quarta-feira, 10 de outubro de 2012

A poesia de Ceumar em Achou!, de 2006


Obra-prima de Ceumar
O terceiro CD de Ceumar é assinado em dupla com o compositor, violonista e arranjador Dante Ozzetti, irmão da maravilhosa cantora Ná Ozzetti. A cantora apresenta o repertório recente de Dante em parcerias com Zeca Baleiro, Zélia Duncan, Luiz Tatit, Alzira Espíndola, Chico César e Kleber Albuquerque. Achou!, lançado pela MCD, traz doze delícias, em sua maioria inédita. Tem mais país muito além da TV, diz um trecho do verso de Pra lá e é uma chave pra se perceber o sucesso de uma cantora mineira radicada em São Paulo há mais de quatro anos. Com sua voz particular e arranjos acústicos de primeira, Ceumar conquistou uma grande legião de fãs quase que apenas no boca a boca. Seus discos são sempre bem comentados na imprensa escrita, mas o repertório da cantora não costuma frequentar rádios e nem programas de TV. Nos palcos da vida, com parcerias interessantes, ela foi aos poucos formando seu público, fiel e apaixonado.

Dante Ozzetti tem uma longa estrada, chegando a ganhar o Prêmio Visa - Edição Compositores em 2000, o que lhe rendeu um único CD solo no ano seguinte. Seu nome é normalmente associado a da irmã Ná Ozzetti, para quem costuma fazer arranjos e produzir seus discos em uma parceria de ótimos resultados. O encontro com Ceumar aconteceu em 2005, quando Dante convidou a cantora para uma participação em seu show. Daí seguiram juntos para o Festival da Cultura defendendo a elogiada Achou!, faixa título desse CD. A química da dupla empurrou os dois para esse trabalho, gravado em apenas duas semanas de estúdio para manter o clima de ao vivo e não perder a emoção.

Oito das doze músicas foram compostas entre janeiro e fevereiro de 2006, mostrando a produção mais recente de Dante. Apenas Achou!, A tardinha, Visões e Parte B já estavam prontas antes. As composições de Dante têm uma sofisticação simples, que casa perfeitamente com o trabalho de Ceumar. Construído com mãos de escultor, os arranjos acústicos valorizam belas melodias e letras inteligentes. A grande maioria das músicas foi escrita com Luiz Tatit. Mas Dante também traz parcerias com Zeca Baleiro (Partidão), Zélia Duncan (Parei querer), Alzira Espíndola (Parte B), Chico César (Saia azul) e Kleber Albuquerque (Lenha na quentura). Destaques para as belas Alguém Total, Alto Mar, A Tardinha e a quase biográfica Saia Azul, cujo Ceumar recria com perfeição sua saída de Minas sem destino final. Música forte, mas de uma lindeza profundamente bela.

 

Quando eu vim de Minas

Comprei uma saia azul

Azul-Diamantina tipo furta-cor

Dessas a outra e outra igual

Dessas que combinam com blusa de flor

 

Beijei meu pai

Dei benção a mãe

Olhei pra trás, vi

Minas dando adeus

 

Trecho de Saia Azul, de Dante Ozzetti e Chico César

 

 

Paralelo ao lançamento de Achou! a gravadora MCD repõe nas lojas os dois primeiros trabalhos de Ceumar, os essenciais Dindinha (2000) e Sempreviva! (2002). Eu particularmente sou apaixonado por Ceumar e ela sempre terá seu espaço aqui no Mais Cultura!. Recentemente, a maravilhosa cantora Márcia Tauil, que está na estrada com o sensacional Elas Cantam Menescal, foi levar seu abraço à amiga e me veio uma sugestão: por que as duas ótimas cantoras não abraçam a causa e fazem um disco juntas? Assim como Márcia, que é mineira de Guaxupé, Ceumar é mineira de Itanhandu. Já disse isso à Márcia e a proposta está lançada, pois seria uma ótima parceria de vozes, violões, musicalidade e perfeita harmonia, ressaltando a elegância de ambas as cantoras.

Há muita teatralidade na música de Ceumar e isso é tão gostoso de ouvir, que as faixas entram em nossos poros e tentam se esconder em nossa mente. Ao ouvir o CD de Ceumar e Dante Ozzetti é impossível não achar que se deparou com o melhor disco dos últimos tempos da nossa contemporânea MPB que vive cheia de grandes nomes e pouca criatividade. Num disco simples e de um colorido ímpar que podemos apreciar logo pela capa intitulado simplesmente Achou! é de um lirismo e de uma pureza que evoca os cantinhos mais esquecidos de nosso belo país cheio de uma sonoridade que um dia Mário de Andrade quis tornar pública.

Achou! respira novidade e exala o talento dos artistas. A prova de que a arte não está nas grandes mídias é claramente sentida nas doze faixas do álbum. Inteligência e talento em um grande disco que, se não figura na lista dos mais vendidos, com certeza vai conquistando novos admiradores para a dupla. Quem tem ouvidos abertos para o novo, achou um oásis.

 

Faixas

1 – Prá Lá

2 – Partidão

3 – Achou!

4 – Alguém Total

5 – Alto Mar

6 – Parei Querer

7 – Parte B

8 – Saia Azul

9 – Visões

10 – A Tardinha

11 – Praga

12 – Lenha na Quentura

 

Achou! / Ceumar e Dante Ozzetti

Nota 10

Marcelo Teixeira

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Essa Mulher - o grande disco de Elis, de 1979



Essa Mulher: o melhor de Elis está aqui

Em 1979, Elis Regina entraria para a história da música popular brasileira com mais um disco arrebatador: Essa Mulher. Com direito a uma pintura a óleo da cantora na contracapa e com flores espalhadas pelo encarte do disco, Elis apresentou uma seleção de dez músicas ditas das melhores de sua carreira, com muita técnica vocal, postura, brilho e sofisticação. Claro que o álbum viria a se tornar um marco na carreira da brilhante cantora e hoje esse mesmo álbum está fadado a ser classificado como Best Sellers em muitas estantes por onde passo. Recentemente, tenho ouvido muito este disco, graças às dicas e palpitações e citações de meu amigo carioca, Jaime Santana, que é apaixonado pela diva e, como ele frisa, a melhor cantora do Mundo.

De João Nogueira a João Bosco, passando por Cartola e Sérgio Natureza, Elis soube pincelar as melhores músicas dos melhores compositores da época. Mas o disco é inteiramente feminino, a começar pelo título, Essa Mulher, pontada, principalmente, por aquele brilho de sofrimento que as mulheres carregavam nos anos 1970 e hoje em dia algumas ainda carregam. Um misto de feminilidade com politicagem, Essa Mulher nos envolve pela desenvoltura da escolha de um repertorio fantástico e esmagatório com relação à obra da artista e até mesmo sobre seu disco anterior, Transversal do Tempo, em que a política e a carga pesada de Elis, as revoltas, o governo, o ódio e o rancor afloravam a cada canção. E talvez seja esta a fascinante magia que Elis nos deixa de lição: a de não ser a mesma sempre. Transversal do Tempo é um disco ao vivo, político, pesado, grandioso. Essa Mulher é um disco feminino e com uma pincelada política (O Bêbado e a Equilibrista).

Com participação especialíssima de Cauby Peixoto na belíssima música Bolero de Satã, temos dois grandes ícones da música em um disco repleto de emoção. A curiosidade talvez ficasse por conta de um disco ser feminino, contar apenas com a participação de duas compositoras, Ana Terra, que deu o título ao disco e Sueli Costa, que nos apresenta Altos e Baixos em uma interpretação perfeita e nítida.

Do engraçado Cai dentro, a política O Bêbado e a Equilibrista, da feminina Essa Mulher, da dor de cotovelo de Cartola (e seu grande clássico) Basta de Clamares Inocência, da sensualíssima Beguine Dodói, da malandragem de Eu Hein Rosa, do sentimental Altos e Baixos, da explosiva Bolero de Satã, da volta por cima da mulher abatida e humilhada em Pé Sem Cabeça e fechando com a emocionante As Aparências Enganam, Elis nos transporta para o melhor de seu repertório, com a certeza total e absoluta de saber que é a maior cantora do Brasil.

 

Faixas

01. Cai dentro (Baden Powell - Paulo César Pinheiro) (2:41)

02. O bêbado e a equilibrista (Aldir Blanc - João Bosco) (3:49)

03. Essa mulher (Ana Terra - Joyce) (3:50)

04. Basta de clamares inocência (Cartola) (3:42)

05. Beguine dodói (Cláudio Tolomei - Aldir Blanc - João Bosco) (2:15)

06. Eu hein Rosa! (Paulo César Pinheiro - João Nogueira) (3:36)

07. Altos e baixos (Aldir Blanc - Sueli Costa) (3:28)

08. Bolero de Satã (Guinga - Paulo César Pinheiro) (3:31)

09. Pé sem cabeça (Ana Terra - Danilo Caymmi) (2:57)

10. As aparências enganam (Sergio Natureza - Tunai) (4:08)

 

Essa Mulher / Elis Regina

Nota 10

Marcelo Teixeira

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

A voz estrábica de Martinha


A cantora Martinha
Sempre me perguntava por onde andava a cantora Martinha, grande ícone da Jovem Guarda, movimento que perdurou por muito tempo, combatendo a Tropicália, a Bossa Nova e contrariando o samba dos anos 1960 e início da época setentista. Cresci ouvindo Martinha, motivado pelo entusiasmo de minha mãe, dona Maria Geralda, mineira como ela, e gostava de ouvir aquela voz calorosa, doce, suave, meio rouca e meio estrábica. Não sei se há voz estrábica, mas por vezes sentia na voz de Martinha umas melancolias, umas tristezas e umas alegrias que não sei explicar, e por isso denominei a sua voz como estrábica. Martinha foi o ápice por muitas vezes na vitrola de casa e minha mãe a escutava com grande satisfação e orgulho, dando destaque para canções como Eu Te Amo Mesmo Assim, de 1967 e Eu Daria a Minha Vida, de 1968, ambas compostas pela cantora. As músicas são excelentes e mais parecem que foram criadas para que Paulo Sérgio as cantassem e muita gente ainda há quem diga que fora Roberto Carlos quem as compôs. Lero engano: Martinha se diferenciava das outras cantoras da Jovem Guarda justamente pelo fato de ser uma compositora de mão cheia, com requintes e com personalidade, aonde muitas vezes suas canções parecia que faziam parte de sua própria vida amorosa, com altos e baixos, com ódio e ternura, com beleza e sofrimento.

Martinha era tão presente em minha casa, na sala de estar, no radinho de pilha de minha mãe que ficava na cozinha (nos anos 1980 ainda existiam radinhos de pilha) enquanto ela preparava deliciosas comidas mineiras, que até hoje não sei o real motivo do nome da minha irmã, Marta Teixeira: ora minha mãe diz que foi em homenagem à cantora, ora ela diz que foi pelo fato de ter nascido no extinto hospital Santa Marta, na zona sul de São Paulo.

Mas por anos o ostracismo de Martinha a pôs no limbo de ideias esfuziantes e de mentes inquietas para saber seu paradeiro. O silencio de uma grande cantora movida por um grande evento musical brasileiro – a Jovem Guarda – a colocou no esquecimento por anos a fio, diferentemente do que acontece com a cantora Wanderléa, que vez por outra aparece em programas de auditório ou cantando seus sucessos do passado e com Jerry Adriani, que faz verdadeiros malabarismos para se manter firme à frente de líder do movimento jovem guardista que o consagrou, fazendo tributos à Renato Russo ou se manifestando através de shows mesclando músicas inéditas com as mais antigas. Aliás, o motivo real deste artigo e o meu carinho ainda maior pela Jovem Guarda, foi o meu recente encontro (umas três entre o ano passado e este ano), com o cantor e compositor Jerry Adriani (que ainda será blogado aqui no Mais Cultura!).

Recentemente, zapeando pelos programas noturnos, encontrei uma raridade: Martinha cantando, nos dias atuais, para um programa somente dela, com músicas dela, para uma plateia de senhores e senhoras encantados, embasbacados, emocionados e por jovens que estavam ali para conhecer a grande artista que ela fora. Suas músicas ainda hoje perduram sobre tudo aquilo já cantado em 1960 e as verdades ali cantadas servem de inspiração à jovens cantoras sem fundamentos e sem musicalidade. Vestida com um micro vestido, talvez em homenagem ao movimento que a consagrou e com os cabelos soltos ao vento, pude constatar que Martinha ainda continua com a mesma fisionomia de antigamente: não vi rugas em seu rosto, não vi cabelos brancos, não vi a velhice característica que deveria insistir em bater. Martinha ainda mantêm o brilho nos olhos, a estrutura de uma grande cantora e consegue manter um alto padrão artístico pouco visto por celebridades que conheceram de perto o temido ostracismo.

Mas a voz de Martinha não é mais a mesma. Incapaz de manter uma música como Eu Daria a Minha Vida sem tropeços nem arranhões, Martinha não tem mais pulso firme em suas cordas vocais e percebe-se que enquanto as rugas e os cabelos brancos não apareceram, a voz está fraca e com sinais de morte silenciosa. Infelizmente, Martinha não grava mais discos hoje, mas mantê-la em um show por mais de duas horas é fraquejar nossos ouvidos, porque sua voz não agrada em algumas canções. Mas saber que Martinha, fruto de um grande movimento artístico e que revolucionou o modo e o jeito da mulher se portar em um ano em que mulher não opinava nada e saber que ainda continua na batalha por um espaço musical, é manter a motivação de uma grande cantora e compositora que ela fora. Mesmo com voz estrábica.

 

A voz estrábica de Martinha

Marcelo Teixeira

domingo, 30 de setembro de 2012

Hebe Camargo: luto oficial de uma semana


 

Convivi com Hebe por 25 anos
Há uma comoção generalizada pela morte de Hebe Camargo, pelo tamanho de sua personalidade, de seu nome e sobrenome, pela junção do que foi uma das maiores artistas que este país já teve e pelo enorme legado que a grande artista nos deixa. Não sei por onde começar ou se devo terminar este artigo, mas quero aqui agradecer por tudo o que você fez, Hebe, tanto por mim, quanto por pessoas diversas e espalhadas pelo este mundo gigantesco e que tanto te admirava. Sua risada ficará aqui, gravada em minha mente. Eu que cresci assistindo ao seu programa, corria o mais rápido possível do meu trabalho para poder acompanhar ao máximo o segundo bloco do programa Hebe, sempre às segundas feiras pelo SBT e, consequentemente, às terças feiras, na Rede TV. Só tenho a agradecer pela sua pessoa boníssima e, se me chamam de engraçado ou de culto, devo estas palavras à você, pois muitas charadas eu copiava de ti. Se chamo alguns amigos de gracinha em conversas descontraídas, devo à você. E graças à você, eu tenho feito uma luta a favor da nossa política. Você se foi, mas sua presença sempre ficará guardada em minha lembrança e com certeza, os selinhos, as alegrias, as emoções convividas de dentro da TV para a minha sala de estar estarão sempre escondidas no meu mais profundo eu. Os sofás estarão com um lado pendente.

E sabe o que eu me sinto tão triste no dia de hoje? Porque fiquei órfão mais uma vez. Em 1986 morria meu pai, um homem que adorava o programa Hebe na Bandeirantes e, quando estreava em Março de 1986 no SBT, eu tinha apenas 5 anos de idade, mas o suficiente para conhecer grandes nomes da música, do entretenimento, do jornalismo. Eu já tinha noção de quem era Chacrinha, Bolinha, Silvio Santos, Eliseth Cardoso e tudo isso graças à cultura de meu pai e tinha noção das mortes de Elis Regina e Clara Nunes graças à cultura de minha mãe. No mesmo ano em que Hebe estreava no SBT, seria o ano de morte de meu pai.

Só quero ressaltar uma alegria que eu tenho para dividir com os leitores do blog: no final de 1999, Hebe Camargo foi fazer comprar numa loja chique de colchões nos Jardins, na Al. Lorena, muito próximo de meu antigo trabalho. Minha alegria foi tamanha porque vieram me contar que a HEBE CAMARGO estava ali (nesta altura, todos sabiam de minha admiração por ela) e eu vi seu filho, Marcelo, descendo de um lado da mercedez branca e de outro ela, esfuziante, brilhante em seus colares de ouro. Não pude chegar perto dela, porque a rua foi tomada de gente e os seguranças da apresentadora também não deixaram.

Portanto, em homenagem à Hebe Camargo, representando o vazio que existe dentro de mim, particularmente, e dentro de milhares e milhares de pessoas que sentem o mesmo vazio que eu, o Blog Mais Cultura! permanecerá de luto por uma semana.

Como dizia Hebe: a vida é pra ser vivida!

 

Luto por Hebe Camargo

Marcelo Teixeira

sábado, 29 de setembro de 2012

Hebe Camargo: Luto!


Hoje o Brasil e os brasileiros estão de luto. Morreu Hebe Camargo, uma mulher de fibra, uma apresentadora competente, uma excelente mãe, uma cantora acima de tudo. Adoradora da amizade, idealizadora de ideias, Hebe era aquilo que todos gostariam de ser. Hebe era uma artista completa. Hoje o Mais Cultura! está de luto. Morreu Hebe Camargo.

 

Marcelo Teixeira

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Bloco do Eu Sozinho, sensacional álbum de Los Hermanos, de 2001


 

Ótimo disco pós anos 2000
O que esperar do segundo disco de um grupo que surge com um hit fácil que acaba em superexposição, com aparições em programas de domingo a tarde? Nada? Pois é, eu cai nessa e quando Los Hermanos, após o sucesso pop e fácil de Ana Júlia, lançou Bloco do Eu sozinho, seu segundo trabalho lançado em 2001, não dei muita atenção. Eu e a mídia toda, que ignorou por completo esse disco na época do seu lançamento. Não se ouviu nada nas rádios (as mesmas que cansaram literalmente de tocar Ana Júlia anos antes) e acabaram rompendo com a gravadora. Tempos depois, resolvi me libertar do preconceito (confesso), fui até alguma loja e comprei o disco sem nunca ter escutado nada (motivado pelo elogio que li em alguma revista confiável). E qual não foi minha surpresa a me deparar com uma das minhas melhores aquisições naquela época.

Tudo começa com Todo carnaval tem seu fim esbanjando uma bela nota 10 com um sensacional arranjo de metais de Rodrigo Amarante (a composição é do Marcelo Camelo). Na sequência, A Flor começa tímida até arrebentar com um ritmo surpreendente e muito bem trabalhado. Retrato pra Iaiá vem sonora numa balada mais tranquila. Depois de Assim Será (maravilhosamente destoante) e a poética Casa Pré-fabricada (Cobre a culpa vã... até amanhã eu vou ficar e fazer do seu sorriso um abrigo), que Roberta Sá gravou anos depois em sua estreia no disco Braseiro, até surgir outro ponto alto do disco, com a criativa e genial Cadê teu Suin-?, momento de pura inspiração de Marcelo Camelo.

Depois vem a lindíssima Sentimental, de Rodrigo Amarante, excelente trilha sonora para um romance, onde o sentimento de rejeição, acrescida de conselhos sentimentais no telefone quase imperceptível, resulta em outra música maravilhosamente harmoniosa. Segue-se com Chez Antoine, cujo toque francês não se restringe apenas à letra, mas ao ritmo semelhante ao um realejo. E seguida, Deixa estar e Mais uma canção, outra romântica onde os arranjos de metais dão um toque especial. Fingi na hora de rir merece destaque pelas guitarras distorcidas.

Depois mais um ponto alto do disco (talvez o maior), com Veja bem meu bem, canção de letra tão original e bem elaborada que outros grandes cantores como Maria Rita e Ney Matogrosso resolveram interpretá-la em seus trabalhos individuais. Posteriormente, demonstrando que um disco homogêneo pode apresentar diferentes ritmos, Los Hermanos surgem com um som puramente hardcore - ou seria punk?, com Tão sozinho. Para concluir essa verdadeira obra-prima, Adeus Você, sintetizado o tema recorrente que dá uniformidade ao trabalho: pra que minha vida siga adiante.

Esse disco mudou totalmente minha opinião com relação ao potencial dos barbudos que fizeram parte de Los Hermanos. O fim anunciado no ano passado só serviu para minha admiração pelo grupo fosse maior, pois novamente tiveram a coragem de remar contra a maré no auge do reconhecimento do trabalho. A questão agora é saber se realmente todo carnaval realmente tem seu fim? Se tiver, pelo menos deixaram grandes recordações.

 

Bloco do Eu Sozinho / Los Hermanos

Nota 10

Marcelo Teixeira

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

O esquecido disco dos Secos & Molhados, de 1974





Secos & Molhados, tendo Ney à frente
Diferentemente do primeiro, com um pé no rock progressivo e no rock'n'roll underground, este disco dos Secos e Molhados é mais acústico e menos ousado. Mas vamos a segundo e também essencial, o último com a formação clássica: João Ricardo, Ney Matogrosso e Gerson Conrad, além dos músicos de apoio Willy Verdaguer, John Flavin, Triana Romero, Rosadas, Emilio Carrero, Norival e Jorge Omar. Com ótimas gravações, este disco é uma verdadeira obra-prima do cancioneiro musical e é uma pena que muitos hoje em dia torçam os narizes para ele. Se bem que os verdadeiros amantes da MPB ainda o elogiam e dizem que ele é um dos caros e raros discos de rock progressivo de todos os tempos.

Tercer Mundo, apesar de ser em espanhol, é de autoria própria (João Ricardo e Julio Cortazar), bem levada latina, típica e bela, pré rótulo world music. Único sucesso do disco, Flores astrais traz um slide muito legal, esperto e bem legal. Eu conheci a música naquele conhecido ao vivo do RPM. Não: não digas nada tem uma curiosidade: é coautoria entre João Ricardo e Fernando Pessoa, provavelmente uma poesia musicada pelo João. Música plácida, violão, voz e flauta. Medo mulato inicia meio vaudeville com um pianinho, depois acompanhado de ruídos, voz do Ney, flautas, teclados e uma bateria meio percussiva e pontual. Bonita, bem diferente, retomando o tema sobrenatural do primeiro álbum.

Oh! Mulher infiel é um tema ousado pros anos 70 (um tempo onde não havia divórcio, acreditem), mas o arranjo é bem tranquilo criando um contraste inusitado. Vôo já traz um som mais rock com um phaser ou flanger em estéreo bem diferente do som careta do disco, uma gaita complementa a viagem. Muitas vozes harmonizadas. Angústia é das minhas preferidas, violão marcando o tempo, um clima meio drum'n'bass (cabe até um remix daquele comecinho), vocais dinâmicos, piano suingado, muito muito à frente do seu tempo! Só peca aquele som de guitarra dos anos setenta, fuzz magrinho e espetado.

O Hierofante (sacerdote supremo dos mistérios antigos do Egito e da Grécia, afinal Mais Cultura! também é cultura!) é uma das mais rock'n'roll daqui, guitarras na cara, é mais uma de coautoria poéticas (João Ricardo e Oswald de Andrade), vocais divertidos e múltiplos em estéreo (aconselho ouvir com fone, viagem pura). Caixinha de música do João é uma instrumental surpresa calminha com vocalizes do Ney, meio new age, fantasmagórica, curta e bela.

O doce e o amargo tem um som meio português, depois vira uma bela canção triste e melancólica, voltando à placidez acústica. Preto velho podia ter uns tambores, mas é mais uma calminha com a letra nonsense e vocais harmonizados. Delírio começa meio rock'n'roll com pianinho, entra uma guitarra suja, dá uma delirada meio diminuta no piano quadrado, solinho fuzz com um som quase bom...legal! Toada & rock & mambo & tango & etc tem um nome sensacional, com guitarra suingada, vocais sussurrados muito legais, Ney canta muito bem.

 Disco quase esquecido e felizmente recuperado na coleção Dois Momentos com a compilação e masterização by Charles Gavin.

 

Secos & Molhados

Nota 10

Marcelo Teixeira

 

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

O excelente álbum de Cazuza


O melhor de Cazuza está neste álbum
Ezequiel Neves, grande amigo de Cazuza (e eu cismo em dizer que foi o descobridor do artista), conseguiu morrer no mesmo dia, 7 de julho, que o amigo. Cazuza morreu no dia 7 de julho de 1990 e Ezequiel no dia 7 de julho de 2010 e junto com Nico Resende (também tecladista no disco), produziu esse primeiro disco solo de Cazuza, chamado de Cazuza, mas conhecido como Exagerado. E Exagerado seria um excelente nome de disco, mais ainda sendo de quem é. A essa altura, não preciso explicar quem é, o que fez antes, de quem ele é filho etc. Aqui vamos escutar e comentar esse disco de estreia, muito muito bom. O gosto de caju extrapolava o blues/rock’n’roll do Barão Vermelho e, consequentemente, o levou à carreira solo, onde poderia flertar com a MPB, o samba, Dolores Duran, Lupicínio Rodrigues, Cartola, bossa-nova etc. Agenor de Miranda Araújo Neto lançou 5 discos em 4 anos, alguns dos quais serão resenhados aqui. Conta muito a urgência de saber-se soropositivo, numa época em que a sobrevida era bem menor.

O disco tem uma sonoridade mais limpa, menos rock do que os do Barão, mas ainda não tão MPB quanto os posteriores. Começa bem, Exagerado é um clássico, parceria brilhante com Ezequiel e Leoni. Também tem um solo belíssimo, curto e expressivo. Cúmplice é a canção seguinte, pop, legal. Mal nenhum é das melhores, parceria com Lobão: Eu não posso causar mal nenhum, a não ser a mim mesmo, o óbvio eventualmente parece genial, principalmente em certas matérias sensíveis, tendentes à histeria, como aqui no caso, as drogas.

Balada de um vagabundo, parceria de Frejat e Waly Salomão, legal também, pop também. Destaques: maracujá de gaveta num prédio vazio num terreno baldio, um vício só pra mim não basta/ é uma inflação de amor incontrolável. Segue a belíssima e açucarada Codinome Beija Flor, parceria com Ezequiel e Reinaldo Arias. Conhecidíssima, mas ainda boa de ouvir. Prendia o choro e aguava o bom do amor. Pra mim, um clássico do cancioneiro de Cazuza.

Desastre mental tem uns timbres de guitarra mais pesados no começo, alternando com uma calma nos versos. Legal. Seguem três parcerias com Frejat: Boa vida, pop nada demais; Só as mães são felizes, blues censurado (você nunca sonhou ser currada por animais/ nem transou com cadáveres/ nem quis comer a sua mãe) e muito legal – mesmo que eu prefira a versão do Barão; e Rock da descerebração, que também foi gravada pelo Barão num ao vivo excelente.

Viva Cazuza e Ezequiel!

Nota 10

Marcelo Teixeira

terça-feira, 25 de setembro de 2012

A malandragem no samba de Mart'nália


Não tentem rotular a cantora Mart’nália. Isso é tarefa perdida e é tarefa de quem não entende de música. Madrugada mostra porque ela é uma das melhores cantoras do Brasil atualmente. Sem o resquício dos sambas baianos que marcaram Menino Do Rio, seu disco anterior no qual foi acompanhada por músicos da banda de Maria Bethânia (e ainda teve a produção do maestro da baiana, Jaime Alem), Madrugada apresenta Mart’nália em um ambiente do qual se mostra muito mais íntima. O disco pode ser considerado, com algumas exceções, um disco solar. Com muito mais peso do que seus trabalhos anteriores, Madrugada é um típico disco de samba carioca, sem aquela cara industrializada que permeia o trabalho de alguns grandes sambistas que tanto sucesso fazem atualmente. Logo na primeira faixa do disco, Alívio, mostra realmente o valor de um verdadeiro disco. A parceria do produtor e baixista Arthur Maia com Djavan funciona muito bem na voz de Mart’nália. O soul abolerado, verdade seja dita, é um início bem morno. Sorte que Tava Por Aí, um samba-pop bacaníssimo – um dos melhores do disco –, composto pela própria com o fiel parceiro Mombaça, coloca o álbum nos eixos. Com o peso do surdo e uma grande letra (Sou Zé Malandro, sou de rua / E bem que eu gosto / São Jorge é quem manda na lua / Me disse que eu tudo posso), a segunda faixa mostra realmente o que o ouvinte pode esperar de Madrugada.

As seis canções seguintes seguem o estilo malandro de ser da cantora. Deu Ruim, um samba mais lento, com destaque para os tamborins de André Siqueira, desce bem. Mas não tão bem quanto Ela é a Minha Cara, música de Celso Fonseca, produzida pelo próprio e que por vezes parece ser meio autobiográfico. Misturando uma guitarra jazzy (também de Fonseca) com surdos e tamborins e uma bela letra de Ronaldo Bastos (Causa reboliço aonde passa / Desce mais redondo que a cachaça / Ela é a fulana de tal), a música é outro bom momento do disco. Celso Fonseca também produziu duas regravações, digamos, um pouco perigosas: Batendo a Porta, clássico de 1974, do segundo disco de João Nogueira, e Sai Dessa, gravada por ninguém menos do que Elis Regina em seu último disco.

Difícil dizer em qual Mart’nália se sai melhor. Celso Fonseca transformou Sai Dessa em um elegante samba jazzificado, que ficou bem parecido, mas, ao mesmo tempo, bem diferente da quase insuperável gravação de Elis Regina. E em Batendo a Porta, a ótima guitarra (jazzística, mas uma vez) de Celso Fonseca, quase ofusca a excelente interpretação de Mart’nália. Não Encontro Quem Me Queira e Fé, ambas produzidas por Arthur Maia são mais populares (e isso não é uma crítica) do que as trabalhadas por Celso Fonseca. A primeira, composição de Thiago Mocotó, segue o estilo despojado dos Demônios da Garoa, enquanto que a segunda, com a letra esperançosa de Jorge Agrião e Evandro Lima (A gente tem que levar fé / Acreditar não sucumbir / Na vida sabe como é / Cuidado pra não se iludir), poderia muito bem fazer parte do repertório de Zeca Pagodinho.

As quatro faixas seguintes poderiam realmente representar a Madrugada do álbum. São canções mais introspectivas e com arranjos mais discretos. Em Angola, na qual, como o próprio título já sugere, Mart’nália se aproxima dos ritmos africanos (cheia de marimbas, congas e timbales), se afastando do samba, o que faz dela apenas uma canção mediana. A regravação de Alegre Menina, música que alçou Djavan ao estrelato, é o oposto de Sai Dessa. Se na canção gravada por Elis, a filha de Martinho se saiu muito bem, na composição de Dori Caymmi e Jorge Amado, o resultado não foi dos melhores. Apesar de Mart’nália cantar com um estilo bem próprio, a sua gravação não supera a (esta sim, pelo visto, insuperável) de Djavan. E a participação de Luiza Possi na faixa é dispensável, aliás, o que anda acontecendo com Luiza Possi? Recentemente, ela desperdiçou um talento e tanto no DVD e CD do pagodeiro Thiaguinho.

Mas quando regrava a obra de seu pai, Mart’nália se sai bem melhor. Tom Maior, clássico do primeiro disco de Martinho da Vila, ganha mais uma interpretação – Marina Lima já a havia registrado em seu Acústico MTV – primorosa. Emoção à flor da pele. Na faixa seguinte, Sem Dizer Adeus, a cantora ainda consegue se superar. Das canções que não fazem parte do universo do samba, esta, de Paulinho Moska, é, sem dúvidas, a melhor. A voz de Mart’nália juntamente com o violoncelo de Lui Coimbra e o clarinete de Ademir Jr., tudo envolto por uma belíssima letra (Se eu não sei o nome do que sinto / Não tem nome que domine o meu querer / Não vou voltar atrás / O chão sumiu a cada passo que eu dei) fazem desta canção outro grande destaque de Madrugada.

Por isso eu peço para não rotularem Mart’nália. Sinto informar, mas, querendo Mart’nália ou não, acabou superando. E muito!

 

Madrugada / Mart’nália

Nota 10

Marcelo Teixeira

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

A nova farsa de Latino


Latino pega onda no sucesso coreano
Que Latino é um lixo comercialmente falando, disso ninguém pode duvidar. Ainda mais agora, com o novo hit que o artista (?) está lançando, Despedida de Solteiro, que é determinado pelo cantor como o hit do verão. Que país é este aonde uma música com teor de baixo nível, estrutura de péssima qualidade artística e sem um pingo de cultura, vem mostrar às pessoas do mundo inteiro sobre traição, cavalgadas etc? Além de a música ser ridícula, Latino praticamente não tem em sua carreira muitas composições próprias, dignas de se pôr em seu currículo e erguer como um troféu. Aliás, precisamos rever suas qualidades artísticas, seus dons musicais e sua postura perante a cultura brasileira, pois ele mais parece um copiador de músicas de sucesso espalhadas pelo mundo do que um digno representante da arte brasileira, adjetivo, aliás, que lhe falta e muito. Latino não canta nada, tem uma dancinha horrenda e ultimamente tem prestado grandes serviços à desonra do nosso patrimônio maior: a cultura. Música? Não, Latino definitivamente não faz música. Hoje o Mais Cultura! está de luto por termos que ouvir, aos berros, esse tal cantor fazer apologias as despedidas de solteiros, tendo como carro chefe o megassucesso coreano. Prefiro não me estender neste artigo, mas até hoje me pergunto: quem é Latino?

 

A nova farsa de Latino

Marcelo Teixeira

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Sim e Não, de Nando Reis


Belo som e boas músicas
Seu nome responde a qualquer tentativa de classificar o disco de Nando Reis e os Infernais lançado em 2006: Afinal, este é um disco de rock? Sim e não. É um disco de baladas de amor? Sim e não. É o primeiro disco do compositor sem a sombra de Cássia Eller, que foi sua voz em Com Você... Meu Mundo Ficaria Completo e no póstumo Dez de Dezembro, disco onde a cantora gravou as canções mais célebres do compositor. Cássia se foi, mas Nando segue em frente. Também é o primeiro disco que marca a fase clean de Nando Reis, afastado do álcool e de outras drogas. De alguma forma, essa nova fase transparece no álbum, ao mesmo tempo em que também estão presentes referências à sua vida anterior, tornando este o seu mais autobiográfico trabalho. Mas estranhamente o disco abre com sua música mais fraca, Sim, uma melancólica declaração de amor que será totalmente esquecida quando chegar ao final da audição. Em seguida, vem o hit deste disco: Sou Dela. A levada da música é irresistível, grudenta sem ser pegajosa, o pop-rock perfeito. O refrão traz uma sutil referência sobre seu momento: Estava tão longe, num outro lugar, trancado e distante, na esfera lunar.... Mas agora, o Nando é dela e a música transborda a alegria desta descoberta e celebra este amor renovado.

N é uma balada de saudade. Uma saudade de quem fica menos de uma semana sem ver a mulher amada. Parece um exagero, mas quem já viveu uma história de amor quinzenal, de rodoviária, sabe bem como é essa saudade e a intensidade do encontro. A introdução traz um Carlos Pontual tocando um lick simples e intenso na strato, lembrando o lado mais sentimental de Clapton. Monóico é o primeiro rock'n'roll stoniano deste disco. Baita música com uma poesia um pouco diferente daquela que é a clássica do Nando Reis. No jogo de palavras há uma troca de papéis e é a mulher que o penetra. Nos Meus Olhos é outra balada, mais uma vez, um pouco diferente também da poesia típica do NR. Aqui ele mistura frases curtas e suas clássicas frases longas.

Santa Maria é um rock'n'roll stoniano de estrada, que conta a história de um amor inesquecível, marcado pelo calçar e descalçar das botas de uma mulher amada. Espatódea é simplesmente, a mais linda canção de amor de pai pra filha já escrita em português. A música dedicada à caçula Zoé diz: não sei se o mundo é bão, mas ele está melhor desde que você chegou e explicou o mundo pra mim. O arranjo é delicado como a flor, e a gente vai percebendo o sim e não, o yin e yang se alternando ao longo do disco.

Pra Luzir o Dia é uma canção folk de poesia curta que se concentra em temas do dia-a-dia, celebrando as coisa simples desta vida: bolo pra comer, bola pra bater, som para ouvir, sono pra dormir. Uma bela e suave orquestração acompanha o arranjo. Como se o Mar é uma canção de amor que lembra os arranjos típicos da soul music brasileira dos anos 70, a la Tim Maia. Pena que a letra não seja tão boa quanto a música. Nando volta com mais uma canção de amor, pra um amor que se despede em Pra Ela Voltar, e reclama: desde que ela foi embora nada mais funcionou.

Caneco 70 é o mais stoniano dos rocks deste disco. Desde as guitarras, até um uh uh! que lembra Sympathy for the Devil. Porque será que eu gosto tanto deste disco? Outra canção de estrada, conta uma história de amor real, com suas delícias e cagadas. Teríamos futuro se eu não fosse um selvagem. No final, uma micro autobiografia: canta seu amor pela sua São Paulo natal, pelo seu São Paulo Futebol Clube, time do coração, os pais, os filhos... Meio que justificando seu comportamento, se apresentando, sei lá...

Não sei quantas vezes te deixei bem triste, Não sei se comigo foi feliz ou não. Não sou exatamente o cara mais fácil que existe. Mas posso te dizer que para sempre te trarei dentro do meu coração. Não, não, não. E sim.

O disco termina com Ti Amo, um raga a la George Harrison, onde a melodia da música toda é cantada por um ti amo, com se entoasse um mantra. Um sim. Sim de amor não só pela sua amada (aquela de Sou Dela), mas pela sua nova vida e os prazeres que estão por vir (como cantado em Pra Luzir o Dia).

 

Sim e Não / Nando Reis

Nota 10

Marcelo Teixeira

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

O início de Adriana Calcanhotto


 


Enguiço tem a bela voz de Adriana
Muito conhecida hoje por trabalhos autorais, já que nos últimos CDs a maioria das canções são de autoria própria, nesse primeiro disco ela optou por priorizar seu lado intérprete, ainda que também tenha músicas próprias, como Enguiço (que deu nome ao disco) e Mortaes. Embora eu goste muito de suas composições que certamente contribuíram para consolidar sua carreira nesses mais de vinte anos, esse primeiro disco acabou ficando marcado por algumas interpretações de canções de outros músicos, mas que com a voz e arranjos dela, adquiriram vida própria. Depois de iniciar com a citada Enguiço, ao som de uma banda de metais (saxofones, trumpetes, trombones, etc), vem Naquela Estação, bela canção de João Donato, Caetano Veloso e Ronaldo Bastos que tocou muito nas rádios na época e serviu para apresentar Adriana Calcanhoto ao público.

Em seguida, ela transformou completamente a canção do Roberto e Erasmo, Caminhoneiro (cuja original eu particularmente não gostava). Com novo arranjo e uma voz límpida, o resultado ficou muito bom. Em seguida, fez a mesma coisa com Sonífera Ilha, desacelerando completamente a conhecida música dos Titãs, incluindo cordas e empregando à canção um novo sentido. Ao interpretar a canção de Luiz Peixoto e Vicente Paiva feita para Carmen Miranda, quando retornou ao Brasil após sua primeira viagem aos Estados Unidos, Adriana Calcanhoto consegue outro belo resultado para Disseram que voltei americanizada.

Na sequência, Calcanhoto desfila seu Orgulho de um Sambista, de Gilson de Souza numa suave canção de amor de carnaval. Fiel às suas origens (ainda que hoje seja, antes de tudo, uma cantora brasileira), ela ainda inclui no repertório Nunca, de Lupicínio Rodrigues, o mais clássico compositor gaúcho, novamente acompanhada por instrumentos de cordas que valorizam sua voz, embora a canção tenha caído como uma luva na voz de Zizi Possi.

Depois de Pão Doce de Carlos Sandroni, que conta com a participação do também gaúcho Renato Borghetti (Borghettinho) e de Mortaes, a segunda música autoria própria nesse seu primeiro disco, ela finaliza com a bem humorada Injuriado de Eduardo Dusek, acelerando o ritmo, dando boa demonstração de sua versatilidade.

Desde o lançamento desse disco, em 1990, Adriana Calcanhoto (que também desenvolve excelentes trabalhos paralelos como Adriana Partimpim) vem consolidando cada vez mais sua carreira e hoje é, certamente uma das cantoras e compositoras brasileiras mais versáteis. E embora discos posteriores dela possam ser considerados até melhores, Enguiço serviu como cartão de visita de uma intérprete que concilia suavidade com personalidade. Felizmente para nós, ela seguiu atrás de algo impressionante.

 

 

Enguiço / Adriana Calcanhotto

Nota 10

Marcelo Teixeira

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

A melhor fase de Rita Lee


 


A perfeição de Rita está aqui

Estou começando a achar que a Rita Lee de antigamente era mais legal, mais simpática e mais degustadora do que a Rita Lee de hoje, embora a essência de sua musicalidade seja a mesma que a de ontem e um pouco rebuscada que a de hoje. Gosto das músicas antigas da Rita, porém, algumas (raras) canções atuais, conseguem nos prender em um disco inteiro de sua autoria.  Hoje trago para o Mais Cultura! o disco de 1980 intitulado apenas Rita Lee, e que segue na mesma linha do disco homônimo de 1979. É muito difícil dizer qual é o melhor dos dois (eu pendo um pouco mais para este por razões estritamente pessoais). Rita e Roberto estão no auge da forma com muito rock'n'roll, balada, pop e música de festa. Eles inauguram o pop brasileiro da década de 80, sem perder as raízes roqueiras da rainha.

Lança Perfume está no inconsciente de qualquer um que tivesse mais de 10 anos em 1980. Bem-me-quer é rock'n'roll no melhor estilo, e a letra é sensacional. Destaque para a guitarra fuzz de Roberto. Baila Comigo foi a principal balada de 1980.

Shangri-lá é outra balada. Bem lenta, a instrumentação aqui é bem econômica, uma levada de ovation acompanhada por teclado (e voz). No final entram, suaves, percussão e baixo. Caso Sério é um bolerão que tem a ginga emprestada a dupla por Roberto e a sensualidade que se tornou a marca de Rita Lee.

Nem Luxo Nem Lixo, como Chega Mais (de 79), começa com um super riff de metais. Marina Lima regravou uma versão legal na virada do milênio, mas esta aqui ainda é campeã, com direito a acordeom e tudo mais. João Ninguém é um reggae no melhor estilo A Cor-do-Som. A letra conta a história de João Ninguém, sem talento pra ser feliz, milionário por vocação, lembrando seus tempos de cronista com os mutantes. E o disco termina botando pra quebrar com Ôrra Meu!, puta rock stoniano pra lembrar a galera que ali estava a guerrilheira-forasteira Rita Lee.

Este disco talvez entre para o meu imaginário e eu goste tanto, porque eu nem era nascido ainda! E, pra mim, tudo o que o Brasil produzira de melhor estava antes ou durante a década de 1980.

 

Rita Lee / Rita Lee

Nota 10

Marcelo Teixeira