terça-feira, 8 de maio de 2012

Miúcha canta Vinicius & Vinicius de Moraes




O disco em tributo à Vinicius
Miúcha é a simpatia em pessoa e eu a conheci em 2004 numa rua dos Jardins; quem a conhece sabe disso. E quando a conheci, ela estava lançando um disco dedicado ao poeta Vinícius de Moraes, com o belo disco Miúcha Canta Vinícius & Vinícius (2003 / Biscoito Fino / 34,99). O repertório traz 14 faixas. Misturadas a sucessos como Valsa de Eurídice, Serenata do Adeus e Pela Luz dos Olhos Teus estão duas inéditas: Georgiana, que estava guardada com a própria Gerogiana, filha de Vinicius (ele compôs a música em inglês quando ela nasceu), e Quem for Mulher Que Me Siga, que estava com Cyva, do Quarteto em Cy, grupo lançado pelo Poetinha. Entre os ritmos, bossas, serenatas, valsas e sambas, entre outros.

Todas as faixas foram compostas por Vinicius de Moraes sem um companheiro ao lado, dando a dimensão da pesquisa realizada por Miúcha. Uma característica marcante do disco, além da beleza da interpretação de Miúcha e dos arranjos – divididos entre Leandro Braga, Eduardo Souto Neto, Cristóvão Bastos e Helvius Vilela – é o ecletismo dos convidados. Um músico refinado como Leandro Braga (que, além de fazer os arranjos, toca piano em diversas faixas) convive harmoniosamente com o pop de Milton Guedes (gaita em Georgiana). Com o mesmo espírito democrático, Miúcha acolhe o irmão, Chico Buarque, com quem divide os vocais em Medo de Amar, e Zeca Pagodinho, com quem canta Teleco-Teco. Os outros convidados foram a filha, Bebel Gilberto (Tomara), Yamandú Costa (Valsa de Eurídice), Daniel Jobim (Pela Luz dos Olhos Teus) e Toquinho (Canção de Nós Dois).

Emoção pura. Uma emoção que Miúcha transmite em todas as 14 faixas do CD, como se estivesse cantando para Vinícius, na frente dele. Belíssima homenagem ao seu grande amigo e padrinho musical.



Faixas



·       1 – Tomara

ü  Part. Especial de Bebel Gilberto

·       2 – Ai, Quem Me Dera

·       3 – Saudades do Brasil em Portugal

·       4 – Medo de Amar

ü  Part. Especial de Chico Buarque

·       5 – Serenata do Adeus

·       6 – Georgiana

·       7 – Teleco-Teco

ü  Part. Especial de Zeca Pagodinho

·       8 – Valsa de Eurídice

ü  Part. Especial de Yamandú Costa

·       9 – Tempo Será

·       10 – Pela Luz dos Olhos Teus

ü  Part. Especial de Daniel Jobim

·       11 – Encontro À Tarde

·       12 – Canção de Nós Dois

ü  Part. Especial de Toquinho

·       13 – Cem por Cento

·       14 – Quem for Mulher Que Me Siga



Produzido por José Milton

Nota 8

Miúcha Canta Vinicius & Vinicius / Miúcha



Marcelo Teixeira

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Fafá de Belém: Tanto Mar à Chico Buarque





O disco: ótimo
Quando estava prestes a completar 30 anos de carreira, Fafá continuou em busca de novos desafios e realizou um projeto inédito: um CD dedicado exclusivamente à obra de um único autor, Chico Buarque de Hollanda. Tanto Mar - Fafá de Belém Canta Chico Buarque (2005 / Sony Music / 28,99) começou a ser formatado em 2004, por ocasião do aniversário de 60 anos do artista. Fafá montou um show intitulado Com Açúcar, Com Afeto, que serviu de embrião para o novo CD.

Tanto Mar tem direção musical do pianista João Rebouças e faz um passeio por algumas das mais belas composições de Chico Buarque, que participa do álbum, declamando o texto de Ruy Guerra em Fado Tropical, música emblemática na carreira de Chico e que já foi censurada com trechos vetados. Vale lembrar que esta faixa é de uma emoção gigantesca, tendo em vista que temos dois monstros sagrados duelando vozes e sentimentos.

Fafá resgata pérolas como Desalento, Olha Maria e Angélica, música dedicada à estilista Zuzu Angel e que virou um hino à época e ousa ao lançar novo olhar sobre clássicos como Olhos Nos Olhos, Gota d'água e Bastidores. Fafá fez um disco dedicado a Chico Buarque e não podia faltar no repertório a canção Sob Medida, sucesso da cantora há 25 anos, e que celebra bodas de prata e retorna com o arranjo original. O CD abre com Dans Mons Ceur, uma versão em francês de Terezinha, da autoria de Bia Krieger, cantora brasileira radicada no Canadá.



Faixas



·       01. Olhos nos olhos

·       02. Fado tropical

·       03. Tanto mar

·       04. Desalento

·       05. Sob medida

·       06. Vida

·       07. Bastidores

·       08. Com açúcar, com afeto

·       09. Gota d'agua

·       10. Olha maria

·       11. Minha história

·       12. Terezinha (versão em francês)

·       13. As vitrines

·       14. Angélica / Mulheres de Atenas



Nota 10

Tanto Mar / Fafá de Belém



Marcelo Teixeira

sábado, 5 de maio de 2012

Quando o Céu Clarear - Fabiana Cozza


www.fabianacozza.com.br



DVD lançado em 2010
Quando o Céu Clarear (2009 / Lua Music / 45,99) é o nome do primeiro DVD ao vivo da sambista Fabiana Cozza e é um registro que foi arquitetado no Auditório Ibirapuera, em São Paulo, e conta com participações de Maria Rita e Rappin Hood. Fabiana divide os vocais com Maria Rita em Trajetória e Malandro Que Sou. Já o rapper Rappin Hoop canta em Malandro e Andar Com Fé. A direção musical e os arranjos das músicas são assinados pelo baixista Marcos Paiva. A direção cênica é da atriz Olívia Araújo. Além do show, o DVD traz um documentário chamado Raízes que conta um pouco a história de vida e carreira de Fabiana Cozza. Também traz depoimentos de D. Ivone Lara e dos integrantes do Zimbo Trio.



Faixas do DVD



·       1. Canto pra Oxalá / Yaô

·       2. Incensa (Roque Ferreira)

·       3. Quando o céu clarear (Roque Ferreira)

·       4. Não sai de mim (Leandro Medina)

·       5. Tendência (Dona Ivone Lara e Jorge Aragão)

·       6. Parte (Rubens Nogueira e Paulo César Pinheiro)

·       7. Canto de Ossanha (Baden Powell e Vinícius de Moraes)

·       8. Xangô te xinga (Leandro Medina)

·       9. Malandro (Jorge Aragão e Jotabê) / Suburbano (Rappin’ Hood) Participação de Rappin Hood

·       10. Axé (Rappin Hood) / Andar com fé (Gilberto Gil)

Participação de Rappin Hood

·       11. Prólogo instrumental (Marcos Paiva) – citação Upa, Neguinho (Edu Lobo / Gianfranciesco Guarnieri)

·       12. Saudação para Iemanjá (domínio público)

·       13. Agradecer e abraçar (Gerônimo e Vevé Calazans)

·       14. Coisa feita (João Bosco, Aldir Blanc e Paulo Emílio)

·       15. Mestre-sala (Douglas Germano e Everaldo ÉfeSilva)

·       16. Trajetória (Arlindo Cruz, Serginho Meriti e Franco)

Participação de Maria Rita

·       17. Malandro sou eu (Arlindo Cruz, Sombrinha e Franco)

Participação de Maria Rita

·       18. O samba é meu dom (Wilson das Neves e Paulo César Pinheiro)



ü  Extras: biografia + depoimentos = Raízes

ü  Bônus: Fabiana Cozza e Zimbo Trio – programa Mosaicos – especial Elis – TV Cultura



·       1. Zambi (Vinícius de Moraes)

·       2. Esse mundo é meu (Sérgio Rocardo e Ruy Guerra) / Resolução (Edu Lobo e Luiz Freire)





Nota 10

Quando o Céu Clarear – DVD / Fabiana Cozza



Marcelo Teixeira

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Café com Leite, de Simone: excelência na homenagem à Martinho da Vila


O belo disco de Simone
Mesmo que você não goste de café, leite ou café com leite, não será possível você não gostar deste lançamento de Simone. Café com Leite (1996 / Columbia / 29,99) é mais que um tributo a Martinho da Vila, cantor carioca e compositor que já nos deu grandes sambas tais como Meu Laiá-raiá, Se Eu Soubesse que Tu Vinhas e Canta, Canta, Minha Gente entre outros, todos incluídos aqui neste CD grandioso, valioso e respeitado.

Uma idéia original de Simone, Café com Leite une os grandes sambas de Martinho da Vila com os impecáveis arranjos de Dori Caymmi, Cesar Camargo Mariano, Julio Teixeira, Heitor T.P. e Rildo Hora e um time de músicos que também inclui percussão de Paulinho da Costa e Luís Conte, teclados de Cesar Camargo Mariano e violão de Dori Caymmi. Com esta mistura de talentos, não é surpresa que este cafezinho seja tão gostoso.

O homenageado e sua pupila
A faixa de abertura, Café com Leite, é uma versão curta a cappella que serve de definição para o álbum todo, um encontro de dois gigantes: Simone e Martinho da Vila. Logo entra a introdução meio samba-funk para Beija, Me Beija, Me Beija. Este arranjo foi um dos melhores do CD. Em toda esta coleção, Simone interpreta as canções de Martinho com perfeição, às vezes de maneira brincalhona como em Madalena do Jucu, outras vezes numa tranquilidade magnética, como em Disritmia, com o arranjo de Cesar Camargo Mariano com sabor de Chopin. A faixa final, Ex-Amor, traz o próprio Martinho da Vila para cantar com Simone e fechar este círculo de demonstração da carreira do compositor.

Uma grande viagem na carreira sambística de Martinho e claramente Simone subestimou o resultado em Café com Leite, pois talvez seja de fato o melhor disco de sua carreira e o que mais divulgação teve, depois, claro, do CD de Natal que sempre embala os finais de ano. É um lançamento marcante para Simone e um dos melhores de sua carreira.



Faixas

·       Café com Leite (Martinho da Vila - Zé Catimba)

·       Beija, Me Beija, Me Beija (Zé Catimba - Martinho da Vila)

·       Meu Laiá-raiá (Martinho da Vila)

·       Madalena do Jucu (Martinho da Vila - Associação dos Congadeiros do Espírito Santo)

·       Disritmia (Martinho da Vila)

·       Se Eu Soubesse que Tu Vinhas (Martinho da Vila - Elton Medeiros)

·       Samba da Cabrocha Bamba (Martinho da Vila)

·       Canta, Canta, Minha Gente (Martinho da Vila)

·       Quem É do Mar não Enjoa (Martinho da Vila)

·       Iaiá do Cais Dourado (Martinho da Vila - Rodolfo)

·       Maré Mansa (Mar Calmado) (Martinho da Vila - Paulinho da Viola)

·       Ex-Amor (Martinho da Vila)

ü  Part. Especial de Martinho da Vila



Idealizado por Simone, Marcos Maynard e Max Pierre

Dirigida por Max Pierre e Moogie Canázio



Nota 10

Café com Leite / Simone



Marcelo Teixeira

quinta-feira, 3 de maio de 2012

O pior álbum de Marisa Monte



A cantora Marisa Monte
Desde Mais (1991), o segundo disco de Marisa Monte em que ela realmente se mostrou capaz de ser muito mais do que uma cantora de música americanizada ou supostamente de jazz como aconteceu com Marisa Monte (1988) que a cantora veio se mostrando como ela realmente é: Marisa Monte. E sabemos exatamente o que esperar de cada disco de Marisa Monte: você sabe mais ou menos o que vai encontrar e ninguém (seja fã ou não) pode dizer que foi ludibriado. Pois Memórias, Crônicas e Declarações é nada mais (e nada menos) que um disco de Marisa Monte.

Tem a produção caprichosa-estilosa de Arto Lindsay (e co-produção de Marisa), um punhado de canções com Carlinhos Brown e/ou Arnaldo Antunes, um samba das antigas (Gotas de Luar, de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, cantado com toda a reverência de quem produziu um disco da Velha Guarda da Portela) e alguns corretos resgates da MPB (Para Ver as Meninas, de Paulinho da Viola, e Cinco Minutos, de Jorge Ben). Se há algo curioso a se destacar neste quinto disco da cantora, já em sua segunda década de carreira, é a comovente simplicidade de algumas canções – o mais próximo da coesão estética em que ela chegou até hoje em disco.


Disco de 2000: horrível
Amor I Love You (parceria com Carlinhos Brown), Não Vá Embora (com Arnaldo Antunes), O Que Me Importa (música que poderia ter sido gravada pelo Roberto Carlos do começo dos anos 70, mas o foi por Tim Maia em seu terceiro disco, de 1972) e Não É Fácil (de Marisa, Arnaldo e Brown) são verdadeiras declarações de amor à música pop-romântica – e nem precisa ser fã de Marisa para gostar. Só estas músicas revelam a simplicidade da cantora e em nada se parece com Marisa Monte. São musiquinhas capengas, horríveis, pobres, nefastas e fúnebres, com um gosto e um apelo sentimental às breguices encontradas em músicas de cantores capengas, horríveis, pobres, nefastas e fúnebres.

E isso não acontecia há muito tempo, desde os excelentes Verde Anil Amarelo Cor de Rosa e Carvão (1994) e Barulhinho Bom (1996) que Marisa não fazia algo tão horripilante como essas músicas bregas com apelo para atrair um público mais emblemático, arrastando asas para o determinado povão e sendo admirada e aclamada pelos quatro cantos do Brasil. As pessoas até então não compreendiam suas músicas e ela era considerada uma cantora de elite. Este conceito foi por água abaixo após o lançamento do pior disco de sua carreira ou talvez o menos aclamado. Após o sucesso de Amor I Love You, Marisa ainda nos brinda com o CD ainda mais brega, intitulado Marisa Monte (2001) sendo um compacto simples contendo a música A Sua.

Talvez pela falta de Nando Reis neste disco fraquissímo tenha dado este resultado horripilante. O passeio sem sobressaltos pelos pouco mais de 40 minutos de Memórias acaba em um Caetano Veloso inspirado com a bela canção Sou Seu Sabiá, nos remetendo aos bons e velhos tempos de Marisa Monte.



Faixas                                              



·       1 - Amor I Love You

·       2 - Não Vá Embora

·       3 - O Que Me Importa

·       4 - Não é Fácil

·       5 - Perdão Você

·       6 - Tema de Amor

·       7 - Abololô

·       8 - Para Ver As Meninas

·       9 - Cinco Minutos

·       10 - Gentileza

·       11 - Água Também é Mar

·       12 - Gotas De Luar

·       13 - Sou Seu Sabiá



Nota 5



Memórias, Crônicas e Declarações de Amor / Marisa Monte



Marcelo Teixeira

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Luzia Dvorek por Luzia Dvorek: maestria e singeleza na MPB


O disco de Luzia: excelente
A estreia da cantora paulista Luzia Dvorek, que é casada com o ator Tarcísio Filho há 11 anos, acontece cercada de expectativas, que são correspondidas à altura. O álbum homônimo é marcado principalmente pela delicadeza e pela voz mansa e cristalina da socióloga, filha de artista plástico e diretora teatral, que chamou atenção ao chegar à semifinal de um festival de música realizado pela TV Cultura. O talento é inquestionável e já foi devidamente reconhecido até pelo inglês Sting, que teve o sucesso Fields of Gold transformado na versão Ouro e Sal, escrita por Zeca Baleiro e Lui Coimbra, que é uma das faixas mais contagiantes do disco.

Produzido por Alê Siqueira, o álbum é bastante diversificado e foi registrado no estúdio Ilha dos Sapos, em Salvador (BA), pertencente a Carlinhos Brown, que participa de Cantiga de Menina, de Breno Ruiz e Paulo Cesar Pinheiro ,e que começa com o ruído das ondas do mar. Considerado espécie de padrinho do trabalho, Brown também é o compositor da faixa seguinte Pestaneja, que remete ao cantar de artistas como Vanessa da Mata. O universo percussivo nordestino, com referências ao mar e à ciranda, aparece também em Minha Sorte, de Rafael e Rita Altério.

Há também uma pegada mais delicada em Ilusão da Casa, de Vitor Ramil: As imagens descem como folhas/ No chão da sala/ Folhas que o luar acende/ Folhas que o vento espalha/ ... / Eu sei/ O tempo é o meu lugar/ O tempo é minha casa/ A casa é onde quero estar. É o mesmo que se sente na linda regravação De Amor Eu Morrerei, de Dominguinhos e Anastácia, transformada quase numa cantiga para ninar, marcada pela sanfona de Marcelo Jeneci, e na romântica Pássaro Solto, de Vicente Barreto e Paulo César Pinheiro: O que eu sei de amor não saberia/ Sem um trecho de poesia/ Sem um verso de canção.

Marcelo Jeneci também toca teclados em Amador, marcada por uma emocionante veia oriental, graças aos gongos melódicos de Sergio Reze (que toca bateria em outras faixas), ao koto e shamisen shen de Tamie Kitahara, e o shakuhachi de Shen Ribeiro. O que comprova a grande preocupação de Luzia com a musicalidade das canções, cercando-se de ótimos instrumentistas, caso do arranjador Lincoln Olivetti, do violonista Paulo Dáflin, do percussionista Boghan Gaboott, do tecladista Bruno Aranha e do flautista Uibitu Smetak, entre outros.

André Mehmari é outro convidado como tecladista de Choro das Águas, que também conta com a participação especial de Ivan Lins, que a compôs com Vitor Martins: Esse meu choro não cabe no peito/ Arde por dentro e rola na face/ Molha por fora e estraga o disfarce/ Lava esse coração. O álbum termina com o forte coro feminino da graciosa No Colo da Lua Cheia/ Novo Amor, de Roque Ferreira, Edu Krieger e Paulo Dáfilin, que toca violões: Com a cara e a coragem/ Meu coração foi embora/ Meu coração coroado/ No colo da lua cheia/ Presa do fogo encantado/ Caiu no canto de uma sereia.

Nasce uma nova estrela na MPB. Seu nome é Luzia Dvorek. Ou simplesmente Luzia.



Nota 10

Luzia / Luzia Dvorek



Marcelo Teixeira

terça-feira, 1 de maio de 2012

MPB Mulheres


O melhor da MPB por cantoras
A recém-lançada coletânea Mulher Popular Brasileira – Releituras reúne grandes cantoras brasileiras, de diferentes gerações, interpretando clássicos nacionais e internacionais. As gravações não são inéditas, mas, indo de Rita Lee a Roberta Campos e Adriana Maciel, o álbum confirma que o Brasil é realmente o país de ótimas vozes femininas, que, muitas vezes, passam distante da grande mídia, o que é uma verdadeira pena.

Vocalista da banda mineira de rock Pato Fu, Fernanda Takai, gravou o álbum solo Onde Brilhem os Olhos Seu (2007), dedicado à cantora Nara Leão. Nele, a cantora interpreta clássicos da Bossa Nova, como Insensatez, de Vinicius de Moraes e Antônio Carlos Jobim, que retorna agora na coletânea da gravadora Deck Disc. A rainha do rock brasileiro Rita Lee aparece com uma versão de Pra Você Eu Digo Sim, para If I Fell, de Lennon e McCartney, no álbum dedicado aos Beatles, Aqui, Ali, Em Qualquer Lugar (2001).

Outra intérprete que dispensa apresentação é a baiana Rosa Passos, que tem 33 anos de carreira, com 14 álbuns lançados. Entre eles, Curare, de 1991, do qual consta a ótima gravação da faixa-título, de Bororó, cujos versos podem ser muito bem dedicados à própria cantora: Você tem boniteza / E a natureza foi quem agiu / Com esses olhos de índia / Curare no corpo que é bem Brasil / Você é toda Bahia / É a flor no campo da gente de cor.

O mesmo acontece com a paraense Fafá de Belém, aqui cantando o samba-canção Sem Compromisso, de Ivor Lancelotti e Paulo César Pinheiro, grande sucesso na voz comovente e emocionante de Clara Nunes; e com a violonista e cantora Wanda Sá, importante nome da Bossa Nova, que aqui interpreta Domingo Azul do Mar, de Tom Jobim e Newton Mendonça, recuperada do álbum de mesmo nome, lançado em 2002. Outro clássico de Tom é Falando de Amor, interpretada por Lisa Ono, cantora paulistana que, aos 10 anos, migrou com a família para Tóquio, e, ao iniciar a carreira de cantora, passou a dividir o ano entre a capital japonesa e o Rio de Janeiro.

A consagrada sambista carioca Teresa Cristina é acompanhada pelo grupo Semente, no clássico Para Um Amor no Recife, de Paulinho da Viola, regravado no álbum duplo A música de Paulinho da Viola, de 2002. Outro samba que também já foi gravado por Clara Nunes com estrondoso sucesso é Alvorecer, de Dona Ivone Lara e Délcio Carvalho, na linda voz da paulistana Monica Salmaso, que tem 23 anos de carreira e sete álbuns lançados.

Entre os nomes com carreiras já consolidadas, mas ainda pouco conhecidos, está a cantora brasiliense Adriana Maciel, que interpreta o clássico dos Novos Baianos, Acabou Chorare, abrindo seu terceiro álbum solo, Poeira Leve (2004). A gravação reforça a leveza e graciosidade da canção de Moraes Moreira e Luiz Galvão. A dupla de compositores baianos também aparece na coletânea com Preta Pretinha, numa gravação bastante pessoal da baiana Márcia Castro, realizada em 2012, para seu segundo álbum, o excelente De Pés no Chão.

A mineira Roberta Campos não poderia ter nascido numa cidade com nome mais musical, Caetanópolis, e na coletânea aparece com o clássico do Clube da Esquina, Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor, dos irmãos Lô e Márcio Borges, trazida do segundo álbum dela, “Varrendo a Lua”, de 2010. É, sem dúvida, emocionante escutar essa garota cantar.

Também mineira, de Unaí, Nila Branco pode até não ser um nome tão familiar assim, mas certamente você já escutou alguma das canções interpretadas por ela. Esse é o caso da gravação visceral de Eu Sei, clássico da Legião Urbana, que, inicialmente, não foi cedida pela gravadora da banda, o que acabou ocorrendo graças à intervenção da família de Renato Russo em favor da moça. Ganhou a música brasileira.

No rol das cantoras que mereciam ter mais reconhecimento do grande público, está a suingada carioca Leila Maria, que adota uma temática assumidamente LGBT e realiza uma interpretação avassaladora de Seu Tipo, de Eduardo Dussek e Luiz Carlos Góes. Essa canção foi imortalizada por Ney Matogrosso. Essa gravação faz parte do álbum Canções do Amor de Iguais, de 2007. Já no time das novatas, aparece a baiana Milena Monteiro, que, em 2009, gravou seu primeiro álbum, do qual consta a bonita balada Esperando Aviões, de Vander Lee.

Com um time de cantoras como esse, a música popular brasileira só poderia ser delas, das mulheres e nada melhor do que este belo disco, com este repertório, para dizer com todas as letras, que a MPB esteve, está e sempre estará no seu melhor momento.

Salve a MPB!



Nota 10

Marcelo Teixeira