domingo, 23 de agosto de 2015

1980 foi o ano de Rita Lee?

Rita é Lee
1980 foi o ano de Rita Lee, mesmo tendo como concorrente grandes cantoras da categoria de Maria Bethânia, Gal Costa, Alcione, Clara Nunes, Elis Regina. Detentora única do rock brasileiro, Rita Lee já demonstrava que seus discos seguintes seriam pautados dentro de um segmento voltado para a ironia fina de um humor rebuscado, colocando em prática toda a sua sagacidade espontânea que a consagrou como artista. Rita Lee lançou um disco longe de ser intelectualizado demais, correto demais ou puritano demais: esse é um dos melhores e mais preciosos discos de toda a carreira da já considerada Rainha do Rock Nacional. Desfilando um enxoval de sucessos, como Baila Comigo, Nem Luxo Nem Lixo, Caso Sério, o disco, que vem como título o nome e sobrenome da cantora, também é popularmente conhecido como Lança Perfume, música que abre o álbum. Cantando maravilhosamente bem, o álbum Rita Lee (1980 / Som Livre / 29,99) alçou a carreira da cantora para a Europa e a América do Norte, fazendo com que a cantora adentrasse definitivamente no showbizz como uma das compositoras mais influentes daquele ano. Mas é correto eu afirmar que o ano de 1980 fora realmente de Rita Lee? Óbvio que esse questionamento é errado em ser afirmado por qualquer crítico de música, mas vale lembrar que Rita lançou um disco que não continha apenas um ou outro sucesso, mas sim, todas as faixas foram cantadas e recantadas por todas as faixas etárias, sendo uma epopeia de musicalidade de boa categoria de uma expoente do rock. Se em 1978 Rita veio com Babilônia, disco que trouxe poucas melodias ditas ótimas, Rita Lee trouxe um desfiladeiro de eternas canções, que ainda hoje, mais de trinta anos depois de seu lançamento oficial, continuam na boca do povo com um ar de saudosismo. Aquele ano de 1980 estava revolto: Elis não tinha lançado um bom disco, Clara Nunes estava em festa com seu álbum, Gal Costa brilhava com sua voz cristalina, Maria Bethânia lotava os teatros nacionais, João Figueiredo era o Presidente do Brasil, Chico Buarque enlouquecia a todos com a Geni e o Zepelin, o cantor Raimundo Fagner conseguira se desligar do Ceará e ganhar o Brasil por inteiro e Rita Lee lançava o disco que revolucionaria seu mundo e o mundo de muita gente.  A turnê Lança Perfume lotou as casas de shows do Brasil e sua música ficara mais rica e mais autoral. Sendo assim, Rita passou a ser pertencente a um grupo em que a boa música pediria passagem e entraria definitivamente para o rol das grandes artistas nacionais. Todos os anos são os anos de Rita, mas 1980 foi o seu ano, com um disco sensacional e que não pode ficar fora da coleção de qualquer colecionador ou amante da MPB e do Rock Brasileiro. E é por esse motivo que Rita é Lee.
Rita Lee (1980) / Rita Lee
Nota 10
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Gal é Estratosférica (2015)

Gal é Gal
Se Recanto  (2013) trouxe a sonoridade estranha, barulhenta e deliciosa de Caetano Veloso como forma de trazer à tona toda a magnitude e potência exuberante de Gal Costa, seu mais recente álbum vem com uma carga experimental acompanhada de jovialidade e bossa novista que deu certo. Estratosférica (2015 / Sony Music / 27,00) não remete a Recanto, assim como não remete a nenhum outro disco que Gal veio a lançar, mas em se tratando de ousadia, podemos dizer que Gal acertou em cheio ao fazer este belo álbum. A começar pela capa em que seus cabelos estão esvoaçantes e cada vez mais negros e seu sorriso demonstrando toda a sua felicidade (e sua marca registrada), o disco tem um regozijo que não se encontram em seus discos anteriores e nem lembra o ar pesado e político e sombrio de Recanto. O tropicalismo de Junio Barreto em Jabitacá faz com que Gal reinvente um jeito novo de soletrar as palavras e fazer desta canção uma linda história de cruzamento entre seu início de carreira e e seu tempo real. Sem Medo Nem Esperança (Antônio Cícero / Arthur Nogueira) remete perfeitamente ao mundo tropicalista, com suas instrumentações intimistas e cheia de parafernália que nos tende a crer que Gal não está de brincadeira e que no alto de seus mais de 70 anos, ainda pode nos mostrar coisas maravilhosas. O que Gal fez foi juntar uma boa galera atual e antiga para dar o ar da graça nesse disco. Assim como Ney Matogrosso fizera em seus discos desde o início dos anos 2000, Gal chamou os melhores artistas da atualidade para lhe darem canções novas e harmonias refinadas. O que se vê em Estratosférica é um disco bem acabado, muito bem cantado e muito bem produzido. Mas chama a minha atenção para que todos esses adjetivos acima soassem como algo que valem a pena uma reflexão. Todos os compositores que lhe entregaram as músicas parecem que a fizeram como se eles mesmos estivessem cantando. Explico: a música Estratosférica (Pupillo / Junio Barreto / Céu), está muito perto de do disco Caravana Sereia Bloom (2012), lançada por Céu. Assim como Quando Você Olha Pra Ela (Mallu Magalhães), sinto que mais parece ter saído do álbum Pitanga (2009), de Mallu. Se percebermos mais atentamente, Por Baixo (Tom Zé) é uma continuação de Tô e Amor Se Acalme, de Arnaldo Antunes, Marisa Monte e Cezar Mendes, é uma continuação de Aquela, lançada por Marisa no CD Infinito Particular (2006). Ainda colhendo os bons frutos do disco anterior e tentando arriscar as guitarras elétricas, Caetano surge com seu filho Zeca na composição de Você me Deu, que soaria bem em Recanto. Thalma de Freitas se junta a João Donato para comporem a romântica e sensacional Ecstasy e Criolo aparece com Dez Anjos, juntamente com Milton Nascimento, sendo talvez a grande parceria inédita do disco, demonstrando toda a força dramática de ambos os compositores para narrarem suas histórias Espelho d’água (Marcelo Camello / Thiago Camello) é uma baladinha sentimental que nos lembra e muito o bom tempo de Los Hermanos. Ilusão à Toa fecha com chave de ouro o disco, fazendo com que Johnny Alf seja relembrado com muita saudade. Mesmo sendo uma faixa que não estava prevista no álbum (e sim encomendada para ser trilha de novela global), Gal conseguiu passar uma enorme emoção com essa canção de 1961. Estratosférica veio para ficar e ser o disco do ano, tendo em vista que muitos críticos de música assim o elegeram e eu mesmo sou suspeito para dizer o contrário. Gal conseguiu reunir um timaço de estrelas contemporâneas para darem o ar de suas graças no cenário da música popular e conseguiu, mais uma vez, ser a estrela maior da nossa música. Mesmo deixando Chico Buarque (que não anda tendo inspirações coerentes) e Gilberto Gil (que não compõe há um tempo algo inédito) de lado, o novo disco de Gal é resultado de um trabalho satisfatório, energizante, cristalino e doce. Cantando cada vez melhor, tendo uma subordinação total de sua voz, Gal consegue nos hipnotizar, chegando a fazer deste disco um tropicalismo sem igual, adentrando em nossas almas assim como em nossas bocas, peles, mentes e casas. E é por isso que Gal é Gal.
 

Gal é Estratosférica (2015)
Nota 9
Marcelo Teixeira

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

O Guelã de Maria Gadú


Guelã: Audacioso e atemporal
Maria Gadú e aquele tipo de cantora que você ouve agora, mas descarta já em seguida. Ela não é única nesse segmento expressivo de música de momento, mas para não fugir do foco, ficarei apenas em Maria Gadú. Tudo soa como estranho em Guelã (2015 / 25,99 / Slap), mais recente trabalho da cantora, que aposta no sincronismo da música de qualidade e intelectualizada (isso aconteceu com Lenine em seu recente disco Carbono) e ao mesmo tempo aposta na sonoridade diferenciada daquilo que tanto Maria Gadú já fizera como com o som que rola ultimamente por ai. Diferentemente de seus trabalhos anteriores, Maria Gadú tenta se expressar através da música como sendo uma detentora daquilo que acredita ser seu mantra: a música que adentra em nossos poros e fixa-se em nossas mentes. Se em Maria Gadú (2009) havia um lado muito biográfico da cantora e Mais uma Palavra (2011) estivesse mais próximo da virada musical da cantora e apostando já na qualidade de seu som, Guelã é adverso a tudo aquilo que Gadú já fizera, desde composições e harmonias. Não é, definitivamente, o melhor CD da cantora e esse está longe de ser uma obra-prima, mas é um grande avanço de Gadú dentro da MPB, com uma sonoridade exclusiva de uma cantora que experimenta sons hibridamente conscientes e nada simplórios. Mas nem todas as faixas são boas: Guelã precisa ser ouvido várias vezes para se chegar a um determinado comum de aprovação ou satisfação completa e ainda assim sentimos que falta algo para ser de fato um grande disco. Maria Gadú não tem uma grande voz, não tem uma presença de palco marcante e até arrisco a dizer que ela não encanta quando canta, pois está mais interessada em interpretar o não entendido do que se banhar das canções, mas não posso negar que sua participação dentro da música popular brasileira ainda é uma qualificação imprescindível. Guelã não será um disco que muitos vão parar para ouvir, comentar ou dar de presente. Será um disco passageiro, remoto, quieto, calmo, denso e atemporal na carreira de Maria Gadú. Nem todas as faixas são importantes para a complementação deste álbum: Trovoa é uma música arrastada, inquieta e que cansa demais, mas se você a ouvir outras vezes com calma, talvez tente entender a mensagem da cantora (o que para mim transpassa um lado biográfico que o compositor Mauricio Pereira talvez a tenha imaginado para ela). Destaques mesmo são as músicas Obloco e Tecnopapiro, magnífica e ambas de sua autoria, que transmitem uma atmosfera de puro êxtase vindo de sua alma lírica. Com uma facilidade incrível em inventar palavras (talvez tenha aprendido com Caetano Veloso, seu ídolo maior), Gadú colocou tudo o que queria nesse disco, fazendo com que o público se distancie de seu trabalho para se aventurar em outras searas. A começar pelo dificílimo título do álbum, Guelã, que já faz com que o trabalho seja diferente, ousado, mas ao mesmo tempo incompreensível, difuso, estranho. E em todas as faixas pode-se encontrar sons ou visões ou retratos imaginados dentro daquilo que soa como estranheza para nossos ouvidos. Retifico: o ouvinte mais atento pode se deliciar com Guelã, mas aquele que não tem paciência ou não tem parcimônia ou até mesmo não se identificar com as novidades aqui encontradas, pode simplesmente evocar seu santo e desaparecer para o sempre. Maria Gadú bebe do próprio veneno ao lançar no mercado um disco tão complexo e audacioso, tão voraz e acalentador, tão atroz e contemporâneo. A música nos dias de hoje requer um distanciamento entre o tudo e o nada, ou seja, entre o presente e o futuro e o que se busca aqui é a perfeição da imperfeição. Se você ouvir detalhadamente Guelã como quem estivesse conversando com o seu eu interior, poderá saber que Guelã é um disco delicioso, difícil, sentimental, puro e com uma energia positiva de Gadú para tentar explicar algo que existe dentro dela mesma.

Guelã (2015) / Maria Gadu
Nota 9
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

60 anos sem Carmen Miranda

Carmen: um mito
Não houve, indiscutivelmente, uma cantora igual à Carmen Miranda. Precursora de um estilo de cantar único e intrasferível, a cantora conseguiu ser uma rara exceção entre as cantoras de todos os tempos e marcou definitivamente sua entrada na música brasileira, dando inclusive marcas de sua presença de palco em países como Argentina, Estados Unidos e Cuba. Graças à Carmen o Brasil é conhecido através de nossas canções, pois a cantora levou todo o seu gingado para países até então que desconheciam o nosso território. Mas o que é que a baiana tem? Como já disse Dorival Caymmi em sua lendária canção, tem torso de seda, brinco de ouro, saia engomada e sandália enfeitada, tudo aquilo que realmente representava (e ainda representa a verdadeira baiana). Portuguesa de nascença, a cantora nasceu no dia 9 de fevereiro de 1909 e morreu nos Estados Unidos no dia 05 de agosto de 1955, fazendo o mundo cala-se num choro embutido como nunca antes visto. Cantora e atriz luso-brasilera, a carreira artística de Carmen ocorreu no Brasil e nos Estados Unidos entre as décadas de 1930 e 1950, trabalhando no rádio, no teatro de revista, no cinema e na televisão. Seu salário era o maior até então pago para uma mulher nos EUA! Seu estilo eclético faz com que seja considerada precursora do tropicalismo de Caetano Veloso e Gilberto Gil, movimento cultural brasileiro surgido no final da década de 1960. No início de agosto de 1955, Carmen gravou uma participação especial no programa televisivo do comediante Jimmy Durante. Em um número de dança, sofreu um ligeiro desmaio, desequilibrou-se e foi amparada por Durante. Recuperou-se e terminou o número. Na mesma noite, recebeu amigos em sua residência em Beverly Hills, à Bedford Drive, 616. Por volta das duas da manhã, após beber e cantar algumas canções para os amigos presentes, Carmen subiu para seu quarto para dormir. Acendeu um cigarro, vestiu um robe, retirou a maquiagem e caminhou em direção à cama com um pequeno espelho à mão. Um colapso cardíaco fulminante a derrubou morta sobre o chão no dia 5 de agosto. Seu corpo foi encontrado pela mãe no dia seguinte, às 10h30 da manhã. A causa-mortis acima consta em seu atestado de óbito. Estamos sem Carmen há 60 anos! E o Brasil ainda precisa descobrir o significado de sua perda!
 

60 anos sem Carmen Miranda
Marcelo Teixeira

 

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Tropicália (1968): um álbum precioso e inacabado


1968 foi um ano emblemático para a história da música popular brasileira: de um lado tinha a turma de Roberto Carlos e sua Jovem Guarda, do outro os festivais de música da TV Record, de um outro lado horizontal tinha a Bossa Nova e suas nuances perfeitas para enaltecer o que era belo e mais sagrado e por um curto espaço de tempo, Caetano Veloso e Gilberto Gil se juntara a Nara Leão, Os Mutantes, Rogério Duprat e Gal Costa para criarem um movimento audacioso e inteligente, que ganharia o nome de Tropicália. Quase cinquenta anos nos separam do fatídico ano de 1968, época da ditadura militar no Brasil, para os dias atuais, em que a música carece de muita criatividade e audácia, para ficarmos nas lembranças temidas pelo disco e por depoimentos de quem vivenciou aquele precioso tempo. No meu caso, apenas carrego na bagagem cultural o que se falam ou escrevem sobre o movimento, tendo em vista que eu nem era nascido para poder contar história. Mas até hoje, muitos intelectuais, musicólogos, filósofos e críticos de música tentam explicar a necessidade poética e harmônica de Tropicália ou Panis et Circencis (1968 / Philips / 30,00), disco em que há uma miscelânea de vozes e uma caricatura autoral persistente dos artistas mais badalados de então. Caetano Veloso e Gal Costa eram amigos e já tinham gravado Domingo, música que abriu várias fronteiras para ambos, enquanto Gilberto Gil ainda engatinhava no cenário musical apenas nos bastidores, mas sua presença fora marcante e precisa para dar o pontapé inicial em um dos movimentos mais importantes não apenas para os criadores, como para toda uma geração. Em seu livro biográfico Verdade Tropical (1997), Caetano disse que Gil falava demais e com certa eloquência verbal que passara a ser hermético e cansativo demais, enquanto os demais tentavam falar a língua nativa, natural, habitual. Mas o que muitos talvez não entendessem na época, é que essa maneira de Gil falar fora totalmente importante para o surgimento de canções assimétricas, como Misere Nobis, que abre o álbum. Perguntas até hoje não respondidas persistem em nossos imaginários: por que Maria Bethânia, a irmã de Caetano e até então a única a brilhar efusivamente em teatros lotados, não participara do disco? Por que Gilberto Gil segura a foto emoldurada em quadro de Chico Buarque? Por que Nara Leão pertenceu ao grupo tropicalista? Apenas, talvez, a última pergunta tenha resposta e ainda assim contraditória. Nara Leão gostava de perambular por todas as esferas musicais, tais como a própria bossa nova, a MPB, o samba de morro e para ela não seria novidade pisar em ovos tropicalistas. Deu certo essa iniciativa. Mas uma quarta questão surge: por que Tom Zé, baiano de Irará, que era tropicalista como os outros, não participara do momento de fato, mesmo aparecendo na capa do álbum? A participação de Tom Zé fora pequena e passou desapercebida pelo grande público da época e até hoje associam a imagem do cantor à outras fases tropicalistas, menos nesse disco. Sua única canção, Parque Industrial, fora cantada por todos, menos por Nara, que cantou apenas Lindoneia, a quarta faixa do disco. Podemos afirmar então que Nara Leão era tropicalista? Nas palavras de Caetano, sim, ela pertencera ao grupo, mas isso não deixa de ser evidente, assim como a meia participação de Tom Zé. Seja como for, Tropicália é um disco que fora iniciado sem a pretensão de ser concluído: havia ali a intenção clara e objetiva de seus líderes, Caetano e Gil, em influenciar mudanças grotescas no mundo moderno. O ano de 1968 eclodia de um militarismo sem igual e fazer ou falar qualquer coisa resultaria em morte, mas a turma da Tropicália queriam mais: queriam ser alvo de visão e audição. Ganharam o mundo depois que Caetano Veloso tivera contato imediato com a obra de Glauber Rocha, o lendário cineasta morto precocemente e de Hélio Oiticica, o pai do tropicalismo, que influenciou e muito a obra e a vida dos músicos envolvidos. A propagação da causa tropicalista pelo disco Tropicália ou Panis Circences persevera por quase cinquenta anos com o mesmo brilho e com a mesma simbologia desde 1968 já com a intenção de nunca terminar. Havia uma necessidade incessante de Caetano e Gil preverem que o álbum seria histórico? Talvez sim. A capacidade intelectual de todas as cabeças pensantes fizera do disco uma obra-prima sem igual, elogiado até hoje por amantes e críticos da música universal. O ideário tropicalista foi formado não apenas pelas discussões ardilosas de seus condutores e/ou pelos ajuntamentos de intelectuais, como a dos poetas concretos Augusto de Campos e Décio Pignatari. Apesar de impactante para o momento e diante da importância dessa coleção de ideias e fatos revolucionários que formigaram a estrutura cultural nacional, é preciso lembrar que tudo girava em torno de discos sensacionais lançados naquele tempo e contra a censura enclausurada de outros movimentos que persistiam em lograr para um ponto certo no lugar certo. E Tropicália ou Panis et Circences permanece até hoje como reduto de um álbum magnífico, precioso e atual a tal ponto de nunca ser concluído.

 

Tropicália (1968): um álbum precioso e inacabado

Marcelo Teixeira

sexta-feira, 24 de julho de 2015

A eloquência distinta de Carbono, novo álbum de Lenine


Experimentos químicos de Lenine
Lenine é um tipo raro de cantor que conseguiu sair da atmosfera popular para adentrar, definitivamente, no âmbito da intelectualidade e a prova maior disso são suas músicas, cada vez mais rebuscadas e refinadas, não deixando margem para que a população sem cérebro possa compartilhar o que é belo e universalmente para poucos. Seu último trabalho, Chão (2011) foi uma experiência causada entre o efeito da solidão do cantor e a fase de aceitação do público, que estranhou de início o novo formato de se fazer música do cantor e compositor pernambucano, mas que aos poucos essa magia e esse encanto tomaram partido alto e maior dentro do universo leniniano. Quase no mesmo caminho que o álbum anterior, Carbono (2015 / Universal Music / 29,99) é um disco atemporal, fugindo de modismos e tropicalismos regionais que o consagraram e sendo ele mesmo: Lenine, um cantor pernambucano que tenta encontrar a cada verso uma explicação para o inexplicável, um ato, um hiato, uma sonoridade diferente e ampla, um significado para suas canções e para o desejo de se fazer canções. Carbono nasceu dessa necessidade conjunta de exemplificações: uma corrente entre as músicas para tentar decifrar os anseios da química e o elo entre Chão, com suas sonoridades ambivalentes e subsequentes da eloquência distinta. Há lirismo temperado com loucura e um certo desespero de Lenine na preocupação geral sobre o ambiente e a Terra, tópicos contestados em músicas que ministram água, carbono, pó, terra entre outros argumentos da natureza. Lenine está mais denso, mais calmo e até mesmo mais confortável para fazer de Carbono seu porto seguro de ilusões maniqueístas e está em um momento em que sua música pede passagem para o que realmente pede a música popular brasileira num todo: a qualidade musical. O cantor vem há um certo tempo se mostrando presente no lendário sistema de qualificação profissional, lançando discos mais distantes da plateia assimétrica de caráter duvidoso para figurar entre o intelecto e a formação de massa cerebral. Em Carbono percebe-se o instinto do saber voluntário do cantor, atestado em canções que vão da sofisticação ao regional sem precisar ser caricato ou descer um patamar de popular. O disco tem uma limpeza sonora incrível e o erro de Lenine, talvez, tenha sido esse: já que o cantor queria experimentar o lado minimalista dos ruídos em Chão, ele poderia usufruir para que esse novo trabalho tivesse sons que realmente atendem ao título. Há um distanciamento e uma proximidade muito larga entre um projeto e outro, mas Carbono consegue ser mais poético, mais autoral, mais visível e mais compreendido que os discos introspectivos do cantor lançados outrora. Mesmo sendo um disco particular, monossilábico (o álbum cai por vezes numa tristeza profunda), anti-tropicalista e pós MPB, Lenine nos mostra um álbum recheado de perguntas sobre o mundo da engenharia química, tentando nos transportar para o mundo daqui há alguns anos. Sua música, nesse quesito, pode explicar muitas coisas.

 

 

Carbono (2015) / Lenine
Nota 8
Marcelo Teixeira

sábado, 18 de julho de 2015

Vamos comer Caetano?


Caetano: seu talento é muito maior que a foto nú
Em seu livro Verdade Tropical (1997 / Companhia das Letras), Caetano Veloso disse em uma das passagens que já era famoso o suficiente para ser reconhecido nas ruas, apontado e comentado nas mesas de bar por conta de seu comportamento e de sua música. Isso fora nos idos anos de 1960. Passados mais de cinquenta anos, o mesmo Caetano Veloso continua sendo reconhecido, apontado, comentado e agora criticado por quase tudo o que faz ou pensa em fazer. Foi assim que muita gente se assustou quando lançou o (excelente) Zie e Zii (2009), em que disse escancaradamente na música Indiferente, que não acreditava em Deus e muita gente ficou indignada com tal revelação; quando o mesmo Caetano gravou um CD com Maria Gadú, em que ambos trocavam experiências no palco, cantando um o repertório do outro e que para muita gente a junção da dupla não soou muito bem; quando Caetano cantou A bossa nova é foda foi um arroubo de insatisfação entre as pessoas (mas essa mesma palavra, foda, fora a responsável por alavancar as vendas e a popularidade do cantor com o excelente e indispensável Abraçaço, lançado em 2013); ou quando Caetano resolve postar suas fotos nas redes sociais. Tudo o que o cantor e compositor baiano faz vira motivo de indignação por parte das pessoas iletradas deste país chamado Brasil. Primeiramente, quem o critica não o conhece. Segundo que quem não conhece a obra de Caetano não merece criticar a postura do cantor. Terceiro que Caetano pode tudo, até postar uma foto de cueca e meia preta ao lado de Carla Perez e de seu marido Xande. Nada contra a rainha do Tchan, até mesmo porque depois que Carla Perez deixou o grupo que a revelou e passou a usar mais a cabeça, passei a ter mais respeito por ela, mas Caetano Veloso está no momento em que ele pode tudo no alto de seus 72 anos. Além de ser um dos cantores do primeiro time da MPB, o cantor pode falar palavrão no meio de uma música (isso ele fizera muitas vezes), pode cantar com quem quiser e pode postar a foto que quiser. Gal Costa já cantara com os seios à mostra e teve uma capa de disco censurada, Maria Bethânia teve parte dos seios expostos em capa de disco, Vinicius de Moraes, Chico Buarque e Milton Nascimento já posaram a deriva de suas cuecas. Por que Caetano não pode posar com a sua cueca? Acho ridículo a postura de alguns apresentadores, jornalistas e críticos de música que foram para seus postos de trabalho denegrir a imagem do cantor apenas por causa de uma foto! A música de Caetano e sua inteligência estão muito acima de qualquer tipo de foto que venha a ser publicada. Não há nada de anormal com a foto, senão o ato de encontrar os amigos num momento de descontração. Caetano é preciso ser degustado, visto, admirado, ouvido, afinal, ele é um produto brasileiro. E como bem disse Adriana Calcanhotto no CD Marítimo (1998), vamos comer Caetano, vamos degusta-lo.

 


Vamos comer Caetano?
Marcelo Teixeira

sábado, 11 de julho de 2015

O culto a voz de Maria Bethânia


50 anos de Maria Bethânia na MPB
Ao longo de sua carreira, a cantora Maria Bethânia se mostrou como uma interprete maior de sua arte, de sua música, de sua veia cênica e de sua voz. Seu talento nunca foi questionador, mas sempre foi motivo de sondagens por cantoras em início de carreira. Pautada entre o certo e o incerto que dá certo, Bethânia é uma das raras cantoras que consegue comover o Brasil com sua voz poderosa e sua presença marcante de palco. Não é qualquer cantora que consegue chegar aos 50 anos de carreira sendo elogiada por quem realmente entende de música: para se chegar a essa idade comemorativa, é preciso muita disciplina, muita dedicação, meta e foco. E tudo isso Maria Bethânia conseguiu fazer com uma maestria impecável. O título deste artigo foi tirado do livro Verdades Tropicais (VELOSO, Caetano ,  Companhia das Letras, 1997, pag. 58), de onde o cantor e irmão Caetano revela que antes mesmo de Bethânia ser uma cantora profissional, ela já impactava o público com sua voz. O livro, em sua primeira parte, é um retrato fiel das andanças de Caetano e Bethânia por Santo Amaro, na Bahia, e pelo desamor da cantora pela Bahia; assim como posso retratar o livro como sendo um tributo de proteção do irmão para com a irmã e, por final, posso atribuir o livro como ilustração de Caetano defendendo a irmã como sendo uma artista nata dentro de sua própria casa e cujo a viu nascer, crescer e cantar. Maria Bethânia queria ser atriz depois que vira em sua terra natal alguns filmes europeus; se encantara com o mundo de Clarice Lispector e Fernando Pessoa e ao mesmo tempo era sondada a cantar em noites de estreia teatral na coxia e com as luzes apagadas e, assim, havia um mistério enorme em torno da imagem dela. O mistério sempre rondou a vida de Bethânia e o culto em torno de sua voz passou a ser, profissionalmente, como um mantra, uma reza e uma oração aos amantes de sua arte. Mas Bethânia é justamente isso: um misto de cultura, uma assombração de mistérios, uma divindade da música popular brasileira. O primeiro contato com Clarice Lispector foi aos quinze anos, quando leu, emocionada, Legião Estrangeira, publicado na extinta revista Senhor, tendo em vista que o irmão era leitor fervoroso da publicação. Maria Bethânia ficou tão embriagada com esta leitura, que resolveu mostrar sua paixão e sua loucura pela literatura hermética de Clarice. Desta troca de cumplicidades nasceu uma amizade entre a escritora e a já consagrada cantora de MPB, que tinha, entre seus amigos, Vinicius de Moraes, Gal Costa, João Gilberto, Gilberto Gil entre outros. Clarice não perdia os shows de Bethânia: Maria Bethânia é faíscas no palco, dissera a escritora quando a cantora encenou o show Rosa dos Ventos. Não é difícil imaginar que a carreira brilhantemente construída por Bethânia tenha o consentimento de Caetano Veloso para uma visão solidão de profissionalismo dentro da música. No livro isso deixa evidente, mas a própria cantora foi a mentora de sua própria vida artística, cultural e pessoal. São cinquenta anos de música dentro de seu próprio país, dentro de seu segmento, dentro de sua história. Aqui tudo se entrelaça, desde a literatura, a poesia, a música, a voz de Bethânia como um trovão emergente. Ao ouvirmos Bethânia, temos a nítida certeza de que a música está a salvo de tantas ignorâncias musicais que assolam atualmente a cultura de todos nós: graças a Bethânia, somos obrigados a concordar que a música popular brasileira é rica de qualidade, categoria e civilização. Há na cantora uma sombra assustadora de energia positiva, capaz de nos enrolar em um manto azul e branco sagrado de proteção contra mazelas estereotipadas e desengonçadas. Garanto que não é qualquer cantora que chega aos cinquenta anos de carreira sendo coerente com sua musicalidade e com sua motivação em cantar e inspirar novas cantoras e com o respeito para com a música popular brasileira. O culto ao canto de Maria Bethânia é muito mais que isso.

O culto ao canto de Maria Betânia
Marcelo Teixeira

 

terça-feira, 30 de junho de 2015

Cristiano Araújo e a carnavalização de sua morte


Cristiano: sertão, carnaval e morte
Quando noticiaram a morte de Cristiano Araújo, logo me manifestei nas redes sociais, dizendo que não conhecia o cantor, mas que a nossa música ficaria ainda mais rica com o seu silêncio. Disse isso sem arrependimentos ou traumas por não conhecer a fundo a carreira do cantor sertanejo, mas sabendo que suas músicas eram de um recorro comercial apelativo. Logo fui prestar um grande serviço à minha memória: ouvir o som de Cristiano Araújo. Tudo bem que o cantor não era lá grandes coisas, suas músicas não são de todo ruim, não há duplo sentido como ouvimos em outros estilos mais enfadonhos e até mesmo dentro do estilo sertanejo, mas assistindo aos vídeos de Cristiano, pude notar que há, sim, conotação sexual em suas danças e há, sim, um apelo comercial generalizado por grandes empresas. Disse no artigo anterior que Cristiano Araújo fora um cantor que trilhou o próprio caminho para chegar, por ele próprio, ao estrelato que tanto queria, assim como disse também que ele era um homem sensato, pensativo e de carisma pessoal incrível. Não retiro uma virgula do que disse no artigo anterior, mas ressalvo aqui neste novo post que Cristiano não era bem um desses cantores populares que nasceram do dia para a noite num estalar de dedos ou num piscar de olhos. O cantor teve o aparato de outras estrelas e sub estrelas do mundo dos negócios, do dinheiro fácil e da fama repentina. E acabou pagando da pior forma por todo este aparato: com sua própria vida. Perguntaram-me onde estava a minha diversidade e onde estava a filosofia da cultura sertaneja enraizada dentro de mim e eis que respondo: a diversidade está espalhada em todos os cantos, seja na música, na pintura ou na novela, mas cada um sabe interpretar e aceitar a sua diversidade da forma que bem entender. Aqui não utilizo a ferramenta da diversidade, mas sim a pluralidade diversificada que todos nós carregamos quando depreciamos algo. O multiculturalismo existente em todos os povos se faz presente quando possamos demonstrar algo diferente da nossa cultura popular e, neste sentido, Cristiano Araújo pôde mostrar perfeitamente sua música regional de forma sensata, original e atemporal para o Brasil inteiro, mesmo que às custas da mídia regedora deste país. A diferença entre multiculturalismo, diversidade e pluralidade diversificada é que a minha opinião se diz onipresente a opinião do outro e que nem sempre somos obrigados a aceitar o que o outro diz, sabendo que talvez esse outro tenha a mesma opinião formada que temos. Mais tomado pela emoção da comoção sofrida pelo público presente entre notícia, velório, sepultamento e o dia após a morte, escrevi um artigo brando na semana passada, em que tentei comparar o distanciamento profissional entre Cristiano, Luan Santanna, Gustavo Lima e, para ficar apenas no sertanejo universitário de hoje em dia, não me atrevi a buscar nomes que lutaram verdadeiramente para que a música sertaneja fosse, definitivamente, colocada em seu devido lugar. A posição em que Cristiano Araújo estava ainda poderia ser a de melhor posição, pois a mídia o renegava, mas o público lhe era fiel. Luan e Gustavo tinham a mídia ao seu bel prazer e mesmo lançando discos com classificação baixa, lucram e levam porcariada musical para dentro de nossos tímpanos. Nessa categoria, Cristiano Araújo venceu a batalha: através do entrave entre divulgação de show / mídia global / casa lotada, o cantor vencia em todos os aspectos. A música caipira, regional, sertaneja sempre foi reduto de anedotas e preconceito, mas vale lembrar que todos os ritmos brasileiros, desde o samba de Clara Nunes, Noel Rosa, Martinho da Vila, passando pelo pagode de Katinguêle, Exaltasamba, Pixote e até a música romântica produzida por Fábio Junior, Mauricio Mattar e outros são alvos de piadas, mas os sertanejos ficam mais ofensivos quando os atacam. Por que? Porque o psicológico do sertanejo é mais lento. Explico: todos os sertanejos dizem que nasceram na roça, de uma origem familiar rude e pobre, mas que conseguem o estrelato através da música, que acaba sendo mais que a fé em Deus que todos eles têm. Atribuem o sucesso ao pai, que lutou tanto para que o filho (ou os filhos) chegassem à roda da fortuna musical, se orgulham de não terem entrado para a faculdade e se orgulham de elevar o nome de sua terra natal aos jornais. O primeiro ato de preconceito parte diretamente deles, dos sertanejos e quando acontece alguma fatalidade como a que vitimou Cristiano Araújo e muitos tentam explicar os motivos pela sua morte repentina, eles, os sertanejos, se veem atirados num lamaçal de esgoto. Esse ato pejorativo de preconceito se chama pluralidade cultural e parte não da mídia escolarizada, mas sim de um grupo que já nasceu dentro do seio sertanista. A diversidade está dentro de cada um de nós, enraizada em cada pessoa que cultiva a sua própria cultura. Mas o que se viu nesta semana foi uma festa: nunca a morte de um cantor meramente desconhecido do grande público se fez presente nas redes sociais, no mundo da fofoca, do showbiz, da música. Cristiano Araújo levou para seu enterro uma bagatela de gente anônima, choradeiras de parto prematuro, que somados chegou a quase 61 mil estridentes. Suas músicas se tornaram hinos (e isso está acontecendo ainda mais agora que ele está há sete palmos de terra!). Mulheres em sua maioria se agarrando à outras desconhecidas pela mesma causa: pela carnavalização da morte de um cantor desconhecido do Brasil. Há de nascer vários cristianos agora, não no mundo da música, mas em forma de homenagem. Assim como já mataram verbalmente o jogador português Cristiano Ronaldo (para demonstrar que realmente o cantor era um mero desconhecido), tive que dar muita risada quando foi comparada a morte do sertanejo universitário ao dos Mamonas Assassinas: irrisório, hilário e, para não dizer canhestro. Mamonas Assassinas já tinham fama e um certo prestígio quando morreram naquele desastre aéreo, mas dizer que Cristiano Araújo tem o mesmo patamar de morte por levar multidões ao choro desengonçado, é dizer que somos analfabetos natos. O que me faz falta é a cultura que vem de dentro de casa, dos pais, dos avós, do irmão mais velho para demonstrar que mesmo havendo uma música descartável, temos também a música que nos faz pensar, que temos Chico Buarque, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Gal Costa, Elis Regina, Luiz Gonzaga, Gonzaguinha, Chitãozinho e Xororó, Pena Branca e Xavantinho, Elomar (este sim, um verdadeiro regional brasileiro) e tantos outros artistas verdadeiramente capacitados para nos mostrar que a música é a arte maior de pensamento único. A carnavalização na qual fomos obrigados a degustar, digerir e participar dos ensaios foi tão grotesca, tão irracional, tão desumana, que chegou ao ponto de todos os meios de comunicação ficarem maciçamente abordando o assunto, fazendo deste cerimonial um ato de bravura, de enriquecimento humano, de emoção sentimental para com quem nem chegamos a nos familiarizar. O  que se viu foi uma aberração completa, um sepultamento musical privilegiado para muitos que mesmo não querendo ver, estavam curiosos para ver o apito final e dizer acabou! Não me interpretem mal, pois o que estou falando é a mais pura verdade: Cristiano Araújo levou mais gente para o seu enterro que para seu próprio show. Fomos obrigados a participar desta coletividade fazendo parte das estatísticas de que o cantor realmente atraía multidões. Muitos que lá estavam no dia final não se conheciam, óbvio, assim como muitos que acompanhavam o sepultamento estavam ali mais pela curiosidade que pela emoção. Afinal: mesmo Cristiano Araújo lotando casas noturnas como fazia, seu público não era tão gigantesco assim, ou seja, faltava muito para realmente ser um Cristiano Araújo de verdade. Precisou o cantor morrer para provar que tinha mais público fora que dentro das casas noturnas.

 

 

Cristiano Araújo e a carnavalização de sua morte
Marcelo Teixeira

quinta-feira, 25 de junho de 2015

A morte prematura de Cristiano Araújo

Cristiano: Morte prematura
“O que temos pra hoje é saudade”. Um dos últimos sucessos de Cristiano Araújo foi praticamente um prelúdio de sua morte prematura, um recado, uma sina, uma predestinação daquilo que poderia vir a ser sua saída de cena. Cristiano Araújo não era um cantor de grande mídia, não aparecia com frequência em programas de televisão e era muito tímido, reservado e ao mesmo tempo humilde. Seus shows eram todos lotados, repletos de homens e mulheres que curtiam seu som, que adoravam suas danças e que estavam atentos aos movimentos do cantor. A motivação maior de Cristiano Araújo era o poder imediato desse público para com sua voz, sua música regional, seu jeito de mostrar seu carinho para com elas. Mas Cristiano não precisava da mídia televisiva nem dos jornais impressos para mostrar o seu talento: ele tinha a magnitude avassaladora de um grande músico dentro da música sertaneja, caipira e de raiz. Por mais que suas canções não demonstrassem ou denotassem atos ilícitos ou pejorativos, o cantor conseguia driblar as letras sensuais e mostrar que sabia compor, cantar e encantar seus fãs. Confesso que não tinha muita admiração pelo cantor e que muitas vezes ouvia suas músicas pensando que fosse outro cantor qualquer do segmento. Sua imagem e semelhança não ficaram gravadas em meu subconsciente, assim como suas músicas não me retratam em nada absolutamente. O que mais choca o país e a todos nesse momento é a forma repentina como o cantor saiu de cena dos holofotes: a morte, para todos, é inevitável, mas uma morte trágica, fechada e dolorida, ficará em nossa memória para todo o sempre. A carreira meteórica de Cristiano foi pautada em sucessos que hoje, depois de garimpar sobre sua vida, pude ter conhecimento maior. Foram quase cinco anos de sucesso embutidos dentro de um armário, ou seja, dentro de um cubículo que apenas os fãs tinham direito. Esnobado pela grande mídia, o cantor trazia consigo o aplauso dos fãs, que o veneravam em todos os caminhos. Partindo de um início sensato, Cristiano Araújo tinha carisma pessoal intransferível: ele era capaz de agradar desde a criança até o senhor, mas sua popularidade maior com a música trouxe uma notoriedade exemplar. Na vida pessoal era tido como brincalhão, alegre e amoroso com os filhos, enquanto no palco transmitia a mesma alegria para seus fãs, mesmo sendo um tímido conservador. Mas sua morte trouxe uma lacuna para a música sertaneja, que tinha em Cristiano Araújo um adendo maior para demonstrar que nenhum cantor precisa de grandes holofotes. Sua música, de fato, era regional, tida por muitos como não universitária, o que deixava alguns meios de comunicação irritados. O que diferencia Cristiano Araújo de outros bambas da música regional como Luan Santanna e Gustavo Lima é sua responsabilidade musical e atemporal: Cristiano era um cantor maduro, tinha discernimento entre o certo e o errado, sabia falar no momento certo e se expor no momento certo, enquanto seus contemporâneos são mais atirados, querendo a todo custo aparecer, emplacar sucessos enfadonhos e sendo, a cada momento, irritantes com seus risinhos de cantores bem-sucedidos. Cristiano Araújo foi o oposto disso tudo: ele soube, atenciosamente, ser ele mesmo, sem estar preocupado com opiniões alheias e irrisórias. Cristiano foi o próprio mentor de sua carreira musical e pessoal, não dando margens para que o outro desse opinião diversificada sobre sua música. Esteve a todo momento cuidando de sua carreira pessoal e profissional e conseguiu ficar escondido em seu canto, longe da mídia que ao mesmo tempo eleva e depois derruba e conseguiu fazer o que muitos gostariam de fazer: lotar casas de show sem grandes estardalhaços. Sua morte precisou acontecer para que todos tomassem conhecimento de sua arte e isso já acontecera com outros grandes cantores nacionais, como Clara Nunes, Jessé, Gonzaguinha. Com sua morte, os quatro cantos do país estão chorando a perda de seu garoto prodígio e de sua música tenra, mas com certeza seus fãs nunca o esquecerão. Agora, o que essas fãs tem é saudade, como imortalizou Cristiano Araújo em uma de suas últimas músicas.

A morte de Cristiano Araújo
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 19 de junho de 2015

A importância do álbum de Bebel Gilberto (1986)


Bebel: disco rejeitado por ela?
A primeira cantora a gravar Eu preciso dizer que te amo foi justamente uma das compositoras deste clássico, Bebel Gilberto, filha de Miúcha e João Gilberto. A canção, composta a seis mãos, foi gravada originalmente em 1986 para o disco inicial e experimental da cantora, intitulado apenas de Bebel Gilberto, contendo apenas 5 músicas. Não foi um grande lançamento na época e hoje em dia a própria cantora recusa saber a origem deste disco, mas o fato é que o álbum tem uma importância significativa dentro da história da MPB, na magnitude meteórica de Cazuza e, mais do que nunca, na vida da própria Bebel. Pra início de conversa, esse disco foi produzido pensando na amizade que Bebel tinha com Cazuza (seu grande amigo) e Dé Palmeira, seu então namorado. A época de seu lançamento, o disco não surtira efeito esperado e Cazuza não era tão famoso assim a ponto de ser reconhecido por suas letras e por esse motivo, passara desapercebido pelo grande público e crítica. Inclusive nos dias de hoje, o disco, raro no mercado, desperta a curiosidade apenas de fãs da cantora e por parte dos amantes da música nacional. Mas o que era para ser um motivo de orgulho, passa a ser um motivo de depreciação da cantora, que não gosta muito de seu início de carreira. Convenhamos que a voz de Bebel não era lá grande coisa e nem estava em evidência quando surgiu como interprete, tendo como concorrentes as principais vozes do escalão de Marina Lima, Zizi Possi, Angela Ro Ro, mas sua importância para os anos seguintes seria de grande valia. Seja como for, Bebel Gilberto (1986 / WEA / 35,00) é um disco que merece destaque e atenção pelo conjunto da obra. Produzido por Chico Neves, o disco fora de fato gravado em 1986 e teve como destaque duas grandes canções já imortalizadas nas vozes de Bebel, Cazuza, Marina Lima, Adriana Calcanhotto, Zizi Possi, Ney Matogrosso, entre outros: Mais Feliz e Eu preciso dizer que te amo. Dois clássicos de extrema importância para ambos os cantores que fizeram destas canções verdadeiros hinos. Mas o que chama mais a atenção é a negação deste disco pela própria cantora nos dias de hoje. Bebel quase não canta essas músicas (Eu preciso dizer que te amo ela ainda cantarola), mas os outros nem sinal de que lhe pertencem. Algumas mídias colocaram em pauta que Tanto Tempo (2000) seria o primeiro trabalho de Bebel, o que não é verdade e mesmo assim, a cantora não chegou a desmentir esses veículos. Houve um boato até de que a cantora teria pedido para a gravadora Warner Arquivos retirar do mercado, sob escolta judicial, do CD do mercado recentemente, o que não ficou totalmente esclarecido, mas o fato é que o disco não se encontra tão facilmente. Embora Bebel tenha sido a grande detentora da música e ser a responsável pela gravação original, quem ganhou os holofotes pela primazia da canção foi Marina Lima, que a regravou, em 1987, para seu disco Virgem, tornando-se um dos grandes hits daquele ano e sendo campeã de vendas. A voz de Bebel era a de uma garota fanha, mais preocupada com os agitos dos amigos do que com a responsabilidade profissional em ser uma cantora. Anos depois houve um giro gigantesco em sua vida e Bebel pôde, enfim, mostrar sua versatilidade com discos antológicos e merecedores de aplausos tanto no Brasil como nos Estados Unidos.

Bebel Gilberto (1986) / Bebel Gilberto
Nota 10
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 12 de junho de 2015

O brilhantismo de Elis 1973


Elis 73: simples e luxo ao mesmo tempo
Entre o grande sucesso de O Bem Amado, primeira novela à cores no Brasil, escrita por Dias Gomes, o lançamento de três álbuns importantes dentro da música popular brasileira acontecia à revelia de um grande espetáculo de público e crítica: Nervos de Aço, do sambista Paulinho da Viola, em que o cantor aparece chorando na capa e Secos & Molhados, cujos os integrantes estão apenas com as cabeças em forma de guilhotina, com Ney Matogrosso como líder maior do grupo. O Brasil estava sob a ditadura austera de Médice e tudo o que era falado e/ou cantado passava por uma rigorosa tortura física e mental. Por outro lado, a Jovem Guarda já não fazia sucesso e o estilo de roupa e os cabelos tanto de homens quanto o de mulheres, faziam enorme sucesso entre as classes sociais mais abrangentes e que recaía sobre o proletariado da vez (os grandes consumidores de toda uma geração). A efervescência musical vinha por conta de grandes acontecimentos no país e mesmo sob forte domínio político, o mundo da música ganhava peso e força à medida em que os meses se passavam. Raul Seixas, Tom Jobim e Milton Nascimento lançaram músicas (e não discos) sensacionais e conseguiram ganhar a credibilidade de líderes do partido e até mesmo de políticos que se renderam às suas músicas. Mas o grande lançamento ficou por conta de uma cantora baixinha, ranzinza, cabelos masculinizados para uma época em que a feminilidade tomava conta: Elis Regina e seu verdadeiro disco de categoria. Elis 1973 (19,99 / Philips / 1973) vai do simples ao luxo com uma assombrosa tempestade lírica de uma das maiores cantoras do país. Partindo de uma naturalidade mórbida, Elis soube ousar em todas as faixas, recriando sua própria voz, se redescobrindo a cada canção, não poupando mágicas em suas cordas vocais e se superando em um país até então dominado por cantores. Simples ao seu jeito e luxuoso por completo, Elis 1973 é um dos melhores (senão o melhor!) disco de carreira da cantora. Com composições de Gilberto Gil, João Bosco e Pedro Caetano, a cantora pôde interpretar com maestria cada faixa, degustando o seu próprio domínio de estúdio e se mostrando versátil para a música num todo, não escondendo a enorme satisfação em fazer aquele trabalho. Elis não saberia naquele momento e talvez nunca soube em vida, mas seu disco era totalmente diferente daquilo que vinha fazendo até então: sem ter uma música sequer de Milton Nascimento, Tom Jobim, Chico Buarque ou Ivan Lins, a cantora optou por reunir um seleto time de compositores para dar corpo e alma ao seu disco daquele emblemático ano. Justamente os cantores e compositores que a ditadura tanto odiava e que eram perseguidos. Resultado: Elis 1973 se tornou referência e Elis conseguiu sair da aba do impulso musical que a dominava até então. Vale lembrar que um ano antes, 1972, Elis também veio com um disco sensacional, mas dominado de clichês e falta de senso comum: o disco, mesmo sendo bom, também conseguiu ganhar notoriedade por ser exemplar e moderninho para a época. Mas é em 1973 que o grande ano de Elis acontecia: sem ser demagoga, lançou um disco em que não era política nem assombrava as pessoas (exceto pela música Agnus Sei (João Bosco / Aldir Blanc), em que criticava a Igreja; pelo contrário, fazia com que o público se aproximasse dela com mais simpatia e menos arrogância e talvez isso explique o enorme sucesso de seu disco e show Falso Brilhante, em 1976, com composição do também João Bosco. Além de ser um dos discos indispensáveis em sua discografia (tanto para Elis quanto para o público), o disco trouxe particularidades que fizeram com que o mundo da música em seus bastidores entrasse em devaneio. A começar pela música Ladeira da Preguiça, que Elis pedira a Gilberto Gil por telefone e, enquanto conversavam, o compositor baiano escrevia a letra sem ser incomodado por uma Elis estridente do outro lado da linha. Recentemente, em seu disco Gilbertos Sambas (2014), Gil disse que era impossível não se lembrar de Elis e de sua história quando canta essa música. Em segundo lugar, teve a pequena rusga entre Elis e Beth Carvalho: a sambista recusou a música Folhas Secas, de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, pois seu disco já estava completo (fechado para ser reproduzido). Então, Nelson ligou para Elis e a cantou via telefone e a cantora gaúcha se derreteu e aceitou gravá-la. O enorme sucesso da canção fez com que Beth se sentisse traída, pois o grande trabalho de Elis 1973 seria É Com Esse que eu Vou, um samba-canção de Pedro Caetano, que ganhou dimensão rapidamente. Alguns anos depois, Elis dissera em entrevistas sobre esse episódio e Beth Carvalho (que tivera crises existenciais pelo sucesso de Clara Nunes) praticamente não fala no assunto. Seja como for, Elis 1973 é um dos melhores discos de Elis e não pode ficar de fora de qualquer lista que aborde os melhores discos nacionais de todos os tempos. Elis se mostrou como uma das melhores cantoras daquele ano (em 1974 veio com o excelente Tom & Elis, referência até hoje) e sua música, sua voz, seu carisma e sua popularidade eram gritantes mesmo em um período obscuro da nossa própria história.

 

Elis 1973 (1973) / Elis Regina
Nota 10
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 5 de junho de 2015

O Brasil por Clara Nunes em Nação (1982)


A Nação de Clara Nunes
Um ano antes de sua morte, a vida de Clara Nunes estava completa: ela se tornara, definitivamente, uma das maiores cantoras do Brasil, era popular, bonita, simpática e tinha todos os amigos possíveis e imagináveis ao seu redor. Tirando o fato de não conseguir ser mãe, a cantora estava trilhando um dos caminhos mais bem-sucedidos na história da arte de cantar feminino, que todos se rendiam a ela. Antes dela, apenas Carmen Miranda conseguira tal efeito, em que conseguia trilhar por diversos meios, sempre antenada com o novo e surpreendendo a todos. Elis Regina tinha falecido no fatídico Janeiro de 1982, assim como Vinicius de Moraes e Paulo Sérgio tinham nos deixado em 1980, empobrecendo a música naquela época. Nessa mesma década, os anos 1980 se tornariam o ano do rock nacional, tendo como heróis Cazuza, RPM, Legião Urbana, Capital Inicial, entre outros. Mas no início dos anos 1980 quem reinava absoluta era Clara Nunes, que vinha com discos cada vez mais sensacionais, melhores e mais autênticos. Prova disso foi o estrondoso sucesso Nação (1982 / Odeon / 19,99) derradeiro disco da cantora, que marcava o começo da parceria de João Bosco com Clara. Única música do cantor e compositor mineiro gravada por Clara, Nação representa aquilo que O Canto das Três Raças, Jogo de Angola e Guerreira queriam dizer em outros tempos: a luta do brasileiro pela sua terra, pela sua nação. Clara foi a única cantora brasileira que cantou verdadeiramente o Brasil em todas as suas formalidades e suas variedades. Depois dela, nenhuma outra conseguiu ocupar seu lugar de prestígio e respeito dentro deste segmento, porque ninguém vai ser igual à Clara. Nação marca o fim da carreira promissora de Clara e aqui neste disco podemos sentir a voz embargada em algumas canções: mesmo cantando alegremente, podemos notar que a voz de Clara está mais pesada, mais fechada, mas sem perder o brilhantismo de sua emoção. Sem perder suas origens, a cantora seguiu fielmente até o fim com sua religiosidade e sua fé inabalável. Cantou e encantou as pessoas conforme foi passando os anos. Sentiu emoções de público e crítica. Tornou-se a mulher mais vendável do Brasil. E a mais criticada pela igreja também. Suas músicas em Nação denotam que sua fé era muito maior que qualquer crítica ácida que vinha debaixo, da evangelização caricatural ou da igreja com seus padres sem mentalidades. João Bosco fora um dos grandes responsáveis pelo sucesso do disco, compondo uma das músicas mais emblemáticas retratando o povo brasileiro e o próprio Brasil. Quanto à Clara: nos deixou com a responsabilidade de mantermos vivos sua herança musical tentando resguardar o Brasil do Brazil.

 

Nação (1982) / Clara Nunes

Nota 10

Marcelo Teixeira