segunda-feira, 11 de abril de 2016

Cantada: um disco arrastado, mas sútil de Adriana Calcanhotto

Disco experimental de Adriana
Há muitas singularidades informais no disco de Adriana Calcanhotto lançado em 2002: a começar pela título Cantada e pela boca com batom vermelho, o álbum também passei entre o nostálgico e as incertezas do amor, da paixão e do sentimento a dois. Não posso tirar aqui a qualidade musical de Adriana, mas posso conceber-te um apreço menor em notas comparando este com os seus trabalhos antigos e, automaticamente, posteriores. Não trata-se aqui de um disco maravilhoso, pautado entre as melhores rimas ou os melhores tinos poéticos, mas Adriana nos entregou um disco arrastado, cansativo na sua formalidade e pouco expressivo. Mesmo sendo um disco romântico e com levada mais pop que os anteriores, Adriana deixa a desejar em canções que poderiam ser melhor trabalhadas e melhor adaptadas. Os acertos foram poucos, mas consideravelmente aceitos, caso das músicas Depois de Ter Você (cantada anteriormente por Maria Bethânia) e Noite, em que a poesia de Adriana reina absoluto. Cantada (2002 / BMG / 27,99) é um disco mediano, bonitinho mas sem exageros, que passaria despercebido se não fosse algumas canções muito bem selecionadas para este projeto.  Sendo seu sexto álbum de carreira, a cantora apostou em sonoridades experimentais e evidencia mais o pop aqui que em discos mais autorais, o que fica evidente em releituras de Madonna e a sua entrega apaixonante e resistente à música Pelos Ares.  Seja como for, o disco de Adriana Calcanhotto não é dos melhores, não é o melhor de sua carreira, mas vale a pena ouvi-lo por ser um disco atípico, experimental e artistico no visual. Mesmo sendo arrastado e cansativo, vale a pena prestigiar a obra de Adriana nem que seja para acompanhar sua carreira.
 

Cantada / Adriana Calcanhotto
Nota 8
Marcelo Teixeira

domingo, 20 de março de 2016

A homenagem de Mônica Salmaso a Chico Buarque


Homenagem ao Chico
Toda boa ou excelente ou mediana ou superficial ou medíocre ou espetacular cantora precisa ter no currículo uma ou duas canções de Chico Buarque. São poucas as cantoras que dedicam um disco inteiramente ao cantor carioca que retratou (e ainda retrata) a alma da mulher num contexto singular e a elencando ao patamar mais elevado. Dedicar um disco a um artista, ainda mais quando esse artista tem a profusão de intelectualidade ácida na veia, é uma tarefa árdua, sensível e ambígua, pois a existência de uma complexidade de nuances em sua carreira será notória. Mas é preciso muita dedicação e muito conhecimento quando se trata de Chico Buarque: é preciso coerência musical,um aprofundamento maioral, uma síntese de sua clareza de ideias e uma arquitetônica química com suas letras. Difícil? Muito difícil. Mas não para a sensacional cantora Mônica Salmaso que conseguiu com maestria e louvor fazer uma bela homenagem ao Chico com o disco Noite de Gala, Samba de Rua (2007 / Biscoito Fino / 26,99) em que desfila com uma categoria incrível parte daquilo que Chico cantou, seja em momentos sublimes, seja em momentos esquecidos. O lado positivo deste disco é que a cantora não se opôs a cantar apenas as mais conhecidas canções de Chico Buarque, mas conseguiu apanhar pérolas desconhecidas, como a ótima Bom Tempo, mesclando com sucessos irreparáveis, como A Volta do Malandro. Mas destaque mesmo neste disco são Basta Um Dia, imortalizada por Clara Nunes no disco O Canto das Três Raças (1976) e Construção, do disco antológico que leva o mesmo título do ano de 1971. A intepretação de Mônica para todas as canções são carregadas de emoção, sensibilidade e proeza e a cantora soube aproeitar todos os seus triunfos musicais para pôr em xeque-mate seus atributos artisticos. O disco é sensacional e Chico Buarque pode descansar em paz porque enquanto houver outras Mônicas Salmasos por ai, sua música estará a salvo por completo.

 

Noites de Gala, Samba de Rua (2007) / Mônica Salmaso
Nota 10
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 2 de março de 2016

Qual a graça de Alice Caymmi?





Qual a graça de Alice Caymmi?
A cada ano a mídia brasileira e os empresários do mundo da música, tratam de eleger uma nova cantora que precisa ser diferente da cantora anterior lançada com requintes de diferenciação da cantora anterior e assim por diante. O mundo da música, nos dias de hoje, virou um mercado mal gerenciado, mal digerido, mal intepretado, mal necessário que não compete com as honrarias que muitas cantoras necessitam. A categoria de musicalidade exigida por muitas profissionais do canto precisam entender muitas coisas antes mesmo de subirem ao palco ou assinarem contratos por um certo tempo para poderem excercer seu verdadeiro ofício. Mas essa palavra ofício é pouco herdado para verdadeiras cantoras que buscam o timbre certo, a entonação certa, o álbum perfeito, a música centrada e a diversidade de uma cultura qualquer. Óbvio que não é preciso estarem todas nessas categorias citadas, mas um pouco de presença de palco, um pouco de brilho, um pouco de acidez mórbida, um pouco de relutância, um pouco de história musical e um pouco de carisma vocal contam muito para serem consideradas verdadeiras artistas. E nao é preciso ter parenteco com uma tia muito distante ou uma prima que canta sabe-se lá que estilo para ser considerada uma boa cantora. Nem sempre o produto novo é garantia de brasão familiar. Assim como nem sempre uma tia cantora pode ser referência para uma sobrinha que está iniciando a trilhar pelos mesmos caminhos. Dito tudo isso, eu friso que a família Caymmi é uma das mais reconhecidas e tradicionais famílias musicais que conseguiram (e conseguem) exprimir todo o sentimento embutido em harmonias, canções, festas e música. Mas não consigo entender o porque há sempre um restinho de areia movediça dentro de um âmbito musical tão harmonioso, tão arquitetônico, tão plural. Se de um lado temos Nana Caymmi e seu brilho magistral, sua voz potente e latente e sua presença de palco tão visceral, sua sobrinha Alice Caymmi transcende ao desfavor de todo o universo que a música lhe pede. Alice surgiu na música popular brasileira há pouco tempo e, diga-se de passagem, não é uma cantora de gabarito, não tem competência de palco, não tem voz, não tem estilo e não tem carisma. Qual é, então, a graça de Alice Caymmi? Nenhuma. Em seu segundo álbum, Rainha dos Rainhos (2014 / Jóia Moderna / 26,99), a cantora tenta demonstrar que é uma vertente nova no mercado, forçando a voz em algumas canções e estragando músicas riquissímas com novas roupagens que não servem para o nada. Com um estilo pop gótico dentro da MPB, Alice Caymmi desperdiçou um momento único em sua carreira ao se transformar numa marionete de si mesma, interpretando aquilo que não lhe convém e não lhe serve de estampa. Bom mesmo seria não ouvir Alice Caymmi e lembrar que a única semente feminina boa e com vasta experiência nessa família é sua tia, Nana.

 
 



 Qual a graça de Alice Caymmi?
Nota 4
Marcelo Teixeira

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Malditos Populares: surpresa na MPB




Malditos Populares: grata surpresa na MPB
Nos dias de hoje, em que a música pede socorro e licença ao mesmo tempo, fazer com que uma boa canção adentre em nosso ambiente é algo arriscado, difícil e muito comprometedor. Precisamos ter, acima de tudo, paciência e competência para podermos ouvir com tímpanos abertos sobre o novo, aquilo que realmente nos arremata, nos catalisa, nos envolve e nos sabatina. É preciso termos fôlego para podermos dizer que o que ouvimos é de qualidade, musicalmente brasileiro, puramente ético, excelentemente sambístico e harmonicamente belo. Para tanto e com tantos dissabores musicais sendo lançados a cada minuto Brasil afora, é preciso termos cautela para podermos dizer o que é bom do que é plausível, do que é descartável, do que é sonoro e do que é possível um reconhecimento cabível de nossa atenção. Dito tudo isso, me surge de repente uma banda relativamente nova no mercado nacional brasileiro que, a primeira audição, me encantou, me sabatinou, me deixou de queixo caído por ter todos os ingredientes na qual me envolve: música milimetricamente saudável, sambas de altíssima qualidade, letras competentes, empirismo musical, estilo, categoria, sensibilidade e voz. Em um Brasil em que as mulheres ganharam mais espaço na música brasileira, sempre busquei uma voz masculina que pudesse ressoar pelos cantos do país como uma voz potente, saliente e temporal. Cesar Capretti, o cantor e compositor da banda Malditos Populares, consegue esse feito em um disco que beira a loucura entre a elegância e a sordidez de um belo álbum. Com letras envolventes, sambas bem compostos, marchinhas de carnaval com direito à recordação de um passado não muito distante, a banda Malditos Populares consegue ser uma das melhores surpresas na música popular atual. Aos Amigos (2016) não é um disco qualquer: é um disco bem mais que popular, é um soco no estômago da sociedade puritana, um tiro de misericórdia na cultura brasileira, um esfolo na cara de quem precisa conhecer seu próprio estilo. Não existe aqui uma melhor canção, pois todas são excelentes, casando-se uma com a outra, sendo uma mistura calórica de abastada musicalidade. Sendo um disco independente, a banda Malditos Populares conta um time da pesada: Cesar é o compositor e vocal, Marcello Lervolino também é o compositor e toca violão de 6 e 7 cordas. Os músicos de apoio são formados pelos competentes Fabinho Reis (bateria), Wellington Diniz (percussão) e Ale Sanfona (sanfona, piano e contra-baixo e também produtor  e diretor musical do álbum). E tem as meninas fazendo backings em algumas faixas: Amanda Pandolfelli, Juliana Taino e Mrina Jurado. Com críticas ácidas em praticamente todas as suas letras, a banda extrai um lado político com senso comum pouco incomum, politizando sua marca registrada e se tornando um dos melhores produtos do mercado. Impossível não fazermos uma comparação entre a voz potente de Cesar Capretti com a atual situação musical: nos faltava um cantor à altura de seu talento para nos orgulharmos de sermos brasileiros. Aos Amigos não é um disco qualquer que precisa ser apenas ouvido uma única vez: é um disco que já nasceu pronto, nasceu para ser referência nacional, nasceu para ser exemplo que de ainda podemos nos surpreender com a qualidade musical escondida entre nós. Grata surpresa que surgiu na maior metrópole do Brasil, Malditos Populares é uma banda brasileira que canta samba, MPB e músicas altamente ricas, necessárias para a nossa cultura oriunda e para aqueles que respiram a verdadeira alma lírica musical. Precisamos ouvir a voz de Cesar Capretti para termos certeza de que a nossa cultura não morreu, a nossa música está a salva de dragões malditos e de que nossa certeza popular está aqui, diante nossos ouvidos!

 

Aos Amigos (2016) / Malditos Populares
Nota 10
Marcelo Teixeira

sábado, 13 de fevereiro de 2016

O poder de Elza Soares


Elza e o fim do mundo
Não é fácil ser Elza Soares. Embora sua imagem esteja inúmeras vezes associada a Garrincha, Elza Soares é muito mais que a ex mulher de um dos maiores jogadores de futebol do Brasil. Considerada a melhor e a maior voz de todos os tempos pela BBC de Londres, Elza sofreu racismo, apanhou, gritou, cantou o amor, cantou a desilusão, vociferou contra as mazelas e a favor de um povo oprimido e carente. A música em sua vida sempre foi prioridade, assim como aquilo que canta, que mais soa como verdade e transpassa a sua emoção que irradia de sua pele para a pele seguinte. Elza pediu passagem, ganhou liberdade e continuou vociferando contra vozes ocultas dentro de um segmento musical, racista, feminino e caricatural. Elza é Elza, negra, mulher, cantora, a maior de todas. Caiu no ostracismo, Chico Buarque a ajudou a dar a volta por cima, tombou, se machucou, ralou os braços, cortou as mãos e Caetano Veloso fez das tripas coração para ver do cóccix até o pescoço inteira, em pé, vibrante, rosto entonando para o alicerce de uma luz sem fim, reinando poderosa e soberba sobre aquilo que já sofrera, já se arrependera e se machucara. Elza sobreviveu! E sobrevivendo desses ostracismos e dessas guerras mundiais e musicais, voltou triunfal em 2002 pelas mãos de dois gênios da música popular brasileira e caindo nas graças, mais uma vez, do público e da crítica especializada. Passados mais de dez anos desde o lançamento de inéditas, Elza adentra com o pé direito e nos ensina o que é ter quase 80 anos de idade e lançar um disco maravilhoso, saboroso e original como o que lançou no ano passado! Eu me rendo, porque Elza não esmorece e sabe que seu lugar é o de ponta na MPB: há requintes de sabedoria aqui, há música de verdade, há voz de Elza sobre canções verdadeiras, ideológicas, caprichadas. Entre palavrões e machadadas de pensamentos periféricos, A Mulher do Fim do Mundo (2015 / Circus / Natura Discos / 29,99) é um belo retrato entre a paisagem da favela e da menina que se transforma em mulher por entre becos cheirando a drogas e calcinhas penduradas no varal. O reflexo entre o submundo do circuito inteiro das mulheres que se transformam em escravas do lar perante seus homens é um divisor de águas neste disco, sendo retratada de forma explorada em praticamente todas as faixas do álbum: há tiros, pulverização de terra batida, becos mal iluminados, ruas vazias sendo observadas por meninos pretos que logo serão bandidos e donos do pedaço. Há a mulher prostituta, há o lirismo sutil de Berenice, há a aclamada guerreira Maria da Vila Matilde. Há belezas com a sofreguidão estampada no estampido do revólver do marginal, há o cenário destruído e pobre de um fim do mundo que pode ser bem ali, na porta da entrada da sua casa. Elza pediu passagem, ganhou a liberdade e conseguiu ser ouvida pelo povo oprimido, pelos novos compositores, para chegar ao sopro de um disco à altura de seu peso e acima de seu poder. Eis aqui o poder de Elza Soares!

 

A Mulher do Fim do Mundo (2015) / Elza Soares
Nota 10
Marcelo Teixeira 

domingo, 7 de fevereiro de 2016

O samba não pertence à Zélia Duncan





O samba não é da Zélia
Não era de hoje que Zélia Duncan queria fazer um disco apenas de samba e isso ela já deixara gravado em várias entrevistas e até fazendo incursões de sambinhas e sambões em seus discos anteriores. No excelente disco Eu Me Transformo em Outras (2005), a cantora desenvolveu uma técnica impressionante na arte de se reinventar, cantando em estilo ao vivo e mostrando-se como uma vertente expoente de nossa música. Mas são raras as interpretações de Zélia que realmente ficam boas. Cantando samba não chega a empolgar como quando nos empolga com músicas mais românticas ou que nos revelam sua identidade camuflada em letras originais e emotivas. Zélia cantou samba em quase todas as suas obras, não inteiramente, mas em partes e esse feito foi comemorado bravamente como sendo uma cantora de MPB. Isso também aconteceu com Pré-Pós-Tudo-Bossa-Band (2005), na faixa Quisera Eu, um samba mais puxado para a marchinha de carnaval composta em parceria com Lulu Santos. Esse disco foi uma concepção de harmonias sintéticas entre a música popular brasileira e a plataforma roqueira de Zélia, que vinha de experiências em que mesclava esses ritmos sempre com sofisticação. Mas determinar um disco inteiramente ao samba, a um estilo musical que lhe foge dos padrões, não é uma tarefa fácil e muito menos para qualquer cantor. Zélia errou ao se dedicar de corpo e alma ao samba, assim como errou ao selecionar músicas de compositores carimbados como forma de enriquecimento musical. Explico: Zélia Duncan não consegue segurar um disco inteiro ao samba porque sua voz cansa, entoja um sentimento que não soa verdadeiro e não faz parte de sua identidade. Quando digo que a voz de Zélia cansa, não digo no sentido figurado, pois Zélia é uma das melhores cantoras da atualidade, mas cantar um ritmo que lhe exige competência vocal acima dos limites, é para poucos. Mas Antes do Mundo Acabar (2015 / Biscoito Fino / 28,99) tem uma capa perfeita, assim como as muitas das capas de disco de seus trabalhos anteriores. Tentar perpetuar ou adentrar em um universo desconhecido pode ser fatal para muitas pessoas e no caso de Zélia Duncan não fora diferente: ao invés dela dominar o samba, foi o samba quem negou a sua permanência dentro dele.


 


Antes do Mundo Acabar (2015) / Zélia Duncan
Nota 8
Marcelo Teixeira

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Cadê o samba de Roberta Sá?


Cadê o samba, Roberta?
Roberta Sá já foi escolhida pelo Mais Cultura Brasileira como sendo uma das melhores intérpretes dos últimos anos dentro da MPB e já fora selecionada também como uma das grandes revelações musicais em um programa de TV que descobria novos talentos. Ela não chegou a ficar em primeiro lugar, mas foi apadrinhada por Ney Matogrosso e, mais tarde, caiu nas graças de Chico Buarque, com quem já dividiu faixas em duetos imperdíveis. Lançando seu sexto álbum, a cantora se deleita em um universo que conhece muito bem e que já foi muito bem recebida. Delírio (2015 / MP,B Discos / Som Livre / 29,99) é um disco atemporal, bom, estiloso, mas confuso. Primeiramente porque tem uma capa escura, remetendo ao disco de sambas de Maria Rita, Coração a Batucar (2014) e segundo que esse universo sambístico de Roberta está mais para o pop que o samba verdadeiramente dito. Mesmo tendo uma interpretação sensacional, a cantora deixa a desejar em canções que poderiam ser melhor executadas, como, por exemplo, na canção que leva o título do trabalho, Delírio: cadê a inspiração? Por onde anda a exuberância de Roberta Sá? Obviamente, esse novo álbum não lhe trouxe nenhuma grande oportunidade de poder continuar sendo uma das melhores cantoras de sua geração e com Delírio, a cantora mostra que o seu samba é mais popular que o popular. Se formos levar ao pé da letra, Roberta Sá poderia ter atribuído o samba em discos como o de estreia, Braseiro (2005), Que Belo e Estranho Dia Para se ter Alegria (2007) ou o último e morno Segunda Pele (2013). A bem da verdade, seu samba está mais para pagode de pé de mesa do que para o genuíno samba de morro, samba de pé ou samba de verdade. Mas a cantora não errou totalmente ao lançar um disco em homenagem ao samba e talvez o grande erro de Roberta tenha sido a inspiração que teve ao ouvir Micróbio do Samba (2011), da cantora Adriana Calcanhotto. Ao ouvir e se inspirar, Roberta decidiu que faria um disco em duas formas de homenagem: tanto para o samba como para Adriana. Errou duas vezes: quem conhece e acompanha a carreira de Roberta sabe que a cantora sempre cantou um ou outro samba em seus discos e sempre com a maestria e a sabedoria de uma grande estrela. O segundo erro foi se inspirar no disco de Adriana Calcanhotto, afinal, Micróbio do Samba não é um disco de samba, porque Adriana Calcanhotto não faz samba. Adriana Calcanhotto faz marchinhas de Carnaval, o que é totalmente diferente de samba. Delírio não influenciou em nada na carreira sólida de Roberta, mas ajuda a difundir aquilo que ela mais tem de melhor: a voz!

Cadê o samba de Roberta Sá?
Nota 7
Marcelo Teixeira

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Bruno e Marrone: o melhor do sertanejo atual


Bruno e Marrone: os melhores da atualidade
Não gosto de música sertaneja. Não gosto de duplas sertanejas. Não gosto de cantores sertanejos. Mas são poucos os cantores e as duplas sertanejas que conseguem ganhar meu respeito e minha credibilidade quando os ouço cantar. Aliás, respeito e muito quem gosta desse estilo musical, mas confesso que não é a minha praia. Eu como pessoa, garanto que não compraria nenhum CD de algum cantor sertanejo para ficar ouvindo em casa e mesmo se fosse adepto ao mundo musical via internet, garanto que não baixaria suas canções pagando ou as tendo gratuitamente. Eu como crítico de música, garanto que com o passar do tempo e depois de quatro anos de Mais Cultura Brasileira e com o auxílio da Pedagogia, pude parar para observar e compreender e distinguir o que é bom e ruim daquilo que é bom e ruim. Bruno e Marrone, cantores típicos sertanejos e populares que conquistaram o Brasil com seu cantar, são dos pouquíssimos cantores sertanejos na qual posso dizer que gosto. Mas não compraria um disco seu ou de qualquer outro cantor desse estilo. Aliás, alguns anos atrás, bradei ao lado de Chico César e Rita Lee quando lançaram o EP Odeio Rodeio (2005), disco este que criticava durante o estilo sertanejo. Mas vamos aos acertos de contas: vejo muitos blogs e sites e até mesmo algumas pessoas dizerem sertanistas quando se referem aos sertanejos. Isso é uma lógica que não se enquadra aqui e em qualquer lugar, porque sertanista é aquele explorador que se aventuram no interior do sertão. Já os sertanejos são aqueles que vivem no sertão nordestino, do agreste ou área rural. No entanto, os sertanejos aqui citados são sertanejos natos, pois em suas biografias, viveram no sertão. Lançando Isso cê não conta (2015), a dupla conseguiu um feito ainda maior do que os alcançados em discos anteriores: conseguiram fazer com que sua música fique impregnada em nossa memória e que a mencionemos em algum momento de ironia. Essa brincadeira acaba sendo gostosa e até admirável, mas não podemos dizer que é um bom disco ou uma canção que traga conceitos culturais. Raramente eu critico positivamente uma dupla sertaneja e hoje eu percebo que demorei um pouco para poder criticar uma dupla que me faz bem tanto fora como dentro da nossa cultura brasileira.

 
 
Bruno e Marrone
Por Marcelo Teixeira
 
 

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

A asa de Mariana Aydar



Pedaços de Aydar
Há tempos venho dizendo que Mariana Aydar é uma das melhores cantoras surgidas nesses últimos anos (juntamente com Roberta Sá) e o lançamento de seu quarto CD é a mais prova de que seu talento transcende a imaginação de todos nós perante a sua vocação maior. Pedaço duma asa (2015 / Brisa/ 29,99) é um dos mais autênticos discos lançados no ano passado e não dei vazão para esse detalhe não por descuido, mas para que eu pudesse abrir o Mais Cultura Brasileira de 2016 com esse artigo. Mariana Aydar reinventa o samba de Nuno Ramos na sua melhor forma, na sua melhor metátese e no seu melhor ângulo, dando a impressão de que tudo aqui cantado já estava preparado para que ela as cantasse de sua maneira mais jovial, serena e ao mesmo tempo único.  Há muita música de boa qualidade, poesia de tamanha delicadeza e artes visuais igualmente vistas em Peixes, Pássaros, Pessoas (2009), que para mim, é o melhor disco de carreira da cantora e que já vinha um pouco do arrebatador Nuno Ramos. Pedaço duma asa é um disco inclassificável, digno de uma responsabilidade mutua entre voz e poesia, arte e samba, Mariana e Nuno. O primeiro encontro de Mariana e Nuno foi em 2007. Logo, ela passou a gravá-lo em seus discos e emprestou sua voz à sonorização de Bandeira Branca, instalação de Nuno exposta na 29ª Bienal de São Paulo de 2010. Em 2013, foi convidada para participar do projeto Palavras Cruzadas, de Marcio Debellian, cuja proposta era reunir, num espetáculo, artistas da palavra, da música e da imagem. Mariana não hesitou em escolher Nuno. A partir do espetáculo nasceu Pedaço duma asa, quarto disco de estúdio da cantora, que mergulhou no universo poético do compositor como se as canções tivessem sido feitas pra ela. No release do disco, Debellian apresenta Pedaço duma asa como um trabalho que amplia o que se entende por parceria e composição, indo além do tradicional caso de uma cantora que grava um disco homenageando um compositor. Trata-se de um trabalho de dois artistas que pactuaram alcançar toda a potência poética do repertório que criaram. Sim, criaram, no plural. Pois a intérprete se mostrou ativa durante toda a elaboração do repertório, desde a seleção das músicas até a identidade que cada uma delas viria a assumir. E nesse pedaço qualquer de asa, Nuno brilha, Mariana brilha e o ouvinte brilha triunfal.

 

Pedaço duma asa (2015) / Mariana Aydar
Nota 10
Marcelo Teixeira

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Filipe Catto fica sem fôlego em Tomada (2015)


 

Tomada sem muita força
Com uma capa horrível e um repertório fraco, paupérrimo e ao mesmo tempo melancólico, o cantor e compositor Filipe Catto consegue afundar seu nome na música brasileira com aquilo que mais sabe fazer: cantar e bem. Mesmo sendo um dos melhores cantores do seu tempo (do nosso tempo também), Filipe conseguiu deixar se levar pela diferenciação em repertórios e cair na mesmice que muitos cantores fazem: o de se deixar levar pela onda do pensamento próprio, ignorando seu início, seu meio e pondo um contraponto no final. Filipe Catto errou ao lançar um disco como Tomada (2015 / Radar Record / 28,99), em que foge do existencialismo de sua criação autoral para dividir canções com outros compositores competentes, mas que não estão na mesma pegada que o cantor gaúcho. A começar pelo título do disco, Tomada, tudo gira em torno de uma insignificância ímpar ao detonar seu lado artístico e derrubar seu equilíbrio musical sem pensar em seu lado empírico. Falta aqui um pouco de Fôlego (2011) e muito de Entre Cabelos, Olhos e Furacões (2013) para que Tomada soasse um pouco melhor. Sem contar o erro dramático de Filipe querer cantar as músicas de Cássia Eller em espetáculos Brasil a fora, o cantor parece ter tomado alguma coisa a mais em seu café da manhã para ter tantos erros e poucos acertos nos últimos trabalhos. Se muita gente se emocionou ao ver Catto cantando Cássia Eller, eu detestei: Filipe vestiu roupas anormais, touca estranha, cantou sem emoção e não mostrou nada de diferente para ninguém. Pelo contrário: se mostrou indiferente a cada apresentação e por sorte esse acontecimento não virou disco registrado. Vamos retornar à Tomada: o disco não é de todo ruim, mas não é um disco em que podemos parar para ouvir mais e mais e mais e que aos poucos se transforma em um disco com limitações e poucas vivências, sem muita empolgação e nostalgia e fraco para um cantor excelente, de gabarito e muito profundo.

Tomada (2015) / Filipe Catto
Nota 7
Marcelo Teixeira

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

A irônia sem humor de Johnny Hooker


Johnny Hooker: imperfeito
Ainda que restem alguns cantores bons na música popular brasileira, alguns medíocres cismam em serem chamados de cantores pela mídia ou críticos da arte de cantar. Se o antigo causa um cansaço visual, musical ou atemporal para alguns, o novo causa uma sensação de frescor, jovialidade e desejo pelo que vai vir, pelo inesperado, pela desenvoltura. Mas nem sempre o que está no passado nos deixa com o ar cansado e nem sempre o novo nos causa uma sensação de alívio: muitas vezes o novo não nos surpreende, não nos detém aquela sensação de magia, de puro ar renovado, nem espanta com sua magnitude. Sim, pode causa espantamento pelo conjunto da obra, pela música inacabada, pela vestimenta, pela estranheza. E é justamente isso o que alguns críticos de música vêm fazendo atualmente: abortando muitos cantores bons e dando vida a muitos cantores sem fundamentos. Que a música brasileira sempre pediu socorro, isso sem dúvida todo mundo sabe, mas fazer com que a inteligência humana seja medíocre perante a intelectualidade crítica é padecer no inferno mais profundo do universo. O cantor, ator, compositor, diretor, artista e palhaço Johnny Hooker é de Recife e está sendo considerado um dos melhores cantores de sua geração, sendo ovacionado em casas lotadas e recebendo prêmios em que Maria Bethânia, Chico César e João Bosco já ganharam. O que causa estranheza nisso tudo é que Johnny Hooker não canta, não interpreta bem suas músicas e ironiza a todo custo com o sentimento alheio e isso faz com que a plateia entre em delírio constante, pois música que é bom, não há! Lançando Eu vou fazer uma macumba pra te amarrar, maldito (2015 / 27,99), Hooker se mostra imperfeito e desqualificado em sua função maior, que é o de cantar. Considerado como a categoria Rock Nacional, o cantor se perde em letras que buscam o surrealismo das coisas mais simples e elenca para a atmosfera carnal a revolta que o próprio sente dos amores que não deram certo em sua vida. Prova maior disso é o título irônico e vil de sua primeira obra musicada. Se levarmos em conta sua performance no palco, podemos dizer que ele pincelou um pouco de Ney Matogrosso, Maria Alcina e Itamar Assumpção e tentou utilizar a voz de Filipe Catto, cujo é uma das mais belas do momento. Agora pense tudo isso em Johnny Hooker: uma perfeita assimetria entre o ruim e o péssimo, entre aquele que ele desejou ser e não o é. Ney, Alcina, Catto e Itamar (em memória) são referência musical de qualidade e os comparar a Hooker é um grande erro, pois desmonta qualquer tipo e forma de musicalidade. A voz anasalada, a carência de personalidade e a falta de estrutura assistida de Hooker me causa uma revolta profunda, pois enquanto muitos cantores bons estão na estrada fazendo música do mais alto quilate, me surge um cantor medíocre, sem escrúpulos e sem competência para poder ser chamado de cantor.


Johnny Hooker
Eu vou fazer uma macumba pra te amarrar, maldito (2015)
Nota 0
Marcelo Teixeira

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Cinco cantores brasileiros!


Cinco cantores
Há muitos cantores brasileiros de gabarito personificado dentro da música popular brasileira de todos os tempos e esse mérito foi consagrado aqui mesmo no Mais Cultura Brasileira quando abordei os 10 maiores cantores dos últimos 10 anos dentro deste cenário. Não foi uma tarefa fácil, assim como não foi uma tarefa das mais difíceis, tendo em consideração o que esses cantores representavam (e ainda representam) dentro de um segmento linguístico, de forma representada e não de personalidade dentro de um conceito enquadrado, digno de uma singularidade plena de um estilo qualquer. Há muitos cantores bons, muitos esquecidos e muitos que precisam ser descobertos ainda, mas tive a audácia de selecionar, estudar e catalisar todos os maiores e melhores cantores das últimas décadas para uma seleta lista de dez, caindo para oito e fechando com cinco que, de fato, representam e aprimoram e enriquecem a nossa música nacional em um respeitado estilo musical qualificado por sonoridade, melodias e suas letras autorais. De cara e de olhos fechados, selecionei os cinco cantores, músicos e compositores que maior representatividade me orgulham pelo conjunto da obra e pelos vários discos lançados, cada qual com sua participação efusiva, cada qual com sua maneira de expressar sua arte e tendo uma sonoridade ímpar e autoral que distingue suas músicas dos cantores ditos populares. Nesse amplo caminho, Chico César é o cantor que, sem sombra de dúvidas, revela seu lado mais poético, mais singular e mais atemporal dentro de um sentimentalismo que tem por si só uma mistura de fina flor com arbustos dourados e metálicos em forma de glorificação e a prova disso é seu excelente disco atual, Estado de Poesia (2015). Ah, se todos fossem iguais ao Chico, quanta beleza a terra iria findar numa guloseima de sopa de letras e numa profusão de paródias letrais. Chico César, paraibano, poeta nato, cantor de sentimentos puros, olhar antenado e composição afinada. Alberto Salgado representa a ambiguidade masculina, retratando seu lado mais refinado dentro de um pantaleão de cores e objetos cortantes, que nos revelam notas dissonantes e versos sensacionais de calibre espinhal e arquitetônicos. Ah, Alberto, brasiliense, inquieto, sonhador, compositor dos mais inteligentes da atualidade e com um dos melhores discos de todos os tempos (Além do Quintal, 2014 ) Alberto é aquilo que a música brasileira de fato precisa: com um misto e legitimidade autoral incrível retratando a beleza da paisagem concreta e o dossal entre o singelo pluralismo abstrato em forma de desenho musicado, o cantor mostra o quão importante é a sua música para a atualidade numa forma coloquial, categorial e sincera. E o que dizer de Lenine, pernambucano, brejeiro, pensador sofisticado de palavras suaves, mas enorme salubridade sobre a vida, genioso e arteiro?  Lenine é o artista mais completo dentro de uma consistência musical harmoniosa, geniosa e lírica: sua música transcende aquilo que não possamos alcançar, o inatingível, o abstrato, o irreal que assola nossos poros, nossas artérias e o nosso ar vertical. É quase impossível não termos a sensação de que sua música é aquilo que ele mais nos representa: o homem na sua forma mais plena da sabedoria divina, do escárnio intelectual e da tenebrosa tempestade de versos histriônicos que repelem a uma dissecação de alegoria em forma de poesia. Zeca Baleiro é o cantor que representa a síntese do cantor popular que fala às multidões num gosto acelerado de riqueza nordestina, sendo ele mesmo um nordestino que consegue ater a atenção de todos por um simplório desejo musical. Se Zeca, maranhense, poeta inspirador, é um típico representante da comunidade e tem o poder de juntar gregos e troianos, isso requer dizer experimentar que ele é o fruto proibido entre a música regional e a música de seletivos críticos. De qualquer forma, seus discos nos fazem pensar na característica personalidade que o faz recitar poemas em letras tão melódicas e antissociais. São elementos essenciais para que Zeca componha de uma maneira difícil mas com o pensamento na realidade de todos os tempos. Enquanto todos seguem uma linha tênue entre o lirismo formal e fugindo da atmosfera platônica que envolve o homem e sua magnitude, Luiz Marques nos traz uma musicalidade em que o romantismo convencional ou reservado supere aquilo que falta em muitos (bons, medianos e ótimos) cantores: a do cantor popular sem ser caricato, buscando em suas letras e melodia a satisfação realista de sua beleza autoral, fazendo com que o seu intelectualismo nos permita transitar entre o belo e o cauto, entre Paris e Minas Gerais e entre a solidão masculina e a realização feminina num piscar de olhos. Esses arvoredos de sensações estão representados na maioria de suas belas canções, dentro daquilo que sugiro ser a mais pura forma de demonstrar o quão sensacional é a sua música. Ah, Luiz, mineiro, sonhador, pesquisador da boa música e merecedor de aplausos pelo espetacular CD Noite Azul (2015). Estar nesse patamar da música popular brasileira não é para qualquer cantor: é preciso muito mais que cantar e demonstrar sua arte! É preciso ter disciplina, ética e agarrar o ouvinte pelos ouvidos, pelos poros e pela alma. É ter a certeza de que sua música é fiel, verdadeira e que catalisa as pessoas pelo lado mais puro e doce, pelo lado mais concreto e real, pelo lado mais sereno e merecedor. Estar nessa criteriosa lista é estar entre os melhores da música contemporânea, é estar entre os melhores dos melhores e estar entre aqueles que sempre gosto de colocar: no topo mais alto da música. Alberto Salgado, Chico César, Lenine, Luiz Marques e Zeca Baleiro são os melhores cantores dos últimos anos, sem qualquer ponto de interrogação!

 

Cinco cantores brasileiros!
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Por que sou crítico? Uma reflexão sobre a minha arte de criticar


A minha arte de criticar música
A minha função como crítico de música é o de criticar, patrocinar a divulgação de um cantor e estar atento às novidades que os mesmos produzem, seja ele ruim ou excelente, canhestro ou bom, atemporal ou desanimador, estimulador ou inquieto, arrogante ou cristalino. Enquanto houver cantoras e sejam elas boas, medianas, ruins ou excelentes, meu papel aqui é o de criticar. Critico porque há a necessidade plural de uma sinceridade justa dentro de um contexto ideológico e que muitos precisam saber. Há a benevolência de uma magnitude singular que persiste estar antenado com o que há de novo e o que há de antigo, mesmo lembrando que o antigo muitas vezes é melhor aguçado que o novo e que o novo é sempre possível de mudanças ou reparações. Pensando por outro lado, temos que pensar no futuro da música, no futuro das cantoras e dos cantores, no futuro de um estilo que fale a nossa língua, a nossa ética, a nossa relevância, o nosso amanhã. Qual será o destino do CD físico? Ele vai sobreviver por muito tempo? Podemos dizer com toda a certeza que o estilo A não comporta com o estilo D, que, por sua vez, está interligado com o estilo de vida da classe B, mas que possui características físicas da classe dominante Z, que, por outro lado, tem formas e estilos formais da classe oriunda que perpetua o universo C? Óbvio que não! Mas podemos ter uma ideia ou percepção daquilo que está por vir, tendo em vista o cenário da música brasileira atual. Chico Buarque, grande compositor de excelentes clássicos nacionais, disse recentemente que o cenário da música atual reflete o Brasil atual. Ele está coberto de razão: os grandes barões da música financiam o grande capitalismo cultural, fazendo com que a massa não venha intervir em seus negócios. Quando será que nascerá de novo um Pixinguinha, um Paulinho da Viola, uma Elis, uma Clara, uma Gal ou até mesmo Caetanos, Miltons e Djavans? A música atual pede socorro e não mais passagem, porque ela adentra em nossa casa sem ao menos pedir licença. Apenas invade. Invade nosso espaço, invade nosso cérebro, invade nossa paz. E muitos críticos de música acabam caindo ou se rendendo ao sistema burocrático da verba ilícita para ajudar a patrocinar esses estilos difundidos pelos quatro cantos do país. Ser crítico é ser persistente na melhoria de algo e, no meu caso, insisto na melhoria da música brasileira por um todo. Precisa-se ter ética, postura. Precisamos descobrir mais cantoras, sem esquecer as do século passado e incluindo as atuais. Precisamos de mais cantores de qualidade exorbitante, pensando na junção destes atuais com os antigos e com os que virão. Ser crítico é saber respeitar o outro, saber distinguir que o que ele lançou hoje pode ser bom, mas que amanhã pode ser melhorado. Ser crítico é estarmos com o coração nas mãos a procura de uma nova voz para que possamos compartilhar. Ser crítico é ter olhar e sentimentos verdadeiros. E ser verdadeiro é ser crítico. Por que escrevo isso para vocês? Porque recebi uns e-mails recentemente de leitores e amigos que falam que escrevo com sinceridade e certeza. E para vocês eu respondo: não preciso agradar a ninguém para ser crítico. Portanto, o cantor precisa ter o termômetro de uma pessoa crítica, progressista e que lhe faça dizer: não estou aqui para passar-lhe a mão na cabeça, mas sim para ajudar na qualidade musical do Brasil. E é por isso que insisto em criticar a música.

 

Por que sou crítico?
Uma reflexão sobre a minha arte de criticar.
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Virginia Rosa Canta Clara Nunes em bela homenagem


Virginia homenageia Clara Nunes
Não é qualquer cantora que pode se debruçar na obra intocável de Clara Nunes, uma das maiores e melhores cantoras da música popular brasileira de todos os tempos, porque Clara foi uma das percussoras do samba e uma das pioneiras que conseguiu ultrapassar os limites entre fronteiras com países bombardeados por guerra e preconceito. Várias foram as cantoras que tentaram fazer uma homenagem qualquer à Clara e várias delas morreram à mingua ou conseguiram um resultado satisfatório dentro de um parâmetro em que combinavam harmonia, singularidade e o melhor: musicalidade! É praticamente impossível invadir a obra imortalizada de Clara Nunes e são poucas as cantoras que conseguem fazer isso com maestria, dedicação e sofisticação. Essa cantora é Virgínia Rosa! Lançando o sexto CD de carreira, a cantora fez uma ampla pesquisa para poder ter um resultado (ultra) satisfatório para homenagear a grande dama do samba. Foram anos cantando Clara em shows para chegar a Virginia Rosa Canta Clara (2015 / Sesc SP / 24,99), em que a cantora paulistana faz um brilhante retrospecto sobre a música da mineira Clara. O resultado é envolvente e emocionante, ainda mais porque Virginia tem uma voz potente e que nos acaricia, nos embala e nos perpetua a sair sambando em qualquer lugar. Com uma capa sensacional, demostrando tanto a religião de Clara quanto as cores de sua escola de samba preferida, a Portela, Virginia Rosa nos saúda e nos brinda com o melhor da carreira de Clara, estando apta para ser ovacionada por quem não conhece seu trabalho e sendo a responsável por trazer a juventude atual os clássicos dessa grande artista. Em suma, são duas cantoras se completando sobre o trabalho da outra: Virginia, com seu brilhantismo e sua força musical, consegue sentir a presença onipresente de luz de Clara, nos dando a dimensão completa de uma emoção vocacionada pelo sentimento de vida, de música, de arte. Quem ouvir Virginia Rosa Canta Clara terá a certeza de que a música popular está a salva dos impropérios ouvidos hoje em dia e da enorme falta que ela nos faz. Não foi preciso um CD duplo para homenagear a grande Clara, muito menos reproduzir trechos emocionados de familiares, mas sim, cantar e encantar aquilo que ela fez em vida. Virginia conseguiu arrebatar não só os fãs de Clara, como soube valorizar cada respiração, cada momento emocionado, cada melodia, cada verso. Escolheu os melhores momentos de Clara em vida e pincelou as melhores canções. Era preciso um disco com essa magnitude nos dias de hoje, para que possamos ter a nítida certeza de que Clara ainda permanece viva e entre nós. Uma salva de palmas à Virginia Rosa que nos trouxe emoção, princípios e musicalidade com um disco a altura de seu talento.

 

Virginia Rosa Canta Clara (2015) / Virginia Rosa
Nota 10
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

O mediano álbum Partir (2015), de Fabiana Cozza


Fabiana e seu disco novo: fraco
Fabiana Cozza é uma das cantoras mais respeitadas de todos os tempos dentro da música popular brasileira e nas rodas de samba de prestigio e categoria e seu nome hoje está associado às grandes damas da música nacional, estando ao lado de bambas como Clara Nunes, Alcione e Dona Ivone Lara. A cada disco lançado, Cozza tem uma inspiração nova, um motivo que a leve a cantar mais e melhor e com seu novo lançamento não fora diferente. A inspiração desta vez é a Bahia de todos os santos, solo por onde aportaram os primeiros navios negreiros no Brasil. Partir (2015 / Trattore / 29,00) não é o melhor disco de carreira de Fabiana, mas é o CD que mais se aproxima de sua religião, de sua encantadora fé e de sua respeitada vida. São ao todo 14 faixas embaladas por canções de todos os tipos de reza e oferenda e a voz de Cozza impera quase que triunfal por toda a atmosfera que o álbum exige. O álbum faz com que Fabiana transporte o ouvinte da África à Bahia num piscar de olhos, com suas danças, rodas e cantigas que ressalta a levada do Recôncavo Baiano até a nota mais importante de todo o lirismo saudosista que perpetua o disco. Mesmo com o aval de Maria Bethânia saudando o álbum como sendo um disco da maior competência de todos os tempos, tendo uma cantora com a voz lisa e clara, reconheço que há falhas redundantes neste, que poderia ser o melhor disco, de fato, da carreira de Fabiana Cozza (o melhor ainda é Quando o Céu Clarear, lançado em 2009). Buscando na evocação da ancestralidade africana o seu porto seguro (Clara Nunes sempre fizera isso em discos memoráveis), Cozza tentou rebuscar nas canções a sofisticação em um repertório simples para uma causa nobre: errou ao tentar fazer um disco surpreendente e fazendo deste momento um rechaçado canto superior de seu talento. Sem falar na capa, com um misto de tristeza fúnebre com um olhar perdido, olhando o nada, o vazio, o irreconhecível. Partir tem sons sutis, suaves, joviais e talvez esse seja o diferencial na carreira de Fabiana, que já vinha em outros discos explorando mais seu lado teatral com dosagem de uma grande voz. Mesmo não havendo lugares-comuns em algumas canções, Partir merece um pouco de atenção nas faixas Chicala (João Cavalcanti) e Entre o Mangue e o Mar (Alzira E. / Arruda), mas ressalvo: Partir não é o melhor disco de Fabiana Cozza, muito menos entrará na categoria de melhores discos do ano de 2015.


Partir (2015), o novo disco de Fabiana Cozza
Nota 7
Marcelo Teixeira