quinta-feira, 6 de junho de 2013

José Augusto Silvestre: a boa música de Minas Gerais

Silvestre: surpresa mineira
A música de Minas Gerais sempre esteve em alta. De lá saíram cantores como Luiz Marques, João Bosco e foi pra lá que Milton Nascimento resolveu desenvolver sua carreira artistíca, se tornando um dos maiores cantores do Brasil. Atualmente, um dos destaques é o cantor José Augusto Silvestre, que trás em seu disco Tempo Breve uma levada caprichosa, com músicas gostosas de ouvir e uma sonoridade rica. Se a ideia é conhecer um pouco mais do que se tem feito de bom e de qualidade em terras mineiras, em termos de música em Minas Gerais, a dica é ouvir do começo ao fim as belíssimas canções que norteiam Tempo Breve. José Augusto Silvestre têm uma coisa moderna, que nos remetem à MPB dos anos 1970. É a canção, o encontro de uma voz calma e serena de um cantor e compositor que já têm estrada em Belo Horizonte. Seu disco é um trabalho intimista e sofisticado.

Tempo Breve traz todo o engenho, a arte e a diferenciada harmonia de Minas, num disco para ouvir com atenção. O violão e a voz de José Augusto combinam harmoniosamente com a bela voz de Marina Machado, grande descoberta de Milton Nascimento que reúne aqui um dos mais belos duetos feitos dentro da MPB atualmente, com arranjos em que os cantores se revezam em acompanhamentos e inspirações. Vale a pena ouvir o duelo de vozes em Doce Paisagem. O belo e o novo. O inovador e a sensação de bem estar aos ouvidos e a alma. O cantor e a cantora.

Para qualquer artista, o processo de criação de uma obra está intimamente ligado a isto: insipirações. Jogar a tinta em uma aquarela e ordená-la de uma forma lógica (ou não). Rabiscar, mudar palavras, rasgar pedaços e inutilizar páginas de um escrito. Tudo é cortado, colado, mutilado, refeito, reinventado. A música de José Augusto Silvestre requer uma atenção ambigua de tudo o que ele produz e tenta nos passar. Sua música é magistral e universal e o que me agrada ainda mais em sua musicalidade, é que José Augusto é um compositor contemporâneo e autoral. Nada aqui é regravado. Tudo se exprime através de algo inovador, novo, caracterizado por uma voz ordenada com os estilos e com o tempo.

Quando ouvimos músicas como Sol da Manhã, que nos deixa cantarolando por horas ou Doce Preguiça e sua letra sublime, é de se perguntar os reais motivos do porque a grande mídia não dá espaço a artistas maravilhosos escondidos neste Brasil enorme. José Augusto Silvestre tem em sua melodia uma mineirice caprichosa, deliciosa e espetacular. Já na abertura do disco temos todos os motivos para escutarmos e apreciarmos este grande músico. A levada rock está presente em Edital, carregadas nas sutilezas de versos em prosas.

O exercício constante da produção artística é uma tentativa de se imprimir à obra um caráter novo, ainda que ele passe pelo velho. Na música, isso fica mais evidente. O compositor, o cantor, o violonista, todos que habitam a obra de José Augusto Silvestre usam suas sensibilidades a favor da reinvenção e, ao mesmo tempo em que pisam numa areia movediça de sentimentos, amadurecem neste processo, enxergando o cipó cada vez mais próximo. A sensibilidade poética que faltava na música popular brasileira está presente, de corpo e alma, na boa música que José Augusto Silvestre nos propõe. O tempo de José Agusto Silvestre é hoje e seu tempo nunca será breve.

Contatos: www.joseagustustosilvestre.wordpress.com
Fone: (31) 8815 8774

Tempo Breve – José Augusto Silvestre
Nota 10
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 5 de junho de 2013

O virtuosismo de Luca Batista

O multiartista Luca Batista
Geralmente associamos o virtuosismo em música a grandes instrumentistas que se destacaram com excepcional domínio técnico a partir do início de um princípio em que os melhores músicos são aqueles que a grande mídia ainda não conhece ou, no meu caso, quando percebo que um excepcional músico está acompanhando uma grande cantora, escondido lá atrás e que completa as canções com uma dose de equilíbrio e sabedoria. Neste caso, conheci o trabalho do cantor, compositor e violonista Luca Batista através de uma grande cantora chamada Olivia Gênesi, que está na estrada há muito tempo e que acaba de lançar um novo disco, Melodias de Sol em Pleno Azul. Evidentemente, grandes músicos se destacam pela execução dos seus instrumentos, mas Luca Batista se destaca pela sua virtuosidade. Além de cantar, ele compõe suas músicas que estão disponíveis nas redes sociais e sites do gênero.
Luca Batista merece todos os nossos aplausos ao contribuir fortemente para ressuscitar o interesse pelo violão. Temos excelentes violonistas, como Swami Jr, Yamandú Costa, Baden Powell ou Mário da Silva e agora Luca Batista se junta a esses grandes nomes para se firmar como um dos maiores do Brasil.
Luca começou a tocar violão aos doze anos de idade. Aos dezesseis anos ganhou uma guitarra. Isso, somado às descobertas musicais que automaticamente foram enveredando sua vida aos inícios juvenis do período, foi o que realmente trouxe a fabulosa dimensão da música pra dentro da sua vida. Participou de bandas que contribuíram para sua formação musical. Em 2010, numa parceria com a cantora, compositora e produtora Olivia, teve o privilégio de  lançar seu primeiro CD, com 14 composições próprias, contribuindo assim com a música popular brasileira.
Começo, meio e fim foi lançado em 2011 pela Trattore e é um disco autoral de Luca e mostra toda a sua versatilidade como cantor, compositor, violonista e guitarrista experiente que é. Assim como já fizera com a cantora Gilda Nunes, que estivera em algumas temporadas percorrendo com shows concorridíssimos, Luca se juntou recentemente à cantora Olívia Gênesi para colocar no mercado um disco a altura de ambos os talentos.  
Começo, meio e fim: ótimo CD

Mais guitarrista do que violonista ultimamente, como Luca mesmo gosta de frisar, o cantor tem a seu favor o virtuosismo e a sapiência de andar em todas as áreas da música. Um bom guitarrista é aquele que se preocupa com a sua sonoridade, que tem um bom conhecimento de harmonia e que sabe exatamente qual é a sua função dentro de uma banda ou em uma música e isso Luca tira de letra com sua experiência artística. A guitarra, em seu trabalho, definitivamente conquistou seu espaço. Hoje a guitarra briga com o violão por um espaço e está presente em quase todos os estilos musicais a que possa vir cantar. Apesar disso, para muitos, a guitarra ainda é considerada um instrumento relativamente novo. Menos para Luca, que já a tinha conhecia desde o início da adolescência. A cada dia novas maneiras de se tocar são inventadas, fazendo da guitarra um instrumento cada vez mais versátil e Luca Batista têm o dom de administrar muito bem sua guitarra ou seu violão.
Muita gente se pergunta se existe diferença entre guitarra e violão. Existe, e muita! Mas para Luca Batista isso não é problema, pois ele os domina com tranqüilidade. Apesar de teoricamente o violão e a guitarra serem iguais (possuem seis cordas, mesma afinação, mesmos acordes), na prática eles têm funções completamente diferentes. O violão é usado como instrumento de base, enquanto a guitarra é um instrumento de detalhes, a cobertura do bolo, no popular. É claro que existem momentos em que a guitarra faz a base, mas no geral, principalmente se você tiver um piano ou um violão (ou os dois!), sua função será de preencher os espaços deixados pelos outros instrumentos.
Luca Batista é muito criativo e dono de um material espetacular, que vai desde as participações nos discos de Olivia Gênesi, até um trabalho mais autoral. A meta musical de Luca é infinita e suas músicas são de excelente qualidade, nos dando a dimensão de sua criatividade. Todas as suas facetas artísticas são números qualificativos para que ele seja considerado um dos maiores e melhores artistas de sua geração. Para tanto, ouçam Luca Batista, revirem o baú de Luca Batista, reparem em Luca Batista e aposto como você também irá se render à sua musicalidade, assim como o Mais Cultura! se rendeu.

Saiba mais sobre a música de Luca Batista acessando http://soundcloud.com/luca-batista

O virtuosismo de Luca Batista
Marcelo Teixeira


terça-feira, 4 de junho de 2013

Ellen Oléria e eu

Ellen e eu: encontros e risadas
Para um blogueiro ou crítico musical, nada melhor do que encontrar, do nada, um cantor ou uma cantora que o agrade tanto. No meu caso, encontrei Ellen Oléria, cantora que torci, vibrei, fiquei sem cordas vocais e me arrepiava todo quando a via cantar. Ellen é uma dessas pessoas fantásticas que conhecemos e que não queremos mais desgrudar. Nosso encontro ocorreu no mês passado, abril, no Aeroporto Internacional de Guarulhos, para onde eu ia à João Pessoa e ela para Brasília. Como o avião fazia escalas na capital do país, fomos no mesmo voo. Conversamos um pouco e ela falou segredos musicais aqui não revelados por motivo maior. Mas Ellen ao menos conheceu o Mais Cultura! e exigiu um artigo sobre ela. Conversas. Pausas para os passantes do estreito avião. Conversas. Pausas para fotos. Conversas. Pausas para beijos. Conversas. Pausas para abraços e declarações de fãs dentro do avião. Conversei com Ellen Oléria como se fossêmos íntimos, dessas intimidades entre um crítico e uma cantora e confesso que gostei de ter trocado essas palavras com uma cantora do porte de Ellen Oléria.
Falamos de Brasília, de música, de Milton Nascimento, de cantoras amigas que conhecemos em comum, como Márcia Taiul e Emília Monteiro (que gravou a música Córrego Rico em seu CD Cheia de Graça) entre outras e de como São Paulo era o antro musical do país. Ellen estava acompanhada de sua empresária, cujo fora ela quem tirara a nossa foto. E uma alegria imensa me invadia por dentro por ter em primeira mão detalhes de seu futuro musical.
Com agenda lotada, marcações de entrevistas e viagens pelo Brasil inteiro, Ellen Oléria é uma das novas cantoras de sua geração que tem um cardápio variável e respeitado. Ganhar o The Voice Brasil (edição número 1, como ela mesma frisou) foi uma de suas maiores conquistas. De menina probre, infância destruída, pai alcoolico e mãe batalhadora, Ellen Oléria se transforma em uma das maiores cantoras e uma das mais cobiçadas atualmente e seu disco de estreia (que vem agora em maio) está sendo cogitado como um dos mais esperados.
Ter acesso direto à essas informações é algo realmente importante a um crítico musical. Mas o que importou para mim naquele momento foi o sorisso de Ellen: encantador e verdadeiro. Diva das grandes divas, a cantora não se importou em falar comigo e depois que eu disse que era blogueiro, ela mesma falou que esta profissão estava em alta. Mas quando disse que era amigo de suas amigas, ela não acreditou e botou ainda mais fé no que eu dizia.
Antes mesmo de ser  a nova queridinha da música, Ellen Oléria fizera canções caprichosas, como a cantada pela cantora amapaense Emília Monteiro, Córrego Rico (disponível na internet). Emília e Ellen se conhecem há muito tempo e ambas moram em Brasília, reduto das boas e ótimas cantoras de hoje em dia.
Que Ellen é uma graça, disso eu não posso negar. Virei ainda mais seu fã e tenho a absoluta certeza de que ela lerá estas linhas. O contato virtual passou para o contato físico, tendo tato, abraços e beijos esfuziantes. O imaginário virou realidade. E Ellen Oléria é real.

Ellen Oléria e eu
Marcelo Teixeira

segunda-feira, 3 de junho de 2013

A nova fase de Tulipa Ruiz em Tudo Tanto

Ruídos e gritos de Tulipa
Contrariando a multiplicidade de frases inesquecíveis que recheiam o mais novo disco de Tulipa Ruiz, Tudo Tanto (2012 / YB/Natura / 32,99), o intervalo que melhor represente a atual fase da cantora se oculta no interior de Expectativa. Oitava composição do novo disco, a música traz na passagem Na expectativa de que o inesquecível aconteça/ Na confiança de que o imprevisível permaneça um reflexo óbvio da constante pressão que a cantora teve de enfrentar ao longo dos últimos dois anos. Ao transformar Efêmera (2010) em um clássico imediato da nova (e velha) MPB, tornava-se explícito o esforço que a artista teria de aplicar para dar continuidade a essa obra, resultado que ela entrega agora, contrariando, cumprindo e até surpreendendo incontáveis expectativas.
Naturalmente contrário ao primeiro álbum da cantora, em Tudo Tanto a constante primordial é a evolução e a necessidade de provar novas tendências. Enquanto as guitarras do pai Luiz Chagas se desprendem da timidez de outrora, embarcando em uma estrutura meio experimental, meio pop-tropicalista, a voz de Tulipa ganha um espaço ainda mais amplo do que o arranjado no disco passado. Dentro desse constante embate entre a voz e os acordes, a aproximação da dupla resulta em uma variedade de novos clássicos imediatos. Faixas como a esquizofrênica Like This e Quando Eu Achar em que o encontro familiar – completo com a presença do irmão e produtor Gustavo Ruiz – mais uma vez deixa transbordar o colorido do trabalho de Tulipa, agora acompanhado de pequenos tons de cinza.
Quem esperava por um registro que reproduzisse o mesmo pop florestal do disco anterior, talvez se impressione com a descontrolada massa de ruídos que proliferam ao executar da obra. Distante dos realces melancólicos que definiram músicas como A ordem das árvores ou Só sei dançar com você, em novo projeto as guitarras e a natural aproximação com o rock da década de 1970 modificam consideravelmente os rumos da cantora – Tulipa agora se entrega à agressividade. Transitando intensa entre a fase áurea dos Novos Baianos (pela instrumentação) e Gal Costa em suas melhores interpretações da obra de Caetano Veloso (pelos vocais e letras), Ruiz rompe com a persona de boa moça, rasgando vozes, versos e tornando públicos diversas desilusões particulares que agora entusiasmam de forma homogênea todo o projeto.

Tudo Tanto – Tulipa Ruiz
Nota 8
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 31 de maio de 2013

A beleza no canto de Márcia Tauil




Márcia Tauil, entre as melhores cantoras
Há cantoras e há cantoras neste Brasil carregado de vozes e sambas e que veneramos e confiamos. Mas para ter confiança e lealdade para com a artista é o que se pode esperar da pessoa cuja a carreira é marcada por uma boa voz e uma trilha repleta de discos maravilhosos e cultivados por belezas conjuntas. Márcia Tauil canta com a alma verdadeira, com sentimentos, com vontade e com verdade e expõe suas graças divinas em discos merecidamente brasileiros com muita categoria e exatidão. Muito produtiva e eficiente, Márcia faz de sua bandeira a prudência e a disciplina para com o canto. Pontual e responsável com seus compromissos, demonstra sempre uma grande estabilidade, fator que a faz respeitável por aqueles que a conhecem. Não deixa nada por acabar e respeita todos os regulamentos, por isso muitas vezes é considerada uma mulher de fibra. Márcia Tauil canta o que gosta e isso faz todo o diferencial em sua carreira.

A música brasileira, talvez, nunca tenha vivido um momento com tantas boas cantoras surgindo como o atual. Uma das cantoras que chama a minha atenção é a mineira Márcia Tauil, ou simplesmente Márcia. Com sonoridade moderna, voz afável, letras interessantes e músicas de alta qualidade para qualquer horario do dia, Márcia cercou-se de muita gente boa e se apresenta como uma das maiores cantoras de todos os tempos. Com uma voz sensível e agradável, sem precisar apelar para truques vocais desnecessários, Márcia Tauil acerta o tom como cantora e ainda mostra ser uma compositora de mão cheia. O jeito de cantar e o estilo econômico na dimensão necessária de compor, coloca desde já Márcia como uma das melhores novidades artistícas.

De Minas para Brasília, a mudança só veio a beneficiar ainda mais sua bem sucedida carreira de cantora e compositora. Lá pôde conviver melhor com cantoras como a amiga Simone Guimarães e Miúcha, irmã de Chico Buarque e com Roberto Menescal, que a adora e a convidou a participar do disco em sua homenagem, o excelente Elas Cantam Menescal, lançado no ano passado, ao lado de Sandra Duailibe, Cely Curado e Nathália Lima (todas de Brasília).

Márcia Tauil é música para os olhos.  Bom senso e discrição são marcas de alguém que leva à sério seu canto.  Moradora de Brasília, Márcia nasceu em Guaxupé, cidade mineira a qual tem muito carinho. Dona de uma voz encantadora, Márcia é responsável por lançar discos memoráveis, como o Sementes no Vento, lançado em 2003, em que canta as músicas feitas pela dupla Eduardo Gudin e Costa Netto, com músicas caprichosas e honrosas.

Cantora, compositora, musicista, mãe, Márcia Tauil faz do seu cantar seu alicerce para a música popular brasileira ser ainda melhor. Eleita pelo Mais Cultura! como a 5º Melhor Cantora do Brasil dos Últimos 10 Anos dentro da MPB, Márcia é uma mulher palavras universais e tem dentro de seu universo o mundo da poesia musicada. Tem tudo para todos os gostos e seu traço, em minha opinião, é regido e batizado unicamente pela sua perspicaz sensibilidade. Impulsiona e alimenta nossa vontade e a nossa capacidade de concretização neste mundo. Além de ser uma das maiores compositoras contemporâneas da música brasileira, Márcia tem músicas compostas ao lado de Simone Guimarães e Roberto Menescal e atualmente prepara um novo CD. Sua obra é incrível. É de ouvir, mas também é de cheirar, de pulsar, de sossegar, de chorar. É tão intenso que quando me falta o ar nesse mundo, eu mergulho dentro de suas canções.

Como toda a vida que contém este ar que entra e sai de mim, incontáveis vezes a cada minuto, a música de Márcia Tauil me infesta de felicidade e acalma meu ser. Eu gosto, eu valorizo e eu me transformo enquanto as ouço. Márcia consegue nos transportar a mundos na qual não somos capazes de alcançar, pois sua voz é maravilhosa e é um mergulho certeiro na corrente das águas do coração.

Tudo isso aliado a texturas, pianos, violões, guitarras, coros e detalhes, mostrando uma música moderna, que remete ao que melhor e mais cuidadoso anda sendo feito na música popular atualmente. Nesse caminho, a cantora oferece um conjunto de canções que contam de forma lírica e lúdica um pouco de sua realidade e a visão feminina do mundo ao redor. Bom humor e poesia leve servem a doces melodias que apontam um trabalho afetuoso desde sua composição que deságua em arranjos caprichados, delicados e precisos e sem exageros.

A beleza no canto de Márcia Tauil
Marcelo Teixeira

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Estopim, o melhor CD de Ná Ozzetti

Estopim enriquece a MPB
Lançado em 1999, Estopim é um dos trabalhos de maior repercussão da cantora paulistana Ná Ozzetti. Dona de uma sonoridade acústica (violões, sopros, baixo, percussão), o disco revelou sucessos como Crápula, Capitu, que fora gravada com sabedoria por Zélia Duncan, Ultrapássaro (que batiza o disco de seu irmão, o instrumentista, cantor e arranjador Dante Ozzetti) e Canto em qualquer canto, esta última gravada também por Mônica Salmaso e Ney Matogrosso e que intitula o conjunto CD/DVD do ex-Secos & Molhados. Este CD é resultado de um processo de uma época silenciosa, já que Ná vinha de um silêncio perturbador de um jejum de quase três anos e de discos praticamente meros linguísticos, como foi o caso de , lançado em 1994 ou de Love Lee Rita, lançado em 1996 em homenagem à rainha do rock. Algumas das músicas foram inspiradas na sonoridade da banda com quem fazia shows naquele momento. As letras são de parceiros eternos da cantora, como o inesquecível Itamar Assumpção, e os amigos Luiz Tatit e Zé Miguel Wisnik. O saudoso Itamar, da sua forma, ditou por telefone as letras de Canto em qualquer canto e Sanfoneiros serelepes. Além dessas canções, Ná escolheu umas parcerias do Dante com o Luiz e o Zé Miguel.

Originalmente composto de 14 faixas, Estopim foi produzido por Ná e por Dante Ozzetti (que também assumiu o violão de nylon), e contou com os tarimbados Caíto Marcondes (percussão), Geraldinho Vieira (baixo) e Kiko Moura (violão de aço), além dos convidados especiais de Dimos Goudaroulis (violoncelo), Fábio Tagliaferri (viola) e Marta Ozzetti (flautas). André Magalhães (bateria em Capitu), o parceiro Luiz Tatit (voz em Estopim) e a cantora e parceira Suzana Salles (voz em Princesa encantada) também participam do CD.

A música Nosso Amor é uma embolada maravilhosa que fala de amores perdidos e fofocas alheias, um amor que não cansa de durar, mas que é falado aos quatro cantos. A triste Outra Viagem, de Miguel Wisnik é uma viagem além do que nossa vista possa alcançar, um tempero refinado de uma embarcação referida ao tempo de ventos e naturezas que ainda podemos almejar. A voz de Ná nesta canção é de arrepiar e o violoncelo de Dimos Goudaroulis combinando perfeitamente com o violão de Dante Ozzetti faz toda a atmosfera ficar repleta de mistérios, como se a canoa referida na canção estivesse por chegar a qualquer momento.

Ultrapássaro é uma deliciosa canção de Miguel Wisnik com Dante Ozzetti e a melodia desta canção faz com que a letra nos transporte a um mundo imaginário, capacitado de pássaros, sertão, carvão, terra, nuvem! Brilhos para o som final, que é divino e com a bela voz de Ná nos vocalizes.  O Tapete é uma canção irônica, se é que assim posso chamar. Com o bárbaro início de um amor que trouxe um tapete lá das bandas do Iraque, a música tem um sotaque forte do mundo árabe, onde o tapete tem forte influência cultural, assim como o camelo citado na música.

Eu Voltarei, Viu é uma emocionante viagem no tempo de quem estava longe de sua terra e a deixa de um jeito e quando volta a encontra de outro formato, havendo um estranhamento incabulado e assustador. A música Desfile denota tudo aquilo que é representativo em uma pessoa nos dias de hoje e de onde esta origem vem. Assim como na música, há um desfilandeiro de aprendizagem a qual chegou a personagem, demonstrando sua satisfação e orgulho por seus ancestrais e suas origens. Uma bela canção.

A sacada genial de Itamar Assunpção é destacada em Sanfoneiros Serelepes, cujo faz uma bela e justa homenagem aos veteranos sanfoneiros, fazendo uma mistura generalizada entre Mozart, Verdi e Wagner com Osvaldinho, Dominguinho e Hermeto Pascoal, numa alusão de que sanfoneiros são alegres e poetas seguem tristes. Toque de Reunir reúne todas as facetas de quem precisa tomar rumo de vida e fazer as escolhas que é preciso fazer sem medo.

Estopim é o marco da carreira de Ná Ozzetti. São belas canções, ótimos arranjos, excelentes melodias, perfeitas parcerias. Itamar Assunpção ainda estava vivo para compor belas músicas e nos brindar, ocultamente, com um dos melhores discos da MPB.

Estopim – Ná Ozzetti
Nota 10
Marcelo Teixeira

terça-feira, 28 de maio de 2013

Os voos de Mônica Salmaso em Voadeira

  
Voadeira: o melhor de Mônica
Nascida em São Paulo, Mônica Salmaso começou sua carreira na peça O Concílio do Amor dirigida pelo premiado diretor Gabriel Villela em 1989. Em 1995, gravou o CD Afro-Sambas, um duo de voz e violão arranjado e produzido pelo violonista Paulo Bellinati, contendo todos os afro-sambas compostos por Baden Powell e Vinícius de Moraes. Foi indicada para o Prêmio Sharp – 1997 como Revelação na categoria MPB. Foi vencedora do Segundo Prêmio Visa MPB – Edição Vocal, pelo juri e aclamação popular em 1999. Foi ganhadora do prestigioso Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) de 1999, e o CD Voadeira recebeu os mais rasgados elogios, sendo considerado pela crítica como um dos dez melhores lançamentos do ano. Na edição do dia 4 de fevereiro de 2002 do The New York Times, o crítico Jon Pareles coloca Mônica Salmaso como um dos principais nomes surgidos recentemente na música popular brasileira.

Classifico o CD como uma lindeza pura de uma brasilidade única. Mônica fascina a cada sílada cantada, a cada verso cantado e a cada disco lançado. Sua beleza cantada é favorecida a uma grande interpretação e uma grande voz, diferenciada de outras cantoras. Em Voadeira, Mônica Salmaso equilibra gêneros distintos da música brasileira como o samba, a valsa, o baião, o xote e a modinha, revelando sua visão distinta e elegante a cada interpretação e leitura musical.

Em Voadeira, Mônica Salmaso equilibra gêneros distintos da música brasileira como o samba, a valsa, o baião, o xote e a modinha, revelando sua visão distinta e elegante a cada interpretação e leitura musical. Tudo aqui é encantador, mágico, belo, espontaneo e brasileiro. A cantora Mônica Salmaso é apontada por músicos e críticos como uma das grandes revelações dos últimos tempos e até mesmo por setentões como Chico Buarque e a queridinha dos japoneses, como a cantora Joyce Moreno. Sendo seu terceiro (e ótimo) disco de carreira, Voadeira sela sua maturidade e maior liberdade artística.

Em um mercado pródigo em vozes femininas estridentes e exaltadas, o Brasil ainda carece de grande cartazes que façam ecoar mundo afora e Mônica Salmaso se destaca pela sutileza. Há tons melancólicos em algumas faixas que flui de seu timbre de contralto e permeia todo o repertório, dando mais qualidade e resistência ao seu talento.

O CD é equilibrado por músicas inéditas de Mário Gil, Ná Ozzetti e Itamar Assumpção e Joyce Moreno se misturando com obras-primas de Chico Buarque, na excelente Valsinha, que foi uma parceria com Vinicius de Moraes. Chama a atenção a arrepiante O Vento, de Dorival Caymmi.

A coerência impede que a diversidade de ritmos – samba, modinha, valsa e xote – se converta em tiroteiro de balas extremamente perdidas. Voadeira tem instrumentação mínima, o que valoriza as qualidades da cantora e a textura das canções escolhidas com critério. Os arranjos são impressionantes em Beradêro, música de Chico César, que conta apenas com o contrabaixo de Rodolfo Stroeter. O samba Ilu Ayê (Terra da Vida) é reconstruído sobre a pontuação ritímica dos pandeiros e das cuícas de Marcos Suzano.

O título do disco sugere altos voos. Voadeira é um barco que sobe o Rio São Franciso, como cita a música de Chico Buarque e tem um sentido de assistir à vida e navegar contra a corrente. E tudo se parece com água, que nada sem parar e tem uma fluência emocional que é dificil explicar.


Voadeira – Mônica Salmaso
Nota 10
Marcelo Teixeira

segunda-feira, 27 de maio de 2013

O swing de Luciana Mello em 6º Solo


Luciana Mello surpreende
Doses generosas de samba, baladas envolvidas em sonoridades delicadas, uma pitada de jazz e um repertório que parece ter sido escolhido à dedo. Assim é (resumidamente claro!) 6º Solo mais recente trabalho da cantora Luciana Mello lançado nos últimos meses de 2011. O álbum expõe uma brasilidade musical madura com arranjos feitos na dose certa para a voz firme da moça. Luciana buscou pérolas nos trabalhos de gente tarimbada da MPB para criar um ambiente cheio de nuances, sem medo de colocar no mesmo caldeirão os diferentes temperos da nossa música. Frescor e atemporalidade andam de mãos dadas por todo o álbum. O repertório traz o poder de fogo dos versos de Gonzaguinha na faixa Recado, a força das raízes africanas em Áfrico de Sérgio Santos e Paulo César Pinheiro e a levada cheia de swing do irmão Jairzinho Oliveira em Tchau. Isso sem falar na elegância de Couleur Café de Serge Gainsbourg que tem a participação do alemão-franco-canadense Cornelle e do samba de primeira Mentira, onde Luciana divide os vocais com o paizão cheio de categoria Jair Rodrigues. Tudo isso na produção bem conduzida de Otávio de Moraes, que com muita sensibilidade captou perfeitamente o que Luciana queria dizer.
6º Solo deixa Luciana Mello confortável para buscar na diversidade sonora todas suas influências e raízes e à partir daí ampliar seu território sonoro. Já fazia quatro anos que Luciana Mello não lançava um disco seu. Com 6º Solo, a cantora mostra que o tempo foi importante para que conseguisse colocar em prática antigos desejos. Um deles foi o de gravar com a banda tocando ao vivo, no estúdio. 
O apego ao natural vem no embalo da paixão pela música brasileira. Em 6º Solo, Luciana deixa o soul um pouco de lado para experimentar também ritmos que têm a ver com sua origem. Ela cresceu com a oportunidade de ouvir MPB dentro de casa, ao lado do pai e dos amigos deste. Esse disco mostra toda essa influência brasileira, que é do seu pai, do seu irmão, dos músicos que conheceu.
O pai, Jair Rodrigues, participa na música Mentira e ninguém melhor que ele para chamar do que o cara que lhe apresentou o samba. O músico canadense Cornelle divide a canção “Couleur Café” com Luciana. O disco abre com Chico César (Descolada) e Tchau (Jair Oliveira). O repertório traz também a bela Se For Pra Mentir, de Arnaldo Antunes.

6º Solo – Luciana Mello
Nota 10
Marcelo Teixeira


                                                              


sexta-feira, 24 de maio de 2013

O samba cadenciado de alta qualidade de Virgínia Rosa


O CD: bem caprichado
Virgínia Rosa é, sem dúvidas, uma das maiores cantoras deste país. Como bem disse uma vez o jornalista Donizete Costa, no Brasil existem três rosas: a Passos, a Colin e a Virgínia. E isso é comprovado no excelente disco Samba a Dois, seu terceiro disco de carreira. Lançado pela Eldorado em parceria com a Distribuidora Independente, Virgínia passei por ritmos bem brasileiros e escolheu a dedo os melhores compositores para cantá-los com sofisticação, dando uma nova releitura para músicas como As Rosas Não Falam, do mestre Cartola. A multiplicidade de seu canto vem da escola de Virgínia, que foi vocalista na banda de Itamar Assumpção. Em seu caminho solo sempre primou pelo bom gosto musical e coloca seu vozeirão a serviço de grandes obras. Longe do marasmo óbvio das regravações, Virgínia pesquisa seu repertório com afinco e desenvolve com sua personalidade forte e marcante.

Em Samba a Dois, Virgínia da uma nova fardagem para o clássico e até incursões pelo samba de compositores como Bebel Gilberto, Marcelo Camelo, Orlando Moraes e Celso Fonseca. Mas também apresenta os novos nomes de Luísa Maita e Tito Pinheiro. De Luísa, que já teve músicas gravadas por Mariana Aydar, Virgínia escolheu duas músicas: Madrugada e Amado samba. Da obra de Tito Pinheiro escolheu Sereno.

O disco abre com a faixa-título, composição de Marcelo Camelo apresentada como um samba atual e a versão de Virgínia segue um caminho diferente das cantadas por Marcelo Camelo, seu criador, que a deixa com ares melancólicos ou por Fernanda Porto, que ridicularizou a canção com suas incursões eletrônicas. Virgínia mostra a versatilidade da ótima canção.

Ares da bossa nova, os irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle aparecem com a contagiante quebrada Que bandeira, em uma ótima releitura. Filhos da bossa, Celso Fonseca é representado com Meu samba torto e Bebel Gilberto em O caminho, já gravado no segundo álbum internacional da cantora.

A bem sucedida parceria com o músico Dino Barioni, cujo já trabalharam juntos no excepcional CD A Voz do Coração Ao Vivo, responsável pelos arranjos, é outro ponto a favor de Virgínia. As rosas não falam ganha um acompanhamento único, flertando com um tango argentino. Cartola dança com a dama pelo salão com desenvoltura acompanhado pelo acordeon de Lula Alencar, ficando impossível ficar parado. Entre os mestres do samba ainda colheu Quero estar só (Candeia, Wilson Moreira e Selma Candeia) e Voltei (Baden Powell e Paulo César Pinheiro). Apresentada como faixa-bônus no final do CD, Virgínia mostra sensibilidade em Sonho e saudade, composição de Tito Madi gravado pela cantora para a trilha sonora do filme Bens confiscados.

Apesar do título, Samba a Dois vai além e se junta com fados, tangos e outras praias. Mas sempre com o sangue quente do bom samba e a cadência da voz da paulista. Criada nos palcos da vanguarda, Virgínia Rosa tem jogo de cintura para brincar com a música sem se impor limites. Conhece bem sua praia e sabe o que lhe cai bem. Seu canto maduro e sua veia de artista fazem desse Samba a Dois um trabalho digno das grandes cantoras da música brasileira.

 

Samba a Dois – Virgínia Rosa

Nota 10

Marcelo Teixeira

quinta-feira, 23 de maio de 2013

A riqueza maior de Jussara Silveira


Ame Jussara Silveira
Jussara Silveira traz a sua energia artística no desenho musical que sucede do canto valioso e límpido, caprichada pronúncia, timbre suave e feminino, repertório impecável, sutilezas cênicas de quem finge que não sabe que é uma rainha. Uma simplicidade que comove porque atesta ainda mais a sua grandeza. Cuidados estéticos com o figurino e a beleza natural que carrega em si na sua condição de mulher. Faz tempo que planejava escrever sobre Jussara, mas faltavam-me argumentos e o medo de errar ao contempla-la seria trágico. Mas ao ouvir o novo disco da cantora, pude sentar diante o note e escrever algo. Ou melhor, tentar. Escandalosamente: pura emoção. Como está cantando Jussara Silveira! Como se anuncia e se orquestra o talento e a dignidade da dama dos teatros e das eletrolas mais exigentes deste país! Jussara Silveira é uma cantora de teatro, uma anfitriã digna dos melhores shows e sua pele clara como nuvem nos emociona apenas pelo olhar.

É de fazer chorar o novo disco, intitulado Ame ou Se Mande. Costuras exatas na fala e no canto exprimindo poesia e realces da cultura amorosa entre os humanos. Querer envelhecer, fazer contato imediato, amar uma filha de Oxum, morar em Marte, não sair da Bahia, dançar um Semba, tocar piano misturado à percussão. O vestido de sereia no prata da deusa Iemanjá, no chumbo de Oxalá, para a voz da filha de Odé.

Jussara nasceu em Minas Gerais, mas foi criada na Bahia e dai nasceu o encanto pelos santos e orixás e por Dorival Caymmi. Ame ou Se Mande é o sexto disco de Jussara Silveira que o selo Joia Moderna, de Zé Pedro, lançou no início de outubro de 2011. Feito em parceria com Sacha Amback e Marcelo Costa, o CD traz composições de Celso Fonseca e Ronaldo Bastos (A Voz do Coração), Cezar Mendes e Capinam (Ifá), André Carvalho e Quinho (Bom), Toni Costa e Luiz Ariston (O Dia que Passou), Roberto Mendes e J. Velloso (Doce Esperança) e até mesmo um poema de Fernando Pessoa musicado por Zé Miguel Wisnik (Tenho Dó das Estrelas).

Destaque também para as regravações de Babylon (Zeca Baleiro), Contato Imediato (Arnaldo Antunes/Carlinhos Brown/Marisa Monte), Dê um Rolê (Moraes Moreira/Luiz Galvão), Marcianita (José Imperatore Marcone/Galvarino Villota Alderete) e Madre Deus (Caetano Veloso).

Foram quatro anos desde os lançamentos de Nobreza (em parceria com Luiz Brasil) e Entre o Amor e o Mar, que Jussara ocupou desenvolvendo projetos paralelos como o DVD Três Meninas do Brasil, gravado ao lado de Rita Ribeiro e Teresa Cristina, o show Viagem de Verão com André Mehmari e Arthur Nestrovski incluindo canções de Schubert a Caymmi, além de colaborar na trilha sonora do espetáculo Sem Mim do Grupo Corpo, junto com Zé Miguel Wisnik e Carlos Nuñes.

Ame ou Se Mande foi gravado em maio de 2011 nos estúdios Zega Music e Yahoo/BR Plus, no Rio de Janeiro. A direção é de Sacha Amback e Marcelo Costa. A distribuição nacional é feita pela Tratore.

O CD é espetacular. Há dois anos não parei mais de ouvi-lo. Voz, música, letras, arranjos: casamento perfeito. Se existe tudo isso junto, podem acreditar que está tudo aqui, no disco de Jussara. Para muito mais além da alma: ouvir Jussara Silveira é se permitir à raridade de uma cantora imprescindível para os ouvidos de quem não vive sem Música Popular Brasileira.

 

Ame ou se Mande – Jussara Silveira

Nota 10

Marcelo Teixeira

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Nathália Lima: de Brasília para o mundo



A melhor voz do Brasil
Brasília, a capital do Brasil, produz um seleiro de cantoras dignas de respeitabilidade mútua perante o mundo. É difícil não depararmos ao menos com uma cantora que não tenha estado em Brasília, passado um tempo em Brasília ou, melhor, ter nascido em Brasília. A efervescência da música aconteceu (e ainda acontece) em Brasília. No final dos anos 1970, predominavam os ritmos regionais como o forró e a música sertaneja e já nesta época, despontava no grupo Secos e Molhados o cantor Ney Matogrosso, que fora profissional da área de saúde na capital federal. No começo dos anos 1980, surgiram várias bandas de rock vindas de Brasília que despontaram no cenário nacional, como Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude, todas com influência punk. Na mesma época, um carioca criado em Minas Gerais, Oswaldo Montenegro, se tornava conhecido na cidade, montando espetáculos de cujo elenco fazia parte Cássia Eller, que seria, anos mais tarde, uma das maiores cantoras do Brasil.

Nesta mesma época surgiu, paralelamente ao cenário do rock, o reggae de Renato Matos e outros movimentos culturais que criaram o Projeto Cabeças, de onde surgiram vários artistas de Brasília. Na década seguinte, despontaram o hard core dos Raimundos e o reggae do Natiruts. Alguns músicos e cantores que moraram em Brasília durante esse período foram Ney Matogrosso, Zélia Duncan e membros da Legião Urbana e dos Paralamas do Sucesso.

Brasília produz muita música de qualidade, muitas cantoras respeitadas e admiradas. Mais recentemente, o choro vem ganhando adeptos em Brasília, resultando na criação de clubes de choro, como o Clube de Choro de Brasília. A capital do Brasil também é adepta da bossa nova e por lá vive o grande Roberto Menescal que, juntamente com cantoras do naipe de Márcia Tauil, Sandra Duailibe, Emília Monteiro, Cely Curado e Nathália Lima, fazem de Brasília uma das efervescências mais abundantes e sedutoras que já vi.

Conheci o trabalho e a voz doce de Nathália Lima ao ouvir o disco Ela Cantam Menescal, o que eu apelidei de As Quatro Vozes, por se tratarem de quatro grandes vozes para homenagear um grande compositor. E confesso que me apaixonei por essa cantora, doce, meiga e encantadoramente divina. Nathália Lima tem o dom de exprimir suas qualidades artísticas como quem sabe o que quer, mas também como quem não sabe o tamanho de sua grandeza.

Prestes a lançar um novo disco, Nathália Lima vêm ultimamente se apresentado em shows por Brasília cantando Gonzaguinha e para quem não está na capital brasiliense vale a pena conferir os ensaios que existem pelas redes sociais. Nathália Lima canta interiormente e tentamos descobrir como pensa, sente e age em suas interpretações. Singela, a cantora norteia um repertório com sensibilidade e astúcia e nocauteia-nos com uma voz cristalina. Revela-nos o íntimo da alma, o seu eu interior, suas esperanças, sonhos, ideais, suas motivações: a música. Às vezes é possível que percebamos essa manifestação em sua voz, esse brilho em seu cantar, esse magnetismo sensível que nos passa a emoção maior de sua música e assim não estamos reprimindo os nossos sentimentos e impulsos, pois a música que Nathália Lima canta passa a ser única.

Nathália Lima canta com a feminilidade brasileira que talvez a música exija e consegue com a compreensão e a descoberta de um novo som nos passar algo valioso, atuando como força positiva todo o ambiente em que está. É o prazer em cantar que está presente todas as suas manifestações, em todos os seus poros e em todos os seus trejeitos singulares e mansos. A serenidade de Nathália Lima faz a efervescência cultural de Brasília ser mais rica e dinâmica.


A voz doce de Nathália Lima

Marcelo Teixeira

terça-feira, 21 de maio de 2013

Agenda Mais Cultura! Marina Wisnik


Marina Wisnik no Sesc
Dona de uma voz encantadora, a cantora paulistana Marina Wisnik volta aos palcos da cidade para mostrar as músicas de seu mais recente disco, o maravilhoso e brasileiríssimo Na Rua Agora, lançado no ano passado com requintes elegantes e distintos. Marina consegue captar algo a mais na música brasileira e nos transporta a um mundo imaginário, incapaz de traduzir, mas que é ao mesmo tempo inovador e sublime. Na Rua Agora é um desses discos que nos pegam de surpresa já na primeira música e audição. Com produção de Marcelo Jeneci e Yuri Kalil, Na Rua Agora é constituído por palíndromos e melodias simples, mas com um conteúdo fantástico sobre coisas adversas. Filha do compositor, cantor e professor da USP, José Miguel Wisnik, Marina segue seu próprio caminho, mesmo tendo como tiracolo o sobrenome famoso. O que importa é que seu CD de estreia é uma maravilha. Depois de ouvi-lo determinadas vezes, só me resta recomendar, mais uma vez, para que outras pessoas também se deleitem com o trabalho desta cantora espetacular, que é considera mais uma revelação do novo cenário musical na música popular Brasileira. O show é nesta quarta feira, às 20:30, no Sesc Vila Mariana, no Auditório.

 

Agenda Mais Cultura!

Marina Wisnik

Local: Sesc Vila Mariana

Rua Pelotas, 141 / São Paulo / SP

Horário: 20:30

Dia: 22/05/2013

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Cadê Zezé?


Sem voz
Estou com tanta pena do neo-sertanejo e pai da dublê da Britney Spears, Wanessa e irmão do Luciano, por estar sem voz, que isso chega a me dar pena! Recebi alguns e-mails de fãs ardorosos (homens, na sua maioria), pedindo para que eu me retratasse ou retirasse o artigo O Fim de Zezé do ar, mas para a minha felicidade e para a prosperidade maior da nação, não vou retirar o artigo. Zezé di Camargo, o cantor que iniciou a carreira ao lado do irmão (?), que virou tema de filme, usou e abusou dos cortes ridículos de cabelo e ainda colocou a família para trabalhar, passou da hora de aposentar e viver de capim. Aliás, Zezé di Camargo está afastado há alguns meses e um pouco depois que postei o artigo, ele deu uma sumida e cantava sempre em play black. Pudera, mas Zezé, o ídolo das mentes ocas, já está praticamente mudo, para alegria minha e de muitos.

Qual o último disco do cantor? Qual o último sucesso? Não sei se terei respostas para as minhas próprias perguntas, mas a bem da verdade, não quero saber nada da carreira de Zezé. O que quero é que sua música ralé e blasé sigam para lá depois da ponte que está se quebrando. Sua voz não é mais a mesma. E esse pequeno artigo é só para reforçar que tudo aquilo que vem fácil, vai fácil. Zezé não fará falta para a música popular brasileira, portanto, o aconselho a ir para a Islândia, um país frio e que por lá ele não precisará cantar é o amor, que mexe com minha cabeça... que lixo!

 

Cadê Zezé?

Marcelo Teixeira