com a cultura permanecessem com a qualidade superior de quando iniciei os trabalhos. E confesso: nunca pensei que um dia pudesse entrevistar a cantora Ná Ozzetti, minha paixão musical. Entrevistas com cantores da categoria de Alberto Salgado e a descoberta de Tito Marcelo foram cruciais para que o Mais Cultura! voltasse as suas origens de revelações musicais para o grande público. Tive o prazer de conhecer e conversar com Fabiana Cozza (e surpresas virão para 2015) e com a cantora Ceumar, que mesmo da Holanda, podemos trocar algumas firulas e tive prazer igual em poder conhecer a cantora Ná Ozzetti e seu irmão Dante Ozzetti e este me presentear com a novidade de Macapá, Patrícia Bastos. Agradeço as inúmeras conversas que tive nos bastidores com a cantora Márcia Tauil, sempre grato por suas aulas e inspirações e sempre serei grato pelos inúmeros emails que recebo para poder divulgar no blog com sugestões de cantoras espelhadas por este mundaréu chamado Brasil. Posso garantir que 2015 será ainda mais dedicado ao mundo da música e que batalharei por entrevistas e artigos especiais. O Mais Cultura Brasileira! completa três anos, mas quem ganha é você, leitor!
 

Três anos de Mais Cultura Brasileira
Marcelo Teixeira

sábado, 1 de novembro de 2014

Os encontros desprezíveis de Paula Fernandes


Um disco qualquer em sua carreira
Não consigo entender ainda qual a finalidade de Paula Fernandes na música popular brasileira: fanha, não abre a boca para cantar (talvez inventando um novo gesto para balbuciar suas próprias palavras cantadas) e sem postura de palco (a cantora ainda não consegue se soltar no palco), Paula Fernandes é um caso raro de cantoras sertanejas sem atração alguma. Estrela apagada que és, a cantora só consegue despertar a atenção dos desmiolados, incapazes de perceberem o quanto seu talento e insignificação na música atual é desprezível. Além da falta de carinho e empatia, Paula é uma das cantoras que, mesmo ganhando mais dinheiro e sendo mais querida pelo público, é a cantora mais chata e insensata do segmento, deixando para trás a imagem doce e característicamente rotulado de outras fontes de alimentação do mundo sertanejo, como Roberta Miranda, Sula Miranda, As Irmãs Galvão, entre outras. Não me conformo como conseguiram moldar uma cantora deste naipe sem a emoção, sem o sentimento maior, sem expressão facial, sem linhas de pensamentos fluentes, sem absolutamente nada na cabeça, como fizeram com Paula Fernandes. Recentemente, a cantora lançou o disco Paula Fernandes – Encontros Pelo Caminho (2014 / Universal Music / 31,90), um álbum duplo contendo participações magistrais como Vitor e Léo, Hebe Camargo, Almir Sater e até Frank Sinatra. São encontros grandiosos, mas que a cantora deixa a desejar conforme vai entoando cada nota musical com sua voz paupérrima: quando ela canta com Almir Sater Tocando em Frente, há falta de sincronismo entre o cantor (o criador) e a cantora (a que se diz cantora). A química não rolou e a tentativa de fazer com que a música ficasse mais viva na memória das pessoas caiu por água abaixo. E não foi culpa de Almir, mas sim pela voz canhostra e horrível de Paula, que insiste em não querer abrir a boca! Mas de que adianta tanta produção, se o principal produto não é fornecido conforme o selo de qualidade exige: a voz de Paula Fernandes. Com uma capa paupérrima, remetendo a um de seus primeiros CDs, Pássaro de Fogo, e com um ar meio angelical, a cantora tenta passar a imagem de boa moça, de quem sabe fazer a lição de casa, mas na verdade, ainda não saiu da terceira nota musical. Não vi nada de especial neste álbum duplo e não vi nada de espetacular no conjunto da obra: Paula canta cada vez pior, com uma voz anasalada pueril, com o mesmo sentimento tacanho e com ares de menina pobre do sertão. A capa nos remete a um tempo de infância perdida da cantora, com um sertão por detrás dela, nos dando a impressão do longo caminho percorrido da cantora até o encontro definitivo com a música sertaneja. Definitivamente, o mundo sertanejo merece muitas coisas, descartáveis ou não, e Paula Fernandes é uma dessas coisas descartáveis. Ainda acredito na força estranha e natural de uma divindade qualquer que faça com que Paula ou se cale de vez ou simplesmente evapore da face terrestre. Enquanto isso não acontece, somos obrigados a aturar seus discos (agora duplos) e com a mesma ladainha canina de sempre: voz fanha, rouca e sinistra.

 

Encontros Pelo Caminho / Paula Fernandes
Nota 6
Marcelo Teixeira