sábado, 18 de julho de 2015

Vamos comer Caetano?


Caetano: seu talento é muito maior que a foto nú
Em seu livro Verdade Tropical (1997 / Companhia das Letras), Caetano Veloso disse em uma das passagens que já era famoso o suficiente para ser reconhecido nas ruas, apontado e comentado nas mesas de bar por conta de seu comportamento e de sua música. Isso fora nos idos anos de 1960. Passados mais de cinquenta anos, o mesmo Caetano Veloso continua sendo reconhecido, apontado, comentado e agora criticado por quase tudo o que faz ou pensa em fazer. Foi assim que muita gente se assustou quando lançou o (excelente) Zie e Zii (2009), em que disse escancaradamente na música Indiferente, que não acreditava em Deus e muita gente ficou indignada com tal revelação; quando o mesmo Caetano gravou um CD com Maria Gadú, em que ambos trocavam experiências no palco, cantando um o repertório do outro e que para muita gente a junção da dupla não soou muito bem; quando Caetano cantou A bossa nova é foda foi um arroubo de insatisfação entre as pessoas (mas essa mesma palavra, foda, fora a responsável por alavancar as vendas e a popularidade do cantor com o excelente e indispensável Abraçaço, lançado em 2013); ou quando Caetano resolve postar suas fotos nas redes sociais. Tudo o que o cantor e compositor baiano faz vira motivo de indignação por parte das pessoas iletradas deste país chamado Brasil. Primeiramente, quem o critica não o conhece. Segundo que quem não conhece a obra de Caetano não merece criticar a postura do cantor. Terceiro que Caetano pode tudo, até postar uma foto de cueca e meia preta ao lado de Carla Perez e de seu marido Xande. Nada contra a rainha do Tchan, até mesmo porque depois que Carla Perez deixou o grupo que a revelou e passou a usar mais a cabeça, passei a ter mais respeito por ela, mas Caetano Veloso está no momento em que ele pode tudo no alto de seus 72 anos. Além de ser um dos cantores do primeiro time da MPB, o cantor pode falar palavrão no meio de uma música (isso ele fizera muitas vezes), pode cantar com quem quiser e pode postar a foto que quiser. Gal Costa já cantara com os seios à mostra e teve uma capa de disco censurada, Maria Bethânia teve parte dos seios expostos em capa de disco, Vinicius de Moraes, Chico Buarque e Milton Nascimento já posaram a deriva de suas cuecas. Por que Caetano não pode posar com a sua cueca? Acho ridículo a postura de alguns apresentadores, jornalistas e críticos de música que foram para seus postos de trabalho denegrir a imagem do cantor apenas por causa de uma foto! A música de Caetano e sua inteligência estão muito acima de qualquer tipo de foto que venha a ser publicada. Não há nada de anormal com a foto, senão o ato de encontrar os amigos num momento de descontração. Caetano é preciso ser degustado, visto, admirado, ouvido, afinal, ele é um produto brasileiro. E como bem disse Adriana Calcanhotto no CD Marítimo (1998), vamos comer Caetano, vamos degusta-lo.

 


Vamos comer Caetano?
Marcelo Teixeira

sábado, 11 de julho de 2015

O culto a voz de Maria Bethânia


50 anos de Maria Bethânia na MPB
Ao longo de sua carreira, a cantora Maria Bethânia se mostrou como uma interprete maior de sua arte, de sua música, de sua veia cênica e de sua voz. Seu talento nunca foi questionador, mas sempre foi motivo de sondagens por cantoras em início de carreira. Pautada entre o certo e o incerto que dá certo, Bethânia é uma das raras cantoras que consegue comover o Brasil com sua voz poderosa e sua presença marcante de palco. Não é qualquer cantora que consegue chegar aos 50 anos de carreira sendo elogiada por quem realmente entende de música: para se chegar a essa idade comemorativa, é preciso muita disciplina, muita dedicação, meta e foco. E tudo isso Maria Bethânia conseguiu fazer com uma maestria impecável. O título deste artigo foi tirado do livro Verdades Tropicais (VELOSO, Caetano ,  Companhia das Letras, 1997, pag. 58), de onde o cantor e irmão Caetano revela que antes mesmo de Bethânia ser uma cantora profissional, ela já impactava o público com sua voz. O livro, em sua primeira parte, é um retrato fiel das andanças de Caetano e Bethânia por Santo Amaro, na Bahia, e pelo desamor da cantora pela Bahia; assim como posso retratar o livro como sendo um tributo de proteção do irmão para com a irmã e, por final, posso atribuir o livro como ilustração de Caetano defendendo a irmã como sendo uma artista nata dentro de sua própria casa e cujo a viu nascer, crescer e cantar. Maria Bethânia queria ser atriz depois que vira em sua terra natal alguns filmes europeus; se encantara com o mundo de Clarice Lispector e Fernando Pessoa e ao mesmo tempo era sondada a cantar em noites de estreia teatral na coxia e com as luzes apagadas e, assim, havia um mistério enorme em torno da imagem dela. O mistério sempre rondou a vida de Bethânia e o culto em torno de sua voz passou a ser, profissionalmente, como um mantra, uma reza e uma oração aos amantes de sua arte. Mas Bethânia é justamente isso: um misto de cultura, uma assombração de mistérios, uma divindade da música popular brasileira. O primeiro contato com Clarice Lispector foi aos quinze anos, quando leu, emocionada, Legião Estrangeira, publicado na extinta revista Senhor, tendo em vista que o irmão era leitor fervoroso da publicação. Maria Bethânia ficou tão embriagada com esta leitura, que resolveu mostrar sua paixão e sua loucura pela literatura hermética de Clarice. Desta troca de cumplicidades nasceu uma amizade entre a escritora e a já consagrada cantora de MPB, que tinha, entre seus amigos, Vinicius de Moraes, Gal Costa, João Gilberto, Gilberto Gil entre outros. Clarice não perdia os shows de Bethânia: Maria Bethânia é faíscas no palco, dissera a escritora quando a cantora encenou o show Rosa dos Ventos. Não é difícil imaginar que a carreira brilhantemente construída por Bethânia tenha o consentimento de Caetano Veloso para uma visão solidão de profissionalismo dentro da música. No livro isso deixa evidente, mas a própria cantora foi a mentora de sua própria vida artística, cultural e pessoal. São cinquenta anos de música dentro de seu próprio país, dentro de seu segmento, dentro de sua história. Aqui tudo se entrelaça, desde a literatura, a poesia, a música, a voz de Bethânia como um trovão emergente. Ao ouvirmos Bethânia, temos a nítida certeza de que a música está a salvo de tantas ignorâncias musicais que assolam atualmente a cultura de todos nós: graças a Bethânia, somos obrigados a concordar que a música popular brasileira é rica de qualidade, categoria e civilização. Há na cantora uma sombra assustadora de energia positiva, capaz de nos enrolar em um manto azul e branco sagrado de proteção contra mazelas estereotipadas e desengonçadas. Garanto que não é qualquer cantora que chega aos cinquenta anos de carreira sendo coerente com sua musicalidade e com sua motivação em cantar e inspirar novas cantoras e com o respeito para com a música popular brasileira. O culto ao canto de Maria Bethânia é muito mais que isso.

O culto ao canto de Maria Betânia
Marcelo Teixeira

 

terça-feira, 30 de junho de 2015

Cristiano Araújo e a carnavalização de sua morte


Cristiano: sertão, carnaval e morte
Quando noticiaram a morte de Cristiano Araújo, logo me manifestei nas redes sociais, dizendo que não conhecia o cantor, mas que a nossa música ficaria ainda mais rica com o seu silêncio. Disse isso sem arrependimentos ou traumas por não conhecer a fundo a carreira do cantor sertanejo, mas sabendo que suas músicas eram de um recorro comercial apelativo. Logo fui prestar um grande serviço à minha memória: ouvir o som de Cristiano Araújo. Tudo bem que o cantor não era lá grandes coisas, suas músicas não são de todo ruim, não há duplo sentido como ouvimos em outros estilos mais enfadonhos e até mesmo dentro do estilo sertanejo, mas assistindo aos vídeos de Cristiano, pude notar que há, sim, conotação sexual em suas danças e há, sim, um apelo comercial generalizado por grandes empresas. Disse no artigo anterior que Cristiano Araújo fora um cantor que trilhou o próprio caminho para chegar, por ele próprio, ao estrelato que tanto queria, assim como disse também que ele era um homem sensato, pensativo e de carisma pessoal incrível. Não retiro uma virgula do que disse no artigo anterior, mas ressalvo aqui neste novo post que Cristiano não era bem um desses cantores populares que nasceram do dia para a noite num estalar de dedos ou num piscar de olhos. O cantor teve o aparato de outras estrelas e sub estrelas do mundo dos negócios, do dinheiro fácil e da fama repentina. E acabou pagando da pior forma por todo este aparato: com sua própria vida. Perguntaram-me onde estava a minha diversidade e onde estava a filosofia da cultura sertaneja enraizada dentro de mim e eis que respondo: a diversidade está espalhada em todos os cantos, seja na música, na pintura ou na novela, mas cada um sabe interpretar e aceitar a sua diversidade da forma que bem entender. Aqui não utilizo a ferramenta da diversidade, mas sim a pluralidade diversificada que todos nós carregamos quando depreciamos algo. O multiculturalismo existente em todos os povos se faz presente quando possamos demonstrar algo diferente da nossa cultura popular e, neste sentido, Cristiano Araújo pôde mostrar perfeitamente sua música regional de forma sensata, original e atemporal para o Brasil inteiro, mesmo que às custas da mídia regedora deste país. A diferença entre multiculturalismo, diversidade e pluralidade diversificada é que a minha opinião se diz onipresente a opinião do outro e que nem sempre somos obrigados a aceitar o que o outro diz, sabendo que talvez esse outro tenha a mesma opinião formada que temos. Mais tomado pela emoção da comoção sofrida pelo público presente entre notícia, velório, sepultamento e o dia após a morte, escrevi um artigo brando na semana passada, em que tentei comparar o distanciamento profissional entre Cristiano, Luan Santanna, Gustavo Lima e, para ficar apenas no sertanejo universitário de hoje em dia, não me atrevi a buscar nomes que lutaram verdadeiramente para que a música sertaneja fosse, definitivamente, colocada em seu devido lugar. A posição em que Cristiano Araújo estava ainda poderia ser a de melhor posição, pois a mídia o renegava, mas o público lhe era fiel. Luan e Gustavo tinham a mídia ao seu bel prazer e mesmo lançando discos com classificação baixa, lucram e levam porcariada musical para dentro de nossos tímpanos. Nessa categoria, Cristiano Araújo venceu a batalha: através do entrave entre divulgação de show / mídia global / casa lotada, o cantor vencia em todos os aspectos. A música caipira, regional, sertaneja sempre foi reduto de anedotas e preconceito, mas vale lembrar que todos os ritmos brasileiros, desde o samba de Clara Nunes, Noel Rosa, Martinho da Vila, passando pelo pagode de Katinguêle, Exaltasamba, Pixote e até a música romântica produzida por Fábio Junior, Mauricio Mattar e outros são alvos de piadas, mas os sertanejos ficam mais ofensivos quando os atacam. Por que? Porque o psicológico do sertanejo é mais lento. Explico: todos os sertanejos dizem que nasceram na roça, de uma origem familiar rude e pobre, mas que conseguem o estrelato através da música, que acaba sendo mais que a fé em Deus que todos eles têm. Atribuem o sucesso ao pai, que lutou tanto para que o filho (ou os filhos) chegassem à roda da fortuna musical, se orgulham de não terem entrado para a faculdade e se orgulham de elevar o nome de sua terra natal aos jornais. O primeiro ato de preconceito parte diretamente deles, dos sertanejos e quando acontece alguma fatalidade como a que vitimou Cristiano Araújo e muitos tentam explicar os motivos pela sua morte repentina, eles, os sertanejos, se veem atirados num lamaçal de esgoto. Esse ato pejorativo de preconceito se chama pluralidade cultural e parte não da mídia escolarizada, mas sim de um grupo que já nasceu dentro do seio sertanista. A diversidade está dentro de cada um de nós, enraizada em cada pessoa que cultiva a sua própria cultura. Mas o que se viu nesta semana foi uma festa: nunca a morte de um cantor meramente desconhecido do grande público se fez presente nas redes sociais, no mundo da fofoca, do showbiz, da música. Cristiano Araújo levou para seu enterro uma bagatela de gente anônima, choradeiras de parto prematuro, que somados chegou a quase 61 mil estridentes. Suas músicas se tornaram hinos (e isso está acontecendo ainda mais agora que ele está há sete palmos de terra!). Mulheres em sua maioria se agarrando à outras desconhecidas pela mesma causa: pela carnavalização da morte de um cantor desconhecido do Brasil. Há de nascer vários cristianos agora, não no mundo da música, mas em forma de homenagem. Assim como já mataram verbalmente o jogador português Cristiano Ronaldo (para demonstrar que realmente o cantor era um mero desconhecido), tive que dar muita risada quando foi comparada a morte do sertanejo universitário ao dos Mamonas Assassinas: irrisório, hilário e, para não dizer canhestro. Mamonas Assassinas já tinham fama e um certo prestígio quando morreram naquele desastre aéreo, mas dizer que Cristiano Araújo tem o mesmo patamar de morte por levar multidões ao choro desengonçado, é dizer que somos analfabetos natos. O que me faz falta é a cultura que vem de dentro de casa, dos pais, dos avós, do irmão mais velho para demonstrar que mesmo havendo uma música descartável, temos também a música que nos faz pensar, que temos Chico Buarque, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Gal Costa, Elis Regina, Luiz Gonzaga, Gonzaguinha, Chitãozinho e Xororó, Pena Branca e Xavantinho, Elomar (este sim, um verdadeiro regional brasileiro) e tantos outros artistas verdadeiramente capacitados para nos mostrar que a música é a arte maior de pensamento único. A carnavalização na qual fomos obrigados a degustar, digerir e participar dos ensaios foi tão grotesca, tão irracional, tão desumana, que chegou ao ponto de todos os meios de comunicação ficarem maciçamente abordando o assunto, fazendo deste cerimonial um ato de bravura, de enriquecimento humano, de emoção sentimental para com quem nem chegamos a nos familiarizar. O  que se viu foi uma aberração completa, um sepultamento musical privilegiado para muitos que mesmo não querendo ver, estavam curiosos para ver o apito final e dizer acabou! Não me interpretem mal, pois o que estou falando é a mais pura verdade: Cristiano Araújo levou mais gente para o seu enterro que para seu próprio show. Fomos obrigados a participar desta coletividade fazendo parte das estatísticas de que o cantor realmente atraía multidões. Muitos que lá estavam no dia final não se conheciam, óbvio, assim como muitos que acompanhavam o sepultamento estavam ali mais pela curiosidade que pela emoção. Afinal: mesmo Cristiano Araújo lotando casas noturnas como fazia, seu público não era tão gigantesco assim, ou seja, faltava muito para realmente ser um Cristiano Araújo de verdade. Precisou o cantor morrer para provar que tinha mais público fora que dentro das casas noturnas.

 

 

Cristiano Araújo e a carnavalização de sua morte
Marcelo Teixeira

quinta-feira, 25 de junho de 2015

A morte prematura de Cristiano Araújo

Cristiano: Morte prematura
“O que temos pra hoje é saudade”. Um dos últimos sucessos de Cristiano Araújo foi praticamente um prelúdio de sua morte prematura, um recado, uma sina, uma predestinação daquilo que poderia vir a ser sua saída de cena. Cristiano Araújo não era um cantor de grande mídia, não aparecia com frequência em programas de televisão e era muito tímido, reservado e ao mesmo tempo humilde. Seus shows eram todos lotados, repletos de homens e mulheres que curtiam seu som, que adoravam suas danças e que estavam atentos aos movimentos do cantor. A motivação maior de Cristiano Araújo era o poder imediato desse público para com sua voz, sua música regional, seu jeito de mostrar seu carinho para com elas. Mas Cristiano não precisava da mídia televisiva nem dos jornais impressos para mostrar o seu talento: ele tinha a magnitude avassaladora de um grande músico dentro da música sertaneja, caipira e de raiz. Por mais que suas canções não demonstrassem ou denotassem atos ilícitos ou pejorativos, o cantor conseguia driblar as letras sensuais e mostrar que sabia compor, cantar e encantar seus fãs. Confesso que não tinha muita admiração pelo cantor e que muitas vezes ouvia suas músicas pensando que fosse outro cantor qualquer do segmento. Sua imagem e semelhança não ficaram gravadas em meu subconsciente, assim como suas músicas não me retratam em nada absolutamente. O que mais choca o país e a todos nesse momento é a forma repentina como o cantor saiu de cena dos holofotes: a morte, para todos, é inevitável, mas uma morte trágica, fechada e dolorida, ficará em nossa memória para todo o sempre. A carreira meteórica de Cristiano foi pautada em sucessos que hoje, depois de garimpar sobre sua vida, pude ter conhecimento maior. Foram quase cinco anos de sucesso embutidos dentro de um armário, ou seja, dentro de um cubículo que apenas os fãs tinham direito. Esnobado pela grande mídia, o cantor trazia consigo o aplauso dos fãs, que o veneravam em todos os caminhos. Partindo de um início sensato, Cristiano Araújo tinha carisma pessoal intransferível: ele era capaz de agradar desde a criança até o senhor, mas sua popularidade maior com a música trouxe uma notoriedade exemplar. Na vida pessoal era tido como brincalhão, alegre e amoroso com os filhos, enquanto no palco transmitia a mesma alegria para seus fãs, mesmo sendo um tímido conservador. Mas sua morte trouxe uma lacuna para a música sertaneja, que tinha em Cristiano Araújo um adendo maior para demonstrar que nenhum cantor precisa de grandes holofotes. Sua música, de fato, era regional, tida por muitos como não universitária, o que deixava alguns meios de comunicação irritados. O que diferencia Cristiano Araújo de outros bambas da música regional como Luan Santanna e Gustavo Lima é sua responsabilidade musical e atemporal: Cristiano era um cantor maduro, tinha discernimento entre o certo e o errado, sabia falar no momento certo e se expor no momento certo, enquanto seus contemporâneos são mais atirados, querendo a todo custo aparecer, emplacar sucessos enfadonhos e sendo, a cada momento, irritantes com seus risinhos de cantores bem-sucedidos. Cristiano Araújo foi o oposto disso tudo: ele soube, atenciosamente, ser ele mesmo, sem estar preocupado com opiniões alheias e irrisórias. Cristiano foi o próprio mentor de sua carreira musical e pessoal, não dando margens para que o outro desse opinião diversificada sobre sua música. Esteve a todo momento cuidando de sua carreira pessoal e profissional e conseguiu ficar escondido em seu canto, longe da mídia que ao mesmo tempo eleva e depois derruba e conseguiu fazer o que muitos gostariam de fazer: lotar casas de show sem grandes estardalhaços. Sua morte precisou acontecer para que todos tomassem conhecimento de sua arte e isso já acontecera com outros grandes cantores nacionais, como Clara Nunes, Jessé, Gonzaguinha. Com sua morte, os quatro cantos do país estão chorando a perda de seu garoto prodígio e de sua música tenra, mas com certeza seus fãs nunca o esquecerão. Agora, o que essas fãs tem é saudade, como imortalizou Cristiano Araújo em uma de suas últimas músicas.

A morte de Cristiano Araújo
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 19 de junho de 2015

A importância do álbum de Bebel Gilberto (1986)


Bebel: disco rejeitado por ela?
A primeira cantora a gravar Eu preciso dizer que te amo foi justamente uma das compositoras deste clássico, Bebel Gilberto, filha de Miúcha e João Gilberto. A canção, composta a seis mãos, foi gravada originalmente em 1986 para o disco inicial e experimental da cantora, intitulado apenas de Bebel Gilberto, contendo apenas 5 músicas. Não foi um grande lançamento na época e hoje em dia a própria cantora recusa saber a origem deste disco, mas o fato é que o álbum tem uma importância significativa dentro da história da MPB, na magnitude meteórica de Cazuza e, mais do que nunca, na vida da própria Bebel. Pra início de conversa, esse disco foi produzido pensando na amizade que Bebel tinha com Cazuza (seu grande amigo) e Dé Palmeira, seu então namorado. A época de seu lançamento, o disco não surtira efeito esperado e Cazuza não era tão famoso assim a ponto de ser reconhecido por suas letras e por esse motivo, passara desapercebido pelo grande público e crítica. Inclusive nos dias de hoje, o disco, raro no mercado, desperta a curiosidade apenas de fãs da cantora e por parte dos amantes da música nacional. Mas o que era para ser um motivo de orgulho, passa a ser um motivo de depreciação da cantora, que não gosta muito de seu início de carreira. Convenhamos que a voz de Bebel não era lá grande coisa e nem estava em evidência quando surgiu como interprete, tendo como concorrentes as principais vozes do escalão de Marina Lima, Zizi Possi, Angela Ro Ro, mas sua importância para os anos seguintes seria de grande valia. Seja como for, Bebel Gilberto (1986 / WEA / 35,00) é um disco que merece destaque e atenção pelo conjunto da obra. Produzido por Chico Neves, o disco fora de fato gravado em 1986 e teve como destaque duas grandes canções já imortalizadas nas vozes de Bebel, Cazuza, Marina Lima, Adriana Calcanhotto, Zizi Possi, Ney Matogrosso, entre outros: Mais Feliz e Eu preciso dizer que te amo. Dois clássicos de extrema importância para ambos os cantores que fizeram destas canções verdadeiros hinos. Mas o que chama mais a atenção é a negação deste disco pela própria cantora nos dias de hoje. Bebel quase não canta essas músicas (Eu preciso dizer que te amo ela ainda cantarola), mas os outros nem sinal de que lhe pertencem. Algumas mídias colocaram em pauta que Tanto Tempo (2000) seria o primeiro trabalho de Bebel, o que não é verdade e mesmo assim, a cantora não chegou a desmentir esses veículos. Houve um boato até de que a cantora teria pedido para a gravadora Warner Arquivos retirar do mercado, sob escolta judicial, do CD do mercado recentemente, o que não ficou totalmente esclarecido, mas o fato é que o disco não se encontra tão facilmente. Embora Bebel tenha sido a grande detentora da música e ser a responsável pela gravação original, quem ganhou os holofotes pela primazia da canção foi Marina Lima, que a regravou, em 1987, para seu disco Virgem, tornando-se um dos grandes hits daquele ano e sendo campeã de vendas. A voz de Bebel era a de uma garota fanha, mais preocupada com os agitos dos amigos do que com a responsabilidade profissional em ser uma cantora. Anos depois houve um giro gigantesco em sua vida e Bebel pôde, enfim, mostrar sua versatilidade com discos antológicos e merecedores de aplausos tanto no Brasil como nos Estados Unidos.

Bebel Gilberto (1986) / Bebel Gilberto
Nota 10
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 12 de junho de 2015

O brilhantismo de Elis 1973


Elis 73: simples e luxo ao mesmo tempo
Entre o grande sucesso de O Bem Amado, primeira novela à cores no Brasil, escrita por Dias Gomes, o lançamento de três álbuns importantes dentro da música popular brasileira acontecia à revelia de um grande espetáculo de público e crítica: Nervos de Aço, do sambista Paulinho da Viola, em que o cantor aparece chorando na capa e Secos & Molhados, cujos os integrantes estão apenas com as cabeças em forma de guilhotina, com Ney Matogrosso como líder maior do grupo. O Brasil estava sob a ditadura austera de Médice e tudo o que era falado e/ou cantado passava por uma rigorosa tortura física e mental. Por outro lado, a Jovem Guarda já não fazia sucesso e o estilo de roupa e os cabelos tanto de homens quanto o de mulheres, faziam enorme sucesso entre as classes sociais mais abrangentes e que recaía sobre o proletariado da vez (os grandes consumidores de toda uma geração). A efervescência musical vinha por conta de grandes acontecimentos no país e mesmo sob forte domínio político, o mundo da música ganhava peso e força à medida em que os meses se passavam. Raul Seixas, Tom Jobim e Milton Nascimento lançaram músicas (e não discos) sensacionais e conseguiram ganhar a credibilidade de líderes do partido e até mesmo de políticos que se renderam às suas músicas. Mas o grande lançamento ficou por conta de uma cantora baixinha, ranzinza, cabelos masculinizados para uma época em que a feminilidade tomava conta: Elis Regina e seu verdadeiro disco de categoria. Elis 1973 (19,99 / Philips / 1973) vai do simples ao luxo com uma assombrosa tempestade lírica de uma das maiores cantoras do país. Partindo de uma naturalidade mórbida, Elis soube ousar em todas as faixas, recriando sua própria voz, se redescobrindo a cada canção, não poupando mágicas em suas cordas vocais e se superando em um país até então dominado por cantores. Simples ao seu jeito e luxuoso por completo, Elis 1973 é um dos melhores (senão o melhor!) disco de carreira da cantora. Com composições de Gilberto Gil, João Bosco e Pedro Caetano, a cantora pôde interpretar com maestria cada faixa, degustando o seu próprio domínio de estúdio e se mostrando versátil para a música num todo, não escondendo a enorme satisfação em fazer aquele trabalho. Elis não saberia naquele momento e talvez nunca soube em vida, mas seu disco era totalmente diferente daquilo que vinha fazendo até então: sem ter uma música sequer de Milton Nascimento, Tom Jobim, Chico Buarque ou Ivan Lins, a cantora optou por reunir um seleto time de compositores para dar corpo e alma ao seu disco daquele emblemático ano. Justamente os cantores e compositores que a ditadura tanto odiava e que eram perseguidos. Resultado: Elis 1973 se tornou referência e Elis conseguiu sair da aba do impulso musical que a dominava até então. Vale lembrar que um ano antes, 1972, Elis também veio com um disco sensacional, mas dominado de clichês e falta de senso comum: o disco, mesmo sendo bom, também conseguiu ganhar notoriedade por ser exemplar e moderninho para a época. Mas é em 1973 que o grande ano de Elis acontecia: sem ser demagoga, lançou um disco em que não era política nem assombrava as pessoas (exceto pela música Agnus Sei (João Bosco / Aldir Blanc), em que criticava a Igreja; pelo contrário, fazia com que o público se aproximasse dela com mais simpatia e menos arrogância e talvez isso explique o enorme sucesso de seu disco e show Falso Brilhante, em 1976, com composição do também João Bosco. Além de ser um dos discos indispensáveis em sua discografia (tanto para Elis quanto para o público), o disco trouxe particularidades que fizeram com que o mundo da música em seus bastidores entrasse em devaneio. A começar pela música Ladeira da Preguiça, que Elis pedira a Gilberto Gil por telefone e, enquanto conversavam, o compositor baiano escrevia a letra sem ser incomodado por uma Elis estridente do outro lado da linha. Recentemente, em seu disco Gilbertos Sambas (2014), Gil disse que era impossível não se lembrar de Elis e de sua história quando canta essa música. Em segundo lugar, teve a pequena rusga entre Elis e Beth Carvalho: a sambista recusou a música Folhas Secas, de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, pois seu disco já estava completo (fechado para ser reproduzido). Então, Nelson ligou para Elis e a cantou via telefone e a cantora gaúcha se derreteu e aceitou gravá-la. O enorme sucesso da canção fez com que Beth se sentisse traída, pois o grande trabalho de Elis 1973 seria É Com Esse que eu Vou, um samba-canção de Pedro Caetano, que ganhou dimensão rapidamente. Alguns anos depois, Elis dissera em entrevistas sobre esse episódio e Beth Carvalho (que tivera crises existenciais pelo sucesso de Clara Nunes) praticamente não fala no assunto. Seja como for, Elis 1973 é um dos melhores discos de Elis e não pode ficar de fora de qualquer lista que aborde os melhores discos nacionais de todos os tempos. Elis se mostrou como uma das melhores cantoras daquele ano (em 1974 veio com o excelente Tom & Elis, referência até hoje) e sua música, sua voz, seu carisma e sua popularidade eram gritantes mesmo em um período obscuro da nossa própria história.

 

Elis 1973 (1973) / Elis Regina
Nota 10
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 5 de junho de 2015

O Brasil por Clara Nunes em Nação (1982)


A Nação de Clara Nunes
Um ano antes de sua morte, a vida de Clara Nunes estava completa: ela se tornara, definitivamente, uma das maiores cantoras do Brasil, era popular, bonita, simpática e tinha todos os amigos possíveis e imagináveis ao seu redor. Tirando o fato de não conseguir ser mãe, a cantora estava trilhando um dos caminhos mais bem-sucedidos na história da arte de cantar feminino, que todos se rendiam a ela. Antes dela, apenas Carmen Miranda conseguira tal efeito, em que conseguia trilhar por diversos meios, sempre antenada com o novo e surpreendendo a todos. Elis Regina tinha falecido no fatídico Janeiro de 1982, assim como Vinicius de Moraes e Paulo Sérgio tinham nos deixado em 1980, empobrecendo a música naquela época. Nessa mesma década, os anos 1980 se tornariam o ano do rock nacional, tendo como heróis Cazuza, RPM, Legião Urbana, Capital Inicial, entre outros. Mas no início dos anos 1980 quem reinava absoluta era Clara Nunes, que vinha com discos cada vez mais sensacionais, melhores e mais autênticos. Prova disso foi o estrondoso sucesso Nação (1982 / Odeon / 19,99) derradeiro disco da cantora, que marcava o começo da parceria de João Bosco com Clara. Única música do cantor e compositor mineiro gravada por Clara, Nação representa aquilo que O Canto das Três Raças, Jogo de Angola e Guerreira queriam dizer em outros tempos: a luta do brasileiro pela sua terra, pela sua nação. Clara foi a única cantora brasileira que cantou verdadeiramente o Brasil em todas as suas formalidades e suas variedades. Depois dela, nenhuma outra conseguiu ocupar seu lugar de prestígio e respeito dentro deste segmento, porque ninguém vai ser igual à Clara. Nação marca o fim da carreira promissora de Clara e aqui neste disco podemos sentir a voz embargada em algumas canções: mesmo cantando alegremente, podemos notar que a voz de Clara está mais pesada, mais fechada, mas sem perder o brilhantismo de sua emoção. Sem perder suas origens, a cantora seguiu fielmente até o fim com sua religiosidade e sua fé inabalável. Cantou e encantou as pessoas conforme foi passando os anos. Sentiu emoções de público e crítica. Tornou-se a mulher mais vendável do Brasil. E a mais criticada pela igreja também. Suas músicas em Nação denotam que sua fé era muito maior que qualquer crítica ácida que vinha debaixo, da evangelização caricatural ou da igreja com seus padres sem mentalidades. João Bosco fora um dos grandes responsáveis pelo sucesso do disco, compondo uma das músicas mais emblemáticas retratando o povo brasileiro e o próprio Brasil. Quanto à Clara: nos deixou com a responsabilidade de mantermos vivos sua herança musical tentando resguardar o Brasil do Brazil.

 

Nação (1982) / Clara Nunes

Nota 10

Marcelo Teixeira

sábado, 30 de maio de 2015

A orquestra de Max de Castro (2002)


Max e sua boa música
Assim como a grande mídia não dá o devido valor aos seus grandes compositores ou cantores dentro de seu próprio país de origem, alguns desses cantores tentam burlar essa autonomia flagelada para tentarem mostrar seus trabalhos com digno respeito de estrelas da música nacional. Muitas vezes, esses cantores acabam sendo esquecidos pelo público, que acabam descobrindo outros interpretes ou outras sonoridades e, com isso, muitos cantores ditos bons acabam sendo desvalorizados. Esse é o caso do cantor, compositor, guitarrista, instrumentista, inquieto e filho de Wilson Simonal, o super talentoso Max de Castro, irmão de Wilson Simoninha. Em 2002, o Brasil pôde conhecer melhor seu lado cantor, quando o mesmo lançou o sensacional Orchestra Klaxon (2002 / Trama / 28,99), em que mistura jazz, MPB, samba e até romantismo. Com participação de Paula Lima e letras de Marcelo Yuka, Erasmo Carlos e Nelson Motta, o CD é um dos mais belos de toda a história da música do século XXI, por ser emblemático, audacioso e inteligente. Max não poupou críticas ao mundo racial (O Nego do Cabelo Bom), ao mundo do carnaval (A História da Morena Nua que Abalou as Estruturas do Esplendor do Carnaval) e nem ao mundo da música vanguarda (O Futuro Pertence à Jovem Vanguarda) e tudo isso tem um apreço muito significativo tanto na carreira musical do cantor, como na vida pública e pessoal das pessoas. Antes de mais nada, Orchestra Klaxon é um CD de jazz, indiscutivelmente abrasileirado, bem aos moldes americanos e com uma privilegiada sonoridade, rica em detalhes, instrumentos e homenagens. O CD foi incorporado para prestar uma justa rebuscada busca na própria carreira pessoal do cantor, que conviveu com os maiores mentores da música popular brasileira, como Nara Leão, Tom Jobim, Milton Santos, João Donato, Dick Farney e artistas do naipe de Tarsila do Amaral, Mário de Andrade e Eumir Deodato, sem falar do pai, um dos mais prestigiados cantores de todos os tempos. Podemos classificar o CD de Max de Castro como uma experiência musical que deu certo dentro um segmento que ele talvez nem tenha imaginado que daria certo. O disco quando foi lançado causou um certo furor, pois era um disco caro de ser produzido, difícil de ser interpretado, difícil de ser degustado e que se tornou alvo fácil dos amantes da música. Max de Castro arrebatou milhares de pessoas com Orchestra Klaxon. E entrou para a história da música popular brasileira de uma vez por todas sendo ele mesmo. Sendo Max de Castro.

 

Orchestra Klaxon (2002) / Max de Castro
Nota 10
Marcelo Teixeira

sábado, 23 de maio de 2015

Luan Santana surpreende em Acústico (2015)


Luan: mais maduro
Quem me conhece ou me acompanha nos artigos deste blog sabe perfeitamente a minha antipatia para com o cantor Luan Santana, pelo simples fato dele não ser um dos melhores cantores da atualidade e fazer do sertanejo universitário um dos ritmos mais emblemáticos da música brasileira. Já o ignorei profundamente em artigos pesados, já o critiquei com muita severidade, já o interpelei em conversas com amigos sobre a sua postura musical e posso garantir que ainda mantenho minha palavra sobre tudo o que já disse a seu respeito. Mas Luan cresceu e apareceu e suas músicas evoluíram um pouco (um pouco, apenas) para que sua imagem não ficasse tão desgastada a ponto de ser mais um cantor das adolescentes inquietas que afloram os quatro cantos do Brasil. Confesso que seu último disco está melhor que o primeiro grude musical e garanto que está melhor que o último disco lançado, que não mereceu destaque algum por não conter destaque algum. Luan Santana deixou de lado os modismos, aperfeiçoou na timidez, encontrou-se nas roupas de grife seu modelo ideal de cantor romântico e mantém agora um estilo mais maduro, autoral, modesto e, por incrível que possa parecer, mais verdadeiro. Continua cantando com os trejeitos de sempre, mas isso passa desapercebido perto daquilo que canta hoje em dia: sua música nova de trabalho, Escreve Aí, é uma das melhores faixas de seu Acústico (2015 / 29,99) e promete ser um dos hits mais cantados deste ano. Bela sacada genial dos autores desta música que resolveram incrementar no refrão com o estalar de dedos para denotar algo. Ainda cantarolando alguns versos desta música, pude perceber que Luan está melhorando seu estilo e deixando de ser brega para, quem sabe, tornar-se um mediano cantor. Por hora, seu CD é um dos pontos altos de vendagens e isso explica o meteoro que o consagrou: Luan soube conduzir sua carreira entre hits, trejeitos e vida social discretamente fora do círculo jornalístico. Sim, Luan Santana é um recordista de vendas e isso explica um pouco sobre o que é a música popular no Brasil: um misto de cultura enraizada no sertanista e um misto de manifesto entre aqueles que não apóiam sua música. Acústico tem em sua grande maioria os grandes sucessos do cantor e Escreve Aí pode ser considerada uma música boa, dessas que grudam na cabeça, sem ser apelativa, mesmo com um apelo popular generalizado e, em contra partida, faz com que Luan seja um pouco mais respeitado dentro de seu universo: a do sertanejo universitário.

 

Acústico Luan Santana (2015) / Luan Santana
Nota 7
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 15 de maio de 2015

O samba mínimo de Juliana Amaral


Juliana e seu samba
Há um samba no mínimo extraordinário rondando a música brasileira com um certo requinte e com uma voz sublime. Juliana Amaral é a grande sambista da vez ao lançar no mercado o excelente disco Samba Mínimo (2012 / Circus / Sescsp / 20,00), que traz uma compilação de grandes bambas do universo do samba revigorados com uma sonoridade ímpar ao seu talento. Juntando num mesmo disco bambas de Itamar Assumpção, Paulo Vanzolini e Wilson Baptista aos novatos Kiko Dinnucci, Rodrigo Campos e a poesia de Paulo Lewinski, Juliana nos brinda com um disco sensacional, caprichado e com uma capa perfeita.  Dona de uma das melhores vozes femininas do Brasil, a cantora e compositora destila um punhado de canções que vão desde os antepassados até os mais novatos na música, que traz uma levada humanística e real em cima de suas composições, sempre com uma pitada de ironia fina e rebuscada. Samba Mínimo é um disco de samba, em que Juliana canta, encanta e afaga com seus trejeitos os rumores de que o antigo pode se juntar ao novo. Um disco caprichado, sensato, rico em sua tese, que não deixa sombras de dúvidas quanto a sua originalidade. Um disco baseado na pesquisa incansável de Juliana pelo mote e profundidade do samba, que consegue conciliar música e literatura em seu pleno terreno, com muito ritmo, muita emoção, muito sentimento, muita voz e muita harmonia. Um disco galgado na riqueza de detalhes, no extra luxo do samba, na popularidade simplória de composições marcadas pelo refinamento, que faz deste álbum um rico e poderoso arsenal contra as mazelas que nos rodeiam hoje em dia. A arte cênica de Juliana Amaral está representada em praticamente todas as faixas do disco: você há de perceber nas batidas e na voz da cantora um extremo entre realismo e lirismo e há de sentir na pele a emoção quando a cantora canta vinhetas ou se inspira para declamar uma poesia oral. Por todo o conjunto da obra, Juliana Amaral, cantora urbana, contemporânea e delicada, consegue expor e exprimir tudo ao mesmo tempo neste disco que merece destaque em sua discografia, por abordar temas tão relevantes como o amor, o desamor, a traição, a alegria do samba, a tristeza humana, a morte, a solidão repentina e, em sua magnitude maior, o samba. Juliana Amaral mostra toda a sua versatilidade em um disco lindo, luxuoso e simplesmente belo.

 

Samba Mínimo (2012) / Juliana Amaral
Nota 10
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Entrevista com Tito Marcelo


Tito Marcelo: o entrevistado
Tito Marcelo é de Recife, mas é em Brasília, a capital federal do Brasil, que o cantor e compositor aspira e respira música, sempre transbordando sua verve poética, sensível e autoral. Com dois CDs lançados, Tito é um cantor de excelente gabarito, de uma simpatia extrema e de um talento incrível. Cedendo seu precioso tempo entre uma viagem e outra, o cantor me concedeu uma entrevista exclusiva em que conta um pouco de sua musicalidade, de sua terra natal, de seus planos, da vontade que tem de dividir vocais com Elba Ramalho e que a maior voz do Brasil é a de Mallu Magalhães.

 

Mais Cultura Brasileira: Tito Marcelo, o que é música para você?
 
Tito Marcelo: Nunca pensei em definir música, assim com um significado específico, mas eu imagino que música seja a emoção, o sentimento que há nos sons. Acho que música é a tristeza, a felicidade, a raiva, a surpresa, o medo, etc., que sentimos quando ouvimos algo.

MCB: Você é um dos melhores cantores surgidos nos últimos anos, com qualificações e prêmios dentro da música popular brasileira, mas por que sua música ainda não chegou aos grandes centros musicais, inclusive aqui em São Paulo ou no Rio de Janeiro?

Tito Marcelo: Nossa! Estou muito, muito longe de ser um dos melhores cantores surgidos ultimamente. Na verdade, eu nem busco isso. Nunca busquei. A música me faz muito bem, e se eu puder continuar me divertindo com ela, como tem acontecido, vou estar mais do que feliz e satisfeito. E ainda imaginar que a música que eu faço faz com que outras pessoas se sintam bem também, esse sim, pra mim, é o maior prêmio de todos. Bom, não sei responder como, quando e até onde minha música vai chegar. Tenho até buscado algumas maneiras para divulgar mais meu trabalho, mas o que penso, e até gosto dessa ideia, é que minha música vai chegar onde as pessoas a levarem, especialmente as pessoas que a curtem. É isso que tem acontecido até agora.

MCB: Você canta MPB com pegada POP, o que deixa a sua música com uma boa levada. Você tem medo de rótulos sobre o seu trabalho?

Tito Marcelo: Eu não gosto dos rótulos, acho que eles limitam muito um trabalho, especialmente se for um trabalho artístico. Mas também não tenho medo deles. Acho que algumas pessoas têm a necessidade de classificar as coisas para se sentirem mais a vontade com elas. Eu entendo isso e acabo não ligando se definem minha música como POP, MPB... Faço música. Apenas música mesmo. E se as pessoas se divertem e se emocionam com minha música, fico muito feliz com isso, pouco importa o estilo na qual elas a inserem ou a rotulam.

MCB: Qual sua maior inspiração para compor?

Tito Marcelo: Acho que as pessoas e suas histórias. Fico viajando nas histórias que me são contadas, sejam pelas próprias pessoas que as viveram, sejam por aqueles que apenas as relatam, sejam essas histórias observadas ou vividas por mim mesmo no dia a dia. Livros, filmes, de ficção ou verídicos, quase tudo que é contado é sobre histórias de pessoas. Acho que essa é minha maior inspiração pra compor. A partir dessas histórias, tento usar a maneira que vejo, entendo e imagino o universo, a natureza, o cotidiano urbano e as próprias pessoas pra brincar com a poesia que tudo isso me proporciona e me permite viajar mais ainda quando escrevo.

MCB: Um cantor e uma cantora.

Tito Marcelo: Ed Sheeran e Elba Ramalho. Atualmente são os dois artistas que mais tenho ouvido.

MCB: Você dividiu os vocais com as cantoras Barbara Mendes, Perdido Pra Lua (Frágil Verde, 2011) e Gabriela Doti, Adonde El Viento Vá (Pra Ficar no Sol, 2014). Gostaria de dividir os vocais com qual cantor(a)?

Tito Marcelo: A Barbara e a Gabi são duas cantoras fantásticas. Eu já gravei também com a Zizi Villa-Lobos que é uma rapper muito talentosa de Brasília. Pra mim, foi uma honra ter gravado com elas. Sou muito fã da Elba, e como disse antes, eu tenho ouvido muito o trabalho dela. Eu ficaria muito feliz se um dia pudéssemos gravar juntos.

MCB: Em seu CD Frágil Verde, Força de Quebrar (2011), o lado ecológico leva todo o conceito de sua música, desde a capa, passando por composições e até no elemento físico. Você é um tipo de cantor que pensa também na ecologia do planeta? Foi difícil abordar um tema tão complexo como esse nos dias de hoje em letra e música?

Tito Marcelo: Quando eu fiz as músicas do Frágil Verde, Força de Quebrar eu nem estava pensando em gravar um disco. Eu estava compondo despretensiosamente, e as músicas surgiam de maneira muito natural, orgânica, sem um tema central, sem um conceito único que as relacionassem. O fato de as músicas escolhidas para o disco falarem, de alguma maneira, da natureza foi mais um reflexo de minha inspiração no momento de fazê-las, do que de uma intenção, propriamente dita, de escrevê-las sobre esse tema específico. Foi um conceito muito mais descoberto do que desenvolvido para o disco. Mesmo assim, acho que as canções por si sós também acabam indicando minha relação com a natureza e com a maneira que tento preservar e cuidar melhor do lugar onde vivemos. Eu sempre penso nisso sim.

 
MCB: Você é um cantor recifense e na música Bem Maior (Frágil Verde, Força de Quebrar, 2011) você relata os problemas sociais do Nordeste. Essa música é um pouco da sua vida, retratando alguma passagem, com fundo biográfico?

Tito Marcelo: Não. Essa música não retrata uma experiência pessoal, vivida por mim. Eu sou nascido e fui criado num ambiente urbano, numa cidade do litoral. Apesar disso, conheço alguns lugares e tenho amigos do sertão, o que me faz ter um pouco da ideia do é a vida por lá. Mas essa música, especificamente, eu fiz quando estava assistindo a um noticiário que mostrava duas cidades do sertão que sofriam com os castigos e estragos, uma da seca e a outra das chuvas. Fiquei pensando nos extremos do clima e da natureza em que vivem as pessoas do sertão. Acho que a música acabou ficando uma reflexão, uma pequena homenagem à força e à fé do sertanejo, pessoas que admiro e por quem tenho muito respeito.

Mas veja, eu não gosto muito de explicar minhas músicas, não. Primeiro porque muito das coisas que escrevo, eu mesmo nem entendo. E, segundo, prefiro que as pessoas entendam as músicas da maneira que elas as sentem. E falo isso com carinho. Não é arrogância, de jeito nenhum. É só a minha maneira de achar que não importa o que o autor quer dizer quando faz uma música. O que importa mesmo é o que cada pessoa vai sentir quando ouvir essa música.

MCB: Pra Ficar no Sol (2014) teve maior aceitação do público e trouxe mais o seu nome para o cenário musical. Todo o disco foi de composição sua, autoral, e através desta sua postura, posso dizer que o disco ficou do jeito que você queria?

Tito Marcelo: Acho que foi o processo de criação e produção do disco que fez com que ele tenha ficado do jeito que eu queria. Quando eu faço uma música, eu nunca me prendo à ideia de como ela tem que ficar exatamente quando gravada. Depois de composta, eu acho que uma música pode tomar vários caminhos, especialmente por conta do arranjo que vai ser pensado pra ela. Com as músicas do Pra Ficar no Sol foi assim. À medida que Renatinho (*) criava os arranjos, e nós íamos discutindo as ideias, as músicas iam naturalmente se transformando, sem que perdessem suas essências. E eu curto muito essa maneira de trabalhar, de produzir. Eu gosto de ver as músicas que faço sendo transformadas pelas ideias de quem as arranja. E Renatinho é muito talentoso. Um cara cheio de ideias, extremamente virtuoso e que entende perfeitamente a minha música. É muito bom trabalhar com ele.

(*) Renato Fonseca, arranjador e produtor do disco Pra Ficar no Sol.

 
MCB: Pensa em fazer shows fora de Brasília?

Tito Marcelo: Claro que sim! Já fizemos alguns shows fora de Brasília e estamos agendando outros.

MCB: Pra você, Tito, qual o segredo de ser um músico com as qualidades que você tem?

Tito Marcelo: Penso que qualidade seja um conceito muito relativo, principalmente quando se trata de um músico ou um artista. Eu até me sinto bem à vontade quando estou compondo, mas eu não sou um músico virtuoso, nem me sinto um cantor talentoso. Pelo contrário, cantar, pra mim, é uma coisa até difícil, meio tensa. O que tento fazer é passar para a música que estou cantando e tocando, acima de qualquer outra coisa, a emoção que sinto.

MCB: O que há no canto de Tito Marcelo?

Tito Marcelo: Verdade.

MCB: Qual a maior voz do Brasil?

Tito Marcelo: Poxa, não tenho nem competência para responder essa pergunta, porque não conheço sequer a metade das vozes desse nosso país, repleto de excelentes cantores e cantoras. Mesmo assim, não costumo pensar em melhor ou pior, ou até mesmo bom ou ruim nos meus critérios. Na verdade, eu tento me apegar principalmente às diferenças entre as vozes, entre as interpretações. Acho que assim eu consigo perceber o que cada cantor ou cantora tem de único, de especial. Mas para a pergunta não ficar assim tão sem resposta, eu curto muito ouvir a Mallu Magalhães cantando. Acho bem original e muito espontâneo o jeito como ela canta, especialmente quando ela canta as músicas dela.

MCB: Pra Ficar no Sol (2014) marca muito o seu lado com o regionalismo pernambucano, com instrumentos e sons de xote e forró e isso fica evidente na música Perto do Final. Esse é um jeito de manter vivas as suas raízes?

Tito Marcelo: Na verdade, esse é um jeito de minhas raízes me manterem vivo. Não o contrário. Eu que preciso de minhas raízes, porque elas fazem parte de quem eu sou, da minha história e da minha identidade. Pra mim é muito natural que minha música tenha nela o nordeste, Pernambuco e Recife.

MCB: Pra ficar no sol é...?

Tito Marcelo: Pra ficar no sol é consequência. É continuar a aventura, ainda que de maneira despretensiosa. É também claridade. É enxergar melhor, entender mais. Pra ficar no Sol é música. Apenas música.

MCB: Para encerrar, Tito, como seria a vida sem a música?

Tito Marcelo: Eu costumo dizer que não vivo de música, eu vivo para a música. De tudo que eu faço hoje, acho que a música é o que mais me move. Se não houvesse a música na minha vida, eu teria que achar outra coisa pela qual valesse a pena, digamos assim, me jogar.
 
 

 

Entrevista com Tito Marcelo
Por Marcelo Teixeira