quarta-feira, 28 de março de 2012

Zizi Possi: releituras e um ótimo disco, Puro Prazer, de 1999

Puro Prazer, de 1999: ótimo e intimista
Zizi Possi é uma das melhores cantoras da MPB. Sua voz é tão cristalina e inconfundível que logo nota-se sua qualidade musical. Suas músicas são de uma primazia única e seu talento está provado em canções que embalaram os anos 1980 e 1990. Detentora de inúmeros prêmios, Zizi emociona até hoje com a gravação que fez ao lado de Chico Buarque com a música Pedaço de Mim, de 1978. Considerada sucessora de Elis Regina, Zizi tem méritos próprios e encerrou a década de 1990 com um excelente disco, embora as músicas sejam muito marcadas. Zizi nunca se preocupou com rótulos e o disco que fecha mais um ciclo de sua brilhante carreira ganhou um destaque único: voz e piano.

Puro Prazer (1999 / Universal Music / 25,99) concretizou um antigo projeto de Zizi em gravar um disco apenas com voz e piano. Tendo como destaque a gravação de Disparada e concorrendo pelo prêmio Grammy Latino com a cantora argentina Mercedes Sosa, uma das cantoras que maior influência exerceu na carreira, no entanto, a colombiana Shakira venceu nas três categorias. O repertório apresentou regravações dos antigos sucessos entre outras canções consagradas e outras inéditas na voz, comemorando os dez anos de parceria entre a cantora e o pianista e maestro Jetther Garotti Júnior. Encerrava a década de 90 conquistando o Troféu Imprensa de melhor cantora (1999).

Puro Prazer tem um mérito especial: foi o disco que deu à Zizi a possibilidade de vender 100 mil cópias entrando para a galeria Disco de Ouro, numa época em que vender discos estava sendo tarefa difícil. Talvez embalada pelo mega sucesso do disco Per Amore (1997) e que vendeu 500 mil cópias entrando para a galeria Disco de Platina Duplo, o fato é que Zizi Possi arrebenta em Puro Prazer pelo simples fato de fazer música de respeito, qualidade, ética e sensibilidade.

Regravando grandes sucessos de sua carreira numa forma ainda mais autoral e intimista, Zizi consegue emocionar novamente quando canta Luiza, música que Tom Jobim fez em homenagem à sua filha, Luiza Possi, quando está nasceu. Gonzaguinha aparece com a belíssima Viver, Amar, Valeu e se torna a melhor faixa do disco pela poesia que a música transpassa. Rebento, grande sucesso na voz de Elis Regina e composta por Gilberto Gil, deixa um rastro de alegria e magia cantada por Zizi, ficando díspar da versão original. Chico Buarque, grande amigo da cantora, é o detentor de quatro canções do disco. Além de Pedaço de Mim, estão presentes Tanta Saudade (parceria com Djavan), Sobre Todas as Coisas (parceria com Edu Lobo) e Eu Te Amo (parceria com Tom Jobim).

Regravando um grande sucesso dos Paralamas do Sucesso, Meu Erro se tornou um hit incansável nas rádios de todo o país, mostrando que a popularidade de Zizi era arrebatadora. Pudera, a canção ficou de uma lindeza perfeita e harmoniosa e a junção voz e piano caiu como uma luva. As canções em italiano que Zizi cantou nos dois discos dedicado à Itália também estão aqui revestidos com nova roupagem e ainda mais incisivas.

Hoje, no dia de seu aniversario, o Mais Cultura! homenageia Zizi Possi, a cantora que mais prestigio teve na MPB. Completando 56 anos em plena atividade, Zizi hoje colhe aquilo que plantou e seus fãs a cultuam sempre. Sua musicalidade é única.



Faixas

·       1 Disparada (Théo de Barros, Geraldo Vandré)

·       2 Volver a los diecisiete (Violeta Parra)

·       3 Luiza (Tom Jobim)

·       4 Pedaço de mim (Chico Buarque)

·       5 Sobre todas as coisas (Chico Buarque, Edu Lobo)

·       6 Viver, amar, valeu (Gonzaguinha)

·       7 Rebento (Gilberto Gil)

·       8 Tanta saudade (Chico Buarque, Djavan)

·       9 Vurria (F. Rendine, Alberto Pugliesi)

·       10 Torna a surriento (Ernesto de Curtis)

·       11 Beatriz (Chico Buarque, Edu Lobo)

·       12 Eu te amo (Chico Buarque, Tom Jobim)

·       13 Meu erro (Herbert Vianna)

·       14 Che cosa (Gino Paoli)



Direção: Zizi Possi e Moogie Canázio

Piano:Jether Garotti Junior



Nota 10

Zizi Possi / Puro Prazer

Marcelo Teixeira

terça-feira, 27 de março de 2012

Valéria Sattamini: grata surpresa carioca

Samba Blim, de 2003: ótimas regravações
Valéria Sattamini é uma cantora carioca e que lançou apenas um único e belo disco. Sua voz é suave, doce e cristalina. Seu disco é recheado com o velho e bom samba rock ao estilo de Jorge Benjor e se iguala ao estilo de Paula Lima (embora Paula seja mais sofisticada neste segmento). Valéria utiliza o pop moderninho e o samba menos cadenciado para levar ao público um disco com regravações à altura de uma grande interprete e que consegue captar com extrema convicção o brilho de um tempo em que fazer música era sinal de respeito e responsabilidade.

Valéria Sattamini, dizem as boas línguas, é sobrinha do multi artista Nelson Motta e ainda é muito pouco conhecida no cenário musical. O primeiro CD da cantora Valeria Sattamini relembra balanços já conhecidos de Benjor como O homem da gravata florida e Agora ninguém chora mais, Novos Baianos com a música Swing de Campo Grande, Moacir Santos na sua mais alta formosura com Nanã e até resgatando o esquecido Orlan Divo comTamanco no samba, de onde foi tirado o título do CD.

Samba Blim (2003 / Fibra Records / 21,99) é um belíssimo trabalho da cantora carioca que mostra um repertório com um toque contemporâneo, resultando num álbum com o melhor do sambalanço, ritmo muito divulgado por Jorge Benjor. No disco também há um quê de Wilson Simonal, misturados ao samba-pop e a algumas composições próprias cheias de suingue. As releituras de Benjor – O Homem da Gravata Florida e Agora Ninguém Chora Mais – são os pontos altos de um disco bom do início ao fim (algo tão raro hoje...). Esta última, então, é daquelas de não sair da cabeça, de cantarolar o dia inteiro “Chorava todo mundo, mas agora ninguém chora mais, chora mais, chora mais...” Não porque seja uma música-chiclete, daquelas que infestam as rádios. Muito pelo contrário. Valeria desenterra a canção dos anos 60 e dá a ela um vigor e uma modernidade incríveis, fazendo ainda o favor de retirá-la do obscurantismo a que foi confinada por seu criador, que não consegue, ou não quer, fugir da obviedade de seu repertório atual.

Outro achado de Samba Blim é Swing de Campo Grande, dos Novos Baianos. A música foi gravada originalmente por Moraes, Pepeu e cia. no histórico LP Acabou Chorare, de 1972, sem dúvida um dos melhores discos da música brasileira. Valeria também apresenta uma nova leitura para a clássica Nanã. Famosa com Wilson Simonal, a música já foi gravada por meia MPB, mas ainda assim a cantora fez questão de incluí-la em seu disco de estreia. O nome do disco, aliás, foi retirado de um dos versos da música Tamanco do Samba, que abre o CD e é a primeira faixa de trabalho. Aqui, mais um resgate de Valeria, que traz de volta à cena o grande Orlan Divo (compositor da música ao lado de Helton Menezes), esquecido mestre do sambalanço.

O repertório de 12 músicas é completado com seis composições de Valeria, sem parceiros. O destaque é Quero Ver Você, com um delicioso clima de gafieira. Mas vale destacar também Tua Cicatriz e Soul Black, esta última com o reforço de Cecília Spyer nos vocais. Eu Não Sei e Bem Cedo destoam do restante do disco, trazendo um clima jazzístico.



Faixas



·       1 – Tamanco no Samba (Orlan Divo e Helton Menezes)

·       2 – O Homem da Gravata Florida (Jorge Benjor)

·       3 – Quero Ver Você (Valeria Sattamini)

·       4 – O Que Me Falta (Valeria Sattamini)

·       5 – Agora Ninguém Chora Mais (Jorge Benjor)

·       6 – Eu Não Sei (Valeria Sattamini)

·       7 – Nanã (Moacir Santos e Mário Telles)

·       8 – Swing de Campo Grande (Paulinho Boca de Cantor, Moraes Moreira e Galvão)

·       9 – Tua Cicatriz (Valeria Sattamini)

·       10 – Soul Black – Participação especial: Cecília Spyer (Valeria Sattamini)

·       11 – Bem Cedo (Valeria Sattamini)

·       12 – Tamanco no Samba (Bossacucanova Remix) (Orlan Divo e Helton Menezes)



Produção: Valeria Sattamini, André Protasio e Flávio Mendes

Direção musical: André Protasio e Flávio Mendes



Nota 10

Samba Blim / Valéria Sattamini



Artigo de Marcelo Teixeira

segunda-feira, 26 de março de 2012

Rebeca Matta: surpresa baiana



Segundo disco da cantora: boa surpresa
Em seu novo disco, Rebeca Matta avança bastante em relação ao primeiro, Tantas Coisas (1998) que chamou a atenção da crítica em 1998 por sua inesperada e corajosa receita musical: uma bem conduzida adaptação do bel canto de inspiração nas vozes femininas da "vanguarda paulista" à música eletrônica e do rock. Um maior domínio do software musical por parte do produtor andré t e a adesão de uma banda vigorosa e coesa (o baixista Renato Nunes, o baterista Guimo Migoya e o ótimo guitarrista Pêu Souza) fizeram com que o som de Rebeca em Garotas Boas Vão Pro Céu, Garotas Más Vão Pra Qualquer Lugar (2000 / Lua Discos / 19,99), ganhasse peso, profundidade e um caráter mais dançante - em especial na faixa de encerramento, a techno-batucada A Novidade.

Na maior parte do disco, o que predomina é o rock (havia um pouco mais de brasilidade no primeiro), de faixas longas, com muita sujeira eletrônica (no bom sentido), instrumental pesado e guitarras rasgando o estéreo. É o que se ouve nas faixas É Que a Vida É, Garotas Boas Vão Pro Céu, Garotas Más Vão Pra Qualquer Lugar, que tem até palavras fortes, pesadas, mas que não foge disparate da crítica, Seja Lá o Que For (eletrônica e pesada), a funkeada Mal Necessário, grande sucesso de Secos & Molhados, O Olho Nu (mais depressiva e a mais bela do disco) e Um Beijo no Pescoço (que tem elementos bem reconhecíveis).

A presença da música brasileira fica mais evidente na versão de Xique-Xique (Parabelo) (de Tom Zé e Zé Miguel Wisnik, da trilha de um balé do Grupo Corpo), na excelente regravação do mestre João Bosco em parceria com Aldir Blanc na bela O Ronco da Cuíca e na boa Pra Que Sofrer (que tem gosto de samba-canção, com percussão-metralhadora e voz acelerada eletronicamente) e na releitura de Na Cadência do Samba (Ataulfo Alves / Paulo Gesta / Matilde Alves) - a voz de Rebeca se prende à melodia enquanto o acompanhamento enlouquece. Completam o bom pacote da cantora uma versão absolutamente inventiva e não-mangue de A Cidade (de Chico Science) e outra, delicada, com vibrafone, de música do francês Manu Chao (A Mentira). Tudo em Garotas Boas Vão Pro Céu E Garotas Más Vão Pra Qualquer Lugar é muito bem feito - o encarte, então, nem se fala.

Em 2006 Rebeca chegou a ser convidada para fazer os vocais femininos em substituição a Rita Lee na reunião do grupo Os Mutantes, ao lado dos irmãos Sérgio e Arnaldo Dias Baptista. Por estar às voltas com a gravação de seu terceiro disco, Rebeca declinou do convite, tendo assumido o lugar nos Mutantes a cantora Zélia Duncan. O terceiro disco de Rebeca, Rosa Sônica, saiu em 2006, também basicamente autoral, com arranjos mais voltados para a eletrônica. A única regravação desse disco é Vapor barato (Jards Macalé - Waly Salomão), sucesso de Gal Costa no início da década de 70.

Rebeca Matta se notabilizou por produzir MPB eletrônica numa cidade dominada pelas modas da Axé Music e Pagode, e mesmo não tendo estourado comercialmente, chamou a atenção para a cena rock baiana, o que possibilitou posteriormente o aproveitamento de outros artistas baianos que não fazem Axé ou Pagode, como a cantora Pitty, que se tornou um dos grandes sucessos do rock nacional poucos anos depois.





Faixas

·       1 É que a vida é ... (Rebeca Matta)

·       2 Xique-Xique (Parabelo) (Tom Zé, José Miguel Wisnik)

·       3 Garotas boas vão pro céu, garotas más vão pra qualquer lugar (Rebeca Matta)

·       4 Seja lá o que for (Rebeca Matta)

·       5 O olho nu (Rebeca Matta)

·       6 Mal necessário (Mauro Kwitko)

·       7 A mentira (Manu Chao, Rebeca Matta)

·       8 Um beijo no escuro (Rebeca Matta)

·       9 A cidade (Chico Science)

·       10 O ronco da cuíca (Aldir Blanc, João Bosco)

·       11 Pra que sofrer? (Rebeca Matta)

·       12 Na cadência do samba (Matilde Alves, Paulo Gesta, Ataulfo Alves)

·       13 A novidade



Nota 9

Rebecca Matta / Garotas Boas Vão Para o Céu, Garotas Más Vão Para Qualquer Lugar



Marcelo Teixeira

sexta-feira, 23 de março de 2012

O novo disco de Fabiana Cozza: merecedor de aplausos



Novo disco de Fabiana Cozza: merecedor
O samba é seu dom e ela sabe dar o recado perfeitamente quando o tema é música de verdade, de responsabilidade, de qualidade. Fabiana Cozza é o que há de melhor na nossa música popular brasileira e sua representatividade significa que o samba feito por mulheres consagradas por Clara Nunes, Dona Ivone Lara e Alcione não está perdido. O samba tem nome, sobrenome e será muito difícil esquecermos uma interprete chamada Fabiana Cozza. Seu timbre de voz encanta e provoca sensações enérgicas tão equidistantes e sensíveis que é, de fato, uma presença marcante nos palcos e por onde passa. Fabiana veio para ficar em um reduto sambístico com pompas de honra, sendo vangloriada por muitos acadêmicos do segmento e louvada por fãs acalorados por seu gingado.

Com dois outros discos merecedores de aplausos efusivos, O Samba é Meu Dom (2004) e Quando o Céu Clarear (2007), Fabiana Cozza nos apresenta agora seu terceiro disco com a maestria da originalidade e mais um trabalho espetacular. Fica ainda mais difícil dizer que Fabiana é uma cantora passageira. Pudera: seus discos são obras-primas e de uma significância tão maravilhosa que nos deixa a sensação de que faltava algo para salvar o samba. Ou tentar.

Fabiana Cozza (2011 / Agô Produções / 25,90) é um disco delicioso por onde a cantora passeia entre o samba, o pagode, o partido alto, as crenças, os santos e a qualificação de um estilo único. Músicas caprichadas, compositores de primeira grandeza, harmonia e melodia e encantamento caminham de mãos dadas, como se mostrassem a Fabiana que o caminho a seguir era justamente aquele. E Fabiana está cantando melhor neste disco, deixando nítido que sua personalidade está equilibrada. Um disco tão perfeito que fica impossível ficarmos parados. O samba aparece na ponta do pé e a voz de Fabiana embala. E mais um disco destila todos os efeitos de que Fabiana Cozza é uma das melhores interpretes que este Brasil já conheceu.

A participação, assim como aconteceu em seu primeiro disco, de seu pai, Oswaldo dos Santos, emociona pela sensibilidade que a música exige. Pai e filha em um duelo marcante, voz magistral com voz potente num giro de palavras e sentimentos que nos deixam embasbacados e a certeza de que ainda teremos outros encontros como este. Mas o disco é muito mais. Fabiana regravou grandes bambas do samba, todos com a mesma intensidade e qualidade e respeito.

Ouçam com muita atenção as belas músicas deste disco, com destaque para Santa Bamba, a melhor faixa do disco. Mas ouçam, ouçam e cansam de ouvir Fabiana Cozza na sua melhor magnitude.

Fabiana Cozza é totalmente diferente do segundo álbum, Quando o Céu Clarear, mas muito próximo de O Samba é Meu Dom. Indiferente disso, as músicas que Fabiana canta neste seu terceiro disco são de uma competência única, espetacular e original.



Álbum Fabiana Cozza (2011)

·       Sandália Amarela (Wilson Moreira e Nei Lopes)

·       2. Lá fora (Elton Medeiros e Délcio Carvalho)

·       3. São Jorge (Kiko Dinucci)

·       4. Sabe Deus (Sombrinha, Marquinho PQD e Carlinhos Vergueiro)

·       5. Eternamente sempre (Sombrinha e Marquinho PQD)

·       6. Candeeiro de Deus (Roque Ferreira)

·       7. Festa do Zé (Sombrinha e Carlinhos Vergueiro)

·       8. Lupiciniana (Wilson das Neves e Nei Lopes)

·       9. Escudo (Wanderley Monteiro e Ivor Lancellotti)

·       10. Santa Bamba (Kiko Dinucci e Fabiano Ramos Torres)

·       11. Serenata de São Lázaro (Gilson Peranzzetta e Paulo César Pinheiro)

·       12. Solo Sagrado (Julio Marcos e Xuxu)

·       Narainã (Alvorada dos Pássaros) – (Ideval Anselmo, Jordão e Zecão)



Direção e Produção Musical: Paulão 7 cordas

 Produção Artística: Fabiana Cozza e Marcelino Freire



Nota 10

Fabiana Cozza / Fabiana Cozza


Marcelo Teixeira

quinta-feira, 22 de março de 2012

Líricas, o melhor disco de Zeca Baleiro

Líricas, lançado em 2000: ótimo
Quando a melancolia se torna presente, tudo se torna líricas. E foi justamente em um momento melancólico que o cantor Zeca Baleiro fez o melhor trabalho de toda a sua carreira, ao lançar no mercado fonográfico um disco totalmente triste, com músicas fúnebres e inquietantes e mensagens de lirismo profundo, absorto e tediante. Mesmo assim, Líricas não é um disco pra baixo, com teor duvidoso sobre o universo melancólico de Zeca Baleiro e sim um disco a altura de um grande cantor, de um excelente compositor e de um dos artistas mais cool dos últimos tempos.

Líricas (2000 / MZA / 24,99) é o trabalho mais contundente e sólido de um artista que estava trinando seu caminho. Com músicas realmente tristes ou sentimentais demais, o álbum tem em seu cardápio mensagens de amor, de ternura, de compaixão, do abstrato e do longínquo caminho que leva a separação de entes queridos (no caso de sua avó na canção mais triste de todo o disco) e amores impossíveis.

Regravando a pesada leva roqueira de Proibida Pra Mim num sentimentalismo puro e cabível de sortimentos, a música virou hit do momento pelas suas belas frases de amor e nesta música foi possível verificar a versatilidade de Zeca. Mas todas as canções são perfeitas para quem está levando uma triste vida, seja por questões amorosos ou não. Zeca representa em cada faixa um motivo de tristeza e as músicas são tão perfeitas para cada ocasião, que fica difícil dizermos qual a melhor faixa.

A voz de Zeca agrada e abafa holofotes de que ele seja sensacionalista ou paternalista com sua Maranhão. O que Zeca faz em Líricas é transformar a dor de uma melancolia em algo útil, aproveitado e rentável. Se os sentimentos de Zeca estavam aflorados neste álbum, com canções que beiram a loucura do abismo perdido e crua de pensamentos bons, esses sentimentos foram passageiros, porque seus outros discos são adversos a este.

Participação de Ná Ozzetti na bela faixa Banguela, os timbres de cantores tão díspares deixa nítido que a combinação tristeza versus alegria é dado como incerto para alguns momentos. Enquanto a voz de Zeca soa triste, o de Ná encanta pelo lirismo e sofisticação, deixando claro a permanência do uso vocal para extrair uma capacitação melhor a dualidade da música.

Seja como for, Zeca Baleiro nos impressiona tanto com este disco, que ele se torna, indiscutivelmente, em um representante nato do Nordeste e entra definitivamente para a seleta lista dos grandes cantores deste país.



Nota 10

Líricas / Zeca Baleiro


Marcelo Teixeira

quarta-feira, 21 de março de 2012

A Alma Lírica de Mônica Salmaso

Alma Lírica Brasileira, de 2011: lirismo puro
Ela é a preferida de Chico Buarque. Ela é a cantora mais bem afinada da música popular brasileira. Ela é detentora de prêmios importantes da MPB. Ela canta. Ela encanta. Ela emociona. Ela satisfaz. Ela reinventa a musicalidade perdida. Ela se chama Mônica Salmaso. E seu nome tem um peso enorme na nossa música pelo simples fato de ser uma cantora moderna com requintes de uma brasilidade única e universal, capaz de transbordar sentimentos por onde passa. Sua voz é lisonjeada até pelos menos entusiasmados por MPB. E seu timbre de voz é capaz de entorpecer homens desmotivados.

Alma Lírica Brasileira (2011 / Biscoito Fino / 27,99) é o novo disco de Mônica Salmaso que trás canções esquecidas e de um lirismo há pouco encontrado na nossa música de hoje. Pérolas esquecidas ou apagadas com o tempo, o disco tem destaque pela lírica e pela formosura que a textura de uma voz é capaz de embalar. Músicas com novas harmonias e melodias deixam a sensação de que Mônica, com seu faro apurado, acertou em cheio ao trazer para a modernidade canções como Melodia Sentimental (Villa Lobos / Dora Vasconcelos), que se transforma na melhor música do álbum devido a sua carga emotiva ou uma nova roupagem para o clássico Trem das Onze (Adoniram Barbosa).

Como sempre é costume, Mônica compila do cancioneiro buarquiano A História de Lily Braun, já cantada com enorme sucesso por Maria Gadú e Maria Rita e que neste disco, Mônica não faz por menos: a beleza de sua voz é tão poderosa e marcante, que mais parece uma canção nova. Em Noite (Nelson Ayres), os versos e as palavras cortantes representam a doçura do amor perdido ou entregue a outro alguém e que deixa a perfeita combinação entre voz, linguagem, harmonia e sentimentos. Lábios que Beijei é de uma inocência e um afeto tão profundos que deixa claro que só poderia ser cantada por Mônica em sua mais completa perfeição.

Carnavalzinho (Meu Carnaval), bela música de Lisa Ono e Mário Adnet, abre o disco com um capricho tremendo, deixando nítido o teor do álbum: como numa marchinha de carnaval, a música é curta, direta e a mensagem é clara, demonstrando que o carnaval de outros tempos era bem melhor. Samba Erudito (Paulo Vanzolini) é uma ironia fina de um dos melhores compositores da época de ouro da música de amores vingativos e nesta belíssima música não é pra menos: a canção de quase dois minutos é tão esplendida e charmosa, que fica impossível ouvi-la apenas uma vez. Regravando Cutelinho, também uma adaptação de Vanzolini e já cantada com enorme sucesso por Milton Nascimento, a canção destoa toda a versatilidade de Mônica como cantora excepcional que é.

José Miguel Wisnik, um dos maiores intelectuais que este país já conheceu, está presente mais uma vez nos discos e na vida de Mônica, com uma música sobre o poema do poeta Gregório de Matos, na bela canção Mortal Loucura. Tom Jobim e Vinicius de Moraes aparecem com Derradeira Primavera, deixando a bossa nova adentrar nesta alma lírica de Mônica. E tem também Meu Rádio e Meu Mulato, um grande sucesso do compositor Herivelto Martins que já fez sucesso na voz de Zélia Duncan em 2005. Mas regravar Violeta Parra nos dias de hoje é um risco que poucos cantores arriscam em fazer. Elis Regina e Zizi Possi foram as cantoras que gravaram ao menos uma canção de Violeta e Mônica recria Casamiento de Negros na sua alta formosura.

Alma Lírica Brasileira é um disco feito em família: Teco Cardoso é esposo de Mônica e excelente saxofonista. Nelson Ayres é um extraordinário compositor e um pianista de mão cheia. Ambos já tocaram ao lado de cantores tarimbados como Ná Ozzetti, Joyce Moreno e Ceumar. Portanto, Alma Lírica Brasileira deve e merece lugar de destaque na sua prateleira, estando no mirante mais alto, com todas as pompas de destacamentos que esta maravilhosa cantora merece.

Seu nome é Mônica Salmaso.



Nota 8

Alma Lírica Brasileira / Mônica Salmaso

Marcelo Teixeira

terça-feira, 20 de março de 2012

Samba Meu de Maria Rita: perfeito

Samba Meu, de 2007: o melhor de Maria Rita
O salto que Maria Rita deu em sua bem sucedida carreira ao fazer um disco inteiramente de samba está comprovado no belíssimo disco Samba Meu e que mostra uma Maria Rita totalmente adversa da menininha tímida que veio com um disco voltado para a MPB e que ficou a mercê de tristes notícias com o álbum Segundo. Sendo este o terceiro disco de sua carreira, Samba Meu representa a melhor fase da cantora e que destoa elementos caprichosos de uma particularidade deixada por cantoras como Clara Nunes e Alcione e que hoje é representado por excelentes compositores de uma excelência comprovada por Edu Krieger, Arlindo Cruz e Rodrigo Bittencourt.

Samba Meu (2007 / Warner Music / 24,99) é um álbum gostoso de ouvir e a voz de Maria Rita está saborosa e deliciosamente endiabrada. Músicas perfeitas, timbre nítido e uma sensualidade fora do comum, o disco destoa qualidades imprescindíveis em canções harmoniosas e letras caprichadas. A reinvenção do samba mostrada por Maria Rita é tão equilibrada que fica a sensação de que a cantora, dona de um estilo único de sabedoria encantadora e que nos emociona com músicas sentimentais, deixa claro que o samba é um reduto para quem entende do assunto com verdadeira maestria.

Com regravações de uma música esquecida do cancioneiro de Gonzaguinha (O Homem Falou) e praticamente herdando heranças e pérolas de Arlindo Cruz, o disco se torna um dos itens indispensáveis para amantes da boa música e do samba, sem fazer feio, mesmo com a constante presença nas rádios com a música Tá Perdoado, a tornando cansativa e chata por algumas vezes. Misturando ritmos do pagode e do samba de roda, Maria Rita nos presenteia com canções deliciosas com um pouquinho de saudade de um tempo que está logo ali, forçando um pouco a memória. Ouvir músicas do novo cardápio de compositores bons e já consagrados como Edu Krieger e Rodrigo Bittencourt é uma das maravilhas encontradas neste álbum.

Talvez seja o melhor álbum de Maria Rita, que já lançou Maria Rita (2003), Segundo (2005) e Elo (2011). O reduto do samba, para algumas cantoras, fica sendo um reduto limitado, mas nunca de vergonha alheia e com Maria Rita não poderia ser diferente. Ela canta samba muito bem e estava em sua melhor fase, mas como a própria cantora não gosta de rótulos, seu disco seguinte veio para formar um elo com o primeiro álbum. Ainda assim, não tirou a beleza e maestria do disco de samba, disco este com a capacidade de nos envolver tão enérgica e profundamente, que torna Maria Rita como uma das melhores cantoras do Brasil.



Nota 9

Samba Meu / Maria Rita

Marcelo Teixeira

segunda-feira, 19 de março de 2012

Respeitem os Cabelos de Chico César

Disco de 2002: o melhor de Chico César
Há uma diferença muito grande entre o Chico César de Mama África e o Chico César de Respeitem Meus Cabelos Brancos. O primeiro Chico surgiu como um meteoro na fusão intercambia entre o que era novo e o que poderia ser apenas uma aparição de um cantor maluco, porém culto. Com uma nova roupagem na música nordestina e se mostrando capaz de desenvolver um belo trabalho a frente do Nordeste, Chico César se firmou como o cantor e compositor mais bem representativo de sua época, não fazendo feio para aqueles que sempre o acharam meio estranho, com aqueles cabelos meio esquisito e com aquela roupa estilo africano.

Chico César é um cantor que merece respeito e não apenas por causa do cabelo, que se tornou uma marca registrada. Chico é culto e sabe compor muito bem e além de tudo é um grande defensor das causas perdidas. Hoje o Mais Cultura! faz uma justa homenagem ao disco que transforma a vida de Chico César para o que há de melhor na MPB e o deixa mais moderno, mais universal e mais autentico.

Respeitem Meus Cabelos Brancos (2002 / Abril Music / MZA Music / 29,99) é um disco sensacional e que nos mostra um Chico César à vontade com sua musicalidade, rica em detalhes nordestinos e ricos em atmosfera acadêmica unilateral. Visceral num todo, o disco prima pela riqueza de frases destinadas ao vocábulo de um povo sofisticado e culto e perene na forma de um evento mais humanitário. Chico acerta o tom de cores escuras para demonstrar a frieza com o qual suas frases intercalam com o protesto de suas canções, como na faixa título, aonde pede respeito com sua marca maior.

Quinto álbum da carreira, Chico convidou uma seleção de bambas para estar ao seu lado e o resultado é nitidamente perfeito. De Chico Buarque a Nina Miranda e Chris Frank, passando por Carlinhos Brown e tendo os parceiros Carlos Rennó, Vanessa Bumagny, Tata Fernandes, Milton de Biase e Bráulio Tavares, o disco não poderia ter resultado melhor e adequado.

Chico César está em sua melhor fase, com um disco tão perfeito e caprichado, que fica difícil voltarmos aos tempos de Mama África e lembrarmos suas danças espalhafatosas. Usando um belo terno com uma gravata que combina com a fina estampa do disco, Chico brinca entre o universo paralelo do cancioneiro nordestino e a sonoridade eletrônica em músicas que beiram o lirismo, a passagem do amor perdido, a música de protesto, o baião e o maracatu.

O respeito que Chico César pede neste disco é tão comum e particular que todos nós deveríamos fazer o mesmo: respeitar o próximo, seja ele quem for. Precisou um cantor como Chico se moldar e se reinventar para que a respeitabilidade fosse imperada num contexto geral. Ainda assim, sua musicalidade é única e demonstra a nós, ouvintes e amantes da boa música, um Chico César capaz de nos enfeitiçar, nos envolver, nos seduzir e o respeitar.



Nota 10

Respeitem Meus Cabelos Brancos / Chico César


Marcelo Teixeira

sexta-feira, 16 de março de 2012

Paula Lima - A Diva do Suingue


É Isso Aí, de 2001: perfeito e ótimo
Sempre que se ouve falar em Paula Lima a primeira coisa que nos vem à cabeça é a voz cheia de personalidade e belas nuances: marcante, aveludada, potente, feminina e charmosa que marcam presença junto com o balanço ímpar e envolvente que tem como tempero principal o samba, caminhando com naturalidade pela bossa, soul, jazz, MPB e rock. Tudo isso na figura apaixonante dessa mulher brasileira, bonita, exuberante, elegante e com um sorriso absolutamente cativante. Paula Lima tem a qualidade de estrela, pertence à música popular brasileira, ao palco, e o palco sem dúvida é o seu lugar.

Desde o primeiro trabalho solo, É Isso Aí, de 2001, a faixa homônima ganhou destaque nas rádios, caiu no gosto do público e se tornou sua marca registrada. A repercussão foi tão positiva que rendeu à cantora uma indicação ao Prêmio Multishow, na categoria Revelação. A partir daí os álbuns que vieram a seguir deixaram claro que o talento de Paula é sólido, vibrante, concreto, real e nos versos da composição de Jorge Benjor que falam “…no meu guarda-chuva não te levo mais…”, veio a consagração definitiva como Diva do Swing, Diva do Balanço!

Mas tudo isso é reflexo do aprendizado, seriedade e paixão pela música que a acompanham desde a infância. Aos 3 anos já acordava cantando, estudou piano erudito dos 7 aos 17 anos e durante esse período de infância/adolescência comandava a trilha sonora das festas da família. Não era difícil imaginar o caminho que ela seguiria, apesar de quase perdermos o talento singular de Paula para a promotoria, já que ela é formada em direito pela Universidade Mackenzie, mas foi quase…

Nome de peso surgido no início do novo milênio, a cantora Paula Lima surpeendeu com seu som funkeado, cheio de charme e suingue. Surgindo em 2001 com o ótimo É isso aí - que trazia a ótima Quero ver você no baile -, Miss Lima já é consagrada uma das melhores cantoras do país.

E hoje o Mais Cultura! reverencia o trabalho desta diva da MPB e do Black Music, Paula Lima. Seu primeiro disco é uma obra prima que merece toda a nossa atenção devida e que merece, acima de tudo, respeitabilidade mutua e carinho especial.



Nota 9

É Isso Aí / Paula Lima

Marcelo Teixeira