Um blog a favor da Música Brasileira, com entrevistas, artigos, críticas, lançamentos e muito mais. Artigos escritos por Marcelo Teixeira. www.maisculturabrasileira.blogspot.com.br
domingo, 30 de outubro de 2016
sábado, 22 de outubro de 2016
Cala a boca, João!
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| Voz e Violão: excelente |
Há quem o odeie e há os que o ama!
Há também aqueles que ficam neutros quando o assunto é João
Gilberto, um ícone da Bossa Nova e um dos pais do movimento que inspirou
as pessoas a cantarem em ritmo mais lento e tendo como companheiros um
banquinho e um violão. Não é fácil ser João, um gênio da música popular
brasileira que hoje vive mais recluso do que nunca em seu apartamento, nos
Estados Unidos. Obviamente que Cala a
Boca, João (título deste artigo) foi uma referência à música de Dorival
Caymmi, Cala a Boca, Menino (1973),
pois João é um típico cantor que odeia berros, sobressaltos, devaneios e
qualquer coisa que o deixa atormentado. Com o surgimento de Chega de Saudade a reviravolta na música brasileira se fez presente
e a revolução musical foi uma constante. A influência notória de João Gilberto
foi fundamental para todo esse universo novo e para a posteridade, pois fora
através dele que surgiram Chico Buarque, Caetano, Gil, Nara Leão, João Bosco e
os mais atuais, como Fernanda Takai, Ná Ozzetti e outros. Para todos os
efeitos, Voz e Violão (2000 / 27,90)
é um disco que merece atenção por ser um disco não apenas de coletâneas, mas
por ser um álbum em que contempla a importância de um grande catalisador da
música ainda vivo. O que não dá para entender é como as gerações após 1960 não
conseguem compreender ou encaixar João Gilberto dentro de um contexto musical
ou intelectual e nem ao menos dão o seu devido valor, mesmo os grandes críticos
de música saberem disso. Esse descontentamento para com ele entristece aqueles que
gostam de sua música e fazem com que a geração que nasceu com Voz e Violão o desconhece. Vale a pena
ouvir suas músicas, ler livros que falem sobre o cantor e estarem por dentro de
sua musicalidade irretocavelmente perfeita!
Voz
e Violão (2000) / João Gilberto
Nota
10
Marcelo
Teixeira
Marcadores:
Caetano Veloso,
Chico Buarque,
Dorival Caymmi,
Fernanda Takai,
Gilberto Gil,
João Bosco,
João Gilberto,
Ná Ozzetti,
Nara Leão
domingo, 16 de outubro de 2016
Cartola - O Musical: emoção à flor da pele
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| Cartola e Zica: muito samba |
Chega a ser difícil segurar a emoção
e conter as lágrimas quando vemos Cartola (1908 – 1980)
e Dona Zica (1903 – 2003) bem de frente para
nós, com suas roupas de outrora, seus passos envelhecidos, seus trejeitos
amadurecidos e suas histórias de vida sendo muito bem representados pelos
atores e cantores Flávio Bauraqui (perfeito,
impecável, espetacular) e Virgínia Rosa (linda,
esplêndida, maravilhosa). É impressionante a dramatização que o musical Cartola – O Mundo é
um Moinho¹
transpassa para o público que lotou o Teatro Sérgio Cardoso neste sábado, 15 de
outubro: com uma sincronização perfeita, elenco afiado e texto primoroso, todos
ali presentes estavam ansiosos pela próxima cena, que era muito bem narrada
pelo ator, cantor e escritor Hugo Germano (um banho de interpretação). O
público estava fervilhando de emoção com cada música cantada, com cada
movimento no palco, mas o momento mais esperado era o encontro entre Cartola e
Dona Zica. E isso acontece, óbvio, mas para chegar nesse período sublime (e
real) é preciso contar toda a trajetória do cantor e compositor carioca, que
preferia o morro do que a comodidade de um lar digno de reis e marajás. O
musical não deixa a desejar em nenhuma ocasião e a plateia fica tão extasiada,
que as palmas eclodem o lotado teatro a todo instante. Que perfeito casal de
atores! Flávio e Virgínia estão em um momento espetacular, tendo em vista que
há tantos musicais importantes na cidade que já foram produzidos e que estão em
fase de produção. Com idealização do
ator e produtor Jô Santana, dramaturgia de Artur Xexéo, direção e encenação de
Roberto Lage, pesquisa detalhada da neta do homenageado, Nilcemar Nogueira (que
também é diretora do Museu do Samba no Rio de Janeiro) e direção musical de
Rildo Hora, Cartola
- O Mundo é um Moinho conta a trajetória de um dos maiores nomes do
samba, cujo fora o fundador de uma das escolas mais antigas e com toda a
certeza a mais popular: Estação Primeira de Mangueira. Vá agora assistir ao
musical, porque é uma obra-prima! Mas leve um lencinho, porque você vai se
emocionar do começo ao fim. Chegando ao final do espetáculo é preciso parar
para uma reflexão: na última cena, em que Cartola e Dona Zica fincam seus nomes
no samba e com uma alegria insana, é possível dizer que eles estavam de fato
presentes ali no teatro. Vírginia cresce virginosamente no final do primeiro
ato para o início do segundo e consegue colocar nos eixos a vida de Cartola e a
sua música perene. É inconcebível
reconhecer os atores como eles mesmos, pois a caracterização de todos é tão
impactante, que chega a beirar a perfeição com tantos detalhes importantes. Vale
destacar também a bela apresentação de Adriana Lessa
(sem palavras, grande atriz, excepcional artista), Edu Silva e seu magistral Carlos Cachaça, Silvetty
Montilla (divina em um papel feito exclusivamente para ela), que nos
deram momentos de risos deslubrantes. Destaque para Augusto
Pompêo, que interpretou o pai de Cartola, nos dando um banho de
intepretação, André Muato que ironizou Nelson
Cavaquinho, Paulo Américo com seu
vozeirão magnífico dando voz também ao Zé Ketti,
Lu Fogaça e sua Nara
Leão bem tímida e perfeitinha e Gabriel Vicente,
que conseguiu captar detalhes homéricos de Francisco
Alves. Palmas esfuziantes para os astros da noite: Flávio Bauraqui e
Virgínia Rosa e seus talentos extraordinários! Viva Cartola!
¹A
peça fica em cartaz até o dia 31/10/2016
Elenco:
Flávio Bauraqui, Vírginia Rosa, Adriana Lessa, Hugo Germano, Augusto Pompêo,
Ivan de Almeida, Silvetty Montilla, Edu Silva, Renata Vilela, Larissa Noel, Lu
Fogaça, Andrea Cavalheiro, Grazzi Brasil, Flávia Saolli, Paulo Américo, Gabriel
Vicente, Rodrigo Fernando e André Muato.
Serviços:
Teatro Sérgio Cardoso (Rua Rui Barbosa, 153 – Bela Vista
Temporada: de 11 de setembro a 31 de outubro
Horário: As sextas, 20h; sábados às 21h, domingos às 18h e segundas, às 20h.
Classificação etária: 12 anos
Duração: Duas horas e meia
Ingressos: De R$ 30,00 a R$ 120,00
Vendas: ingressorapido.com.br
Teatro Sérgio Cardoso (Rua Rui Barbosa, 153 – Bela Vista
Temporada: de 11 de setembro a 31 de outubro
Horário: As sextas, 20h; sábados às 21h, domingos às 18h e segundas, às 20h.
Classificação etária: 12 anos
Duração: Duas horas e meia
Ingressos: De R$ 30,00 a R$ 120,00
Vendas: ingressorapido.com.br
Cartola
– O Mundo é um Moinho
Nota
10
Por
Marcelo Teixeira
Marcadores:
Adriana Lessa,
Agusto Pompêo,
Carlos Cachaça,
Cartola,
Dona Zica,
Edu Silva,
Flávio Baurqui,
Gabriel Vicente,
Lu Fogaça,
Paulo Américo,
Rildo Hora,
Silvetty Montilla,
Virginia Rosa
sábado, 8 de outubro de 2016
Daniela Mercury: do axé à MPB
![]() |
| Daniela: rainha da axé |
Sempre digo que a música baiana é
dividida em blocos importantes: a primeira retrata a música de Dorival Caymm e
Assis Valente, o segundo bloco é representado pela onda de baianidade
intelectualizada formada por Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Maria
Bethânia, Baby do Brasil, Moraes Moreira e outros e o terceiro e mais
importante bloco é representado apenas por uma única mulher, que revolucionou a
música com três palavras determinantes: ginga, energia e determinação. A década
de 1990 foi marcada pela geração de Daniela Mercury,
que conseguiu uma legião de fãs por todo o Brasil com sua voz, sua dança, seu
balé, sua sofisticação e seu axé. Estávamos saindo de uma onda roqueira,
embalada por roqueiros e bandas com alguma simpatia cordial e estavámos enojados
com o pagode brejeiro de grupos multifacetados que aspiravam a demagogia do
riso forçado, que caminhava lado a lado com as duplas sertanejas que ascendiam
lareiras fervilhantes, mas que nada se comparava aos mitos Chitãozinho e
Xororó. As únicas cantoras que estavam no posto de donas da vez eram díspares
em suas camadas musicais, sendo elas Marina Lima no rock e Daniela Mercury no
chamado axé, pois Marisa Monte, que vinha de um disco maravilhoso de 1988 e Adriana
Calcanhotto, que receberia as glórias em 1990, duelavam entre si pelo posto
mais alto da música, mas o caminho de Daniela estava livre para mostrar o seu
talento e, de quebra, aquilo que ninguém até então tinha ouvido cantar, falar e
comentar. Ao longe e timidamente, cantoras do naipe de Cássia Eller, Zélia
Duncan, Fernanda Abreu apareciam aqui ou ali em apresentações medianas. Mas
1991 foi um divisor de águas na carreira meteórica de Daniela Mercury, que
nesta altura já tinha desistido de ser bailarina para se tornar a maior estrela
da música nacional. Arrastou multidões com a música Swing da Cor (1991), que lhe rendeu centenas de shows e lhe valeu a
fama de cantora das multidões. De fato, não havia uma cantora nacional com
aquela popularidade enorme e Daniela tinha todos os atributos para ser a rainha
do axé. Daniela Mercury era um fenômeno por onde passava e o axé tinha uma
representante à altura. Com coreografias sensacionais, a cantora deixou seu
nome registrado na música nacional como sendo a maior de todos os tempos.
Depois de seu sucesso estrondante, artistas do naipe de Gal Costa, Caetano
Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque passaram a reverenciar sua voz, seu canto
e seu estilo e a tornaram ainda mais em evidência: era o primeiro passo da
cantora no mundo da MPB. A bem da verdade, Daniela já flertava com a música
popular brasileira em algumas faixas de seus discos e esse sempre foi o desejo
da baiana em ser um dia uma cantora distante do axé. Não que o estilo fosse
negativo, mas Daniela sempre almejou ser uma nova Gal Costa, dando a chance de
mostrar para outros públicos o quanto sua voz poderia ser privilegiada fora de
um contexto elétrico. Com a chegada de Ivete Sangalo e, mais tarde, de Claudia
Leite, Daniela deu vazão para o mundo da MPB e foi abandonando aos poucos a axé
que um dia lhe consagrou. A mudança não surtiu tanto efeito assim para os fãs
ardorosos da cantora, mas Daniela soube usar a inteligência e já havia sacado
que se não mudasse de estilo o mais rápido possível, poderia cair no
ostracismo. Não foi o que aconteceu: com ótimas releituras e com a voz ainda
mais valorizada, Daniela conseguiu respeito e admiração de um público cada vez
maior e que conseguia nutrir uma satisfação nada egocêntrica de sua parte. Daniela
conseguiu mostrar sua voz para a cidade e realizou o sonho de ser uma menina
baiana que um jeito que Deus dá.
Daniela
Mercury: do axé à MPB
Por
Marcelo Teixeira
sábado, 1 de outubro de 2016
A obra, o legado, a decadência e o mito Raul Seixas
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| Raul: mito do Rock |
Raul Seixas morreu em agosto de 1989, derrubado
pelos excessos. Deixou músicas que se tornaram hinos à rebeldia e à
inconformidade com as coisas caretas do mundo e milhares de fãs desolados.
Gente de todos os tipos choraram sua partida, desde ricos, pobres, caminhoneiros,
roqueiros, urbanóides, sertanejos e estudantes. Raul não tinha rótulos, embora
o rock estivesse em sua veia, mas o cantor passeio pelo baião, pelo samba e
pelas baladas, compondo pérolas como Rock
das Aranhas, Metamorfose Ambulante, Ouro de Tolo, Al Capone, entre tantas
outras maravilhas. Mas o que esperar de um garoto problemático que cresce
ouvindo Elvis Presley, Luiz Gonzaga, Chuck Berry e Jackson do Pandeiro? Raul
transitava por todas as searas musicais, dizendo que não tinha um título que o
rotulasse. Gostava de Genival Lacerda, mas também admirava Cauby Peixoto.
Nascido na Bahia em 1945, Raul Seixas gostava mesmo era de intimidar as pessoas
com suas tiradas e sacadas geniais. Várias de suas músicas foram censuradas
pela Ditadura Militar, algumas foram engavetadas para uma gravação futura,
outras tiveram que ter letras trocadas para não serem grampeadas pelo governo.
Seu primeiro disco foi lançado em 1986, com o título de Rauzito
e os Panteras, pela EMI-Odeon, não sendo um grande sucesso de
público e muito menos de crítica. Com tanta desilusão musical, o cantor desfez
a banda e voltou aos estudos, no curso de Filosofia. Não tardou muito e o
cantor voltou à música, em 1972, inscrevendo-se para o VII Festival
Internacional da Canção, classificando aqui duas músicas que se tornariam hinos
consagrados: Let me Sing, Let me Sing
e Eu Sou Eu, Nicuri é o Diabo. Através dessa classificação
sensacional, o cantor e agora compositor reconhecido é contratado pela grande
gravadora, a Phillips. Com sua ida à Phillips, Raul deparou-se com um escritor
fracassado, metido a bruxo e com um lado místico efervescente: Paulo Coelho,
que acreditava em discos voadores e extraterrestres. Através desse encontro, a
vida de ambos, cantor e escritor, passa por uma transformação avassaladora: eis
a parceria mais importante da música popular brasileira. Em 1973 lança sua mais
pura perfeita tradução musical com Ouro
de Tolo e a irônica e zombeteira Mosca
na Sopa. Perseguido pelos militares em 1974, Raul exila-se nos Estados
Unidos e mais uma vez é surpreendido pelo acontecimento histórico e
inacreditável: o encontro com o ícone da música americana John Lennon. Volta ao
Brasil no mesmo ano e compõe Sociedade
Alternativa, O Trem das Sete e Gita,
que se transformou em um disco antológico. Mas nem tudo eram flores na vida
musical de Raul e, por esse motivo, em 1975 lança Novo
Aeon, um disco fraco e que vendeu muito pouco, deixando a todos os
empresários cabisbaixos, mas a qualidade desse disco é igual ou melhor que o de
1974. É nesse disco que se encontra um dos maiores selos românticos da obra do
cantor: A Maçã. Já em 1977 lança O Dia em que a Terra Parou, compondo ao
lado de Cláudio Roberto o hino hippie Maluco
Beleza e que, por consequência disso, passa a ser o apelido de Raul. Esse
disco passa a ser uma obra-prima também para o próprio Raul, pois Gilberto Gil
dá uma canja no violão na música Que Luz
é essa? Em 1978 lança Mata Virgem
e retoma a parceria com o escritor Paulo Coelho, que estava meio estremecida
desde 1975. Deprimido com público e crítica que rejeitaram seu disco Por quem os Sinos Dobram (1979), Raul
exagera no consumo de bebidas e drogas, onde passa por várias internações e
perde metade do pâncreas em uma cirurgia. Apesar dos problemas pessoais, o
cantor volta com carga total e lança um mediano álbum, Abre-te
Sésamo (1980), com relíquias como Anos 80 e Rock das Aranhas.
Tendo uma boa repercussão por causa desse disco, Raul inicia uma pequena turnê
pelo interior de São Paulo, preferindo apresentar-se em cidades pequenas,
levando sua arte àqueles que não podiam ir aos seus shows de grandes
proporções. Essa iniciativa não deu tão certo assim, embora a crítica o
aplaudisse de pé: o cantor era visto bêbado nas padarias, sempre ao lado de um
copo. Raras vezes o encontravam com um bloquinho e uma caneta rabiscando alguma
música. Desse bloquinho ainda surtiram efeito de luz no fim do túnel e Raul põe
no mercado, agora pelo selo Eldorado, o disco Raul Seixas, que conseguiu
emplacar Carimbador Maluco e a música
infantil Plunct-Plact-Zumm. Já em
1984, o cantor lança Metrô Linha 743,
pela Som Livre, que teve uma música censurada: Mamãe Eu Não Queria (Servir o Exército). Depois desse disco e sendo cada vez mais
chamado de Maluco Beleza, Raul passaria por outras gravadoras e isso virou
piada entre o meio musical, pois mostrava a já decadência do artista. Porém, em
1987, no disco Uah-Bap-Lu-Bap-Lah-Bém-Bum!,
pela Copacabana, nasceu um de seus últimos hinos: a bela Cowboy Fora da Lei. O ano de 1988 não começou bom para o cantor,
que vinha se tratando de vários problemas relacionados a álcool e lança um
disco mais fraco que o de início de carreira, em 1968 e o de 1979. A Pedra do Gênesis (1988) foi muito mal recebida
por todos e Raul decide-se se isolar por completo. Mas graças ao amigo e cantor
Marcelo Nova (nesse tempo, Paulo Coelho já estava afastado de Raul), o convence
a gravar novamente. O último disco da carreira de Raul chama-se A Panela do Diabo (1989), sendo um convite
a sua saída derradeira aos 44 anos de idade e sendo um ícone da música nacional
brasileira. O grande legado que Raul Seixas deixa para a música contemporânea é
o seu mundo representado por músicas místicas envolvidas por ritmos até então
nunca imaginadas juntas. Raul não fora
apenas um cantor que ministrou o baião, o samba e o rock no mesmo palco, mas
sim, um grande cantor que estava desenhando o seu mundo imaginário através
daquilo que achava justo e correto cantar.
O
legado de Raul Seixas
Por
Marcelo Teixeira
sábado, 24 de setembro de 2016
Os clichês de Manu Gavassi
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| Manu e um disco adolescente |
Dentro do seu
universo pop juvenil, Manu Gavassi é detentora de um estilo único, que tenta
ser perfeitinho e autoral. Não há como negar a evolução da cantora dentro da
música popular brasileira e esse seu crescimento está associada a imagem de
Júnior Lima, irmão de Sandy, de quem Manu é fã fervorosa. Podemos dizer que Clichê Adolescente marca o fim de uma
era adolescente na vida musical de Manu, assim como podemos dizer também que
marca o início de uma era musical composta entre a sonoridade mais adulta e a
música que tenta a batida perfeita. Não, ainda não é o momento de Manu dentro
da música, mas mostra o quanto a cantora desenvolveu uma postura mais
comportada e singela e própria desde o lançamento deste disco, em 2013, até seu
mais novo disco, Vício (2016). Tudo aqui gira
em torno do romantismo juvenil da cantora, do seu lado teen, de garota
comportada, de menina que resolveu soltar para todos seu lado puro. Tudo aqui é
fraco, mediano e não há expressão musical da cantora, mesmo com uma produção
com a assinatura de Rick Bonadio. Clichê Adolescente (2013 / Sony Music – Midas Music
/ 21,99)
é gostosinho de ouvir, perto de outros álbuns da cantora, mas Manu precisa
crescer e crescer e crescer para ser mais ouvida. Por enquanto, ela está dentro
do limite que sua idade permite.
Clichê Adolescente (2013) / Manu Gavassi
Nota 7
Marcelo Teixeira
sábado, 10 de setembro de 2016
O pagode convencional de Thiaguinho em Vamo que Vamo (2016)
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| Thiaguinho: criando jargões |
Pagodeiro nato e com estilo próprio
para cantar e se apresentar, Thiaguinho prova
mais uma vez que além de um bom interpréte, sua função maior é colocar na boca
do povo jargões que grudam em nossa memória feito chiclete e que passamos a cantarolar
sem ao menos percebermos. Depois de megas sucessos como Ousadia e Alegria (2012) Caraca,
Muleke (2014), agora o aspirante ao posto de sambista surgiu com o hit Vamo que Vamo (2016
/ Som Livre / 29,00), que já está no topo das paradas de todo o país.
Mas antes de qualquer coisa, é bom deixarmos uma coisa clara aqui neste artigo:
gosto do Thiaguinho, ouço suas canções, mas não ouso acompanhar sua carreira e
muito menos carregar seus discos para cima e para baixo. Não pelo fato de ser
pagodeiro, mas pelo fato de suas músicas não acrescentarem em nada a honrada,
porém sacrificada, Língua Portuguesa. Thiaguinho e sua equipe souberam muito
bem de onde extrair um valor absurdamente rentável ao trazer a tona ditos
populares que a galera logo pára para ouvir. Exemplo claro é seu Vamo que Vamo: além de detonar com a
linguagem habitual meramente linguística, o cantor utilizou artimanhas que
fazem as pessoas erguerem os braços numa manifestação que ecoa festa e
ludicidade. Thiaguinho é experiente nesse segmento e sabe como ninguém a
fórmula de fazer sucesso em um país que ostenta funkeiros com seus carrões,
dissimula seus verdadeiros chavões da MPB, desequilibra a bancada sertaneja e
desorienta outros pagodeiros que adorariam estar em seu lugar. Sem ser caricato,
o disco mereceu uma capa branca contrariando a sua cor natural de pele, o que
ficou muito bacana e estilosa, mas algumas letras deveriam nem mesmo estarem no
disco, tamanha a sua falta de encantamento. Mesmo assim, vale a pena ouvir esse
novo trabalho de Thiaguinho mais pelo som da novidade do que pela motivação
musical. Mas Vamo que Vamo fica
apenas nisso: um festival de pagodes eletrizantes distanciados do verdadeiro
samba, que faz com que o povo pagodeie
alegremente, esquecendo que o legítimo samba é o que está na ponta do pé.
Vamo
que Vamo (2016) / Thiaguinho
Nota
7
Marcelo
Teixeira
sexta-feira, 2 de setembro de 2016
Os ponteiros de Tito Marcelo em O Futuro Ligeiro da Demora (2016)
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| Tito Marcelo: álbum perfeito |
A música quando cantada com vontade,
com gosto e com causa, ganha notas alcançadas dentro de uma atmosfera que
requer uma cumplicidade ímpar e analógica de seu estado de espírito. Esquece-se o tempo, o relógio, o contador, os
ponteiros e passamos a pontuar a sonoridade, a coerência harmoniosa, o desfrute
de um som perfeito e vicioso que requer uma simbiose de simplificações
homéricas equidistantes. Para fazer uma
boa música é preciso uma boa harmonia, uma boa letra, uma boa voz e com isso
ganhamos uma simpatia eloquente entre aquilo que recebemos auditivamente e
respondemos com sorrisos largos, agradecendo pela música que ganhamos. Tito Marcelo representa a juventude escondida dentro
de nós, trazendo para o hoje a sua visceral música, translúcida e rica de ambientes
sofisticados com a pontuação de relógios que mesmo com ponteiros desregulados,
conseguem fazer a assimetria de um futuro gostoso, porém sem pressa. O Futuro Ligeiro da Demora (2016 / Independente / 20,00
– www.titomarcelo.com),
produzido por André Vasconcellos, é um delicioso disco que tem samba,
eletrônico, soul, regaae, gingado, harmonia, cristalina voz e elegância. Com
uma capa sistematizando o número 3 como sendo o terceiro de sua carreira, Tito
nos concede um álbum magnífico mostrando que a música é o seu caminho e que
aqui existe um poço de verdades emaranhadas com sua inquietude infinita de
fazer boas canções. Disco diferente de seus trabalhos anteriores, tudo em O Futuro Ligeiro da Demora nos remete a alguma
coisa, seja um amor ressentido, um carinho sincero, um encontro ao ar livre,
uma cinza manhã que se transforma em uma tarde de sol agradável. Esse é o
encanto de todo o disco: o elo entre a verdade de Tito Marcelo para a alegoria
que está à sua frente. Recifense, o cantor que já foi entrevistado pelo Mais Cultura
Brasileira evidencia sua música com a riqueza de detalhes envolvendo
o amor, a tecnologia, o tempo, o silêncio amargo da demora, a felicidade
encantadora do amanhã e a retórica sabedoria filosófica do hoje. Sendo seu
melhor disco até o momento, Tito Marcelo expõe um desfiladeiro de músicas que
ficam martelando em nossa mente a todo instante, com uma leve pitada de lembranças
saudáveis de um tempo qualquer e com aquela sensação de que a nossa música
brasileira é a melhor do mundo. É impressionante sua capacidade vocal, tão
límpida e florescente quanto perfeita e autoral, nos trazendo a certeza através
de suas canções o reflexo de que precisávamos de sua presença agora, amanhã e
sempre. Chega a ser uma tarefa difícil selecionar uma ou outra canção, mas é
irresistivelmente preciso parar para ouvir todo o disco, repeti-lo inúmeras
vezes para termos a clara e evidente certeza de que aqui há um produto de
qualidade e no dia seguinte tornar a repetir o feito. Tito Marcelo era o cantor
que faltava: seja em qualquer eventualidade, sua voz ecoa por nossas mentes com
sua transparente musicalidade, sua poesia e sua ludicidade. O cantor e
compositor nos apresenta o melhor disco de sua carreira com O Futuro Ligeiro da Demora, pontuando em
cheio sua música dentro da MPB e nos provando que o futuro pode ser ligeiro mas
com uma pitada de demora.
O
Futuro Ligeiro da Demora (2016) / Tito Marcelo
Nota
10
Marcelo
Teixeira
domingo, 28 de agosto de 2016
A sofisticação de Clara Nunes ao cantar Tom e Chico
![]() |
| Clara: sofisticação na MPB |
Engana-se quem pensa que Clara Nunes
foi uma cantora apenas de samba ou que tinha a sua religiosidade à risca para
cantar aquilo que o povo brasileiro precisava aprender sobre cultura africana.
Óbvio que o reduto da cantora era poder mostrar que a africanidade existente
dentro de cada um de nós era proveniente de uma religião, mas isso foi tão
emblemático em sua vida particular, que hoje, decorrido mais de trinta anos de
sua morte, ainda reverbera a imagem de Clara de que ela fora uma cantora de
macumba. Isso, fora de contexto, serve de lição para os analfabetos de plantão,
afinal, aquilo que Clara cantou reflete e muito em nossa vida cultural e
religiosa. A África está ligada em nossas raízes mais ainda do que Portugal,
que colonizou nosso país. Mas Clara foi muito mais que uma cantora de samba:
ela cantou e encantou as músicas de Tom Jobim e Chico Buarque como nenhuma
outra cantora ousou em fazer. Clara Nunes Canta Tom & Chico (2005 / EMI /
23,99) é uma coletânea original que reúne as canções gravadas por Clara
de dois monstros sagrados da nossa música popular brasileira. Com produção de
Luiz Linhares Garcia e Cláudio Rabello, o disco é impecavelmente perfeito pelo
teor das composições, pela natureza de um repertório bem elaborado e pela
delicadeza com que cada compositor gerou sua cria. Clara soube aproveitar o
momento sublime em canções que enaltecem o romantismo, com teor político e
sabor embolorado com rústicas minimalistas, com a perfeição de sua voz e a
suavidade de sua imagem. Fica impossível
não resistir aos encantos de Sábia (1968),
ao romance na luta de duas mulheres pelo mesmo homem amparadas pela guia de
asfalto em Umas e Outras (1973), ao
imperialismo português em Fado Tropical
(1977), aos encantamentos amorosos e sentimentais à flor da pele de Novo Amor (1982), a política irrestrita
e cabal de Apesar de Você (1977) e ao
samba moderno e feito sob medida para Clara em Morena de Angola (1980), que fizeram o Brasil e a África sambarem
ao samba encantador de Chico Buarque. Esse disco demonstra a importância de
Clara na nossa música e de duas esferas na MPB: o patrono Tom Jobim e seu
pupilo rebelde Chico Buarque.
Clara
Nunes Canta Tom & Chico (2005) / Clara Nunes
Nota
10
Marcelo
Teixeira
sexta-feira, 19 de agosto de 2016
O estado de poesia de Chico César
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| Chico César e sua poesia |
Chico César é um dos melhores
cantores e compositores de seu tempo e a prova disso é a quantidade de discos
lançados sempre com a excepcional excelência de músicas consagradas e pelo
aporte de cantoras que já o gravaram. Seu estilo vai muito mais além de Mama África, música que o consagrou e o
revelou da Paraíba para o Brasil inteiro, fazendo de sua carreira um arsenal de
metáforas consagradas. Chico César é um raro tipo de cantor que tem na veia a
verdadeira música de raiz, brasileira, típica e nordestina. Estado de Poesia (2015 /Urban Jungle – Natura
Musical / 24,00) é mais que um disco de músicas inéditas de Chico
César: é um expoente de poesias catalisadas de um homem paraibano que consegue
transpassar sua leitura através de sentimentos próprios e com significações
alheias. Estado
de Poesia reflete o momento atual de Chico: mais poético, mais
harmonioso, delicioso de ouvir e que une a delicadeza de ritmos brasileiros com
a sonoridade universal, contendo, no mesmo disco, ritmos como samba, forró,
toada e reggae, características unilaterais que sempre regeram a vida artística
de Chico. Estado de Poesia se
iguala a outros discos importantes na carreira do cantor, como Respeitem Meus
Cabelos, Brancos (2002) e De Uns Tempos Para Cá (2011) tamanha a sua força
poética, lírica e unilateral. Vale
lembrar que a faixa-título do álbum foi gravada por ninguém menos que Maria
Bethânia no DVD Carta
de Amor, como celebração de sua amizade com o artista paraibano. E
não é nenhum segredo o amor que a cantora baiana tem pelo Chico. Estado de Poesia é um disco que fala de
amor, de amor próprio, de licença poética, de vida, de união. Expoente natural
da cultura brasileira, Chico César nos brinda com mais um disco autoral,
perfeito, sem retoques e com a sinfonia fina de sua rica intelectualidade.
Estado
de Poesia (2015) / Chico César
Nota
10
Marcelo
Teixeira
sexta-feira, 12 de agosto de 2016
O pop juvenil de Tiago Iorc
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| Pop moderninho de Iorc |
Dentro de seu mundinho pop juvenil,
Tiago Iorc reina absoluto como o dono do pedaço, pedindo espaço entre Fiuk e
Lucas Lucco, mas sem se ferir por completo, sendo que seu espaço está
devidamente garantido entre as adolescentes afloridas de talco de nenêm. Mesmo
sendo uma vertente poderosa a favor do cancioneiro moderno, o cantor e
compositor não é uma das melhores e mais promissoras vozes da música
brasileira, mas seu estilo de bom moço e partideiro de família abastada o
fizeram ser um dos ícones mais importantes do cenário musical dos últimos
tempos. Tiago tem lá suas qualidades, mas também tem lá seus defeitos. Por
qualidades podemos dizer que ele entrou de cabeça na onda musical em um momento
em que a sua música se distancia do estilo pop agresssivo de NX Zero, se
distancia do pop romântico meloso de Fiuk e se distancia do pop eletrônico
estranho de Lucas Lucco e, por esse quesito, ganha pontos satisfatórios para a
sua carreira. Outro ponto positivo de Tiago é seu sorriso, que consegue ser
real, mas não passa de um sorriso encabulado, tímido e sensato. Mas sempre onde
há qualidades há defeitos e, nesse caso, o parâmetro se iguala. Tiago canta
bem, mas é só. Não compõe tão magistralmente assim e, em resumo, não se
sustenta em um disco inteiro. A qualidade da capa de seu primeiro trabalho solo
é fantástica, mas se formos levar ao pé da letra pelo miolo da arte, temos um
serviço incompleto: mesmo tendo uma voz legalzinha, o disco é enfadonho,
cansativo, arrastado e que se iguala completamente entre uma mesmicíe e outra.
Para maiores detalhamentos, não posso sugerir que a música de Tiago seja abafada,
camuflada ou esquecida, pois ele é parte itinerante no mercado adolescente, mas
o cantor peca pela exaustão de suas músicas, carregadas no romantismo peculiar nonsense
e pelo exagero de profusão de ideias sentimentais que confundem seu verdadeiro
lugar dentro da música. De resto, o cantor está merecidamente no seu posto de
cantorzinho da menininha no portão, da mamãezinha que sabe que a filha ainda
não tem um namoradinho e do papai que sabe que sua filhinha está indo bem na
escola. Todos esses méritos devem-se exclusivamente a Tiago Iorc, o cantor que
cativa com o sorriso, mas que é embalado por um disco imparcial.
O
pop juvenil de Tiago Iorc
Nota 8
Marcelo Teixeira
sábado, 6 de agosto de 2016
Adeus, Vander Lee!
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| Vander Lee: morte precoce |
Vander Lee não era um cantor muito
conhecido do público em geral, mas tinha a o seu público especial, aquele
público que acompanhava de perto a carreira do artista, que sabia de cor suas
letras e não perdia seus shows. O cantor não tinha uma grande voz, não era
popular, não era famoso, mas conseguiu fazer de sua música um instrumento de
trabalho poderoso, cuidadoso, corajoso e audacioso. Mesmo não tendo uma voz
característica de grandes artistas de seu tempo, ele sabia como hipnotizar seus
ouvintes da melhor forma possível: através de sua composição certeira, arisca,
rica. Foram poucas canções em uma carreira marcada pela amorosidade à música
brasileira, mas destas, podemos dizer que foram suficientemente francas no
ponto de vista solitário de um artista neutro, imparcial, não popularesco.
Vander Lee teve pouco tempo de vida, morreu jovem, começou tarde na música, mas
angariou letras sensacionais que em pouco tempo arrebatou nas vozes de Alcione,
Leila Pinheiro, Gal Costa, Maria Bethânia, Rita Benneditto. Foram músicas
fortes que falavam de Deus, romantismo, sinceridade e uma profusão de ideias e
pensmentos e frases e amores que apenas Vander Lee conseguiu extrair de sua
mente em ebulição. Saí de cena um musico exemplar, de uma categoria ímpar, de
uma finesse perfeita para ficar em nossas lembranças um artista único,
completo, sensível, amável. Mais conhecido por seus versos que falavam do amor
cotidiano, Vander cantava sua singeleza como elemento de sua música autoral. Ele
tinha 19 anos de carreira, nove discos gravados e sua madrinha era ninguém
menos que Elza Soares!
Adeus,
Vander Lee
Por
Marcelo Teixeira
sábado, 30 de julho de 2016
Liniker - cantor e cantora ao mesmo tempo!
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| Liniker: ousadia e novidade em 2016 |
Sempre venho batendo na mesma tecla
de que a música popular brasileira precisa de renovação e essa renovação não
está apenas no sentido figurado de cantar, de compor ou de estar presente na
representação conjunta de todo o conteúdo formal de musicalidade. É preciso uma
reinventação única, capaz de nos hipnotizar, nos impactar, nos catalisar numa
singela força de expressão, que nos faça arregar os olhos, abrirmos as bocas,
arrepiar nossas peles e nos fazer sairmos do espetáculo com a mente inquieta,
insana, cheia de música boa e com imagens jamais repartidas, quebradas ou
esquecidas. Liniker nasceu homem, se comporta como homem, tem voz de homem e se
apresenta como homem transvestido de mulher. Não chega a ser uma aberração para
ninguém, mas Liniker soube provocar a ira de muitas pessoas ao se apresentar
numa forma espontânea, capaz de nos prender o fôlego e prender a respiração
tamanha a sua participação no palco, na música que canta e naquilo que produz.
Liniker nasceu com o nome Liniker e é esse mesmo nome que o consagrou para que
a música o revelasse ao Brasil com toda a sua formosura e sua docilidade em
poder cantar suas canções numa totalidade máxima entre o prazer e o sabor de
cada palavra soltada ao vento. A plateia delira, os músicos se rebelam ao bel-prazer
geral e todos entram no clima. Sendo um misto de tudo aquilo que o Brasil já
produziu de bom e da melhor qualidade artística, Liniker é o cantor de protesto
que mais bem representa, nos dias de hoje, a sua verve artística, não se
comparando com o fenomenal Filipe Catto e muito menos com o cafona Johnny
Hooker. Ele é mais do que isso e seu testamento é maior que sua veia musical.
Liniker pode ser uma miscelânea de tudo aquilo que já vimos anteriormente: um
pouco de Luiz Melodia, uma pitada generosa de Itamar Assumpção, um sal de Maria
Bethânia, um doce de Gonzaguinha, um gosto de Tulipa Ruiz, um tempero de Rita Lee, uma gosto de Sandra Sá,
um bocado de Tim Maia, um pedaço de Clara Nunes, um sorisso de Elis Regina, um
canto Dolores Duran. Liniker é uma surpresa notória dentro da MPB e seu canto
ecoará por muitos anos e ultrapassará fronteiras. É um cantor de verdade, com
vontade própria, luz própria, sentimentos próprios e com carisma de artista
generoso. O seu jeito feminino de cantar não assusta, pois sua música é muito
maior que qualquer vestimenta ou adereço peculiar. Liniker é um cantor que já
nasceu pronto, que tem astúsia pronta e que precisa ser ouvido o mais depressa
possível.
Liniker
– cantor e cantora ao mesmo tempo
Por
Marcelo Teixeira
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Tulipa Ruiz
domingo, 24 de julho de 2016
O fraco encontro de Samuel Rosa e Lô Borges em disco ao vivo
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| Samuel e Lô: ontem e hoje |
O Clube da Esquina foi um movimento musical
que alcançou voo mais que significativo dentro do âmbito da música popular
brasileira e que teve como principais articuladores Milton Nascimento e Lô
Borges. O sucesso foi tão imediato que elevou a popularidade do estado de Minas
Gerais para o centro das atenções e até o então presidente JK aderiu ao
movimento, tornando-se fã número 1 de todos os integrantes. Mais de trinta anos
se passaram e eis que a junção do ontem com o hoje voltou a povoar o mercado
fonográfico com um disco que visa homenagear o movimento mineiro com pitadas de
pop rock atual. O encontro de Samuel Rosa e Lô Borges não tem um significado
maior que o simples fato de cantarem sucessos que ainda estão na boca do povo.
O pop rock meloso de Samuel encontra a música singela de categoria ímpar de Lô
Borges para formarem a dupla do momento em um encontro formal para cantarem
sucessos renomados de um tempo áureo da MPB. Mas o que poderia ser bem feito
acabou sendo desprezível: a voz de Lô Borges não é mais a mesma e a voz de
Samuel Rosa é cansativa, arrastada, sufocada, melindrosa. Não existe uma
ligação capaz de suprir o iddeal momento espontâneo com a qualidade musical de
um tempo que ficou para trás, mas com raízes significativas e que deveriam
ficar lá, quietas, intactas. Não há emoção no disco, assim como não há
perfeição. Samuel Rosa e Lô Borges Ao Vivo (2016 / Sony Music / 35,00) é
um disco morno quase esfriando, mas que tem um peso importante dentro da música
nacional, que é o de resgatar pérolas embutidas em um cancioneiro próprio (o
que, para mim, pessoalmente, deveria ficar intacta!). Mas as duas pontas dessa história musical se
encontram para consolidarem um momento único: o encontro de Samuel e Lô passa a
ser um divisor de águas para aqueles que não conheceram o Clube da Esquina.
Mesmo sendo um disco cansativo, o encontro dos dois não ficará mais do que
pouco tempo registrado aqui, em um disco atemporal, tímido, mas com letras bem
caprichadas e que elevaram um tempo glorioso da música popular brasileira.
Samuel
Rosa e Lô Borges Ao Vivo (2016)
Nota
8
Marcelo
Teixeira
quinta-feira, 14 de julho de 2016
Por que devemos ouvir Adriana Calcanhotto?
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| Por que devemos ouvir Adriana? |
Dona de uma voz irresistível e
detentora de discos antológicos, Adriana Calcanhotto é mais que uma letrista
competente dentro da música popular brasileira. A gaúcha que contempla a
paisagem carioca tem o domínio fácil de criar composições românticas dentro de
um campo semântico de bel-prazer, atravessando os horizontes do infinito para
aprofundar em sentimentos desesperados e desamparados com o brilhantismo de uma
mente inquieta. Essa é Adriana Calcanhotto, a cantora que inspira multidões,
que devaneia os sonhos mais perplexos e que instaura mistérios cabíveis de
calmaria insana. Mas dentro da atmosfera musical de Adriana existe uma
personalidade muito forte, incandescente, próspera e audaz que nos remete a uma
indagação profunda: por que devemos ouvir Adriana Calcanhotto? A resposta não é
tão fácil quanto possível de ser explicada, mas existe uma contrapartida básica
e singela para tal demonstração do porque devemos ouvir suas músicas. Adriana
tem em seu currículo o panorama carioca registrada em músicas como Carioca e Maresia, tem o vendaval de explosão magnética em canções como Senhas, Vambora e Mentiras e tem
a emoção aflorada em músicas como Inverno
e Esquadros. Mas não é só isso. De
todas as cantoras surgidas na década de 1990 (Marisa Monte e Adriana duelaram
firmemente para se manterem no topo das melhores cantoras surgidas nesse
tempo), Adriana foi a que melhor representou a MPB, tendo em consequência maior
disso seu tino para compor aquilo que a população exigia. Se de um lado
tínhamos Marisa Monte e seu lado mais alternativo de cantar e compor, de outro
tínhamos Adriana com seu estilo mais calmo, denso e que adentrava por entre
nossos poros e peles com um dissabor incansável. Sendo uma expoente do
Tropicalismo de Caetano e Gil, Adriana nos apresenta em suas canções àquilo que
outras cantoras não nos mostram: sua versatilidade entre o cantar e o brincar,
sua sensação térmica em reestruturar canções antigas, sua magia em trazer à
tona ilustres personagens já esquecidos pelo tempo. Foi assim que trouxe Frida
Kahlo para o seu universo na música Esquadros
e que reviveu Hélio Oiticica em Parangolé
Pamplona, sobre o trabalho do artista de 1968 chamado Capa Feita no Corpo. Waly
Salomão certa vez disse que Adriana constitui
uma ótima vitrine para a poesia e ele estava coberto de razão. Waly é
remanescente do Tropicalismo, tem na bagagem ótimas letras e seu estilo de
garoto fanfarrão se contrapôs com o estilo cinzento de Adriana, que é o estilo
de uma artista que é cúmplice de seu próprio estilo. Além de trazer para a sua
música todo o tropicalismo ocidental, traz também a poesia que muitos
desconhecem, fazendo disso um arsenal ainda mais motivador para sua obra. A
poesia de Mário de Sá Carneiro, Cid Campos e Augusto de Campos, Ferreira Gullar
e Oswald de Andrade estão escancaradas em forma de música por sua voz tão
aveludada quanto autoral. É por essas e outras que devemos ouvir Adriana: não é
qualquer cantora que consegue unir o passado com o presente, fazer de um
simples elo de sofisticação singular com a beleza popular e fazer delirar os
corações apaixonados com seu semblante angelical. Precisamos ouvir Adriana
Calcanhotto para termos a certeza de que a música popular brasileira é rica em
detalhes e que pode ser útil também perante a poesia concreta e abstrata, perpassando
pela pintura visível de grandes mestres das cores.
Por
que devemos ouvir Adriana Calcanhotto
Por
Marcelo Teixeira
quinta-feira, 7 de julho de 2016
O Brasil de Inclassificáveis por Ney Matogrosso
![]() |
| Brasil Inclassificável por Ney |
A música Inclassificáveis foi composta e gravada por Arnaldo Antunes no ano
de 1996 para o álbum O Silêncio e contava a participação de Chico
Science, expoente da música nordestina de qualidade excepcional na época e que
trata de um tema muito pouco conhecido por todos nós: a formação do povo
brasileiro como um todo. Inclassificáveis
traz a tona na seara musical a fenda dos olhos das pessoas perante o Socialismo,
a Antropologia e a diferenciação de suas raças. Para inicio de conversa, não
estamos falando de coisas fáceis: cantar Arnaldo Antunes já é uma tarefa
dificil e seus pensamentos com relação àquilo que o rodeia é uma relação de
complexidade muito maior que sua própria imginação conduz. Tendo como crítica
clássica sobre um tema tão pouco minado no Brasil (Clara Nunes já vinha com
essa miscegenação de raças em sua carreira na década de 1970), Arnaldo apenas reforçou
um assunto subliminar sobre aquilo que sabemos que existe, mas que ninguém tem
na consciência privada de que é importante para detectarmos quem realmente
somos e sobre nossa própria origem, revelando nossos antepassados. Quando foi
lançada, a música na voz de Arnaldo e Science não rendeu tantas promessas
musicais, mas quando Ney Matogrosso e sua força teatral a cantou no excelente
álbum que leva o título da canção, as pessoas pararam e refletiram: de onde é
que viemos? Porém, Ney Matogroso não entrou na onda de ser um sociólogo da
música popular brasileira: ele mesclou essa canção antropológica de Arnaldo com
canções políticas de Cazuza, Chico
Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil com o romantismo lírico de Itamar
Assunpção e com os versos de peso moderado de Carlos Careqa e Pedro Luis. Óbvio
que Inclassificáveis teve um peso
muito maior neste álbum, pois a música não tem fácil articulação vocal e cantar
da forma perfeita com a qual Ney canta a transformou em uma das melhores faixas
do disco. Inclassificáveis (2008 / EMI / 28,99)
é um disco completo, com uma capa perfeita e que traz um Ney Matogrosso ainda
mais vigoroso dentro de sua arte, dentro de seu universo e dentro de suas
conquistas. Arnaldo Antunes compôs Inclassificáveis em um nível muito acima
de sua intelectualidade: aqui ele trabalha com neologismos e construções harmônicas
de modo a formar uma verdadeira coberta de tiras etno-culturais que formam a analogia
do povo brasileiro, interrogando a todo momento a matriz exemplar desse povo
(índio, branco e negro), indo direto ao ponto nevrálgico de novas formações
culturais, como o mulato, o cafuzo e o mameluco. A partir dessas mesclagens surgem
os crilouros, tupinamblocos, guaranisseis, ciganagôs e judárabes. Somos brasileiros inclassificáveis, pois somos
frutos de nossa combinação racial secular. Assim como enfatizou Arnaldo cantado
brilhantemente por Ney, aqui não tem cor,
tem cores. Ao analisar o disco inteiro de Ney Matogrosso e refletir
basicamente o que uma canção tem a ver com a outra, entre socialismo,
antropologia, política e romantismo, posso atestar que vivemos em um Brasil
inclassificável.
Inclassificáveis
(2008) / Ney Matogrosso
Nota
10
Marcelo
Teixeira
quinta-feira, 30 de junho de 2016
Maria Rita não empolga em disco ao vivo de samba
![]() |
| O samba de Maria Rita: particular |
Maria Rita é sempre assim: quando
acerta em um disco, erra no outro. Não que
seus discos sejam totalmente ruins, pelo contrário, mas é que algumas canções
não caem bem em sua voz, ou a capa é estranha ou o sorriso é forçado ou alguma
coisa não está bem, mas nunca que seus discos sejam ruins ou cansativos. Mas achei
desesperada a ação da cantora em lançar um disco praticamente igual ao que ela
acabara de lançar: Coração a Batucar (2014) é um dos melhores discos
da carreira da cantora, mas colocar no mercado um disco ao vivo com as mesmas
cançõe que o anterior e com algumas pinceladas de outros discos, não caiu bem e
faz com que esse seja um desperdício musical total. Além de ter uma capa
simples entre cores funebres e estranhas, Maria Rita errou feio ao cantar o
mesmo repertório do disco anterior, chegando a ser caricato, paupérrimo,
sinistro. Com uma pressa imediata para lançar o novo disco, a gravadora cometeu
uma das maiores gafes do mundo da música: Samba em Mim Ao
Vivo na Lapa (2016 / Universal Music / 29,99) teve a oitava faixa, Coração a Batucar, trocada por Num Corpo Só, que não está originalmente
neste repertório. A gravadora já se prontificou a ajustar o erro e quem comprou
o CD com esse defeito, poderá fazer a troca através do site da Universal. O Samba em Mim
não é um bom disco, não há sustância para ser um disco de samba da melhor
qualidade, porque Maria Rita já o fez anteriormente. Mas há naturalidade aqui:
Maria Rita nos apresenta em O Samba em Mim
um samba atualizado e na mais humilde das palavras, particular e familiar, que
presta uma consideração à tradição sambista e que assume o livre-arbítrio de
filtrá-la a partir da marca incomum de sua assinatura como cantora. Friso mais
uma vez que esse não é o melhor disco da cantora, mas que este está interligado
à Samba Meu
(2007) e desde então está presente nos discos que produziu a partir
deste. Samba Meu
foi o primeiro grande desafio de Maria Rita no universo do samba e com este
disco ela alcançou notas ainda maiores não apenas pessoal, mas com a conquista
de público fiel ao seu trabalho.
O
Samba em Mim Ao Vivo na Lapa (2016) / Maria Rita
Nota
7
Marcelo
Teixeira
sexta-feira, 24 de junho de 2016
Os Pássaros Urbanos (2014) de Raimundo Fagner
![]() |
| Os pássaros de Fagner |
Raimundo Fagner é um dos melhores
cantores nordestinos, sem tirar os méritos de outros grandes artistas de sua
geração. Mas a capacidade vocal e a extensa lista de sucessos refletem em sua
carreira sólida o status de um dos melhores de todos os tempos. Depois de quase
cinco anos sem lançar um disco, o cantor e compositor cearense volta com a
prioridade de reconquistar o público perdido, angariar mais ouvintes à sua
música e disposto a provar que sua criatividade não se esgotou. Em Pássaros Urbanos (2016 / Sony Music / 22,00),
o cuidado com a escolha de um repertório bem selecionado com uma sonoridade
perfeita e letras bem arquitetadas, o cantor revisita o cenário nordestino como
um pássaro musical marcado pela cultura de sua geração. O disco contém 11
faixas, sendo três regravações, que resumem quatro décadas de estrada de um dos
nomes mais bem-sucedidos da história da MPB. Fagner tinha sede de se lançar de novo ao seu
público e muita vontade de jorrar para fora toda a sua cantoria embutida pelo
longo hiato na qual submeteu. Pássaros
Urbanos versa sobre amores urbanos com sons contemporâneos, um tom
predominantemente romântico, que é a marca registrada do cantor. O repertório
traz parceria com Fausto Nilo (Balada
Fingida), Zeca Baleiro (Samba
Nordestino) e Belchior (Paralelas),
sendo uma releitura de um dos clássicos do repertório deste. Pássaros
Urbanos mostra toda a
versatilidade de Raimundo Fagner perante a sua regionalidade e toda a sua
superação musical ao voltar ao cenário da MPB com um álbum de inéditas. O disco
é uma verdadeira obra prima. Os
pássaros de Fagner resolveram voar sem uma parada obrigatória.
Pássaros Urbanos
(2014) / Fagner
Nota 9
Marcelo Teixeira
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