sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

MC Guimê ou Funk Ostentação?


MC Guimê: ele não me assusta mais
Em seu novo disco Abraçaço (2012), Caetano Veloso traduz muito bem o que é funk na música Funk Melódico: não aprendi nada com aquela sentimental canção, nada pra alertar meu coração, diz os versos iniciais da canção. E antes mesmo da morte trágica de MC Daleste, que o funk não acrescenta em nada na vida de ninguém, embora seja um movimento musical que anda fazendo a cabeça da periferia brasileira.  Claro que gosto não se discute, mas se está aí jogado às traças, temos o direito de opinar. MC Guimê virou estrela no mundo da música funk e este fardo ele carrega há um certo tempo, elevando o seu nome ao estrelato da música brasileira. Criou o funk ostentação, patrocinado por grandes empresários que sonhavam em lucrar alto e deste feitio conseguiu um lugar ao sol, marcando presença em programas de auditório e em shows super lotados. MC Guimê conseguiu a fama repentina de uma hora para outra, deixando o funk com ar despojado, menos ácido, mais audível. Mas ainda assim, a ostentação ao qual tanto fala e criou, se refere a que? Antes o funk era visto com olhos pequenos e furiosos, com letras que ninguém entendia e sequer paravam para ouvir, torcendo nariz e bocas. Daleste talvez tenha conseguido um feito para o movimento, mas uma bala foi alojada em seu corpo antes de conhecer o verdadeiro significado da ostentação. Ostentação, para MC Guimê é a melhor parte de sua vida artística: foi com essa palavra que ele conseguiu tanta fama e, obviamente, tanto dinheiro. Seu nome de batismo é Guilherme Aparecido Dantas e por incrível que possa parecer, era um garoto pouco interessado em estudar, mas passava o tempo escutando funk e, com isso, cursou apenas até a quarta série. Faz sentido o sucesso de Guimê nos dias de hoje: ele preferiu o tão sonhado funk ao invés de estudar e para isso trabalhou muito antes de ser o famoso mais conhecido do mundo do funk ostentação: de lavador de carros passando por carregador de flores, Guimê cantarolava aqui e ali seus versos, baixinho, para que ninguém pudesse ouvir. Em meio a drogas, bebidas alcoólicas e muita fumaça, Guimê subiu no mais alto do topo da música e conseguiu gravar seu nome na mesma: hoje é reconhecido como MC Guimê, o dono do funk ostentação.  Tatuado da cabeça aos pés, literalmente, Guimê não se intimida com as pichações em seu corpo, no que ele define como arte. Mas as tatuagens para ele tem nome e sobrenome: um pacto entre tintas, caricatura estranha, nome próprio para definir como um artista dentro do artista. Resumindo: ele queria ser diferente e conseguiu ser diferente. Ouro, pulseira, brincos, anéis, bonés prateados, carros importados, música de impacto para a circunferência, MC Guimê é o oposto de sua trajetória musical: o fruto entre o certo e o errado e o errado que deu certo. Sua música não salvará o planeta, assim como não salvará os brasileiros do futuro incerto, mas sua palavra tem força e poder dentro do universo ao qual é considerado majestade. MC Guimê tem influência dentro e fora do funk e isso para ele é a sua ostentação. Confesso que MC Guimê não me irrita, muito menos me tira do sério com suas músicas de baixo calão. Até ouço uma música ou outra do cantor. E ainda acredito que ele seja um futuro cantor de MPB, pois a tal ostentação um dia cairá. Flertando aqui e ali com a MPB e o samba, Guimê se mostra flexível com a música num todo, deixando livre arbítrio para compor, assim como fizera Marcelo D2, que conseguiu maior prestígio e respeito dentro da música assim que copulou com a MPB, sendo homenageado de perto.por bambas e mais bambas da MPB. Ostentação é o efeito de ostentar, tendo afetação direta na maneira de exibir riquezas ou dotes, tendo alardes de ações ou qualidades. Em outras palavras, ostentação é riqueza, pompa, fausto, luxo.  MC Guimê prova de seu próprio líquido ao se lançar como um funkeiro ostentação do momento, não pensando no amanhã. Suas músicas tem apologia a drogas ilícitas e a mulheres vulgares. E mesmo assim, ainda tem tempo para andar de carros importados, demonstrando que o funk pode ser fonte de riqueza futura, desde que sabendo ousar, tendo atitude e pensar diretamente na palavra ostentação. O funk então teria saído mesmo das favelas? Ou teria saído de um beco qualquer e indo parar nas linhas emergentes? MC Guimê é a prova de que o funk e a sua capacidade de pensar foram o ponto extra para o calibre de seus sonhos: ostentando aquilo que se almeja, chegamos em algum lugar. Mesmo que este lugar não seja o seu.

 

MC Guimê ou Funk Ostentação?
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Luiz Marques: um cantor a altura do Brasil


Luiz Marques: talento e sofisticação
Em 2005, o cantor e compositor mineiro Luiz Marques brindou a música popular brasileira com um CD que carrega apenas o seu nome e sobrenome. A partir daquele momento, surgia um dos discos mais emocionantes que já ouvi em toda a minha vida: um disco caprichado, completo, perfeito, divino, adorado, sensível, romântico, brasileiro. Luiz Marques é um dos melhores cantores e compositores de seu tempo e este talento já é comprovado por sua carreira composta de muita música, brasilidade e carisma. E Minas Gerais agradece ao seu propensão e ao seu prestígio junto à boa MPB, que vez ou outra nos norteia com cantores à sua altura. Uma boa voz, que interliga a cultura de sua região com a doçura de todo o Brasil, Luiz Marques consegue alcançar horizontes tão altos e puros, que sua música se torna algo pertencente à nós, meros ouvintes, que ficamos embasbacados com o tamanho de sua natureza. Suas músicas refletem aquilo que queremos ouvir: seja uma canção de protesto, seja uma canção religiosa (Luiz é devoto de Santa Terezinha), seja nas canções de sentimentalismo aflorado, como na bela e arrebatadora Nem Um Minuto, que mais parece uma carta de amor sem volta, um acalanto, um resfriamento de alma. Sua música é verdadeira, sua voz é um uníssono contra a poluição sonora que cisma em assolar nossos ouvidos. Como ele mesmo canta na música de protestação Fênix no Ar: ‘eu vou dançar, eu vou cantar, eu vou voar!’ E é justamente isso o que o cantor faz de melhor: cantar. Seu brejeiro reconvexo de cantoria nos deixa encantados e a emoção é certeira ao ouvirmos músicas como Para Te Encontrar, que conta a história de um amor perdido no ar, mas que fazemos de tudo para encontrá-lo. Homenagens à Belo Horizonte estão na singela Ser Tão Cidade e basta fecharmos os olhos para visualizarmos a cidade, o mato, o leite derramado, os pastos, a cidade, o sertão, o amor. Basta fecharmos os olhos para sentirmos o cheiro de Minas Gerais, um cheiro puro, de chuva, de sol, de belo horizonte.  Mídia do Caos é um manifesto contra a mídia especializada em notícias ruins e nas pessoas que insistem em ficar atentas, antenadas, sublinhadas neste caos chamado tragédia, sendo uma boa sacada para criticar, assim, todos os meios de comunicação em massa. Mas a tarefa de Luiz Marques é cantar e isso ele o faz muito bem. Cantar. Soltar a sua sensibilidade para o próximo. Voar na melodia de suas letras e de seus sonhos. Voar, apenas. O ponto alto de Luiz é a sua sensibilidade, que nos transpassa através de sua emoção, contida, guardada dentro de si, num manto sagrado, num confortável riso singelo. Esse talvez seja o segredo de Luiz Marques: ele surge, começa a cantar, começa a  nos emocionar, começamos a nos envolver e ele a nos embalar com suas ricas músicas, com seu rico vocabulário, com sua rica interpretação, com seu majestoso violão e nos emocionamos sem querer, pedindo para que aquele momento não acabe jamais. Isso é para poucos. Ouvindo Luiz Marques e seja qual for a música de sua autoria ou de qualquer um de seus CDs ou do DVD Mira Certa, eu consigo ter um momento de paz, de tranquilidade, momento em que consigo pensar nos planos, no próximo futuro, na boa música brasileira. Essa sensação de poder criativo e imaginário é para poucos. E Luiz Marques é um dos poucos cantores e compositores que conseguem me hipnotizar com sua música.

 

Luiz Marques: um cantor a altura do Brasil
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

A nova (e triunfal) Ana Carolina


Ana: volta por cima em novo disco
Fazia tempo que eu não escrevia sobre Ana Carolina. Aliás, desde quando comecei a escrever para este blog eu não fiz outra coisa senão criticar Ana Carolina. A cantora surgiu como uma das grandes revelações dentro da MPB, cantando de Chico Buarque a Djavan e até regravações de Gal Costa, dando a entender que a MPB estava salva, mas que logo após seu terceiro disco tudo isso mudara e Ana Carolina se renderia ao pop confuso e paralelo da periférica cidade sem dono que assola o Brasil com suas diretrizes mal intencionadas. Mas depois de tanto tempo, Ana volta radiante em um disco de ineditas desde 2009 e volta triunfal para o cenário da música popular brasileira como uma das grandes cantoras deste país. Com uma excelente capa (uma das mais criativas de sua carreira e uma das mais bonitas dentro da MPB), Ana Carolina voltou a ser uma cantora de verdade, de nome e sobrenome e voltou a ser... Ana Carolina. Saindo da rotina de quase uma década de sucessos precários e desnecessários, Ana Carolina mergulhou inteiramente no pop e na velha e boa MPB em seu novo disco #AC (2013 / 29,99 / Armazém). A cantora solta seu vozeirão característico em cima de uma programação eletrônica com percussão e manda bem em quase todas as faixas. Ainda assim, mesmo passando por sons diferentes dos habituais, Ana Carolina realmente se sente mais a vontade em seu novo disco, sendo ela mesma. Mesmo sendo uma das principais artistas da atualidade, Ana Carolina fez de seu sexto disco um dos melhores de 2013 em 14 anos de carreira e o trabalho tem parcerias com nomes de peso, como o mestre Guinga, criador da música Leveza de Valsa, Edu Krieger (que desta vez rouba o lugar de Antonio Villeroy e abocanha cinco faixas no álbum) e as participações de Moreno Veloso e Carlos Rennó. Produzido pelo competente Alê Siqueira e pela própria Ana, o disco temporiza temas contemporâneos, dividindo atenção com artistas renomados no mundo musical. Chico Buarque, o culpado pela formação musical de Ana Carolina, está presente e faz uma bela participação na música Resposta da Rita, cujo foi gravada na década de 1960 por Nara Leão e deixando uma vigorosa Ana Carolina restabelecida dentro da música popular brasileira com um disco a altura de seu talento.

 

#AC (2013) / Ana Carolina
Nota 8
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Os planos de Márcia Tauil para 2014


Márcia e Roberto: vem coisa boa por ai.
A cantora Márcia Tauil se encontrou com um dos pais da Bossa Nova, Roberto Menescal, para juntos desenvolverem uma parceria que será lançada no próximo disco da cantora, que está para ser lançado neste ano de 2014 com muita ansiedade por este crítico que vos escreve. Todos os discos de Márcia são um bem para a nossa vida, para os nossos ouvidos e para a nossa cultura, pois sua voz é espetacular e aveludada. E não é de hoje que os dois monstros sagrados da música brasileira se encontram: esse espetáculo de vozes, violões e cantorias vem acontecendo há um certo tempo, na ponte Rio-Brasília, de onde saiu o sensacional disco Elas Cantam Menescal, quando quatro grandes e belas vozes se uniram para reverenciar o talento de Menescal. Agora em pré produção para o novo disco, Márcia convidou Menescal para  dividir com ela a tarefa e o desafio de fazerem algo benéfico para a nossa cultura brasileira. A cantora esteve no Rio de Janeiro, em plena Cidade Maravilhosa, dando os retoques nas gravações e pelo visto, vem coisa boa por aí. Aliás, tudo o que vem desses dois gênios da música brasileira é visto como coisa boa, música certeira, música de calibre, música gostosa para ouvir. Agora basta esperarmos para que o disco fique pronto com todas as calorias que Márcia Tauil possa nos presentear.

 
Os planos de Márcia Tauil para 2014
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Trio Bonito: a nova sensação de Brasília


Trio: uma mulher, dois homens
Já disse em outros artigos o quanto a voz de Nathália Lima é doce e cristalina. Brasiliense e grande pesquisadora da música popular brasileira, Nathália é uma das maiores cantoras do Brasil, sendo reconhecida até mesmo por Roberto Menescal, um dos pais da Bossa Nova, ao qual fez uma bela participação no disco Elas Cantam Menescal. O ano nem começou direito e Nathália já entrou de cabeça em planos que vão além de sua rica e saudável voz: a cantora se juntou a dois amigos e juntos criaram o Trio Bonito, que já vem fazendo um certo barulho na capital do Brasil, local onde o grupo foi formado.  Nascido em Janeiro deste ano, o Trio Bonito é composto pela competência e jovialidade de Nathália Lima (voz), pelas guitarras de João Baptista e pelo percussionista Mariano Toniatti e o grupo surgiu para trazer alegria por meio das músicas mais bonitas e amadas no mundo, vulgo a nossa música popular brasileira. Com influências de grandes compositores populares da antiga e da nova geração, como Gonzaguinha, Roque Ferreira, Chico Buarque, Edu Krieger, Zeca Baleiro, Criolo e de grandes mestres do brega, como Reginaldo Rossi e Nelson Ned, o Trio apresenta os mais variados ritmos brasileiros e suas referências, tudo com muita modernidade e com novas roupagens, em clima de festa.  Portanto, quem gosta de músicas boas, interpretadas por uma voz bonita e talentosa, tem que conhecer o trabalho de Nathália Lima. Basta acessar o site www.soundcloud.com/triobonito e conferir a voracidade e capacidade vocal da cantora. Simplesmente belo, o Trio Bonito tem tudo para emplacar como um dos trios mais sensacionais dos últimos tempos, tanto pela qualidade vocal, quanto pela técnica de todos envolvidos. A porta-voz do trio é uma jovem muito bonita e já mostrou maturidade artística ao lado do monstro sagrado Menescal e ajuda a conservar a área musical brasiliense com sua rica formação musical. A voz firme e diáfana de Nathália viaja dos graves ao agudo com extrema facilidade e leveza e esse brilho em sua carreira de interprete faz toda a diferença. O estilo do Trio Bonito é fortemente ligado às raízes brasileiras de forte qualidade e grande relevância musical, sendo marcado principalmente pela cultura e pelo reverenciamento brasileiro e é essa a diferença e sofisticação do trio, que consegue captar toda a alegria, dramaticidade, sensibilidade e carência nas músicas, dando-lhes novos acordes. Gostei e muito do que ouvi ao som do Trio Bonito e a vontade é de estar sentado de frente à eles, os vendo cantar, tocar e nos alegrar. E apostem: o Trio Bonito será uma grande referência musical para todos nós.

 

Trio Bonito
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Flávio Tris: um sopro de alívio na MPB


As boas intenções de Flávio
Cantor independente do cenário musical brasileiro, Flávio Tris é exatamente aquilo que eu gosto de ouvir, sem ter a afetação generalizada que alguns bons cantores carregam hoje em dia: ele tem música na veia, tem boa voz, tem estilo e canta muito bem. Comparo Flávio a dois grandes cantores surgidos nos últimos tempos: Filipe Catto e Marcelo Jeneci, mas cada um ao seu jeito e Flávio também ao seu jeito. A comparação é inevitável até mesmo porque suas músicas se entrelaçam e, se fecharmos os olhos, temos a sensação de duvidar de quem é a letra, de quem é o som, de quem é a melodia, de quem é aquilo: de Marcelo, de Filipe, de Flávio? O bom mesmo é que Flávio surgiu em 2010 expondo um resultado em EP com cinco faixas mal digeridas pelo público. Em 2013, o cantor voltou a aparecer e apresentou nove canções autorais, unificadas a quatro daquele trabalho de estreia. Lançado na forma independende, com apoio do governo paulista, o disco teve a competente produção de Alê Siqueira e recebeu o título com apenas o nome do artista. Se dividindo entre o vigoroso violão e o magistral piano , Flávio se mostra inspirado em várias faixas, tanto nas letras quanto nas melodias. Nesse primeiro tópico, o disco tem achados poéticos, que aqui nos revelam um novo Caetano, de forma direta e forte. É o caso singelo de Selva, que trata o ato sexual de uma forma pouco ortodoxa. Pandora também é cheia de beleza e suavidades, assim como Asa de São João é um baião moderno, que mantém os olhos na tradição nordestina.  A voz melancólica de Flávio e as poucas variações de suas letras soa, por vezes, irônica demais para um disco sentimental e uniforme, mas essa qualidade é a principal atração para que o cantor os convide para ouvi-lo, valorizando seu disco do começo ao fim. O encontro com Tulipa Ruiz no bolero Sejas Tu é o ponto alto. Sublime. Divino. Audacioso. Hino mesmo é a sensacional Sol Nosso de Cada Tempo, que ganha toques divinos e vocais de Celso Sim. Encerrando o disco com chave de ouro, Tudo é uma marchinha de carnaval que ganha coro do principal coro masculino da nova safra de excelentes cantores da MPB: Celso Sim, Leo Cavalcanti e Filipe Catto. Flávio Tris acertou em cheio nesse disco e por um tris não entra na música popular brasileira como um dos melhores cantores de sua geração. Vale ouvir muitas vezes.


Flávio Tris / Flávio Tris
Nota 10
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Os sinais de Ney Matogrosso


 
Ney em boa fase
Ney Matogrosso consegue agradar à gregos e troianos, literalmente. É um cantor que não parou no tempo, não canta músicas para ficar na memória de um subconsciente qualquer, não canta músicas intelectualizadas, como faz hoje Chico Buarque ou João Bosco e entra na onda de Caetano Veloso, Djavan e Gilberto Gil, que fazem um som mais moderninho para a idade que tem. Ney Matogrosso virou pop, cult, cool. E essa onda de modismos a qual adentrou fez muito bem a sua carreira marcada por músicas fantásticas e egocêntricas e ao mesmo tempo se transformam num cartão postal para a modernidade e, quem sabe, para a posteridade. Ney Matogrosso lançou no final do ano passado o sensacional Atento aos Sinais (2013 / 28,99 / Som Livre) título que saiu da canção Oração, de Dani Black, um dos compositores mais procurados da atualidade e que traz uma nova roupagem ao mundo de Ney, como as parafernalhas e vestimentas que todos esperavam. Desde Inclassificáveis (2008), Ney não vinha se vestindo a carater e deixou a sua voz falar mais alto do que seus passos e danças. Com Atento aos Sinais volta ao ar o velho Ney Matogrosso, o pop, o cult, o cool. Ney Matogrosso é um dos artistas mais marcantes dentro da MPB e uma das figuras mais aclamadas pela crítica especializada. Assim, talvez, pode ser definido o cantor, dono de uma carreira marcada pela irreverência e pela ousadia em suas performances e que lançou no ano passado um disco que marca seus 40 anos de carreira. O CD tem interpretação singular de Ney para compositores novos e consagrados, como Paulinho da Viola, Itamar Assumpção, Criolo, Vitor Ramil entre outros. Mesclando canções em uma criteriosa seleção, o repertório inclui músicas como Roendo as Unhas, de Paulinho da Viola, duas de Itamar e Oração, de Dani Black, música que inspirou o título do álbum. Atento aos Sinais é um disco intimista. Com músicas de alto astral e com pitadas de politicagem, o disco vem recheado de nuances, músicas conturbadas e com um acento mais politcamente correto. Ney volta a adotar o estilo descobridor de talentos, mas veio flertar com compositores de outras estirpes musicais, como Criolo, de quem gravou Freguês da Meia-Noite, passando por Rafael Rocha em Não Consigo e tendo o seu maior talento como prova maior de que os novos são talentosos, como o caso de Dani Black. Mas em quase todo disco de Ney já podemos esperar um pouco de Itamar Assumpção, Vitor Ramil, Alzíra Espíndola e Pedro Luís e aqui não foi diferente. Embora tenha sido um erro fatal regravar Noite Torta e Isso Não Vai Ficar Assim (ambas de Itamar) e ter escolhido uma música menos calorosa de Pedro Luís, o disco ainda assim é um dos melhores que fecharam o ano de 2013. Noite Torta e Isso Não Vai Ficar Assim foram gravadas anteriormente por Zélia Duncan em seu disco do ano passado, em que homenageia o grande Itamar Assumpção, morto em 2003 em decorrência de um câncer, na qual o próprio Ney faz uma bela participação na segunda música citada. Em seu próprio disco, Ney (re)transforma a música, dando o ar de sua graça, mas o que acontece é um festival de canção repetida. Porém, seria melhor ter regravado Fico Louco, que só fora regrada por Virginia Rosa em seu disco de estreia e trata-se de uma música atual. Já Incêndio relembra um tempo perdido de Pedro Luís no grupo A Parede e regravar está música talvez não tenha sido um achado e tanto para o cancioneiro de Ney, já que as músicas de Pedro são sempre sensacionais (vale lembrar Miséria no Japão ou Fraterno, ambas gravadas por Ney em discos anteriores e que foram as sensações do momento). Abrindo com Rua da Passagem, um protesto de Arnaldo Antunes e Lenine, a música se tornou um sucesso nas redes sociais e veio a calhar sobre a falta de educação das pessoas nas ruas e em ambientes sociais, o que veio a calhar bem na fase de protesto do disco. Ousadia é pouco perto da sensual Beijos de Ímã, da família musical Espíndola, que nos remete às músicas de gueixa com um sotaque que só o Ney consegue fazer. Há também a profusão de palavras em Tupi Fusão, que nos remete a música Inclassificáveis e a engraçada Samba do BlackBerry. Ney conseguiu fechar o ano passado com o pé direito, digno de poucos artistas com a sua magnitude. E ainda tem tempo para ser humano, homem e sensato em não se sentir estrela.
 

Atento aos Sinais (2013) / Ney Matogrosso
Nota 8
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Mais Cultura 2014!


 
Mais Cultura 2014!
“Escrever requer usar disfarces”. A frase, proferida no excelente livro Outras Cores, do escritor turco Orhan Pamuk serve de exemplo para iniciar a maratona de artigos sobre cantoras e cantores para este ano de 2014. Obviamente que usar disfarces para escrever artigos musicais não é preciso estar usando máscaras para poder escrever o que se pensa ou que o leitor não quer ler. Mas usar disfarces, neste caso, requer ousadia, distração e cultura. Ousar é um dos pontos fortes de minha personalidade escrita e ousarei (ou tentarei) ousar ainda mais na  dicção de cada frase escrita. Distrair requer um momento em que eu mesmo falo comigo mesmo, afinal, quando sento na frente do noteboock, o que mais parece é que estou conversando com o cantor, orientando, tentando decifrar-te, tentando fazer com que ele me ouça e eu lhe digo seus erros e seus acertos. Distrair não precisa de disfarces, mas posso tentar usar minhas artimanhas para disfarçar meus arroubos distraídos. Cultura é o que mais quero escrever. Por mais que algumas pessoas insistem em dizer que eu não tenha que escrever sobre os lixos brasileiros assolados por aí, eu insisto que tenho que divulgar o que é de bom gosto e o que é péssimo gosto. Eu sempre digo que não sou formador de opinião, mas sim, um crítico que apenas comenta o que é para ser comentado. Assim como um escritor ouve críticas positivas ou negativas sobre seu trabalho, um determinado cantor ou cantora passa pelo mesmo crivo, um crítico musical passa pelo mesmo tormento ao qual os cantores passam. Se eu parar para ler as críticas severas à minha pessoa, eu já teria parado de escrever há muito tempo. O que aprendi nesse meio tempo foi que ser crítico tem lá suas vantagens: a vantagem de ser lido, adorado e odiado. Pra mim não importa. O ano de 2014 inicia-se como o ano das promessas musicais, tendo em vista que pelas minhas andanças, pesquisas e idas e vindas, descobri muita coisa boa, muita cantora escondida, alguns cantores presos em seus mundinhos e muita porcaria assolada nas favelas, barzinhos, inferninhos e casas de Madame Sophie. Que venha 2014. Sem disfarces.
 

Mais Cultura! 2014
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Entrevista com Emília Monteiro


Emília: cantora do Amapá foi revelação de 2013
Entre um contratempo e outro, uma viagem à Macapá e shows ao lado de Dona Onete, Emília Monteiro reservou um tempinho para dar uma entrevista para fechar o Mais Cultura! com chave de ouro. A cantora amapaense, que foi considerada pelo blog como sendo a maior (e melhor) revelação do ano de 2013, é digna de uma elegância sofisticada, de uma cultura sem igual, de um carisma arrebatador, de uma meiguice profunda e de uma delicadeza incomum, que faz deste critico musical ficar ainda mais apaixonado por sua música. Dona de uma voz poderosa e detentora dos cantos amazônicos, Emília Monteiro nos revela sua musicalidade, desvendando segredos, revelações, novidades e mais suingues para o próximo ano e revela que ‘Cheia de Graça vale como benção de Nossa Senhora quanto à analogia com o bom humor e a irreverência’ e diz que ‘as maiores vozes do Brasil são Elis Regina e Clara Nunes’.


Marcelo Teixeira: Por que seu disco recebeu o saboroso título Cheia de Graça?

Emília Monteiro: Marcelo, esta é uma pergunta interessante, porque foi simplesmente o acaso... Ângela Brandão, uma excelente compositora mineira, radicada em Brasília, me mostrou a letra que levava o nome Cheia de Graça e eu além de amar a poesia e todo o significado daquela letra, identifiquei que Cheia de Graça tanto vale como bênção de Nossa Senhora, quanto também à analogia com o bom humor e a irreverência e nos dois casos achei pertinente colocar o nome no CD, assim ele já estaria abençoado e bem humorado ao mesmo tempo...

M.T: Hoje você é uma cantora reconhecida em todo o território nortista e aos poucos está desbravando o Brasil inteiro. Se sente realizada com este sucesso já no disco de estreia?
E.M: Me sinto feliz, percebendo que, por ter feito um disco que não se enquadra numa MPB dita tradicional, consegui ter os bons olhos de blogs especializados em música, assim como de críticos de música e principalmente do público... É claro que era algo que eu gostaria mesmo que acontecesse, mas me surpreendi por estar sendo dessa maneira... Ainda não me considero realizada porque o trabalho acabou de começar, mas estou muito satisfeita, principalmente por ser o primeiro Cd.
 
M.T: Dona Onete é uma figura tarimbada no Norte do País, uma cantora e compositora valorizada no Amapá  e de onde você extraiu algumas de suas canções para gravar Cheia de Graça, inclusive com participação dela. Conte-nos um pouco sobre a amizade de vocês.
E.M: Dona Onete é uma pessoa iluminada, uma força da natureza, uma entidade... A conheci pelo youtube e logo me apaixonei e entrei em contato com ela para gravar uma música, dizendo que estava apaixonada pelo Moreno Morenado dela e que queria gravar eu disse: ‘Dona Onete, eu quero este moreno pra mim!’ Ela riu e falou que esse moreno já tinha dona, que era ela, mas que faria um pra mim... E fez !!! Eu Quero Este Moreno Pra Mim foi uma música feita pra mim por ela... Ela nem me conhecia pessoalmente quando a fez, então a nossa empatia foi instantânea, desde o primeiro momento, quando nos conhecemos pessoalmente, na oportunidade da gravação da participação dela, era como se já a conhecesse de longa data, ela hoje é parte da família, todos nós a amamos. Quando fiz o lançamento do Cd no Clube do Choro dia 30 de julho ela estava lá comigo, me abençoando... É difícil descrever, eu sou super fã dela como artista e como ser humano, um verdadeiro presente da vida !

M.T: Quais foram suas influências musicais?
E.M: Foram várias, minha casa sempre foi uma casa musical, meu pai era cantor em Macapá e deixou de lado o sonho para fazer carreira no Banco do Brasil, ele sempre ouviu de tudo e fez questão de nos passar todas as suas influências musicais, então eu já nasci escutando música, jazz, MPB, Bossa, Jovem Guarda, Tropicalismo, Chorinho, mas principalmente as vozes femininas de cantoras que tocaram a minha alma como Elis Regina, Clara Nunes, Alcione, Zizi Possi, Elza Soares, Ângela Maria, Rita Lee, Fafá de Belém... todas fazem parte da minha formação musical. Nossos fins de semana sempre foram regados de boa comida e muita música, minha mãe sempre disse que casa sem música é uma casa triste, eu concordo com ela ! rsrsrs

M.T: Gostaria de dividir uma música com qual cantor ou cantora em um disco futuro?
E.M: Nossa, que difícil essa pergunta, mas adoraria cantar com todas essas que mencionei acima, algumas infelizmente já se foram, ter cantado com a Dona Onete já é uma realização de sonho, mas minha primeira ‘ídola’ foi a Rita Lee, porque aos 8 anos eu não escutava Balão Mágico, escutava Rita Lee, cantava sentindo Shangrilá como se fosse uma pessoa muito vivida...rsrsrs Quem sabe, né ? rsrsrs

M.T: Seu disco de estreia teve muitos sons do Norte, como carimbó, marabaixo e lundu. Aqui em São Paulo praticamente não se ouve esses sons, que é de uma riqueza profunda. Pensa em algum dia vir a fazer um show pelo Sudeste?
E.M: Claro!! Estamos com planos e projetos de em breve, provavelmente no próximo ano, levar esse som pra Rio, Sampa e Belo Horizonte, são os meus próximos planos, já que o lançamento do Cheia de Graça também já aconteceu em Macapá e já está agendada para o primeiro trimestre em Belém.

M.T: Você sonhava em ser cantora ou tinha outra profissão em mente?
E.M: Eu amava cantar, sozinha, pra amigos ou pra uma platéia grande... Mas não tinha maiores pretensões com a música, não havia pensado seriamente na música como fonte de sobrevivência, era um hobby que me realizava, mas eu acho que a arte não é opção na vida da gente, é missão mesmo. A minha consciência a respeito disso agora é diferente, o Cheia de Graça foi um divisor de águas na minha vida, não me vejo mais sem cantar, então, virou um sonho real.

M.T: Como foi o processo de criação do disco?
E.M: Foi uma delícia!! A idéia começou em 1998 quando gravei a canção Mal de Amor, que é um marabaixo lá em Macapá. A partir daí passei a incluí-la no meu repertório aqui em Brasília, com uma grande curiosidade e aceitação do público... Aí eu já sabia que se algum dia gravasse um CD, ele teria como missão trazer à tona ritmos amazônicos justamente porque as pessoas desconheciam e ainda desconhecem essa riqueza brasileira, fruto da nossa linda miscigenação de 3 raças, a branca, indígena e negra que nesse caso se traduz musicalmente, mas que vai muito além da cultura, passa pela religião, gastronomia, comportamento e sabedoria. Como filha amapaense, não posso deixar de me orgulhar disso tudo e de fazer a minha parte divulgando os compositores e esses ritmos maravilhosos.

M.T: De Ellen Oléria a Zeca Baleiro, passando por Dona Onete, Márcia Tauil, Simone Guimarães e Suely Mesquita, sem falar do experiente Celso Viáfora, completam um time de competentes compositores. Você deixou algum compositor  de fora deste disco?

E.M: Mas é claro!!! Vários!!! Compositores do Amapá, Pará, Brasília, Rondônia, Acre, Sampa e Rio estão na minha mira para o próximo trabalho. Me sinto muito privilegiada de ter podido contar com estes maravilhosos compositores no meu disco de estréia.

M.T: Emília, você foi eleita pelo Mais Cultura! como  cantora revelação este ano. Como se sente sabendo deste título?
E.M: Uau!!! Me sinto feliz e muito grata por estar recebendo esse título, mais feliz ainda porque esse título traz à reboque a certeza de que estou no caminho certo intuitivamente...

M.T: O ex-Titã Charles Gavin e  Zé Vaz, do blog Som do Norte, elogiaram assiduamente seu disco. Logo em seguida veio o blog Eu Ouvo com uma crítica apaixonante. O Mais Cultura! saiu na frente e, em abril deste ano (2012), fez um longo artigo sobre seu lançamento (o mais aguardado de todo o Norte / Nordeste), antes mesmo de estar no mercado fonográfico. Essas críticas em relação ao seu disco aumenta a responsabilidade para o próximo trabalho?
E.M: Com certeza! Tive também a alegria de ter o meu Cd resenhado poeticamente por Aquiles Reis (do MPB4), por Mauro Ferreira (do Blog Notas Musicais), o próprio Zeca Baleiro fez um comentário lindo sobre ele. Sei que a expectativa para um próximo trabalho é natural. O que eu posso dizer é que nesse primeiro trabalho, eu só gravei músicas que traduzem a minha verdade, tenho certeza de que é por isso que as pessoas que gostam é porque conseguiram identificar isso. Não será diferente num próximo trabalho, assim como diz Milton Nascimento em Certas Canções : Certas canções que ouço cabem tão dentro de mim, que perguntar carece: Como não fui eu que fiz?! Certa emoção me alcança Corta-me a alma sem dor Certas canções me chegam, Como se fosse o amor.

M.T: Sei que ainda é cedo, mas já está pensando em um novo disco?
E.M: Já estou sim, essa pesquisa de repertório nunca pára pra uma intérprete...

M.T: Na sua opinião, qual o critério para se fazer música no Brasil?
E.M: Eu não sei se eu diria critério, mas a característica principal de quem faz música no Brasil com certeza é a perseverança e a fé, porque ainda vivemos num país que não prioriza a cultura, infelizmente. O artista independente, que não conta com a mídia a seu favor é um herói por definição.

M.T: Qual a maior voz do Brasil na sua opinião?
E.M: Eu não conseguiria dizer uma única voz, mas Elis Regina e Clara Nunes são algumas das vozes que me fizeram querer cantar pra libertar a alma desde pequena.

M.T: Emília, se você se auto definir com uma música de seu disco, qual seria esta música e por que?
E.M: Esse é um disco essencialmente feminino, das 12 canções, 7 foram compostas por mulheres, então todas as músicas me traduzem com certeza, se é pra escolher uma, então eu escolho Cheia de Graça, porque foi por um momento pessoal de superação e mudança de paradigmas que eu decidi fazer o CD, e a canção fala do recomeço: ‘Limpei o pó das cortinas, pus alecrim na janela, vento que passar por ela vai mudar o horizonte... Varri o chão e a soleira, lavei com água de cheiro, passo que eu der aqui dentro vai ser de novo o primeiro... Se me fez chorar não tem de quê, é água que eu uso pra me benzer que eu sou Maria Cheia de Graça’!

Emília, gostaria de agradecer profundamente à você pela simpatia e pelo espaço dado ao Mais Cultura!, concebendo esta entrevista, fechando  com chave de ouro o ciclo de artigos para este ano de 2013.


Até 2014!!!


Entrevista com Emília Monteiro
Por Marcelo Teixeira

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

É melhor ser... Simone!


Um disco atrativo de Simone
Simone voltou e mais bela e confiante do que nunca. Assim a cantora sentencia seu novo disco, aos 63 anos de idade e em plena forma, lançando um disco apenas com músicas de cantoras brasileiras, dando uma reviravolta em sua carreira. É Melhor Ser (2013 / 26,99) tem um desfile de ícones brasileiras, como Angela Ro Ro, Rita Lee, Adriana Calcanhoto, Joyce, Fátima Guedes, Dona Ivone Lara, Marina Lima, Teresa Cristina, Joanna, Sueli Costa, Alzíra Espíndola.  As curvas femininas dão toda a diferença neste disco, que está redondo, como definiu a cantora em entrevistas recentes. O amor parece ser o fio condutor das 13 faixas, com suas calmarias e seus ventos uivantes que reinaram praticamente toda a carreira de Simone. É Melhor Ser é ousado e criativo, feminino e sedutor, capaz de nos envolver já nas primeiras notas do primeiro áudio e este momento sublime da cantora reflete de um modo geral dentro da MPB, que está repleto de cantoras novas, mas sem o brilho de Simone. O disco vem em um momento de transição na carreira da cantora, que vinha de um certo ostracismo, lançando discos atemporais e sem graça e sem o apoio da crítica especializada. Quem acompanha a carreira de Simone não estranhará seu lado autoral neste novo disco que, a propósito, recheia o disco com os privilégios femininos e suas pérolas predominantes do amor. Entre as que ainda não havia gravado destaca-se Mulher o Suficiente, de Alzíra Espíndola em parceria com Vera Lúcia Motta, Os Medos, de Joyce com Rodolfo Stroeter e Haicai, de Fátima Guedes. De Zélia Duncan surge Só se for, belo bolero que Simone também assina a co-autoria, Adriana Calcanhotto surge em Aquele plano para me esquecer e de Teresa Cristina temos Trégua suspensa. É Melhor Ser é um disco diferente na carreira de Simone por ser mais a cara de Simone e voltar aos tempos de estrelato total. Simone ainda continua na ativa, dando um show de interpretação e sendo considerada, ainda, um ícone da música popular brasileira. E para as cantoras novas que surgem a cada esquina sem um pingo de criatividade, aconselho a ouvir esse disco sensacional, com uma voz agradabilíssima e sem estrelismos.

 
É Melhor Ser / Simone
Nota 10
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Os oásis de Maria Bethânia


 

Os oásis de Bethânia reunidos
O 50º álbum de Maria Bethânia, Oásis de Bethânia (2012 / Biscoito Fina / 35,00) vem com força total e com um tom de desabafo e fúria por parte da interprete de Cárcara, tamanha a voracidade com que as palavras são jogadas da boca da cantora. A prova maior disso é a regravação de Calúnia, do repertório de Dalva de Oliveira: a letra nervosa já avisa quisestes ofuscar minha fama, até jogar-me na lama só poruq eu vivo a brilhar; sim, mostras-te ser invejo, viraste até mentiroso, só para caluniar. Outro momento de desabafo é Carta de Amor, que, apesar do nome, é na verdade, um aviso dizendo Não mexe comigo, que eu não ando só. Em seguida, santos, entidades e até Jesus, entre muitos outros, são invocados em sua proteção, culminando no fim em um discurso em que afirma que esta pessoa que está tentando derrubá-la não passa de um nada. Maria Bethânia surge ainda mais forte neste disco, depois de lançar inúmeros discos igualmente fortes, com sua voz potente e cortante, mas neste mesmo disco há espaço para interpretações de cunho mais denso e emocional, que é especialidade de Bethânia, como a sensacional Casablanca, de Roque Ferreira e Vive, composta por Djavan. Com este novo trabalho, florido e forte Bethânia reafirma-se como intérprete maior deste Brasil. A sua presença e trabalho ainda é de grande relevância para a nossa música popular, queriam ou não. Oásis de Bethânia se aproxima da literatura, sem afastá-la da música e esse lirismo faz toda a diferença aqui.  O tal oásis de Maria Bethânia fica no sertão, com seu silêncio, seu céu limpo, gente digna e a proximidade de Deus. Com mais de 47 anos de carreira, a cantora lança um disco intimista, como uma capa e cores diversificadas em suas dez faixas e com um sabor de quero mais. O CD traz os seus preferidos Roque Ferreira e Paulo César Pinheiro, além de Jota Velloso (seu subrinho), Djavan (34 anos depois do estouro de Álibi) e dois clássicos: Calúnia, já citado acima e Lágrima, de Orlando Silva. O disco é um dos melhores lançamentos da cantora, que já não precisa mostrar a ninguém sobre sua carreira, trabalho ou algo. Basta fechar os olhos e ouvir os oásis de Bethânia.

 

Oásis de Bethânia / Maria Bethânia
Nota 10
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

O Canto Sagrado de Fabiana Cozza


 

Justa homenagem a Clara Nunes
Se viva estivesse, Clara Nunes já estaria com 70 anos, cabelos menos volumosos, talvez mais escuros, pele mais enrugada e nos brindando com seu sorriso encantador. Clara Nunes partiu cedo e deixou um rastro de saudade que não foi preenchido até hoje, mais de trinta anos de sua morte. A lacuna que a cantora deixou jamais será completada e suas músicas jamais terão o mesmo brilho de sua primeira interprete. Clara Nunes não morreu: partiu desta para uma melhor e está viva, eternamente viva, nos nossos corações, mentes e poros. Muitas cantoras se espelharam na beleza no canto da grande Guerreira, assim como muitos cantores também o fizeram, mas negam este destino. Já se foi o tempo em que Roberto Ribeiro, Gonzaguinha, Martinho da Vila ou João Nogueira falavam abertamente que eram apaixonados pela amiga Clara Nunes e que fizeram um samba especialmente à ela. Hoje os cantores mais moderninhos que cantam samba, insistem em dizer ou citar nomes como Dona Yvone Lara, Beth Carvalho, Alcione, mas esquecem da grande dama do samba, a rainha do império, a mestiça cabocla que evoluiu o segmento e que culminou definitivamente o nosso samba aos países aonde jamais imaginiriam que um dia chegaria. Exceto o cantor e compositor Diogo Nogueira, que acaba de lançar um disco inteiramente dedicado às mulheres e que na contracapa fez uma homenagem as mulheres que lhe tornaram um homem completo. Lá tem o nome da Clara, vindo acompanhado das citadas acima e de Clementina de Jesus. Algumas boas cantoras – e outras nem tanto assim – também fizeram neste ano de 2013 homenagens póstumas a cantora, umas com maestria, outras por pura pretensão. Casos como o da cantora Mariene de Castro, que lançou um disco maravilhosamente competente e contemporâneo e que fez desta homenagem uma forma de agradecer ao seu próprio público por esta abertura, tendo em vista que Mariene é uma discípula de Clara. Carla Visi, a cantora baiana que vem do axé fresco e atemporal, resolveu entrar na onda da maré cheia de Clara Nunes para lançar um disco horrendo e feito às pressas, bem característico desta cantora. Com uma capa horripilante e insensível, Carla Visi acabou por completo com as músicas que Clara eternizou, convidando cantores (?) que nada tinham a ver com a obra da homenageada, fazendo disso um dos piores lançamentos do ano. Mas ainda a competência e sensiblidade de uma grande cantora como Fabiana Cozza, vem nos enriquecer com sua potente voz lantente, que adentra em nossos tímpanos sensíveis e oriundos e nos brinda com uma capa deslumbrante, com um festival de músicas maravilhosas e com categoria digna de uma grande estrela da música brasileira. Fabiana Cozza consegue, já na primeira faixa, nos emocionar, nos dirigindo ao cancioneira da cantora mineira, a ponto de nos apaixonar, de nos arrepiar, de nos enaltecer. Fabiana Cozza surge como quem nada quer, nos trazendo um disco magnifico, sentimental e alegre, festivo, bem ao estilo Clara Nunes de ser. Este momento é mágico, porque Fabiana Cozza também é uma adepta do estilo de viver que Clara adotou, fazendo de sua voz e de seu estar, um motivo maior para brindar os fãs e sua própria carreira. Canto Sagrado (2013 / 29,99) é um disco que vem acompado de um DVD e as melhores músicas de Clara estão aqui. Peço atenção para a versão de Fabiana para Portela na Avenida, que ficou sublime, encantadora, arrebatadora. Um fiel trabalho de uma grande artista representando uma diva da música popular brasileira para fechar o ano com chave de ouro. Fabiana soube, milimetricamente, utilizar seus artificios para nos brindar com um disco a altura de seu talento. Voz primorosa, harmonia ginasial, músicas de embelezamento mútuo faz deste disco um presente de luz, um presente divino, um presente saboroso. Que este belo trabalho não seja menosprezado e que muitos possam ouvir, apreciar, comentar, admirar, respirar o ambiente deixado por Clara, sendo agora transpassado por Fabiana Cozza. Um digno e fiel respaldo de Canto Sagrado faz deste trabalho a maior dentre as honrarias feitas para Clara, sem diminuir aqui o trabalho (fiel, sedutor, carimbado, festivo) de Mariene de Castro. Clara Nunes, no meio deste mundaréu de céu e brancas nuvens, está sentindo o povo aqui embaixo celebrando seus 70 anos de vida e ela nos agradece sorrindo, respirando o nosso ar. Viva ela está. No nosso coração e no coração de quem a homenageia diariamente. Viva Fabiana Cozza! Viva o Canto Sagrado de Clara Nunes!

 
Canto Sagrado / Fabiana Cozza
Nota 10
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Gonzagão e Gonzaguinha juntos em disco memorável


 

Pai e filho unidos pela música
Um dos mais emblemáticos cantores de todos os tempos, Gonzaguinha foi um líder político, revolucionário, arquitetando brilhantemente suas canções conforme ia avançando o Brasil numa forma ainda mais emblemática e hostil. Lançado ainda em vinil em 1991, este disco traz belos momentos de Gonzagão e Gonzaguinha, pai e filho, dois dos mais importantes nomes da Música Brasileira. São ocasiões de sociedade que privilegiam composições de Gonzaguinha e a poderosa voz de Luiz Gonzaga, destacando alguns sucessos, e transparecendo uma combinação que teria rendido maiores contribuições à cultura brasileira se não fossem os conflitos que mantiveram pai e filho em caminhos de incompreensão e desafeto por muito tempo. A maior parte das canções é de leituras do pai sobre o trabalho do filho ainda entre 1970 e 1980. No repertório estão pérolas como A vida do viajante (Luiz Gonzaga/Hervê Clodovil), Mariana, Não vendo, nem troco e Eu e minha branca, compostas e interpretadas por Gonzaguinha e Gonzagão pela dupla; From United States of Piauí, Diz que vai virar, Pobreza por pobreza, Lembrança de primavera, Erva Rasteira e a belíssima Festa, compostas por Gonzaguinha, são interpretadas por Gonzagão; Pense n’eu, composta por Gonzaguinha, é interpretada pelos dois – uma das músicas mais belas da compilação; A triste partida (Patativa de Assaré) completa o disco com seu tom de reflexão social, tema bastante forte na obra de Gonzaguinha e na luta de Luiz Gonzaga pelo povo nordestino. Gonzagão & Gonzaguinha Juntos (1991 / Sony / 29,99) é uma coletânea recomendável para o fã de Gonzaguinha que busca conhecer seu lado menos obscuro, tendo em vista que estas canções, mesmo falando da realidade brasileira, são mais leves e ganham a espontaneidade de Gonzagão em interpretações singelas e verdadeiras. Os bustos sociais dos calvários fluminenses e do açoite sertanejo, respectivos berços de Gonzaguinha e Gonzagão, são porta-vozes destes dois importantes artistas que representam um país inteiro com uma música original. Juntos, abraçaram suas dores e seus conflitos, se reconciliaram e permitiram parcerias memoráveis que poderiam render mais frutos se a vida não os tivesse afastado tantas vezes.

 

 

Gonzagão & Gonzaguinha Juntos / Luiz Gonzaga e Gonzaguinha
Nota 10
Marcelo Teixeira