domingo, 11 de junho de 2017

O desabafo de Elba Ramalho


Elba: coerente e precisa
Elba Ramalho é uma das melhores e maiores cantoras do país e que fez uma rica trajetória na música popular brasileira focada e centrada no regionalismo musical de sua terra natal, Paraíba, para conseguir consolidar o forró e o frevo de Pernambuco, de seu amigo Alceu Valença, dentro de um patamar de altíssima grandeza. Não foi uma coisa de um ano e meio ou dois anos para que isso acontecesse, mas sim, mais de duas décadas para que Elba e companhia limitada conseguissem fazer com que a música de raiz nordestina estivesse dentro das insígnias musicais brasileiras e fosse referência lá fora. Conseguiu, com tamanha veemência e coragem, colocar o forró e o frevo dentro das alegorias festivas nacionais e o estilo forró e frevo hoje são patrimônios imateriais, coisa que muita gente praticamente desconhece. Porém, o desabafo desta grande cantora pegou a todos de surpresa e com tamanha voracidade. Por que, em épocas de festas juninas, o forró fora posto de lado para servir ao público do sertanejo universitário? Não faz sentido termos que comparecer às festas juninas espalhadas pelo estado de São Paulo e termos que ouvir, com certa exatidão de cansaço auditivo, músicas de cunho duvidoso para a festividade, com grande apelo ao erotismo e forte presença de dançarinas seminuas dançando em horários inapropriados. A festa de Junho não pede isso, mas somos obrigados a assistir tais aberrações. Precisamos estudar o conceito de festas juninas locais fora do eixo Rio/São Paulo para que possamos entender a significância que esse momento pede. Mas o desabafo de Elba é justamente o contraponto desta minha colocação citada na frase acima: em sua cidade natal, Paraíba, o forró deixou de ser uma coisa levada a sério e passou a ser um mero ritmo qualquer, dando espaço e vazão para o sertanejo. Óbvio que existe espaço musical para todos os ritmos, mas é preciso um certo respeito pela cultura do outro, pelo espaço do outro, pela presença do outro. Nem todos que estão no forró verdadeiramente dito gostam de sertanejo universitário e na certa muitos que ali estão, querem ver as típicas danças tradicionais. Por que, então, precisamos assistir a aberrações sertanejas em um momento dos forrozeiros? Elba entrou no coro dos injustiçados e precisou vociferar para que tivesse sido ouvida. Elba criticou duramente a programação de São João anunciada pelos locais que tradicionalmente celebram as festas juninas como Campina Grande (Paraíba) e Caruaru (Pernambuco) e ficou irritadíssima com o que ouviu: ao falar sobre o assunto com diversos jornalistas, a cantora disse que não canta em Barretos por ser um evento deles e que não gostaria de ir a uma festa de São João que não tivesse forró.  Assim como o frevo de Pernambuco é um movimento do Carnaval nordestino, o forró é uma festa promovida pelo povo paraibano e nordestino como um todo, marcando território em suas festas regadas de tradicionalismo, festanças e alegrias. É preciso haver mais respeito. É preciso ouvir o desabafo de Elba: Falei com a Paraíba, reivindiquei porque o São João de lá está muito mais comprometido que o São João daqui. Eu não tenho nada contra nenhum artista, nada contra nenhum sertanejo. Tem espaço para tudo, no céu cabem para todos os artistas, ninguém atropela ninguém. Porém eu não toco na Festa de Barretos, Dominguinhos também não cantava. A festa é deles, é dos sertanejos, e eles têm bem esta coisa: essa área é nossa. Ícone do forro nordestino, Elba tem livre caminho e arbítrio para falar o que pensa sobre qualquer assunto e dentro de seu universo particular e muito conhecido, o forró, ela tem acesso direto para dizer o que pensa. Aí quando chega aqui no São João em Campina Grande, não ter o Biliu de Campina, não ter Alcymar Monteiro, eu reclamei bastante, cara, não ter os trios. Quando chega o São João, se você não tem forró... Eu não quero ir a uma festa que não tenha forró. Façamos das palavras de Elba uma profecia perante os arroubos da mídia e dos farsantes musicais. O forró precisa ser respeitado!

 

O desabafo de Elba Ramalho
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 9 de junho de 2017

As indiretas diretas de Mallu Magalhães em Vem (2017)


Mallu: capa perfeita
Quem me conhece sabe o quanto gosto da Mallu Magalhães, mesmo sabendo que ela nunca figurará entre as melhores cantoras do Brasil, muito menos terá a melhor voz amanhã ou depois de amanhã. Mas na certa Mallu Magalhães é uma cantora diferenciada nos dias de hoje e a prova disso é que a cada disco lançado, uma pitadinha de indireta vai para alguém a quem ela gostaria de mandar uma direta bem certeira. Entendeu? OK, eu explico. Mallu sabe que não é dessas cantoras que agradam apenas pelo fato de ser uma cantora brasileira que tenta (eu disse tenta) estar entre as tops das cantoras brasileiras. Ela não precisa, evidentemente, de estar entre as tops cantoras brasileiras porque ela não precisa estar nesse roll. Mas Mallu sabe que não é uma cantora dita sensacional, ótima, perfeita e charmosa, mas sabe que tem muito mais qualidade que muitas cantoras clichês que estão espalhadas por aí com roupas curtas e sapatos altos, dançando com os quadris para lá e para cá. As indiretas diretas certeiras de Mallu se fazem presente em todos os seus discos e desde quando ela se entende musicalmente por gente que critica parcial ou totalmente o seu trabalho. Acata quem quer, responde quem aceita. Mallu é muito mais que uma cantora: ela é uma super cantora! Digo que Mallu é uma raposa e como todas as raposas, ela aparece, mostra seu serviço e volta a ficar no seu cantinho. O tempo para isso é tão rápido que você nem percebeu que ela passou. Poucos conseguem entender o mundo filosófico de Mallu e é justamente este o grande insight de sua carreira: ela é um mistério e ao mesmo tempo uma saborosa surpresa. Esqueça se você vai ouvir o novo disco com a intenção de encontrar aqui sinais de Banda do Mar (2014) ou qualquer coisa que Mallu já tenha lançado antes. Dividida entre Portugal, a bossa nova, o Rio de Janeiro e São Paulo, o disco tem uma atmosfera caricatural dela mesma, ou seja, de Mallu Magalhães dentro de sua melhor esfera: o da menina que se transforma em mulher, a artista que se transmuta de mistérios e preciosidades, tal qual a primeira peça teatral escrita por Clarice Lispector (1920 – 1977), Pobre Menina Rica (1930).  Seria demais dizer que Mallu Magalhães é a Clarice Lispector da música e perguntar que mistérios tem Mallu? Seis anos após o lançamento do espetacular Pitanga (2011), Mallu volta à cena musical com o gostosinho e diferente Vem (2017 / Sony Music / 29,99), disco este que causa uma estranheza ao primeiro som justamente por ser o oposto daquilo que a cantora vinha produzindo anteriormente. Esta mudança quase repentina em seu estilo tem um propósito: transformar-se em uma cantora sólida para as futuras gerações, das pessoas que hoje não tem cérebro, mas que amanhã perceberão o quanto perderam em não ouvir suas músicas hoje.

 

Vem (2017) / Mallu Magalhães
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

segunda-feira, 5 de junho de 2017

A Viagem Encantada (1975) de Jorginho do Império


Jorginho e o melhor disco de sua carreira
Considerado o sucessor de Martinho da Vila, o cantor e compositor Jorginho do Império se perdeu na carreira e se esquivou de ser um dos ídolos do samba nos dias de hoje. Com uma voz agradabilíssima, um jeito espontâneo de cantar, com um carisma invejável dentro do universo do samba e com discos sensacionais lançados no mercado fonográfico nos anos de 1970, Jorginho tinha tudo para decolar e estar no mesmo páreo que outros bambas, como João Nogueira, Roberto Ribeiro ou Benito di Paula. Independente desse mero detalhe, o cantor deixou patenteado um dos melhores registros fonográficos de sua carreira, o excelente Viagem Encantada (1975 / Polydor / 23,99), que é uma leitura clássica daquilo que se chama samba de verdade. Jorginho conseguiu extrair em um único disco toda a experiência que conhecia do samba e todo o seu consagrado reinado dentro desse segmento para exprimir todo o seu sentimento perante suas músicas. É um dos melhores discos de samba de todos os tempos em voz masculina e é uma pena que este clássico disco não se encontra facilmente em CD nem em sebos, nem em lojas convencionais. Não podemos, em momento algum, deixar essa obra morrer, muito menos deixar que a carreira de Jorginho do Império seja apagada.

Viagem Encantada (1975) / Jorginho do Império
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Sambas do absurdo comprova o que são absurdos


Sambas do absurdo: capa absurda
Se fosse apenas pela compreensão do que é samba, já seria um belo argumento para comprarmos o disco. Mas levando em conta que temos a junção de Juçara Marçal, Rodrigo Campos e Gui Amabis, temos que rever nossos conceitos e saborear até onde puder para termos a certeza de que aqui há uma qualidade impressionante em boa parte do álbum. Não chega a ser um disco perfeito, mas a sonoridade que envolve o samba e a voz agradabilíssima de Juçara nos corrompe a uma satisfação plena de originalidade e astúcia. Mesmo havendo uma breve assimetria de durabilidade absurda de atos, fica impossível não absorvermos as canções como um todo, com a sua força extraordinária e sagaz, demonstrando toda a sua grandiosidade em torno de três grandes artistas da música nacional. Sambas do Absurdo (2017 / YB / 28,99) é um disco que reúne a saga competente de três artistas conceituados, cada qual com seu público fiel e que se reuniram para fazerem o impossível por uma causa justa: mostras as vicissitudes da samba. Havendo uma sincronia entre o sincretismo do samba com a poesia em sua essência total, o resultado desse álbum nos repele ao universo infiltrado de tempos soberbos em que o estilo se polemizou em áreas que não eram apenas o morro. Há simbioses existenciais dentro da cadência sincopada provocativa e erótica nas apimentadas canções, alimentados por uma perfilação de músicas com diversos temas transversais e com assuntos que se entrelaçam aqui e ali, como sexo, conflitos, urbanização, identidades de gêneros. São reflexões que nos remetem ao bom e velho cancioneiro de outrora, em que o ouvinte parava para refletir e discutir sobre a música de botequim, sobre o cantor, sobre a mulher, sobre a vida. São levezas de outrora que jamais voltarão ao mercado fonográfico. Com apenas oito faixas, Samba do Absurdo traz uma analogia diferenciada na titulação de suas músicas: todas elas são marcadas pelo mesmo nome, mas com numeração diferente. Assim, podemos dar nome pessoal às músicas como exemplificação e isso não acomete no desenrolar do disco, que são todas com o nome absurdo e com numeração de trás para frente. Uma bela e genial sacada do trio, que fez de um disco simples a um disco de primeira grandeza dentro do pantaleão destinado a evolução. Juçara Marçal é tão boa como intérprete que chega a nos dar um nó na garganta quando canta, mesmo com uma suavidade angelical que a rodeia. Encantadora do começo ao fim, sua voz é uma suavidade existencial aos nossos ouvidos, mesmo com faixas sombrias e temerosas, sufocantes e temidas, chocantes e norteadoras. Chega a ser um absurdo sua voz. Mas absurdo mesmo é não ouvir o disco.

Samba do Absurdo (2017) / Juçara Marçal, Rodrigo Campos e Gui Amabis
Nota 8
Por Marcelo Teixeira

 

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Na Tua, o novo clipe de Olivia Gênesi





Há milênios o coração foi considerado um órgão sagrado, sendo o centro misterioso das emoções humanas, local onde se concentram a força e a sabedoria. Enquanto os demais órgãos trabalham em silêncio, o coração vibra, dando acordes sublimes e permanentes de sua presença e, talvez por esse motivo, tenha sido um dos primeiros órgãos de que o homem teve consciência. Associar o coração aos sentimentos e emoções que afloram nossos atos é a simbologia ímpar de intensos e marcantes momentos especiais. Ao simbolizar as emoções, o coração – o nosso e o de quem queremos bem – passa a fazer parte das expressões em todas as suas formas, em todos os seus idiomas e que correlacionam ao estado da alma, da pluralidade do amor, à afeição ao outro, a generosidade mútua.  Ao ouvir Na Tua, música e letra da cantora e compositora Olívia Gênesi, temos a nítida certeza de que a canção é um hino ao amor, essa forte afeição por outra pessoa que nasce por laços diversos e que por muitas vezes nos faz sermos pessoas melhores, capazes e humanas. Cantada magistralmente por Olivia, Na Tua é o simbolismo completo e perfeito de um sentimento tão acalorado e sensível, que fica impossível não se encantar pela voz, pela doçura de seu brilho musical, pelas nuances de sua atemporalidade. Na Tua indica um ser, uma pessoa que pertence ao nosso mundo, que faz parte do nosso eu, que está relacionado a segunda pessoa do singular e que está bem do nosso lado, pronto para nos abraçar, nos amar, nos maravilhar. Música gravada no excelente CD Melodias de Sol em Pleno Azul (2013), o clipe foi produzido e dirigido pela cineasta Letícia Lima a partir de cenas gravadas na Casa Pitanga Café, aqui em São Paulo, e as fotos que ilustram o clipe foram enviadas por mais de 70 internautas.  A intenção de Olivia é celebrar momentos amorosos de casais de namorados, amantes de longa data, confidentes e casais apaixonados a demonstrarem o que de fato pode ser entendido como amor, demonstração de afeto, emoção e carinho. A emotividade que perpetua na voz da cantora é tão marcante que chega a ser um vasto caminho para pensarmos que vale a pena termos alguém, lutar por alguém, ser de alguém e ter alguém. A voz de Olivia nos transporta a um mundo submerso das imagens e momentos e certezas e caminhos em que para ter a felicidade é preciso mais do que tê-la. É preciso preservá-la.

https://www.youtube.com/watch?v=-aOpsYqemAc
Site: www.oliviagenesi.com.br
Ficha técnica musical:
Olivia Gênesi – voz e piano
Bruno Balan – bateria
Luca Batista – guitarra
Guiaugusto Pacheco – clarinete
Felipe Alves - baixo

Na Tua (2017) / Olívia Gênesi
Clipe
Por Marcelo Teixeira



domingo, 28 de maio de 2017

O samba de Criolo


Criolo e seus espirais de vida
Sempre digo que Criolo é o expoente do Brasil perdido, o elo entre aquilo que a comunidade mais necessitada quer dizer daquilo que a elite não quer ouvir. Criolo é o tipo raro de cantor de rap que deu certo em todas as esferas e camadas musicais justamente por fazer de sua música uma forte batida contra os preconceitos e desfavorecimentos daqueles que nada têm.  Lançando o excelente Espiral de Ilusões (2017 / Oloko Records / 29,90), o cantor dita as modas em seu um álbum de inéditas que flerta com o samba em uma batida sincopada de alegorias sincronizadas e batidinhas de palmas eletrizantes. Nesse novo trabalho, o artista deu voz a dez faixas e segue o caminho inverso com relação ao seu último e bem recebido disco, o maravilhoso e pomposo Convoque Seu Buda (2014). Vale lembrar que hoje, no Brasil, são poucos os artistas nas quais esperamos discos de inéditas e Criolo enquadra-se nesse seleto grupo de competentes cantores nacionais. Espiral de Ilusões é um disco inteiramente voltado ao samba, reduto de sua infância no subúrbio Grajaú, aqui na zona sul de São Paulo e cujo Criolo já manifestara desejo em fazê-lo. No disco há de tudo um pouco: de racismo a política passando por discussões entre casais até na acalorada e prolífica redenção dos dias de hoje em que estamos vivendo, Criolo soube dar valor e vida aos personagens ocultos em músicas como Menino Mimado, Filha do Maneco ou Cria de Favela. Depois de ter suas capas em discos de cantores consagrados como Clara Nunes, Paulinho da Viola, Elis Regina e Chico Buarque, Elifas Andreato capricha nos detalhes da capa de Espiral, dando vida ao menino que se tornou homem chamado Kleber Cavalcante Gomes. Detalhando cada passo andado em seu habitat natural do passado, o cantor conseguiu exprimir todos os lados de sua formação social e humana para chegar com maestria a um disco sensacional, emocionado e que tem o samba como seta principal para dilacerar e formar um espiral em seu coração.

Espiral de Ilusões (2017) / Criolo
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Cadê o pop de Julia Bosco?


Cadê o pop?
Desperdício! É assim que começo este artigo que não é nada desrespeitoso com o trabalho da digníssima Julia Bosco, uma cantora que flerta entre todos os ritmos de música, mas que se perdeu totalmente em um disco pop e eletrônico. Quando digo desperdício, refiro-me ao desperdício de tempo, de ouvir uma boa música ou uma boa voz. Não que Julia Bosco não tenha uma boa voz, pelo contrário, ela o tem, mas não fez jus ao novo disco, lançado no ano passado com pompas de um disco que revolucionaria o mercado pop. Entrou em um nicho que não é sua seara porque nessa seara ela não domina. Não estou aqui dizendo que Julia Bosco não é uma cantora de prestígio ou categoria, e sim, que ela não teve maturidade o suficiente para pôr no mercado um disco tradicionalmente pop com requintes de eletrônico. A começar pela horrenda capa, o disco deixa a desejar no quesito originalidade, pois o que vemos é um conjunto de cores primárias misturadas com um rosto apático e sem graça. Dance com seu Inimigo (2016 / Coqueiro Verde / 21,90) contêm dez faixas com menos de quarenta minutos e a expectativa é fraca, não sintetizador e cabível de uma consternação única. Fica nítido que Julia tentou encostar-se à obra de Tulipa Ruiz, cantora que consegue flertar livremente com o pop eletrônico com categoria exemplar. A personalidade de Julia não compete com Dance com Seu Inimigo, seu segundo disco, que é o oposto de Tempo (2012): sua personalidade pode ser comparada com a de uma cantora sombria, sem muitas palavras e sem muito temperamento. Já em Tempo, eu havia dito, ainda em 2012, que era um álbum que não trazia grandes inovações e nem tinha pretensões de renovar a música brasileira. Era um disco despretensioso, mas prazeroso de se ouvir. Tempo era morno e estava dentro de uma caixinha de surpresas que a MPB guardava e por vezes soltava, mesmo sendo, como disse à época, despretensioso. Dance com Seu Inimigo é frio e está quase congelado, sendo o oposto de seu antecessor. Significações de que Julia Bosco não brilha tal como gostaria de brilhar, mesmo pertencendo a uma família magistral de artistas musicistas.  Com a aparência dos anos oitenta e a carência em relações sutis com o mundo contemporâneo, as músicas que norteiam esse segundo disco são balelas superficiais perto do morno chafariz interpretativo e criativo de Julia. Músicas como Pra Gozar e Volume são chatas, sem falar da caretice total de Tanguloso, que chega a ser péssima. Mesmo tendo ao seu lado o competente Donatinho, o disco não é dos melhores, não tem brilho, não tem sensatez, não tem vanguarda, não tem essência, não tem carisma, não tem cool, não tem bossa, não tem pop nem eletrônico. Desperdício ainda é pouco!

Dance com seu inimigo (2016) / Julia Bosco
Nota 4
Por Marcelo Teixeira

 

sábado, 20 de maio de 2017

A sutileza de Palavra e Som (2017) de Joyce Moreno


A beleza de Joyce Moreno
Lançado primeiramente no Japão no ano passado, Palavra e Som (2017 / Biscoito Fino / 29,99) acaba de ser lançado no Brasil com pompas de relíquias de uma artista genuinamente brasileira e afinadíssima com seu som bossa novista e jazzista. Não é demérito algum poder escrever um artigo baseado com a rasgação de seda de um crítico que espera ansiosamente por músicas novas desta que é uma das cantoras mais influentes daqui em outros hemisférios. Joyce Moreno lança Palavra e Som em um momento oportuno da história do Brasil, em meio a crises políticas e sons desagradáveis, que merecem mais respeito ainda pelo seu conjunto da obra. Trata-se de um disco lindo, perfeitinho, caprichado, com uma voz suave, um violão potente, um sabor de quero mais e uma sensação de que há qualidade naquilo que ouvimos. É preciso que nasçam mais Joyces pelo Brasil afora, para que nossa contemporaneidade seja sempre refinada, aquecida e comprometida com a ressonância musical de alto calibre. Joyce Moreno nos brinda com um disco que se assemelha com Tudo (2012) e que se distancia da música acalentada Cool (2015) pelo resultado de sons, expoentes de significação e brasilidade aflorada. É um resultado fantasmagórico, real, empírico, satisfatório e que nos leva a crer nas belezas de outras terras planas, de outros povos, de outros quefazeres. Palavra e Som se unem em uma beleza pura que arrasta pela complexidade de seus fatos: uma palavra que soa feminino e que tem qualidade daquilo que é belo e agradável, eternizado pela fluência de uma mulher formosa, bela, charmosa e autêntica. O disco tem uma característica única e é um conjunto de preposições que são tão agradáveis que à vista de uma audição primeira já nos comove, nos impacta, nos deixam atentos. São músicas capazes de cativar o observador e quanto mais ouvimos as palavras e os sons que Joyce nos quer apresentar, mais bonita e atemporal ela pode ser apelidada de beleza natural. A beleza de uma pessoa pode ser trabalha e a beleza de uma voz audível também e Joyce o faz com uma maestria triunfal. Ouvi com atenção cada faixa deste disco atemporal, assimétrico e intrínseco para poder dar a minha nota final, mas mesmo sabendo que existem belezas e proezas que têm como objetivo melhorar a aparência dessas expressões. Aqui o belo se faz presente, as músicas são produtos de um resultado mágico e conceitual, variando entre o acordo de cultura e opinião sensata. Aquilo que é belo é para ser ouvido, sentido, lido, assistido. Joyce Moreno se faz presente em sua beleza tenra entre sua música natural e sua simpatia plena em ser uma cantora magistral. Seu esforço é natural, bonito, singelo, perspicaz e a faz capaz de ser uma mulher neutra, angelical e bela. Palavra e Som é uma manifestação esplendorosa do ser que provoca um conhecimento gostoso e aprazível que é apresentada em múltiplas facetas com caráter relativo dentro de um mesmo esplendor de sua perfeição que entorna em emoção estética, fruição do pensamento provocada pela razão do ser.  Por esse mesmo motivo a arte de Joyce Moreno tem como objetivo central nos favorecer objetivos claros como o brilho de suas belezas femininas, musicais e humanas dentro de muitas modalidades em apresentar o ser na harmonia de suas formas e proporções, em todo o seu esplendor, em seu modo de provocar o conhecimento alheio que é um requisito obrigatório e indispensável para que esse seu objeto, a música, seja realmente provocado por aquilo que realmente é belo.  A interioridade musical favorecida de propriedade física e autoral, podendo estar relacionada com o caráter ou personalidade de um instinto fraternal, moderno e modesto faz com que a beleza de Palavra e Som esteja relacionada com a felicidade e o gozo de uma excelência por sua existência. Em dias tenebrosos, nada mais sofisticado desligarmos do mundo exterior e adentrarmos em uma sociedade em que a beleza do som tem o mesmo valor que a beleza da voz de Joyce Moreno.

Palavra e Som (2017) / Joyce Moreno
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

 

sábado, 13 de maio de 2017

Silva congela obra de Marisa Monte


Silva: disco morno
Indiscutivelmente, Silva é um cantor nostálgico e que precisava mudar de ares para se consagrar como um cantor que merece respeito. Ainda que tentasse resgatar as melhores fases de uma das cantoras mais perfeccionistas da MPB, Silva não conseguiu se desvencilhar de seu tom característico para cair de vez nas malhas suaves da população. Ganhou, talvez, uma mistura de carinhos com um misto de porradas singelas. Sua voz é agradável, mas é só. Não podemos associar Silva com uma grande voz de talento superior, porque ainda falta muito para que isso possa acontecer. Por enquanto, Silva é Silva mesmo reinventando canções de Marisa Monte. Com uma capa retrô, simples e comportada, Silva nos deixa a par da curiosidade em conhecer as músicas de Marisa cantadas por um homem. O resultado por vezes soa natural, por vezes superficial e algumas vezes neo-sofisticado. Mas depende muito do gosto peculiar de cada pessoa ao ouvir o disco, pois cada som é indiferente para cada ouvido e talvez esse seja o meu maior recado neste artigo e que transcrevo aqui pela primeira vez em seis anos de crítico musical: ouvir Silva não é tão fácil assim e quem conhece a obra do cantor na certa escolherá seus discos anteriores a este em que canta Marisa. Lançado em novembro passado, Silva canta Marisa (2016 / SLAP / 27,99) é um disco comum em que o artista dá voz à uma releitura compactuada de uma grande artista nacional. Não há defeitos nesse disco, mas não há beleza característico para ser um grande disco, pois ele é nonsense, homogêneo, respirador, tranquilizador e temporal. Leves batidas e muito pouco sintentizadas ficam como sendo marca registrada sob formas aleatórias em renomadas canções como Ainda Lembro, Infinito Particular, Eu Sei e a cansativa Não é Fácil. O jeito com a qual Silva canta aqui é arrastado, cansativo por vezes, insatisfatório e triste, mas supera as adversidades quando canta em tom introspectivo músicas como O Bonde do Dom ou De Noite na Cama. Vale ressaltar que Marisa Monte é a grande homenageada este ano pelo Mais Cultura Brasileira por seus 50 anos de idade e Silva presta uma homenagem à deusa da música com um disco que poderia ser melhor trabalhado, melhor desenvolvido e melhor estruturado. Eis aqui um crivo mercantilizado que afasta o ouvinte de segunda viagem (aquele que já conhece a obra encantadora do cantor) do ouvinte de primeira viagem (que pode se encantar perdidamente pelo seu jeito de cantar). Silva pode ser adorado ou odiado com este disco, assim como pode ser eternizado definitivamente como o cantor que deu voz às canções sensoriais de Marisa Monte.

Silva canta Marisa (2016) / Silva
Nota 7
Por Marcelo Teixeira

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Marina de La Riva é a rainha do mar de Dorival Caymmi


Marina e Dorival: justa homenagem
Com um sotaque levemente cubano, a cantora Marina de La Riva lança um disco no mínimo curioso e ao mesmo tempo autêntico: uma bela homenagem ao baiano Dorival Caymmi.  Gravado ao vivo em São Paulo, Rainha do Mar – Marina de La Riva canta Caymmi (2017 / Universal Music / 26,99) é um projeto inovador em sua carreira, que marca um retorno à obra do compositor, cujo transitou perfeitamente em 2014, ano de seu centenário. De um total de quatro shows iniciais, o resultado acabou virando um disco, tamanho o sucesso de público e crítica nas apresentações e que acabou por se transformar em uma turnê muito aclamada que chegou até Macau, na China. Sendo uma simples e bela homenagem ao cancioneiro do patrono da Bahia, o resultado não poderia vir acompanhado de uma excelente voz e de uma competente cantora, que acabou convidando artistas do mais alto nível, como Danilo Caymmi em O Bem do Mar e Oração a Mãe Menininha, Ney Matogrosso em Só Louco / Dos Gardênias e João Donato em Marina e Canto à Yemanjá / Rainha do Mar. Para escolher o vasto e glorioso repertório de Dorival, bastou as formas da natureza e os ricos personagens femininos que tanto cantou e encantou. Somado a tudo isso encontramos a voz latina com raízes cubanas e porto brasileiro de Marina, construindo aqui uma original categoria musical de forma habilidosa e fenomenal. Misturando pérolas como Canto de Nanã, Oração à Mãe Menininha, Babalu e Oggure, o Acalanto de Dorival Caymmi se junta com o acalanto cubano Canción de Cuna, que seu pai cantava. Marina de La Riva trouxe ao público um registro histórico e profundo, que precisa ser ouvido e lapidado a cada instante.

 

Rainha do Mar (2017) / Marina de La Riva
Nota 10
Marcelo Teixeira

 

sexta-feira, 14 de abril de 2017

O retrato concreto de Alberto Salgado em Cabaça D'Água (2017)


Cabaça: excelente CD
O bom artista é aquele que sintetiza a sua obra em cima de sua outra obra, buscando o seu melhor e interiorizando o mecanismo de conhecimento pleno de sua arte por meio de mensagens criptografadas em forma de música, dança, letras e artes cênicas. Muitas vezes ocorre o contrário: o artista, seja ele em qualquer esfera, se baseia em trabalhos anteriores para que seu reconhecimento seja marcado por sua marca registrada, não fugindo do lugar comum e com ambientações dentro de um mesmo segmento, de uma mesma moldagem, não se utilizando de outras roupagens, não usufruindo novas ferramentas ou novas inspirações. Não é o caso do cantor e compositor brasiliense Alberto Salgado, que vêm de uma inquietação transparente e inerente perante o seu trabalho musical. Se olharmos para trás, veremos que Além do Quintal (2014) é um disco brilhante, com ritmos que agradam a todos e com a perfeição em um trabalho que o destacou no cenário da música brasileira por ser um disco autêntico, verdadeiro e ser considerado por muitos como uma obra-prima. Quatro anos distancia o primeiro CD de seu novo lançamento, Cabaça D’Água (2017), que já se tornou clássico antes mesmo de vir a público. É sempre uma ansiedade esperar pelo novo trabalho de Alberto Salgado, que é um desses cantores que nos pegam pela forma como compõe e pela voz que enaltece seu talento. Diferentemente de Além do Quintal, esse novo CD traz toda a movimentação sombria que o Nordeste assola, a tragédia de Mariana (Minas Gerais), as belezas de um futuro, os amores possíveis e a seca que matam os peixes. É um disco importantíssimo para entender o Brasil, pois Cabaça D’Água traz uma antropologia filosófica nas entrelinhas e que fica fácil a sua associação com a politicagem herdada em alguns âmbitos nacionais.  A esfera de escopo musical para a música de Alberto ressurge em um momento importante dentro daquilo que podemos catalisar com o inesperado, com o surreal, com a fantasia imaginada e idealizada por nossas mentes para que tudo não passe de um simples sonho. A realidade está embutida em versos como a vaidade do homem consome sede de viver, tanto pinga que some água de beber (Cabaça D’Água) e em ói que a tua coragem não me põe medo, ói que a minha vontade é teu desejo, ói que ce dormiu tarde e eu acordei cedo (Ói). Com produção do próprio Alberto Salgado e com a arte gráfica de Carol Senna, o disco ganha ares de uma estrutura privilegiada referente à mensagem que se deseja passar: antropologicamente, a cabaça é utilizada para servir alimentação para alguns povos e para muitos é utilizada como recipiente de água. Também podemos associar a cabaça como utensílio de várias gerações desde Cristovão Colombo, no ano de 1492, para guardar ouros e outras relíquias importantes para que não fossem furtadas. Levada da África para a Ásia, Europa e Américas como formalização da migração humana, a cabaça foi um importante instrumento como fonte de alimentação por meio dos oceanos para esses povos.  Aqui encontramos uma contradição que no disco de Alberto Salgado ela é bem explorada em ambos os aspectos: na música que leva título do álbum, Cabaça D’Água, o cantor se preocupa com a falta de água no planeta e nos lança a questão sobre a sede por água de beber. Já na música Da jangada em pleno mar, Alberto canta sobre as injustiças sociais que assolam nossas vidas perante as utopias existenciais. Vale ressaltar que esse decantamento é importantíssimo para a competência de todo o trabalho de Alberto, pois ele soube ministrar muito bem os lados representativos pela cabaça d’água refletida sociologicamente entre nós.  As participações especiais são para lá de especiais: Chico César dá o ar poético de sua graça em Ave de Mim, Silvério Pessoa nos surpreende pela força vocal no xote Pele de baixo da unha, Rafael Miranda nos encanta na derradeira Quem foi? e a sensacional cantora Carol Senna (grande revelação) dá o tom de lirismo em Força da fé. Um CD que precisa ser ouvido com o mesmo encantamento provocado pelo sentimentalismo de Alberto Salgado, um cantor que se torna a cada dia um expoente da nova safra da música nacional, com suas competências e sua originalidade impecável e que nos favorece o melhor de sua música.

 

Dados do disco

Produção: Alberto Salgado

Gravação: Feedback Studio Brasília

Técnicos de gravação: Valerinho Xavier, James Castro e Kiko Klaus

Mixagem e Masterização: Kiko Klaus / Estúdio Camarada Mixmaster | BH – MG

Concepções de arranjos: Alberto Salgado, Célio Maciel e Sandro Jadão

Arte gráfica: Carol Senna

Fotos de Alberto Salgado: Célio Maciel

Participais especiais:

Chico César na música Ave de Mim

Carol Senna na música Força da Fé

Silvério Pessoa na música Pele de Baixo da Unha

Rafael Miranda na música Quem Foi?

Produzido por PONTO4 Digital

Contatos:


Facebook: contato.albertosalgado

 

Cabaça D’Água (2017) / Alberto Salgado
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 7 de abril de 2017

O fantástico mundo de Luisa Maita


O fantástico mundo de Luisa
Não é todo dia que podemos ter a honra de ouvir uma cantora como Luisa Maita nas plataformas digitais, mas posso garantir que quem compra seus CDs ou assiste aos seus shows, reconhece sua importância dentro da música popular brasileira. Simplesmente, Luiza é uma cantora diferenciada, culta, refinada, intelectualmente cult e popularmente do povão. Se a massa encefálica ainda não descobriu Luisa Maita, então tem alguma coisa estranha nesse nicho: ela está aqui, bem no meio do povo, cercada por equipamentos refinados, mas com letras que simbolizam a tenra estrutura que pertencem à população. Se você não a ouviu, se você não a viu, se você não a conheceu ainda, peço para que corra e ouça Lero-Lero (2010) e seu mais novo lançamento, Fio da Memória (2016), que são obras-primas dignas dos melhores prêmios. Ela está ali bem diante de seus olhos, bem perto de seus ouvidos e ao alcance de suas mãos e se você perde essa oportunidade, infelizmente não há o que fazer. Seis exatos anos distanciam Lero-Lero de Fio da Memória e esse tempo foi primordial para que um fosse a extensão de complemento do outro, sem que ambos tivessem ligações diretas. Quando lançou o primeiro disco, a cantora era um dos nomes mais fortes do cenário musical, onde um pouco antes a cantora Céu despontava com sendo uma das melhores. Não há semelhança alguma entre ambas as cantoras e enquanto Céu seguiu uma linha mais vanguardista, Luisa optou por seguir uma linha mais atemporal, mas sofisticada, mais popular com requintes de intelectualidade. Não que Céu não tenha esses requisitos, mas enquanto uma seguiu uma linha mais popularesca dentro de um padrão não blindado, a outra seguiu por uma linha tênue entre a sofisticação e a beleza de uma pluralidade, que para entrar é preciso de senha. Se lá no início desse artigo eu disse que você precisava conhecer Luisa Maita e aqui digo que você precisa pegar uma senha, é porque não é qualquer um que vai escutar a rigor as músicas de Luisa com o mesmo afinco que escutam a música de Céu. Aqui entra a senha. Céu não é mais blindada, assim como não é mais Roberta Sá nem Mariana Aydar, enquanto que Luisa continua com uma blindagem que requer senha para entrar. Isso é bom porque a blindagem a cerca dos cunhões das paranerfálias musicais existentes. Mas é ruim porque Luisa pode viver em uma blindagem existencial por muito tempo. Lero-Lero é brasileiro, orgânico e com cheiro da zona sul de São Paulo: um cheiro cinzento, com mistura de barro e árvores secas. Fio da Memória é um disco que, a princípio, causa um estranhamento mórbido, secular, personificada e homeopática. É preciso ouvir de novo e de novo e de novo e quando você menos perceber, estará cansado de tanto que não ouviu ainda. Contraditório? Nenhum pouco. Faço referências à Lero-Lero porque para entrar no mundo maitense, você precisa ouvi-lo antes de entrar de cabeça em Fio da Memória. É como ler Platão sem entender Sócrates. Precisamos manter um pouco a blindagem de Luisa para que tenhamos certeza de que seu próximo disco será ainda mais categorial que Lero e Fio. Por enquanto, pegue uma senha enquanto não há filas exorbitantes de uma população insana e embarque no fantástico mundo de Luisa Maita.

 

Fio da Memória (2016) / Luisa Maita
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

sexta-feira, 24 de março de 2017

O vergonhoso baixo nível de Simone e Simaria



Baixo nível cultural
Não gosto da dupla de cantoras sertanejas Simone e Simaria e esse é o meu gosto particular e você não é obrigado a concordar comigo. Essa ondinha de cantoras sertanejas que descaracterizam o estilo, simplesmente não me descem goela abaixo e apenas desqualificam a raiz sertaneja e aqueles que construíram o costume popular do homem trabalhador, reforçando a cultura do campo, da roça, do povo humilde. Já disse inúmeras vezes que gosto da música sertaneja, mas antes de aberrações como Zezé di Camargo e Luciano, Leandro e Leonardo e outros insensatos aderirem ao estilo, deixarem a cinco palmos do chão de terra batida. De uns tempos para cá, as mulheres sertanejas vêm detonando a música de raiz e conseguindo afundar em mais dois palmos aquilo que já estava ruim. Exceto Bruna Viola, as demais cantoras estragam aquilo que chamamos popularmente de sertanejo universitário e, com roupinhas curtas a ponto de mostrarem pernas marombadas, cinturas de pilão, rostinho lisinho, cabelos bem tratados, essas mesmas cantoras se esquecem de um triunfo fundamental para com o público e para com aqueles que poderiam vir a gostar de suas músicas: o respeito. Como já disse em artigo sobre Marília Mendonça, o que essas mulheres cantam é a apologia à traição, ao desrespeito ao próximo, ao confinamento da própria mulher e a participação do homem como semente embrionária de um serviço hostilizado, como, por exemplo, o de poder ser infiel. Se tudo isso não bastasse, as cantoras que estão no topo do sucesso sertanejo são as irmãs Simone e Simaria que, com um astral que não contagia a ninguém, chegam a ser uma poderosa arma contra tudo aquilo que a pluralidade cultural tanto pede: o respeito ao próximo. Neste ponto que queria tanto chegar, gostaria de dizer que fico envergonhado de ver uma cantora chegar a agredir o seu público com tapas e pontapés para defender uma moral familiar, que poderia ser resolvido com a retirada do mesmo daquele ambiente pelos brutamontes seguranças. Chega a ser arrogante e intrépido parar de cantar para resolver no tapa e no grito aquilo que ficaria visível para milhões de brasileiros mundo afora. Se elas acham isso bonito e de grandeza espetacular, eu as repudio, pois a melhor forma de resolverem isso seria na resposta à altura para quem as ofenderam. Em primeiro lugar, elas precisam se colocar como cantoras e que estão sendo copiadas, infelizmente, por milhares de pessoas e essas atitudes de bater, chutar, empurrar, agredir verbalmente, apenas faz entrar para seus currículos a falta de empatia e civilização e, pior, que a educação que tiveram é tão baixa quanto as roupas que vestem. A música, definitivamente, sai perdendo com tudo isso.

O vergonhoso baixo nível de Simone e Simaria
Por Marcelo Teixeira

sábado, 18 de março de 2017

Disco (2013) de Arnaldo Antunes é um grande disco poético


O disco de Arnaldo
Não é de hoje que venho alimentando o desejo de escrever sobre Arnaldo Antunes e de poder dizer que o cantor e compositor se sobressai melhor em carreira solo do que com a banda Titãs. Isso fica claro e evidente em seus discos autorais e em músicas que a banda recusou, colocando o grande artista em destaque inferior (assim como fizeram com Nando Reis, ex titã). Arnaldo já passeou por todos os estilos musicais e por todas as esferas, que fica quase impossível dizer que não tenha sido explorador de alguma categoria musical. Grande poeta que consegue transpassar para a música o seu recado, Arnaldo vêm de uma veia roqueira com o coração manso, passando pelo mundo infantil (Pequeno Cidadão) até chegar os sensacionais e líricos Qualquer (2006) e Iê Iê Iê (2009). Pelo conjunto da obra e pela sofisticação territorial que conseguiu alcançar, o músico chegou à sua extensão poética de qualidade ímpar e solitária com o disco que chega a ser o ápice de sua carreira: Disco (2013 / Rosa Celeste / 27,99). Mas por que esse disco é tão bom assim? O que têm de tão especial que os outros discos dele não têm? Disco é simplesmente o resumo categórico de vinte anos que podaram a inteligência monumental de sua existência física e mental. A métrica simples que foi incorporada a todo o momento de forma única é o que marca a simetria de Disco, uma obra que praticamente nasceu pronta, mas que ficara guardada por muitos anos, em um simbolismo cultural arcaico perante os olhos de uns e sentimental e puro perante os olhos do autor principal. Tudo aqui soa muito simples, muito calmo e muito lúdico e, por esse motivo, Disco acaba sendo um disco atemporal, lírico e sincero.

 

Disco (2013) / Arnaldo Antunes
Nota 9
Marcelo Teixeira

 

 

sábado, 11 de março de 2017

Olívia Gênesi canta Chico Science


Olívia: grande cantora
Se estivesse vivo, Chico Science estaria completando agora no dia 13 de março, 51 anos, mas o Brasil acaba de completar no dia 02 de fevereiro, exatos 20 anos de sua partida. Pernambucano, Chico Science era um dos músicos mais completos de seu tempo e tendo a evolução à sua frente, com uma capacidade incrível de juntar ritmos, tocar instrumentos diversos dentro de uma mesma melodia e criar o Movimento Mangue Beat, ainda na década de 1990. Mesmo tendo uma carreira meteórica, o cantor e compositor teve dois discos gravados, turnês mundiais, crítica a seu favor, uma profusão de ideias na cabeça, amigos e músicos que se rendiam ao seu talento ímpar. Muitos cantaram Chico Science, mas poucos de fato reconheceram nele seu real significado. Chico era um artista tão completo que poucos conseguiam desvendar seu lado atemporal e essa atemporalidade permitiu que muitos cantores não ultrapassassem a linha horizontal entre o que de fato Science queria dizer com as letras de sua música como não chegaram ao ápice de uma verdade absoluta. O fato é que para cantar e representar dignamente a obra de Chico Science é preciso uma explosão de sentimentos provocados pelo próprio Science.  Pertencente a uma mesma cultura e homenageando o artista, a multi-instrumentista, cantora e compositora Olivia Gênesi vem desenvolvendo um projeto em que canta seus maiores sucessos, como A Cidade, A Praieira, Manguetown e as menos conhecidas do grande publico, como Maracatu de Tiro Certeiro, Samba Makossa e Cidadão do Mundo.  Olivia é uma expoente da boa música brasileira e está no projeto Manguebeat 20 Anos sem Chico Science, em que traz à tona toda a riqueza de detalhes do Mangue para o palco de forma acalorada, acústica e rica, dando uma remodelada nas músicas, com muito lirismo e muita poesia, dentro do contexto de Science. Vale ressaltar os belíssimos figurinos tanto de palco quanto de roupagem dos artistas que seguem a cantora, Bruno Balan (percuteria) e Fabio Dregs (guitarra). Olivia brilha no piano e na voz. Vale muito a pena ver a performance de uma artista como Olivia homenagear o artista único que foi Chico Science.
 
 

 

Olivia Gênesi canta Chico Science
Nota 10
Por Marcelo Teixeira

sábado, 4 de março de 2017

A obra-prima de Eduardo Gudin


Obra-prima de Gudin
Se fosse apenas pela interpretação de Eduardo Gudin, Um Jeito de Fazer Samba (2007 / Dabliú Discos / 26,99) já seria um disco e tanto independentemente de sua categoria. Mas as participações de Paulinho da Viola, Vânia Bastos e Quinteto em Branco e Preto fazem tanta diferença, que fica impossível não dizer que esse disco de Gudin não seja perfeito dentro de sua esfera.  Centrado em seu jeito particular de fazer samba, um jeito característico do compositor, esta obra-prima projeta a evidência de seu lado cancionista, como letrista em composições inéditas de sua lavra, bem como em músicas também surgidas no decorrer da vida, mas nunca antes gravadas, em parcerias com Paulinho da Viola, Francis Hime, Paulo César Pinheiro, Luiz Tatit, J. C. Costa Netto, Nelson Cavaquinho e Roberto Riberti. Este belo e rico trabalho celebra a expressão de um artista em sua plena convicção autoral e dominadora, fortemente ligada ao samba e à cultura assimétrica do Brasil, sublinhando a sutil formação do conjunto de informações musicais que assolaram nosso país quando o disco fora lançado. De 2007 até hoje são 10 anos de diferença e lá naquela época a proposta musical como um todo era diferente da de hoje, que requer uma malandragem sambística atemporal que nunca se viu.  O repertório de Um Jeito de fazer Samba tem dois momentos sublimes: a participação de Francis na composição da exuberante Moto Perpétuo e Luiz Tatit em Sensação. Destaque maior para O Amor e Eu, um dos sambas mais lindos que Eduardo Gudin compusera em um momento de distraída atenção poética e que resultou no samba de maior destaque de todos os tempos e que está aqui, bem neste disco atemporal, com um frescor único e sensibilizado à flor da pele.

 

Um jeito de se fazer samba (2007) / Eduardo Gudín
Nota 10
Marcelo Teixeira