sábado, 30 de maio de 2015

A orquestra de Max de Castro (2002)


Max e sua boa música
Assim como a grande mídia não dá o devido valor aos seus grandes compositores ou cantores dentro de seu próprio país de origem, alguns desses cantores tentam burlar essa autonomia flagelada para tentarem mostrar seus trabalhos com digno respeito de estrelas da música nacional. Muitas vezes, esses cantores acabam sendo esquecidos pelo público, que acabam descobrindo outros interpretes ou outras sonoridades e, com isso, muitos cantores ditos bons acabam sendo desvalorizados. Esse é o caso do cantor, compositor, guitarrista, instrumentista, inquieto e filho de Wilson Simonal, o super talentoso Max de Castro, irmão de Wilson Simoninha. Em 2002, o Brasil pôde conhecer melhor seu lado cantor, quando o mesmo lançou o sensacional Orchestra Klaxon (2002 / Trama / 28,99), em que mistura jazz, MPB, samba e até romantismo. Com participação de Paula Lima e letras de Marcelo Yuka, Erasmo Carlos e Nelson Motta, o CD é um dos mais belos de toda a história da música do século XXI, por ser emblemático, audacioso e inteligente. Max não poupou críticas ao mundo racial (O Nego do Cabelo Bom), ao mundo do carnaval (A História da Morena Nua que Abalou as Estruturas do Esplendor do Carnaval) e nem ao mundo da música vanguarda (O Futuro Pertence à Jovem Vanguarda) e tudo isso tem um apreço muito significativo tanto na carreira musical do cantor, como na vida pública e pessoal das pessoas. Antes de mais nada, Orchestra Klaxon é um CD de jazz, indiscutivelmente abrasileirado, bem aos moldes americanos e com uma privilegiada sonoridade, rica em detalhes, instrumentos e homenagens. O CD foi incorporado para prestar uma justa rebuscada busca na própria carreira pessoal do cantor, que conviveu com os maiores mentores da música popular brasileira, como Nara Leão, Tom Jobim, Milton Santos, João Donato, Dick Farney e artistas do naipe de Tarsila do Amaral, Mário de Andrade e Eumir Deodato, sem falar do pai, um dos mais prestigiados cantores de todos os tempos. Podemos classificar o CD de Max de Castro como uma experiência musical que deu certo dentro um segmento que ele talvez nem tenha imaginado que daria certo. O disco quando foi lançado causou um certo furor, pois era um disco caro de ser produzido, difícil de ser interpretado, difícil de ser degustado e que se tornou alvo fácil dos amantes da música. Max de Castro arrebatou milhares de pessoas com Orchestra Klaxon. E entrou para a história da música popular brasileira de uma vez por todas sendo ele mesmo. Sendo Max de Castro.

 

Orchestra Klaxon (2002) / Max de Castro
Nota 10
Marcelo Teixeira

sábado, 23 de maio de 2015

Luan Santana surpreende em Acústico (2015)


Luan: mais maduro
Quem me conhece ou me acompanha nos artigos deste blog sabe perfeitamente a minha antipatia para com o cantor Luan Santana, pelo simples fato dele não ser um dos melhores cantores da atualidade e fazer do sertanejo universitário um dos ritmos mais emblemáticos da música brasileira. Já o ignorei profundamente em artigos pesados, já o critiquei com muita severidade, já o interpelei em conversas com amigos sobre a sua postura musical e posso garantir que ainda mantenho minha palavra sobre tudo o que já disse a seu respeito. Mas Luan cresceu e apareceu e suas músicas evoluíram um pouco (um pouco, apenas) para que sua imagem não ficasse tão desgastada a ponto de ser mais um cantor das adolescentes inquietas que afloram os quatro cantos do Brasil. Confesso que seu último disco está melhor que o primeiro grude musical e garanto que está melhor que o último disco lançado, que não mereceu destaque algum por não conter destaque algum. Luan Santana deixou de lado os modismos, aperfeiçoou na timidez, encontrou-se nas roupas de grife seu modelo ideal de cantor romântico e mantém agora um estilo mais maduro, autoral, modesto e, por incrível que possa parecer, mais verdadeiro. Continua cantando com os trejeitos de sempre, mas isso passa desapercebido perto daquilo que canta hoje em dia: sua música nova de trabalho, Escreve Aí, é uma das melhores faixas de seu Acústico (2015 / 29,99) e promete ser um dos hits mais cantados deste ano. Bela sacada genial dos autores desta música que resolveram incrementar no refrão com o estalar de dedos para denotar algo. Ainda cantarolando alguns versos desta música, pude perceber que Luan está melhorando seu estilo e deixando de ser brega para, quem sabe, tornar-se um mediano cantor. Por hora, seu CD é um dos pontos altos de vendagens e isso explica o meteoro que o consagrou: Luan soube conduzir sua carreira entre hits, trejeitos e vida social discretamente fora do círculo jornalístico. Sim, Luan Santana é um recordista de vendas e isso explica um pouco sobre o que é a música popular no Brasil: um misto de cultura enraizada no sertanista e um misto de manifesto entre aqueles que não apóiam sua música. Acústico tem em sua grande maioria os grandes sucessos do cantor e Escreve Aí pode ser considerada uma música boa, dessas que grudam na cabeça, sem ser apelativa, mesmo com um apelo popular generalizado e, em contra partida, faz com que Luan seja um pouco mais respeitado dentro de seu universo: a do sertanejo universitário.

 

Acústico Luan Santana (2015) / Luan Santana
Nota 7
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 15 de maio de 2015

O samba mínimo de Juliana Amaral


Juliana e seu samba
Há um samba no mínimo extraordinário rondando a música brasileira com um certo requinte e com uma voz sublime. Juliana Amaral é a grande sambista da vez ao lançar no mercado o excelente disco Samba Mínimo (2012 / Circus / Sescsp / 20,00), que traz uma compilação de grandes bambas do universo do samba revigorados com uma sonoridade ímpar ao seu talento. Juntando num mesmo disco bambas de Itamar Assumpção, Paulo Vanzolini e Wilson Baptista aos novatos Kiko Dinnucci, Rodrigo Campos e a poesia de Paulo Lewinski, Juliana nos brinda com um disco sensacional, caprichado e com uma capa perfeita.  Dona de uma das melhores vozes femininas do Brasil, a cantora e compositora destila um punhado de canções que vão desde os antepassados até os mais novatos na música, que traz uma levada humanística e real em cima de suas composições, sempre com uma pitada de ironia fina e rebuscada. Samba Mínimo é um disco de samba, em que Juliana canta, encanta e afaga com seus trejeitos os rumores de que o antigo pode se juntar ao novo. Um disco caprichado, sensato, rico em sua tese, que não deixa sombras de dúvidas quanto a sua originalidade. Um disco baseado na pesquisa incansável de Juliana pelo mote e profundidade do samba, que consegue conciliar música e literatura em seu pleno terreno, com muito ritmo, muita emoção, muito sentimento, muita voz e muita harmonia. Um disco galgado na riqueza de detalhes, no extra luxo do samba, na popularidade simplória de composições marcadas pelo refinamento, que faz deste álbum um rico e poderoso arsenal contra as mazelas que nos rodeiam hoje em dia. A arte cênica de Juliana Amaral está representada em praticamente todas as faixas do disco: você há de perceber nas batidas e na voz da cantora um extremo entre realismo e lirismo e há de sentir na pele a emoção quando a cantora canta vinhetas ou se inspira para declamar uma poesia oral. Por todo o conjunto da obra, Juliana Amaral, cantora urbana, contemporânea e delicada, consegue expor e exprimir tudo ao mesmo tempo neste disco que merece destaque em sua discografia, por abordar temas tão relevantes como o amor, o desamor, a traição, a alegria do samba, a tristeza humana, a morte, a solidão repentina e, em sua magnitude maior, o samba. Juliana Amaral mostra toda a sua versatilidade em um disco lindo, luxuoso e simplesmente belo.

 

Samba Mínimo (2012) / Juliana Amaral
Nota 10
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Entrevista com Tito Marcelo


Tito Marcelo: o entrevistado
Tito Marcelo é de Recife, mas é em Brasília, a capital federal do Brasil, que o cantor e compositor aspira e respira música, sempre transbordando sua verve poética, sensível e autoral. Com dois CDs lançados, Tito é um cantor de excelente gabarito, de uma simpatia extrema e de um talento incrível. Cedendo seu precioso tempo entre uma viagem e outra, o cantor me concedeu uma entrevista exclusiva em que conta um pouco de sua musicalidade, de sua terra natal, de seus planos, da vontade que tem de dividir vocais com Elba Ramalho e que a maior voz do Brasil é a de Mallu Magalhães.

 

Mais Cultura Brasileira: Tito Marcelo, o que é música para você?
 
Tito Marcelo: Nunca pensei em definir música, assim com um significado específico, mas eu imagino que música seja a emoção, o sentimento que há nos sons. Acho que música é a tristeza, a felicidade, a raiva, a surpresa, o medo, etc., que sentimos quando ouvimos algo.

MCB: Você é um dos melhores cantores surgidos nos últimos anos, com qualificações e prêmios dentro da música popular brasileira, mas por que sua música ainda não chegou aos grandes centros musicais, inclusive aqui em São Paulo ou no Rio de Janeiro?

Tito Marcelo: Nossa! Estou muito, muito longe de ser um dos melhores cantores surgidos ultimamente. Na verdade, eu nem busco isso. Nunca busquei. A música me faz muito bem, e se eu puder continuar me divertindo com ela, como tem acontecido, vou estar mais do que feliz e satisfeito. E ainda imaginar que a música que eu faço faz com que outras pessoas se sintam bem também, esse sim, pra mim, é o maior prêmio de todos. Bom, não sei responder como, quando e até onde minha música vai chegar. Tenho até buscado algumas maneiras para divulgar mais meu trabalho, mas o que penso, e até gosto dessa ideia, é que minha música vai chegar onde as pessoas a levarem, especialmente as pessoas que a curtem. É isso que tem acontecido até agora.

MCB: Você canta MPB com pegada POP, o que deixa a sua música com uma boa levada. Você tem medo de rótulos sobre o seu trabalho?

Tito Marcelo: Eu não gosto dos rótulos, acho que eles limitam muito um trabalho, especialmente se for um trabalho artístico. Mas também não tenho medo deles. Acho que algumas pessoas têm a necessidade de classificar as coisas para se sentirem mais a vontade com elas. Eu entendo isso e acabo não ligando se definem minha música como POP, MPB... Faço música. Apenas música mesmo. E se as pessoas se divertem e se emocionam com minha música, fico muito feliz com isso, pouco importa o estilo na qual elas a inserem ou a rotulam.

MCB: Qual sua maior inspiração para compor?

Tito Marcelo: Acho que as pessoas e suas histórias. Fico viajando nas histórias que me são contadas, sejam pelas próprias pessoas que as viveram, sejam por aqueles que apenas as relatam, sejam essas histórias observadas ou vividas por mim mesmo no dia a dia. Livros, filmes, de ficção ou verídicos, quase tudo que é contado é sobre histórias de pessoas. Acho que essa é minha maior inspiração pra compor. A partir dessas histórias, tento usar a maneira que vejo, entendo e imagino o universo, a natureza, o cotidiano urbano e as próprias pessoas pra brincar com a poesia que tudo isso me proporciona e me permite viajar mais ainda quando escrevo.

MCB: Um cantor e uma cantora.

Tito Marcelo: Ed Sheeran e Elba Ramalho. Atualmente são os dois artistas que mais tenho ouvido.

MCB: Você dividiu os vocais com as cantoras Barbara Mendes, Perdido Pra Lua (Frágil Verde, 2011) e Gabriela Doti, Adonde El Viento Vá (Pra Ficar no Sol, 2014). Gostaria de dividir os vocais com qual cantor(a)?

Tito Marcelo: A Barbara e a Gabi são duas cantoras fantásticas. Eu já gravei também com a Zizi Villa-Lobos que é uma rapper muito talentosa de Brasília. Pra mim, foi uma honra ter gravado com elas. Sou muito fã da Elba, e como disse antes, eu tenho ouvido muito o trabalho dela. Eu ficaria muito feliz se um dia pudéssemos gravar juntos.

MCB: Em seu CD Frágil Verde, Força de Quebrar (2011), o lado ecológico leva todo o conceito de sua música, desde a capa, passando por composições e até no elemento físico. Você é um tipo de cantor que pensa também na ecologia do planeta? Foi difícil abordar um tema tão complexo como esse nos dias de hoje em letra e música?

Tito Marcelo: Quando eu fiz as músicas do Frágil Verde, Força de Quebrar eu nem estava pensando em gravar um disco. Eu estava compondo despretensiosamente, e as músicas surgiam de maneira muito natural, orgânica, sem um tema central, sem um conceito único que as relacionassem. O fato de as músicas escolhidas para o disco falarem, de alguma maneira, da natureza foi mais um reflexo de minha inspiração no momento de fazê-las, do que de uma intenção, propriamente dita, de escrevê-las sobre esse tema específico. Foi um conceito muito mais descoberto do que desenvolvido para o disco. Mesmo assim, acho que as canções por si sós também acabam indicando minha relação com a natureza e com a maneira que tento preservar e cuidar melhor do lugar onde vivemos. Eu sempre penso nisso sim.

 
MCB: Você é um cantor recifense e na música Bem Maior (Frágil Verde, Força de Quebrar, 2011) você relata os problemas sociais do Nordeste. Essa música é um pouco da sua vida, retratando alguma passagem, com fundo biográfico?

Tito Marcelo: Não. Essa música não retrata uma experiência pessoal, vivida por mim. Eu sou nascido e fui criado num ambiente urbano, numa cidade do litoral. Apesar disso, conheço alguns lugares e tenho amigos do sertão, o que me faz ter um pouco da ideia do é a vida por lá. Mas essa música, especificamente, eu fiz quando estava assistindo a um noticiário que mostrava duas cidades do sertão que sofriam com os castigos e estragos, uma da seca e a outra das chuvas. Fiquei pensando nos extremos do clima e da natureza em que vivem as pessoas do sertão. Acho que a música acabou ficando uma reflexão, uma pequena homenagem à força e à fé do sertanejo, pessoas que admiro e por quem tenho muito respeito.

Mas veja, eu não gosto muito de explicar minhas músicas, não. Primeiro porque muito das coisas que escrevo, eu mesmo nem entendo. E, segundo, prefiro que as pessoas entendam as músicas da maneira que elas as sentem. E falo isso com carinho. Não é arrogância, de jeito nenhum. É só a minha maneira de achar que não importa o que o autor quer dizer quando faz uma música. O que importa mesmo é o que cada pessoa vai sentir quando ouvir essa música.

MCB: Pra Ficar no Sol (2014) teve maior aceitação do público e trouxe mais o seu nome para o cenário musical. Todo o disco foi de composição sua, autoral, e através desta sua postura, posso dizer que o disco ficou do jeito que você queria?

Tito Marcelo: Acho que foi o processo de criação e produção do disco que fez com que ele tenha ficado do jeito que eu queria. Quando eu faço uma música, eu nunca me prendo à ideia de como ela tem que ficar exatamente quando gravada. Depois de composta, eu acho que uma música pode tomar vários caminhos, especialmente por conta do arranjo que vai ser pensado pra ela. Com as músicas do Pra Ficar no Sol foi assim. À medida que Renatinho (*) criava os arranjos, e nós íamos discutindo as ideias, as músicas iam naturalmente se transformando, sem que perdessem suas essências. E eu curto muito essa maneira de trabalhar, de produzir. Eu gosto de ver as músicas que faço sendo transformadas pelas ideias de quem as arranja. E Renatinho é muito talentoso. Um cara cheio de ideias, extremamente virtuoso e que entende perfeitamente a minha música. É muito bom trabalhar com ele.

(*) Renato Fonseca, arranjador e produtor do disco Pra Ficar no Sol.

 
MCB: Pensa em fazer shows fora de Brasília?

Tito Marcelo: Claro que sim! Já fizemos alguns shows fora de Brasília e estamos agendando outros.

MCB: Pra você, Tito, qual o segredo de ser um músico com as qualidades que você tem?

Tito Marcelo: Penso que qualidade seja um conceito muito relativo, principalmente quando se trata de um músico ou um artista. Eu até me sinto bem à vontade quando estou compondo, mas eu não sou um músico virtuoso, nem me sinto um cantor talentoso. Pelo contrário, cantar, pra mim, é uma coisa até difícil, meio tensa. O que tento fazer é passar para a música que estou cantando e tocando, acima de qualquer outra coisa, a emoção que sinto.

MCB: O que há no canto de Tito Marcelo?

Tito Marcelo: Verdade.

MCB: Qual a maior voz do Brasil?

Tito Marcelo: Poxa, não tenho nem competência para responder essa pergunta, porque não conheço sequer a metade das vozes desse nosso país, repleto de excelentes cantores e cantoras. Mesmo assim, não costumo pensar em melhor ou pior, ou até mesmo bom ou ruim nos meus critérios. Na verdade, eu tento me apegar principalmente às diferenças entre as vozes, entre as interpretações. Acho que assim eu consigo perceber o que cada cantor ou cantora tem de único, de especial. Mas para a pergunta não ficar assim tão sem resposta, eu curto muito ouvir a Mallu Magalhães cantando. Acho bem original e muito espontâneo o jeito como ela canta, especialmente quando ela canta as músicas dela.

MCB: Pra Ficar no Sol (2014) marca muito o seu lado com o regionalismo pernambucano, com instrumentos e sons de xote e forró e isso fica evidente na música Perto do Final. Esse é um jeito de manter vivas as suas raízes?

Tito Marcelo: Na verdade, esse é um jeito de minhas raízes me manterem vivo. Não o contrário. Eu que preciso de minhas raízes, porque elas fazem parte de quem eu sou, da minha história e da minha identidade. Pra mim é muito natural que minha música tenha nela o nordeste, Pernambuco e Recife.

MCB: Pra ficar no sol é...?

Tito Marcelo: Pra ficar no sol é consequência. É continuar a aventura, ainda que de maneira despretensiosa. É também claridade. É enxergar melhor, entender mais. Pra ficar no Sol é música. Apenas música.

MCB: Para encerrar, Tito, como seria a vida sem a música?

Tito Marcelo: Eu costumo dizer que não vivo de música, eu vivo para a música. De tudo que eu faço hoje, acho que a música é o que mais me move. Se não houvesse a música na minha vida, eu teria que achar outra coisa pela qual valesse a pena, digamos assim, me jogar.
 
 

 

Entrevista com Tito Marcelo
Por Marcelo Teixeira


quinta-feira, 30 de abril de 2015

Os haikais de Ná Ozzetti e José Miguel Wisnik em Ná e Zé (2015)


Ná e Zé: 30 anos de música
Uma coisa dentro da música popular brasileira é fato: é muito difícil cantar as músicas de José Miguel Wisnik. Suas letras são densas e com uma carga emocional muito grande, que muitas vezes ficamos tomados pela emoção, pois suas canções não saem de nossas mentes tão facilmente. Repito: as músicas de José Miguel Wisnik não são fáceis. Há um rebuscamento de paisagens abstratas que requer uma atenção mútua na melodia e que faz com que esqueçamos o mundo real lá fora para adentrarmos em um universo wisniquiano repleto de solitude, musicalizado pelo refinamento audacioso de um dos melhores compositores que a MPB ainda precisa (re)descobrir. Mas não precisamos mais esperar tanto, porque a cantora e compositora Ná Ozzetti fez esta audaciosa arte em prol tanto da música brasileira quanto de uma justa homenagem ao criador de obras primas como Mais Simples, O Tapete, Pérolas aos Poucos e Mortal Locura. Ná Ozzetti sempre gravou Zé Miguel em seus discos, desde quando ela ainda pertencia ao Grupo Rumo, nos idos anos de 1980 e dessa amizade de mais de 30 anos, surgiu um disco inteiramente dedicado ao cancioneiro de Miguel Wisnik. De Paulo Leminski, passando por Cacaso e Oswald de Andrade, José Miguel deu o ar de sua graça com as composições mais bonitas de seu cancioneiro e ajudou a aprimorar a finíssima riqueza da música nacional, miscigenando poesia, lirismo, música e a bela voz de Ná. Ná e Zé (2015 / Circus / 32,90) é um disco cantado por Ná Ozzetti e com participações do próprio Zé Miguel em todas as faixas, seja cantando ou em algum instrumento e de Arnaldo Antunes (Noturno do Mangue). Todas as músicas têm uma passagem especial na vida de ambos e regravá-las tem um significado importante para os dois: as músicas cantadas vão de um longo espaço de tempo entre 1978 até 2014. A voz cristalina de Ná Ozzetti ajuda a entender a atmosfera de Wisnik à medida que sua amplitude se mostra em um véu de sentimentalismos aflorados dentro de um segmento rítmico entre a coesão de uma filosofia harmoniosa e um destino que os uniram: a magnitude da música e o virtuosismo da amizade. Dedicar um disco inteiramente a uma amizade é desejo para poucos e refutados amigos que se entendem através da música (ou da batida perfeita) e neste conceito de musicalidade, Ná Ozzetti entende perfeitamente o que Zé Miguel diz em suas letras. Se antes tínhamos Zizi Possi como detentora oficial das obras de Miguel, agora podemos dizer que Miguel herdou mais uma: Ná Ozzetti. Zizi Possi, Mônica Salmaso, Elza Soares, Susana Salles e tantas outras já gravaram parte do cancioneiro de Miguel, sempre com a mesma dramaticidade emocional, seja em músicas divertidas, caso de Bambino, gravada por Elza em Do Cóxxix até o Pescoço (2002) ou em canções mais emblemáticas como Mundo Cruel (Zizi), em que a interpretação foi arrebatadora. Mas Ná tem um apreço maior agora: ela passa a ser em Ná e Zé a intérprete, aquela que canta de uma forma magistral as melodias e pensamentos filosóficos de um dos compositores mais sutis e misteriosos da nossa cultura. Afinal de contas, quem é José Miguel Wisnik? Um homem sem rótulos, um professor de Literatura Brasileira, ensaísta e compositor, amante das palavras complexas. Seu mundo é irreal, mas real dentro de um patamar rigoroso, por onde sua veia artística aflora em um misterioso intricado de palavras cruzadas que formam suas músicas. E quem é Ná Ozzetti? Uma mulher corajosa que canta as músicas de José Miguel Wisnik há muitos anos com muita garra e determinação e que tem uma das melhores vozes do mundo, capaz de nos emocionar com um simples olhar. Uma cantora que merece cantar o que quer por ser simplesmente Ná.  E neste momento, seu mundo é o mundo de Zé. Um mundo de ilusões irrisórias, de amores perdidos, de amizades duradouras, de teologias obscuras, de loucuras, de música. O encontro de Ná e Zé foi a melhor coisa que aconteceu nos últimos anos na música popular brasileira e essa amizade resultaria em um dos discos mais aguardados do ano. Porque Ná é Zé e Zé é Ná.

 

Os haikais de Ná Ozzetti e José Miguel Wisnik em Ná e Zé (2015) / Ná Ozzetti e José Miguel Wisnik
Nota 10
Marcelo Teixeira

sábado, 25 de abril de 2015

Chico Buarque em Paratodos (1993)


Chico: para todos
Como define Chico Buarque e Tom Jobim na música Piano na Mangueira, a minha música não é de levantar poeira. Mas como não levantar poeira, se Paratodos (1993 / Sony Music / 29,90) é um clássico na obra de Chico e um dos discos que mais representam a Língua Portuguesa em toda a sua plenitude? A começar com a bela homenagem na abertura do disco e que leva o título do trabalho em relação aos grandes nomes da música popular brasileira de todos os tempos (Chico só não citou Elis Regina e isso é um debate até hoje) e a participação de dois monstros sagrados dividindo os vocais: Tom Jobim (Piano na Mangueira) e Gal Costa (Biscate). Há lirismo e poesia cantada desde a primeira até a última música e a capacidade de Chico inovar nas palavras é incrível, sendo capaz até de dizer poesias duras e fortes e soltar impropérios de insatisfação com toques de sutileza. Paratodos é um dos melhores discos da MPB: na capa, Chico se preocupou em homenagear não somente os ícones da música, mas sim a todas às pessoas, do sertanejo até a idosa carente, passando pelo negro, pelo estudante, pelo pivete, pelo hippie. Levando em conta a sua postura de artista maior nos derradeiros de Paratodos, quando cita que ele é um artista brasileiro, Chico já estava desdenhando dos artistas que duram poucas horas e que passam cinco minutos fazendo fama, para depois sumirem. Paratodos surgiu depois de quatro anos longe do público, pois Chico estava inteiramente dedicado ao livro Estorvo, que se tornaria um grande sucesso de vendas. Compôs bem poucas músicas nesse ínterim, mas o suficiente para se reinventar. Futuros Amantes, que Gal Costa viria a regravar futuramente, é um dos pontos altos do disco, e não apenas porque Chico inseriu nessa letra a palavra pouco e quase nunca pronunciada (escafandristas), mas sim por contar uma linda história de amor entre dois adolescentes que só se reencontrariam e se amariam de verdade no fim da vida. O disco revela a maturidade musical de Chico, o mostrando mais versátil e requintado em algumas melodias e ousado em outras, mas talvez a mais justa homenagem foi a prestada a Tom Jobim na faixa-título. Tom chegou a ouvir emocionado a canção, mas morreria no ano seguinte (1994). O disco trouxe inúmeras pistas sobre o estado empírico de Chico à época, mas talvez a serenidade para com as letras seja a mais coerente para expressar neste artigo, pois se analisarmos bem as canções, veremos um Chico menos político e mais sentimental, mais romântico, como se quisesse resgatar algo que deixara no passado. Chico estava à beira de completar 50 anos quando colocou Paratodos para rodar o mundo. Não estava velho, nem novo, mas estava com o espírito da coisa. Chico Buarque estava com o espírito da música em seu corpo. Vale lembrar que Paratodos surgiu em um momento efervescente no Brasil: massacre na Candelária, onde seis menores de idade e dois maiores foram assassinados por policiais militares; as manifestações contra o então presidente Fernando Collor de Mello criam força e a população vai às ruas com cartazes escrito Fora Collor; e a fuga de PC Farias do Brasil para a Tailândia foram os pontos altos de um Brasil marcado pela corrupção. Tudo isso, Chico Buarque tentou esquecer nas melodias em discos e equaliza tudo em prol da poesia. Até hoje, em uma pesquisa que fiz para fazer este artigo, a música Futuros Amantes é, disparada, a melhor música do álbum e, consequentemente, da carreira do cantor, tanto que Gal Costa a regravou mais tarde, se tornando, mais uma vez, sucesso absoluto. Antes de morrer, Tom Jobim escrevera para Chico num manifesto de felicidade: “A tua homenagem me deixou estarrecido”. Talvez a homenagem mais sensata e real, pois Tom ainda estava vivo para vivenciar este belo tributo. Ainda assim, A foto da capa, música que encerra o disco, provavelmente é uma avaliação autobiográfica de Chico, pois os versos explícitos de um artista como ele próprio está marcado aqui: o retrato do artista quando moço (vejam a capa, lá está Chico Buarque bem moço), se prepara para dar a cara a tapa (encerra a letra). Se a música de Chico não é de levantar poeira, ele está redondamente enganado. Chico Buarque tinha 49 anos de idade quando lançou Paratodos e hoje, estando com 71 anos, sua música empolga, emociona, irrita, causa rebuliço, instiga. E como ele mesmo cita nos versos da faixa-título: estou na estrada há muitos anos / sou um artista brasileiro. Sim, Chico: um artista completo, maduro, brasileiro, para todos.

 

Paratodos (1993) / Chico Buarque
Nota 10
Marcelo Teixeira

terça-feira, 21 de abril de 2015

Por que Ester Freitas não ganhou?


Ester: surpresa na música e injustiça
No meio de tantas vozes boas e outras nem tanto, eis que uma grata surpresa apareceu: a voz poderosa da cantora Ester Freitas. Confesso que não suporto assistir a esses tipos de programas musicais, em que o público vota para eleger o melhor ou a melhor voz, assim como não suporto ter que ver esse mesmo cantor ou cantora sendo derrotado por quem nada entende de música, posso garantir que a reta final deste programa dominical mexeu comigo por dois motivos: 1 – a evolução dos cantores, ao longo das semanas foram melhorando gradativamente, de acordo com os conselhos e ajustes dos jurados, que pediam para que eles parassem de gritar (Paula Toller foi a cantora que mais sincera foi, ao dizer que as músicas ali cantadas eram de uma beleza encantadora, mas que não mereciam berros) e 2 – as mulheres eram cantoras guerreiras (sem desmerecer nenhuma). Ao final, ficaram cantores que nada acrescentarão em nossas vidas, mas com certeza, os jurados que tiraram Ester Freiras do quadro e, consequentemente, de ser a nova estrela da música popular brasileira, irão se arrepender pro resto de suas vidas ao tornarem Jefferson Moraes como sendo um dos melhores cantores daquele quadro seletivo. Para quem acompanhou o programa viu que Jefferson Moraes só ganhou o programa por dois motivos: 1 – ele é caipira igualmente ao Luan Santanna e até na aparência isso contou muito e 2 – as mulheres que estavam na platéia o elegeram com seus gritinhos e suas vaias aos demais. Com certeza, essa platéia não entende de música e, sim, de beleza. Assim como os últimos jurados, como Ivete Sangalo e Luan Santanna, que estavam ali por mérito de causa: elegerem Jefferson Moraes como sendo o vitorioso máster do programa. Mas e Ester Freitas? Por que não ganhou o programa Iluminados? Não por falta de iluminação (Ivete Sangalo reconheceu por diversas vezes que ela cantara muito bem, assim como Daniela Mercury), Ester Freitas agarrou com voz e presença de palco todas as músicas que lhe foram apresentadas. Mas onde está o erro nisso tudo? Simples: o programa já tinha seu ídolo e ele era Jefferson Mattos, o sócia de Luan Santanna. Deixando de lado meu lado antropólogo, Ester Freitas é uma cantora sensacional e que canta suas músicas com maestria, mas, perante aquela platéia insossa e perante os jurados comprados, Ester não é uma cantora vendável, ou seja, não é uma cantora que vende discos. Seu repertório seria voltado pura e exclusivamente para a verdadeira MPB, talvez recriando canções de outros cantores e seguindo seu caminho quieta e sem estardalhaço pelos quatro cantos do país. Jefferson Moraes ganhou porque representa o Brasil como sendo o Brasil regional, o Brasil que vive de música sertaneja, o Brasil de sertanejos universitários. Jefferson mostrou que não entende de música brasileira e que a platéia também não entende de música: ele berrou ao cantar Sangrando, de Gonzaguinha, faltou-lhe respiração, ficou ofegante e, mesmo assim, ganhou a competição com um cantor que talvez mereceria ganhar naquele quesito, mas que também seria um interprete de músicas americanas. Aposto que se o público ali presente deixasse Ester Freitas cantar Sangrando, os jurados iriam se ajoelhar para ela, assim como o apresentador, a platéia e todos os que estavam em suas casas. E Ester Freitas não ganhou porque ali presente teve um corpo de jurados que já sabiam as cartas marcadas, teve uma platéia que apenas balbuciava e jorravam seus gritinhos abafados e deixou de ver uma grande estrela surgir.

 

Por que Ester Freitas não ganhou?
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Barbara Mendes não deixa nada pra depois em excelente disco


Barbara é barbara!
Barbara Mendes é mais conhecida em Nova Iork e na Grécia do que no seu próprio país de origem, mas graças a Deus, sua boa música foi alvo de elogios sensacionais do crivo de Djavan, Ivan Lins, Flávio Venturini e Tito Marcelo, que gravou com ela a bela canção Perdido na Lua, no CD dele, Frágil Verde, Força de Quebrar (2007), deixando sua marca registrada em um disco rico de sinônimos brasileiros. A voz de Barbara é um dos mais doces, singelos e caprichados e há pluralidade em sua bela forma de expressar sua música, transformando todo o ambiente em um ambiente sofisticado e requintado. É de se estranhar que uma cantora com o porte e gabarito de Brabara esteja camuflada em um país tão diversificado como o Brasil, mas talvez a resposta para as minhas muitas questões esteja na sua música: Barbara Mendes é um sopro de alívio para quem respira a boa música brasileira e o povo brasileiro, rico de cultura na sua minoria, não entenderia tamanha força desta cantora magistral. Lançando o excepcional Nada pra Depois (2008 / Trilhos artes / Trattore / 29,90), Barbara canta justamente músicas que elevam o nome e as cores brasileiras, que são festejadas pelos quatro ou mais partes do mundo, caso das músicas Brasil Invertido (uma alusão à sua própria vida musical) e Ouro e Marrom. O sotaque de Barbara me chama a atenção, porque ao mesmo tempo em que ela soa ser nordestina ou de alguma parte do Norte do país, deixando essa confusão mental em nossas cabeças, a cantora, na verdade é carioca da gema. Sendo um dos melhores que já ouvi em todos os tempos numa voz feminina, Barbara simplesmente me encantou já na primeira faixa do disco e é por esse motivo que, literalmente, Barbara é barbara.

 

Nada pra Depois (2008) / Barbara Mendes
Nota 10
Marcelo Teixeira

sexta-feira, 10 de abril de 2015

A maldição de Ed Motta


Ed: maldição passageira?
Quem me conhece sabe perfeitamente o quanto não suporto o cantor e compositor Ed Motta, mas não suas músicas e muito menos a sua pessoa, mas sim a sua ignorância, a sua maneira de soltar frases com sentido intelectual, mas detonando uma classe minotária particular ou simplória. E mais uma vez o cantor surgiu como uma bomba de efeito moral nas redes sociais com uma notícia bombástica. Obviamente que Ed Motta é um homem culto, de palavras e sons difícieis, sendo considerado por muitos criticos especializados como um dos maiores jazzistas brasileiros de todos os tempos, mas a capacidade de interpretar suas próprias opiniões acabam por dividir a sociedade em várias partes obsoletas, que faz com que essas mentes se fechem a ponto de ridicularizar o cantor. Aqui entra a hermenêutica, palavra pouco conhecida do grande público e que deveria ser mais utilizada por professores e críticos de um modo geral. Ed Motta soltou um texto em sua rede social e logo o público interpretou de uma maneira contrária, áspera e hostil às suas palavras. Portanto, hermenêutica significa a interpretação de textos. Porém, quem leu o texto jorrado por Ed, não conseguiu distinguir o que é moral, o que é certo, o que é errado, o que é nada. Primeiramente, parto de um pressuposto de que nossa música é, sim, um pólo cultural enraizado em mentes pequenas, sendo considerado fora do país como um país do axé, do pagode e do nefasto sertanejo universitário, com seus grupos de oito pagodeiros dançando ridiculamente em um palco em toques sincronizados que nada acrescentam na nossa rotina; seguindo com o sertanejo universitário, que Michel Teló, Luan Santanna e Gustavo Lima cismam em levar como demonstração de música de qualidade para países escandinavos, europeus e americanos, fazendo com que a nossa imagem se priorize dessa característica básica de roupagem musical; terminando com o axé de quinta categoria produzida por Ivete Sangalo, Claúdia Leite, Asa de Águia, Chiclete com Banana, Margareth Menezes, que usam a sensualidade para demonstrarem a banalidade cultural que existe por aqui. Neste quesito, concordo com Ed Motta de que sua música não se iguala a esses rotuladores de qualidade duvidosa. Em outro parâmetro, o que Ed disse em sua rede social nada mais é que o seu show nos Estados Unidos seria apenas um show internacional, portanto, fora de sua terra natal, o Brasil. E que nesse show, não teria nada que lembrasse o Brasil, nem músicas em português e tudo seria falado e cantado em inglês, que é uma língua universal. Todo mundo sabe que fora do Brasil existe um grupo de brasileiros que adoram badernas e se dizem cultos justamente por estarem ali, mas na verdade, esses brasileiros não sabem se comportar perante um show musical feito por brasileiros. Eles, os brasileiros, gritam músicas entre uma canção e outra e isso irrita profundamente o cantor no palco.  Por causa dessa iniciativa, o cantor Ed Motta tomou atitudes mais severas para punir os brasileiros que são formados em ouvir músicas de quilates inferiores. Joyce Moreno, Daúde, Bebel Gilberto, Rosa Passos, Barbara Mendes, Ceumar e outros tantos cantores que não são reconhecidos pelo seu talento em seu país de origem, deveriam fazer o mesmo, mesmo sabendo que cairão na maldição a qual Ed Motta passa atualmente. Podemos observar isso claramente em shows realizados aqui no Brasil (e aqui escrevo direcionado aos meus amigos brasileiros que moram no México, na Espanha e no Japão) de cantores como Adriana Calcanhotto, Chico Buarque, Gal Costa entre outros, que nem bem acaba a música, já gritam uma na qual o cantor fizera muito sucesso ou música muito antiga. Isso, por ventura, acaba tirando a atenção do cantor e este sabe que o público só está ali para ouvir músicas antigas, não prestando atenção, talvez, em seu novo trabalho. Ed Motta foi coerente em sua postura, foi sensato ao ponto ao pedir para que esses brasileiros não gastassem seu dinheiro para irem ao seu show, pura e simplesmente porque não estarão aptos para ouvirem as músicas novas de seu trabalho, AOR, e já evitando um estress maior ainda sabendo que o cantor não cantaria músicas como Manuel. Já pensando em um modo de não haver desgastamento em seu show, Ed Motta pisou em uma poça maior ainda: as palavras de baixo calão que enfrenta nas redes sociais. Se manter sua palavra até o final e não der a miníma bola para o que se fala a seu respeito por aí, Ed Motta poderá considerar sua maldição como bem menor. Mas por enquanto, o cantor vive uma maldição: a maldição de Ed Motta.

 

A maldição de Ed Motta
Marcelo Teixeira

sábado, 4 de abril de 2015

Cássia Eller canta Cazuza: o sonho que vira realidade


Cássia é Cazuza!
Se Cazuza estivesse vivo para poder ouvir as gravações que Cássia Eller cantou em um disco em sua homenagem, na certa esqueceria um dia de outras cantoras que tentaram cantar (erroneamente) suas canções ou na certa falaria abertamente seu apreço para com a cantora roqueira de alma negra. Cássia Eller conseguiu imortalizar as melhores músicas de Cazuza em um disco sem afetações, com muito glamour e muita sofisticação, dando a cada faixa seu tom pessoal e sua sintonia. Longe de ser transgressor, Cassia Canta Cazuza – Veneno Antimonotonia (1997 /Polydor / 23,99) é um dos poucos discos da carreira da cantora que merece destaque e mesmo após esse lançamento, a imagem de Cássia não se esbarrou inteiramente na obra do cantor que bradava contra as legislações brasileiras e contra os políticos de Brasília, terra de nascimento, por coincidência, de Cássia. A bem da verdade, Cássia sempre quis ser Cazuza e isso ela nunca escondeu nas entrevistas ou em discos anteriores: seu ídolo maior sempre fora Cazuza. Aqui neste disco sensacional, a cantora consegue exprimir o melhor do som do cantor morto em 1989 para colocar sua própria identidade, seu brilho, seu carisma e, de quebra, sua musicalidade. Posso dizer que esse seja o trabalho mais significativo de Cássia desde o início de sua carreira e um dos mais marcantes também. Capa e contra capa estão perfeitos e as músicas selecionadas são espetaculares. A personalidade de Cássia contribuiu muito para que este disco fosse feito: as cordas vocais são sua marca de referência e ela nunca conseguiu esconder das pessoas sua preferência por discos ao vivo aos de estúdio. Por esse mesmo motivo, a cantora optou em fazer um disco ao vivo com o mesmo título para celebrar com chave de ouro este momento único em sua vida. Cazuza e Cássia se uniram, ele em alma e ela em voz, para realizarem um dos discos mais celebrados da carreira curta de Cássia. Se Cássia o agradeu por isso, nós agradecemos à Cazuza por ter feito belas canções como as que Cássia cantou.

 

Cássia Eller canta Cazuza em disco memorável
Nota 10
Marcelo Teixeira

 

sábado, 28 de março de 2015

Ney Matogrosso não empolga em disco ao vivo


O óbvio do mesmo
É sempre assim: Ney lança um disco de inéditas, aguarda a aceitação e a degustação do público e em seguida lança o mesmo disco em versão ao vivo. Isso já vem acontecendo na carreira do cantor há um bom tempo, sempre com grande repercussão e sendo maior ainda que o disco de origem gravado em estúdio. Talvez a mais bem sobrevinda aceitação seja o disco Ao Vivo, gravado em 1999, após o mega sucesso Olhos de Farol explodir e trazer de volta um Ney Matogrosso escondido no seu tempo. Depois dessa data, a vida musical de Ney tomou um novo rumo e a sequencia de discos em estúdio e logo em seguida um registro ao vivo tornaram-se marcas registradas de sua discografia. Assim como Beijo Bandido Ao Vivo e Vagabundo Ao Vivo, que tinham lá seus atrativos para que o registro ficasse diferente do disco de estúdio, Atento Aos Sinais Ao Vivo (2014 / Som Livre / 26,90) não repete o mesmo feito: Ney trouxe novas capas, novas luzes, novas malemôlencias, novas tendências, mas o que se vê aqui é uma cópia fiel do disco em estúdio, porque não há uma divisão do original para o disco ao vivo. Ou seja, Ney reportou todo o segmento de Atento aos Sinais para o disco Ao Vivo, não tendo a criatividade de ao menos embaralhar, misturar, confundir ou surpreender ao público que ali estava no momento da gravação ou até mesmo os que posteriormente comprariam seu disco. Há, sim, um jogo de sensualidade em algumas faixas do disco, mostrando que Ney, no auge de sua carreira e de sua idade, ainda persiste em se mostrar o quão articuloso e sensual é. Mas de nada adiantou tudo isso, pois o disco ficou parecido (e muito) com a do primeiro grande registro de 1999. Seu lado político floresceu e Vida Louca Vida, de Bernardo Vilhena e um certo Lobão faz pouca diferença sobre o álbum, assim como as versões canhestras de Two Naira Fifty Kobo (Caetano Veloso) e Ex – Amor (Martinho da Vila). A impressão que se passa, é que o disco foi feito arrastado e às pressas, tendo em vista que a música Tupi Fusão (excelente por sinal) foi cantada de forma rápida e rasteira. Mas a criatividade de Ney vai além de tudo isso e, para tanto, incluiu Astronauta Lírico (Vitor Ramil), fazendo aqui um diferencial extraordinário em todo o disco. Mesmo assim, o disco não merece destaque algum pela simples forma de não trazer ao público a sensação de novidade, da explosão de Ney no palco, da testosterona que existe dentro de si e nem a magnitude de um senhor com mais de 70 anos transvestido no palco. Tudo se repete. E Atento Aos Sinais Ao Vivo se repetiu a versão do óbvio.

 

Ney Matogrosso não empolga em disco ao vivo / Ney Matogrosso
Nota 5

sábado, 21 de março de 2015

O tempo de Ludmilla é hoje. E amanhã?


Ludmilla hoje, amanhã e...
Reduto especializado principalmente por homens, o funk está sendo tomado pelas mulheres que querem (ou tentam) revolucionar o mercado fonográfico com suas expressões marcantes, seus cabelos volumosos e seus batons florescentes. O tal funk ostentação nunca esteve tão em voga como nos dias atuais e isso se deve a crescente massa adolescente, que encontraram nesta batida (im)perfeita, uma maneira de protestar contra algo, a desculpa esfarrapada de encontrarem os amigos para uma noitada, para beijos furtivos e para a dança, muita dança. Ludmilla entrou neste terreno hostil e está aproveitando todas as mazelas que a música descartável e sem prioridade alguma de crescimento cultural poderia lhe retornar. Lançou um CD que teve uma grande aceitação imediata do público, ofuscou a cantora Anitta, roubou a cena em todos os espetáculos televisivos, ganhou notoriedade do dia para a noite, ficou mais bonita, menos caricata, deixou de ser dublê de uma cantora americana e ganhou madeixas louras, volumosas e junto com tudo isso surgiu a timidez. Ludmilla é hoje o que a Anitta representou no início de sua carreira: uma grande ostentação musical, uma cantora que surgia dos guetos, branca, bonitinha, mas sem conteúdo algum. Ludmilla é o oposto de tudo isso: mesmo sua música sendo distante do verdadeiro funk, a cantora consegue driblar os grupos sensacionalistas e tira de letra sua nova forma de se fazer música: canta como as cantoras negras do passado, não é vulgar em seus passos de dança e suas músicas são agraciadas pelo melhor do funk pop da atualidade. Hoje é o tempo de Ludmilla e esse tempo lhe trouxe responsabilidades futuras, que requer superar o estrondoso sucesso que faz hoje. Se isso não vir a acontecer, a cantora estará fadada a ser marionete do egocentrismo musical, que lhe colocaram na grande roubada de patrocinarem seu sucesso imediato. Mas pelo andar da carruagem, aposto que Ludmilla virá em breve com um novo CD e mais uma vez um novo sucesso. Talvez não arrebatador como o charmosinho Hoje, mas compensdor para sua voz. O tempo, por hora, está favorável à ela. Mas até quando?

 

O tempo de Ludmilla é hoje. E amanhã?
Marcelo Teixeira