domingo, 16 de outubro de 2016

Cartola - O Musical: emoção à flor da pele

Cartola e Zica: muito samba
Chega a ser difícil segurar a emoção e conter as lágrimas quando vemos Cartola (1908 – 1980) e Dona Zica (1903 – 2003) bem de frente para nós, com suas roupas de outrora, seus passos envelhecidos, seus trejeitos amadurecidos e suas histórias de vida sendo muito bem representados pelos atores e cantores Flávio Bauraqui (perfeito, impecável, espetacular) e Virgínia Rosa (linda, esplêndida, maravilhosa). É impressionante a dramatização que o musical Cartola – O Mundo é um Moinho¹ transpassa para o público que lotou o Teatro Sérgio Cardoso neste sábado, 15 de outubro: com uma sincronização perfeita, elenco afiado e texto primoroso, todos ali presentes estavam ansiosos pela próxima cena, que era muito bem narrada pelo ator, cantor e escritor Hugo Germano (um banho de interpretação). O público estava fervilhando de emoção com cada música cantada, com cada movimento no palco, mas o momento mais esperado era o encontro entre Cartola e Dona Zica. E isso acontece, óbvio, mas para chegar nesse período sublime (e real) é preciso contar toda a trajetória do cantor e compositor carioca, que preferia o morro do que a comodidade de um lar digno de reis e marajás. O musical não deixa a desejar em nenhuma ocasião e a plateia fica tão extasiada, que as palmas eclodem o lotado teatro a todo instante. Que perfeito casal de atores! Flávio e Virgínia estão em um momento espetacular, tendo em vista que há tantos musicais importantes na cidade que já foram produzidos e que estão em fase de produção.  Com idealização do ator e produtor Jô Santana, dramaturgia de Artur Xexéo, direção e encenação de Roberto Lage, pesquisa detalhada da neta do homenageado, Nilcemar Nogueira (que também é diretora do Museu do Samba no Rio de Janeiro) e direção musical de Rildo Hora, Cartola - O Mundo é um Moinho conta a trajetória de um dos maiores nomes do samba, cujo fora o fundador de uma das escolas mais antigas e com toda a certeza a mais popular: Estação Primeira de Mangueira. Vá agora assistir ao musical, porque é uma obra-prima! Mas leve um lencinho, porque você vai se emocionar do começo ao fim. Chegando ao final do espetáculo é preciso parar para uma reflexão: na última cena, em que Cartola e Dona Zica fincam seus nomes no samba e com uma alegria insana, é possível dizer que eles estavam de fato presentes ali no teatro. Vírginia cresce virginosamente no final do primeiro ato para o início do segundo e consegue colocar nos eixos a vida de Cartola e a sua música perene.  É inconcebível reconhecer os atores como eles mesmos, pois a caracterização de todos é tão impactante, que chega a beirar a perfeição com tantos detalhes importantes. Vale destacar também a bela apresentação de Adriana Lessa (sem palavras, grande atriz, excepcional artista), Edu Silva e seu magistral Carlos Cachaça, Silvetty Montilla (divina em um papel feito exclusivamente para ela), que nos deram momentos de risos deslubrantes. Destaque para Augusto Pompêo, que interpretou o pai de Cartola, nos dando um banho de intepretação, André Muato que ironizou Nelson Cavaquinho, Paulo Américo com seu vozeirão magnífico dando voz também ao Zé Ketti, Lu Fogaça e sua Nara Leão bem tímida e perfeitinha e Gabriel Vicente, que conseguiu captar detalhes homéricos de Francisco Alves. Palmas esfuziantes para os astros da noite: Flávio Bauraqui e Virgínia Rosa e seus talentos extraordinários! Viva Cartola!
¹A peça fica em cartaz até o dia 31/10/2016
Elenco: Flávio Bauraqui, Vírginia Rosa, Adriana Lessa, Hugo Germano, Augusto Pompêo, Ivan de Almeida, Silvetty Montilla, Edu Silva, Renata Vilela, Larissa Noel, Lu Fogaça, Andrea Cavalheiro, Grazzi Brasil, Flávia Saolli, Paulo Américo, Gabriel Vicente, Rodrigo Fernando e André Muato.
Serviços:
Teatro Sérgio Cardoso (Rua Rui Barbosa, 153 – Bela Vista
Temporada: de 11 de setembro a 31 de outubro
Horário: As sextas, 20h; sábados às 21h, domingos às 18h e segundas, às 20h.
Classificação etária: 12 anos
Duração: Duas horas e meia
Ingressos: De R$ 30,00 a R$ 120,00
Vendas: ingressorapido.com.br

 

Cartola – O Mundo é um Moinho
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

sábado, 8 de outubro de 2016

Daniela Mercury: do axé à MPB


Daniela: rainha da axé
Sempre digo que a música baiana é dividida em blocos importantes: a primeira retrata a música de Dorival Caymm e Assis Valente, o segundo bloco é representado pela onda de baianidade intelectualizada formada por Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Maria Bethânia, Baby do Brasil, Moraes Moreira e outros e o terceiro e mais importante bloco é representado apenas por uma única mulher, que revolucionou a música com três palavras determinantes: ginga, energia e determinação. A década de 1990 foi marcada pela geração de Daniela Mercury, que conseguiu uma legião de fãs por todo o Brasil com sua voz, sua dança, seu balé, sua sofisticação e seu axé. Estávamos saindo de uma onda roqueira, embalada por roqueiros e bandas com alguma simpatia cordial e estavámos enojados com o pagode brejeiro de grupos multifacetados que aspiravam a demagogia do riso forçado, que caminhava lado a lado com as duplas sertanejas que ascendiam lareiras fervilhantes, mas que nada se comparava aos mitos Chitãozinho e Xororó. As únicas cantoras que estavam no posto de donas da vez eram díspares em suas camadas musicais, sendo elas Marina Lima no rock e Daniela Mercury no chamado axé, pois Marisa Monte, que vinha de um disco maravilhoso de 1988 e Adriana Calcanhotto, que receberia as glórias em 1990, duelavam entre si pelo posto mais alto da música, mas o caminho de Daniela estava livre para mostrar o seu talento e, de quebra, aquilo que ninguém até então tinha ouvido cantar, falar e comentar. Ao longe e timidamente, cantoras do naipe de Cássia Eller, Zélia Duncan, Fernanda Abreu apareciam aqui ou ali em apresentações medianas. Mas 1991 foi um divisor de águas na carreira meteórica de Daniela Mercury, que nesta altura já tinha desistido de ser bailarina para se tornar a maior estrela da música nacional. Arrastou multidões com a música Swing da Cor (1991), que lhe rendeu centenas de shows e lhe valeu a fama de cantora das multidões. De fato, não havia uma cantora nacional com aquela popularidade enorme e Daniela tinha todos os atributos para ser a rainha do axé. Daniela Mercury era um fenômeno por onde passava e o axé tinha uma representante à altura. Com coreografias sensacionais, a cantora deixou seu nome registrado na música nacional como sendo a maior de todos os tempos. Depois de seu sucesso estrondante, artistas do naipe de Gal Costa, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque passaram a reverenciar sua voz, seu canto e seu estilo e a tornaram ainda mais em evidência: era o primeiro passo da cantora no mundo da MPB. A bem da verdade, Daniela já flertava com a música popular brasileira em algumas faixas de seus discos e esse sempre foi o desejo da baiana em ser um dia uma cantora distante do axé. Não que o estilo fosse negativo, mas Daniela sempre almejou ser uma nova Gal Costa, dando a chance de mostrar para outros públicos o quanto sua voz poderia ser privilegiada fora de um contexto elétrico. Com a chegada de Ivete Sangalo e, mais tarde, de Claudia Leite, Daniela deu vazão para o mundo da MPB e foi abandonando aos poucos a axé que um dia lhe consagrou. A mudança não surtiu tanto efeito assim para os fãs ardorosos da cantora, mas Daniela soube usar a inteligência e já havia sacado que se não mudasse de estilo o mais rápido possível, poderia cair no ostracismo. Não foi o que aconteceu: com ótimas releituras e com a voz ainda mais valorizada, Daniela conseguiu respeito e admiração de um público cada vez maior e que conseguia nutrir uma satisfação nada egocêntrica de sua parte. Daniela conseguiu mostrar sua voz para a cidade e realizou o sonho de ser uma menina baiana que um jeito que Deus dá.

 

Daniela Mercury: do axé à MPB
Por Marcelo Teixeira

sábado, 1 de outubro de 2016

A obra, o legado, a decadência e o mito Raul Seixas


Raul: mito do Rock
Raul Seixas morreu em agosto de 1989, derrubado pelos excessos. Deixou músicas que se tornaram hinos à rebeldia e à inconformidade com as coisas caretas do mundo e milhares de fãs desolados. Gente de todos os tipos choraram sua partida, desde ricos, pobres, caminhoneiros, roqueiros, urbanóides, sertanejos e estudantes. Raul não tinha rótulos, embora o rock estivesse em sua veia, mas o cantor passeio pelo baião, pelo samba e pelas baladas, compondo pérolas como Rock das Aranhas, Metamorfose Ambulante, Ouro de Tolo, Al Capone, entre tantas outras maravilhas. Mas o que esperar de um garoto problemático que cresce ouvindo Elvis Presley, Luiz Gonzaga, Chuck Berry e Jackson do Pandeiro? Raul transitava por todas as searas musicais, dizendo que não tinha um título que o rotulasse. Gostava de Genival Lacerda, mas também admirava Cauby Peixoto. Nascido na Bahia em 1945, Raul Seixas gostava mesmo era de intimidar as pessoas com suas tiradas e sacadas geniais. Várias de suas músicas foram censuradas pela Ditadura Militar, algumas foram engavetadas para uma gravação futura, outras tiveram que ter letras trocadas para não serem grampeadas pelo governo. Seu primeiro disco foi lançado em 1986, com o título de Rauzito e os Panteras, pela EMI-Odeon, não sendo um grande sucesso de público e muito menos de crítica. Com tanta desilusão musical, o cantor desfez a banda e voltou aos estudos, no curso de Filosofia. Não tardou muito e o cantor voltou à música, em 1972, inscrevendo-se para o VII Festival Internacional da Canção, classificando aqui duas músicas que se tornariam hinos consagrados: Let me Sing, Let me Sing e Eu Sou Eu, Nicuri é o Diabo. Através dessa classificação sensacional, o cantor e agora compositor reconhecido é contratado pela grande gravadora, a Phillips. Com sua ida à Phillips, Raul deparou-se com um escritor fracassado, metido a bruxo e com um lado místico efervescente: Paulo Coelho, que acreditava em discos voadores e extraterrestres. Através desse encontro, a vida de ambos, cantor e escritor, passa por uma transformação avassaladora: eis a parceria mais importante da música popular brasileira. Em 1973 lança sua mais pura perfeita tradução musical com Ouro de Tolo e a irônica e zombeteira Mosca na Sopa. Perseguido pelos militares em 1974, Raul exila-se nos Estados Unidos e mais uma vez é surpreendido pelo acontecimento histórico e inacreditável: o encontro com o ícone da música americana John Lennon. Volta ao Brasil no mesmo ano e compõe Sociedade Alternativa, O Trem das Sete e Gita, que se transformou em um disco antológico. Mas nem tudo eram flores na vida musical de Raul e, por esse motivo, em 1975 lança Novo Aeon, um disco fraco e que vendeu muito pouco, deixando a todos os empresários cabisbaixos, mas a qualidade desse disco é igual ou melhor que o de 1974. É nesse disco que se encontra um dos maiores selos românticos da obra do cantor: A Maçã. Já em 1977 lança O Dia em que a Terra Parou, compondo ao lado de Cláudio Roberto o hino hippie Maluco Beleza e que, por consequência disso, passa a ser o apelido de Raul. Esse disco passa a ser uma obra-prima também para o próprio Raul, pois Gilberto Gil dá uma canja no violão na música Que Luz é essa? Em 1978 lança Mata Virgem e retoma a parceria com o escritor Paulo Coelho, que estava meio estremecida desde 1975. Deprimido com público e crítica que rejeitaram seu disco Por quem os Sinos Dobram (1979), Raul exagera no consumo de bebidas e drogas, onde passa por várias internações e perde metade do pâncreas em uma cirurgia. Apesar dos problemas pessoais, o cantor volta com carga total e lança um mediano álbum, Abre-te Sésamo (1980), com relíquias como Anos 80 e Rock das Aranhas. Tendo uma boa repercussão por causa desse disco, Raul inicia uma pequena turnê pelo interior de São Paulo, preferindo apresentar-se em cidades pequenas, levando sua arte àqueles que não podiam ir aos seus shows de grandes proporções. Essa iniciativa não deu tão certo assim, embora a crítica o aplaudisse de pé: o cantor era visto bêbado nas padarias, sempre ao lado de um copo. Raras vezes o encontravam com um bloquinho e uma caneta rabiscando alguma música. Desse bloquinho ainda surtiram efeito de luz no fim do túnel e Raul põe no mercado, agora pelo selo Eldorado, o disco Raul Seixas, que conseguiu emplacar Carimbador Maluco e a música infantil Plunct-Plact-Zumm. Já em 1984, o cantor lança Metrô Linha 743, pela Som Livre, que teve uma música censurada: Mamãe Eu Não Queria (Servir o Exército).  Depois desse disco e sendo cada vez mais chamado de Maluco Beleza, Raul passaria por outras gravadoras e isso virou piada entre o meio musical, pois mostrava a já decadência do artista. Porém, em 1987, no disco Uah-Bap-Lu-Bap-Lah-Bém-Bum!, pela Copacabana, nasceu um de seus últimos hinos: a bela Cowboy Fora da Lei. O ano de 1988 não começou bom para o cantor, que vinha se tratando de vários problemas relacionados a álcool e lança um disco mais fraco que o de início de carreira, em 1968 e o de 1979. A Pedra do Gênesis (1988) foi muito mal recebida por todos e Raul decide-se se isolar por completo. Mas graças ao amigo e cantor Marcelo Nova (nesse tempo, Paulo Coelho já estava afastado de Raul), o convence a gravar novamente. O último disco da carreira de Raul chama-se A Panela do Diabo (1989), sendo um convite a sua saída derradeira aos 44 anos de idade e sendo um ícone da música nacional brasileira. O grande legado que Raul Seixas deixa para a música contemporânea é o seu mundo representado por músicas místicas envolvidas por ritmos até então nunca imaginadas juntas.  Raul não fora apenas um cantor que ministrou o baião, o samba e o rock no mesmo palco, mas sim, um grande cantor que estava desenhando o seu mundo imaginário através daquilo que achava justo e correto cantar.

 

O legado de Raul Seixas
Por Marcelo Teixeira

 

sábado, 24 de setembro de 2016

Os clichês de Manu Gavassi


Manu e um disco adolescente
Dentro do seu universo pop juvenil, Manu Gavassi é detentora de um estilo único, que tenta ser perfeitinho e autoral. Não há como negar a evolução da cantora dentro da música popular brasileira e esse seu crescimento está associada a imagem de Júnior Lima, irmão de Sandy, de quem Manu é fã fervorosa. Podemos dizer que Clichê Adolescente marca o fim de uma era adolescente na vida musical de Manu, assim como podemos dizer também que marca o início de uma era musical composta entre a sonoridade mais adulta e a música que tenta a batida perfeita. Não, ainda não é o momento de Manu dentro da música, mas mostra o quanto a cantora desenvolveu uma postura mais comportada e singela e própria desde o lançamento deste disco, em 2013, até seu mais novo disco, Vício (2016). Tudo aqui gira em torno do romantismo juvenil da cantora, do seu lado teen, de garota comportada, de menina que resolveu soltar para todos seu lado puro. Tudo aqui é fraco, mediano e não há expressão musical da cantora, mesmo com uma produção com a assinatura de Rick Bonadio. Clichê Adolescente (2013 / Sony Music – Midas Music / 21,99) é gostosinho de ouvir, perto de outros álbuns da cantora, mas Manu precisa crescer e crescer e crescer para ser mais ouvida. Por enquanto, ela está dentro do limite que sua idade permite.

 

Clichê Adolescente (2013) / Manu Gavassi
Nota 7
Marcelo Teixeira

sábado, 10 de setembro de 2016

O pagode convencional de Thiaguinho em Vamo que Vamo (2016)


Thiaguinho: criando jargões
Pagodeiro nato e com estilo próprio para cantar e se apresentar, Thiaguinho prova mais uma vez que além de um bom interpréte, sua função maior é colocar na boca do povo jargões que grudam em nossa memória feito chiclete e que passamos a cantarolar sem ao menos percebermos. Depois de megas sucessos como Ousadia e Alegria (2012) Caraca, Muleke (2014), agora o aspirante ao posto de sambista surgiu com o hit Vamo que Vamo (2016 / Som Livre / 29,00), que já está no topo das paradas de todo o país. Mas antes de qualquer coisa, é bom deixarmos uma coisa clara aqui neste artigo: gosto do Thiaguinho, ouço suas canções, mas não ouso acompanhar sua carreira e muito menos carregar seus discos para cima e para baixo. Não pelo fato de ser pagodeiro, mas pelo fato de suas músicas não acrescentarem em nada a honrada, porém sacrificada, Língua Portuguesa. Thiaguinho e sua equipe souberam muito bem de onde extrair um valor absurdamente rentável ao trazer a tona ditos populares que a galera logo pára para ouvir. Exemplo claro é seu Vamo que Vamo: além de detonar com a linguagem habitual meramente linguística, o cantor utilizou artimanhas que fazem as pessoas erguerem os braços numa manifestação que ecoa festa e ludicidade. Thiaguinho é experiente nesse segmento e sabe como ninguém a fórmula de fazer sucesso em um país que ostenta funkeiros com seus carrões, dissimula seus verdadeiros chavões da MPB, desequilibra a bancada sertaneja e desorienta outros pagodeiros que adorariam estar em seu lugar. Sem ser caricato, o disco mereceu uma capa branca contrariando a sua cor natural de pele, o que ficou muito bacana e estilosa, mas algumas letras deveriam nem mesmo estarem no disco, tamanha a sua falta de encantamento. Mesmo assim, vale a pena ouvir esse novo trabalho de Thiaguinho mais pelo som da novidade do que pela motivação musical. Mas Vamo que Vamo fica apenas nisso: um festival de pagodes eletrizantes distanciados do verdadeiro samba, que faz com que o povo pagodeie alegremente, esquecendo que o legítimo samba é o que está na ponta do pé.

 

Vamo que Vamo (2016) / Thiaguinho
Nota 7
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Os ponteiros de Tito Marcelo em O Futuro Ligeiro da Demora (2016)


Tito Marcelo: álbum perfeito
A música quando cantada com vontade, com gosto e com causa, ganha notas alcançadas dentro de uma atmosfera que requer uma cumplicidade ímpar e analógica de seu estado de espírito.  Esquece-se o tempo, o relógio, o contador, os ponteiros e passamos a pontuar a sonoridade, a coerência harmoniosa, o desfrute de um som perfeito e vicioso que requer uma simbiose de simplificações homéricas equidistantes.  Para fazer uma boa música é preciso uma boa harmonia, uma boa letra, uma boa voz e com isso ganhamos uma simpatia eloquente entre aquilo que recebemos auditivamente e respondemos com sorrisos largos, agradecendo pela música que ganhamos. Tito Marcelo representa a juventude escondida dentro de nós, trazendo para o hoje a sua visceral música, translúcida e rica de ambientes sofisticados com a pontuação de relógios que mesmo com ponteiros desregulados, conseguem fazer a assimetria de um futuro gostoso, porém sem pressa. O Futuro Ligeiro da Demora (2016 / Independente / 20,00 – www.titomarcelo.com), produzido por André Vasconcellos, é um delicioso disco que tem samba, eletrônico, soul, regaae, gingado, harmonia, cristalina voz e elegância. Com uma capa sistematizando o número 3 como sendo o terceiro de sua carreira, Tito nos concede um álbum magnífico mostrando que a música é o seu caminho e que aqui existe um poço de verdades emaranhadas com sua inquietude infinita de fazer boas canções. Disco diferente de seus trabalhos anteriores, tudo em O Futuro Ligeiro da Demora nos remete a alguma coisa, seja um amor ressentido, um carinho sincero, um encontro ao ar livre, uma cinza manhã que se transforma em uma tarde de sol agradável. Esse é o encanto de todo o disco: o elo entre a verdade de Tito Marcelo para a alegoria que está à sua frente. Recifense, o cantor que já foi entrevistado pelo Mais Cultura Brasileira evidencia sua música com a riqueza de detalhes envolvendo o amor, a tecnologia, o tempo, o silêncio amargo da demora, a felicidade encantadora do amanhã e a retórica sabedoria filosófica do hoje. Sendo seu melhor disco até o momento, Tito Marcelo expõe um desfiladeiro de músicas que ficam martelando em nossa mente a todo instante, com uma leve pitada de lembranças saudáveis de um tempo qualquer e com aquela sensação de que a nossa música brasileira é a melhor do mundo. É impressionante sua capacidade vocal, tão límpida e florescente quanto perfeita e autoral, nos trazendo a certeza através de suas canções o reflexo de que precisávamos de sua presença agora, amanhã e sempre. Chega a ser uma tarefa difícil selecionar uma ou outra canção, mas é irresistivelmente preciso parar para ouvir todo o disco, repeti-lo inúmeras vezes para termos a clara e evidente certeza de que aqui há um produto de qualidade e no dia seguinte tornar a repetir o feito. Tito Marcelo era o cantor que faltava: seja em qualquer eventualidade, sua voz ecoa por nossas mentes com sua transparente musicalidade, sua poesia e sua ludicidade. O cantor e compositor nos apresenta o melhor disco de sua carreira com O Futuro Ligeiro da Demora, pontuando em cheio sua música dentro da MPB e nos provando que o futuro pode ser ligeiro mas com uma pitada de demora.

 

O Futuro Ligeiro da Demora (2016) / Tito Marcelo
Nota 10
Marcelo Teixeira

domingo, 28 de agosto de 2016

A sofisticação de Clara Nunes ao cantar Tom e Chico


Clara: sofisticação na MPB
Engana-se quem pensa que Clara Nunes foi uma cantora apenas de samba ou que tinha a sua religiosidade à risca para cantar aquilo que o povo brasileiro precisava aprender sobre cultura africana. Óbvio que o reduto da cantora era poder mostrar que a africanidade existente dentro de cada um de nós era proveniente de uma religião, mas isso foi tão emblemático em sua vida particular, que hoje, decorrido mais de trinta anos de sua morte, ainda reverbera a imagem de Clara de que ela fora uma cantora de macumba. Isso, fora de contexto, serve de lição para os analfabetos de plantão, afinal, aquilo que Clara cantou reflete e muito em nossa vida cultural e religiosa. A África está ligada em nossas raízes mais ainda do que Portugal, que colonizou nosso país. Mas Clara foi muito mais que uma cantora de samba: ela cantou e encantou as músicas de Tom Jobim e Chico Buarque como nenhuma outra cantora ousou em fazer.  Clara Nunes Canta Tom & Chico (2005 / EMI / 23,99) é uma coletânea original que reúne as canções gravadas por Clara de dois monstros sagrados da nossa música popular brasileira. Com produção de Luiz Linhares Garcia e Cláudio Rabello, o disco é impecavelmente perfeito pelo teor das composições, pela natureza de um repertório bem elaborado e pela delicadeza com que cada compositor gerou sua cria. Clara soube aproveitar o momento sublime em canções que enaltecem o romantismo, com teor político e sabor embolorado com rústicas minimalistas, com a perfeição de sua voz e a suavidade de sua imagem.  Fica impossível não resistir aos encantos de Sábia (1968), ao romance na luta de duas mulheres pelo mesmo homem amparadas pela guia de asfalto em Umas e Outras (1973), ao imperialismo português em Fado Tropical (1977), aos encantamentos amorosos e sentimentais à flor da pele de Novo Amor (1982), a política irrestrita e cabal de Apesar de Você (1977) e ao samba moderno e feito sob medida para Clara em Morena de Angola (1980), que fizeram o Brasil e a África sambarem ao samba encantador de Chico Buarque. Esse disco demonstra a importância de Clara na nossa música e de duas esferas na MPB: o patrono Tom Jobim e seu pupilo rebelde Chico Buarque.

 

Clara Nunes Canta Tom & Chico (2005) / Clara Nunes
Nota 10
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

O estado de poesia de Chico César


Chico César e sua poesia
Chico César é um dos melhores cantores e compositores de seu tempo e a prova disso é a quantidade de discos lançados sempre com a excepcional excelência de músicas consagradas e pelo aporte de cantoras que já o gravaram. Seu estilo vai muito mais além de Mama África, música que o consagrou e o revelou da Paraíba para o Brasil inteiro, fazendo de sua carreira um arsenal de metáforas consagradas. Chico César é um raro tipo de cantor que tem na veia a verdadeira música de raiz, brasileira, típica e nordestina. Estado de Poesia (2015 /Urban Jungle – Natura Musical / 24,00) é mais que um disco de músicas inéditas de Chico César: é um expoente de poesias catalisadas de um homem paraibano que consegue transpassar sua leitura através de sentimentos próprios e com significações alheias.  Estado de Poesia reflete o momento atual de Chico: mais poético, mais harmonioso, delicioso de ouvir e que une a delicadeza de ritmos brasileiros com a sonoridade universal, contendo, no mesmo disco, ritmos como samba, forró, toada e reggae, características unilaterais que sempre regeram a vida artística de Chico. Estado de Poesia se iguala a outros discos importantes na carreira do cantor, como Respeitem Meus Cabelos, Brancos (2002) e De Uns Tempos Para Cá (2011) tamanha a sua força poética, lírica e unilateral.  Vale lembrar que a faixa-título do álbum foi gravada por ninguém menos que Maria Bethânia no DVD Carta de Amor, como celebração de sua amizade com o artista paraibano. E não é nenhum segredo o amor que a cantora baiana tem pelo Chico. Estado de Poesia é um disco que fala de amor, de amor próprio, de licença poética, de vida, de união. Expoente natural da cultura brasileira, Chico César nos brinda com mais um disco autoral, perfeito, sem retoques e com a sinfonia fina de sua rica intelectualidade.

 

Estado de Poesia (2015) / Chico César
Nota 10
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

O pop juvenil de Tiago Iorc


Pop moderninho de Iorc
Dentro de seu mundinho pop juvenil, Tiago Iorc reina absoluto como o dono do pedaço, pedindo espaço entre Fiuk e Lucas Lucco, mas sem se ferir por completo, sendo que seu espaço está devidamente garantido entre as adolescentes afloridas de talco de nenêm. Mesmo sendo uma vertente poderosa a favor do cancioneiro moderno, o cantor e compositor não é uma das melhores e mais promissoras vozes da música brasileira, mas seu estilo de bom moço e partideiro de família abastada o fizeram ser um dos ícones mais importantes do cenário musical dos últimos tempos. Tiago tem lá suas qualidades, mas também tem lá seus defeitos. Por qualidades podemos dizer que ele entrou de cabeça na onda musical em um momento em que a sua música se distancia do estilo pop agresssivo de NX Zero, se distancia do pop romântico meloso de Fiuk e se distancia do pop eletrônico estranho de Lucas Lucco e, por esse quesito, ganha pontos satisfatórios para a sua carreira. Outro ponto positivo de Tiago é seu sorriso, que consegue ser real, mas não passa de um sorriso encabulado, tímido e sensato. Mas sempre onde há qualidades há defeitos e, nesse caso, o parâmetro se iguala. Tiago canta bem, mas é só. Não compõe tão magistralmente assim e, em resumo, não se sustenta em um disco inteiro. A qualidade da capa de seu primeiro trabalho solo é fantástica, mas se formos levar ao pé da letra pelo miolo da arte, temos um serviço incompleto: mesmo tendo uma voz legalzinha, o disco é enfadonho, cansativo, arrastado e que se iguala completamente entre uma mesmicíe e outra. Para maiores detalhamentos, não posso sugerir que a música de Tiago seja abafada, camuflada ou esquecida, pois ele é parte itinerante no mercado adolescente, mas o cantor peca pela exaustão de suas músicas, carregadas no romantismo peculiar nonsense e pelo exagero de profusão de ideias sentimentais que confundem seu verdadeiro lugar dentro da música. De resto, o cantor está merecidamente no seu posto de cantorzinho da menininha no portão, da mamãezinha que sabe que a filha ainda não tem um namoradinho e do papai que sabe que sua filhinha está indo bem na escola. Todos esses méritos devem-se exclusivamente a Tiago Iorc, o cantor que cativa com o sorriso, mas que é embalado por um disco imparcial.

 

O pop juvenil de Tiago Iorc
Nota 8
Marcelo Teixeira

sábado, 6 de agosto de 2016

Adeus, Vander Lee!


Vander Lee: morte precoce
Vander Lee não era um cantor muito conhecido do público em geral, mas tinha a o seu público especial, aquele público que acompanhava de perto a carreira do artista, que sabia de cor suas letras e não perdia seus shows. O cantor não tinha uma grande voz, não era popular, não era famoso, mas conseguiu fazer de sua música um instrumento de trabalho poderoso, cuidadoso, corajoso e audacioso. Mesmo não tendo uma voz característica de grandes artistas de seu tempo, ele sabia como hipnotizar seus ouvintes da melhor forma possível: através de sua composição certeira, arisca, rica. Foram poucas canções em uma carreira marcada pela amorosidade à música brasileira, mas destas, podemos dizer que foram suficientemente francas no ponto de vista solitário de um artista neutro, imparcial, não popularesco. Vander Lee teve pouco tempo de vida, morreu jovem, começou tarde na música, mas angariou letras sensacionais que em pouco tempo arrebatou nas vozes de Alcione, Leila Pinheiro, Gal Costa, Maria Bethânia, Rita Benneditto. Foram músicas fortes que falavam de Deus, romantismo, sinceridade e uma profusão de ideias e pensmentos e frases e amores que apenas Vander Lee conseguiu extrair de sua mente em ebulição. Saí de cena um musico exemplar, de uma categoria ímpar, de uma finesse perfeita para ficar em nossas lembranças um artista único, completo, sensível, amável. Mais conhecido por seus versos que falavam do amor cotidiano, Vander cantava sua singeleza como elemento de sua música autoral. Ele tinha 19 anos de carreira, nove discos gravados e sua madrinha era ninguém menos que Elza Soares!

 

Adeus, Vander Lee
Por Marcelo Teixeira

 

sábado, 30 de julho de 2016

Liniker - cantor e cantora ao mesmo tempo!


Liniker: ousadia e novidade em 2016
Sempre venho batendo na mesma tecla de que a música popular brasileira precisa de renovação e essa renovação não está apenas no sentido figurado de cantar, de compor ou de estar presente na representação conjunta de todo o conteúdo formal de musicalidade. É preciso uma reinventação única, capaz de nos hipnotizar, nos impactar, nos catalisar numa singela força de expressão, que nos faça arregar os olhos, abrirmos as bocas, arrepiar nossas peles e nos fazer sairmos do espetáculo com a mente inquieta, insana, cheia de música boa e com imagens jamais repartidas, quebradas ou esquecidas. Liniker nasceu homem, se comporta como homem, tem voz de homem e se apresenta como homem transvestido de mulher. Não chega a ser uma aberração para ninguém, mas Liniker soube provocar a ira de muitas pessoas ao se apresentar numa forma espontânea, capaz de nos prender o fôlego e prender a respiração tamanha a sua participação no palco, na música que canta e naquilo que produz. Liniker nasceu com o nome Liniker e é esse mesmo nome que o consagrou para que a música o revelasse ao Brasil com toda a sua formosura e sua docilidade em poder cantar suas canções numa totalidade máxima entre o prazer e o sabor de cada palavra soltada ao vento. A plateia delira, os músicos se rebelam ao bel-prazer geral e todos entram no clima. Sendo um misto de tudo aquilo que o Brasil já produziu de bom e da melhor qualidade artística, Liniker é o cantor de protesto que mais bem representa, nos dias de hoje, a sua verve artística, não se comparando com o fenomenal Filipe Catto e muito menos com o cafona Johnny Hooker. Ele é mais do que isso e seu testamento é maior que sua veia musical. Liniker pode ser uma miscelânea de tudo aquilo que já vimos anteriormente: um pouco de Luiz Melodia, uma pitada generosa de Itamar Assumpção, um sal de Maria Bethânia, um doce de Gonzaguinha, um gosto de Tulipa Ruiz, um  tempero de Rita Lee, uma gosto de Sandra Sá, um bocado de Tim Maia, um pedaço de Clara Nunes, um sorisso de Elis Regina, um canto Dolores Duran. Liniker é uma surpresa notória dentro da MPB e seu canto ecoará por muitos anos e ultrapassará fronteiras. É um cantor de verdade, com vontade própria, luz própria, sentimentos próprios e com carisma de artista generoso. O seu jeito feminino de cantar não assusta, pois sua música é muito maior que qualquer vestimenta ou adereço peculiar. Liniker é um cantor que já nasceu pronto, que tem astúsia pronta e que precisa ser ouvido o mais depressa possível.

Liniker – cantor e cantora ao mesmo tempo
Por Marcelo Teixeira

domingo, 24 de julho de 2016

O fraco encontro de Samuel Rosa e Lô Borges em disco ao vivo


Samuel e Lô: ontem e hoje
O Clube da Esquina foi um movimento musical que alcançou voo mais que significativo dentro do âmbito da música popular brasileira e que teve como principais articuladores Milton Nascimento e Lô Borges. O sucesso foi tão imediato que elevou a popularidade do estado de Minas Gerais para o centro das atenções e até o então presidente JK aderiu ao movimento, tornando-se fã número 1 de todos os integrantes. Mais de trinta anos se passaram e eis que a junção do ontem com o hoje voltou a povoar o mercado fonográfico com um disco que visa homenagear o movimento mineiro com pitadas de pop rock atual. O encontro de Samuel Rosa e Lô Borges não tem um significado maior que o simples fato de cantarem sucessos que ainda estão na boca do povo. O pop rock meloso de Samuel encontra a música singela de categoria ímpar de Lô Borges para formarem a dupla do momento em um encontro formal para cantarem sucessos renomados de um tempo áureo da MPB. Mas o que poderia ser bem feito acabou sendo desprezível: a voz de Lô Borges não é mais a mesma e a voz de Samuel Rosa é cansativa, arrastada, sufocada, melindrosa. Não existe uma ligação capaz de suprir o iddeal momento espontâneo com a qualidade musical de um tempo que ficou para trás, mas com raízes significativas e que deveriam ficar lá, quietas, intactas. Não há emoção no disco, assim como não há perfeição. Samuel Rosa e Lô Borges Ao Vivo (2016 / Sony Music / 35,00) é um disco morno quase esfriando, mas que tem um peso importante dentro da música nacional, que é o de resgatar pérolas embutidas em um cancioneiro próprio (o que, para mim, pessoalmente, deveria ficar intacta!).  Mas as duas pontas dessa história musical se encontram para consolidarem um momento único: o encontro de Samuel e Lô passa a ser um divisor de águas para aqueles que não conheceram o Clube da Esquina. Mesmo sendo um disco cansativo, o encontro dos dois não ficará mais do que pouco tempo registrado aqui, em um disco atemporal, tímido, mas com letras bem caprichadas e que elevaram um tempo glorioso da música popular brasileira.

 

Samuel Rosa e Lô Borges Ao Vivo (2016)
Nota 8
Marcelo Teixeira

 

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Por que devemos ouvir Adriana Calcanhotto?


Por que devemos ouvir Adriana?
Dona de uma voz irresistível e detentora de discos antológicos, Adriana Calcanhotto é mais que uma letrista competente dentro da música popular brasileira. A gaúcha que contempla a paisagem carioca tem o domínio fácil de criar composições românticas dentro de um campo semântico de bel-prazer, atravessando os horizontes do infinito para aprofundar em sentimentos desesperados e desamparados com o brilhantismo de uma mente inquieta. Essa é Adriana Calcanhotto, a cantora que inspira multidões, que devaneia os sonhos mais perplexos e que instaura mistérios cabíveis de calmaria insana. Mas dentro da atmosfera musical de Adriana existe uma personalidade muito forte, incandescente, próspera e audaz que nos remete a uma indagação profunda: por que devemos ouvir Adriana Calcanhotto? A resposta não é tão fácil quanto possível de ser explicada, mas existe uma contrapartida básica e singela para tal demonstração do porque devemos ouvir suas músicas. Adriana tem em seu currículo o panorama carioca registrada em músicas como Carioca e Maresia, tem o vendaval de explosão magnética em canções como Senhas, Vambora e Mentiras e tem a emoção aflorada em músicas como Inverno e Esquadros. Mas não é só isso. De todas as cantoras surgidas na década de 1990 (Marisa Monte e Adriana duelaram firmemente para se manterem no topo das melhores cantoras surgidas nesse tempo), Adriana foi a que melhor representou a MPB, tendo em consequência maior disso seu tino para compor aquilo que a população exigia. Se de um lado tínhamos Marisa Monte e seu lado mais alternativo de cantar e compor, de outro tínhamos Adriana com seu estilo mais calmo, denso e que adentrava por entre nossos poros e peles com um dissabor incansável. Sendo uma expoente do Tropicalismo de Caetano e Gil, Adriana nos apresenta em suas canções àquilo que outras cantoras não nos mostram: sua versatilidade entre o cantar e o brincar, sua sensação térmica em reestruturar canções antigas, sua magia em trazer à tona ilustres personagens já esquecidos pelo tempo. Foi assim que trouxe Frida Kahlo para o seu universo na música Esquadros e que reviveu Hélio Oiticica em Parangolé Pamplona, sobre o trabalho do artista de 1968 chamado Capa Feita no Corpo.  Waly Salomão certa vez disse que Adriana constitui uma ótima vitrine para a poesia e ele estava coberto de razão. Waly é remanescente do Tropicalismo, tem na bagagem ótimas letras e seu estilo de garoto fanfarrão se contrapôs com o estilo cinzento de Adriana, que é o estilo de uma artista que é cúmplice de seu próprio estilo. Além de trazer para a sua música todo o tropicalismo ocidental, traz também a poesia que muitos desconhecem, fazendo disso um arsenal ainda mais motivador para sua obra. A poesia de Mário de Sá Carneiro, Cid Campos e Augusto de Campos, Ferreira Gullar e Oswald de Andrade estão escancaradas em forma de música por sua voz tão aveludada quanto autoral. É por essas e outras que devemos ouvir Adriana: não é qualquer cantora que consegue unir o passado com o presente, fazer de um simples elo de sofisticação singular com a beleza popular e fazer delirar os corações apaixonados com seu semblante angelical. Precisamos ouvir Adriana Calcanhotto para termos a certeza de que a música popular brasileira é rica em detalhes e que pode ser útil também perante a poesia concreta e abstrata, perpassando pela pintura visível de grandes mestres das cores.

 

Por que devemos ouvir Adriana Calcanhotto
Por Marcelo Teixeira

quinta-feira, 7 de julho de 2016

O Brasil de Inclassificáveis por Ney Matogrosso


Brasil Inclassificável por Ney
A música Inclassificáveis foi composta e gravada por Arnaldo Antunes no ano de 1996 para o álbum O Silêncio e contava a participação de Chico Science, expoente da música nordestina de qualidade excepcional na época e que trata de um tema muito pouco conhecido por todos nós: a formação do povo brasileiro como um todo. Inclassificáveis traz a tona na seara musical a fenda dos olhos das pessoas perante o Socialismo, a Antropologia e a diferenciação de suas raças. Para inicio de conversa, não estamos falando de coisas fáceis: cantar Arnaldo Antunes já é uma tarefa dificil e seus pensamentos com relação àquilo que o rodeia é uma relação de complexidade muito maior que sua própria imginação conduz. Tendo como crítica clássica sobre um tema tão pouco minado no Brasil (Clara Nunes já vinha com essa miscegenação de raças em sua carreira na década de 1970), Arnaldo apenas reforçou um assunto subliminar sobre aquilo que sabemos que existe, mas que ninguém tem na consciência privada de que é importante para detectarmos quem realmente somos e sobre nossa própria origem, revelando nossos antepassados. Quando foi lançada, a música na voz de Arnaldo e Science não rendeu tantas promessas musicais, mas quando Ney Matogrosso e sua força teatral a cantou no excelente álbum que leva o título da canção, as pessoas pararam e refletiram: de onde é que viemos? Porém, Ney Matogroso não entrou na onda de ser um sociólogo da música popular brasileira: ele mesclou essa canção antropológica de Arnaldo com canções políticas de Cazuza,  Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil com o romantismo lírico de Itamar Assunpção e com os versos de peso moderado de Carlos Careqa e Pedro Luis. Óbvio que Inclassificáveis teve um peso muito maior neste álbum, pois a música não tem fácil articulação vocal e cantar da forma perfeita com a qual Ney canta a transformou em uma das melhores faixas do disco. Inclassificáveis (2008 / EMI / 28,99) é um disco completo, com uma capa perfeita e que traz um Ney Matogrosso ainda mais vigoroso dentro de sua arte, dentro de seu universo e dentro de suas conquistas.  Arnaldo Antunes compôs Inclassificáveis em um nível muito acima de sua intelectualidade: aqui ele trabalha com neologismos e construções harmônicas de modo a formar uma verdadeira coberta de tiras etno-culturais que formam a analogia do povo brasileiro, interrogando a todo momento a matriz exemplar desse povo (índio, branco e negro), indo direto ao ponto nevrálgico de novas formações culturais, como o mulato, o cafuzo e o mameluco. A partir dessas mesclagens surgem os crilouros, tupinamblocos, guaranisseis, ciganagôs e judárabes.  Somos brasileiros inclassificáveis, pois somos frutos de nossa combinação racial secular. Assim como enfatizou Arnaldo cantado brilhantemente por Ney, aqui não tem cor, tem cores. Ao analisar o disco inteiro de Ney Matogrosso e refletir basicamente o que uma canção tem a ver com a outra, entre socialismo, antropologia, política e romantismo, posso atestar que vivemos em um Brasil inclassificável.

 

Inclassificáveis (2008) / Ney Matogrosso
Nota 10
Marcelo Teixeira

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Maria Rita não empolga em disco ao vivo de samba


O samba de Maria Rita: particular
Maria Rita é sempre assim: quando acerta em um disco, erra no outro.  Não que seus discos sejam totalmente ruins, pelo contrário, mas é que algumas canções não caem bem em sua voz, ou a capa é estranha ou o sorriso é forçado ou alguma coisa não está bem, mas nunca que seus discos sejam ruins ou cansativos. Mas achei desesperada a ação da cantora em lançar um disco praticamente igual ao que ela acabara de lançar: Coração a Batucar (2014) é um dos melhores discos da carreira da cantora, mas colocar no mercado um disco ao vivo com as mesmas cançõe que o anterior e com algumas pinceladas de outros discos, não caiu bem e faz com que esse seja um desperdício musical total. Além de ter uma capa simples entre cores funebres e estranhas, Maria Rita errou feio ao cantar o mesmo repertório do disco anterior, chegando a ser caricato, paupérrimo, sinistro. Com uma pressa imediata para lançar o novo disco, a gravadora cometeu uma das maiores gafes do mundo da música: Samba em Mim Ao Vivo na Lapa (2016 / Universal Music / 29,99) teve a oitava faixa, Coração a Batucar, trocada por Num Corpo Só, que não está originalmente neste repertório. A gravadora já se prontificou a ajustar o erro e quem comprou o CD com esse defeito, poderá fazer a troca através do site da Universal.  O Samba em Mim não é um bom disco, não há sustância para ser um disco de samba da melhor qualidade, porque Maria Rita já o fez anteriormente. Mas há naturalidade aqui: Maria Rita nos apresenta em O Samba em Mim um samba atualizado e na mais humilde das palavras, particular e familiar, que presta uma consideração à tradição sambista e que assume o livre-arbítrio de filtrá-la a partir da marca incomum de sua assinatura como cantora. Friso mais uma vez que esse não é o melhor disco da cantora, mas que este está interligado à Samba Meu (2007) e desde então está presente nos discos que produziu a partir deste. Samba Meu foi o primeiro grande desafio de Maria Rita no universo do samba e com este disco ela alcançou notas ainda maiores não apenas pessoal, mas com a conquista de público fiel ao seu trabalho.

 

O Samba em Mim Ao Vivo na Lapa (2016) / Maria Rita
Nota 7
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Os Pássaros Urbanos (2014) de Raimundo Fagner



Os pássaros de Fagner
Raimundo Fagner é um dos melhores cantores nordestinos, sem tirar os méritos de outros grandes artistas de sua geração. Mas a capacidade vocal e a extensa lista de sucessos refletem em sua carreira sólida o status de um dos melhores de todos os tempos. Depois de quase cinco anos sem lançar um disco, o cantor e compositor cearense volta com a prioridade de reconquistar o público perdido, angariar mais ouvintes à sua música e disposto a provar que sua criatividade não se esgotou. Em Pássaros Urbanos (2016 / Sony Music / 22,00), o cuidado com a escolha de um repertório bem selecionado com uma sonoridade perfeita e letras bem arquitetadas, o cantor revisita o cenário nordestino como um pássaro musical marcado pela cultura de sua geração. O disco contém 11 faixas, sendo três regravações, que resumem quatro décadas de estrada de um dos nomes mais bem-sucedidos da história da MPB.  Fagner tinha sede de se lançar de novo ao seu público e muita vontade de jorrar para fora toda a sua cantoria embutida pelo longo hiato na qual submeteu. Pássaros Urbanos versa sobre amores urbanos com sons contemporâneos, um tom predominantemente romântico, que é a marca registrada do cantor. O repertório traz parceria com Fausto Nilo (Balada Fingida), Zeca Baleiro (Samba Nordestino) e Belchior (Paralelas), sendo uma releitura de um dos clássicos do repertório deste. Pássaros Urbanos mostra toda a versatilidade de Raimundo Fagner perante a sua regionalidade e toda a sua superação musical ao voltar ao cenário da MPB com um álbum de inéditas. O disco é uma verdadeira obra prima. Os pássaros de Fagner resolveram voar sem uma parada obrigatória.

 

Pássaros Urbanos (2014) / Fagner
Nota 9
Marcelo Teixeira


 

sábado, 18 de junho de 2016

A suma importância de Marina Lima


Marina: popular, elitista e agressiva no Rock
Há uma atmosfera que ronda a música popular de alma roqueira e agressiva de Marina Lima e que está gravada em praticamente toda a sua discografia, não deixando margens para que o seu universo se perca por entre ruínas dissoluveis e papiros transgressores. Para os anos de 1980, Marina Lima representou não apenas a alma roqueira da cantora brasileira como bem salientou que não era preciso ter voz para alcançar altas notas ou que fosse um mero produto do mercado naquele momento. Marina represento mais do que sua própria música exigia: representou o lirismo e a ingenuidade do rock na sua mais plena satisfação. A suma importância de seu nome na música brasileira representa a maior divindade corporativa de um segmento que ainda persiste até hoje, com outras nuances e outros objetivos. Sim, o rock mudou. A música brasileira mudou. Se de um lado havia uma Rita Lee tresloucada e uma Ângela Ro Ro que bebericava dessa mesma fonte mas numa outra vertente mais romântica, de outro lado e com mais conformismos, tínhamos Marina Lima, cantora composta dentro de sua neutralidade, que cantava auilo que sua voz permitia e aquilo que sabia que o povo queria ouvir. Por traduzir tão fantasticamente o cenário carioca, a cantora nascida no Piauí revela em seus discos o estilo único da mulher que consegue compor em sua forma magistral. Marina foi a nordestina que mais bem traduziu o Rio de Janeiro em sua forma geográfica, geométrica, plural, popular, elitista e hermética. Suas músicas são o reflexo poderoso de um tempo que o próprio tempo tenta apagar, com algumas ressalvas conservadoras e com alguns aspectos privativos. Atrevida, sensual, erótica, provocadora, instigante, Marina Lima foi tudo e mais um pouco em sua meteórica carreira blindada entre a solidão na arte de compor e a alegria na arte de se lançar. Marina conheceu a tristeza e as amarguras de uma década marcada pelo bom som e pela decadência da boa música, mas nem por isso sua majestade gloriosa derrapou: ela soube o momento de parar para dar lugar às novas vozes. Vozes essas que não chegaram ao seu estrelismo, ao seu magnetismo e nem ao seu talento. Marina Lima foi única, lunar, absolutamente ela. Longe dos holofotes devido a um grave problema de saúde nas cordas vocais e depois de uma depressão severa, a cantora ainda  lança discos (menos convidativos, mas originais) ainda é referência quando se fala de rock, de musicalidade nacional e de competência artistíca. Para quem não a conhece, seu nome é Marina Lima.
 
A suma importância de Marina Lima
Por Marcelo Teixeira