segunda-feira, 22 de outubro de 2012

A macumba de Rita Ribeiro


A boa música de Rita Ribeiro
A música de Rita Ribeiro incomoda, pois reafirma a posição de manter viva a liberdade de culto e de expressão musical, trazendo uma novidade bem mais agradável e valiosa. Ao romper o mês de São Jorge, ouvi um disco bastante interessante! Acredito que a maioria das pessoas não ouvem um repertório, um CD direito. Talvez as pessoas fiquem restritas pela música de trabalho, mas, com toda a certeza, o projeto fonográfico de Rita Ribeiro em Tecnomacumba lhe convida a ouvir o resto. A maranhense que antes já havia gravado preciosidades como Pérola aos povos de 1999, em que lança a música de Zeca Baleiro Muzak, trouxe um arcabouço rico e bastante condizente com o nome: tecnomacumba. Ela acaba de criar, atrevidamente, um gênero, talvez um estilo. Sabendo que muitos já macumbaram, entre eles, Caetano, Gil, Bethânia e tantos outros, Rita relê algumas raridades e recria novas roupagens, fora as novidades que são um show a parte. A concepção de criação remete-se ao jeito mais faceiro e mais gostoso, que é o lado mais dançante.

Impossível pensar diferente, já que a palavra macumba significa festa e que algumas músicas são chamamentos litúrgicos da umbanda e do candomblé. Ao pensar em festa, num ritmo mais tocante e que se aproxima dos toques de percussão, as músicas ganham uma roupagem mais moderna, arrojada e inesperada: o tecno. Ao começar a ouvir, a impressão é que se pôr alto, aquele vizinho acostumado em colocar bem alto louvores cristãos de pura apelação de cantores como Regis Danese, grupos como Toque no Altar e da linda (mas insuportável) Aline Barros irá se assustar já na primeira música. Hoje, parece que se você colocar bem alto as músicas de Rita Ribeiro você pode ser condenado a uma censura de seu vizinho, achando-o incomodado.

E Todavia é! A música de Rita Ribeiro incomoda, pois reafirma a posição de manter viva a liberdade de culto e de expressão musical, trazendo uma novidade bem mais agradável e valiosa. No repertório, ainda temos uma música que era desconhecida e que ao inovar, carimba um formato único e imprescindível. Domingo 23 é de Jorge Ben Jor, e faz parte do disco Ben de 1972 que inclui, também, o grande sucesso Taj Mahal. Sendo assim, o que era velho, foi possível se transformar em novo, uma verdadeira alquimia que trouxe outras músicas para uma batida diferente, entre elas Iansã de Caetano Veloso e Gilberto Gil, Oração ao Tempo de Caetano Veloso, Coisa da Antiga de Wilson Moreira e Ney Lopes, Rainha do Mar de Dorival Caymmi, Tambor de Crioula de Junior e Oberdan Oliveira.

Além de criações próprias, como Saudação (colagens de pontos e cantos para orixás e guias espirituais) como abertura do CD, Jurema e Canto de Oxalá. E, também, temos outras novidades como a música lindíssima E d’Oxum de Gerônimo e Vevé Calazans, já interpretada por Davi Moraes e Maria Bethânia. Sem dúvida, uma surpresa e, bem se bobear, capaz de virar uma verdadeiro clássico… ah, não, já é!

 

Technomacumba / Rita Ribeiro

Nota 10

Marcelo Teixeira

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

O fim de Zezé di Camargo?


Seria o fim do sertanejo?
Para um cantor, seja lá seu estilo ou sua qualidade musical, perder a voz ou chegar ao ostracismo de tentar cantar e não conseguir é um martírio que poucos querem passar um dia na vida. Chegar a berrar ao microfone, segurar com voz embargada e não conseguir atingir notas que um dia alcançou, é fraquejar diante sua própria profissão. O ofício de cantar de verdade é para poucos e não para amadores, como vem acontecendo recentemente no Brasil e isso está virando uma febre incontrolável, que está sendo uma benção divina alguns cantores perderem suas vozes ou estar dando adeus à profissão. E temos três casos de cantores que estão lutando para manterem vivas suas vozes horrendas e distorcidas e manterem acesas o tal brilho apagado por anos a fio musicando sabe-se lá o que: Marina Lima, que já nem consegue falar, grande compositora, péssima cantora. Leonardo, mais conhecido como o irmão de Leandro, fazendo deles os irmãos de sucesso na música caipira brasileira e Zezé de Camargo, mais conhecido como o pai da Wanessa Camargo e basta. Três vozes que não farão diferença caso se calem.

Zezé di Camargo me chama a atenção neste artigo de hoje, porque o vi cantar no programa Altas Horas, de Serginho Groissman e sua voz estava fadada ao silêncio e a caricatura de um homem pequeno fazendo tamanho esforço para exprimir sua voz. Como eu disse, cantar é um ofício para poucos e o tempo vai dando sinais de que nossa voz é um desses ofícios naturais de graves e agudos que podemos perder gradativamente ou simplesmente mantê-la intacta com exercícios de fonoaudiologia. Perdemos a elasticidade da pele, morrem-se células, aparecem rugas, cabelos brancos tornam-se mais visíveis, mas tudo isso não é o que acontece com um dos maiores ícones da música sertaneja. Zezé está ficando mudo.

E o que isso significa? Que teremos paz em nossos ouvidos, que a música popular agradecerá muito por este feito e seremos agraciados por uma perda reparável. Zezé de Camargo e o irmão metido a chique brega, Luciano, não gravam um verdadeiro disco de sucessos há anos e este processo não se torna natural para eles, que venceram barreiras e obstáculos cantando É o Amor e No Dia em Que Saí de Casa. Pelas estatísticas que eles mantiveram até hoje, a dupla mereceria maior destaque musical, tendo ao seu lado os melhores profissionais da mídia e tendo um sucesso atrás do outro. Mas com novos irmãos na parada, caso do sensacional Vitor e Léo, e de duplas diversas que explodiram no cenário musical, o espaço para Zezé de Camargo e Luciano diminuiu drasticamente. Não é de se estranhar que Leonardo recentemente disse que vai parar de cantar e no dia em que isso acontecer, o Mais Cultura! irá fazer agradecer durante uma semana.

A conversa de que Zezé estaria perdendo a voz se estende desde 2008 e até alguns amigos, como o cantor Bruno, da dupla com Marrone, já confirmou isso. Lembro que houve muita comoção na época, mas vendo hoje a gravidade do problema, posso não afirmar, mas em poucos anos, Zezé suspende a chuteira e a música, para alguns, estará melhor, para outros, estará órfã.

 

Marcelo Teixeira

O fim de Zezé di Camargo

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

A injustiça contra Oswaldo Montenegro




O cantor Oswaldo Montenegro
Sempre* achei uma enorme injustiça o que fazem com Oswaldo Montenegro. Confundiram a inteligência e genialidade do compositor brasiliense, radicado há três décadas no Rio de Janeiro, com chatice. Oswaldo é um dos cantores e compositores mais ricos musicalmente e é  tem um papo ótimo, além de ser um cara super elegante e educadíssimo. Oswaldo gravou um belo CD em 2010, o excelente Canções de Amor e passei a prestar mais atenção nele depois das dicas de meu amigo de longa data, Alexandre Casseano. A carreira macróbia pode até ter o obrigado a revisitar velhos sucessos, cujo Montenegro o fez, mas com lucidez e beleza ímpares.

Em Canções de Amor, as canções aparecem cruas e nuas na essência, tocadas apenas ao violão e algumas poucas flautas de Madalena Salles. E, talvez, esse seja o único ponto passível de crítica, o fato de ter tão poucas flautas de Madá. O disco reúne 12 faixas, sendo duas delas nunca gravadas por Oswaldo e as outras regravações de canções lançadas ao longo de três décadas de carreira.

Além de Oswaldo e Madá, o álbum traz uma pequena participação de Zélia Duncan dividindo os vocais com o menestrel em uma das mais belas músicas já lançadas por Oswaldo Montenegro: Sempre Não é Todo Dia, do musical Aldeia dos Ventos, de 1985. A bela composição de Oswaldo e Mongol dispensa a colaboração que, no final das contas, acabou tirando a suavidade própria da música.

Para o repertório de Canções de Amor, Oswaldo Montenegro escolheu regravar músicas que não são tão populares para aqueles que não acompanham sua carreira, como Se Puder, Sem Medo, belíssima canção que parece conter uma despedida e a esperança de um retorno. As palavras das músicas nesse disco parecem ganhar uma força maior do que em outras gravações justamente pelo formato como são apresentadas, de modo tão intimista. Além disso, Oswaldo interpreta as músicas em tons mais baixos, criando todo um clima quase confessional.

Quem conhece a delicadeza das poesias de Oswaldo Montenegro sabe o quanto são belas quando unidas às harmonias de seu violão e da flauta de Madalena Salles. Por isso, esse é um ótimo trabalho de releituras suaves e emocionadas do cancioneiro e do artista.

 

Canções de Amor / Oswaldo Montenegro

Nota 10

Marcelo Teixeira

 

*quando ouço as músicas A Lista e Bandolins, penso no meu amigo Alexandre Casseano e é para ele quem dedico o artigo de hoje.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Furação Elis


Furacão de emoção
Por inúmeras* vezes foi difícil acreditar que naquela manhã de janeiro de 1982 o Brasil tenha amanhecido sem a sua maior interprete, estrela de uma luz incessante e de uma quase unanimidade, no auge de uma carreira batalhada com unhas e dentes; Elis Regina, além de ser a maior cantora que o Brasil já havia produzido, era também uma guerrilheira de si mesma. Uma doce guerrilheira. Com a extinção de um programa de grande sucesso em 1967, Elis deu asas à sua carreira. Apresentou-se na América Latina e na Europa, lapidou ainda mais (se é que isso era possível) a sua forma de cantar e interpretar. Ganhou em suavidade, não perdeu a força e ainda presenteou gente como Chico Buarque de Holanda, Milton Nascimento, Gonzaguinha, Ivan Lins (que sonhava com algumas de suas criações já com a voz da Estrela), Belchior, João Bosco, entre outros. Através de suas interpretações que eternizou cada obra e alçou de vez no cenário nacional, cada um dos citados compositores – por sua vez, todos se encontravam no auge da criatividade. Mais madura Elis viajou o Brasil e o mundo cantando e encantando. Da imponência à simplicidade, traçava-se um só caminho, uma linha uníssona entre a genialidade e a mulher forte, apelidada pela imprensa e amigos de Furacão e Pimentinha, Elis Regina começava a escrever perpetuamente, seu nome na história da música mundial.

A grande voz do Brasil trazia uma bagagem de influências de outras grandes cantoras, também brasileiras, mas construiu um legado único e incomparável, sagrado e intransponível. Espetáculos fantásticos como Falso Brilhante e O Trem Azul, ficaram gravados na memória de quem os viveu e os assistiu. Seu namoro e quase casamento com o Clube da Esquina foi um marco histórico na música brasileira. Milton Nascimento, que foi um dos maiores amigos e admiradores da cantora, a conheceu no Rio, no Beco das Garrafas. Neste festival, Milton eternizaria os seus primeiros passos da sua Travessia pelo universo da Mãe Música até se transformar no word music man da atualidade. Elis, ao gravar Canção do Sal de Milton e Ronaldo Bastos com sucesso incontestável, abriu espaço para uma parceria que durou uma década esplendida, num grande ápice de uma explosão criativa jamais visto na MPB.

Conviveu com as gravações do Clube da Esquina, de Milton e Lô Borges (guri prodigioso de 18 anos, na época). Elis dividiu o palco com Milton em várias capitais e em várias oportunidades, deixou-nos de presente a sua voz, numa de suas maiores interpretações, ao lado do próprio Bituca. Cantou como se fosse pela última vez O que foi feito de Vera do álbum Clube da Esquina n°2, fazendo tremer as estruturas dos estúdios da EMI. Na primeira apresentação no festival de Montreux na Suíça, onde há até hoje uma noite só para artistas brasileiros (atualmente, com o pior que se produz aqui), fez da introdução de seu show uma sequência maravilhosa com Ponta de Areia, Fé cega, faca amolada e Maria Maria, que na voz da baixinha, deslumbrou o Brasil.

Gravou Beto Guedes, Lô Borges, Nelson Ângelo, Luiz Guedes e Thomas Roth e lançou para o Brasil a célebre frase: Se Deus quisesse nos falar, nos falaria pela voz de Milton Nascimento. Elis gravou o Clube da Esquina com carinho, amizade e admiração, marcando para sempre a vida daqueles jovens mineiros de talento e criatividade fenomenais.

Elis fez o Brasil cantar por quase vinte anos. Sua carreira esbarrou algumas vezes com o triste desfecho político do país. Foi vigiada de perto pela Ditadura Militar e não raro, eram vistos carros estranhos rondando as imediações de sua residência. Em entrevistas, as quais ainda tenho reproduções de muitas bem guardadas, declarava sua insatisfação com o sistema e dizia-se sem muita esperança no futuro, tanto político, quanto cultural de nossa gente.

Elis Regina de Carvalho Costa, nascida em 17 de março de 1945, reescreveu a história da música brasileira e enalteceu a nossa cultura pelo planeta afora. Naquela triste manhã chuvosa de 19 de janeiro de 1982, eu tinha menos de um ano e não sabia o que acontecia. Elis morreu no seu apartamento em São Paulo, por intoxicação. Anos depois, quando eu tinha meus 10 anos, quando ouvi O Bêbado e a Equilibrista pela primeira vez e um arrepio me invadiu o corpo, pois nunca tinha ouvido uma voz tão espetacular e sensacional. Minha mãe me olhou com olhos grandes quando a indaguei quem cantava aquela maravilhosa música. Eis que ela me responde Elis Regina e meu amor por ela começava ali.

Antes que os mais conservadores venham gritar pelos motivos da morte de Elis, me ponho à frente, alegando que o sistema sempre destruiu os seus ídolos prematuramente, talvez sem esperar que ídolos mortos prematuramente, costumam ser elevados ao máximo de seu status e cultivados com devoção. Janis, Hendrix, Morrinson, todos destruídos pela Máquina do Estado, mas todos estão eternizados.

Como dizia, o Brasil continua órfão de uma cultura popular mais sólida, mais abrangente e mais BRASILEIRA por excelência, deixando o biscoito fino para grupos alternativos e, às vezes, nem isso. Elis Regina é exemplo de que, levar a cultura e a motivação para viver a vários pólos de nossa sociedade, não é uma tarefa tão complicada e assim, como ela mesma dizia: Precisávamos aqui no Brasil de um pouco mais de boa vontade. Elis era magistral. A grande cantora, a quem os fãs não se esquecem e carpem até hoje sua perda, disse em seu disco derradeiro: AGORA EU SOU UMA ESTRELA!

Alguém duvida?

 

A imortal Elis

Marcelo Teixeira

 
*artigo escrito em homenagem ao meu grande amigo carioca Jaime Santana, fã número 1 de Elis Regina.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

A revolução musical de Clube da Esquina


O terceiro álbum: ótimo
O Clube da Esquina foi uma verdadeira revolução na música popular brasileira. Era década de 60, a ditadura militar e a repressão por estas terras contrastavam com os movimentos hippie e beat que surgiam ou alcançavam o auge nos EUA da época. A Bossa Nova já não era tão novidade assim, a Tropicália acabava de dar as caras e um tal de iê-iê-iê começava a estourar com um certo Roberto Carlos e sua trupe de mulheres com saias curtas e homens com cabelos a la Elvis Presley. Nessa época, nesse meio, um jovem de Três Pontas foi para a capital mineira morar na Avenida Amazonas. Milton Nascimento já fazia parte de uma banda, a “W’s Boys” onde fazia parceria com Wagner Tiso. Em Belo Horizonte, Milton conheceu os irmãos Borges. Doze ao todo. O menor deles, o Salomão, ou Lô, como chamava os amigos, entraria para a história assim como aquela esquina da Rua Paraisópolis com a Rua Divinópolis, lá no bairro Santa Tereza.

 A formação principal do Clube da Esquina (que nunca chegou a ser um clube, nem mesmo foi considerado um movimento na época), foi composta por nomes como Wagner Tiso, Fernando Brant, Nivaldo Ornelas, Paulo Braga, Toninho Horta, Márcio Borges e, claro, o Milton. Talvez o maior nome do Clube, Milton Nascimento tornou-se o líder absoluto do movimento, sendo considerado até hoje um ícone da agitação mineira. Um tempo depois se juntariam ao Clube, Flávio Venturini, Beto Guedes, Celso Adolfo e o Lô.

O primeiro disco do grupo denominado Clube da Esquina foi lançado em 1972 e incluiu sucessos como O Trem Azul, Nada Será Como Antes e Tudo o que Você Poderia Ser. Seis anos depois, em 1978, Milton e sua turma lançariam o Clube da Esquina 2. Logo, cada membro do Clube estaria gravando suas próprias músicas, fazendo seu próprio trabalho. Mas a influência do grupo, que abdicava do amor para falar de política e outros temas sociais em suas letras, permaneceu e tornou o Clube da Esquina um dos mais importantes movimentos musicais brasileiros depois da Tropicália e eu ainda acho que foi, musicalmente, muito mais importante que a Tropicália).

No ano de 1971, a rapaziada do Clube Mineiro já havia composto um número de canções que pretendiam lançar num álbum duplo, coisa rara nestes tempos.  A Tropicália já havia sido devorada pelos predadores do período jurássico ditatorial, mas o talento inquestionável dos letristas deste projeto épico trataria de dizimar quaisquer que fossem esses contextos censurais. Com letras de teor político existencial e profundeza intrínsecos (observa-se uma forte influência sartreana nas letras de Márcio Borges e Fernando Brant) e harmonias divinamente elaboradas, o álbum duplo Clube da Esquina seria gravado no Rio de Janeiro em estúdio preparado exclusivamente para os cavaleiros da revolução musical daquela década de incertezas. Mar Azul, praia próxima à Piratininga, no belíssimo litoral niteroiense, seria o cenário da casa em que se deu vida e sonoridade com sensíveis requintes de sofisticação a esta obra-prima da música universal.

 

Clube da Esquina / Milton Nascimento e Lô Borges

Nota 10

Marcelo Teixeira

 

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Os Ilustres da MPB


Os ilustres da MPB
Se foi uma era de ouro ou não, o leitor ilustre responderá, talvez com mais propriedade do que o blogueiro que humildemente interage por estas linhas. Mas ninguém há de negar que a história da Música Popular Contemporânea está registrada nesta foto histórica em duas gerações de notáveis interpretes, compositores e instrumentistas. Claro, apenas aquele sábio entendedor da boa música, a melhor música do mundo, saberá que o artigo de hoje é uma das mais belas homenagens aos retratados na foto acima. O ano: 1965. A foto foi tirada na casa de Vinícius de Moraes, há 47 anos e não há muitos detalhes sobre o que ocorria neste evento; provavelmente essa galerinha estelar estaria reunida mesmo para fins etílicos. Este registro rodou pela internet em Power Point e acabou nos arquivos do blog; ontem, revirando algumas pastas antigas, achei esta preciosidade e resolvi publicar. Não sei quem fotografou este momento, deixo para o visitante pesquisar e aguçar sua curiosidade; porém, listo aqui as pessoas que ali estão:

 

Lenita Procynska

Edu Lobo

Tom Jobim

Torquato Neto

Caetano Veloso

José Carlos Capinan

Sidney Miller

Elmir Deodato

Olivia Hime

Helena Gastal

Paulinho da Viola

Luis Eça

João Araujo

Dori Caymmi

Chico Buarque

Francis Hime

Nelson Mota

Vinicius de Morais

Dircinha Batista

Luiz Bonfá

Tuca

Braguinha

Jandira Negrão de Lima

 

Depois veio a ditadura e grande parte destes fantásticos artistas criaram seus maiores clássicos. Vieram a abertura democrática, as eleições diretas, o rock nacional, o Plano Cruzado, O fusca do Topete, a era Collor, o PT dos grandes lameiros político-sociais e institucionais... Alguns destes gênios morreram, outros se calaram, muitos se venderam ao Global Sistem of the living dead, A Grande Máquina de Mortos Vivos. Vieram a lambada, o axé, o pagode, o funk, o Bolsa Dendê e o resto ... Bem, o resto você já sabe.

 

Os Ilustres

Marcelo Teixeira

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Aonde está a ousadia de Thiaguinho?


 

Existe hoje um grande artefato em volta do pagodeiro Thiaguinho, que recentemente se desligou do grupo de pagode Exaltasamba, desfazendo um dos mais importantes grupos do movimento desde o início da era pogodista e o último dos moicanos sobreviventes da chacina musical que persistiu em durar, por mais de vinte anos de estrada. Se bem que na última arquitetura do grupo, as músicas e até mesmo o carisma dos pagodeiros estavam em alta e eu mesmo cantarolava algumas de suas canções, mas esses entusiasmos eram motivados por Péricles e o novato Thiaguinho, que viria abrilhantar o grupo. Evidentemente que a visão de Thiguinho seria futuramente abandonar o barco e seguir em carreira solo, como fizeram inúmeros cantores da área (não só de pagode, como do rock, do axé e até de grupos importantes, como a Paula Lima, que saiu do maravilhoso Funk Como Le Gusta e hoje quase não se ouve falar sobre a banda).

Mas me chama a atenção alguns aspectos da volta por cima de Thiaguinho (sim, volta por cima porque muitos acharam que ele não iria se dar bem na carreira solo) e em sua musicalidade também. Que Thiago é uma revelação musical, disso não se pode discordar, mas o que quero ressaltar neste artigo não é a brilhante carreira que ele fizera quando estava preso e algemado ao grupo, mas sim agora, com o disco Ousadia & Alegria, lançado agora em 2012.

O título do disco não poderia ser a melhor resposta para aqueles que lhe torceram o nariz, torceram contra e ainda estão falando mal do artista, mas não vejo por este lado esta tal ousadia que o cantor insiste em mostrar. Aliás, não consigo enxergar aonde está a ousadia de Thiaguinho ao lançar este disco e nas linhas abaixo eu tentarei explicar que pode ter muita alegria, puro entusiasmo, muita adrenalina, mas pouca ou nada ousadia. Alegria, sim. Ousadia, não!

 

O nosso lema é ousadia e alegria

 A nossa cara é pagode todo dia

 Cheio de estilo na pressão eu vou com tudo

 Só espalhando ousadia pelo mundo

Lê lêlê lêlê lêlê

Ousadia para vencer

 Lê lêlê lêlê lêlê

 Alegria para viver

Trecho de Ousadia e Alegria, de Thiaguinho

 

A primeira ousadia (e talvez a única retratada no disco) de Thiaguinho, tenha sido a sua saída do grupo Exaltasamba. Mais nada. Nenhuma outra ousadia mais ousada (num trocadilho perfeito para este momento), foi mais eloquente e mais soberano para um artista que ainda pode crescer com seu talento e sua espontaneidade. Ousadia esta que pode também lhe custar muito caro, pois o primeiro álbum é um verdadeiro sinônimo de festa pelas vendagens e pela receptividade do publico, mas isso poderá não acontecer com o próximo disco.

Talvez a segunda ousadia de Thiaguinho seja mostrar logo de cara um disco totalmente ao vivo, geralmente destinado à grandes cantores que depois de um certo tempo de estrada lançam discos com plateias gigantes e com aberturas novas. Thiago já ousou ao lançar no mercado fonográfico um disco ao vivo e com músicas inéditas, feito raro a um artista que inicia sua carreira solo.

Mas o disco em si é um grude! Algumas faixas deveriam ser extintas e outras merecem até mesmo um pequeno troféu pela letra e pelo passaporte do artista. Thiaguinho tenta se esforçar para cantar bem em algumas faixas, mas o que acontece é um festival de horror ao ver seu lábio superior fazendo malabarismos igualmente quando Caetano Veloso canta. Chamar o jogador Neymar para cantar talvez seja a pior parte do disco.

Thiaguinho foi esperto ao lançar seu disco solo. Para obter um ótimo resultado e altas vendagens e não ver seu publico indo pousar noutro lugar, a estratégia foi abusar (ou ousar). Chamou os maiores artistas, como Gilberto Gil e Ivete Sangalo, convidou Luísa Possi, cantora que consegue exprimir um certo carisma entre os adolescentes e amantes da nova MPB, convidou Alexandre Pires, que tem um certo nome e respeito no mercado internacional e se veste ora como um moleque travesso, ora como um novo expoente da música negra, ora como um emergente do capitalismo que conseguiu ingressar, ora como um suburbano, de poucas palavras e muitos gestos.

 
O disco ainda conta com uma gigantesca trupe de músicos e com um coral de dar inveja a qualquer concerto: são eles, por muitas vezes, os responsáveis pelo apoio que Thiaguinho precisa e acho que será muito improvável que um dia eles venham a se desvencilhar. Tudo isso prova que Thiaguinho ainda não está preparado para seguir uma carreira solo, tendo de enfrentar as dificuldades que todo grande artista sofre ao se desligar de um grupo de puro sucesso. Thiago não sobreviveria acaso lançasse um disco de estúdio, sem convidados extraordinários e sem orquestra e jogador de futebol. Thiago não teria suporte emocional para entrar em um palco sozinho. E tudo foi pensado para que ele se sentisse como um integrante de qualquer grupo de pagode às suas costas e ele ainda fosse o líder.

Observando o disco atentamente e assistindo ao DVD do mesmo, pude constatar que Thiaguinho ainda precisa calejar muito para conseguir almejar o verdadeiro estrelato e conseguir uma nota digna de seu próprio sucesso. Ainda o sinto como um integrante do mesmo grupo de pagode que o adotou e não o sinto preparado, pronto, ágil, esperto, capaz de seguir carreira solo sem um corpo de coral, sem um convidado especial, sem uma grande estrela para estar ao seu lado. Thiaguinho ainda precisa ousar mais, porque alegria ele tem de sobra.

Por enquanto, a ousadia de Thiaguinho não vingou. A alegria, sim.

 

Faixas

1- Leite Condensado

2- Buquê De Flores

3- Ousadia & Alegria Part. Esp.: Neymar

4- Lero Lero - Part. Espec. Alexandre Pires

5- Desencana

6 - Puxando

7- Sou O Cara Pra Você

8- Até Ver Você (Hahaha)

9- Muleke Conquista

10- O Poder Do Pretinho - Part Espec. Ivete Sangalo

11- Antes De Dizer Adeus

12 - Simples Desejo - Part Espec. Gilberto Gil

13- Ainda Bem

14- Vai, Novinha

15- Deixa Eu Te Fazer Feliz

16- Eu Quero É Ser Feliz

17- Tomara

18- Motel

19- Robin Hood Da Paixão

20- Eternamente Feliz

21- Deixa Pra Mim

 

Ousadia & Alegria / Thiaguinho

Nota 5

Marcelo Teixeira

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

A poesia de Ceumar em Achou!, de 2006


Obra-prima de Ceumar
O terceiro CD de Ceumar é assinado em dupla com o compositor, violonista e arranjador Dante Ozzetti, irmão da maravilhosa cantora Ná Ozzetti. A cantora apresenta o repertório recente de Dante em parcerias com Zeca Baleiro, Zélia Duncan, Luiz Tatit, Alzira Espíndola, Chico César e Kleber Albuquerque. Achou!, lançado pela MCD, traz doze delícias, em sua maioria inédita. Tem mais país muito além da TV, diz um trecho do verso de Pra lá e é uma chave pra se perceber o sucesso de uma cantora mineira radicada em São Paulo há mais de quatro anos. Com sua voz particular e arranjos acústicos de primeira, Ceumar conquistou uma grande legião de fãs quase que apenas no boca a boca. Seus discos são sempre bem comentados na imprensa escrita, mas o repertório da cantora não costuma frequentar rádios e nem programas de TV. Nos palcos da vida, com parcerias interessantes, ela foi aos poucos formando seu público, fiel e apaixonado.

Dante Ozzetti tem uma longa estrada, chegando a ganhar o Prêmio Visa - Edição Compositores em 2000, o que lhe rendeu um único CD solo no ano seguinte. Seu nome é normalmente associado a da irmã Ná Ozzetti, para quem costuma fazer arranjos e produzir seus discos em uma parceria de ótimos resultados. O encontro com Ceumar aconteceu em 2005, quando Dante convidou a cantora para uma participação em seu show. Daí seguiram juntos para o Festival da Cultura defendendo a elogiada Achou!, faixa título desse CD. A química da dupla empurrou os dois para esse trabalho, gravado em apenas duas semanas de estúdio para manter o clima de ao vivo e não perder a emoção.

Oito das doze músicas foram compostas entre janeiro e fevereiro de 2006, mostrando a produção mais recente de Dante. Apenas Achou!, A tardinha, Visões e Parte B já estavam prontas antes. As composições de Dante têm uma sofisticação simples, que casa perfeitamente com o trabalho de Ceumar. Construído com mãos de escultor, os arranjos acústicos valorizam belas melodias e letras inteligentes. A grande maioria das músicas foi escrita com Luiz Tatit. Mas Dante também traz parcerias com Zeca Baleiro (Partidão), Zélia Duncan (Parei querer), Alzira Espíndola (Parte B), Chico César (Saia azul) e Kleber Albuquerque (Lenha na quentura). Destaques para as belas Alguém Total, Alto Mar, A Tardinha e a quase biográfica Saia Azul, cujo Ceumar recria com perfeição sua saída de Minas sem destino final. Música forte, mas de uma lindeza profundamente bela.

 

Quando eu vim de Minas

Comprei uma saia azul

Azul-Diamantina tipo furta-cor

Dessas a outra e outra igual

Dessas que combinam com blusa de flor

 

Beijei meu pai

Dei benção a mãe

Olhei pra trás, vi

Minas dando adeus

 

Trecho de Saia Azul, de Dante Ozzetti e Chico César

 

 

Paralelo ao lançamento de Achou! a gravadora MCD repõe nas lojas os dois primeiros trabalhos de Ceumar, os essenciais Dindinha (2000) e Sempreviva! (2002). Eu particularmente sou apaixonado por Ceumar e ela sempre terá seu espaço aqui no Mais Cultura!. Recentemente, a maravilhosa cantora Márcia Tauil, que está na estrada com o sensacional Elas Cantam Menescal, foi levar seu abraço à amiga e me veio uma sugestão: por que as duas ótimas cantoras não abraçam a causa e fazem um disco juntas? Assim como Márcia, que é mineira de Guaxupé, Ceumar é mineira de Itanhandu. Já disse isso à Márcia e a proposta está lançada, pois seria uma ótima parceria de vozes, violões, musicalidade e perfeita harmonia, ressaltando a elegância de ambas as cantoras.

Há muita teatralidade na música de Ceumar e isso é tão gostoso de ouvir, que as faixas entram em nossos poros e tentam se esconder em nossa mente. Ao ouvir o CD de Ceumar e Dante Ozzetti é impossível não achar que se deparou com o melhor disco dos últimos tempos da nossa contemporânea MPB que vive cheia de grandes nomes e pouca criatividade. Num disco simples e de um colorido ímpar que podemos apreciar logo pela capa intitulado simplesmente Achou! é de um lirismo e de uma pureza que evoca os cantinhos mais esquecidos de nosso belo país cheio de uma sonoridade que um dia Mário de Andrade quis tornar pública.

Achou! respira novidade e exala o talento dos artistas. A prova de que a arte não está nas grandes mídias é claramente sentida nas doze faixas do álbum. Inteligência e talento em um grande disco que, se não figura na lista dos mais vendidos, com certeza vai conquistando novos admiradores para a dupla. Quem tem ouvidos abertos para o novo, achou um oásis.

 

Faixas

1 – Prá Lá

2 – Partidão

3 – Achou!

4 – Alguém Total

5 – Alto Mar

6 – Parei Querer

7 – Parte B

8 – Saia Azul

9 – Visões

10 – A Tardinha

11 – Praga

12 – Lenha na Quentura

 

Achou! / Ceumar e Dante Ozzetti

Nota 10

Marcelo Teixeira

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Essa Mulher - o grande disco de Elis, de 1979



Essa Mulher: o melhor de Elis está aqui

Em 1979, Elis Regina entraria para a história da música popular brasileira com mais um disco arrebatador: Essa Mulher. Com direito a uma pintura a óleo da cantora na contracapa e com flores espalhadas pelo encarte do disco, Elis apresentou uma seleção de dez músicas ditas das melhores de sua carreira, com muita técnica vocal, postura, brilho e sofisticação. Claro que o álbum viria a se tornar um marco na carreira da brilhante cantora e hoje esse mesmo álbum está fadado a ser classificado como Best Sellers em muitas estantes por onde passo. Recentemente, tenho ouvido muito este disco, graças às dicas e palpitações e citações de meu amigo carioca, Jaime Santana, que é apaixonado pela diva e, como ele frisa, a melhor cantora do Mundo.

De João Nogueira a João Bosco, passando por Cartola e Sérgio Natureza, Elis soube pincelar as melhores músicas dos melhores compositores da época. Mas o disco é inteiramente feminino, a começar pelo título, Essa Mulher, pontada, principalmente, por aquele brilho de sofrimento que as mulheres carregavam nos anos 1970 e hoje em dia algumas ainda carregam. Um misto de feminilidade com politicagem, Essa Mulher nos envolve pela desenvoltura da escolha de um repertorio fantástico e esmagatório com relação à obra da artista e até mesmo sobre seu disco anterior, Transversal do Tempo, em que a política e a carga pesada de Elis, as revoltas, o governo, o ódio e o rancor afloravam a cada canção. E talvez seja esta a fascinante magia que Elis nos deixa de lição: a de não ser a mesma sempre. Transversal do Tempo é um disco ao vivo, político, pesado, grandioso. Essa Mulher é um disco feminino e com uma pincelada política (O Bêbado e a Equilibrista).

Com participação especialíssima de Cauby Peixoto na belíssima música Bolero de Satã, temos dois grandes ícones da música em um disco repleto de emoção. A curiosidade talvez ficasse por conta de um disco ser feminino, contar apenas com a participação de duas compositoras, Ana Terra, que deu o título ao disco e Sueli Costa, que nos apresenta Altos e Baixos em uma interpretação perfeita e nítida.

Do engraçado Cai dentro, a política O Bêbado e a Equilibrista, da feminina Essa Mulher, da dor de cotovelo de Cartola (e seu grande clássico) Basta de Clamares Inocência, da sensualíssima Beguine Dodói, da malandragem de Eu Hein Rosa, do sentimental Altos e Baixos, da explosiva Bolero de Satã, da volta por cima da mulher abatida e humilhada em Pé Sem Cabeça e fechando com a emocionante As Aparências Enganam, Elis nos transporta para o melhor de seu repertório, com a certeza total e absoluta de saber que é a maior cantora do Brasil.

 

Faixas

01. Cai dentro (Baden Powell - Paulo César Pinheiro) (2:41)

02. O bêbado e a equilibrista (Aldir Blanc - João Bosco) (3:49)

03. Essa mulher (Ana Terra - Joyce) (3:50)

04. Basta de clamares inocência (Cartola) (3:42)

05. Beguine dodói (Cláudio Tolomei - Aldir Blanc - João Bosco) (2:15)

06. Eu hein Rosa! (Paulo César Pinheiro - João Nogueira) (3:36)

07. Altos e baixos (Aldir Blanc - Sueli Costa) (3:28)

08. Bolero de Satã (Guinga - Paulo César Pinheiro) (3:31)

09. Pé sem cabeça (Ana Terra - Danilo Caymmi) (2:57)

10. As aparências enganam (Sergio Natureza - Tunai) (4:08)

 

Essa Mulher / Elis Regina

Nota 10

Marcelo Teixeira

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

A voz estrábica de Martinha


A cantora Martinha
Sempre me perguntava por onde andava a cantora Martinha, grande ícone da Jovem Guarda, movimento que perdurou por muito tempo, combatendo a Tropicália, a Bossa Nova e contrariando o samba dos anos 1960 e início da época setentista. Cresci ouvindo Martinha, motivado pelo entusiasmo de minha mãe, dona Maria Geralda, mineira como ela, e gostava de ouvir aquela voz calorosa, doce, suave, meio rouca e meio estrábica. Não sei se há voz estrábica, mas por vezes sentia na voz de Martinha umas melancolias, umas tristezas e umas alegrias que não sei explicar, e por isso denominei a sua voz como estrábica. Martinha foi o ápice por muitas vezes na vitrola de casa e minha mãe a escutava com grande satisfação e orgulho, dando destaque para canções como Eu Te Amo Mesmo Assim, de 1967 e Eu Daria a Minha Vida, de 1968, ambas compostas pela cantora. As músicas são excelentes e mais parecem que foram criadas para que Paulo Sérgio as cantassem e muita gente ainda há quem diga que fora Roberto Carlos quem as compôs. Lero engano: Martinha se diferenciava das outras cantoras da Jovem Guarda justamente pelo fato de ser uma compositora de mão cheia, com requintes e com personalidade, aonde muitas vezes suas canções parecia que faziam parte de sua própria vida amorosa, com altos e baixos, com ódio e ternura, com beleza e sofrimento.

Martinha era tão presente em minha casa, na sala de estar, no radinho de pilha de minha mãe que ficava na cozinha (nos anos 1980 ainda existiam radinhos de pilha) enquanto ela preparava deliciosas comidas mineiras, que até hoje não sei o real motivo do nome da minha irmã, Marta Teixeira: ora minha mãe diz que foi em homenagem à cantora, ora ela diz que foi pelo fato de ter nascido no extinto hospital Santa Marta, na zona sul de São Paulo.

Mas por anos o ostracismo de Martinha a pôs no limbo de ideias esfuziantes e de mentes inquietas para saber seu paradeiro. O silencio de uma grande cantora movida por um grande evento musical brasileiro – a Jovem Guarda – a colocou no esquecimento por anos a fio, diferentemente do que acontece com a cantora Wanderléa, que vez por outra aparece em programas de auditório ou cantando seus sucessos do passado e com Jerry Adriani, que faz verdadeiros malabarismos para se manter firme à frente de líder do movimento jovem guardista que o consagrou, fazendo tributos à Renato Russo ou se manifestando através de shows mesclando músicas inéditas com as mais antigas. Aliás, o motivo real deste artigo e o meu carinho ainda maior pela Jovem Guarda, foi o meu recente encontro (umas três entre o ano passado e este ano), com o cantor e compositor Jerry Adriani (que ainda será blogado aqui no Mais Cultura!).

Recentemente, zapeando pelos programas noturnos, encontrei uma raridade: Martinha cantando, nos dias atuais, para um programa somente dela, com músicas dela, para uma plateia de senhores e senhoras encantados, embasbacados, emocionados e por jovens que estavam ali para conhecer a grande artista que ela fora. Suas músicas ainda hoje perduram sobre tudo aquilo já cantado em 1960 e as verdades ali cantadas servem de inspiração à jovens cantoras sem fundamentos e sem musicalidade. Vestida com um micro vestido, talvez em homenagem ao movimento que a consagrou e com os cabelos soltos ao vento, pude constatar que Martinha ainda continua com a mesma fisionomia de antigamente: não vi rugas em seu rosto, não vi cabelos brancos, não vi a velhice característica que deveria insistir em bater. Martinha ainda mantêm o brilho nos olhos, a estrutura de uma grande cantora e consegue manter um alto padrão artístico pouco visto por celebridades que conheceram de perto o temido ostracismo.

Mas a voz de Martinha não é mais a mesma. Incapaz de manter uma música como Eu Daria a Minha Vida sem tropeços nem arranhões, Martinha não tem mais pulso firme em suas cordas vocais e percebe-se que enquanto as rugas e os cabelos brancos não apareceram, a voz está fraca e com sinais de morte silenciosa. Infelizmente, Martinha não grava mais discos hoje, mas mantê-la em um show por mais de duas horas é fraquejar nossos ouvidos, porque sua voz não agrada em algumas canções. Mas saber que Martinha, fruto de um grande movimento artístico e que revolucionou o modo e o jeito da mulher se portar em um ano em que mulher não opinava nada e saber que ainda continua na batalha por um espaço musical, é manter a motivação de uma grande cantora e compositora que ela fora. Mesmo com voz estrábica.

 

A voz estrábica de Martinha

Marcelo Teixeira