Um blog a favor da Música Brasileira, com entrevistas, artigos, críticas, lançamentos e muito mais. Artigos escritos por Marcelo Teixeira. www.maisculturabrasileira.blogspot.com.br
Chicas é a banda formada por Amora Pera, Fernanda Gonzaga, Isadora
Medella e Paula Leal, que anda fazendo muito barulho por onde passam devido a
técnica vocal e instrumental que todas carregam. Composições próprias e
regravações de grandes canções da MPB, agitaram o lançamento do DVD em julho/2009.
Sendo uma banda exclusivamente feminina, As Chicas é uma da melhores bandas de MPB dos últimos anos. Prezam pela
musicalidade, notas perfeitas, instrumentos maravilhosos, zabumba, xilofone, violoncelo
e violino. Percussão, um dedo de forró misturado com um maracatu atômico.
Enfim, música brasileira de qualidade. Em 1996, as quatro amigas decidiram
formar uma banda. Nascia, até então denominada, banda Las Chicas. Composta por
quatro excelentes musicistas, Amora Pêra, Fernanda Gonzaga, Isadora Medella e
Paula Leal, a banda que já era agraciada pela herança genética de Gonzaguinha
(pai de Fernanda e Amora), tocou durante 2 anos em festas de amigos, pequenos
palcos, mas nada muito comprometido. A banda se desfez, fruto da imaturidade
das meninas ainda muito novas naquela época, mas retornou quatro anos após essa
pequenapausa. Mais
experientes, as meninas seguiram tocando em festivais, pequenos palcos e dessa
forma, foram testando seu repertório e conquistando um público fiel. Em 2006,
após três anos de espera e experimento, a banda Chicas, lança seu primeiro CD Quem vai comprar nosso
barulho?, fruto de uma produção independente e investimento das quatro
cantoras. Mesmo com uma pequena divulgação, basicamente composta pelo
boca-em-boca, uma ativíssima comunidade na internet e busdoor só para um show,
a banda lotou a casa de show Rival, em uma única apresentação. Além disso, já
conquistou alguns prêmios em importantes festivais como o Prêmio TIM da Música,
gravação de programas televisivos, venda de milhares de cds, consecutivas
semanas entre as 10 mais tocadas em algumas rádios FM's, lotação de casas de
shows no Rio e estados vizinhos. Pois é, não precisa ser só filha do astro
Gonzaguinha, tem que saber fazer música também. E isso, as Chicas sabem fazer
bem.
Filha de João Gilberto e Miúcha e sobrinha de
Chico Buarque de Hollanda a cantora Bebel Gilberto é praticamente a guardiã
legítima do som que seus pais ajudaram a criar no Brasil, mas com uma diferença
que soa bem para a sua carreira: Bebel consegue misturar a bossa nova de
outrora com o som dançante de hoje em dia. Sim, Bebel é pop, o que na língua
comum dos dias de hoje, significa popular. Mas Bebel não é tão popular assim:
seus discos são a característica física de uma cantora com significação maior
que o seu sobrenome, pois suas músicas são produzidas com requintes de
qualidade superior e suas letras são redondas, perfeitas e simétricas. A cada
disco, Bebel Gilberto trás uma ou outra canção que nos eriça e isso vem
acontecendo desde o seu lançamento oficial com Tanto Tempo (2000),
um dos discos mais comentados e aplaudidos nos Estados Unidos, Japão e, por
incrível que possa parecer, aqui no Brasil também. De lá pra cá, a cantora não
parou mais de produzir discos sensacionais, com parcerias incríveis e com uma
sofisticação ímpar. Sendo o CD mais aguardado do ano pelos americanos e pelos
brasileiros que lá moram, Tudo (2014 / Sony Music / 28,99)
pode-se dizer que a cantora se superou em praticamente tudo, principalmente na
ousadia de compor, no atrevimento de compactuar duetos sensacionais e no arremesso
de cantar em uma terceira língua. Tudo
tem tudo e um pouco mais: é um dos discos mais experimentais de Bebel Gilberto,
por se tratar de um disco acima de sua capacidade de inovar. Aqui Bebel canta
em inglês (Somewhere Else, Harvest Moon,
Lonely In My Heart), em português (Nada
Não, Tom de Voz, Novas Ideais, Tudo, Saudade Vem Correndo, Areia, Vivo
Sonhando, Inspiração) e em francês, na deliciosa Tout Est Bleu, que parece que foi posta no disco para ser um hit
das pistas de dança pelo mundo afora. Bebel se arriscou e conseguiu se
distinguir de outros discos de sua carreira, que chegaram a ser calorosamente
frios (mas não menos importantes em sua discografia), por terem letras e
melodias densas demais, caso do disco Momentos (2007)
ou All in One (2009),
que fora praticamente produzido para o mercado internacional. Bebel Gilberto,
acima de tudo, é uma cantora brasileira nascida nos Estados Unidos e, por esse
motivo, recriou o jeito de se fazer música ao seu gosto e estilo e introduziu
no Brasil uma linguagem nova (e muito aplaudida) em seus discos. Tudo é
a prova maior dessa sua capacidade de se impor entre as melhores letristas e
cantoras do mundo e, para que essa consagração seja maior, convidou a cantora e
compositora Adriana Calcanhotto para fazerem juntas a letra da música que dá
título ao disco. Convidou também o cantor e compositor Seu Jorge (que está bem
nas paradas de sucesso em terras americanas) e, claro, não poderia faltar Tom
Jobim marcando de vez que seu lado bossa novista fala mais alto. Tudo é
um dos melhores discos de Bebel Gilberto, depois de Tanto Tempo,
sem trocadilhos, literalmente.
O penúltimo disco de Mônica Salmaso,
Alma Lírica Brasileira, lançado em 2011,
foi passado desapercebido pelo grande público e pela crítica especializada e
acabou sendo um disco qualquer na sublime carreira da cantora, mesmo sendo esse
disco um paralelo de divisor de águas na carreira de Mônica, por se tratar de um
disco produzido com requintes de rica musicalidade e que no frescor de sua alma
de cantora, expôs todo o seu sentimento para com as canções ali cantadas. Teve
Adoniran Barbosa, José Miguel Wisnik, Paulo Vanzolini e o sambinha de Herivelto
Martins, Meu rádio e meu mulato, mas
o disco não emplacou. Agora a cantora acaba de lançar um dos discos mais nobres
de sua carreira. Corpo de Baile (2014 / Biscoito Fino
/ 31,99) é um punhado de canções da dupla Guinga e Paulo César
Pinheiro e mesmo sendo um disco de releituras, as músicas dão um novo frescor
na delicada e sútil voz de Mônica. Destaques para a lindíssima Porto Araújo, já cantada brilhantemente pela cantora Simone
Guimarães em seu disco Virada pra Lua
(2001) e Bolero de Satã,
imortalizada na voz de Elis Regina, que no disco Elis,
Essa Mulher (1979) cantou ao lado de Cauby Peixoto. Recentemente, a
cantora e filha de Elis, Maria Rita, deu um banho de interpretação nesta mesma
música, pouco gravada do cancioneiro de uma das maiores vozes do Brasil. Quase
todos os discos de Mônica são um convite para que possamos crer que a música
popular brasileira está a salvo e Corpo de Baile
prova mais que isso: que a música de dois gênios da música está para ser ouvida
por todos e em todos os cantos. Mônica Salmaso apenas deu um verniz e explicou
a importância de Guinga e Paulo César Pinheiro dentro da MPB. Corpo de Baile é um disco que merece ser
ouvido. E respeitado!
Sem sombra de dúvidas, Luiz Melodia
lança seu melhor disco nos últimos anos. Embora Zerima
esteja bem próximo do álbum Pérola Negra,
Luiz Melodia prova que é um dos melhores cantores da música popular brasileira
e toda essa semelhança passa desapercebido já na segunda audição embora o Pérola não tivesse tantos sambas quanto
este. Mas teve essa variedade de ritmos. Em 1973, o cantor e compositor carioca
marcava a estreia da carreira musical com o lançamento de Pérola
Negra, sua marca registrada até hoje e imortalizada na voz de Gal
Costa. Aclamado pela crítica à época, o disco é até hoje notado pelas
composições bem ordenadas e pelo atrevimento do carioca ao se enveredar pelo
samba, choro, rock, forró, soul e o blues em um único trabalho. Esta mistura
virou uma marca do artista e volta a se repetir em Zerima
(2014 / 26,99 / Som Livre), seu 14º álbum em mais de 40 anos de
estrada, recém-lançado maravilhoso trabalho. No novo álbum, a excursão musical
de Luiz Melodia faz escalas no samba, bossa, blues, jazz, reggae, funk, valsa,
entre outros ritmos. Tudo isso em 14 faixas, sendo 11 autorais inéditas e três
regravações. Entre estas, a composição Maracangalha,
de Dorival Caymmi. A cantora Céu, assim como o filho de Melodia, Mahal, dão as
caras em Zerima. Ela empresta a voz
na canção Dor de Carnaval. O
resultado é um belo dueto em forma de bossa nova. O convite de Céu, cantora que
Melodia aprecia muito, aconteceu como forma de retribuição ao convite que ele
recebeu para fazer uma ponta no disco Vagarosa,
que a cantora lançou em 2009, onde os dois artistas ilustres fizeram uma
parceria formidável.
Quando houve a explosão do pagode,
em meados da decada de 1990, muitos acharam que essa onda seria passageira.
Vínhamos de uma explosão sem igual da decada de 1980, a era do Rock Brasileiro
e tínhamos que aturar as dancinhas insignificantes do cantor Latino e a
categoria primordial do axé de Daniela Mercury que explodiu em todo o país. A
era sertaneja começava a desandar e a patinar no asfalto, enquanto o pagode
crescia numa forma alucinante, surgindo a cada semana um grupo diferente.
Originado do samba de raiz e tendo como média as orientações de grandes bambas
do passado, os pagodeiros (como ficaram conhecidos) eram todos mal vistos:
desde suas danças horrendas, passando por suas roupas ridiculas, culminando em
algumas trapaças sem igual, os pagodeiros da primeira leva eram rotos, chatos e
tinham a aparência suja. Cantavam o amor, os sentimentos mais puros com pitadas
de traição e isso divertia a todos que passaram a aderir ao movimento. Mas cada
grupo tinha o seu jeito de demonstrar a sua música e isso foi sendo respeitado
até o forró universitário tomar conta do pedaço e acabar de vez com os
passinhos mansos e desajeitados dos rapazes do suburbio. Mas o que naquela
época causava desgosto e repulsa, hoje causa uma sensação de alívio ao saber
que os Amigos do Pagode resolveram se juntar para formar um novo grupo.
Explico: àquela época eu detestava o pagode (e ainda o detesto) e hoje os
admiro pela garra e coragem com que vem demonstrando singularmente suas
canções. Hoje vejo uma grande diferença entre a música pagodeira e a música
sertaneja de péssimo gosto duvidoso que é produzida no país e confesso que o
grupo Amigos do Pagode fizeram um bem danado em poder reviver os tempos áureos
de realeza e constelação. Formado por Salgadinho (Katinguêle), Márcio (Art
Popular) e Chrigor (Exaltasamba), o Amigos do Pagode matam a saudade de hits
como Telegrama e de outras dezenas
que compunhavam as trilhas românticas de casais apaixonados em bares e
botequins. A ideia saiu de Salgadinho (que nunca abandonou a música, mesmo
depois do ostracismo) há cerca de quatro anos; juntou-se aos dois maiores
pagodeiros da época e formaram o grupo. E por que eu, um crítico ferrenho dos
pagodeiros, que já foi aos jornais criticar o estilo musical, está defendendo o
grupo hoje? Simples: comparando a música atual com a música que eles
produziram, a resposta fica fácil. Havia começo, meio e fim nas melodias e
havia carisma, havia simpatia e havia entusiamo nas canções, o que hoje não se
vê nas música sertanejas e pagodeiras que ouvimos. Havia, principalmente, voz.
A boa ideia de juntar as três vozes foi perfeita, porque tanto Salgadinho
quanto Chrigor e Márcio são as maiores vozes do pagode de todos os tempos.
Talvez Márcio seja ainda a melhor voz. Mas independentemente de voz ou estilo,
o Amigos do Pagode demonstra que o tempo é o melhor remédio para que o sucesso
possa vir mais uma vez bater em suas portas.
Achei de uma ignorância sem igual o
que fizeram com a cantora maranhense Rita Benneditto no Mato Grosso do Sul: uns
tremendos idiotas fervorosos da palavra do saber conseguiram proibir a cantora
de se apresentar na região porque suas músicas fazem apologia à macumba.
Obviamente que isso pegou a todos de surpresa, mas o fato é que a cantora vem
desenvolvendo um dos mais belos e respeitosos trabalhos de sua carreira,
conseguindo demonstrar sua musicalidade a quem quer ouvir e esse ato desumano,
incapaz e desonesto por parte de alguns rotos e tolos só faz crer que o
preconceito e a injúria ainda predominam a sociedade. Impedir que uma cantora
brasileira se apresente em território nacional por sua música é um dos atos
mais nefastos deste planeta, porque fazendo isso, está barrando também o livre
circulamento de qualidade, de austeridade, de brasilidade. Por que não proibem
músicas canhestras que rondam o mesmo lugar que proibiram Rita de cantar? Por
que não proíbem os pancadões, as músicas religiosas que são de uma chatice pura
e insana, com palavras que não pregam nada a não ser vergonha alheia? Por que a
censura da música não proíbe cantoras que rebolam até o chão fazendo
quadradinhos de números diversos? São tantos porques que provavelmente a
secretaria que proibiu o show da cantora em solo mato grossense não teria
respostas. É inadmissível que se faça isso com uma artista respeitosa e
batalhadora por uma cultura como Rita. É inconcebível que esse tipo de ato
pecaminoso seja tão real nos dias de hoje, em não poder mostrar um trabalho
bonito e coerente para a população. Isso demonstra, apenas, que a evangelicação
no país quer tomar partido em tudo, mas eles não observam o próprio nariz sujo
de pecados. Sendo assim, que respeitem a música de Rita Benneditto e de quem
quer que seja, pois a música é rica em inspiração, rica em detalhamentos, rica
em brasilidade. Estou me referindo, neste caso, à música de Rita Benneditto!
Grande revelação no Mais Cultura Brasileira de 2013, a
cantora amapaense Emília Monteiro acaba de lançar um clipe da música Veneno de Cobra, composta por Dona
Onete, figura tarimbada no Norte brasileiro, que remete alegria a quem a ouve e
faz de suas músicas um aliado para combater o mau humor. Entrevistada pelo
blog, Emília lançou o CD Cheia de Graça
em 2013, trazendo composições de Ellen Oléria, Zeca Baleiro, Márcia Tauil e
Simone Guimarães na bagagem recheada de marabaixo, lundu e danças típicas de
Macapá. A música Veneno de Cobra está
neste belo disco, assim como outras composições de Dona Onete. O clipe é maravilhoso, cheio de cores, com uma vivacidade incrível e radiante, mostrando toda a beleza que há pelo lado nortista e a capacidade de impressionar de uma cantora altamente brasileira, com categoria e elegância mútuas. Emília Monteiro consegue, mais uma vez, provar de seu próprio veneno e sobressair pelo lado mais fortuito: o eco de sua voz, o brilho de seu olhar, o sentimento mais puro de sua emoção. Dona de uma das melhores vozes brasileiras, a cantora é refêrencia hoje no Norte brasileiro e consegue fazer de seu carisma um dos motivos mais festivos para a realização de sua obra: nela estão concentradas todas as riquezas que há em Amapá! Vale a pena
conferir este grande lançamento e podendo conhecer um pouco mais do trabalho
artístico desta grande cantora, que consegue nos hipnotizar com seu olhar, nos
encantar com sua voz e nos enfeitiçar com seu veneno.
Se há uma palavra que defina o grupo
Skank, usaria a palavra inovação.
Depois de seis anos fora do mercado fonográfico, o grupo de pop/rock mais
consolidada do mercado brasileiro surge com um disco diferente e ao mesmo tempo
autoral e inédito, gravado totalmente em estúdio, com participações especiais e
muito bem produzido. O álbum estava sendo muito aguardado pelos fãs, que desde
2009 esperava por novidades e ansiavam algo realmente que os impactassem e a
banda veio com carga total em um disco com um capa bonita e com um título
sugestivo: Velocia. Passeando por
vários ritmos musicais, como o reggae e britpop, as influências do grupo estão
mais voltadas agora pro folk e o suingue com levada de batida eletrônica.
Participando do CD, Nando Reis e a cantora Lia Paris se sentiram muito a
vontade ao dividirem os vocais com Samuel Rosa e trupe e o resultado final é a
mais perfeita sonoplastia do grupo. Com vários prêmios, o Skank ainda mostra
que sua música está longe de acabar e que a banda está mais firme do que nunca,
com vários projetos em mente e a pretensão de novo disco. Logo na abertura do
disco, Samuel e Nando Reis atacam de futebol na faixa Alexia, que homenageia a jogadora do Barcelona, Alexia Putellas e
mostra o ex-titã no final da música. Vale lembrar que o grupo Skank adora
musicar sobre futebol e isso é uma marca já característica deles e a sensação
que passa é que a cada homenagem ao esporte, as músicas se aprimoram de tal maneira,
que o assunto não cansa. Para entender Velocia(2014 /
Sony Music / 26,99), você precisa ouvi-lo com muita atenção, porque
esse disco do grupo não é para qualquer ouvido comum: o tempo que a banda
contemporizou para voltar ao estúdio, as músicas selecionadas e a experiência
necessária e precisa de cada um foram determinantes para que o álbum saísse com
a cara deles. Os fãs podem suspirar aliviados porque Velocia
é um grande disco.
Por trás daquela aparência de menina
má que a cantora Pitty carrega em seu semblante, há um menina muito boazinha,
capaz de nos hipnotizar e nos encantar. A prova disso é que seus discos são
sempre muito bem aceitos pelo público e crítica especializada e sempre há um
gostinho de quero mais. Pitty é uma baiana roqueira e que sente muito orgulho
de ser o que é e sem demagogias e isso é tudo muito mágico em sua carreira
(brilhante, diga-se de passagem). Lançando seu mais novo CD, 7 Vidas (2014 / Deck Discos / 24,99), a
cantora mostra o bom e velho rock ao seu jeito, sem se preocupar com rotulagens
ou manifestos contra a sua música. Sendo seu quarto disco de estúdio, a cantora
mostra aqui toda a sua versatilidade como grande cantora de rock e que ainda
tem muito chão pela frente, diferentemente de outras que cismam em querer ser o
que não é. A personalidade forte e marcante da cantora está retratada em todo o
disco, inclusive na capa, que tem o tom branco e preto denominante. Pitty está
mais interessada em estender o olhar de sua música, que estava mais focada no
frescor dos anos 1990 para um rebuscamento de horizontes mais adulto, colocando
em alvo o público mais centrado em realmente querer ouvir suas canções. Suas
músicas flertam com o rock tradicional dos anos 1960, que gruda facilmente em
nossas mentes e que se transformam em pérolas do mundo pop, com arranjos,
formas e cabeçalhos para um conteúdo maravilhoso sobre o seu mundo. Com um
olhar mais atento, Pitty acaba trazendo à tona todo o seu esforço conceitual que
envolve um trabalho generoso e preciso, rebuscados de tons e que acabam por se
isolar em possibilidades que só sua música consegue fazer: um punhado de 7 Vidas é a carta de registro da
cantora, que se mostra atenta ao mundo de hoje, sem tirar os pés do chão. E é
por esse motivo que a cantora brilha por onde passa, com sua timidez
redondamente caetanizada e humana e que faz de seu trabalho um achado e tanto.
Mas engana-se quem acha que Pitty é totalmente tímida: seu trabalho mostra o
contrário e essa inversão faz toda a diferença. Que a cantora tenha muitas
vidas!
Uma das vozes mais poderosas do
Brasil, a cantora Vírginia Rosa juntou-se ao pianista Geraldo Flach (1945 /
2011) para juntos fazerem um dos discos mais belos da MPB. Voz
& Piano (2010 / Lua Music / 22,99) é uma compilação de sucessos
antigos já gravados pela cantora, como outras releituras fundamentais dentro da
música popular brasileira, casos de Kalu
(Humberto Teixeira), Cacilda (José
Miguel Wisnik) e Maria Maria (Milton
Nascimento / Fernando Brant). Inicialmente seria um projeto feito para a
cantora e atriz Lucinha Lins, que faz uma bela participação no disco na música Prenda Minha, um folclore gaúcho e que
fecha o disco. A moldura na voz cristalina e poderosa de Vírginia combinou
perfeitamente com os dedos delicados de Geraldo sobre os pianos: várias vezes a
voz de Vírginia brilha num monólogo abrindo espaço para que o músico adentre
suas notas num lirismo puro e que nos emociona. Baseados musicalmente a partir
da ideia de um encontro inesperado, surgiu a possibilidade de fazer um disco
com essa colisão perfeita e o resultado final ficou impressionante. As músicas
foram muito bem selecionadas e o casamento de amizade entre os dois artistas
soou nitidamente sensacional. Gravado ao vivo na versão voz/piano, a cantora
canta sucessos de Elis Regina e Luiz Gonzaga com tamanha perfeição, que chega a
emocionar. Destaque também para a feroz canção Mercedita (Ramón Sixto Rios), que faz de Vírginia Rosa um monstro
sagrado da música atual, tamanha a sua voracidade ao cantar e se expressar
através de sua potência vocal. Relembrando sucessos de seus discos anteriores,
como A Voz do Coração (Celso Fonseca
/ Ronaldo Bastos) e A Flor (Fernando
Figueiredo), que foi feita sob medida para o disco de estreia da cantora, o
disco tem um corportamento sereno e corresponde de imediato com o que é exigido
pelo público de MPB: Voz & Piano
é um disco surpreendente, capaz de nos envolver a tal ponto que até o mais
sensível dos homens se rende aos encantos da cantora.
Em tempos de guerra, política,
pedofilia, mortes encomendadas, tráficos, policiais sendo massacrados, o grupo
Titãs resolve fazer um CD totalmente voltado para essas políticas, envolvendo,
entre outros assuntos, a religião e o preconceito. Confesso que não entendi o
recado dado pela banda, que depois de cinco anos resolveram lançar o canhestro Nheengatu (2014 / Som Livre / 26,99).
Com a saída de Charles Gavin, o grupo parece estar meio perdido em suas
posições sobre música e perderam muito o conceito sobre a poesia com a qual
abordavam os assuntos. Rock pesado ao estilo Cabeça
Dinossauro lançado em 1986, o grupo não é mais o mesmo e está
passando do tempo de se aposentar: as músicas aqui cantadas são horríveis, com
apelos comerciais degenerativos para o público de hoje e com uma onda de
violência auditiva absurda e explícita. O disco foi lançado em maio deste ano e
a palavra usada como título significa Língua
Geral, compilação que os jesuítas fizeram no século XVII dos diferentes
dialetos indígenas brasileiros para que índios e portugueses se entendessesm,
conforme explicam em um post na página oficial da banda na rede social. Já a
pintura da capa de Pieter Brugel retrata a Torre de Babel e a produção do disco
é de Rafael Ramos. Com tanta informação e som pesado em meio a protestos, o
disco saiu pela culatra e se torna o pior lançamento fonográfico da banda dos
últimos tempos. Se for para continuar assim, aposto que mais um integrante logo
o mais sairá do grupo. Polêmico ao seu jeito, o disco tem letras bem explícitas
do ponto de vista em que cada faixa é apresentada e a música é digerida: Fardado, Mensageiro da Desgraça, República
dos Bananas, Fala, Renata e Chegada ao Brasil (Terra à Vista) são músicas
violentas e que expressam o ódio e o preconceito. Falta muita coisa na nova
fase do Titãs (fase esta que falta há tempos) e o que mais pesa neste contexto
é a falta da poesia de Arnaldo Antunes e Nando Reis, que tinham uma
característica ímpar em retratar no rock as belezas sutis e melódicas em tempos
de paz. Não há nada de interessante a se ouvir em Nheengatu,
porque a impressão que a banda passa é a de que tenta retornar ao início de
carreira, mas sem a malícia juvenil que os consagraram. Falta aqui maturidade
poética, moral e pessoal do grupo para com os fãs: ao que parece, o grupo
despeja em nossa face todo o mal que o Brasil e o mundo se consagrou depois de
seus discos serem lançados. E é aí que não entendo o porque um grupo tão
conceituado se deixa rebaixar tanto, a ponto de serem ridicularizados com
músicas pesadas em tempos que não há espaço para músicas pesadas. Sinceramente,
não tenho o que dizer deste lançamento do grupo de senhores, mas confesso que
não vale a pena gastar um centavo para tê-lo em mãos. Nem em mentes! A pergunta
que fica no ar: quem será o próximo a sair da banda?
Uma das melhores vozes masculinas dos últimos tempos,
Alberto Salgado é um cantor inspirado e transpassa essa inspiração a quem o
ouve. Tudo o que vêm de Alberto soa como poesia, lirismo ou pura música, pois
como o próprio cantor diz, a música é a
expressão da vida em forma de som. Seu CD, Além
do Quintal, foi lançado recentemente e conta com uma brasilidade
impressionante, misturando ritmos e tendências musicais e demonstrando todo o
seu equilíbrio contagiante ao compôr sobre a pluralidade da vida, colocando
sobre isso toda a sua magnitude ao se impor como um dos cantores mais
espetaculares da atualidade. Aproveitando o lançamento de seu primeiro disco, o
Mais Cultura Brasileira teve o
privilégio e a honra de poder bater um papo com este grande músico. Elogiado
por dez entre dez estrelas da música, Alberto Salgado faz com que Brasília
acorde mais animada ao som de suas músicas, sempre procurando levar sua voz ao
ouvinte que não o conhece.Nesta
entrevista surpreendente, que vai do samba ao baião, Alberto Salgado revela
detalhes de seu minucioso trabalho, diz o que há além de seu quintal e que os
melhores cantores são Emílio Santiago, Elis Regina, Kiko Klaus e Juçara Marçal.
Marcelo Teixeira: Alberto, o que
é música pra você?
Alberto Salgado: Música pra mim é a expressão da vida em forma de
som.
M.T: De onde surgiram as inspirações para o disco Além do Quintal (2014)?
A.S: O disco Além do Quintal
foi construído a partir de composições antigas e de parceiros naturais daqui de
Brasília (meu quintal) e de parceiros de outros estados (além daqui), o que deu
a primeira ideia de se colocar o nome desse disco homônimo à música Além do Quintal, feita em parceria com
Atan Pinho, e que trata esta de tema ecológico. O disco Além
do Quintal é na verdade uma espécie de catálogo dos meus posteriores
discos. Por isso preocupei-me bastante em colocar ritmos diversos, dos quais
cada ritmo presente no disco, representa um segmento diferente de música. Por
exemplo, a própria faixa intitulada Além
do Quintal, tem uma pegada bem africana e com influências da música árabe e
indiana, porém sem perder a brasilidade também presente. E pretendo fazer o
próximo disco todo naquela pegada mais tribal. A fim de dar um caráter mais
homogêneo ao disco.E assim será com
todas as demais composições. São 12 faixas, mais uma remix no álbum Além do Quintal. Então terei muito
trabalho nessa vida, graças a Deus!
M.T: Suas músicas são de altíssima qualidade, com
começo, meio e fim e com letras que fogem do determinado comum das coisas, não
fala apenas de amor e sim da nossa realidade cotidiana. Você acha que a sua
música ajuda a difundir a qualidade musical de hoje em dia?
A.S: Modéstia parte acredito sim. Não só pelas
composições, como também pelos amigos que gravaram comigo. Tendo em vista que
nos anos 90 por exemplo, pouco vi e ouvi de trabalhos autorais como vem
ocorrendo agora. E acredito que atualmente (graças a internet) podemos acessar
trabalhos maravilhosos que ajudam muito a enriquecer a música brasileira de
qualidade, que parecia estar tirando férias em outros países. Citarei aqui
alguns que admiro demais e tenho muito respeito aos seus trabalhos. São eles
(as): Nathália Lima, Kiko Klaus, Paulinho Beissá, Wilson Bebel, Juçara Marçal,
Kiko Dinucci, Rodrigo Campos, Douglas Germano, André Abujamra, Raquel Coutinho,
Fernanda Cabral, Vavá Afiouni, Andréa dos Santos, Alessandra Leão, Curumim,
Túlio Borges, Litieh Pacelle, Eduardo Rangel, Silvério Pessoa, Arthur Maia entre
outros que considero grandes artistas, que representam bem o lado bom da música
brasileira. Sem contar os músicos e compositores que trabalham com música
instrumental. Altíssimo nível!!!
M.T: Brasília sempre foi um pólo cultural muito rico e
muito detalhado para todos nós. Do rock para a MPB, sempre esteve presente na
vida cultural brasileira. Hoje Brasília recebe de braços abertos diversos
ritmos musicais e a sua música tem apreço estimado por aí. Como se explica isso?
A.S: Brasília é um palco onde se reúne e apresenta a
grande diversidade da cultura brasileira. Aqui temos acesso a todas as culturas
presentes não só no Brasil, como também de diversos cantos do mundo. Sendo
assim, percebi o quanto meu trabalho é aceito e recebido com muito carinho do
público daqui. E por essa diversidade toda, acredito que não é difícil qualquer
compositor com trabalho de qualidade passar batido, sem o devido e merecido
reconhecimento do público. Temos público para tudo no Brasil. Porém o público
daqui é bem exigente e com razão. Se a maioria gosta de boas coisas em minha
cidade e estou no papel para servi-los com minha arte, terei que fazer o melhor
possível para merecer esse precioso reconhecimento. O público é quem nos faz
crescer e melhorar cada vez mais.
M.T: Pensa em fazer shows pelo Sudeste ou levar Além do Quintal para outras regiões do
Brasil?
A.S: É o que mais quero! Percebi também que mesmo com a
internet, ainda existe uma pressão sobre nós artistas em termos que sair de nossa
cidade e buscar o eixo RJ-SP, para ampliar nossas portas e palcos. Infelizmente
ou não, ainda é comum artistas fora desse eixo terem que abandonar suas cidades
para fazer mais shows.
M.T: Em um país com tantas vozes femininas, a sua chega
em um momento em que música pede passagem ou mais respeito?
A.S: Não diria mais respeito, pois temos belíssimas
cantoras no Brasil. Mas não posso negar que minha voz pede passagem também. Ou
melhor, espaço para mostrar meu canto.
M.T: Um cantor?
A.S: Emílio Santiago. Mas contemporâneo ao momento
atual: Kiko Klaus.
M.T: Uma cantora?
A.S: Elis Regina. Mas contemporânea ao momento atual:
Juçara Marçal.
M.T: Se você não fosse o excelente cantor que és, seria
um excelente...?
A.S: Professor de música... (risos)
M.T: Numa de nossas conversas, você disse que não
gostava de cantar nem de compor somente sobre o amor, sendo que a maioria das
pessoas gosta de ouvir sobre isso e a maioria dos cantores canta sobre isso,
mas você prefere ir para o lado contrário. Por quê?
A.S: Porque acredito demais no poder que nós
compositores temos em auxiliar a sociedade e alertar para temas sociais de
urgência. Como Saúde Pública, famílias que sofrem por ter alcoólatras ou
usuários de crack, por exemplo, como citado na música Tem Uma Pedra, feita também em parceria com Atan Pinto. Aí com
tantos problemas urgentes, não consigo ter um coração egoísta em exaltar apenas
um amor que é menos abrangente (amor de namorados) que a necessidade do amor
universal em ajudar muito mais pessoas com mensagem que reforcem uma ideia
positiva de uma mudança a quem precisa. E muitas pessoas precisam,
infelizmente. Porém nada tenho contra a quem canta só músicas românticas. Só
sei do que gosto, do que não gosto e do que posso fazer. Mas também rolam duas
canções neste álbum que soam como românticas, que são Cores da Vida e Lombra.
Ambas de minha autoria.
M.T: Além do Quintal
tem uma mistura de samba, baião, pitadas de romantismo, delicadeza. Qual foi o
critério para fazer nascer o álbum?
A.S: Como é meu primeiro disco, o Além
do Quintal, fiz escolha de algumas canções antigas, que eu precisava
gravá-las para enfim, começar de fato outros discos com ritmos mais homogêneos.
Sem desprezar a qualidade indiscutível do disco, claro. Porém, ele nasceu da necessidade
de eu ter que montar um catálogo que represente através de cada música um
segmento para cada próximo álbum.
M.T: Além do Quintal,
para mim, é um dos melhores discos do ano de 2014, com ótimas letras, ótimas
melodias e ótimas vibrações. Mas qual é o seu plano para depois deste mega
sucesso?
A.S: Obrigado pelo elogio! Bem, meu plano é de
circular ao máximo apresentando este trabalho a maioria das pessoas que eu puder.
Quero cruzar o país com o passaporte que a música nos dá. Não sei se será possível,
mas sonho é sonho e ainda bem que é de graça sonhar. Espero positivamente que
eu possa alcançar e construir bons públicos através deste trabalho primoroso
feito com muito amor e muito sonho.
M.T: O que há além do quintal, Alberto?
A.S: Além do quintal há muitos mundos a serem
descobertos. Muitos sorrisos para serem admirados, muitos brilhos nos olhos.
Mas também há muita gente precisando de ajuda e se conseguimos sair além do
quintal, é porque de alguma forma merecemos ou precisamos.
M.T: Para encerrar, Alberto, como seria a vida sem
música?
A.S:
A vida não teria voz!
Muito
obrigado por ceder um precioso tempo para esta entrevista, Alberto.
E
pra você que quer conhecer um pouco mais da obra deste sensacional cantor e
compositor, basta acessar os links abaixo para ter o melhor de sua música com
apenas um clique.
Tio Samba Orquestra é um grupo exclusivamente de samba e lança seu primeiro
DVD na Sala Baden agora dia 2 de agosto, mostrando boa música e versatilidade
entre os integrantes. Tente juntar instrumentos de sopro (com direito até a uma
tuba) a outros instrumentos de cordas e percussão. Imaginou uma orquestra? OK.
Uma sinfônica? Não, exatamente... Que tal uma orquestra de samba? É como
podemos definir o Tio Samba e seus 12 componentes. O grupo, que tem no currículo
três CDs, lança no Rio de Janeiro, na Sala Baden Powell seu primeiro DVD, Tio Samba Show, que contou com as
participações especiais de Diogo Nogueira, do cantor pernambucano André Rio e
do grupo Mulheres de Máscaras (formado por Flávia Dantas, Julieta Brandão e
Nina Wirtti). Um show é uma coisa muito
maior do que a apresentação de um repertório a uma plateia. Após 15 anos de
existência, sentimos que era fundamental registrarmos nossa performance ao
vivo. Com o lançamento deste DVD, podemos oferecer às pessoas este algo a mais,
que vai além da nossa execução musical. Isso permite que nosso público tenha a
integralidade de nossa arte à mão para aproveitar-se dela a qualquer momento e
em qualquer lugar, explica Carlos Mauro, compositor e vocalista do grupo. O
repertório do show de lançamento é praticamente idêntico ao do espetáculo
registrado no DVD, com a inclusão da marchinha Gás de pimenta (Carlos Mauro e Sergio Barros), feita para o
carnaval de 2014 e cuja gravação, de estúdio, integra os extras do DVD. O
roteiro musical reúne canções dos CDs lançados pelo grupo, além da releitura
com arranjos inéditos para três clássicos do samba: Chiclete com banana (Gordurinha e Almira Castilho), Bela cigana (Ivor Lancellotti e João
Nogueira) e É preciso discutir (Noel
Rosa). Com arranjos que unem cordas e sopros a percussão dos grupos regionais
de samba e choro, o grupo tem no currículo os CDs Quero
Ver (2003), É Batata!,
dedicado a obra de Carmen Miranda (2010 quando foi finalista do 22º Prêmio da
Música Brasileira na categoria Melhor Grupo de Samba) e Mais
pra cá do que pra lá (2012). Este proporcionou, em 2013, a indicação
do Tio Samba como finalista no troféu Samba
é tudo de bom na categoria Melhor Grupo. O Tio Samba é formado por Carlos
Mauro e Luciana Lazulli (vocais), Marcio Arese (sax tenor), Fabiano Segalote
(trombone e bombardino), Carlos Vega (tuba), Beatriz Stutz (clarineta e sax
alto), Matheus Moraes (trompete), Bernardo Dantas (violão 7 cordas), Thiago
Cunha (cavaquinho), Diogo Barreto, Alfredo Alves e Marconi Bruno (percussão).
Serviço: Show de lançamento do DVD Tio Samba Show.
Vale a pena porque trata-se de única apresentação!
Serviço:
Tio Samba
Show
Dia 02 de
agosto (sábado), às 20h Sala Baden Powell
Local: Av.
N. S. de Copacabana, 360, Copacabana.
Informações:
2255-1067/ 2548-0421
Ingressos:
R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia entrada para os casos previstos na lei)
Assessoria de imprensa: Silpert & Chevalier Comunicação