sexta-feira, 8 de março de 2013

Tudo Esclarecido, de Zélia Duncan


Um disco à altura de Itamar
Grande amiga e praticamente uma defensora da obra inigualavelmente excepcional do sensacional e incrível Itamar Assumpção, Zélia Duncan resolveu presentear os fãs e a ela mesma ao lançar um disco nada autoral com o magnífico trabalho Tudo Esclarecido, somente com músicas do cantor paulistano, morto em 2003 decorrente de um câncer. Pouco cantado nos dias de hoje, Itamar ainda é lembrado por mestres da MPB, como Ná Ozzetti, Ney Matogrosso ou Virginia Rosa e ainda desperta interesse e curiosidades sobre suas músicas, sempre requintadas com uma dose de ironia fina e ultrapassando o ulterior de cada pessoa. Misterioso ao seu jeito, Itamar foi um dos artistas malditos mais crucificados em vida e morreu solitário, assim como as frutas de cera a qual canta em Noite Torta.

Não é à toa que Zélia canta as músicas de Itamar. Desde 1996, quando lançou seu terceiro disco, Intimidade, que ela gravou o ótimo Vou Tirar Você do Dicionário, com participação do então desconhecido Lenine, tentando mostrar que o hermetismo e a densidade comumente vinculados ao compositor da Vanguarda Paulista não dão conta de sua faceta pop. O repertório resultou num leque de ritmos: xote, forró, samba, balada folk. Mas o resultado não foi mais que um reflexo da pluralidade intrínseca a Itamar, já que o único critério para selecionar as faixas do CD foi a vontade de gravá-las, de acordo com Zélia e sua perspectiva.

 

Tudo esclarecido

Entre as coisas

E os seus

Sig

Ni

Ficados

O que se viveu

Tá vivido

O assunto

Virou passado

E o que passou


Esquecido

 

Entre as coisas esquecidas

Estão as melhores lembranças

Entre as coisas perdidas

Estão os grandes achados

 

(Trecho de Tudo Esclarecido, de Itamar Assumpção e Alice Ruiz)

 

Ney Matogrosso e Martinho da Vila, dois artistas deliberadamente convidados por serem amigos de Itamar, endossaram esta campanha pela difusão da obra do compositor paulista – ele mesmo, um entusiasta do pop, que acabou tendo sua ressonância limitada pela complexidade de sua figura pública.

O envolvimento de Zélia Duncan com Itamar Assumpção data dos anos 1980, quando se aproximou meio que sem querer do cantor em um show que ele fazia. Agora, a niteroiense se volta com força total à obra de Itamar, com o lançamento do disco Tudo Esclarecido - Zélia Duncan Canta Itamar Assumpção (Warner / 29,90 / 2012). Um tributo cheio de personalidade que Zélia agarrou com todas as suas forças.

Gravar um disco com composições de um único autor é sempre um desafio grande. É preciso alcançar um balanço entre a identidade do autor e a personalidade do intérprete. Tudo Esclarecido - Zélia Duncan Canta Itamar Assumpção é um desses casos. Produzido por Kassin - o novo Midas da MPB - emociona e reafirma a categoria de Zélia como cantora.

Quando Zélia lançou Pré Pós Tudo Bossa Band, havia dois convidados especiais: Lulu Santos e Anélis Assumpção, a filha de Itamar, na bela música Milágrimas. O disco não era em homenagem à Itamar, mas como já virou um hábito, a cantora incorporou mais uma música do artista como forma de homenageá-lo. Porém, no disco recente que leva treze faixas, Zélia resolveu convidar Martinho da Vila (que era apenas amigo de Itamar) ao invés de chamar a filha do mesmo. Soa estranho este não convite no disco, mas sim nos shows que Zélia anda fazendo, já que leva a tiracolo Anélis. Por este motivo, o disco leva nota 9 e não 10.

Nas 13 canções - uma delas inédita (Tudo Esclarecido) - Zélia recebe dois convidados muito especiais (Ney Matogrosso e Martinho da Vila), em números que se identificam pelos belos e econômicos arranjos. A banda, formada pelo violão de Zélia e mais Kassin (baixo acústico, baixo, guitarra dobro, lap steel, sintetizador), Stephane Sanjuan (bateria, tímpano e percussão), Thiago Silva (bateria e percussão), João Callado (cavaco), Marlon Sette (trombone), Luis Filipe de Lima (violão 7 cordas), Pedro Sá (guitarra, violão), Christiaan Oyens (dobro slide, guitarra, violão havaiano, violão, lap steel, bateria e percussão) e Marcelo Jeneci (teclados e acordeom), mostra-se precisa e capaz de mudar de clima sem perder o rumo.

 

Tudo Esclarecido – Zélia Duncan Canta Itamar Assumpção / Zélia Duncan

Nota 9

Marcelo Teixeira

quinta-feira, 7 de março de 2013

O CD menos infantil de Sandy


 

Nova Sandy?
Menos infantil que o seu disco de estreia, a cantora Sandy resolveu dar o troco nos falastrões de plantão e foi um pouco mais além ao lançar Princípios, Meios e Fins (2012) demonstra uma Sandy um pouco mais madura, mais afinada, mais mulher, mas demonstra uma Sandy menos cantora. Mais preocupada em rebuscar os finados fãs que ainda não se acostumaram com sua nova roupagem, Sandy tenta ser uma cantora mais pop, mais autoral, mais atual e se esconde da fama que a revelou e de seus próprios desejos musicais. Sandy tenta ser mais adulta com a canção Aquela dos 30 e acertou quem acredita que tenha a ver com a atual fase da mocinha. O disco (e a música Aquela dos 30) soa meio autobiográfica e isso já estava presente no chatíssimo Manuscrito. Falar da idade adolescente para a fase adulta é um tabu que muitos cantores e compositores gostam de retratar e com a cantora Sandy não está sendo diferente.

Trinta anos completados em janeiro, Sandy se define como uma pessoa madura e menos ansiosa nas entrevistas a qual cedeu para diversos veículos para o lançamento oficial do clipe que leva sua marca registrada da idade. Para comemorar a nova fase e retomar sua carreira solo, a cantora acaba de lançar o EP Princípios, Meios e Fins, um disco bonzinho, comparado ao primeiro.

Casada há quatro anos com Lucas Lima, Sandy fez uma homenagem ao marido – que participou ativamente da produção do novo trabalho – com a faixa Escolho Você.

Um disco que não afetará em praticamente nada no mercado fonográfico, tendo em vista que a carreira de Sandy não acrescenta em mais nada na vida musical. Mesmo assim, o disco lançado no final do ano passado teve folego para ter clipes ministrados no canal MTV (com direito a entrevistas) e com cuspidinhas aqui ou ali em programas de auditório.

 

Princípios, Meios e Fins / Sandy

Nota 6

Marcelo Teixeira

 

quarta-feira, 6 de março de 2013

A morte de Chorão


Música e drogas
A morte de Chorão, do grupo de rock Charlie Brown, pegou a todos de surpresa nesta madrugada do dia 6 de março. Roqueiro, cara de bad boy, músicas pesadas, Chorão era o líder absoluto da banda que cantava o que queria e aonde queria. O Charlie Brown Jr. apareceu no cenário musical no fim dos anos 1990. A banda lançou dez discos em pouco mais de 15 anos de carreira. Alexandre Magno Abrão era o líder – e letrista – da banda nascida em Santos, litoral de São Paulo, no começo da década de 90. No entanto, o primeiro álbum só foi lançado em 1998. De acordo com o site oficial da banda, o Charlie Brown Jr. completa, em 2013, 15 anos de carreira.

Seu estilo musical sempre foi focado na linguagem jovem. Gostava de ridicularizar pagodeiros românticos, com letras cheias de palavrões e investidas contra mauricinhos. Chorão é o único integrante da formação original. Em 2005, o cantor anunciou a nova formação da banda após uma briga com os músicos Renato Pelado, Marcão e Champignon. Em 2011, o roqueiro rescindiu o contrato do grupo com a Sony Music e passou a gravar em um selo independente. Nesse mesmo ano, ele fez as pazes com Marcão e Champignon que retornaram ao Charlie Brown.

O famoso apelido vem da adolescência quando descobriu sua paixão pelo skate. O astro chegou a se profissionalizar no esporte e foi vice-campeão em um campeonato paulista. Paralelo a carreira musical, Chorão administrava marcas de skate e produzia grandes eventos do esporte no Brasil. O skate serviu de pano de fundo da história do longa O Magnata. Escrito pelo cantor, o filme foi protagonizado pelo ator Paulinho Vilhena. Lançado em 2007, a produção contava a história de um garoto rico e mimado, que flerta com a marginalidade.

Chorão também adorava futebol e era fanático pelo Santos. Ele tinha um filho adolescente, chamado Alexandre, de um primeiro casamento.

Hoje nos despedimos de Chorão. E hoje quem chora não é ele, mas sim seus fãs.

 

A morte de Chorão, da banda Charlie Brown

Marcelo Teixeira

terça-feira, 5 de março de 2013

Virada Pra Lua, ótimo disco de Simone Guimarães





Um dos melhores de 2001
Simone Guimarães é uma dessas raras e poucas cantoras que nos pegam de supetão na primeira audição e seu terceiro disco de carreira, Virada Pra Lua (2001 / Lua Discos / 24,99) é um desses achados que encontramos e não desgrudamos jamais pelo alto teor de riquezas musicais, bela voz, ótimas letras e um brilho capaz de nos transportar a regiões distantes a quais praticamente só a lembrança é capaz de nos levar. Leve e harmonioso, o disco nos dá a sensação de prazer misturado a capacitação de que a música brasileira não precisa se calar diante boas letras. E é justamente isso o que acontece com Simone Guimarães e seu excelente disco Virada Pra Lua. Tendo como padrinho Milton Nascimento, a qual empresta sua voz na canção Imagem e Semelhança (mais tarde esta mesma música e dueto viria a fazer parte do ótimo CD Pietá, lançado por Milton com participação da própria Simone e das cantoras Marina Machado e Maria Rita), o disco também conta com a parceria de Guinga em alguns arranjos bem selecionados.

Além de submergir por sua amabilidade, o disco surpreende pela variedade sonora, fazendo com que a cantora se perca ou se ache em seu rótulo como cantora de MPB, regional ou o que quer que seja: Simone não precisa de rótulos. Virada Pra Lua comprova isso, embora algumas faixas nos remetem a regionalidade a qual a cantora pertenceu. Na faixa-título, Simone manda um sambinha de melodia sofisticada, assim como em Imensidade (com letra em reverência aos negros brasileiros).

Ainda num fato mais dançante, vêm Night-club, acudida em um ritmo delicadamente delicioso, com tom de bolero, e 30 Anos, que ganhou arranjo de metais e batida black. Vale menção também ao leve sabor nordestino de Sertão das Águas (Dois). E ainda se arrisca em uma curiosa marchinha Marilyn, cujo canta as mulheres fortes e determinadas do Brasil e do Mundo e que fecha o disco com um toque bem-humorado. Na outra ponta do disco, Simone nos leva a trafegar bem em localidades mais líricas. Caso da bela harmonia de Cenários, apreciada pelo vicissitude entre piano e sax soprano no arranjo, e das doces Meu Coração e A Fábula do Riacho.

Simone Guimarães merece ser ouvida 365 dias.

 

Faixas

1. Virada Pra Lua (Simone Guimarães / Sergio Natureza)

2. Cenários (Misael da Hora / Julio Moura)

3. Imagem E Semelhança (Bena Lobo / Kiko Continentino / Milton Nascimento) - com Milton Nascimento

4. Imensidade (Simone Guimarães)

5. Porte De Araújo (Guinga / Paulo César Pinheiro) - com Guinga

6. Night Club (Kiko Continentino / Simone Guimarães)

7. 30 Anos (Ivan Lins / Vitor Martins)

8. Meu Coração (Thomas Roth)

9. Sertão Das Águas (Yuri Popoff / Simone Guimarães)

10. A Fábula Do Riacho (Simone Guimarães / Cristina Saraiva)

11. Cumbuca (José Márcio Castro Alves)

12. Convulsionada (Simone Guimarães)

13. Marilyn (Simone Guimarães / Rosana Zaidan)

 

Virada Pra Lua / Simone Guimarães

Nota 10

Marcelo Teixeira

segunda-feira, 4 de março de 2013

O abraçaço de Caetano Veloso



O abraçaço de Caetano
Desde Livro, lançado em 1997, que Caetano Veloso nos devia um grande disco, a altura de seu talento e respeito. Não que os discos Zii e Zie ou não tenham seu prestígio e respeito, mas estes discos tem uma existência de carência pouco característico na obra do cantor e compositor baiano. Abraçaço, recém lançado pela Universal Music, 29,99, é um retrato bem elaborado de um punhado de coisas e sons materializados puxados pela sonoridade de Zii e Zie e , mas com um acabamento da bem elaborada obra Livro. Por vezes, Abraçaço parece uma continuação do bem feito disco Recanto, que Gal Costa lançou em 2011 e cujo as composições foram feitas a ela especialmente por Caetano. O som, o brilho, ruídos e pequenas notas são o estribilho entre a sordidez e a ganancia de um velho compositor baiano a beira da velhice, destoando todo o seu semblante sobre a juventude e se firmando como um dos mais brilhantes expoentes de seu tempo nos dias atuais.

Ao se associar à Banda Cê, há 6 anos, Caetano buscava dialogar com um público mais jovem e antenado, tal qual o público jovem e antenado que comprou o Tropicalismo e abraçou sua carreira, assim como abraçou Gil, Tom Zé, Gal, Mutantes e tantos outros. E ele conseguiu este feito, pois conseguiu chegar a horizontes jovens antes nunca alcançados por pessoas que não gostavam de MPB. Em Abraçaço, Caetano exorciza lembranças, mágoas e tristezas, mas também festeja a vida, como em Parabéns (Caetano Veloso e Mauro Lima), um e-mail de feliz aniversário que o diretor de Meu Nome Não é Johnny enviou para o baiano, transformando-o num animado transaxé, cantando em loop os votos Tudo mega-bom, giga-bom, tera-bom, que por vezes parece que estamos diante da nova onda de Odara.

O rock (ou transrock) embala as duas primeiras músicas de um repertório de 11 faixas: a espetacular A Bossa Nova é foda e a faixa-título, Abraçaço. Na primeira, sob uma base robusta e um riff insistente, Caetano brinca com seus enigmas e deve se divertir pacas com as múltiplas interpretações que dão para suas letras. A faixa é a que relaciona João Gilberto (chamado, na canção, de o bruxo de Juazeiro, ao lado do ouro francês, certamente o executivo André Midani, responsável por lançar a Bossa Nova em disco) com ídolos do vale-tudo nacional, como Rodrigo Minotauro,Vítor Belfort e Anderson Silva. De certo, a bossa nova é foda!

 

Ei! Hoje eu mando um abraçaço

Ei! Hoje eu mando um abraçaço

Ei! Hoje eu mando um abraçaço

Ei! Hoje eu mando um Abraçaço

 

(Trecho de Abraçaço, de Caetano Veloso)

 

A canção Abraçaço é bem mais rock, apesar da levada reggaeira. A mágoa que Caetano derrama em versos como Tudo que não deu certo / sei que não tem conserto / meu silêncio chorou, chorou encontra eco no solo distorcido de Pedro Sá, coprodutor do disco ao lado do filho de Caetano, Moreno. A faixa é a antessala da depressiva Estou triste, que de tão depressiva, se torna uma das mais belas do disco. Estou triste, tão triste / E o lugar mais frio do Rio / É o meu quarto, canta Caetano sobre um violão manicórdio, que também não dispensa um solo lamurioso de Pedro. Embora tenha como tema a morte, O império da lei quebra a melancolia com referências diretas ao Pará, de onde os arranjos extraem a guitarrada e o carimbó que embalam a faixa.

Com quase nove minutos de música (que passam num piscar de olhos), a melancolia também dá o tom à épica Um comunista, a tão falada canção dos longos minutos que Caetano fez em homenagem a Carlos Marighella (1911-1969). Em um ano em que o guerrilheiro foi lembrado no cinema (Marighella, de Isa Grinspum Ferraz), em livro (Marighella: O Guerrilheiro que Incendiou o Brasil, de Mário Magalhães) e teve sua anistia post mortem oficializada pelo governo brasileiro, Caetano registra sua visão sobre a biografia do conterrâneo. Um risco e tanto para o cantor, que risca o nome de Getúlio Vargas e o picha severamente como um assassino.

No geral, Abraçaço é um ótimo disco. Talvez o melhor dos três, incluindo Livro, Zii e Zie e Cê. Há momentos inspirados que vão do Caetano clássico (Quero ser justo, Quando o galo cantou) ao transcaetano, como no transrapfunkrockmacumba Funk melódico, tudo com vistas a mergulhar num universo pop-rock-indie. Caetano manda o seu Abraçaço!

 

Abraçaço / Caetano Veloso

Nota 10

Marcelo Teixeira

 

sexta-feira, 1 de março de 2013

Uma Música para Silas Malafaia


O Deus Silas
Amigo do capeta, servente dos ladrões que assolam este país, protestante da ignorância, senhor das mazelas, pastor falastrão e canalha. Fanfarrão, canhestro, fútil, mesquinho, arrogante, ladrão, mercenário, pecador. Poderia ficar aqui horas, dias, meses e anos escrevendo e atacando um senhor de 56 anos chamado Silas Malafaia, porque ele merece todos os insultos capazes de lhe servir a moral. Senhor das palavras mentirosas, homem incapacitado de fazer o bem, servidor das mentiras que prega em sua igreja, Silas Malafaia precisa urgentemente de uma camisa de forças para que seu reinado possa ser coroado com dignidade. Penso mais: ele precisa ser enforcado em praça pública e sofrer o que sofrem os gays nas mãos de vândalos e criminosos. Silas Malafaia (faço questão de frisar seu nome e sobrenome), precisa aprender mais sobre a palavra amor, pregada com tanta veemência e atemporalismo em seus cultos pueris e grotescos. Pastor condenado à injuria e a falsidade, Silas Mafafaia é o oposto de pastores espalhados pelo mundo. Difere de sua religião a invariável forma de falar a verdade para uma multidão. E chegou ao poder da igreja evangélica levada por homens turvos de paletó e gravata e fumando charutos que cheiram muito mal.

Silas Malafaia, o cordeiro do senhor capeta. Esse cidadão precisa entender que homossexualismo não se aprende na escola, não se encontra na esquina, nem vende em supermercados como opção de escolha numa prateleira em que se refere casado, solteiro, amante, gay. Não existe, ainda, a possibilidade de acordarmos e dizermos: “hoje eu acordei gay, amanhã quero ser hétero!”. Gay nasce gay. Não somos iguais aos pastores que de uma hora para outra dizem: “eu vou ser pastor e enganar as pessoas de fé!”. Coisa que o senhor faz com tamanha vocação, porque eu sou gay e não preciso esconder minhas preferencias sexuais e sim, ser visto ou observado como gay. Sou humano, sou puro, sou gente como você, senhor Silas Malafaia, o servente do capeta, o seu irmão de fé.

Tenho pena de homens com cabeça grande, mas que pensam pequeno. Dentro de suas cabeças há apenas um vasto vazio, um espaço oco, profundo, cujo não há como pensar, refletir e determinar certas coisas. De que adianta ser pastor, mas não saber a verdadeira palavra de Deus? Ou, como perguntou Marília Gabriela em seu programa ao mesmo pastor, qual seria o Deus de Silas Mafalaia? Seu coração não tem Deus. Para ter pensamentos aos que ele tem, não precisa de Deus, porque ele se acha o próprio deus. Deus da discórdia, da miséria, da antipatia, da segregação irracional do temperamento atemporal de homens de ternos que pensam erroneamente sobre o que é natural e demoníaco.

Silas Malafaia precisa conhecer de perto as causas a qual tanto vocifera e lembrar que seus filhos terão netos, que terão bisnetos e eu rezo todos os dias para que ele possa ter um ataque fulminante do coração ao saber que seu netinho resolvera acordar de um surto e dizer: “vovô Silas, eu namoro um garoto!”.

Silas Malafaia precisa aprender o significado real da vida. E para isto, precisa ser homem o suficiente para encarar a vida. Ser pastor deve ter lá seus benefícios, afinal, uma legião de homens andam seguindo mentindo sobre a palavra de Deus. Ser gay é uma virtude, afinal, tem que ser muito homem para assumir perante a sociedade a sua real condição na terra.

Para tanto, cantarolo a música Segura Nas Mãos de Deus, Silas Malafaia. E espero, profundamente, que o senhor tenha um ataque fulminante do coração ou seja enforcado em praça pública, alvejado de pedras bem na sua cabeça grande e vazia!.

 

Uma Música para Silas Malafaia

Marcelo Teixeira.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

A essência da música


Haverá outra Elis ou outra Clara?
Conversando com o filósofo e amigo Antônio Nascimento da Silva, numa dessas boas conversas em que se pode ter com alguém tão antenado com a cultura e com a dissipação da música, dos livros, do teatro e da arte em geral, nasceu um conflito entre nós: de onde parte a falta de essência na música? Havia um certo tempo em que cantoras de MPB eram cultas, refinadas e não caiam em demasia na boca da fadigada galera que estava mais ansiada em ouvir uma música menos rechaçada, menos combinada e mais pluralista. Cantoras com estilo e sabedoria, cujo sua musicalidade jamais era tida como povão. Eis que essa tal essência perde-se no exato momento em que a cantora culta e refinada deixa-se ganhar pela gíria do povão, com um apelo mais popular, com palavras de cunho popular, transformando-se, assim, em uma cantora popular.

Marisa Monte talvez seja uma dessas grandes cantoras que, ao lançar discos importantes para uma cultura pouco privilegiada no Brasil, entrou na onda de tentar garimpar ouvidos menos solenes ao lançar discos e músicas com um forte apelo comercial. Hoje, indiscutivelmente, sua música é pop. Seus discos são apelativos numa forma contextualizada e geral. O que antes vinha com um rótulo de tradicionalmente essencial, transformou-se em um produto meramente comercial.

Há uma série de cantoras e cantores que apelaram para o comércio barato da musicalidade. Há autonomias de formas banais que de uma perspectiva utilitária e utópica e racionalista, não têm finalidade alguma, mas que não deixam de ter sentido mesmo que este se esgote no próprio ato. Para tanto, há um novo movimento intercultural que assola a mediocridade oca de cabeças menos pensantes e que tentam menosprezar a cultura de uma forma generalizada.

Será que teremos uma nova Elis ou uma nova Clara? Será que poderemos ver, neste século, os velhos teatros como palcos para artistas consagrados? Será que teremos o prazer de ver cantores representando seu papel maior em uma sala repleta de cabeças pensantes e que sonham com a musicalidade boa e capacitada para o amanhã? Onde está o amanhã? Como será o amanhã?

 

Há autonomias de formas banais que de uma perspectiva utilitária e utópica e racionalista, não têm finalidade alguma, mas que não deixam de ter sentido mesmo que este se esgote no próprio ato.

Antônio Nascimento da Silva

 

Conheci homens de roupas parecendo ternos de azul e branco (sem gravata) e com cabelos alinhados metidos a intelectuais convencidos a convencer o inconvencível. Mal sabem esses senhores de azul e branco que a capacidade deles de pensar é fraca, medíocre e insensata, pois eles tentam impor seus trejeitos e suas maneiras de absorver o nosso conteúdo cultural ao invés de nos mostrar o caminho certo. Esses homens de azul e branco eram homens de saraus, desses que tentam impor na nossa cabeça que as pessoas são inferiores à eles, que somos submissos à eles e que não temos a capacidade de trilhar um pensamento brilhante sobre qualquer forma de conduta.

Será que teremos outro Gonzaguinha, outro Antônio Marcos, outro Chico Buarque? Outra Maria Bethânia? Hoje em dia temos um punhado gigantesco de cantores e cantoras que mal conhecemos. Os tempos mudaram e esses cantores também mudaram. A essência desses profissionais mudou, porque mudaram os tempos e a direção dos ventos. Talvez eles nem saibam o verdadeiro significado da palavra essência. A bem da verdade, estamos diante da catástrofe generalizada e contida de homens que vestem camisa branca e calça social azul e que esquecem suas gravatas. Homens que pensam assim, pequeno, quase nada, também esquecem de usar suas gravatas. E esquecem que a música tem essência.

Belas frases proferidas por meu amigo Antônio Nascimento da Silva, de que a música resvala no sentimento mais puro do homem e que escutar a verdadeira música é a coisa mais agradável do mundo.

 

A Essência da Música

Marcelo Teixeira

Entrelinhas: Antônio Nascimento da Silva

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

A Maior Cantora do Brasil: Carmen Miranda


Carmen, a maior
Todas as imitaram. Todas queriam ser Carmen. E existiu um movimento musical antes e depois do surgimento da cantora Carmen Miranda. Carmen marcou tanto com seu jeito de cantar, revirando os olhos, mexendo as mãos e gingando seus balangandãs, com seu sorriso contagiante e a graça de seus trajes cheios de frutas e miçangas e etc etc etc, que até hoje, mais de 50 anos após sua morte, é o símbolo brasileiro mais conhecido no mundo. Mais do que uma voz, foi um fenômeno do show business norte-americano. Aportando nos Estados Unidos no início da Segunda Guerra Mundial, representou vivamente a terra desconhecida e exótica, cheia de coqueiros, bananas, abacaxis, atendendo às necessidades fantasiosas e consumistas do povo norte-americano e alcançando a glória e a fortuna. Ninguém foi maior que Carmen. Ninguém conseguia ficar sem Carmen. Os fãs a adoravam. O mundo a adorava. Carmen Miranda é até hoje símbolo de uma marca. E todas as cantoras que estiveram presentes na lista têm, tiveram ou terão um pouco de Carmen, seja na música, seja numa regravação, seja numa citação, seja numa dança.

Carmen Miranda. A Pequena Notável. The Brazilian Bombshell. Nome mágico. Mito. Hoje, apenas uma lembrança. Mas lembrança em tudo que nos cerca. Sua influência é sentida não só na música popular brasileira, como em outros ritmos do resto do mundo. A moda lançada por ela dos turbantes, dos sapatos de plataforma, das coloridas joias de fantasia (os célebres balangandãs), coberta de plumas e paetê, mas de barriga de fora — tudo isso é hoje copiado pela juventude feminina e pelos gays e travestis, que sequer a conheceram, pois a maioria nem era nascida quando Carmen morreu, em 5 de agosto de 1955 (nem mesmo eu, mas ao menos corri atrás das qualidades que existiram um dia!). Ainda recentemente, a festejada cantora de rock, Madonna, confessou que suas roupas exóticas foram inspiradas em Carmen Miranda.

Quem foi, afinal, essa artista tão diferente, tão revolucionária para a sua época e até para a atual? Na verdade, nem era brasileira de nascimento. Como Carlos Gardel que, embora francês, tornou-se o rei do tango argentino, a nossa maior sambista nasceu em Portugal, na aldeia de Marco de Canavezes, perto do Porto, no dia 9 de fevereiro de 1909. Vinda para o Brasil ainda bebê (um ano de idade), Maria do Carmo Miranda da Cunha (seu verdadeiro nome) foi aluna de um colégio de freiras em Santa Teresa, no Rio de Janeiro, mas não completou sequer o curso ginasial porque, por necessidade financeira da família (o pai, barbeiro; a mãe, servindo refeições em uma pensão), a menina precisou começar a trabalhar muito cedo, primeiro vendendo gravatas, depois, como balconista de uma loja de chapéus, onde aprendeu a bolar seus futuros adornos da cabeça. Já, então, fora rebatizada como Carmen por um tio que a achava tão exuberante como a heroína da ópera de Bizet e não se conformava com o pacato nome Maria do Carmo.

Descoberta pelo compositor e violonista baiano Josué de Barros, Carmen Miranda gravou três discos, sem grande repercussão, até atingir o sucesso total com a música de Joubert de Carvalho, Pra Você Gostar de Mim, que passou a ser conhecida como Taí. Lançado em janeiro de 1930, esse disco bateu todos os recordes da época, vendendo 35.000 exemplares em um mês. Depois disso, nunca mais Carmen Miranda deixou de brilhar. Fazia sucesso não só no Brasil — com gravações e shows ao vivo — como na Argentina e Uruguai, tornando-se a estrelíssima do show business sul-americano nos moldes internacionais impostos pelos americanos do norte, em Hollywood e na Broadway. Era inevitável, portanto, que viesse a conquistar também aquele tipo de público tão exigente. Quando os artistas hollywoodianos Tyrone Power e Sonja Henie a viram se exibindo no Cassino da Urca, já com a primeira fantasia de baiana idealizada por ela própria, ficaram tão encantados que a recomendaram ao empresário Lee Schubert, que não hesitou em contratá-la para ser uma das principais intérpretes da revista musical Ruas de Paris, montada no Broadhurst Theatre, em plena Broadway , também com a dupla cômica Abbott & Costello e o cantor francês Jean Sablon.

A figura — já carismática — de Carmen Miranda tomou de assalto o público nova-iorquino, que nunca havia visto algo igual: uma exuberante criatura, exoticamente vestida, cantando com as mãos, com os olhos, com os pés e com os quadris, pois ninguém entendia suas palavras em português (ela ainda não falava inglês) e, já naquela época, foi considerada a rainha da comunicação internacional. As lojas da luxuosa Quinta Avenida substituíram as criações de Dior e Chanel pelas fantasias de baiana de Carmen, seus turbantes, sapatos e balangandãs, com bons royalties para a cantora brasileira, já, então, carinhosamente apelidada pela imprensa nova-iorquina de The Brazilian Bombshell. Ao contrário de diversas traduções, bombshell não quer dizer bomba em português — na gíria americana, bombshell significa uma explosão, mas no sentido de uma grande surpresa — então, a tradução certa seria A Grande Surpresa Brasileira ou A Explosão Brasileira.

No Brasil, anos antes, recebera outro apelido, A Pequena Notável, que lhe fora dado pelo locutor César Ladeira, da extinta Mayrink Veiga, e que pegou de tal maneira, que ela passou a ser assim apresentada nos seus shows. Atriz, cantora, dançarina, mulher. Carmen chega ao primeiríssimo lugar como a Maior Cantora Brasileira de Todos os tempos. Portuguesa de nascimento, brasileira naturalizada, americana, argentina, uruguaia, indiana, equatoriana, cubana... não importa. Carmen chega ao primeiro lugar com a grandeza de ser a maior e a única.

 

A Maior Cantora do Brasil: Carmen Miranda

Marcelo Teixeira

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

2º Maior Cantora do Brasil: Clara Nunes


A serena Clara Nunes
Nenhuma cantora foi ou será igual à Clara Nunes. Genuinamente brasileira, a Guerreira mineira filha de Oxum com Yansã foi uma das mais brilhantes e espetaculares cantoras que o Brasil produziu e que na qual tantas imitam seus trejeitos, suas danças, sua louvação aos santos e orixás. Existe até uma senhora cantora, com o codinome Beth Carvalho, que até hoje tenta ser a Clara, mas sem nenhum sucesso. Clara foi humana, sensata, cantora, mulher. Para tanto, chegou brilhantemente ao segundo lugar com a dignidade de rainha e com patamar único para não deixar dúvidas quanto ao seu talento e prestigio. Clara Francisca Gonçalves Pinheiro, mais conhecida como Clara Nunes, nasceu em Paraopeba no dia 12 de agosto de 1942 e faleceu no Rio de Janeiro no dia 2 de abril de 1983, foi uma cantora brasileira, até hoje sendo considerada uma das maiores intérpretes do país.

Pesquisadora da música popular brasileira, de seus ritmos e de seu folclore, Clara também viajou várias vezes para a África, representando o Brasil. Conhecedora das danças e das tradições afro-brasileiras, ela se converteu à umbanda. Clara Nunes seria uma das cantoras que mais gravariam canções dos compositores da Portela, sua escola do coração. Também foi a primeira cantora brasileira a vender mais de 100 mil cópias, derrubando um tabu segundo o qual mulheres não vendiam discos.

Em 1970, Clara Nunes se apresentou em Luanda, capital angolana, em convite de Ivon Curi. No ano seguinte, a cantora gravou seu quarto LP, no qual interpretou É Baiana (Fabrício da Silva, Baianinho, Ênio Santos Ribeiro e Miguel Pancrácio), música que obteve considerável sucesso no carnaval de 1971, e Ilu Ayê, samba-enredo da Portela (de autoria de Norival Reis e Silvestre Davi da Silva). Na capa do álbum, a cantora mineira fez um permanente nos cabelos pintados de vermelho e passou a partir daí a se vestir com roupas que remetiam às religiões afro-brasileiras.

Em 1972, Clara se firmou como cantora de samba com o lançamento do álbum Clara Clarice Clara. Com arranjos e orquestrações do maestro Lindolfo Gaya e com músicos como o violonista Jorge da Portela e Carlinhos do Cavaco, o disco teve como grandes destaques as canções Seca do Nordeste (um samba-enredo da escola de samba Tupi de Brás de Pina), Morena do Mar (de Dorival Caymmi), Vendedor de Caranguejo (de Gordurinha), Tributo aos Orixás (de Mauro Duarte, Noca e Rubem Tavares) e a faixa-título Clara Clarice Clara (de Caetano Veloso e Capinam). Ainda naquele ano, Clara Nunes se apresentou no Festival de Música de Juiz de Fora e gravou um compacto simples da música Tristeza, Pé no Chão (de Armando Fernandes), que vendeu mais de 100 mil cópias.

A Odeon lançou em 1973 o disco Clara Nunes. Naquele mesmo ano, a cantora estreou com Vinicius de Moraes e Toquinho o antológico show O poeta, a moça e o violão no Teatro Castro Alves, em Salvador. Também em 1973, Clara foi convidada pela Radiotelevisão Portuguesa para fazer uma temporada em Lisboa. Depois, percorreu alguns outros países da Europa, como a Suécia, onde gravou um especial ao lado da Orquestra Sinfônica de Estocolmo para a TV local.

Seu instrumento era a voz, numa época em que cantoras praticamente não utilizavam de outros instrumentos ou mesmo faziam letras de músicas (embora há um registro da música A Flor da Pele, em que Clara assinala como compositora, e isso a faz ser ainda mais alçada ao segundo lugar).

Merecidamente, Clara Nunes aponta como a segunda maior cantora do Brasil.

 

2º Lugar: Clara Nunes

As 30 Maiores Cantoras do Brasil de Todos os Tempos

Marcelo Teixeira

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

3º Maior Cantora do Brasil: Gal Costa


Tempos áureos de Gal
Quando Gal Costa conheceu Caetano Veloso e sua irmã Maria Bethânia em 1963, e com eles, Gilberto Gil e Tom Zé, ela não sabia o que esperaria destas amizades. Não sabia, talvez, da responsabilidade que teriam para com o Brasil e com o movimento que inventariam na década de 1960. E montaram o espetáculo musical Nós, por Exemplo, em 1964. No ano seguinte o grupo foi para São Paulo, onde, sempre ligados, cada um seguiu sua carreira solo.  Gal gravou o primeiro compacto em 1965, com Eu Vim da Bahia (Gilberto Gil) e Sim, Foi Você (Caetano Veloso). Participou do I Festival Internacional da Canção em 1966, ano em que seu empresário Guilherme Araújo a convenceu a adotar o nome artístico Gal, e não mais Maria da Graça. Gravou o LP Domingo com Caetano em 1967, participou do movimento tropicalista e explodiu nacionalmente como cantora em 1968, quando sua interpretação de Divino Maravilhoso (Caetano/ Gil) ganhou o terceiro lugar no IV Festival de Música Popular Brasileira da Record.

Além disso, Baby, composta por Caetano especialmente para Gal, tornou-se muito popular. Em 1969, com a ida de Caetano e Gil para o exílio na Inglaterra, ligou-se também a outros compositores como Jards Macalé, e lançou o LP Gal. Ainda muito associada à música e ao público de Caetano e Gil durante os anos 70, em 1979 o disco Gal Tropical inaugura uma nova fase em sua carreira, mais popular e comercial, para um público mais amadurecido. Passou pela década de 80 como absoluta no rol das estrelas de primeira grandeza da música popular brasileira, chegando a ser considerada por alguns como a maior cantora do Brasil. Com repertório eclético, gravou Jorge Ben Jor, Cole Porter e compositores então iniciantes, como Carlinhos Brown.

Outra virada em sua carreira foi em 1994, com o CD O Sorriso do Gato de Alice, menos pelo disco e mais pelo show de lançamento, que, dirigido por Gerald Thomas, mudou radicalmente o estilo das apresentações de Gal, e foi bastante criticado. No ano seguinte Gal desistiu de experimentalismo e lançou Mina D'Água do Meu Canto (dedicado ao repertório de Chico Buarque e Caetano Veloso) com um show convencional. Na década de 90 continuou se consagrando como uma das cantoras mais vendidas do Brasil. Em seus mais de 35 anos de carreira, Gal Costa foi intérprete de grandes sucessos como Vapor Barato (Jards Macalé/ Waly Salomão), Meu Nome É Gal (Roberto/ Erasmo Carlos), London London (Caetano), Deixa Sangrar (Caetano), Folhetim (Chico Buarque), Balancê (J. de Barro/ A. Ribeiro), Índia (J. Flores/ M. Guerrero/ J. Fortuna), Festa do Interior (Moraes Moreira/ Abel Silva) e Vaca Profana (Caetano).

Desde a década de 1960, quando surgiram os especiais do Festival de Música Popular Brasileira (TV Record) até o final da década de 1980, a televisão brasileira foi marcada pelo sucesso dos espetáculos transmitidos; apresentando os novos talentos registravam índices recordes de audiência. Gal Costa participou do especial Mulher 80 (Rede Globo), um desses momentos marcantes da televisão. O programa exibiu uma série de entrevistas e musicais cujo tema era a mulher e a discussão do papel feminino na sociedade de então abordando esta temática no contexto da música nacional e da inegável preponderância das vozes femininas, com Maria Bethânia, Gal Costa, Elis Regina, Fafá de Belém, Zezé Motta, Marina Lima, Simone, Rita Lee, Joanna e as participações especiais das atrizes Regina Duarte e Narjara Turetta, que protagonizaram o seriado Malu Mulher.

Em 1980 Gal gravou o disco Aquarela do Brasil, focado na obra do compositor Ary Barroso, e que trouxe hits como É luxo só (Ary Barroso - Luiz Peixoto), Aquarela do Brasil, Na Baixa do Sapateiro, Camisa amarela e No tabuleiro da baiana (todas de Ary Barroso). Em 1981 Gal estreou o show Fantasia, um grande fracasso de crítica, mas que gerou um dos mais bem sucedidos discos de sua carreira, tanto de público quanto de crítica, o premiado Fantasia, que trouxe vários sucessos, como Meu bem meu mal, Massa real (ambas de Caetano Veloso), Açaí, Faltando um pedaço (ambas de Djavan), O amor (Caetano Veloso - Ney Costa Santos - Vladmir Maiakovski), Canta Brasil (David Nasser - Alcir Pires Vermelho) e Festa do interior (Moraes Moreira - Abel Silva). Com o grande sucesso do disco, Gal convidou Waly Salomão para dirigir o show Festa do Interior que a redimiu do grande fracasso do show Fantasia.

Em 1982 Gal gravou outro disco de sucesso, Minha Voz, em que se destacaram as gravações de Azul (Djavan), Dom de iludir, Luz do sol (ambas de Caetano Veloso), Bloco do prazer (Moraes Moreira - Fausto Nilo), Verbos do amor (João Donato e Abel Silva) e Pegando fogo (Francisco Mattoso - José Maria de Abreu). Em 1983 Gal grava outro disco bem sucedido comercialmente, Baby Gal, que também se tornou um show, e que trouxe os sucessos Eternamente (Tunai - Sérgio Natureza - Liliane), Mil perdões (Chico Buarque), Rumba louca (Moacyr Albuquerque - Tavinho Paes), além da regravação de Baby.

Em dezembro de 2011 lança o álbum Recanto, produzido por Caetano Veloso e Moreno Veloso. Álbum eletrônico idealizado por Caetano Veloso, Moreno Veloso e Kassin. Elogiadíssimo pela crítica foi eleito o melhor álbum de 2011. Depois de sete anos longe de disco e show inéditos, Gal Costa estreou a turnê do elogiado álbum Recanto no Rio de Janeiro no final do mês de março. Com direção de Caetano Veloso, autor de todas as músicas do CD, o show inaugurou a sofisticada casa Miranda. No repertório, além de canções inéditas como Neguinho, Segunda, Tudo dói e o funk Miami Maculelê, sucessos da carreira da cantora, entre eles, Dia de domingo e Vapor barato, e canções que há muito ela na cantava, como Da maior importância e Mãe. No palco, Gal está acompanhada pelo trio Domenico Lancellotti (bateria e MPC), Pedro Baby (guitarra e violão) e Bruno Di Lullo (baixo e violão). O show segue em turnê pelo país e segundo a cantora deve em breve passar por Portugal, Itália, França e Israel.

Gal é uma das maiores cantoras do Brasil e entra para o terceiro lugar na seleta lista das maiores cantoras do Brasil.

 

3º Lugar: Gal Costa

As 30 Maiores Cantoras do Brasil de Todos os Tempos

Marcelo Teixeira

3º Maior Cantora do Brasil: Maria Bethânia


Simplesmente Bethânia
Segunda cantora feminina em vendagem de discos do Brasil e a de maior vendagem da MPB com mais de 26 milhões de cópias, segundo dados em seu site, Maria Bethânia é um fenômeno de público e de crítica. O apelido de Abelha-rainha tornou-se popular e deve-se ao primeiro verso da canção-título do LP Mel (1979). Participou na juventude de espetáculos semiamadores em parceria com Tom Zé, Gal Costa, Caetano Veloso e Gilberto Gil; em 1960 mudou-se para Salvador com a intenção de terminar os estudos; frequentou o meio artístico, ao lado do irmão Caetano. Em 1963, estreou como cantora na peça Boca de Ouro, de Nelson Rodrigues. No ano seguinte, apresentou espetáculos como Nós por Exemplo, Mora na Filosofia e Nova Bossa Velha, Velha Bossa Nova, ao lado do irmão Caetano Veloso e o colega Gilberto Gil, então iniciantes, a quem lançou como compositores e cantores nacionais e a cantora Gal Costa, dentre outros.

A data oficial da estreia profissional é 13 de fevereiro de 1965, quando substituiu a cantora e violonista Nara Leão no espetáculo Opinião pois a mesma precisou se afastar por problemas de saúde. Nesse mesmo ano, foi contratada pela gravadora RCA, que posteriormente transformou-se em BMG (atualmente Sony BMG), onde gravou o primeiro disco, lançado em junho daquele mesmo ano. O primeiro sucesso foi a canção de protesto Carcará, que fez muito sucesso na sua voz na época, no repertório deste, que também incluía, dentre outras, as músicas Mora na filosofia, Andaluzia, Feitio de oração e Sol negro, esta última em dueto com Gal Costa (que à época ainda usava o nome artístico de Maria da Graça). Depois lançou um compacto triplo, Maria Bethânia canta Noel Rosa, que trouxe as músicas Três apitos, Pra que mentir, Pierrot apaixonado, Meu barracão, Último desejo e Silêncio de um minuto, acompanhada apenas por um violão, de Carlos Castilho. Ainda em 1966, depois de voltar à Bahia por um breve período, participou dos espetáculos Arena canta Bahia e Tempo de guerra, ambos dirigidos por Augusto Boal, também competindo em festivais. Em São Paulo e no Rio de Janeiro, apresentou-se em teatros e casas noturnas de espetáculos, tornando-se assim nacionalmente conhecida.

Bethânia foi a idealizadora do grupo Doces Bárbaros, onde era um dos vocais da banda, que lançou um disco ao vivo homônimo juntamente com os colegas Gal Costa, Caetano Veloso e Gilberto Gil. O disco é considerado uma obra-prima; apesar disto, curiosamente na época do lançamento (1976) foi duramente criticado. Doces Bárbaros era uma típica banda hippie dos anos 1970, e ao longo dos anos, este lema foi tema de filme com direção de Jom Tob Azulay, DVD, enredo da escola de samba Estação Primeira de Mangueira em 1994 com a canção Atrás da verde-e-rosa só não vai quem já morreu, já comandaram trio elétrico no carnaval de Salvador, espetáculos na praia de Copacabana e uma apresentação para a Rainha da Inglaterra.

Inicialmente o disco seria registrado em estúdio, mas por sugestão de Gal e Bethânia, foi o espetáculo que ficou registrado em disco, sendo quatro daquelas canções gravadas pouco tempo antes no compacto duplo em estúdio, com as canções Esotérico, Chuckberry fields forever, São João Xangô Menino e O seu amor, todas gravações raras.

O sucesso de vendagem foi preciso em 1993, depois de completar mais de 25 anos de carreira, quando do lançamento do CD As canções que você fez pra mim, que gerou mais de um milhão de cópias e foi convertido para uma versão hispânica (no caso, Las canciones que hiciste para mi) com parte do repertório (sete das onze músicas foram convertidas - a faixa-título, Fiera herida (Fera ferida, um dos hits do disco, tema de abertura da novela homônima global), Palabras (Palavras), Tú no sabes (Você não sabe), Necesito de tu amor (Eu preciso de você), Tú (Você, esta incluída na trilha sonora da novela global Pátria Minha de Gilberto Braga cujo título remete ao famoso poema homônimo de Vinícius de Morais - justamente a sucessora de Fera Ferida) e Emociones (Emoções, um dos grandes sucessos de Roberto) - das que ficaram de fora Olha, Costumes, Detalhes e Seu corpo), que consistiu em um tributo à dupla de cantores e compositores Roberto e Erasmo Carlos, evocando onze parcerias entre ambos.

Em 2006 foi a grande vencedora do Prêmio Tim de música onde arrebatou três títulos: melhor cantora, melhor disco (Que falta você me faz, um tributo a Vinícius de Morais) e melhor DVD (Tempo tempo tempo tempo, comemorativo dos quarenta anos de carreira). Bethânia, que sempre teve fama de antissocial, surpreendeu e compareceu à cerimônia de premiação. No mesmo ano, os CDs antigos - LPs originais que haviam sido relançados anteriormente em CD - voltaram às prateleiras, com encarte completo (na edição anterior ele havia sido suprimido/reduzido), letras de todas as músicas e textos - mesmo que a versão original não as tivesse - e texto interno com a história do álbum redigido pelo jornalista e crítico musical Rodrigo Faour, pois há muito tempo estavam fora de catálogo.

Ainda em 2006, lançou dois álbuns simultaneamente: Pirata, onde canta os rios do interior do Brasil e foi considerado pela crítica uma espécie de retomada de Brasileirinho, lançado três anos antes, e Mar de Sophia, onde canta o mar a partir de versos da poetisa portuguesa Sophia de Mello Breyner. A turnê de promoção dos dois discos foi batizada de Dentro do mar tem rio, com direção de Bia Lessa e roteiro do fiel colaborador Fauzi Arap, originando o álbum duplo homônimo, lançado em 2007.

Com tantos atributos e tanta musicalidade boa e de qualidade, Maria Bethânia é detentora também de uma teatralidade única que consegue juntar música, rima e poesia de poetas e poetisas e escritores e dramaturgos famosos com seus versos pouco publicados. Todos os discos que lança são bem vendidos e isso a torna única e batalhadora e é por este motivo que a cantora chega ao terceiro lugar da lista das maiores cantoras do Brasil.

 

3º Lugar: Maria Bethânia

As 30 Maiores Cantoras do Brasil de Todos os Tempos

Marcelo Teixeira