quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Vivo Feliz (2003), de Elza Soares


 

Elza: homenagem ao Rio
Falar de música negra é falar de Elza Soares. Falar de música popular brasileira é falar de Elza Soares. Falar de música por um todo é falar, essencialmente, de Elza Soares. A cantora se orgulha em ser negra, em ser do morro, em ser mulher, favelada e cantora. Reconhecida e tarimbada como a voz do milênio por uma emissora americana, Elza Soares lançou Vivo Feliz (2003 / Trattore / 25,99) em grande estilo, logo após lançar Do Coccix até o Pescoço (2002) em que foi obrigada a voltar aos palcos brasileiros pelas mãos de Chico Buarque e Caetano Veloso. Não foi a toa que Elza regravou dois medalhões da MPB, como Volta Por Cima (Paulo Vanzolini) e Opinião (Zé Ketti), talvez para dar algum recado diretamente a alguém. Seja como for, Vivo Feliz retrata, acima de qualquer suspeita, o momento mais mágico e feliz de uma grande artista (esquecida por muitos) como Elza Soares. Retratando o Rio de Janeiro que tanto ama através da capa e da música Rio de Janeiro, composta por ela e pelo então namorado, Anderson Lugão, o álbum veio com uma sonoridade mais eletrônica que o anterior e isso fez com que muitos fossem ouvir o novo trabalho da cantora. O bom resultado é que Elza agregou valores e referências neste disco, como a vinda de compositores mais novos, casos de Nando Reis e Fred 04, que fizeram toda a diferença aqui com suas jovialidades. O outro lado bom deste disco é o lado compositora de Elza, cujo compôs a salsa Somos Todos Iguais em um clima de (re)visita ao passado e a sensacional derradeira Lata D’Água, que fecha o disco em grande astral. O disco é perfeito e sem retoques, desde a introdução até os momentos em que Elza brinca com sua voz, passando pelos pontos eletrônicos exigidos pelo produtor Arthur Joly. Resultado de grandeza para Elza Soares, que fez um disco pensando na sua sonoridade e na ampliação de seus fãs. E para quem duvidava do estado de graça de Elza Soares, basta ouvir o disco para saber...

 

Vivo Feliz / Elza Soares
Nota 10
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

A beleza de Perto (2003), de Olivia Gênesi


Sofisticação em disco perfeito
Quando o ofício de cantar passa a ser a pluralidade maior de uma cantora, esse objetivo transpassa as barreiras horizontais de qualquer esfera e sua música chega aos nossos ouvidos como uma pluma ou um algodão, nos aconchegando e adentrando em nossos poros toda a suavidade transpiratória e transitória que ali existe. Olivia Gênesi é uma dessas cantoras que me orgulham e muito pelo seu cantar e por sua luta para com a música popular brasileira e sua sonoridade é tão rica e tão bela e tão serena, que fico feliz e embasbacado quando a ouço. E hoje faço questão de dizer que tudo começou com este disco, intitulado Perto (2003), o segundo de sua carreira, que hoje, passado dez anos de seu lançamento, eu pude estar lado a lado com a cantora e compositora a qual idolatro muito. Perto foi o pontapé inicial para que eu me debruçasse na carreira desta cantora sensacional e foi o estopim para algumas mudanças em minha vida, como o caso da música Perto, cujo fala de um amor que deveria estar por perto, englobando a saudade e a sensação de solidão. Neste disco, Olivia nos brinda com o melhor de sua música, com canções meramente belas e marcantes como um todo, demonstrando virtuosidade e capricho nas melodias e na voz. Um disco que traz mensagens impactosas e altíssimas notas emocionais, carregadas de sentimentos aflorados e de voz cristalina. Inovando a música popular brasileira, Perto foi além dos horizontes que permeiam a vida de uma cantora: ela chegou a pontos estratégicos de ultrapassar limites e chegar a ouvidos que até então se limitava a ouvir os grandes cantores da MPB. A música de Olivia me faz bem e esse bem é notório quando a ouço. E ouvir Olivia é estar perto do semblante crucial entre o que é belo e o que é satisfatório. Sua sensibilidade ácida e pura é de uma belza rara em canções como O Claro dos Relâmpagos e Nas Asas da Música. E sua personalidade musical é gigantesca em discos como este, aonde a música se faz presente, o brilho de sua voz se faz autêntico e a magnitude de uma grande cantora se faz presente.

 

Perto / Olívia Gênesi
Nota 10
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

A música negra brasileira

Dia de festa ao povo negro
A cultura brasileira e, logicamente, a rica música que se faz e consome no país estruturam-se a partir de duas básicas matrizes africanas, provenientes das civilizações conguesa e iorubana. A primeira sustenta a espinha dorsal dessa música, que tem no samba sua face mais exposta. A segunda molda, principalmente, a música religiosa afro-brasileira e os estilos dela decorrentes. Entretanto, embora de africanidade tão expressiva, a música popular brasileira, hoje, ao contrário da afro-cubana, por exemplo, distancia-se cada vez mais dessas matrizes. E caminha para uma globalização tristemente enfraquecedora. A presença africana na música brasileira, pelo menos em referências expressas, vai se tornando cada vez mais rarefeita. Aparece, via Jamaica, no carnaval dos blocos afro baianos e nos sambas-enredo das escolas cariocas e paulistanas – especialmente nas homenagens a divindades. Mas nada de modo tão intenso como ocorre na música que se faz em Cuba e em outros países do Caribe. Mesmo com a explosão comercial da chamada salsa, a partir de Porto Rico e via Miami, na música afro-caribenha de hoje é raro um disco que não contenha pelo menos uma cantiga inspirada em temas da religiosidade africana e interpretada com fervor apaixonado. Tito Puente, Mongo Santamaría, Célia Cruz, Rubén Bladez e muitos outros são exemplos fortes, o mesmo não acontecendo no Brasil, pelo menos na música mais largamente consumida. No Brasil, o pagode, a partir da década de 1990, apesar da voga inicial de grupos cujos nomes, mas só os nomes, evocavam a ancestralidade africana (Raça Negra, Negritude Júnior, Suingue da Cor, Os Morenos etc.), entendemos que foi se transformando em um produto cada vez mais fútil e imediatista para se preocupar com etnicidade. E isto talvez por conta do conjunto de estratégias de desqualificação que ainda hoje sustentam as bases do racismo antinegro no Brasil. É esse racismo que, no nosso entender, vai cada vez mais separando coisas indissociáveis, como o samba e a macumba, a ginga e a mandinga, a música religiosa e a música profana, desafricanizando, enfim, a música popular brasileira. Ou africanizando-a só na aparência, ao sabor de modas globalizantes made in Jamaica ou Bronx.

 
Clementina de Jesus, cantora nascida em Valença, RJ, em 1901, e falecida no Rio, onde vivia desde menina, em 1987, foi uma grande presença de personalidade negra no Brasil. Descoberta para a vida artística já sexagenária, afirmou-se como uma espécie de elo perdido entre a ancestralidade musical africana e o samba urbano. Seu trabalho de maior expressão fez-se através da interpretação de jongos, lundus, sambas da tradição rural e cânticos rituais recriados, como o já Benguelê, de Pixinguinha. Logo depois do surgimento de Clementina, outra importante interseção entre a música popular brasileira e a religiosidade africana ocorre com os afro-sambas (Canto de Ossanha, Ponto do Caboclo Pedra Preta etc) lançados por Baden Powell e Vinícius de Moraes em 1966. E é o mesmo Vinícius que, agora em parceria com Toquinho, veio a lançar um Canto de Oxum, em 1971, e um Canto de Oxalufã, em 1972. Daí em diante, a vertente começa a se rarefazer, com raras incursões, como a do cantor e compositor Martinho da Vila, que, em um de seus discos do final dos anos 70, registrou uma seqüência de cantigas rituais da umbanda.

Clara Nunes nasceu em Minas Gerais no ano de 1942 e morreu no Rio de Janeiro no ano de 1983 e foi uma das maiores cantoras do Brasil, considerada uma das maiores influências do país na música negra. Pesquisadora damúsica popular brasileira, de seus ritmos e de seu folclore, Clara também viajou várias vezes para a África, representando o Brasil. Conhecedora das danças e das tradições afro-brasileiras, ela se converteu à umbanda. Também foi a primeira cantora brasileira a vender mais de 100 mil cópias, derrubando um tabu segundo o qual mulheres não vendiam discos. Clara e Clementina gravaram juntas um partido alto reverenciando a música negra, o lundu, os atabaques. E festejaram juntas este feito.

Desafricanização, como sabemos, é o processo por meio do qual se tira ou procura tirar de um tema ou de um indivíduo os conteúdos que o identificam como de origem africana. À época do escravismo, a principal estratégia dos dominadores nas Américas era fazer com que os cativos esquecessem o mais rapidamente sua condição de africanos e assumissem a de negros, marca de subalternidade. Isto para prevenir o banzo e o desejo de rebelião ou fuga, reações freqüentes, posto que antagônicas.O processo de desafricanização começava ainda no continente de origem, com conversões forçadas ao cristianismo, antes do embarque. Depois, vinha a adoção compulsória do nome cristão, seguido do sobrenome do dono o que representava, para o africano, verdadeira e trágica amputação. Então, vinham as distinções clássicas entre da costa e crioulo, entre boçal e ladino. Acreditamos que a música popular brasileira, de raízes tão acentuadamente africanas, seja vítima de um processo de desafricanização ainda em curso. Senão, vejamos. Quando a bossa-nova resolveu simplificar a complexa polirritmia do samba e restringir sua percussão ao estritamente necessário, não estaria embutido nesse gesto, tido apenas como estético, uma intenção desafricanizadora? E quando a indústria fonográfica procura modernizar os ritmos afro-nordestinos (de maracatu para mangue-beat, por exemplo), não estará querendo fazer deles menos boçais e mais ladinos, pela absorção de conteúdos do pop internacional? Pois esse pop milionário, sem pátria e sem identidade palpável (mesmo quando pretende ser étnico), é exatamente aquela parte da música dos negros americanos que a indústria do entretenimento desafricanizou. Por tudo isso e como sempre disse a grande dama negra da música popular brasileira, Elza Soares, a música preta pede passagem, que o dia da Consciência Negra é celebrado com maestria e com muita música por artistas negros de ontem e de hoje em eventos espalhados por todo o Brasil. De Negra Li a Elza Soares, passando por Jorge Ben e Fabiana Cozza, a música negra é rica em elementos sofisticados diferenciados do pagode do início da década de 1990 e menos conturbado, hoje, do que na época de início de carreira da dama Elza Soares. Viva a música negra brasileira, viva o povo negro, viva o povo brasileiro. Negro na sua maioria!

 

A Música Negra Brasileira
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

A explosão de Ney Matogrosso


Alto astral em disco ao vivo
Havia um pouco de loucura nos idos anos de 1999 quando Ney Matogrosso lançou seu disco ao vivo, pois a carreira do cantor estava um pouco abafada pela explosão do sertanejo e da volta do axé. A loucura fez com que Ney fosse surpreendido pela crítica e público quando seu disco foi alçado ao ponto máximo que um artista de sua geração pudesse alcançar: o topo das paradas. O disco Ney Matogrosso Ao Vivo (1999 / Universal Music / 23,99) é um álbum em que pode ser encontrado de tudo um pouco: das grandes regravações, dos belos poemas de Itamar Assumpção, das letras inesquecíveis de Cazuza, da fase dos Secos & Molhados e até cantores mais modernos, como Lenine e Renata Arruda. Em boa fase e muito bem em palco, Ney Matogrosso fez um disco para fechar o ano e abrir o novo milênio em excelente categoria. Boa parte disso vem do disco anterior, Olhos de Farol, em que Pedro Luís reforçava a bandeira como sendo um dos mais brilhantes e notórios compositores de sua geração. Ao Vivo trouxe de volta Ney Matogrosso em alta categoria, incapaz de ser subjulgado como qualquer cantor. Sim, Ney ainda respirava respeito por todos e esse disco veio apenas comprovar isso. Envelhecer no Brasil, como Ney envelheceu com o Brasil, não é uma tarefa fácil. Ney lançou Ao Vivo aos 58 anos de idade e ficar dançando como ele dançou e requebrou as cadeiras nos shows pelo país a fora, não é tarefa para qualquer um. A coerência de Ney e o prazer com que ele dança e interpreta as canções neste disco vão além de sua velhice (no bom sentido). O gás de ânimo de Pedro Luís e Lenine e o fogo ardente de Paulinho Moska, misturados ao sabor de Itamar e aos gestos selenes de Rita Lee, fizeram com que o cantor passasse a virada de milênio com um número maior de fãs mais jovens e de obter maior êxito entre os que já gostavam de Ney. Ao longo de sua carreira, Ney dribla entre fortes doses de adrenalina, libertinagem, liberdade e ousadia e assumiu todos os pecados e hoje segue sozinho, vivo, liberto de qualquer agruras do passado e sem nunca sentir remorsos. E essa liberdade é vivida neste álbum, quando recria com sofisticação inúmeros sucessos do passado, sem ter medo da opinião alheia. Beirando os 59 anos à época, Ney resisitiu à tentação de dançar quase pelado, metamorfoseando-se de plumas e paêtes e se deliciando com as próprias canções.  Aqui não tem apelações, exageros ou coisas do tipo, porque Ney Matogrosso soube exprimir tudo com sabor de requintes excepcionais para fazer com que o seu público dobrasse ou triplicasse. E ele conseguiu. Passados mais de dez anos, Ney Matogrosso Ao Vivo consegue fazer a ponte entre o Ney de ontem e o Ney de hoje e isso faz toda a diferença na carreira do grande cantor.

 

A explosão de Ney Matogrosso
Nota 10
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Tanto Tempo (2000) de Bebel Gilberto


Disco excepcional de Bebel
Primeiro grande trabalho solo de uma das artistas mais completas do Brasil nos Estados Unidos, Bebel Gilberto conseguiu fazer um dos discos mais completos de todos os tempos, misturando a bossa nova de seus pais, Miúcha e João Gilberto, a MPB de seu tio, Chico Buarque, o rock de seus melhores amigos, Cazuza e Dinho Ouro Preto e inspira-se na voz de Nina Miranda para cantarem juntas uma das melhroes faixas. Tanto Tempo (2000 / Ziriguiboom-Crammed Discs / 39,00) surgiu como quem nada queria e explodiu nos Estados Unidos e Japão como um meteoro. Duas vezes indicada ao Grammy, Bebel Gilberto é uma das poucas cantoras que conseguiram êxito maior fora do país de origem que dentro dele, embora tenha fãs espalhados por todo o mundo. A sensualidade deste gênero, resultado do cruzamento sincopado da percurssão do samba com a voz uniforme, é recriada pelo timbre suave e melódico de Bebel, que conta com a ajuda de sofisticados instrumentos acústicos e algumas orquestrações. O resultado é um disco com sabor de música eletrônica, bossa nova, mpb, samba, jazz e tudo isso misturado ao sabor e ao calor de uma voz adorável. Com um cheirinho de forró, pop ou qualquer gênero, Tanto Tempo tem as participações de Mario Caldato Jr, Suba, Amon Tobin, Béco Dranoff, Luís do Monte, João Parahyba e Nina Miranda, dos Smoke City. O sucesso e o reconhecimento de Tanto Tempo, produzido pelo iuguslavo Suba, um especialista em música eletrônica, conseguiu fazer com que Bebel fosse reconhecida pelo seu talento logo de cara, não precisando do reconhecimento de seus pais ilustres. O disco caiu nas graças dos DJs americanos e depois invadiu as pistas de dança do mundo todo a ponto de ser feita uma nova edição remix do mesmo álbum. Tanto Tempo, que tem músicas como Bananeira, Samba e Amor, So Nice e Close Your Eyes, bateu todos os recordes discográficos na época, vendendo 1 milhão de cópias em todo o mundo e tornou-se o mais bem-sucedido trabalho de um artista brasileiro na terra do Tio Sam.

 

Tanto Tempo / Bebel Gilberto
Nota 10
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

A histeria de Thalles Roberto em nome de Deus


Thalles: histérico demais
Não sou sou muito adepto da música gospel, mas um cantor ou outro que surge aqui ou ali me instiga a ouvi-lo e a comentar sobre seu trabalho. Sempre que possível, surge um cantor ou uma cantora gospel que acaba sendo muito prestigiada em seu centro evangélico e, para a alegria geral dos irmãos, eles passam das fronteiras universais e chegam a abraçar os que não são evangélicos. Casos de Aline Barros ou do agora garoto propaganda Thalles Roberto, que levam a palavra de Deus às bocas de milhares de pessoas que encontram em seus hinos um motivo maior para se sentirem aliviadas. Confesso que esse tipo de música não me agrada, porém, não me faz mal e cantarolo alguns versos vez ou outra para minha surpresa geral. Dentre todos os lançamentos do momento, Thalles Roberto é significado de grandeza e louvação contínua, mas eu não sei muito bem qual a pegada musical dele. Voz rouca, grave e potente, Thalles Roberto é um legítimo pregador de hinos, contundente e capaz de mobilizar multidões, mas não entendo uma vírgula do que ele canta. Berrando feito um pastor enlouquecido, Thalles Roberto precisa soltar o diafragma para poder expressar suas palavras ou, melhor ainda, precisa parar de dançar freneticamente para poder respirar e cantar. Afinal de contas, suas músicas são bonitas, as mensagens são perfeitas, mas o que estraga tudo isso é o conteúdo central: Thalles Roberto. Mas antes mesmo de se dedicar totalmente à música gospel, Thalles Roberto foi músico de apoio do Jota Quest e da Banda Jamil e Uma Noites. O cantor é um dos mais renomados e admirados artistas de sua geração religiosa, tendo sido indicado ao Grammy Latino e ao Troféu Promessas (não levando nenhum). Tudo isso pode ser levado por água abaixo pela histeria do cantor, que insiste em gritar, pular e parecer receber um santo em palco. Será que é preciso tudo isso para levar o nome de Deus aos ouvidos mais solenes? Menos, Thalles Roberto, bem menos!

 

A histeria de Thalles Roberto em nome de Deus
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

A polêmica do cantor Daniel


Daniel: ainda o melhor sertanejo
A polêmica em volta do cantor Daniel sobre a regravação da música Maravida em seu 14° disco de estúdio ainda persiste e muitos torcem o nariz para não ouvi-lo. A música foi composta por Gonzaguinha e cantada por Maria Bethânia em seu disco Alteza, de 1981 e é uma das músicas mais esquecidas do cancioneiro de Luiz Gonzaga Junior, já que os menos chegados na obra do grande cantor, insistem em lembrar apenas de E o que é, o que é? ou Explode Coração. Seja como for, Daniel está sofrendo as penalidades por causa da gravação de uma música consagrada na voz de Gonzaguinha, seu criador e de Bethânia, sua criatura, tendo em vista que o sertanejo nunca tenha gravado sequer uma música do cantor falecido em abril de 1991. Que a música foi encomendada para que Daniel cantasse, disso ninguém tem dúvidas, mas confesso que a primeira audição, levei um susto ao ouvir Daniel cantando uma das minhas melhores canções num jeito tosco, grosseiro e berrante. Mas isso foi somente a primeira audição, pois Daniel, com seu carisma e sofisticação, soube interpretar deliciosamente a música, não deixando constranger a nada e a ninguém. Daniel recebeu e ainda recebe críticas por esta regravação e essa nova fase do cantor sertanejo será marcada para o sempre em sua carreira. Maravida é uma música que fala de amor, desilusões e vida e Daniel soube interpretar deliciosamente a canção. Não agradando ao público que assiste a telenovela, Daniel segue sua vida (e carreira) tranquilamente, tentando não dar vazão às críticas negativas que vem recebendo. Houve até um abaixado-assinado na emissora global para que a canção fosse trocada pela interpretação de Maria Bethânia, mas, como se vê até hoje, nada disso foi feito. Vale ressaltar que a novela América, de Glória Perez, exibida em 2005, teve caso semelhante. A novela, que ia de mal a pior, teve como chamariz principal a interpretação (maravilhosa) de Milton Nascimento na música Órfãos do Paraíso como a pior parte da trama (ou seja, a abertura), e a substituição foi feita por Ivete Sangalo com a música Soy Loca Por Ti América.  Seja como for, a interpretação do cantor sertanejo Daniel, cujo eu gosto, está muito boa! E que ele continue assim: humilde e sensacional com sua voz que emociona a muitos.


A polêmica do cantor Daniel
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

A sensível faceta de Filipe Catto



Filipe: sensibilidade à flor da pele
 
Cantor aclamado pela crítica e pelo público e que faltava dentro da MPB, Filipe Catto sentia que sua música iria desaguar em mares profundos quando lançou o primeiro disco, Fôlego, que foi tão aguardado quanto qualquer outro disco. Hoje, lançando Entre Cabelos, Olhos e Furações (2013 / Universal Music / 23,99), Filipe se encontra mais autêntico e sem os trejeitos de uma Elis ou de um Ney e carrega no semblante a tristeza de suas letras e melodias, com uma performance marcada pela emoção e interação constante entre o público/artista, cujo mostra a própria trajetória. O CD foi registrado em DVD e gravado em fevereiro deste ano no Auditório do Ibirapuera, em São Paulo e foi muito bem elaborado por sua equipe, que chega a dar arrepios esfuziantes.  Filipe é considerado um dos artistas mais talentosos de sua geração e seus discos são prova disso, pela técnica vocal e pelas comparações do início de carreira. A seleção de músicas escolhidas para o novo projeto resume a caminhada do cantor desde o seu começo nos bares até hoje, além de composições próprias e das selecionadas que marcaram sua vida, como as de Roberto Carlos e Fábio Junior.
Adorador de Milton Nascimento e tendo como influência maior o cantor e compositor mineiro, o gaúcho gosta de sua voz e gosta de se ver cantando, mas odeia ser comparado a Ney Matogrosso e Elis Regina. Pudera, o talento de Filipe está mais do que comprovado e não precisa de comparações para chegar a um denominador comum.
O interesse por cantores de sua geração, como Karina Buhr (Eu Menti pra Você), Pélico (Sem Medida) e Nescafé (Apanhador Só) revela o entusiasmo do cantor em experimentar sonoridades novas e que refletem em sua voz. Para o artista que tem no palco uma de suas maiores vertentes, a gravação deste novo disco agrega a uma estratégia para revelar o melhor de sua performance. Uma dessas impressões performáticas estão registradas no DVD e demonstra sua entrega total à sua música.
Os dois trabalhos anteriores (Fôlego e Saga), serviram de base para Entre Cabelos, Olhos e Furacões, título tirado da letra de Ave de Prata, composta por Zé Ramalho e interpretada magistralmente por Filipe em Fôlego num registro fenomenal. E sem sombra de dúvidas, Filipe Catto já entrou para a história da música popular brasileira como um todo: o melhor dos melhores.
 

Entre Cabelos, Olhos e Furacões / Filipe Catto
Nota 10
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Aláfia: o encontro entre o Brasil e a África


Jogo de palavras e bela voz de Xenia
No dialeto africano iorubá, Aláfia significa felicidade ou caminhos abertos e é bem esta a proposta que faz o grupo Aláfia, que estreia em disco grandioso e que tem como meta desencandear e se aprofundar nos ritmos da África de Nelson Mandela e também no funk dos anos 1970 e no hip hop norte americanos, mas com um toque extremamente brasileiro. Aláfia (2013 / YB Music / 26,99) é um disco gostoso de ouvir e ouvir e repetir, mas não chega a ser um dos melhores lançamentos do ano, embora seu estilo seja conservador e transgressor para os padrões musicais de hoje em dia. Um trabalho com a antena ligada em um cosmopolitismo de diversos ritmos conceituados, como o samba, o funk, o reggae e ao mesmo tempo viaja em um conceito de brasilidade sem muita afetação. O vocal de Xenia França, uma negra lindissima que tem uma voz e uma presença de palco impressionantes, vai numa potência inabalável na faixa Ela é Favela ou suavemente doce em Homem Que Virou Música, em que mistura uma voz sensual e sexy. O disco tem um potencial para alguns hits, como Baile Funk, Mais Tarde e a própria Ela é Favela, que tem participação de Lurdes da Luz. Este disco de estreia foi gravado ao vivo em estúdio e ainda que não traga uma grande mudança dentro da estética brasilidade-suingado-intercâmbio-afro, é um balaio interessante e muito bem criativo.

Outro grande feito achado no grupo Aláfia é saber aproveitar a tradição da música negra dentro da cultura musical brasileira e fazem tudo isso dentro de um vínculo com a África sem pretensão. O jogo de palavras ritmadas é de arrepiar e as letras dificílimas de cantar por vezes, fazem toda a diferença aqui. Mais do que se apropriar da estética e da linguagem africanas, o grupo parece ir além e se impregna das raízes no discurso, nas vestes, nas letras e em cada momento do disco.

A África está por todo o canto. Feche os olhos e sinta a música de Aláfia.

 

Aláfia / Aláfia
Nota 7
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Acústico Cássia Eller (2001): grande voz de uma artista (quase) completa


Cássia mereceu o Acústico MTV
Um artista nunca sabe quando será seu último trabalho, mas certamente sabe que está fazendo um trabalho diferenciado dos anteriores e foi justamente esse o pressentimento que Cássia Eller teve ao fazer o Acústico MTV, um dos maiores sucessos da cantora até hoje, mesmo após sua morte precoce. De todas as cantoras que surgiram dos anos 1980 para os anos 1990, Cássia Eller foi, sem dúvida, a maior. Marisa Monte e Adriana Calcanhotto surgiram praticamente no mesmo tempo, no final de 1987 para 1988, mas ambas seguiam uma linha mais voltada para a MPB, enquanto Cássia vinha com seu vozeirão com tudo para dentro do rock, tendo como amigos Cazuza, seu maior ídolo. Sua voz se coloca juntamente além da MPB e atravessa fronteiras jamais calculadas por críticos de arte e mesmo cantando samba, forró, countruy entre outros ritmos, Cássia foi acertando de uma maneira geral em sua carreira, especialmente nos shows, aonde sua performance era sempre imbatível (tenho fotos de quando ela fez o último show no Sesc Interlagos, repleto de pessoas). Apesar de sua boa reputação como sendo uma das cantoras mais prestigiadas de seu tempo, este reconhecimento só veio com o disco Com Você Meu Mundo Ficaria Mais Completo (1999), cujo a participação do ex-titã Nando Reis foi primordial. Talvez Nando Reis, à procura de uma grande voz para suas canções, não tenha percebido que estaria por incentivar a carreira de Cássia, mas a bem da verdade, é que o disco lançado em 1999 trouxe para a seara musical um novo folêgo, com a misteriosa volta por cima de Cássia, depois de vários discos sem tanto êxito.
Acústico MTV Ao Vivo Cássia Eller (2001 / Universal Music / 22,99) tem seus defeitos básicos, o que acabou dificultando a carreira de Cássia. Primeiro que a música E.C.T foi gravada pela terceira vez e mesmo tendo uma nova roupagem, a música ficou chata e um pouco parecida com as versões anteriores. Malandragem e Todo Amor que Houver Nessa Vida tiveram novas releituras e mesmo assim passaram pelo constrangimento de serem capengas. Vale ressaltar que Malandragem fora uma música composta por Cazuza dada de presente para Angela Ro Ro, que se recusou a grava-la. Anos depois, Cássia Eller a gravou, depois de achar a versão na casa de Frejat e o sucesso incomodou Angela (ela jura que não). Seja como for, as harmonias das canções citadas acima fizeram com que o disco ganhasse um tom melancólico, estranho, inquieto.
Talvez a faixa mais interessante de todo o disco e totalmente inédita na voz de Cássia, seja as releituras caprichadas de Partido Alto (de seu ídolo Chico Buarque) e Top Top, que os Mutantes gravaram há anos atrás. Vá Morar com o Diabo, um clássico de Riachão, também ficou divertida e hilária, assim como as sonoridades encontradas em duetos entre a MPB atual e contemporâneo: o rap paulista Xis (que deu uma bela sumida depois da morte da cantora) e do mangue-beat do grupo pernambucano Nação Zumbi. As regravações do sucesso de Edith Piaf, Non, Je Ne Regrete Rien e dos Beatles, Sgt. Peper’s Lonely Hearts Club mostram a interatividade e intelectualidade de Cássia.
Seja como for, Acústico MTV poderia ter sido melhor aproveitado se Cássia Eller não tivesse feito alguns erros à época, mas mesmo assim, o disco ainda continua sendo uma ponte de referência para todo o trabalho conquistado pela grande interprete.

 

Acústico MTV / Cássia Eller
Nota 7
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

O pagode de Leo Russo


Voz de preto, jeito moleque
A semelhança entre Leo Russo e Diogo Nogueira é enorme. Os dois tem olhos azuis, pele clara, são sambistas e, de quebra, quase a mesma voz. Mas isso não interfere em ambos os talentosos artistas, até mesmo porque ambos são excelentes cantores. Leo Russo está lançando um CD na praça em que convidou bambas cariocas para um divertimento e dessa festa nasceu parcerias musicais incríveis, como a participação de Dudu Nobre, o próprio Diogo Nogueira e a Velha Guarda da Portela, fazendo uníssono em algumas das belas canções. A única coisa chata na carreira de Leo é a sua semelhança com o filho ilustre de João Nogueira, porque o resto ele comanda a festa na melhor maneira possível. Leo Russo lança Leo Russo (2013 / Independente / 24,99) com pompa dos grandes sambistas do Rio e faz deste momento um único caminho para trilhar o sucesso. Tirando as aparências de lado, Leo canta e encanta nas catorze faixas que compõe o disco e nos presenteia com um pagode pé de serra feito pelos grandes bambas de outros carnavais, como Paulinho da Viola, Martinho da Vila e Roberto Ribeiro. De uma coisa é fato: Leo Russo é um expoente desta geração a qual não viveu musicalmente, mas que cresceu ouvindo o melhor do pagode e do samba de sua cidade. O Rio de Janeiro produziu os melhores e maiores letristas, sambistas e puxadores de samba  de todos os tempos e Leo Russo veio para brilhar e dar continuidade a este segmento.

Voz de preto e jeito moleque, Leo Russo é um loiro que caiu no samba sendo influenciado por Zeca Pagodinho. Com um pandeiro nas mãos, o cantor reconhece que é preciso batalhar bastante para se ter um lugar ao sol. Dono de uma voz malemolente e contagiante, Leo faz de seu samba um tom maior para se firmar na música como sendo ele próprio mais um integrante das rodas cariocas. Suas letras são convidativas e sua alegria é presente nas faixas que encantam o ouvinte. Primeiro disco do cantor e compositor, Leo é um sambista romântico que consegue transformar as dores de amor por um bom partido alto.

Como vertente musical, Leo nasceria exatamente desta manifestação popular completamente ao seu estilo e registrando os acontecimentos musicais ao seu redor e sua música veio batizar esponteneamente o novo estilo de se fazer música, inovando o pagode derivado do samba carioca. A malandragem dos morros cariocas fez de Leo Russo ser um dos mais autênticos sambistas da atualidade e seu disco comprova esta autenticidade. Seu pagode, como manifestação cultural brasileira, aparece justamente no momento em que o estilo pede uma inovação no estilo.

Sua voz agrada, seu estilo agrada. Leo Russo é um cantor brasileiro, que canta samba ou pagode da melhor qualidade possível e isto reflete como sendo o melhor momento tanto para ele quanto para a nossa música popular brasileira.

Salve, salve, Leo Russo.

 
O pagode de Leo Russo / Leo Russo
Nota 8
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Eu Não Peço Desculpas (2002), de Caetano Veloso e Jorge Mautner


Um pouco de loucura dos dois
Há um pouco de loucura e saliência no CD Eu Não Peço Desculpas (2002 / Universal Music / 24,99) lançamento conjunto entre os amigos Caetano Veloso e Jorge Mautner. Na época de seu lançamento, as entrevistas conjuntas e os shows nos palcos Brasil a fora, a parceria entre Caetano e Mautner guardou contrastes quase emagadores, para não dizer constrangedoras, de uma química entre dois luminares de abajures: um aceso, outro apagado. Há bem da verdade, o CD é pautado pela desenvoltura de ambos artistas completos, ricos musicalmente, mas que desse toldo apenas Caetano conseguiu uma magnitude ampla, aonde conseguiu sobreviver às custas do que pensava em música, arte e cultura. Mautner foi massacrado pela crítica conservadora, pelo seu estilo, pelo seu canto e pela sua pessoa e isso ofuscou e muito a sua bela carreira. Passados mais de décadas, os dois se juntaram para fazer um disco atemporal, contraditório e surpreendentemente belo. Esse é o motim para o descrever Eu Não Peço Desculpas, um disco que pode soar engraçado, como pode ser estranho para outros ou até mesmo maravilhoso para alguns. O fato é que o disco, hoje, não é tão bem vinda na carreira dos dois artistas, pois suas músicas ficaram esquecidas.

O resultado é um disco que passeia por várias praias sonoras, num vôo despretensioso, mas repleto de segundas intenções e ironias e é justamente isso o que faz toda a diferença aqui. As letras são brincalhonas, escrachadas até, mas falando sultimente de assuntos muito sérios, como no caso de Doidão ou Tarado. A liberdade lúdica é maior ainda em relação ao espectro sonoro. Do pseudobrega Tudo Errado aos trique-triques eletrônicos de Manjar dos Reis, tudo soa com um frescor ausente há tempos da obra do baiano. Mas nem tudo é brincadeira. Lágrimas Negras, na voz de Caetano, ganha um tratamento sóbrio e delicado. E há um certo tom pesado na releitura de Cajuína, com Mautner, repleta de tons orientalizantes. Mas o que sobressai mesmo são os gracejos bobíssimos e justificados – do pop farofento de O Namorado à palhaçada explícita de Tarado. E também nas boas viagens sonoras, como o ar renovado concedido a Maracatu Atômico (com tambores baianos e não pernambucanos) ou a experimentação pós-tropicalista (ao menos na alma) de Feitiço.

O disco em parceria dos dois cantores é, no mínimo, curioso.

 

Eu Não Peço Desculpas / Caetano Veloso e Jorge Mautner
Nota 7
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Tudo (2013) o novo CD de Joyce!


Joyce: maravilhosa sempre
Todo disco da cantora Joyce desde o seu lançamento como interprete é bem vindo, assim como suas canções compostas solo ou em parceria com os grandes músicos brasileiros ou internacionais. Mesmo com a onda de cantoras pop ou algumas que surgem do nada dentro da MPB e desaparecem logo na primeira esquina, Joyce é o oposto disso tudo e continua firme fazendo discos cada vez mais autênticos, maravilhosos e audaciosos. Sucesso de primeira grandeza no Japão e esquecida por muitos aqui no Brasil, Joyce ressurge como quem nada quer no disco Tudo (2013 / Far Out / Biscoito Fino / 49,00). Um retorno muito bem vindo ao jazz brasileiro, a cantora se refere a sua música como sendo MCB (Música Criativa do Brasil) e consegue atrair ouvidos sensíveis por onde passa pelo conjunto da obra. Muitas vezes, Joyce encanta apenas pelo solo que faz entre sua voz, seu banquinho e seu violão. Sua voz é um conjunto variado íntimo que fornece um lembrete do alcance vocal e de sua habilidade instrumental, igualmente suave e sublime, nos trazendo um pouco do frescor, da habilidade, do carisma e da musicalidade vibrante que sua música nos transpassa. Há beleza em Tudo, jma beleza real que Joyce traz com franqueza e paixão para os que já se tornaram clássicos no disco.

Joyce Moreno lança Tudo, o primeiro CD de canções inéditas em dez anos . Como o nome já diz, Tudo remete à diversidade de gêneros musicais presentes no belo repertório, que tem desde samba até galope nordestino, jazz, choro, bossa nova. O álbum chega ao Brasil depois de ter sido escolhido pelo público da cantora (que exigiram a vinda do CD do Japão). O novo disco trás canções inéditas e que com certeza encantaram os que ainda não conhecem a obra e a musicalidade de Joyce. Das treze faixas, oito têm letra e música da cantora, mas o disco também tem canções com parceiros de longa data, como o poeta Paulo César Pinheiro (Quero Ouvir João e Dor de Amor e Água), Zé Renato (Pra Você Gostar de Mim) e duas novas parcerias, com Nelson Motta (Estado de Graça) e Teresa Cristina (Sem Poder Dançar).

Tudo dialoga com o uso de vozes, seja com um naipe de instrumentos, como em Claude ET Maurice e no galope Boiou, ambas com arranjos de Maurício Maestro ou até na emblemática Puro Ouro, com a participação do coro do coletivo Segunda Lapa, que tem como músicos os sensacionais João Cavalcanti, Pedrinho Miranda, Moyseis Marques e Alfredo Del Penho.  O samba marca presença também em Quero Ouvir João, que traça uma espécie de mapa dos sons atuais do Rio de Janeiro (que Joyce tanto ama), que mistura tanto o pancadão do funk quanto a levada do reggae. Em Dor de Amor É Água, um samba-blues, a participação de Zé Renato, com quem Joyce também divide a parceria em Pra Você Gostar de Mim, só faz reafirmar a existência de ambos dentro da MPB.

Vale à pena ouvir Tudo pela simplicidade com que o disco nos conduz a variantes de nossas vidas e pelo conjunto de ser uma obra puramente brasileira, de uma cantora brasileira, com um sotaque brasileiro, bem ao estilo de que tudo merece sua atenção. E Joyce Moreno merece.

 



Tudo / Joyce Moreno

Nota 10

Marcelo Teixeira

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

As ótimas melodias de Olivia Genesi em novo CD




Melodias (2013): vale a pena ouvir
Gosto de cantoras que batalham, que vão atrás do público, que cantam nas praças públicas, que cantam em pequenos espetáculos, que cantam com a alma, com o coração, com o brilho único que nos seduz e que nos levam a crer que a música brasileira é capaz de nos entreter e dizer com orgulho que temos a melhor música do mundo. Olivia Genesi lança seu oitavo disco e nos brinda com uma sofisticação ulterior que me deixa embasbacado a começar pela capa: um azul cintilante, um mar limpo, uma sensação de calmaria. Melodias de Sol em Pleno Azul tem cara de São Paulo, a cidade mais cinza do mundo e Olivia materializa mais uma vez a sua influência musical, trazendo um pouco de pop, de jazz, de bossa em um estilo próprio e audacioso, realista e inovador, sentimental e puro, cristalino e original. Neste delicioso disco, os músicos Bruno Balan, Fábio Dregs, Felipe Alves, Luca Batista e Luís Dutra, Eric de Oliveira e Zé Luiz Marmou fazem participações em músicas como Literatura, que tem uma pegada eletrizante de guitarra, Perto da Orla, uma lindeza profunda, que nos remete à eventuais dias de brisa e a romântica Me Deixa Levar.

Ao todo são treze canções e cada faixa tem um dizer especial da cantora, como em Tecnologia ou na esperta Nas Ruas da Cidade, cujo não dá para definir todo o álbum. São músicas que tem uma levada de reggae, de acústico, de tempero ritmado, mas nem por isso deixa de ser autêntico. Olivia é uma cantora que se renova a cada disco e isto está mais que comprovado em Melodias de Sol em Pleno Azul (2013 / Trattore / 24,99), que é o oitavo disco da paulistana. Vale a pena ouvir, se debruçar e repetir quantas vezes for necessário, pois o disco na verdade é um discão, desses que nos hipnotizam e nos encantam.

Olivia é uma cantora que sabe cantar e Melodias de Sol em Pleno Azul eleva seu nome ao patamar das grandes cantoras brasileiras. Assim como remete também a ser um discos do ano pela categoria Melhores Lançamentos, realizada no final do ano. Assim como os outros discos da cantora, Melodia tem um som característico de quero mais, desses que não paramos um minuto sequer de cantarolar e de dizer versos à pessoa amada. Assim é Olivia: uma cantora completa que nos enfeita com suas músicas.

 


Melodias de Sol em Pleno Azul / Olivia Genesi
Nota 10
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Volume 2 (1999) revela o melhor dos Titãs


Sintonia do grupo em alta
Eles não eram oito e sim nove e o nome não era só Titãs e sim Titãs do Iê Iê. A banda nada mais era do que um grupinho de amigos reunidos em torno de uma ideia que ainda não estava em prática e, embora tivessem atitudes, algumas músicas e figurinos eram bastante excêntricas.  Eles estouraram logo que surgiram e a música popular brasileira, mais especificamente o Rock Brasileiro, ganhava sua mais famosa tradução de esperteza, garantia de sucesso e de bons letristas. Os titãs vieram para ficar e marcaram na indústria fonográfica discos inesquecíveis, como Volume 2 , que hoje o Mais Cultura! faz questão de elogiar. O disco Volume 2 (1999 / Sony / 26,99) foi um marco na história da banda, com mais de seiscentos mil cópias vendidas e ganhou ares novos, com roupagens novas e facilitando e muito as músicas inéditas que contem no disco. Abrindo com Sonífera Ilha, a música virou um hino na voz de Paulo Miklos e aqui a nova roupagem ganhou trompete e trombone e ficou mais dançante que na primeira versão.  Outra que ganhou novos ares foi Lugar Comum, que agora ganhou brilho na voz de Branco Mello e a gaita de Flávio Guimarães brinca com a guitarra de Tony Bellto, conversando no intervalo da canção.

Escrever sobre os Titãs é uma coisa rara. Primeiro, sem dúvida, pelo fato de saber que já estamos velhos o suficiente para acompanhar uma banda por 30 anos. Mas digamos que eu não queira falar sobre isso agora. O motivo maior de desconforto tem a ver justamente com a banda em questão, ou ainda, com seus 30 anos de estrada. Ter sobrevivido tanto tempo num universo tão desfavorável ao envelhecimento como essa da música é um sinal de força ou de fraqueza? Estar em cena tanto tempo, muitas vezes sobrevivendo apenas de sucessos de dez ou mesmo de 20 anos atrás, faz sentido?

Por este mesmo motivo e talvez para ter a minha própria resposta, Volume 2 mostra que sim, que faz toda a diferença cantar músicas de outras estações. Fazendo parênteses (eu amo isso!), meu primeiro contato com os integrantes do grupo foi lá pelo início do ano 2000, nos Jardins, na Alameda Lorena (lugar que, por ventura, encontrei outros artistas, como a escritora Patrícia Mello, a cantora Miúcha, a atriz Tônia Carreiro, a cantora Maffalda Minozzi) e com os Titãs não poderia ser diferente.

Volume 2 carrega no brilho e na sofisticação todos os elementos próprios para que o disco seja um dos melhores da banda e da discografia nacional, porque traz a sensação de liberdade de todos ali envolvidos e, de quebra, traz também a jovialidade característica de cada um. Temos aqui ainda o Nando Reis e o Marcelo Frommer, mas não temos a soberania de Arnaldo Antunes fisicamente, embora suas canções estejam no disco.

O disco foi muito bem aceito pela crítica e público e a banda não deixou ninguém na mão. Foi um disco de relembranças de um tempo em que os Titãs eram reconhecidos como a melhor banda dos últimos tempos da última semana e comprovadamente, foi o melhor lançamento de coletâneas de todos os tempos, incluindo aqui as inéditas. Vale a pena ouvir um clássico como Volume 2 pela capacidade incrível que os músicos puderam demonstrar ao longo de suas carreiras e para sentirmos a sensação de que o melhor está aqui, reunido em um único disco, capaz de nos levantar e dizer que a banda é única.

 

Volume 2 / Titãs

Nota 10

Marcelo Teixeira

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Todo Domingos (2010) traz Flávia Bittencourt homenageando Dominguinhos


Flávia: bela voz nordestina
Flávia Bittencourt é uma de nossas melhores cantoras surgidas na nova geração de belas vozes e com excelente repertório e hoje o Mais Cultura! traz toda a magia e sedução do CD Todo Domingos (2010 / Independente / 23,99 ) em que faz uma justa homenagem à Dominguinhos, morto recentemente. O disco tem participações especiais de nomes importantes da nossa música, como Gilberto Gil e Djavan, além do próprio homenageado. No repertório, alguns dos maiores sucessos do músico, como Sete Meninas, Tenho Sede, Abri a Porta, Lamento Sertanejo e o clássico dos clássicos, Eu Só Quero um Xodó. Entre as faixas, uma composição inédita completa o setlist do disco, Seu Domingos, uma homenagem querida e simpática à Dominguinhos. Flávia merece destaque na cena musical por ser uma das novas e promissoras cantoras e compositoras das mais elogiadas pelos críticos e por artistas e escritores do porte de Luiz Melodia, Zeca Baleiro, Ferreira Gullar e Dominguinhos, que antes de falecer, disse que ela seria o futuro musical do Brasil. As raízes culturais da maranhense estão presentes na escolha de seu rico repertório, que sempre traz manifestações da cultura popular de seu estado natal, dialogando naturalmente com composições próprias e de outros compositores. Vale a pena ouvir os clássicos de um grande músico na voz saborosa de uma grande cantora.

 

Todo Domingos / Flávia Bittencourt

Nota 10

Marcelo Teixeira