segunda-feira, 30 de maio de 2016

O ecletismo baiano de Vania Abreu


Vania: antiaxé
Longe dos holofotes que tantas cantoras buscam e distanciando-se das grandes vozes poderosas que conseguem alcançar notas quase impossíveis, Vania Abreu consegue ser dona de uma particularidade única: ser a detentora de maior de um universo musical rico em qualidade e sonoridade. Todos os discos de sua carreira contém sucessos de compositores consagrados e que está na boca do povo, porém, as pessoas muitas vezes não associam a música à cantora. Vania é magistral em tudo o que faz e seu sumiço da grande mídia faz com que seu talento respingue nas classes denominadas cultas por um grupo seleto que preza pela boa música. Seio da Bahia (1999 / 27,99) nasceu de um sonho antigo da cantora, que queria trazer para a juventude a lembrança de que as cantoras da década de 1930 não tinham um estilo único, cantando aquilo que queriam e não se limitando a extravagâncias musicais. Nesse disco, Vania comprova seu lado eclético, distanciando sua imagem com o axé da Bahia que nasceu do Carnaval que tanto gosta e da irmã, Daniela Mercury. Seio da Bahia, o terceiro álbum de Vania, comprova toda a sua sensibilidade artística, visceral e cultural de sua alma lírica musical. O disco tem um lado político a começar pelo título e talvez seja um recado direto e certeiro de Vania contra a cultura do axé que tanto disseminou pelos quatro cantos do país e se alastrou pelo mundo: sua irmã, Daniela, ajudou a difundir a música baiana num vapor de 360 graus, enquanto Vania dispara contra o ventilador e tenta mostrar que o seio da Bahia é justamente o oposto, sendo um dilatador refrigerado dentro de um pantaleão vulcânico. É preciso ouvir Seio da Bahia como se estivéssemos na Bahia, sentir a mistura contempôranea dos fatos, resistir ou tentar resistir aos blocos carnavalescos e aspirar todo o sabor formal que a verdadeira Bahia nos traz. Ouvindo esse disco temos a nítida sensação de que Vania complementa a obra de Dorival Caymmi, que sublinha com as canções de Assis Valente e passeia na pele transcedental de Caetano e Gil numa atmosfera mais densa, mais calma, mais serena de ter a baianidade em nossa pele híbrida.

 

O ecletismo baiano de Vania Abreu
Nota 10
Marcelo Teixeira

domingo, 22 de maio de 2016

Adeus, Cauby!


Cauby: eterno
A maior voz do Brasil se calou! Fecham-se as cortinas, cessam-se as palmas, entristecem as mulheres, choram os homens. As gargantas eclodem naquela vontade desesperada de chorar. Feliz daquele que pôde conhecer a obra fenomenal de Cauby Peixoto. Feliz daquele que pôde ouvi-lo cantar suas maiores canções. Feliz daquele que soube que foi feliz por vê-lo apenas falar. Cauby era mais que um cantor, era maior que sua própria vida, maior que sua própria personalidade. Era culto, refinado, ímpar. Era Cauby. O Cauby da Conceição, o Cauby da Ângela, o Cauby da Maria. Mas era também o Cauby do José, do Pedro e do Severino. Era o nosso Cauby. O Cauby que para algumas pessoas desse século puderam respeitar,admirar e ouvir. A juventude digital deu ao cantor toda a sua glória, todo o seu glamour, todo o seu prestígio. Cauby era admirado por todos e mesmo não sendo um cantor que vendesse milhares de discos nas últimas décadas, era reconhecido como o cantor das melhores vozes deste país. Morreu Cauby. O último cantor do Brasil que era romântico, fiel às suas origens, disciplinado com seus músicos, respeitado pelas crianças, adorado pelas avós, inquieto com suas fãs e com a juventude por querer mostrar-lhes e ensinar-lhes aquilo que viveram décadas atrás. Cauby Peixoto era o último grande cantor dos teatros de revista, dos palcos com gliter, dos ternos coloridos, das perucas diversas. Morreu Cauby, mas não sua essência. Seu brilho continuará e sua voz não se calará porque Cauby é eterno. E ele há de estar nos olhando lá de cima dizendo cantei, cantei, nem sei como eu cantava assim...

 

Simplesmente Cauby!
Por Marcelo Teixeira

sábado, 7 de maio de 2016

Rita Ribeiro e o último disco tradicional de sua carreira


 

Rita Ribeiro: um bom disco
Rita Ribeiro lançou Comigo em 2001 e foi um disco muito bem recebido pela crítica popular, mas não pela crítica jornalística. O álbum é bom e de fato não chega a ser um divisor de águas na carreira de Rita, que agora assina como Beneditto, mas já deixava claro que a cantora precisava se afastar um pouco do cancioneiro de Zeca Baleiro e Chico César (tanto que ela gravou uma bela música de Vander Lee, Românticos, que virou referência em sua carreira e ofuscou músicas de compositores consagrados como Baleiro, César e Jorge Ben). Sendo o último disco antes da virada retórica e triunfal na vida da cantora para o misticismo e a religiosidade crescente em seu cárater pessoal, Comigo não deixou marcas profundas na carreira de Rita, mas alçou a musicalidade da cantora para um público que ainda não a conhecia, fazendo com que ela se tornasse uma referência ainda maior no Brasil. É bem verdade que Rita já vinha sendo conhecida pelas músicas compostas pelos amigos Zeca Baleiro e Chico César e isso estava fazendo com que a cada CD lançado fosse esperado ao menos três canções de cada, mas a grata surpresa foi ter a música Românticos como sendo o carro chefe deste trabalho. A música foi composta pelo mineiro Vander Lee, que estava iniciando na seara musical, mas que já vinha com uma música que muitas pessoas já tinham se identificado, Esperando Aviões. Comigo não é um disco em que temos que parar para ouvir com uma profundidade enorme, mas não podemos tirar todo o mérito deste álbum. Rita estava inspirada nos vocais, nas melodias, mas não estava inspirada por completa na arte visual, pois a capa e o encarte são horríveis. Tirando esse percalço, o disco tem um carisma profundo de brasilidade espontânea e a voz de Rita está impecável.

 

Comigo (2001) / Rita Ribeiro
Nota 7
Marcelo Teixeira

 

sexta-feira, 29 de abril de 2016

25 anos sem Gonzaguinha


Gonzaguinha: saudades
Jamais haverá um cantor com a dimensão de Luiz Gonzaga Júnior: ele era mais do que um cantor. Era um dos melhores compositores de sua geração, um dos mais procurados pelas cantoras em ascensão dos anos 1980 e estava no auge da carreira artística quando sofreu um acidente de carro e partia para um outro plano, 1991. O Brasil perdia naquele momento seu filho mais ilustre, o artista completo, que conseguiu expor em canções todos os sentimentos possíveis e imagináveis, todas as amarguras e dissabores que uma pessoa possa ter, um cantor por excelência e um compositor por exatidão. Neste ano de 2016 completam-se 25 anos de sua morte e o Mais Cultura Brasileira faz uma ressalva para aqueles que não conhecem a obra magistral deste grande artista morto precocemente, na tentativa de poder resgatar sua imagem junto aos cantores que bradaram contra movimentos erradicados dentro do próprio país. É lastimável que um país com um vasto conhecimento musical fora de seu território, tenha populares que não conseguem enxergar para dentro de seu umbigo e reconhecer seus talentos. Essa injustiça acomete ao Gonzaguinha, um cantor que detestava holofotes, mas que gostava de entrar em brigas musicais, nas quais sempre ganhava. Mas e se vivo fosse, como seria a postura de Gonzaguinha? Na certa estaria bradando ainda mais contra a política, ainda mais contra os sentimentos aflorados e defendendo a figura feminina como sempre o fez.  No ano passado, o cantor faria 70 anos e pouca mídia fez questão de frisar isso, o que acaba pulverizando ainda mais o mecanismo de divulgação do artista para os dias atuais. A geração que nasceu com o advento da internet e das redes sociais em voga não teve a oportunidade de ouvir ou de acompanhar a carreira meteórica de Gonzaga Júnior, um cantor eletrizante e magnético, mas na certa essas mesmas pessoas já ouviram músicas como O que é, o que é, Grito de Alerta, Explode Coração ou Espere por mim, morena ecoando por ai nas vozes de outras cantoras. Mas essas mesmas redes sociais ajudam a fomentar a ideia de que Gonzaguinha está nas paradas de sucesso hoje e sempre, pois há várias páginas em homenagem ao cantor que faz com que o internauta possa conhecer a obra incandescente deste artista único.  São 25 anos de saudades, mas graças ao legado que o cantor nos deixou, nos apegamos às suas músicas e podemos sorrir sem medo e vergonha de sermos felizes.

 

25 anos sem Gonzaguinha
Por Marcelo Teixeira

 

segunda-feira, 25 de abril de 2016

1976: o ano de Milton Nascimento

Capa estranha e disco mediano de Milton
O ano de 1976 era o décimo na carreira artística de Milton Nascimento, um cantor que vinha agradando ao público desde os anos 1960 pela potência de sua voz e pelas composições de força impactante que produzia em um país sem alma. Foi um ano intenso, marcante , profundo e determinante em sua carreira. Além de produzir o álbum Geraes com a participação dos novos amigos Chico Buarque, Mercedes Sosa e o conjunto chileno Agua e de musicar Maria, Maria, a peça de estreia do grupo de dança contemporânea Corpo, Milton ainda encontrou um tempo em seu calendário para gravar o seu terceiro disco nos Estados Unidos. Dessa vez, um álbum com todas as canções traduzidas para o inglês para facilitar a divulgação nos mercados norte-americano e mundial. Deu certo. O novo disco foi intitulado apenas de Milton e seria o primeiro do contrato recém-assinado do cantor e compositor com a gravadora de maior prestégio lá fora, a A&M Records. Das nove músicas selecionadas, duas eram inéditas: Raça, composta em parceria com o grande amigo e poeta Fernando Brant e a bela, visceral e prodigiosa Francisco, composição solo de Milton. Milton estava em todas as bocas com o lançamento deste disco, mas esse feito só aconteceu devido o lançamento anterior, Geraes, que comoveu o público com ricas e belas canções, lançado também no emblemático ano de 1976. Ao todo, Milton lançava dois discos simultaneamente, um feito e tanto para um artista nos anos 1970. A grande sacada deste álbum foi o fato de mesclar músicos brasileiros tarimbados na missão de tocar com o genial autor de Travessia, como Novelli no baixo, Toninho Horta na guitrra e Robertinho Silva na bateria com alguns brasileiros radicos nos Estados Unidos, caso dos percussionistas Airto Moreira e Laudyr de Oliveira e o trombonista Raul de Souza, o tecladista uruguaio Hugo Fattoruso e os jazzistas americanos Wayne Shorter no sax e Herbie Hancock nos teclados.  Milton (1976 / A&M Records / 24,99) não é um grande disco na carreira de Milton Nascimento, mas confirma a sua identidade dentro da música popular brasileira. Agora o disco volta com força total às paradas devido a faixa Francisco ser tema de abertura da novela Liberdade, Liberdade (2016, Globo), em que homenageia Tiradentes e sua filha Joaquina. Seja como for, a impactante e majestosa canção ganha todo o disco, faz uma entrada triunfal na novela e capitula o vacalise de Milton Nascimento para sempre.

 
Milton (1976) / Milton Nascimento
Nota 9
Marcelo Teixeira

terça-feira, 19 de abril de 2016

O Bang de Anitta



 



Sucessos descartados

Não existe comparação de Anitta com nenhuma outra cantora brasileira em atividade hoje em dia. E nem poderia existir porque Anitta é única e exclusiva: apenas ela consegue ser ela. E ela consegue ser melhor cantando do que falando, cantando do que dando entrevistas, cantando do que fazendo qualquer coisa. Mesmo que sua especialidade não seja a voz e nem a mente, Anitta se sobressai apenas com seus glúteos avantajados (Freud poderia explicar isso!). E só. Mas não posso deixar de dizer que Bang (2016 / Warner Music / 28,99), sua nova produção, é legalzinha dentro dos padrões do pop nacional. Mas as únicas músicas que se superam nesse disco é a faixa título e a número dois, Deixa ele sofrer, porque as outras faixas são de uma tristeza que só: músicas que não nos leva a lugar nenhum em questão de intelectualidade e/ou musicalidade. Óbvio que Anitta não é uma cantora que foi produzida para ser a musa da MPB e nem pensaram na possibilidade de fazer dela uma nova Elis Regina ou Gal Costa e, por esse mesmo motivo, a cantora consegue ser autoral naquilo que faz, consegue ser ingênua em suas entrevistas e muito sincera em suas opinões e, talvez por isso e nesse quesito, seja melhor ouvir suas músicas. Anitta é o tipo de cantora que precisa se conhecer mais e estar mais antenada com o mundo que gira ao seu redor e mesmo sabendo que isso poderá demorar muito para acontecer, ela parece que prefere ficar nesse mundinho pop fashion que não enriquece a ninguém culturalmente. Porém, preciso ressaltar aqui que a cantora consegue dar a volta por cima e lançar discos cada vez mais audaciosos, dispostos a estarem em primeiro lugar nas paradas de sucesso e a angariar status de diva da música popular brasileira. Anitta é a favorita de dez entre dez jovens e passou a ser a nova queridinha do momento glamour. Mesmo não cantando nada, a cantora mais esboça seu corpo do que canta suas músicas e isso não é um defeito maior, até porque Anitta passou a ter corpo para poder exibir nacionalmente. Mas o que peca aqui é a qualidade musical de seu novo álbum: apenas Bang consegue ser atraente, nada mais do disco é atrativo e isso se prova nas estações de rádio e programas de TV. Com várias participações especiais, Bang passa a ser o melhor da carreira da cantora por ser o mais bem produzido, o melhor adaptado, o mais hermético e o que traz uma sonoridade mais explícita de Anitta. Mas quem ouve Bang por inteiro logo pára para poder pincelar músicas antigas de sua carreira. De fato e tediosamente, a cantora consegue ser uma diva daquilo que produz, mas o que Anitta precisa entender é que as divas tropeçam, caem, se machucam, erram e umas nem levantam com o tempo.

 

Bang / Anitta
Nota 7
Marcelo Teixeira

 

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Cantada: um disco arrastado, mas sútil de Adriana Calcanhotto

Disco experimental de Adriana
Há muitas singularidades informais no disco de Adriana Calcanhotto lançado em 2002: a começar pela título Cantada e pela boca com batom vermelho, o álbum também passei entre o nostálgico e as incertezas do amor, da paixão e do sentimento a dois. Não posso tirar aqui a qualidade musical de Adriana, mas posso conceber-te um apreço menor em notas comparando este com os seus trabalhos antigos e, automaticamente, posteriores. Não trata-se aqui de um disco maravilhoso, pautado entre as melhores rimas ou os melhores tinos poéticos, mas Adriana nos entregou um disco arrastado, cansativo na sua formalidade e pouco expressivo. Mesmo sendo um disco romântico e com levada mais pop que os anteriores, Adriana deixa a desejar em canções que poderiam ser melhor trabalhadas e melhor adaptadas. Os acertos foram poucos, mas consideravelmente aceitos, caso das músicas Depois de Ter Você (cantada anteriormente por Maria Bethânia) e Noite, em que a poesia de Adriana reina absoluto. Cantada (2002 / BMG / 27,99) é um disco mediano, bonitinho mas sem exageros, que passaria despercebido se não fosse algumas canções muito bem selecionadas para este projeto.  Sendo seu sexto álbum de carreira, a cantora apostou em sonoridades experimentais e evidencia mais o pop aqui que em discos mais autorais, o que fica evidente em releituras de Madonna e a sua entrega apaixonante e resistente à música Pelos Ares.  Seja como for, o disco de Adriana Calcanhotto não é dos melhores, não é o melhor de sua carreira, mas vale a pena ouvi-lo por ser um disco atípico, experimental e artistico no visual. Mesmo sendo arrastado e cansativo, vale a pena prestigiar a obra de Adriana nem que seja para acompanhar sua carreira.
 

Cantada / Adriana Calcanhotto
Nota 8
Marcelo Teixeira

domingo, 20 de março de 2016

A homenagem de Mônica Salmaso a Chico Buarque


Homenagem ao Chico
Toda boa ou excelente ou mediana ou superficial ou medíocre ou espetacular cantora precisa ter no currículo uma ou duas canções de Chico Buarque. São poucas as cantoras que dedicam um disco inteiramente ao cantor carioca que retratou (e ainda retrata) a alma da mulher num contexto singular e a elencando ao patamar mais elevado. Dedicar um disco a um artista, ainda mais quando esse artista tem a profusão de intelectualidade ácida na veia, é uma tarefa árdua, sensível e ambígua, pois a existência de uma complexidade de nuances em sua carreira será notória. Mas é preciso muita dedicação e muito conhecimento quando se trata de Chico Buarque: é preciso coerência musical,um aprofundamento maioral, uma síntese de sua clareza de ideias e uma arquitetônica química com suas letras. Difícil? Muito difícil. Mas não para a sensacional cantora Mônica Salmaso que conseguiu com maestria e louvor fazer uma bela homenagem ao Chico com o disco Noite de Gala, Samba de Rua (2007 / Biscoito Fino / 26,99) em que desfila com uma categoria incrível parte daquilo que Chico cantou, seja em momentos sublimes, seja em momentos esquecidos. O lado positivo deste disco é que a cantora não se opôs a cantar apenas as mais conhecidas canções de Chico Buarque, mas conseguiu apanhar pérolas desconhecidas, como a ótima Bom Tempo, mesclando com sucessos irreparáveis, como A Volta do Malandro. Mas destaque mesmo neste disco são Basta Um Dia, imortalizada por Clara Nunes no disco O Canto das Três Raças (1976) e Construção, do disco antológico que leva o mesmo título do ano de 1971. A intepretação de Mônica para todas as canções são carregadas de emoção, sensibilidade e proeza e a cantora soube aproeitar todos os seus triunfos musicais para pôr em xeque-mate seus atributos artisticos. O disco é sensacional e Chico Buarque pode descansar em paz porque enquanto houver outras Mônicas Salmasos por ai, sua música estará a salvo por completo.

 

Noites de Gala, Samba de Rua (2007) / Mônica Salmaso
Nota 10
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 2 de março de 2016

Qual a graça de Alice Caymmi?





Qual a graça de Alice Caymmi?
A cada ano a mídia brasileira e os empresários do mundo da música, tratam de eleger uma nova cantora que precisa ser diferente da cantora anterior lançada com requintes de diferenciação da cantora anterior e assim por diante. O mundo da música, nos dias de hoje, virou um mercado mal gerenciado, mal digerido, mal intepretado, mal necessário que não compete com as honrarias que muitas cantoras necessitam. A categoria de musicalidade exigida por muitas profissionais do canto precisam entender muitas coisas antes mesmo de subirem ao palco ou assinarem contratos por um certo tempo para poderem excercer seu verdadeiro ofício. Mas essa palavra ofício é pouco herdado para verdadeiras cantoras que buscam o timbre certo, a entonação certa, o álbum perfeito, a música centrada e a diversidade de uma cultura qualquer. Óbvio que não é preciso estarem todas nessas categorias citadas, mas um pouco de presença de palco, um pouco de brilho, um pouco de acidez mórbida, um pouco de relutância, um pouco de história musical e um pouco de carisma vocal contam muito para serem consideradas verdadeiras artistas. E nao é preciso ter parenteco com uma tia muito distante ou uma prima que canta sabe-se lá que estilo para ser considerada uma boa cantora. Nem sempre o produto novo é garantia de brasão familiar. Assim como nem sempre uma tia cantora pode ser referência para uma sobrinha que está iniciando a trilhar pelos mesmos caminhos. Dito tudo isso, eu friso que a família Caymmi é uma das mais reconhecidas e tradicionais famílias musicais que conseguiram (e conseguem) exprimir todo o sentimento embutido em harmonias, canções, festas e música. Mas não consigo entender o porque há sempre um restinho de areia movediça dentro de um âmbito musical tão harmonioso, tão arquitetônico, tão plural. Se de um lado temos Nana Caymmi e seu brilho magistral, sua voz potente e latente e sua presença de palco tão visceral, sua sobrinha Alice Caymmi transcende ao desfavor de todo o universo que a música lhe pede. Alice surgiu na música popular brasileira há pouco tempo e, diga-se de passagem, não é uma cantora de gabarito, não tem competência de palco, não tem voz, não tem estilo e não tem carisma. Qual é, então, a graça de Alice Caymmi? Nenhuma. Em seu segundo álbum, Rainha dos Rainhos (2014 / Jóia Moderna / 26,99), a cantora tenta demonstrar que é uma vertente nova no mercado, forçando a voz em algumas canções e estragando músicas riquissímas com novas roupagens que não servem para o nada. Com um estilo pop gótico dentro da MPB, Alice Caymmi desperdiçou um momento único em sua carreira ao se transformar numa marionete de si mesma, interpretando aquilo que não lhe convém e não lhe serve de estampa. Bom mesmo seria não ouvir Alice Caymmi e lembrar que a única semente feminina boa e com vasta experiência nessa família é sua tia, Nana.

 
 



 Qual a graça de Alice Caymmi?
Nota 4
Marcelo Teixeira

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Malditos Populares: surpresa na MPB




Malditos Populares: grata surpresa na MPB
Nos dias de hoje, em que a música pede socorro e licença ao mesmo tempo, fazer com que uma boa canção adentre em nosso ambiente é algo arriscado, difícil e muito comprometedor. Precisamos ter, acima de tudo, paciência e competência para podermos ouvir com tímpanos abertos sobre o novo, aquilo que realmente nos arremata, nos catalisa, nos envolve e nos sabatina. É preciso termos fôlego para podermos dizer que o que ouvimos é de qualidade, musicalmente brasileiro, puramente ético, excelentemente sambístico e harmonicamente belo. Para tanto e com tantos dissabores musicais sendo lançados a cada minuto Brasil afora, é preciso termos cautela para podermos dizer o que é bom do que é plausível, do que é descartável, do que é sonoro e do que é possível um reconhecimento cabível de nossa atenção. Dito tudo isso, me surge de repente uma banda relativamente nova no mercado nacional brasileiro que, a primeira audição, me encantou, me sabatinou, me deixou de queixo caído por ter todos os ingredientes na qual me envolve: música milimetricamente saudável, sambas de altíssima qualidade, letras competentes, empirismo musical, estilo, categoria, sensibilidade e voz. Em um Brasil em que as mulheres ganharam mais espaço na música brasileira, sempre busquei uma voz masculina que pudesse ressoar pelos cantos do país como uma voz potente, saliente e temporal. Cesar Capretti, o cantor e compositor da banda Malditos Populares, consegue esse feito em um disco que beira a loucura entre a elegância e a sordidez de um belo álbum. Com letras envolventes, sambas bem compostos, marchinhas de carnaval com direito à recordação de um passado não muito distante, a banda Malditos Populares consegue ser uma das melhores surpresas na música popular atual. Aos Amigos (2016) não é um disco qualquer: é um disco bem mais que popular, é um soco no estômago da sociedade puritana, um tiro de misericórdia na cultura brasileira, um esfolo na cara de quem precisa conhecer seu próprio estilo. Não existe aqui uma melhor canção, pois todas são excelentes, casando-se uma com a outra, sendo uma mistura calórica de abastada musicalidade. Sendo um disco independente, a banda Malditos Populares conta um time da pesada: Cesar é o compositor e vocal, Marcello Lervolino também é o compositor e toca violão de 6 e 7 cordas. Os músicos de apoio são formados pelos competentes Fabinho Reis (bateria), Wellington Diniz (percussão) e Ale Sanfona (sanfona, piano e contra-baixo e também produtor  e diretor musical do álbum). E tem as meninas fazendo backings em algumas faixas: Amanda Pandolfelli, Juliana Taino e Mrina Jurado. Com críticas ácidas em praticamente todas as suas letras, a banda extrai um lado político com senso comum pouco incomum, politizando sua marca registrada e se tornando um dos melhores produtos do mercado. Impossível não fazermos uma comparação entre a voz potente de Cesar Capretti com a atual situação musical: nos faltava um cantor à altura de seu talento para nos orgulharmos de sermos brasileiros. Aos Amigos não é um disco qualquer que precisa ser apenas ouvido uma única vez: é um disco que já nasceu pronto, nasceu para ser referência nacional, nasceu para ser exemplo que de ainda podemos nos surpreender com a qualidade musical escondida entre nós. Grata surpresa que surgiu na maior metrópole do Brasil, Malditos Populares é uma banda brasileira que canta samba, MPB e músicas altamente ricas, necessárias para a nossa cultura oriunda e para aqueles que respiram a verdadeira alma lírica musical. Precisamos ouvir a voz de Cesar Capretti para termos certeza de que a nossa cultura não morreu, a nossa música está a salva de dragões malditos e de que nossa certeza popular está aqui, diante nossos ouvidos!

 

Aos Amigos (2016) / Malditos Populares
Nota 10
Marcelo Teixeira

sábado, 13 de fevereiro de 2016

O poder de Elza Soares


Elza e o fim do mundo
Não é fácil ser Elza Soares. Embora sua imagem esteja inúmeras vezes associada a Garrincha, Elza Soares é muito mais que a ex mulher de um dos maiores jogadores de futebol do Brasil. Considerada a melhor e a maior voz de todos os tempos pela BBC de Londres, Elza sofreu racismo, apanhou, gritou, cantou o amor, cantou a desilusão, vociferou contra as mazelas e a favor de um povo oprimido e carente. A música em sua vida sempre foi prioridade, assim como aquilo que canta, que mais soa como verdade e transpassa a sua emoção que irradia de sua pele para a pele seguinte. Elza pediu passagem, ganhou liberdade e continuou vociferando contra vozes ocultas dentro de um segmento musical, racista, feminino e caricatural. Elza é Elza, negra, mulher, cantora, a maior de todas. Caiu no ostracismo, Chico Buarque a ajudou a dar a volta por cima, tombou, se machucou, ralou os braços, cortou as mãos e Caetano Veloso fez das tripas coração para ver do cóccix até o pescoço inteira, em pé, vibrante, rosto entonando para o alicerce de uma luz sem fim, reinando poderosa e soberba sobre aquilo que já sofrera, já se arrependera e se machucara. Elza sobreviveu! E sobrevivendo desses ostracismos e dessas guerras mundiais e musicais, voltou triunfal em 2002 pelas mãos de dois gênios da música popular brasileira e caindo nas graças, mais uma vez, do público e da crítica especializada. Passados mais de dez anos desde o lançamento de inéditas, Elza adentra com o pé direito e nos ensina o que é ter quase 80 anos de idade e lançar um disco maravilhoso, saboroso e original como o que lançou no ano passado! Eu me rendo, porque Elza não esmorece e sabe que seu lugar é o de ponta na MPB: há requintes de sabedoria aqui, há música de verdade, há voz de Elza sobre canções verdadeiras, ideológicas, caprichadas. Entre palavrões e machadadas de pensamentos periféricos, A Mulher do Fim do Mundo (2015 / Circus / Natura Discos / 29,99) é um belo retrato entre a paisagem da favela e da menina que se transforma em mulher por entre becos cheirando a drogas e calcinhas penduradas no varal. O reflexo entre o submundo do circuito inteiro das mulheres que se transformam em escravas do lar perante seus homens é um divisor de águas neste disco, sendo retratada de forma explorada em praticamente todas as faixas do álbum: há tiros, pulverização de terra batida, becos mal iluminados, ruas vazias sendo observadas por meninos pretos que logo serão bandidos e donos do pedaço. Há a mulher prostituta, há o lirismo sutil de Berenice, há a aclamada guerreira Maria da Vila Matilde. Há belezas com a sofreguidão estampada no estampido do revólver do marginal, há o cenário destruído e pobre de um fim do mundo que pode ser bem ali, na porta da entrada da sua casa. Elza pediu passagem, ganhou a liberdade e conseguiu ser ouvida pelo povo oprimido, pelos novos compositores, para chegar ao sopro de um disco à altura de seu peso e acima de seu poder. Eis aqui o poder de Elza Soares!

 

A Mulher do Fim do Mundo (2015) / Elza Soares
Nota 10
Marcelo Teixeira 

domingo, 7 de fevereiro de 2016

O samba não pertence à Zélia Duncan





O samba não é da Zélia
Não era de hoje que Zélia Duncan queria fazer um disco apenas de samba e isso ela já deixara gravado em várias entrevistas e até fazendo incursões de sambinhas e sambões em seus discos anteriores. No excelente disco Eu Me Transformo em Outras (2005), a cantora desenvolveu uma técnica impressionante na arte de se reinventar, cantando em estilo ao vivo e mostrando-se como uma vertente expoente de nossa música. Mas são raras as interpretações de Zélia que realmente ficam boas. Cantando samba não chega a empolgar como quando nos empolga com músicas mais românticas ou que nos revelam sua identidade camuflada em letras originais e emotivas. Zélia cantou samba em quase todas as suas obras, não inteiramente, mas em partes e esse feito foi comemorado bravamente como sendo uma cantora de MPB. Isso também aconteceu com Pré-Pós-Tudo-Bossa-Band (2005), na faixa Quisera Eu, um samba mais puxado para a marchinha de carnaval composta em parceria com Lulu Santos. Esse disco foi uma concepção de harmonias sintéticas entre a música popular brasileira e a plataforma roqueira de Zélia, que vinha de experiências em que mesclava esses ritmos sempre com sofisticação. Mas determinar um disco inteiramente ao samba, a um estilo musical que lhe foge dos padrões, não é uma tarefa fácil e muito menos para qualquer cantor. Zélia errou ao se dedicar de corpo e alma ao samba, assim como errou ao selecionar músicas de compositores carimbados como forma de enriquecimento musical. Explico: Zélia Duncan não consegue segurar um disco inteiro ao samba porque sua voz cansa, entoja um sentimento que não soa verdadeiro e não faz parte de sua identidade. Quando digo que a voz de Zélia cansa, não digo no sentido figurado, pois Zélia é uma das melhores cantoras da atualidade, mas cantar um ritmo que lhe exige competência vocal acima dos limites, é para poucos. Mas Antes do Mundo Acabar (2015 / Biscoito Fino / 28,99) tem uma capa perfeita, assim como as muitas das capas de disco de seus trabalhos anteriores. Tentar perpetuar ou adentrar em um universo desconhecido pode ser fatal para muitas pessoas e no caso de Zélia Duncan não fora diferente: ao invés dela dominar o samba, foi o samba quem negou a sua permanência dentro dele.


 


Antes do Mundo Acabar (2015) / Zélia Duncan
Nota 8
Marcelo Teixeira

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Cadê o samba de Roberta Sá?


Cadê o samba, Roberta?
Roberta Sá já foi escolhida pelo Mais Cultura Brasileira como sendo uma das melhores intérpretes dos últimos anos dentro da MPB e já fora selecionada também como uma das grandes revelações musicais em um programa de TV que descobria novos talentos. Ela não chegou a ficar em primeiro lugar, mas foi apadrinhada por Ney Matogrosso e, mais tarde, caiu nas graças de Chico Buarque, com quem já dividiu faixas em duetos imperdíveis. Lançando seu sexto álbum, a cantora se deleita em um universo que conhece muito bem e que já foi muito bem recebida. Delírio (2015 / MP,B Discos / Som Livre / 29,99) é um disco atemporal, bom, estiloso, mas confuso. Primeiramente porque tem uma capa escura, remetendo ao disco de sambas de Maria Rita, Coração a Batucar (2014) e segundo que esse universo sambístico de Roberta está mais para o pop que o samba verdadeiramente dito. Mesmo tendo uma interpretação sensacional, a cantora deixa a desejar em canções que poderiam ser melhor executadas, como, por exemplo, na canção que leva o título do trabalho, Delírio: cadê a inspiração? Por onde anda a exuberância de Roberta Sá? Obviamente, esse novo álbum não lhe trouxe nenhuma grande oportunidade de poder continuar sendo uma das melhores cantoras de sua geração e com Delírio, a cantora mostra que o seu samba é mais popular que o popular. Se formos levar ao pé da letra, Roberta Sá poderia ter atribuído o samba em discos como o de estreia, Braseiro (2005), Que Belo e Estranho Dia Para se ter Alegria (2007) ou o último e morno Segunda Pele (2013). A bem da verdade, seu samba está mais para pagode de pé de mesa do que para o genuíno samba de morro, samba de pé ou samba de verdade. Mas a cantora não errou totalmente ao lançar um disco em homenagem ao samba e talvez o grande erro de Roberta tenha sido a inspiração que teve ao ouvir Micróbio do Samba (2011), da cantora Adriana Calcanhotto. Ao ouvir e se inspirar, Roberta decidiu que faria um disco em duas formas de homenagem: tanto para o samba como para Adriana. Errou duas vezes: quem conhece e acompanha a carreira de Roberta sabe que a cantora sempre cantou um ou outro samba em seus discos e sempre com a maestria e a sabedoria de uma grande estrela. O segundo erro foi se inspirar no disco de Adriana Calcanhotto, afinal, Micróbio do Samba não é um disco de samba, porque Adriana Calcanhotto não faz samba. Adriana Calcanhotto faz marchinhas de Carnaval, o que é totalmente diferente de samba. Delírio não influenciou em nada na carreira sólida de Roberta, mas ajuda a difundir aquilo que ela mais tem de melhor: a voz!

Cadê o samba de Roberta Sá?
Nota 7
Marcelo Teixeira

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Bruno e Marrone: o melhor do sertanejo atual


Bruno e Marrone: os melhores da atualidade
Não gosto de música sertaneja. Não gosto de duplas sertanejas. Não gosto de cantores sertanejos. Mas são poucos os cantores e as duplas sertanejas que conseguem ganhar meu respeito e minha credibilidade quando os ouço cantar. Aliás, respeito e muito quem gosta desse estilo musical, mas confesso que não é a minha praia. Eu como pessoa, garanto que não compraria nenhum CD de algum cantor sertanejo para ficar ouvindo em casa e mesmo se fosse adepto ao mundo musical via internet, garanto que não baixaria suas canções pagando ou as tendo gratuitamente. Eu como crítico de música, garanto que com o passar do tempo e depois de quatro anos de Mais Cultura Brasileira e com o auxílio da Pedagogia, pude parar para observar e compreender e distinguir o que é bom e ruim daquilo que é bom e ruim. Bruno e Marrone, cantores típicos sertanejos e populares que conquistaram o Brasil com seu cantar, são dos pouquíssimos cantores sertanejos na qual posso dizer que gosto. Mas não compraria um disco seu ou de qualquer outro cantor desse estilo. Aliás, alguns anos atrás, bradei ao lado de Chico César e Rita Lee quando lançaram o EP Odeio Rodeio (2005), disco este que criticava durante o estilo sertanejo. Mas vamos aos acertos de contas: vejo muitos blogs e sites e até mesmo algumas pessoas dizerem sertanistas quando se referem aos sertanejos. Isso é uma lógica que não se enquadra aqui e em qualquer lugar, porque sertanista é aquele explorador que se aventuram no interior do sertão. Já os sertanejos são aqueles que vivem no sertão nordestino, do agreste ou área rural. No entanto, os sertanejos aqui citados são sertanejos natos, pois em suas biografias, viveram no sertão. Lançando Isso cê não conta (2015), a dupla conseguiu um feito ainda maior do que os alcançados em discos anteriores: conseguiram fazer com que sua música fique impregnada em nossa memória e que a mencionemos em algum momento de ironia. Essa brincadeira acaba sendo gostosa e até admirável, mas não podemos dizer que é um bom disco ou uma canção que traga conceitos culturais. Raramente eu critico positivamente uma dupla sertaneja e hoje eu percebo que demorei um pouco para poder criticar uma dupla que me faz bem tanto fora como dentro da nossa cultura brasileira.

 
 
Bruno e Marrone
Por Marcelo Teixeira
 
 

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

A asa de Mariana Aydar



Pedaços de Aydar
Há tempos venho dizendo que Mariana Aydar é uma das melhores cantoras surgidas nesses últimos anos (juntamente com Roberta Sá) e o lançamento de seu quarto CD é a mais prova de que seu talento transcende a imaginação de todos nós perante a sua vocação maior. Pedaço duma asa (2015 / Brisa/ 29,99) é um dos mais autênticos discos lançados no ano passado e não dei vazão para esse detalhe não por descuido, mas para que eu pudesse abrir o Mais Cultura Brasileira de 2016 com esse artigo. Mariana Aydar reinventa o samba de Nuno Ramos na sua melhor forma, na sua melhor metátese e no seu melhor ângulo, dando a impressão de que tudo aqui cantado já estava preparado para que ela as cantasse de sua maneira mais jovial, serena e ao mesmo tempo único.  Há muita música de boa qualidade, poesia de tamanha delicadeza e artes visuais igualmente vistas em Peixes, Pássaros, Pessoas (2009), que para mim, é o melhor disco de carreira da cantora e que já vinha um pouco do arrebatador Nuno Ramos. Pedaço duma asa é um disco inclassificável, digno de uma responsabilidade mutua entre voz e poesia, arte e samba, Mariana e Nuno. O primeiro encontro de Mariana e Nuno foi em 2007. Logo, ela passou a gravá-lo em seus discos e emprestou sua voz à sonorização de Bandeira Branca, instalação de Nuno exposta na 29ª Bienal de São Paulo de 2010. Em 2013, foi convidada para participar do projeto Palavras Cruzadas, de Marcio Debellian, cuja proposta era reunir, num espetáculo, artistas da palavra, da música e da imagem. Mariana não hesitou em escolher Nuno. A partir do espetáculo nasceu Pedaço duma asa, quarto disco de estúdio da cantora, que mergulhou no universo poético do compositor como se as canções tivessem sido feitas pra ela. No release do disco, Debellian apresenta Pedaço duma asa como um trabalho que amplia o que se entende por parceria e composição, indo além do tradicional caso de uma cantora que grava um disco homenageando um compositor. Trata-se de um trabalho de dois artistas que pactuaram alcançar toda a potência poética do repertório que criaram. Sim, criaram, no plural. Pois a intérprete se mostrou ativa durante toda a elaboração do repertório, desde a seleção das músicas até a identidade que cada uma delas viria a assumir. E nesse pedaço qualquer de asa, Nuno brilha, Mariana brilha e o ouvinte brilha triunfal.

 

Pedaço duma asa (2015) / Mariana Aydar
Nota 10
Marcelo Teixeira

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Filipe Catto fica sem fôlego em Tomada (2015)


 

Tomada sem muita força
Com uma capa horrível e um repertório fraco, paupérrimo e ao mesmo tempo melancólico, o cantor e compositor Filipe Catto consegue afundar seu nome na música brasileira com aquilo que mais sabe fazer: cantar e bem. Mesmo sendo um dos melhores cantores do seu tempo (do nosso tempo também), Filipe conseguiu deixar se levar pela diferenciação em repertórios e cair na mesmice que muitos cantores fazem: o de se deixar levar pela onda do pensamento próprio, ignorando seu início, seu meio e pondo um contraponto no final. Filipe Catto errou ao lançar um disco como Tomada (2015 / Radar Record / 28,99), em que foge do existencialismo de sua criação autoral para dividir canções com outros compositores competentes, mas que não estão na mesma pegada que o cantor gaúcho. A começar pelo título do disco, Tomada, tudo gira em torno de uma insignificância ímpar ao detonar seu lado artístico e derrubar seu equilíbrio musical sem pensar em seu lado empírico. Falta aqui um pouco de Fôlego (2011) e muito de Entre Cabelos, Olhos e Furacões (2013) para que Tomada soasse um pouco melhor. Sem contar o erro dramático de Filipe querer cantar as músicas de Cássia Eller em espetáculos Brasil a fora, o cantor parece ter tomado alguma coisa a mais em seu café da manhã para ter tantos erros e poucos acertos nos últimos trabalhos. Se muita gente se emocionou ao ver Catto cantando Cássia Eller, eu detestei: Filipe vestiu roupas anormais, touca estranha, cantou sem emoção e não mostrou nada de diferente para ninguém. Pelo contrário: se mostrou indiferente a cada apresentação e por sorte esse acontecimento não virou disco registrado. Vamos retornar à Tomada: o disco não é de todo ruim, mas não é um disco em que podemos parar para ouvir mais e mais e mais e que aos poucos se transforma em um disco com limitações e poucas vivências, sem muita empolgação e nostalgia e fraco para um cantor excelente, de gabarito e muito profundo.

Tomada (2015) / Filipe Catto
Nota 7
Marcelo Teixeira

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

A irônia sem humor de Johnny Hooker


Johnny Hooker: imperfeito
Ainda que restem alguns cantores bons na música popular brasileira, alguns medíocres cismam em serem chamados de cantores pela mídia ou críticos da arte de cantar. Se o antigo causa um cansaço visual, musical ou atemporal para alguns, o novo causa uma sensação de frescor, jovialidade e desejo pelo que vai vir, pelo inesperado, pela desenvoltura. Mas nem sempre o que está no passado nos deixa com o ar cansado e nem sempre o novo nos causa uma sensação de alívio: muitas vezes o novo não nos surpreende, não nos detém aquela sensação de magia, de puro ar renovado, nem espanta com sua magnitude. Sim, pode causa espantamento pelo conjunto da obra, pela música inacabada, pela vestimenta, pela estranheza. E é justamente isso o que alguns críticos de música vêm fazendo atualmente: abortando muitos cantores bons e dando vida a muitos cantores sem fundamentos. Que a música brasileira sempre pediu socorro, isso sem dúvida todo mundo sabe, mas fazer com que a inteligência humana seja medíocre perante a intelectualidade crítica é padecer no inferno mais profundo do universo. O cantor, ator, compositor, diretor, artista e palhaço Johnny Hooker é de Recife e está sendo considerado um dos melhores cantores de sua geração, sendo ovacionado em casas lotadas e recebendo prêmios em que Maria Bethânia, Chico César e João Bosco já ganharam. O que causa estranheza nisso tudo é que Johnny Hooker não canta, não interpreta bem suas músicas e ironiza a todo custo com o sentimento alheio e isso faz com que a plateia entre em delírio constante, pois música que é bom, não há! Lançando Eu vou fazer uma macumba pra te amarrar, maldito (2015 / 27,99), Hooker se mostra imperfeito e desqualificado em sua função maior, que é o de cantar. Considerado como a categoria Rock Nacional, o cantor se perde em letras que buscam o surrealismo das coisas mais simples e elenca para a atmosfera carnal a revolta que o próprio sente dos amores que não deram certo em sua vida. Prova maior disso é o título irônico e vil de sua primeira obra musicada. Se levarmos em conta sua performance no palco, podemos dizer que ele pincelou um pouco de Ney Matogrosso, Maria Alcina e Itamar Assumpção e tentou utilizar a voz de Filipe Catto, cujo é uma das mais belas do momento. Agora pense tudo isso em Johnny Hooker: uma perfeita assimetria entre o ruim e o péssimo, entre aquele que ele desejou ser e não o é. Ney, Alcina, Catto e Itamar (em memória) são referência musical de qualidade e os comparar a Hooker é um grande erro, pois desmonta qualquer tipo e forma de musicalidade. A voz anasalada, a carência de personalidade e a falta de estrutura assistida de Hooker me causa uma revolta profunda, pois enquanto muitos cantores bons estão na estrada fazendo música do mais alto quilate, me surge um cantor medíocre, sem escrúpulos e sem competência para poder ser chamado de cantor.


Johnny Hooker
Eu vou fazer uma macumba pra te amarrar, maldito (2015)
Nota 0
Marcelo Teixeira