sábado, 15 de novembro de 2014

A grata surpresa de Bando do Mar

Banda do Mar: grata surpresa
Há uma diferença singular entre a Mallu Magalhães antes e depois de Pitanga (2011) seu delicioso disco lançado pós Marcelo Camelo. Desde o primeiro disco que Mallu já demonstrava toda a sua super potência musical, mas ainda estava indecisa quanto ao ritmo certo a cantar: considerada a nova Janis Joplin por alguns e uma legítima cantora que herdaria o folk como destino final, Mallu sempre demonstrou que era capaz de muito mais em discos lançados com o decorrer dos anos. A cantora e compositora que foi descoberta através da internet, sempre teve fama de ser uma péssima cantora e a mesma sempre esteve dividida entre a cruz e a espada entre os fãs e não fãs. Mallu cresceu, apareceu e mostrou, depois de Pitanga, que é sim uma excelente cantora. Assim como seus discos, Mallu Magalhães mostrou que sabe cantar, compor e rir dessas e outras críticas que fazem a seu respeito. A participação de Marcelo Camelo foi fundamental para que o crescimento da menina/cantora/desafinada desenrolasse naturalmente e ela produzisse mais e mais e mais. Sempre com categoria afinada e buscando pelo ideal refinado dentro da música brasileira e dentro de seu limite musical, Mallu se juntou ao próprio Marcelo Camelo e ao guitarrista e baterista Fred para formarem o Banda do Mar (2014  / Sony Music / 19,99) , com músicas deliciosas e de altíssima qualidade musical. Em quase tudo aqui podemos lembrar de Marcelo Camelo no Los Hermanos (caso de Cidade Nova ou Hey Nana) ou de Mallu nos tempos de início de carreira, como na saborosa e divertida Muitos Chocolates ou Mais Ninguém. Por falar em Mais Ninguém, a canção é uma das melhores composições de Mallu, por mostrar que a cantora realmente amadureceu compondo versos mais decisivos e fortes e isso já tinha acontecido em Pitanga, quando disse, à época, que poderiam falar o que quisesse dela, pois ela estava ficando velha e louca. Assim como no disco solo anterior, a cantora mais uma vez manda indiretas para os críticos ferrenhos que insistem em debochar de sua carreira, dizendo que está ótima na faixa Me Sinto Ótima. Marcelo, por sua vez, tece delicadeza acentuada nas faixas Pode Ser, que tem vocais de Mallu fazendo contraponto delicioso e sentimental. Nada deixa a desejar em Banda do Mar, exceto o estilo de gravação: as músicas que Mallu compôs foram cantadas por ela como uma declaração de amor a Camelo, suas artimanhas para se mostrar que é uma menina-moleca-que-canta (e bem!), suas indiretas certeiras e para falar de amores guardados em seu peito tanto por homens maduros e pela sua gata Mia (retratada em música). Marcelo também segue a linha romântico e deixa fluir naturalmente músicas singelas como Vamo Embora e Solar. Infelizmente, não houve uma troca de identidade musical entre os dois: Marcelo poderia cantar a música de Mallu e vice versa, mas isso não aconteceu. Mesmo assim, só pela brilhante ideia de saírem de casa para fazerem um disco juntos foi uma grata surpresa. Tanto para o público brasileiro, quanto para os fãs de ambos os cantores (e compositores) e para dizer que Marcelo sobrevive sem o Los Hermanos e Mallu, pela força e vitalidade de seu canto, sobrevive a qualquer tempestade em um copo d’água.
 

Banda do Mar / Mallu Magalhães, Marcelo Camelo e Fred
Nota 10
Marcelo Teixeira

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Emília Monteiro em São Paulo

Emília: do Norte pra São Paulo
No dia 30 de abril de 2013 escrevi um artigo em que pedia para que o som da cantora amapaense Emília Monteiro saísse do reduto nortista para invadir os quatro cantos do país, pois sua voz merecia ser ouvida. No dia 26 de maio do mesmo ano, saiu no Jornal do Amapá, na coluna da Tica (jornalista de grande repercussão no Amapá) partes desse meu artigo. Portanto, minhas preces foram ouvidas. Emília Monteiro desembarca em São Paulo para duas únicas apresentações: uma no Sesc Sorocaba, no dia 15/11, e o mais aguardado será realizado na Vila Madalena, reduto dos mais morderninhos em questão de sonoridade, com seus barzinhos charmosos e pessoas descoladas. Emília cantará no Espaço Cultural Puxadinho da Praça (Rua Belmiro Braga, 216, Vila Madalena / São Paulo) na segunda feira dia 17 agora, às 20 horas, ao lado das cantoras Nátalia Matos e Luciana Oliveira, que farão uma participação especial. Valor: apenas R$ 15 reais!!! Única apresentação, vale a pena conferir o talento desta grande cantora, um verdadeiro talento brasileiro e que está conseguindo, aos poucos, mostrar sua brasilidade aos quatro cantos deste país. Entrevistada pelo Mais Cultura Brasileira!, a cantora considera Clara Nunes e Elis Regina como as maiores vozes do Brasil e já foi até mesmo elogiada pelo ex-titã Charles Gavin, hoje referência musical no país. Emília é uma dessas raras cantoras que nos encantam apenas com seu olhar: encantador e suave.  Dona de uma voz magistral e de um carisma incrível, a cantora apresentará seu CD Cheia de Graça (divulgado no Mais Cultura! em Abril de 2013), considerado um dos melhores dos últimos tempos e que contém composições de Ellen Oléria, Márcia Tauil, Simone Guimarães, Zeca Baleiro, Célso Viáfora, Val Milhomem e a diva Dona Onete, criadora dos sucessos Veneno de Cobra e Este Quero Este Moreno Pra Mim. Emília merece ser ouvida, assistida, admirada e aplaudida de pé por todos os brasileiros, pois seu canto é de uma beleza profunda e única. Uma das cantoras que merecem a sua atenção graças ao seu canto, sua graça, sua beleza e sua espontaneidade. Emília Monteiro é uma dessas cantoras que faltavam no mercado fonográfico para falar do povo do Norte, cantar suas referências e seus estilos e nos mostrar seus mantras. Cheia de Graça, Emília desembarca em São Paulo trazendo na bagagem um grande disco e uma grande voz!  

 

Emília Monteiro em São Paulo
Marcelo Teixeira

sábado, 8 de novembro de 2014

Três anos de Mais Cultura Brasileira

Três anos de Mais Cultura
E o Mais Cultura Brasileira! chegou ao seu terceiro ano. Para chegar até aqui não foi uma tarefa fácil, mas sim uma tarefa de muito trabalho, muita dedicação, pesquisas, conversa com cantores, horas e mais horas ouvindo músicas, recebendo convites para shows, enfim, um ano marcado pela amplitude de um trabalho que gosto muito: o de ser crítico de música. Este ano de 2014 foi melhor que o ano passado, porque o blog teve mais reconhecimentos por cantoras e cantores carimbados da nossa música e teve mais respeito por entre os leitores. Falar de música de qualidade em um país em que se preza a música descartada não é tarefa fácil, mas com um pouco de esforço e dedicação podemos chegar um pouco mais longe. Este ano o Mais Cultura Brasileira! alcançou vôos mais longos e chegou com mais força ao Nordeste e ao Norte do Brasil e aterrizou com mais afinco na capital federal, Brasília. As entrevistas foram determinantes para que a credibilidade e a assiduidade com a cultura permanecessem com a qualidade superior de quando iniciei os trabalhos. E confesso: nunca pensei que um dia pudesse entrevistar a cantora Ná Ozzetti, minha paixão musical. Entrevistas com cantores da categoria de Alberto Salgado e a descoberta de Tito Marcelo foram cruciais para que o Mais Cultura! voltasse as suas origens de revelações musicais para o grande público. Tive o prazer de conhecer e conversar com Fabiana Cozza (e surpresas virão para 2015) e com a cantora Ceumar, que mesmo da Holanda, podemos trocar algumas firulas e tive prazer igual em poder conhecer a cantora Ná Ozzetti e seu irmão Dante Ozzetti e este me presentear com a novidade de Macapá, Patrícia Bastos. Agradeço as inúmeras conversas que tive nos bastidores com a cantora Márcia Tauil, sempre grato por suas aulas e inspirações e sempre serei grato pelos inúmeros emails que recebo para poder divulgar no blog com sugestões de cantoras espelhadas por este mundaréu chamado Brasil. Posso garantir que 2015 será ainda mais dedicado ao mundo da música e que batalharei por entrevistas e artigos especiais. O Mais Cultura Brasileira! completa três anos, mas quem ganha é você, leitor!
 

Três anos de Mais Cultura Brasileira
Marcelo Teixeira

sábado, 1 de novembro de 2014

Os encontros desprezíveis de Paula Fernandes


Um disco qualquer em sua carreira
Não consigo entender ainda qual a finalidade de Paula Fernandes na música popular brasileira: fanha, não abre a boca para cantar (talvez inventando um novo gesto para balbuciar suas próprias palavras cantadas) e sem postura de palco (a cantora ainda não consegue se soltar no palco), Paula Fernandes é um caso raro de cantoras sertanejas sem atração alguma. Estrela apagada que és, a cantora só consegue despertar a atenção dos desmiolados, incapazes de perceberem o quanto seu talento e insignificação na música atual é desprezível. Além da falta de carinho e empatia, Paula é uma das cantoras que, mesmo ganhando mais dinheiro e sendo mais querida pelo público, é a cantora mais chata e insensata do segmento, deixando para trás a imagem doce e característicamente rotulado de outras fontes de alimentação do mundo sertanejo, como Roberta Miranda, Sula Miranda, As Irmãs Galvão, entre outras. Não me conformo como conseguiram moldar uma cantora deste naipe sem a emoção, sem o sentimento maior, sem expressão facial, sem linhas de pensamentos fluentes, sem absolutamente nada na cabeça, como fizeram com Paula Fernandes. Recentemente, a cantora lançou o disco Paula Fernandes – Encontros Pelo Caminho (2014 / Universal Music / 31,90), um álbum duplo contendo participações magistrais como Vitor e Léo, Hebe Camargo, Almir Sater e até Frank Sinatra. São encontros grandiosos, mas que a cantora deixa a desejar conforme vai entoando cada nota musical com sua voz paupérrima: quando ela canta com Almir Sater Tocando em Frente, há falta de sincronismo entre o cantor (o criador) e a cantora (a que se diz cantora). A química não rolou e a tentativa de fazer com que a música ficasse mais viva na memória das pessoas caiu por água abaixo. E não foi culpa de Almir, mas sim pela voz canhostra e horrível de Paula, que insiste em não querer abrir a boca! Mas de que adianta tanta produção, se o principal produto não é fornecido conforme o selo de qualidade exige: a voz de Paula Fernandes. Com uma capa paupérrima, remetendo a um de seus primeiros CDs, Pássaro de Fogo, e com um ar meio angelical, a cantora tenta passar a imagem de boa moça, de quem sabe fazer a lição de casa, mas na verdade, ainda não saiu da terceira nota musical. Não vi nada de especial neste álbum duplo e não vi nada de espetacular no conjunto da obra: Paula canta cada vez pior, com uma voz anasalada pueril, com o mesmo sentimento tacanho e com ares de menina pobre do sertão. A capa nos remete a um tempo de infância perdida da cantora, com um sertão por detrás dela, nos dando a impressão do longo caminho percorrido da cantora até o encontro definitivo com a música sertaneja. Definitivamente, o mundo sertanejo merece muitas coisas, descartáveis ou não, e Paula Fernandes é uma dessas coisas descartáveis. Ainda acredito na força estranha e natural de uma divindade qualquer que faça com que Paula ou se cale de vez ou simplesmente evapore da face terrestre. Enquanto isso não acontece, somos obrigados a aturar seus discos (agora duplos) e com a mesma ladainha canina de sempre: voz fanha, rouca e sinistra.

 

Encontros Pelo Caminho / Paula Fernandes
Nota 6
Marcelo Teixeira

sábado, 25 de outubro de 2014

O silêncio de Ceumar em Silencia (2014)

O silêncio de Ceumar
O que seria da música brasileira sem a voz de Ceumar? Poderia formular a questão: o que seria de nós, brasileiros, sem a presença de Ceumar?  Ceumar é uma das vozes mais cristalinas da música brasileira e a cantora está de volta com novo disco, Silencia (2014 / Circus / 26,99), um dos mais belos discos do ano de 2014 e o sexto de sua carreira. Seguindo o limite ampliado em trabalhos antecedentes, a cantora atinge um trabalho acústico, desta vez acompanhada por músicos que criam uma atmosfera perfeita para as suas canções. No novo disco, gravado em São Paulo em dezembro de 2013, Ceumar assina nove faixas com alguns parceiros, e ainda abre espaço para obras de Déa Trancoso, Kiko Dinucci, Vitor Ramil e Osvaldo Borgez. A direção musical de Vincent Ségal, também responsável pelo violoncelo e pela maioria dos arranjos, é imaculável. A voz envolvente de Ceumar é suturada com afetuosos arranjos de cordas e percussão, pincelados aqui e ali por um clarinete ou um acordeom. Silencia já ganha a atenção pela capa: um autorretrato da cantora, com cabelos volumosos e negros, envolto de uma capa branca, que nos traduz uma calma serena, repleta de luz e harmonia. Majestoso do começo ao fim, o disco é um dos melhores da carreira de Ceumar, que volta mais brasileira que nunca mesmo estando radicada na Holanda. A definição de Silencia, talvez, seja a voz ímpar da cantora: impossível não se encantar com a doçura de sua voz, tão rica, tão saudável e tão acalentadora. Há força no seu canto e no seu campo musical e por esses motivos, Ceumar, mineira que és, procura demonstrar o quão verdadeiro é seu canto. Silencia promove o silêncio, a voz do sereno, a palavra mais doce que por vezes necessitamos. Ao encerrar o disco, Ceumar canta como num mantra: o que este silêncio tem a dizer? A ideia de homenagear o silêncio não foi um dos pontos de partida do disco, mas sim o fim de um processo imaginário, de liberdade intuitiva. A fala mansa de Ceumar ajudou e muito a ocupar espaço nesse silêncio de redemoinhos magistrados e há por detrás de cada música uma busca pessoal de silenciar os vários momentos de sua vida. Portanto, Silencia é um disco biográfico de Ceumar.  No lugar de barulho, silêncio. No lugar de guerras, silêncio. Ceumar soube como ninguém interpretar cada faixa de seu disco, buscando inspirações no silêncio escondido em meio a orações, mantras, cânticos e meditações. Se o silêncio quer dizer paz, então o novo disco de Ceumar é um convite a paz que muitos deveriam encontrar e obter.

 
Silencia / Ceumar
Nota 10
Marcelo Teixeira

sábado, 18 de outubro de 2014

Um certo Lobão sem razão

Lobão sem razão
Há uma grande diferença entre o Lobão dos anos 80, o Lobão dos anos 90 e o Lobão do ano 2000: nos anos 80, o cantor, compositor e roqueiro Lobão liderava a lista dos cantores mais poderosos da música popular brasileira e era considerado por muitos como um dos legítimos pai do Rock. Já nos anos 90, o mesmo Lobão passou a sofrer com a entrada definitiva do sertanejo caipira (porém mais refinado) de Chitão, Xororó, Leandro, Leonardo, Zezé, Luciano e por aí vai, misturado com a onda pagodeira de um lado e o axé de Daniela Mercury do outro. A onda roqueira de Lobão passou a ter uma fase mais obscura, fechada e concentrada em seu próprio nicho cultural. Nos anos 2000 tudo mudou: Lobão deixou de ser Lobão. O Lobão musico, o Lobão compositor, o Lobão dos palcos. Largou sua própria cultura para virar apenas uma cópia sem graça de sua própria cara. Diferentemente de grandes nomes do rock nacional, como Renato Russo ou Cazuza (que infelizmente se foram cedo demais), Lobão deixou sua imagem de cantor irracional lá nos anos 80 para se ver no ostracismo de sua inteligência agora no século 21. Deixou de ser o cantor e compositor de uma geração para se aventurar a dizer abobrinhas sem pé nem cabeça sobre o mundo da política (preferindo um partido qualquer) e adentrando em uma esfera a qual não está totalmente por dentro: o da crítica especializada. Lobão sempre foi um crítico voraz de vários assuntos, inclusive contra o Brasil (Brasil este que o revelou ao grande público) e bradou em letras de músicas aquilo que muitos queriam bradar, mas que não conseguiam. Nos anos 80, Lobão tentava competir com o grande astro do rock nacional, Cazuza, sobre letras politizadas de um Brasil sem futuro e tentava engatar músicas de efeito moral para que uma nação inteira pudesse ir de encontro suas ideologias. Sim, nos aúreos tempos de sua carreira magistral (se é que teve de fato!), Lobão tentou intimidar os jovens a lutar por seus direitos ao som de músicas como Vida Bandida, que influenciou uma geração inteira contra as mazelas de um país que tentava o seu desenvolvimento. No CD Zii e Zie, Caetano Veloso homenageou o cantor com a música Lobão Tem Razão, cujo reverencia o roqueiro. Se na música Caetano diz que o cantor tem razão sobre várias coisas, atualmente o mesmo Lobão anda desejando e muito: publicou um livro que não altera os fatores da indústria escrita nem dá aval para a cultura brasileira ou para quem quer ter uma cultura decente; lançou discos independentes em bancas de jornais que não acrescentou em absolutamente nada no comércio fonográfico e recentemente se autodefine crítico de governo numa revista que induz as pessoas a serem burras. Por que não tentar voltar lá atrás e rever seu passado, Lobão? Porque de vida bandida ele entende como ninguém. Não adianta dizer que Lobão está numa ditadura musical, porque muitos cantores de seu tempo (e muitos antes mesmo de seu tempo), ainda produzem discos sensacionais e com maior aval do grande público e aceitação da crítica verdadeiramente especializada. Lobão não sabe o que pensa, não sabe o que diz, não sabe o que é o Brasil. E não sabe porque nunca teve vontade de conhecer, tendo em vista que suas músicas sempre foram muito aquém de sua astúcia ímpar. Será que Caetano Veloso se arrependeu de compôr Lobão Tem Razão? Sugiro que o título seja alterado para Lobão Não Tem Razão.
 

Um certo Lobão sem razão
Marcelo Teixeira

sábado, 11 de outubro de 2014

A morte prematura de Alexandre Silpert


Morre Alexandre Silpert
O Mais Cultura Brasileira está de luto. Luto eterno! Luto que não foi premeditado, nem tinha a pretensão de acontecer. Mas a morte veio e deu uma rasteira em todos nós. Hoje abro uma grande exceção para poder expressar aqui o meu sentimento de tristeza, de angustia, de lamentos e de sofrimento pela morte do jornalista Alexandre Silpert, carioca da gema e grande adorador da música popular brasileira por um todo, e que nos deixou no último dia 05. Se a morte é algo tremendamente chata, saber quem morreu é o pior dos sentimentos: Alexandre Silpert não era apenas um jornalista. Ele era mais que isso: um homem de cultura, um homem da música, dos bastidores (ele adorava usar essa palavra em nossas conversas), um homem do entretenimento, das amizades, das viagens, do mundo. Eu não conheci Alexandre Silpert; fora ele quem veio até mim. Dizia-me para continuar a escrever sempre e sempre e sempre, pois o que eu escrevia era algo notório para o futuro, para a posteridade, para a cultura brasileira, pois era a coisa mais rara encontrar algum blog que abordasse apenas a música brasileira. Quando decidi escrever três vezes na semana, Alexandre logo rebateu: “escreva duas vezes, quiçá uma”. E isso foi um desejo dele, pois o leitor ficava mais ansioso para saber sobre o novo artigo. Graças ao seu lado cultural, conheci trabalhos maravilhosos de artistas sensacionais: Gerlane Lops, Tio Samba, Dani Calazans, Leo Russo e a nossa mais recente conversa estava voltada para o cancioneiro de André Rio, cantor recifense. Todas as minhas viagens (e as dele também) era um motivo de comentário. Todos os espetáculos eram motivos de conversas afoitas e sinceras. Conversamos muitos sobre os prêmios musicais, sobre novas vozes, sobre teatro, sobre música e me sinto honrado em poder ser escolhido por ele (dentre muitos) para poder divulgar o seu trabalho através do meu papel de blogueiro e divulgador de música boa, como ele mesmo dizia. Alexandre Silpert morreu novo. Alexandre Silpert morreu jovem. Pessoas com a genialidade de Alexandre Silpert não mereciam morrer. Um infarto o levou. Mas Alexandre Silpert foi cedo demais. Até um dia, amigo!

 

A morte prematura de Alexandre Silpert
Marcelo Teixeira

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

O doce sabor das Chicas



Chicas: isso é música brasileira!
Chicas é a banda formada por Amora Pera, Fernanda Gonzaga, Isadora Medella e Paula Leal, que anda fazendo muito barulho por onde passam devido a técnica vocal e instrumental que todas carregam. Composições próprias e regravações de grandes canções da MPB, agitaram o lançamento do DVD em julho/2009. Sendo uma banda exclusivamente feminina, As Chicas é uma da melhores  bandas de MPB dos últimos anos. Prezam pela musicalidade, notas perfeitas, instrumentos maravilhosos, zabumba, xilofone, violoncelo e violino. Percussão, um dedo de forró misturado com um maracatu atômico. Enfim, música brasileira de qualidade. Em 1996, as quatro amigas decidiram formar uma banda. Nascia, até então denominada, banda Las Chicas. Composta por quatro excelentes musicistas, Amora Pêra, Fernanda Gonzaga, Isadora Medella e Paula Leal, a banda que já era agraciada pela herança genética de Gonzaguinha (pai de Fernanda e Amora), tocou durante 2 anos em festas de amigos, pequenos palcos, mas nada muito comprometido. A banda se desfez, fruto da imaturidade das meninas ainda muito novas naquela época, mas retornou quatro anos após essa pequena pausa. Mais experientes, as meninas seguiram tocando em festivais, pequenos palcos e dessa forma, foram testando seu repertório e conquistando um público fiel. Em 2006, após três anos de espera e experimento, a banda Chicas, lança seu primeiro CD Quem vai comprar nosso barulho?, fruto de uma produção independente e investimento das quatro cantoras. Mesmo com uma pequena divulgação, basicamente composta pelo boca-em-boca, uma ativíssima comunidade na internet e busdoor só para um show, a banda lotou a casa de show Rival, em uma única apresentação. Além disso, já conquistou alguns prêmios em importantes festivais como o Prêmio TIM da Música, gravação de programas televisivos, venda de milhares de cds, consecutivas semanas entre as 10 mais tocadas em algumas rádios FM's, lotação de casas de shows no Rio e estados vizinhos. Pois é, não precisa ser só filha do astro Gonzaguinha, tem que saber fazer música também. E isso, as Chicas sabem fazer bem.

 

O doce saber das Chicas / Chicas
Nota 10
Marcelo Teixeira

domingo, 21 de setembro de 2014

As várias facetas de Bebel Gilberto em Tudo (2014)


 

Bebel em português, inglês e francês
Filha de João Gilberto e Miúcha e sobrinha de Chico Buarque de Hollanda a cantora Bebel Gilberto é praticamente a guardiã legítima do som que seus pais ajudaram a criar no Brasil, mas com uma diferença que soa bem para a sua carreira: Bebel consegue misturar a bossa nova de outrora com o som dançante de hoje em dia. Sim, Bebel é pop, o que na língua comum dos dias de hoje, significa popular. Mas Bebel não é tão popular assim: seus discos são a característica física de uma cantora com significação maior que o seu sobrenome, pois suas músicas são produzidas com requintes de qualidade superior e suas letras são redondas, perfeitas e simétricas. A cada disco, Bebel Gilberto trás uma ou outra canção que nos eriça e isso vem acontecendo desde o seu lançamento oficial com Tanto Tempo (2000), um dos discos mais comentados e aplaudidos nos Estados Unidos, Japão e, por incrível que possa parecer, aqui no Brasil também. De lá pra cá, a cantora não parou mais de produzir discos sensacionais, com parcerias incríveis e com uma sofisticação ímpar. Sendo o CD mais aguardado do ano pelos americanos e pelos brasileiros que lá moram, Tudo (2014 / Sony Music / 28,99) pode-se dizer que a cantora se superou em praticamente tudo, principalmente na ousadia de compor, no atrevimento de compactuar duetos sensacionais e no arremesso de cantar em uma terceira língua. Tudo tem tudo e um pouco mais: é um dos discos mais experimentais de Bebel Gilberto, por se tratar de um disco acima de sua capacidade de inovar. Aqui Bebel canta em inglês (Somewhere Else, Harvest Moon, Lonely In My Heart), em português (Nada Não, Tom de Voz, Novas Ideais, Tudo, Saudade Vem Correndo, Areia, Vivo Sonhando, Inspiração) e em francês, na deliciosa Tout Est Bleu, que parece que foi posta no disco para ser um hit das pistas de dança pelo mundo afora. Bebel se arriscou e conseguiu se distinguir de outros discos de sua carreira, que chegaram a ser calorosamente frios (mas não menos importantes em sua discografia), por terem letras e melodias densas demais, caso do disco Momentos (2007) ou All in One (2009), que fora praticamente produzido para o mercado internacional. Bebel Gilberto, acima de tudo, é uma cantora brasileira nascida nos Estados Unidos e, por esse motivo, recriou o jeito de se fazer música ao seu gosto e estilo e introduziu no Brasil uma linguagem nova (e muito aplaudida) em seus discos. Tudo é a prova maior dessa sua capacidade de se impor entre as melhores letristas e cantoras do mundo e, para que essa consagração seja maior, convidou a cantora e compositora Adriana Calcanhotto para fazerem juntas a letra da música que dá título ao disco. Convidou também o cantor e compositor Seu Jorge (que está bem nas paradas de sucesso em terras americanas) e, claro, não poderia faltar Tom Jobim marcando de vez que seu lado bossa novista fala mais alto. Tudo é um dos melhores discos de Bebel Gilberto, depois de Tanto Tempo, sem trocadilhos, literalmente.

 

Tudo / Bebel Gilberto
Nota 10
Marcelo Teixeira

domingo, 14 de setembro de 2014

As releituras de Mônica Salmaso em Corpo de Baile (2014)


Ótimas releituras
O penúltimo disco de Mônica Salmaso, Alma Lírica Brasileira, lançado em 2011, foi passado desapercebido pelo grande público e pela crítica especializada e acabou sendo um disco qualquer na sublime carreira da cantora, mesmo sendo esse disco um paralelo de divisor de águas na carreira de Mônica, por se tratar de um disco produzido com requintes de rica musicalidade e que no frescor de sua alma de cantora, expôs todo o seu sentimento para com as canções ali cantadas. Teve Adoniran Barbosa, José Miguel Wisnik, Paulo Vanzolini e o sambinha de Herivelto Martins, Meu rádio e meu mulato, mas o disco não emplacou. Agora a cantora acaba de lançar um dos discos mais nobres de sua carreira. Corpo de Baile (2014 / Biscoito Fino / 31,99) é um punhado de canções da dupla Guinga e Paulo César Pinheiro e mesmo sendo um disco de releituras, as músicas dão um novo frescor na delicada e sútil voz de Mônica. Destaques para a lindíssima Porto Araújo, já cantada brilhantemente pela cantora Simone Guimarães em seu disco Virada pra Lua (2001) e Bolero de Satã, imortalizada na voz de Elis Regina, que no disco Elis, Essa Mulher (1979) cantou ao lado de Cauby Peixoto. Recentemente, a cantora e filha de Elis, Maria Rita, deu um banho de interpretação nesta mesma música, pouco gravada do cancioneiro de uma das maiores vozes do Brasil. Quase todos os discos de Mônica são um convite para que possamos crer que a música popular brasileira está a salvo e Corpo de Baile prova mais que isso: que a música de dois gênios da música está para ser ouvida por todos e em todos os cantos. Mônica Salmaso apenas deu um verniz e explicou a importância de Guinga e Paulo César Pinheiro dentro da MPB. Corpo de Baile é um disco que merece ser ouvido. E respeitado!


Corpo de Baile / Mônica Salmaso
Nota 10
Marcelo Teixeira

domingo, 7 de setembro de 2014

Zerima, o novo disco de Luiz Melodia


Zerima por Melodia
Sem sombra de dúvidas, Luiz Melodia lança seu melhor disco nos últimos anos. Embora Zerima esteja bem próximo do álbum Pérola Negra, Luiz Melodia prova que é um dos melhores cantores da música popular brasileira e toda essa semelhança passa desapercebido já na segunda audição embora o Pérola não tivesse tantos sambas quanto este. Mas teve essa variedade de ritmos. Em 1973, o cantor e compositor carioca marcava a estreia da carreira musical com o lançamento de Pérola Negra, sua marca registrada até hoje e imortalizada na voz de Gal Costa. Aclamado pela crítica à época, o disco é até hoje notado pelas composições bem ordenadas e pelo atrevimento do carioca ao se enveredar pelo samba, choro, rock, forró, soul e o blues em um único trabalho. Esta mistura virou uma marca do artista e volta a se repetir em Zerima (2014 / 26,99 / Som Livre), seu 14º álbum em mais de 40 anos de estrada, recém-lançado maravilhoso trabalho. No novo álbum, a excursão musical de Luiz Melodia faz escalas no samba, bossa, blues, jazz, reggae, funk, valsa, entre outros ritmos. Tudo isso em 14 faixas, sendo 11 autorais inéditas e três regravações. Entre estas, a composição Maracangalha, de Dorival Caymmi. A cantora Céu, assim como o filho de Melodia, Mahal, dão as caras em Zerima. Ela empresta a voz na canção Dor de Carnaval. O resultado é um belo dueto em forma de bossa nova. O convite de Céu, cantora que Melodia aprecia muito, aconteceu como forma de retribuição ao convite que ele recebeu para fazer uma ponta no disco Vagarosa, que a cantora lançou em 2009, onde os dois artistas ilustres fizeram uma parceria formidável.

 

Zerima / Luiz Melodia
Nota 10
Marcelo Teixeira

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

O pagode de ontem vira referência no pagode de hoje



Os amigos do pagode
Quando houve a explosão do pagode, em meados da decada de 1990, muitos acharam que essa onda seria passageira. Vínhamos de uma explosão sem igual da decada de 1980, a era do Rock Brasileiro e tínhamos que aturar as dancinhas insignificantes do cantor Latino e a categoria primordial do axé de Daniela Mercury que explodiu em todo o país. A era sertaneja começava a desandar e a patinar no asfalto, enquanto o pagode crescia numa forma alucinante, surgindo a cada semana um grupo diferente. Originado do samba de raiz e tendo como média as orientações de grandes bambas do passado, os pagodeiros (como ficaram conhecidos) eram todos mal vistos: desde suas danças horrendas, passando por suas roupas ridiculas, culminando em algumas trapaças sem igual, os pagodeiros da primeira leva eram rotos, chatos e tinham a aparência suja. Cantavam o amor, os sentimentos mais puros com pitadas de traição e isso divertia a todos que passaram a aderir ao movimento. Mas cada grupo tinha o seu jeito de demonstrar a sua música e isso foi sendo respeitado até o forró universitário tomar conta do pedaço e acabar de vez com os passinhos mansos e desajeitados dos rapazes do suburbio. Mas o que naquela época causava desgosto e repulsa, hoje causa uma sensação de alívio ao saber que os Amigos do Pagode resolveram se juntar para formar um novo grupo. Explico: àquela época eu detestava o pagode (e ainda o detesto) e hoje os admiro pela garra e coragem com que vem demonstrando singularmente suas canções. Hoje vejo uma grande diferença entre a música pagodeira e a música sertaneja de péssimo gosto duvidoso que é produzida no país e confesso que o grupo Amigos do Pagode fizeram um bem danado em poder reviver os tempos áureos de realeza e constelação. Formado por Salgadinho (Katinguêle), Márcio (Art Popular) e Chrigor (Exaltasamba), o Amigos do Pagode matam a saudade de hits como Telegrama e de outras dezenas que compunhavam as trilhas românticas de casais apaixonados em bares e botequins. A ideia saiu de Salgadinho (que nunca abandonou a música, mesmo depois do ostracismo) há cerca de quatro anos; juntou-se aos dois maiores pagodeiros da época e formaram o grupo. E por que eu, um crítico ferrenho dos pagodeiros, que já foi aos jornais criticar o estilo musical, está defendendo o grupo hoje? Simples: comparando a música atual com a música que eles produziram, a resposta fica fácil. Havia começo, meio e fim nas melodias e havia carisma, havia simpatia e havia entusiamo nas canções, o que hoje não se vê nas música sertanejas e pagodeiras que ouvimos. Havia, principalmente, voz. A boa ideia de juntar as três vozes foi perfeita, porque tanto Salgadinho quanto Chrigor e Márcio são as maiores vozes do pagode de todos os tempos. Talvez Márcio seja ainda a melhor voz. Mas independentemente de voz ou estilo, o Amigos do Pagode demonstra que o tempo é o melhor remédio para que o sucesso possa vir mais uma vez bater em suas portas.

 

Amigos do Pagode / Salgadinho, Márcio e Chrigor
Por Marcelo Teixeira

domingo, 24 de agosto de 2014

Mato Grosso cala a voz de Rita Benneditto

Preconceito para com Rita
Achei de uma ignorância sem igual o que fizeram com a cantora maranhense Rita Benneditto no Mato Grosso do Sul: uns tremendos idiotas fervorosos da palavra do saber conseguiram proibir a cantora de se apresentar na região porque suas músicas fazem apologia à macumba. Obviamente que isso pegou a todos de surpresa, mas o fato é que a cantora vem desenvolvendo um dos mais belos e respeitosos trabalhos de sua carreira, conseguindo demonstrar sua musicalidade a quem quer ouvir e esse ato desumano, incapaz e desonesto por parte de alguns rotos e tolos só faz crer que o preconceito e a injúria ainda predominam a sociedade. Impedir que uma cantora brasileira se apresente em território nacional por sua música é um dos atos mais nefastos deste planeta, porque fazendo isso, está barrando também o livre circulamento de qualidade, de austeridade, de brasilidade. Por que não proibem músicas canhestras que rondam o mesmo lugar que proibiram Rita de cantar? Por que não proíbem os pancadões, as músicas religiosas que são de uma chatice pura e insana, com palavras que não pregam nada a não ser vergonha alheia? Por que a censura da música não proíbe cantoras que rebolam até o chão fazendo quadradinhos de números diversos? São tantos porques que provavelmente a secretaria que proibiu o show da cantora em solo mato grossense não teria respostas. É inadmissível que se faça isso com uma artista respeitosa e batalhadora por uma cultura como Rita. É inconcebível que esse tipo de ato pecaminoso seja tão real nos dias de hoje, em não poder mostrar um trabalho bonito e coerente para a população. Isso demonstra, apenas, que a evangelicação no país quer tomar partido em tudo, mas eles não observam o próprio nariz sujo de pecados. Sendo assim, que respeitem a música de Rita Benneditto e de quem quer que seja, pois a música é rica em inspiração, rica em detalhamentos, rica em brasilidade. Estou me referindo, neste caso, à música de Rita Benneditto!

 

Calaram a voz de Rita Benneditto
Marcelo Teixeira

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Veneno de Cobra - O belo clipe de Emília Monteiro


Grande revelação no Mais Cultura Brasileira de 2013, a cantora amapaense Emília Monteiro acaba de lançar um clipe da música Veneno de Cobra, composta por Dona Onete, figura tarimbada no Norte brasileiro, que remete alegria a quem a ouve e faz de suas músicas um aliado para combater o mau humor. Entrevistada pelo blog, Emília lançou o CD Cheia de Graça em 2013, trazendo composições de Ellen Oléria, Zeca Baleiro, Márcia Tauil e Simone Guimarães na bagagem recheada de marabaixo, lundu e danças típicas de Macapá. A música Veneno de Cobra está neste belo disco, assim como outras composições de Dona Onete. O clipe é maravilhoso, cheio de cores, com uma vivacidade incrível e radiante, mostrando toda a beleza que há pelo lado nortista e a capacidade de impressionar de uma cantora altamente brasileira, com categoria e elegância mútuas. Emília Monteiro consegue, mais uma vez, provar de seu próprio veneno e sobressair pelo lado mais fortuito: o eco de sua voz, o brilho de seu olhar, o sentimento mais puro de sua emoção. Dona de uma das melhores vozes brasileiras, a cantora é refêrencia hoje no Norte brasileiro e consegue fazer de seu carisma um dos motivos mais festivos para a realização de sua obra: nela estão concentradas todas as riquezas que há em Amapá! Vale a pena conferir este grande lançamento e podendo conhecer um pouco mais do trabalho artístico desta grande cantora, que consegue nos hipnotizar com seu olhar, nos encantar com sua voz e nos enfeitiçar com seu veneno.
 

Veneno de Cobra (Clipe) / Emília Monteiro
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

O jeito Skank de ser Skank



Velocia é a cara do grupo mineiro
Se há uma palavra que defina o grupo Skank, usaria a palavra inovação. Depois de seis anos fora do mercado fonográfico, o grupo de pop/rock mais consolidada do mercado brasileiro surge com um disco diferente e ao mesmo tempo autoral e inédito, gravado totalmente em estúdio, com participações especiais e muito bem produzido. O álbum estava sendo muito aguardado pelos fãs, que desde 2009 esperava por novidades e ansiavam algo realmente que os impactassem e a banda veio com carga total em um disco com um capa bonita e com um título sugestivo: Velocia. Passeando por vários ritmos musicais, como o reggae e britpop, as influências do grupo estão mais voltadas agora pro folk e o suingue com levada de batida eletrônica. Participando do CD, Nando Reis e a cantora Lia Paris se sentiram muito a vontade ao dividirem os vocais com Samuel Rosa e trupe e o resultado final é a mais perfeita sonoplastia do grupo. Com vários prêmios, o Skank ainda mostra que sua música está longe de acabar e que a banda está mais firme do que nunca, com vários projetos em mente e a pretensão de novo disco. Logo na abertura do disco, Samuel e Nando Reis atacam de futebol na faixa Alexia, que homenageia a jogadora do Barcelona, Alexia Putellas e mostra o ex-titã no final da música. Vale lembrar que o grupo Skank adora musicar sobre futebol e isso é uma marca já característica deles e a sensação que passa é que a cada homenagem ao esporte, as músicas se aprimoram de tal maneira, que o assunto não cansa. Para entender Velocia(2014 / Sony Music / 26,99), você precisa ouvi-lo com muita atenção, porque esse disco do grupo não é para qualquer ouvido comum: o tempo que a banda contemporizou para voltar ao estúdio, as músicas selecionadas e a experiência necessária e precisa de cada um foram determinantes para que o álbum saísse com a cara deles. Os fãs podem suspirar aliviados porque Velocia é um grande disco.

 
Velocia / Skank
Nota 8
Marcelo Teixeira

 

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

As sete vidas de Pitty


As vidas de Pitty
Por trás daquela aparência de menina má que a cantora Pitty carrega em seu semblante, há um menina muito boazinha, capaz de nos hipnotizar e nos encantar. A prova disso é que seus discos são sempre muito bem aceitos pelo público e crítica especializada e sempre há um gostinho de quero mais. Pitty é uma baiana roqueira e que sente muito orgulho de ser o que é e sem demagogias e isso é tudo muito mágico em sua carreira (brilhante, diga-se de passagem). Lançando seu mais novo CD, 7 Vidas (2014 / Deck Discos / 24,99), a cantora mostra o bom e velho rock ao seu jeito, sem se preocupar com rotulagens ou manifestos contra a sua música. Sendo seu quarto disco de estúdio, a cantora mostra aqui toda a sua versatilidade como grande cantora de rock e que ainda tem muito chão pela frente, diferentemente de outras que cismam em querer ser o que não é. A personalidade forte e marcante da cantora está retratada em todo o disco, inclusive na capa, que tem o tom branco e preto denominante. Pitty está mais interessada em estender o olhar de sua música, que estava mais focada no frescor dos anos 1990 para um rebuscamento de horizontes mais adulto, colocando em alvo o público mais centrado em realmente querer ouvir suas canções. Suas músicas flertam com o rock tradicional dos anos 1960, que gruda facilmente em nossas mentes e que se transformam em pérolas do mundo pop, com arranjos, formas e cabeçalhos para um conteúdo maravilhoso sobre o seu mundo. Com um olhar mais atento, Pitty acaba trazendo à tona todo o seu esforço conceitual que envolve um trabalho generoso e preciso, rebuscados de tons e que acabam por se isolar em possibilidades que só sua música consegue fazer: um punhado de 7 Vidas é a carta de registro da cantora, que se mostra atenta ao mundo de hoje, sem tirar os pés do chão. E é por esse motivo que a cantora brilha por onde passa, com sua timidez redondamente caetanizada e humana e que faz de seu trabalho um achado e tanto. Mas engana-se quem acha que Pitty é totalmente tímida: seu trabalho mostra o contrário e essa inversão faz toda a diferença. Que a cantora tenha muitas vidas!

 

7 Vidas / Pitty
Nota 8
Marcelo Teixeira

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

O grande encontro entre Vírginia Rosa e Geraldo Flach

Um grande encontro
Uma das vozes mais poderosas do Brasil, a cantora Vírginia Rosa juntou-se ao pianista Geraldo Flach (1945 / 2011) para juntos fazerem um dos discos mais belos da MPB. Voz & Piano (2010 / Lua Music / 22,99) é uma compilação de sucessos antigos já gravados pela cantora, como outras releituras fundamentais dentro da música popular brasileira, casos de Kalu (Humberto Teixeira), Cacilda (José Miguel Wisnik) e Maria Maria (Milton Nascimento / Fernando Brant). Inicialmente seria um projeto feito para a cantora e atriz Lucinha Lins, que faz uma bela participação no disco na música Prenda Minha, um folclore gaúcho e que fecha o disco. A moldura na voz cristalina e poderosa de Vírginia combinou perfeitamente com os dedos delicados de Geraldo sobre os pianos: várias vezes a voz de Vírginia brilha num monólogo abrindo espaço para que o músico adentre suas notas num lirismo puro e que nos emociona. Baseados musicalmente a partir da ideia de um encontro inesperado, surgiu a possibilidade de fazer um disco com essa colisão perfeita e o resultado final ficou impressionante. As músicas foram muito bem selecionadas e o casamento de amizade entre os dois artistas soou nitidamente sensacional. Gravado ao vivo na versão voz/piano, a cantora canta sucessos de Elis Regina e Luiz Gonzaga com tamanha perfeição, que chega a emocionar. Destaque também para a feroz canção Mercedita (Ramón Sixto Rios), que faz de Vírginia Rosa um monstro sagrado da música atual, tamanha a sua voracidade ao cantar e se expressar através de sua potência vocal. Relembrando sucessos de seus discos anteriores, como A Voz do Coração (Celso Fonseca / Ronaldo Bastos) e A Flor (Fernando Figueiredo), que foi feita sob medida para o disco de estreia da cantora, o disco tem um corportamento sereno e corresponde de imediato com o que é exigido pelo público de MPB: Voz & Piano é um disco surpreendente, capaz de nos envolver a tal ponto que até o mais sensível dos homens se rende aos encantos da cantora.


Voz & Piano / Vírginia Rosa e Geraldo Flach
Nota 10
Marcelo Teixeira

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Nheengatu: isso é Titãs?


Isso é Titãs?
Em tempos de guerra, política, pedofilia, mortes encomendadas, tráficos, policiais sendo massacrados, o grupo Titãs resolve fazer um CD totalmente voltado para essas políticas, envolvendo, entre outros assuntos, a religião e o preconceito. Confesso que não entendi o recado dado pela banda, que depois de cinco anos resolveram lançar o canhestro Nheengatu (2014 / Som Livre / 26,99). Com a saída de Charles Gavin, o grupo parece estar meio perdido em suas posições sobre música e perderam muito o conceito sobre a poesia com a qual abordavam os assuntos. Rock pesado ao estilo Cabeça Dinossauro lançado em 1986, o grupo não é mais o mesmo e está passando do tempo de se aposentar: as músicas aqui cantadas são horríveis, com apelos comerciais degenerativos para o público de hoje e com uma onda de violência auditiva absurda e explícita. O disco foi lançado em maio deste ano e a palavra usada como título significa Língua Geral, compilação que os jesuítas fizeram no século XVII dos diferentes dialetos indígenas brasileiros para que índios e portugueses se entendessesm, conforme explicam em um post na página oficial da banda na rede social. Já a pintura da capa de Pieter Brugel retrata a Torre de Babel e a produção do disco é de Rafael Ramos. Com tanta informação e som pesado em meio a protestos, o disco saiu pela culatra e se torna o pior lançamento fonográfico da banda dos últimos tempos. Se for para continuar assim, aposto que mais um integrante logo o mais sairá do grupo. Polêmico ao seu jeito, o disco tem letras bem explícitas do ponto de vista em que cada faixa é apresentada e a música é digerida: Fardado, Mensageiro da Desgraça, República dos Bananas, Fala, Renata e Chegada ao Brasil (Terra à Vista) são músicas violentas e que expressam o ódio e o preconceito. Falta muita coisa na nova fase do Titãs (fase esta que falta há tempos) e o que mais pesa neste contexto é a falta da poesia de Arnaldo Antunes e Nando Reis, que tinham uma característica ímpar em retratar no rock as belezas sutis e melódicas em tempos de paz. Não há nada de interessante a se ouvir em Nheengatu, porque a impressão que a banda passa é a de que tenta retornar ao início de carreira, mas sem a malícia juvenil que os consagraram. Falta aqui maturidade poética, moral e pessoal do grupo para com os fãs: ao que parece, o grupo despeja em nossa face todo o mal que o Brasil e o mundo se consagrou depois de seus discos serem lançados. E é aí que não entendo o porque um grupo tão conceituado se deixa rebaixar tanto, a ponto de serem ridicularizados com músicas pesadas em tempos que não há espaço para músicas pesadas. Sinceramente, não tenho o que dizer deste lançamento do grupo de senhores, mas confesso que não vale a pena gastar um centavo para tê-lo em mãos. Nem em mentes! A pergunta que fica no ar: quem será o próximo a sair da banda?

 
Nheengatu / Titãs
Nota 3
Marcelo Teixeira