quinta-feira, 15 de março de 2012

Vírginia Rodrigues, uma estrela baiana

Virgínia Rodrigues nasceu em Salvador é uma cantora brasileira, descoberta por Caetano Veloso durante um ensaio do Bando de Teatro Olodum, em Salvador, em 1997. Sua música tem influência de música clássica, samba e jazz e ao mesmo tempo suas letras têm referências a entes do candomblé e umbanda. Sua voz prolixa e grave atinge desde notas agudas até tons mais graves e é mais um típico caso brasileiro, de um artista talentoso e bastante reconhecido no cenário internacional, mas ignorado no Brasil.

Depois de anos cantando em coros de igrejas católicas e protestantes, ela havia sido convidada pelo diretor Márcio Meireles para participar da peça Bye Bye Pelô, onde Caetano a viu pela primeira vez. De origem humilde, Virgínia traz referências populares e líricas do que ouviu na infância e juventude. O resultado é que seu canto vagueia entre o erudito e o popular. O primeiro disco foi produzido por Celso Fonseca e teve arranjos de Eduardo Souto Neto. As músicas foram escolhidas por Virgínia, Caetano e Celso Fonseca, e inclui canções como Noite de Temporal, de Dorival Caymmi, além das participações de Djavan, Gilberto Gil e Milton Nascimento.

O seu primeiro álbum Sol Negro foi bem recebido nos Estados Unidos e na Europa, rendendo à cantora raras críticas. O The Times de Londres escreveu: “...A nova Diva da musica brasileira, a cantora baiana de 33 anos, comoveu todo o Brasil com seu álbum de estreia Sol Negro; uma rica mistura de influências africanas e portuguesas e de samba de raiz.” Sendo elogiado também pelo jornal Le Monde e pela revista Rolling Stone.

A história da cantora baiana Virgínia Rodrigues ficou tão conhecida internacionalmente que os jornalistas americanos a apelidaram de Cinderela brasileira. Ex-manicure saída de uma favela de Salvador realizou, em um ano, duas turnês pelos Estados Unidos, shows na Europa e foi entrevistada por David Byrne, ao vivo, na televisão americana. Nos Estados Unidos, Europa e Japão, o primeiro disco de Virgínia saiu pela gravadora Rykodisc, de propriedade de Cris Blackwell, o mesmo que popularizou nomes como Bob Marley, Peter Tosh e U2.

Em seu segundo álbum, Nós, Virgínia homenageia os blocos afro de Salvador. Seu canto primoroso e sofisticado entoa músicas do Ilê Aiyê, Olodum, Timbalada, Ara Ketu e Afreketê. O The New York Times já a definiu como “uma das mais impressionantes cantoras que surgiu do Brasil nos últimos anos”. “Um dos lançamentos internacionais mais impressionantes dos últimos anos.”, escreveu Stephan Cook da “All Music Guide”.

Virgínia chega ao terceiro CD, Mares Profundos, coroada pelo sucesso no Exterior – embora ainda seja desconhecida em sua terra natal. Borralheiras não fazem milagre em casa. Lançado em janeiro de 2004 nos Estados Unidos, Mares Profundos chegou ao Brasil com edição simultânea na Europa. O selo do álbum é o prestigioso Edge, da gravadora alemã Deutsche Grammophon, a mais tradicional da música erudita. A produção, claro, é de Caetano. O repertório é venerável: 11 afro-sambas compostos entre 1962 e 1966 pelo violonista Baden Powell (1937-2000) e pelo poeta Vinícius de Moraes (1913-1980). O programa fecha com o samba Lapinha (Baden-Paulo César Pinheiro).

Quatro anos após lançar seu último disco, Virgínia Rodrigues volta à cena com o disco Recomeço, que versa sobre o amor dual, assunto imemorial e onipresente no cancioneiro, e muito discutido na composição. Como intérprete talhada que é, esbanja ineditismo a clássicos recorrentes da música brasileira. Seu canto camerístico aliado à compreensão da canção popular conferem um novo sentido a poesias de Chico Buarque, como as oníricas Todo Sentimento (com Cristóvão Bastos) e Beatriz (com Edu Lobo); de Vinicius de Moraes, seja com Francis Hime - na pouco conhecida Eu te Amo Amor, ou com Tom, o parceiro ancestral, em pérolas como Por Toda a Minha Vida e Estrada Branca; ou ainda ao grande hino de Dolores Duran, A Noite do Meu Bem.

Hoje, é cantora das mais respeitadas no circuito dos mais importantes festivais de jazz e world music mundo afora, participando de diversas turnês mundiais. Entre seus fãs está o ex-presidente americano Bill Clinton, que ficou encantado ao assistir a apresentação dela em São Paulo. Em entrevista, Clinton uma vez afirmou que ela era a cantora de quem ele mais gostava no mundo. Ele dedicou a Virginia uma passagem no seu livro de memórias Minha Vida. O jornal The New York Times classificou sua voz como celestial.



Teve uma participação no filme Wally Salomão de Ana Carolina Teixeira Soares.



Discografia

Sol Negro (1997)

Nós (2000)

Mares Profundos (2004)

Recomeço (2008)



Preciso dizer algo sobre o talento de Virginia Rodrigues? O mundo se desdobra aos seus pés e ela é uma das preciosidades que precisam ser lapidadas e degustadas a todo instante. Salve, Salve, Virginia!!!



Marcelo Teixeira

quarta-feira, 14 de março de 2012

Sylvia Telles: a estrela, a cantora, a morte precoce e um povo esquecido

Sylvia Telles (Rio de Janeiro, 27 de agosto de 1934 — Maricá, 17 de dezembro de 1966), também conhecida como Sylvinha Telles, foi uma cantora brasileira e uma das intérpretes dos primórdios da bossa nova. Sylvia era filha de Maria Amélia D'Atri, natural da França, e do carioca Paulo Telles, um amante da música clássica. Seu irmão mais velho, Mário Telles, também foi músico. Estudou no Colégio Sagrado Coração de Maria e sonhava em se tornar bailarina, mas, ao realizar um curso de teatro, descobriu que seu talento era realmente cantar.

A maioria de seus discos está fora de catálogo, o que dificulta o seu conhecimento pelas gerações recentes. Porém, ocasionalmente é lançada uma compilação com algumas de suas inúmeras gravações.

Segundo matéria publicada em O Globo e assinada por João Máximo: "Sylvinha foi uma das melhores intérpretes da moderna música brasileira, entendendo-se como tal a que vai de Ponto final - com Dick Farney e Amargura, com Lúcio Alves, até as canções que Tom e Vinicius fizeram depois de Orfeu da Conceição".

Em 1954, Billy Blanco, amigo da família, notou o dom de Sylvinha e apresentou-a a amigos músicos. Nas reuniões que eles faziam, pôde conhecer os grandes nomes do rádio da época, tais como Aníbal Augusto Sardinha, o Garoto, que a ajudou a encontrar trabalho em boates para o início de sua carreira profissional. Nessa época, conheceu seu primeiro namorado, o cantor e violonista João Gilberto, amigo de Mário; o relacionamento acabou porque a família Telles não gostava do jovem, que vivia de favor na casa dos outros.

No ano seguinte, Garoto escreveu-lhe um musical, chamado Gente de bem e champanhota, executado no Teatro Follies de Copacabana. Na ocasião, o músico e advogado José Cândido de Mello Mattos, o Candinho, acompanhou Sylvinha na canção Amendoim torradinho, por Henrique Beltrão. Eles se apaixonaram à primeira vista. Pouco tempo depois, morreu Garoto, sem poder ver o lançamento do primeiro disco de Telles.

Sylvinha e Candinho casaram-se e tiveram uma filha, Cláudia Telles. Em 1956, ela e seu marido apresentaram pela TV Rio o programa Música e romance, recebendo como convidados Tom Jobim, Dolores Duran, Johnny Alf e Billy Blanco. Contudo, o casal logo se separou.

Em 1958, o local de encontro dos músicos passou a ser o apartamento de Nara Leão, então com quinze anos de idade. Ronaldo Bôscoli, que frequentava as reuniões, atuava como produtor musical do grupo. Sylvia Telles, que já era um nome conhecido, foi então chamada para participar de um espetáculo no Grupo Universitário Hebraico, juntamente com Carlos Lyra, Roberto Menescal, entre outros. Foi neste show, "Carlos Lyra, Sylvia Telles e os seus Bossa Nova", que a expressão "bossa nova" foi divulgada pela primeira vez. Sylvinha Telles chegou a fazer turnês em outros países, como Estados Unidos, Suíça, França e Alemanha.

Em 1963, já divorciada de Candinho, Sylvia casou-se com o produtor musical Aloysio de Oliveira, separando-se no ano seguinte por causa de ciúme. Aloysio casou-se com Cyva, do Quarteto em Cy, posteriormente.

Aos trinta e dois anos de idade, Sylvia Telles morreu em um acidente de automóvel na rodovia Amaral Peixoto, no município de Maricá, em companhia de seu namorado Horacinho de Carvalho, filho da socialite Lily de Carvalho Marinho. Eles se dirigiam à fazenda de Horacinho no município, mas Horacinho dormiu ao volante, algo que acontecera à própria Sylvia dois anos antes, enquanto voltava de um show.

Um verdadeiro desperdício não comentar ou divulgar o trabalho de uma das melhores interpretes da nossa música popular brasileira, uma cantora talentosíssima e de categoria maior, que está, infelizmente, esquecida há muitos anos.



Marcelo Teixeira

terça-feira, 13 de março de 2012

Bebel Gilberto: a brasileira mais conhecida que Ivete Sangalo nos EUA

Isabel Bebel Gilberto de Oliveira (Nova Iorque, 12 de maio de 1966) é uma cantora brasileira nascida nos Estados Unidos. Muitas vezes associada à bossa nova, Bebel Gilberto é filha de João Gilberto e da cantora Miúcha, e sobrinha de Chico Buarque. Bebel teve sua estreia na música precocemente. Aos 9 anos já havia se apresentado no Carnegie Hall com sua mãe e Stan Getz, e já tinha participado no musicais Pirlimpimpim e Saltimbancos com sua mãe e seu tio, Chico Buarque.

Sua estreia como solo profissional veio em 1986 com um EP autointitulado lançado pela WEA, que incluiu Preciso Dizer Que Te Amo, com parceria com Cazuza e Dé, quando ambos estavam na Banda Barão Vermelho. Em 1991, a filha de Gilberto e Miúcha trocou Ipanema, onde cresceu, para Manhattan, onde ela nasceu. Bebel continua vivendo em Nova Iorque, mas compartilha seu tempo entre os EUA e o Brasil. Bebel foi uma grande amiga de Cazuza e compôs várias músicas com ele, além de Preciso Dizer Que Te Amo, incluindo Amigos de Bar e Mais Feliz.

Participou do projeto Red Hot + Rio, juntando-se grandes estrelas da música como Everything But the Girl, Maxwell, George Michael e outros para a gravação do CD beneficiário. Ela também colaborou no CD do produtor japonês Towa Tei Future Listening, cantando os hits Technova e Batucada e também participou no projeto Peeping Tom de Mike Patton (vocalista do Faith No More, Mr. Bungle, entre outras), cantando Caipirinha.

O primeiro disco oficial, de 2000: ótimo
Com o lançamento de Tanto Tempo em 2000, Bebel inventou a bossa eletrônica, que assumiu os clubes de todo o mundo e Bebel se posicionou como uma das artistas mais vendidas do Brasil nos EUA desde os anos 60. Com seu segundo álbum, Bebel Gilberto (2004), ela refinou seu som para criar um estilo lounge acústico que apresentou seus pontos fortes como uma compositora brasileira. Com o Lançamento do CD Momento (2007), seu terceiro álbum em sete anos, ela quis fazer uma fusão de ambos. Misturando um pouco do Rio 'Orchestra Imperial' junto com a banda de Nova Iorque Brazilian Girls, e seguindo a direção do produtor Inglês Guy Sigsworth (o parceiro de Madonna em What It Feels Like for a Girl), esse momento reafirma o caráter internacional da cantora Bebel.

All in One, foi lançado mundialmente em 29 de setembro de 2009 na famosa gravadora de jazz americana Verve, e lançado no Brasil pela Universal Music. Para forjar uma serenidade madura em All in One, Bebel tinha uma super equipe de produtores, incluindo Mark Ronson (Amy Winehouse, Lily Allen), D. João (Dust Brothers, Beck), Daniel Jobim, Carlinhos Brown, Didi Gutman (Brazilian Girls) e Mario Caldato Jr (Beastie Boys, Bjork, Jack Johnson).

Desde o lançamento de Tanto Tempo, em 2000, já vendeu mais de 2,5 milhões de CD's e tem sido destaque em sete trilhas de filmes (incluindo Next Stop Wonderland, Bubble, "Closer" e, mais recentemente em 2010 Eat Pray Love) e sete séries de TV (Sex and the City, Six Feet Under, Nip/Tuck ...)

Bebel foi convidada pela rede de TV NBC a se apresentar no Miss Universo 2011, que foi realizado em São Paulo e foi transmitido para mais de 1 bilhão e meio de pessoas em mais de 190 países. Cantou o seu hit Close Your Eyes durante a competição das finalistas do TOP 10, em trajes de gala (vestidos de noite).
Bebel Gilberto é muito mais conhecida nos EUA do que Ivete Sangalo, que fez um mega show em uma casa lotada para... brasileiros. Sua popularidade é tamanha, que seus amigos e colegas são profissionais que trabalham para as estrelas do showbizz americano. E sua personalidade é tão impressionante que sua simpatia cai rapidamente no gosto popular de qualquer um.

Que ainda possamos ouvir Bebel Gilberto. Sua música nos deixa mais convincentes de que o Brasil está a salvo de insetos indesejáveis e por cigarras cantantes e rebolantes. Bebel é música pura e uma musicalidade única. Hoje o Mais Cultura! fez uma retrospectiva de sua brilhante carreira, com discos fundamentais para o mercado nacional e internacional e com uma representatividade perfeita de um caminho espetacular.



Marcelo Teixeira

segunda-feira, 12 de março de 2012

Thaís Gulin: uma boa novidade

Segundo disco da cantora: ótimo.
A cada semana nasce uma nova cantora da MPB que tenta ter seu espaço na mídia, alçando público e elevando a nossa música popular brasileira ao topo que ela realmente merece estar. Cantoras com potencial, muitas delas ainda vivem a margem do desconhecimento, sendo apenas reconhecidas no cenário e âmbito plausível por pessoas que vão atrás de informação ou novidades. Thaís Gulin, cantora paranaense de qualidade excelente, está provando que para ser cantora é preciso muito mais do que uma feição bonita, uma boa voz e um bom disco. O novo CD da cantora é um misto de satisfação gerada com qualidade e perfeição quase difíceis de serem conduzidas. Resumo: Thaís canta bem e compõe muito bem.

No centro da orquestra produzida e arquitetada por músicos de calibre de alta patente e cerceada por grandes méritos e reconhecimentos, Thaís Gulin surge como uma salvadora da nacionalidade musical brasileira prontamente a brilhar na seara deixada por grandes cantoras. Sua voz, forte como um machado e suave como a brancura das nuvens, deixa a percepção de que é uma voz que grita para que alguém lá longe, do alto do mirante, a possa ouvir. Sua sensibilidade é gritante e seu senso comum é apadrinhado por vários elementos hiperquânticos de evolução sentimental.

Ôôôôôôôô (2011 / Slap / 23,99) é o segundo disco de Thaís Gulin e que merece toda a nossa atenção pela desenvoltura que o álbum apresenta e pela distinta comparação de outras cantoras da mesma formação. Thaís tem um timbre forte, ousado e que não lembra nenhuma outra interprete. Seu rosto angelical se transforma em uma mulher forte e madura quando solta a voz em canções próprias ou regravações perfeitas. Um disco que merece toda a nossa atenção pelo fato de ser inteiramente bem produzido e bem diversificado, característica já consagrada na carreira da brilhante Thaís Gulin.

O disco é composto por algumas regravações como Água (Kassin), já gravada com um certo sucesso por Caetano Veloso e que é uma música bem simples, mas que fala de um amor que um dia dará certo. A interpretação de Thaís para Horas Cariocas é tão impressionante que não deixa dúvidas de seu talento como cantora e compositora. A canção é maravilhosa, uma mistura de repetição de palavras com final melancólico e sensível. Se Eu Soubesse foi feita para o disco que trás Chico Buarque novamente ao mercado fonográfico e talvez seja a única música bonita do disco dele, lançado no ano passado e que também tem a participação de Thaís. Mas aqui a atmosfera é outra e quem rouba a cena é ela com seu timbre, sua potencia e sua qualidade em dividir os microfones com um monstro sagrado como Chico. Não por menos, Thaís é a nova musa inspiradora de Chico Buarque e deste fruto ainda renderá boas composições de ambos.

Revendo Amigos (Jards Macalé / Waly Salomão) ganhou sonoridade eletrônica, o que não deixou de ser interessante ouvir por algumas particularidades de Thaís: ela ora sussurra, ora grita, ora simula um choro. Divertido e ousado, esta regravação mais parece uma novidade do que uma pincelada no cancioneiro de Macalé ou Salomão. Recentemente estou achando que Ana Carolina está mais prestativa como compositora do que como cantora e isto está provado no disco de Maria Gadú na faixa Reis, uma das mais belas canções do álbum e que no disco de Thaís não poderia ser diferente. Uma linda canção de amor e ódio, Quantas Bocas prima pelas rimas e pelo belo refrão. Cinema Americano (Rodrigo Bittencourt) é uma música enorme de fala cortante e ligeira, que faz uma dura crítica ao mercado americano.

Encantada trás Adriana Calcanhotto na sua melhor forma, como sempre nos divertindo com suas charadas provocativas e irônicas, fazendo um jogo de palavras irresistível e admirável. Frevinho é uma composição de Thaís com Moreno Veloso, que recentemente está dando vida as marchinhas e frevos numa época em que muitos não sabem o que isso significa, tendo em vista que no novo disco de Roberta Sá ele é o responsável pela melhor faixa do disco. Paixão Passione é uma faixa bônus que fala de das torturas do amor e da paixão numa forma transversal e que somente Ivan Lins consegue transpassar. Mas a melhor faixa do disco é a pérola Ali Sim, Alice, de Tom Zé e com participação especialíssima do mesmo, transformando aqui uma mistura de vozes sensuais com um ritmo calibrado, doce, febril e magnífico.

O novo disco de Thaís não é para qualquer um. Tem que gostar de música popular brasileira de toda a sua forma e originalidade. Thaís é perfeita, seu timbre é perfeito e sua musicalidade é sensata, cortante e que não nos deixa dúvidas: Thaís Gulin é ótima.

Tudo em Thaís Gulin é sensível e tudo em Thaís Gulin é ferro, fogo, ódio e carvão. Suas cinzas deixam a nítida transparência de que o caminho da boa musicalidade está ali, bem diante de seus pés, prostrado como uma estatua lhe pedindo para que cante mais e mais e mais...



Nota 9

Ôôôôôôôô  /  Thaís Gulin

Marcelo Teixeira.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Perla: a quarta pior cantora do Brasil

Perla, a quarta pior cantora
O lixo comercial ambulante do comércio fonográfico continua fazendo com que algumas cantoras sejam excluídas do bom senso comum e agindo aleatoriamente como o fantoche de pessoas fúteis, desqualificadas e sem um pingo de moralidade cívica e moral. Chega a ser horripilante ver, ouvir e saber que cantoras do perfil de Perla existem no Brasil, um país rico em diversidade e musicalidade das melhores do mundo. Perla, uma cantora imbecil com qualidade esdruxula, é o homônimo de uma cantora capaz de levar sentimentos e sensibilidade às pessoas, capaz de mostrar que o povo a ouve é oco por dentro e vazio por fora e que suas músicas representam aquilo que mais ridiculariza as mulheres e crianças mundo afora. Ter a certeza de que esta cantora existe é padecer no inferno das sensações orgásticas de um mundo aquém de charlatanismo, desprovido de tanta desgraça alheia e de uma coexistência fraterna estupida.

Linchemos Perla. Gritemos em uníssono por sua derrota. Uma senhorita cantora de qualidade dúbia e de personalidade pífia que está deixando cada vez mais em baixa a boa qualidade do mundo da música, Perla é o oposto da mulher que canta, que exprime sentimentos ou que quando fecha os olhos demonstra a riqueza de uma boa voz, de uma boa música, de um bom som. Infelizmente esta senhorita cantora não nasceu com dom nenhum para o mundo artístico, alias, não sei nem o porquê Perla entrou para o mundo da música, mundo este que deve ser respeitado, estudado e aprimorado com o passar do tempo.

Queimemos os discos e fotos de Perla e teremos a nítida certeza de que ela não merece o mínimo respeito por pessoas que curtam uma boa cantora. Afinal, ficar rebolando em um palco, rindo de mulheres que sofrem por um amor verdadeiro, soltando pérolas infames sobre homens que traem e sobre mulheres que devem ser escudos para o sexo livre, fazem dessa cantora a triste alegria de ser mais uma a ganhar o título de a pior cantora do Brasil, estando ao lado de Paula Fernandes, Wanessa Camargo e Joelma.

Sua voz é fanha, chata, esganiçada, febril e modéstia a parte: insuportável. Sua presença me causa reboliço nas ideias e me vem a triste melancolia de que neste país de marias e clarices, de Brasil mestiço e dos joãos e josés ainda fabricam cantorazinhas medíocres, pobres e sujas. Taquemos Perla no fundo do poço, no submundo das capitanias oligarcas e medíocres e vamos por fim a democracia criada e gerada por cantoras sem um ponto de cérebro e com várias indagações na mente.



Marcelo Teixeira

quinta-feira, 8 de março de 2012

Ângela Rô Rô - dos escândalos a boa música

O apelido Rô Rô vem da risada grave e rouca; características que fazem também o diferencial da voz; um pronunciado sotaque carioca, caracterizado pela acentuação da vogal "a" muitas vezes encavalada na consoante "r", de maneira rasgada e aberta; a fala rápida e atropelada acentua essas características. Compositora competente, Ângela já foi gravada por vários artistas, dentre os quais se destacam Maria Bethânia, Barão Vermelho, Marina Lima, Emílio Santiago, Ney Matogrosso, Toni Platão; Simone e Zélia Duncan gravaram Agito e uso, (Cd Amigo é casa, 2008). Começou a estudar piano clássico aos cinco anos, influenciada por ícones como Maysa, Jacques Brel e Ella Fitzgerald, a quem elegeria posteriormente como ídolos musicais.

Durante a década de 1960, no auge da ditadura militar brasileira, mudou-se para Londres, onde trabalhou em restaurantes e cantou em pubs. Ao voltar para o Rio de Janeiro, apresentou-se em casas noturnas de espetáculos em Ipanema até ser contratada pela gravadora Polygram (atualmente Universal Music.) O primeiro disco, exclusivamente com composições da cantora e intitulado simplesmente Ângela Rô Rô (1979) tornou-se um clássico da música brasileira, ao abrigar numa mesma safra canções como Gota de Sangue, Não Há Cabeça, Agito e Uso e o grande sucesso Amor, Meu Grande Amor (que voltou à tona com a regravação da banda Barão Vermelho, em 1996). No disco seguinte, Só Nos Resta Viver, os maiores sucessos foram a faixa-título e a regravação de Bárbara, (Chico Buarque e Ruy Guerra), presente na peça de teatro Calabar. Outra faixa de destaque do álbum também é a sarcástica e autorreferencial Meu Mal é a Birita, na qual a cantora fala sobre a fama de alcoólatra.

O trabalho seguinte, Escândalo (1981), apresentou uma capa em formato de jornal, com o título como manchete, fazendo alusão à grande exposição de Rô Rô na imprensa por ter sido acusada de agressão pela então namorada, a cantora Zizi Possi. A canção Escândalo dá título ao álbum e foi composta por Caetano Veloso.

Duas características aliadas da persona pública de Ângela Rô Rô são o temperamento forte e a tendência a escândalos. Numa das entrevistas a cantora foi levada a abandonar a apresentadora Cidinha Campos durante o programa, devido às sucessivas perguntas pessoais, desviando o centro de atenção da entrevista. Rô Rô defendeu-se da entrevistadora argumentando que estaria abusando ao acusá-la de ser uma pessoa violenta e ao fazer alusões nada lisonjeiras sobre uso de drogas e comportamento errático. A irreverência de Rô Rô, somada à boemia, acabaram de fato por torná-la uma artista maldita, acompanhada de canções de blues e jazz marcadas pelas emoções confusas. A artista representa uma vertente da MPB, de cantoras talentosas, ousadas, que fazem do personalismo uma tônica do trabalho e um ícone da sociedade.

Entre o fim da década de 1980 e todos os anos 1990, Rô Rô gravou apenas dois discos e participou de alguns songbooks produzidos por Almir Chediak. Em 1997, foi indiciada por uma tentativa de incêndio no prédio onde morava, em Copacabana.

Anos 2000



Pouco tempo depois, Rô Rô decide largar as drogas, a bebida e o cigarro, e a fazer ginástica (perde cerca de 35 quilos) e lança o disco Acertei no Milênio em 2000. Com este trabalho, Rô Rô recebe o prêmio de Compositora do Ano pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).

Entre 2004 e 2005 Ângela foi convidada a apresentar o talk-show Escândalo, na emissora de TV a cabo Canal Brasil recebendo dezenas de colegas da MPB. Em 2006, assinou contrato com a independente Indie Records, pertencente a Líber Gadelha (ex-marido da ex-namorada Zizi Possi e pai da cantora Luiza Possi), para a gravação do disco Compasso e do primeiro DVD ao vivo, gravado em um espetáculo no Circo Voador, na Lapa (bairro do Rio de Janeiro), em 20 de setembro de 2006. A canção de mesmo nome alcançou enorme sucesso, conquistando os hits de parada das rádios. Em 2008 participa do projeto "Loucos por música", o qual dividiu palco com Ivete Sangalo, Elba Ramalho e Ana Carolina.

Em dezembro de 2009 a Descobertas e Canal Brasil resgatam os áudios de canções gravadas no programa Escândalo com uma proposta intimista de voz e piano, apresentações peço país, e em alguns deles, convidados especiais, como Sandra de Sá e Ana Carolina.

Compositora de talento e êxito, Ângela Rô Rô ao longo de seus 30 anos de carreira, gravou mais de 100 canções de sua autoria. Várias delas alcançaram grande sucesso, entrando para o hall dos clássicos da MPB. Nestes trinta anos de carreira, celebrizaram-se as canções - Amor, Meu Grande Amor, Gota de Sangue, Tola Foi Você, Não Há Cabeça, Me Acalmo Danando, Agito e Uso, Mares da Espanha, Só Nos Resta Viver, Renúncia, Came e Case, Querem Nos Matar, Fogueira, Gata, Moleque, Ninfa, A Vida é Mesmo Assim, O Cinema, a Princesa, e o Mar, Viciei em Você, Compasso e Outono. (todas de sua autoria) E mais: Bárbara (Chico Buarque / Ruy Guerra), Fica Comigo Esta Noite (Adelino Moreira / Nelson Gonçalves), Escândalo (Caetano Veloso), Simples Carinho (João Donato / Abel Silva), Demais (Tom Jobim / Aloysio de Oliveira), Você Não Sabe Amar (Carlos Guinle / Dorival Caymmi / Hugo Lima), Sempre Uma Dose a Mais (Bernardo Vilhena / Lobão), Joana Francesa (Chico Buarque) e Gota D'Água (Chico Buarque).



·       Ângela Rô Rô (1979)

·       Só Nos Resta Viver (1980)

·       Escândalo (1981)

·       Simples Carinho (1982)

·       A Vida É Mesmo Assim (1984)

·       Eu Desatino (1985)

·       Prova de Amor (1988)

·       Nosso Amor Ao Armagedon (Ao Vivo) (1993)

·       Acertei no Milênio (2000)

·       Compasso (álbum) (2007)

·       Ângela Rô Rô (Ao Vivo) (2006)

·       Escândalo (2006)



Marcelo Teixeira

quarta-feira, 7 de março de 2012

Virginia Rosa e seu belo disco Baita Negão

Dentre as intérpretes femininas que compõem a nova geração da música popular brasileira, Virgínia Rosa surge como uma voz de personalidade. Ela é paulistana, filha de mineiros e tem traços característicos de negros e índios. É justamente essa miscelânea, historicamente bem sucedida, que faz da cantora um dos nomes indispensáveis para pessoas interessada em boa música. Uma voz potente, precisa e, acima de tudo, sedutora, interpretando as várias facetas e ritmos do Brasil.

“Eu era um pouco caipira, meio coió. Eu não tinha a linguagem de vocês, universitários.”, disse certa vez Virginia.

O pai cantava música sertaneja e tocava bombardino. Em família, formou repertório e banda. Teve aula de teoria musical com Arrigo. Vestida de coração, fez vocais para Tetê Espíndola em Escrito nas estrelas.

Hoje estou formal: o nome dela é Virgínia Rosa, anuncia Itamar Assumpção em show gravado ao vivo na Funarte, 1982. E foi justamente a Isca de Polícia, banda de Itamar, a grande escola de Virgínia - Gente, que som!, lembra a cantora. A Isca estreou no Pauliceia Desvairada com figurinos confeccionados por Dona Ida, mãe de Arrigo. Virgínia cantou na banda por cinco longos anos.  Virgínia Rosa seguiu carreira com a Mexe com Tudo. Conviveu com mais grandes músicos, excursionou pela Europa, se lançou cantora. Seu primeiro álbum-solo é Batuque, que lançou Chico César e Lenine.

Disco lançado em 2008: belo
Depois de contribuir com o verso vale a pena não dormir para esperar no samba-canção Faz Escuro Mas Eu Canto, que compôs em três dias de 1964 com o poeta Thiago de Mello, o sambista Monsueto sentiu falta de algo. Quis incluir um cochila na pausa após o esperar. Cansa demais a noite inteira sem dormir, tentou justificar, uma cochilada alivia e dá força à esperança. A soneca ficou de fora da versão final, mas era sempre lembrada por refugiados que, no Chile, se fiavam naquela canção de esperança em tempos de ditadura no Brasil. Quase 45 anos depois, a história é contada pelo coautor no encarte de Baita Negão (2008 / Mesa Dois Produções / 29,99)  , de Virgínia Rosa.

O quarto álbum da cantora paulista contempla em 11 faixas sambas feitos (alguns em parcerias) pelo compositor, cantor, ator e pintor carioca Monsueto Menezes (1924-1973), hoje muito esquecido pelo público. No disco, gravado com patrocínio da Petrobras, Virgínia busca ressaltar a verve criativa do Comandante como era conhecido, graças a esquetes que fazia na TV Rio, que lançou gírias como morou? e diz aí.

Monsueto era uma figura interessantíssima e, embora suas músicas sejam conhecidas nas vozes de cantores como Caetano (Mora na Filosofia, de Monsueto e Arnaldo Passos) e Alaíde Costa e Milton Nascimento (Me Deixa em Paz, com Ayrton Amorim), pouca gente se lembra dele. Resultado, talvez, da escassa discografia do sambista, que teve apenas um álbum lançado em vida, Mora na Filosofia dos Sambas de Monsueto, de 1962, e uma coletânea póstuma, Raízes do Samba, de 2000.

Em Baita Negão, Virgínia interpreta, além das canções já citadas, sambas como Lamento da Lavadeira (que entrou em medley com Ensaboa, de Cartola, no disco Mais, de Marisa Monte) e Eu Quero Essa Mulher Assim Mesmo (também gravada por Caetano, em Araçá Azul) nesta última, Martinho da Vila divide os vocais com a cantora. Para dar a dimensão da multiplicidade de Monsueto, convidou 11 produtores, um para cada faixa, incluindo Celso Fonseca (em Mora na Filosofia), Jair de Oliveira (A Fonte Secou) e Proveta (no pot-pourri final, com participação de Oswaldinho da Cuíca).

 O disco merece todos os aplausos possíveis por todos os méritos gerados por Virginia Rosa, artista completa, cantora de qualidade extrema e de bela voz potente e cortante. De todas as interpretes geradas nestes últimos anos no Brasil, Virginia é, sem quaisquer resquícios de dúvidas, a melhor cantora capacitada a resgatar pérolas esquecidas pelo tempo.



Nota 10

Baita Negão / Virginia Rosa


Marcelo Teixeira

terça-feira, 6 de março de 2012

Eu Me Transformo em Outras, de Zélia Duncan e a injustiça da mídia com este disco

Disco lançado em 2004: perfeito.
Uma injustiça foi feita com a obra de Zélia Duncan. Praticamente não foi comentado, muito menos exposto na mídia o belo disco Eu Me Transformo Em Outras (2004 / Universal Music – Duncan Discos / 34,99), disco este indispensável para colecionadores e amantes da boa música. O disco em si é uma completa obra, um clássico que deve ser lapidado, ouvido e degustado da melhor forma possível. Zélia está cantando melhor, seu timbre de voz soa transparente e a emoção em algumas faixas se faz presente, na melhor das hipóteses, revelando ali uma cantora de extrema qualidade, persuasão e sentimentos. Com este disco, Zélia deixa claro que sua verve como uma cantora de verdade e que está aberta a qualquer modismo ou estilo é pura balela. Considerada por muitos como roqueira ou sucessora de Rita Lee, Zélia Duncan vem de uma coletânea de clássicos a cada disco lançado no mercado e a cada nova roupagem de músicas clássicas e antigas fica evidente que seu estilo não tem comparação e muito menos nome. Ela canta. E em qualquer estilo.

Eu Me Transformo Em Outras é um álbum grandioso e audacioso. O título, mais uma vez, vem do cancioneiro de Itamar Assumpção, de quem a cantora é fã absoluta. Mas o que chama a atenção neste disco é a disponibilidade de Zélia em misturar o que é antigo com o que é moderno. De Itamar a Dorival Caymmi, de Tom Zé a Luiz Tattit, de Tom Jobim a Cartola, passando por Herivelto Martins e Haroldo Barbosa, o disco é uma miscelânea de boa qualidade, de bom gosto e de boa conduta. Álbum que merece destaque pelo simples fato de ser um álbum sem grandes pretensões, sem grandiosidade, mas que prima pelo bom gosto. Com uma capa exuberante que nos remete a velhos tempos da senzala e dos escravos, Zélia entra por searas do Samba, da MPB, da Bossa Nova, do lirismo e do amor com requintes de qualificação extrema.

Outro atento neste maravilhoso disco é a audácia em trazer para o grande público uma seleção de 20 músicas que passeiam pelo ontem e hoje, cortando canções de Chiquinha Gonzaga, Ataulfo Alves e outros bambas da época de ouro. Regravou Eliseth Cardoso e sua obra maior, Doce de Coco, com tanta primazia, que fica impossível dizermos que a música não é perfeita. Em Tô, de Tom Zé, a malandragem e esperteza de Zélia afloram e deixa aquele sabor de quero mais. Em Capitu, música de protesto virtual, a linguística de Luiz Tattit transparece e renova a qualidade do álbum.

Este disco é indispensável pelo fato de ser transgressor e nos trazer um dos melhores tempos da música popular brasileira, quando a música era tratada com verdadeiro sentimento e era motivo de zombação, de mandar recados amorosos ou impiedosos, de cortar os corações singelos, de brincar com a nega da janela, de falar de amor sem ter medos e rancores. Infelizmente hoje somos obrigados a ouvir músicas e frases cortantes de cantoras fúteis e sem qualidade. E o disco que Zélia colocou no mercado e que a mídia não deu a mínima chance de conhecimento é a prova concreta e sensata de que fazer músicas é uma responsabilidade extrema.



Nota 10

Eu Me Transformo Em Outras



Marcelo Teixeira

segunda-feira, 5 de março de 2012

Clara Nunes e Paulo Gracindo e um dos melhores discos da MPB

Quando se junta dois monstros sagrados, quando há o encontro de dois gênios das artes, quando a música se encontra com o teatro, quando voz cantada encontra-se com voz falada, quando um homem se encontra com uma mulher, quando o amor se encontra com o desespero de poder dizer tudo aquilo que está engasgado dentro de sua garganta, quando o desejo de se obter um amor se encontra com o desejo e a vontade louca de estar junto, amando, curtindo e loucamente apaixonados, temos a certeza de que o amor vale a pena. E quando Clara Nunes encontrou Paulo Gracindo para fazer o espetáculo Brasileiro Profissão Esperança, a sensação de que os gênios, os artistas, as artes e o emaranhado de profusões de amor e paixão são, de fato, concretos, temos a certeza de que o amor é, com todo o requinte de palavras, o amor na sua mais contundente forma. Direção impecável de Bibi Ferreira e texto magistral de Paulo Pontes, Brasileiro Profissão Esperança nos cativa porque fala de amor, um amor que invade fronteiras, que alimenta almas, que ressuscita pessoas, que renasce a cada dia e a cada minuto, que transpassa dos limites da paixão e que acerca disso, limitavam-se apenas a buscar a felicidade.

Antônio Maria amou loucamente Dolores Duran. Clara Nunes e Paulo Gracindo, no teatro, reviveram este espetáculo da vida aberta e das dores e amores e sentimentos e paixões que muitas vezes acontece com a gente mesmo. O amor cantado por Antônio e Dolores é a mais sublime, a mais apaixonante possível e a mais verdadeira. E fica impossível não ouvirmos este disco lançado por Clara em 1974 e não nos emocionarmos com sua beleza, com sua voz, com sua respiração. Impossível também não nos admirarmos com a arte cênica de Paulo, com sua bela voz, cortante e lasciva, que fala com amor e ódio, com paixão e desenvoltura, com tenro amor e com tenra sensibilidade, que fica difícil dizermos que este não é um grande disco. Clara canta cristalinamente e parece que canta ainda melhor a cada audição as dores de um amor, o sentimento de uma busca, a inquietude de um beijo, a sensação de um abraço, o aconchego de um acalanto, o sentido do amor.

Paulo, interpretando Antônio Maria, ora é agressivo, ora é espontâneo, ora é humano, ora amorosamente companheiro, mas no fundo, no fundo mesmo, ele era um apaixonado, um romântico que gostava de contar piadas e falar das desgraças alheias com requinte, de soltar um palavrão em uma festa, de cuspir para o celeiro intelectual quando suas ideias não eram aprovadas ou de ser um galante com as mulheres no momento certo. Antônio Maria era homem. Antônio Maria era ríspido, mas amava. E quando amava uma mulher, a amava verdadeiramente. Dolores Duran foi sua grande paixão, sua companheira e deste amor nasceu composições perfeitas, originais, sensíveis e humanas.

O disco é de uma perfeição completa e estupenda. Aconselho a ouvi-lo quando se está triste, para que cada frase dita por Paulo seja degustada, seja engolida, seja dilatada em seus poros com tamanha parcimônia e harmonia. E que cada música cantada por Clara seja absolvida da melhor das hipóteses, com todo o carinho e sentimentalismo puro a qual ela nos passa. Ouvir este disco é ter a certeza de que o amor existe e existe no coração dos homens fortes, dos homens que outrora são considerados sem coração, dos homens que não transmitem amor, mas que no fundo desse mesmo homem, a verdadeira palavra amor existe e existe tanto, que é capaz de fazer um coração feliz.

Antônio Maria e Dolores Duran se tivessem sido irmãos não seriam tão parecidos. Os dois gostavam de viver mais de noite do que de dia, os dois faziam canções, os dois precisavam de amor para respirar, eram puxados para o mesmo sentimento e, mesmo na hora da morte, os dois foram atingidos por um só inimigo: o coração. A obra que os dois deixaram, hoje espalhada pelos jornais e redes sociais, reflete essa indisfarçável identidade. Mas, prestando atenção nas coisas que eles disseram e escreveram e nas músicas que eles fizeram é a gente descobre a expressão maior dessa semelhança: os dois se refugiavam do absurdo do mundo, que eles revelaram com humor e amargura, na desesperada aventura afetiva. O amor era o último reduto dos dois.

Clara e Paulo harmonizam um disco maravilhoso, lançado em 1974, hoje pouco disponível para a venda. Mas na internet e redes sociais é muito possível e provável que você tenha acesso ao conteúdo gerado por dois gênios da música popular brasileira, Antônio e Dolores, que simplesmente se amaram e viveram. Mas ouçam o disco com toda a atenção. E até mesmo as pessoas que acham que o coração de um homem temperamental é rude ou insensato, as pessoas estão totalmente equivocadas quando se existe um alguém para amar e ser amado.



Nota 10

Brasileiro Profissão Esperança

Clara Nunes e Paulo Gracindo



Marcelo Teixeira.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Adeus, Pery Ribeiro

Pery Ribeiro era mais conhecido como o filho de Dalva de Oliveira e Herivelto Martins e praticamente não tinha nenhum grande sucesso registrado por ele primeiramente. Mas isso pouco importa, porque seu talento e sua voz eram esferas grandiosas para se destacar na seara musical. Peri envolvia-nos com uma magia, um entusiasmo e uma alegria até mesmo em canções tristes, melancólicas ou sensíveis. Peri estava internado no Hospital Universitário Pedro Ernesto há 30 dias para tratar de uma endocardite. O cantor receberia alta na semana que vem, segundo informou a mulher de Pery. Além da esposa Ana Duarte, o compositor deixa dois filhos.

Peri Ribeiro Oliveira Martins iniciou sua carreira com apenas três anos de idade. Ele participou da dublagem de filmes de Walt Disney, ao lado de sua mãe Dalva de Oliveira. A carreira como cantor e compositor teve início em 1960, quando lançou o seu primeiro disco. A canção Não Devo Insistir foi o sua primeira composição, escrita com Dora Lopes. Além disso, foi o primeiro intérprete do clássico Garota de Ipanema. Ele também gravou Manhã de Carnaval e Samba de Orfeu.

Em 2006, Pery lançou o livro Minhas duas Estrelas, em que relata sua vida em meio ao conturbado relacionamento dos pais, Dalva de Oliveira e Herivelto Martins.

Sua morte ocorreu no dia 24 de fevereiro deste ano, aos 74 anos de idade e o Mais Cultura resolveu fechar esta semana com uma homenagem, ficando este final de semana de luto. Luto por um homem que honrava a imagem dos pais, luto por um cantor que tentou salvar a música popular brasileira, luto por Pery Ribeiro.



Marcelo Teixeira.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Roberto Menescal e Wanda Sá juntos em disco primordial para a modernidade

Inspirado na Galeria Menescal, onde o próprio compositor morou por um período, que guarda boa parte da história de Copacabana e dos personagens da nascente Bossa Nova, 50 anos atrás, Roberto Menescal se uniu mais uma vez com a parceira Wanda Sá, que foi sua aluna de violão nos primórdios bossanovistas, e ao grupo vocal Bebossa e criou o espetáculo “A Galeria do Menescal, que tem sua versão de estúdio lançada agora pela Sala de Som Records (www.saladesom.com.br). No CD a música O Barquinho é apresentada, segundo o próprio Menescal, na versão veleiro, mais leve, deslizante, em um arranjo do próprio Menescal e de Clarisse Assad (vocal).

O repertório do CD é o resultado da uma série de espetáculos do octeto, que roda os palcos brasileiros desde 2009, reunindo a obra do comandante do Barquinho, reunindo desde clássicos como Vagamente, Telefone e Rio, além da própria O Barquinho, frutos da parceria de Menescal com Bôscoli, a canções menos conhecidas como Eu Canto meu Blues (Oswaldo Montenegro/ Roberto Menescal) e Agarradinhos (Roberto Menescal e Rosália de Souza).

No CD,  nada de super produções, apenas Menescal, Wanda, o BeBossa (que é um sexteto a capella), uma guitarra e dois violões. E, muita bossa. As músicas são apresentadas em diversas formações: apenas o Bebossa a capella, Wanda e o Bebossa, Menescal e o Bebossa e todos juntos. O BeBossa é formado por Marcela Velon, Carol Assad, Marcela Mangabeira, Cauê Nardi, Matias Corrêa e Zeca Rodrigues (direção musical e arranjos).



Uma capa muito Bossa Nova



O grande disco
A proposta gráfica da capa do CD, e do projeto gráfico em si, assinado pela Ilustrarte Design, foi revistar o visual marcante das capas criadas por César Villela para a gravadora Elenco, nos anos 1960. Na época eram lançados os primeiros discos de toda uma geração que viria a se tornar ícone da música popular brasileira. Menescal estava entre eles, com LPs como A Bossa Nova de Roberto Menescal e seu conjunto e A Nova Bossa Nova de Roberto Menescal e seu conjunto, em meio a outros grandes artistas, como Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Nara Leão, Tamba Trio, e muitos outros, que foram brindados com a elegância do traço de Veillela.

A partir de conceitos como minimalismo, elegância e modernidade, essas capas tornaram-se parte da nossa cultura visual, sendo frequentemente associadas à boa música. Na época, as técnicas de impressão eram inteiramente diferentes, havia outros processos e limitações envolvidos. Mas foi com essas limitações que, seguindo um partido bem simples – com uso do alto contraste pontuado por detalhes em vermelho e de tipografia forte e com impacto –, César e a Elenco ajudaram a criar, talvez inadvertidamente, a imagem da própria Bossa Nova.

Foi com deferência a essa história e a essa obra que os artistas decidiram utilizar dos mesmos conceitos, traduzidos para a época atual, ao construir a identidade do projeto A galeria do Menescal.


A Galeria Menescal

Há anos existe no coração de Copacabana, no Rio de Janeiro uma galeria comercial que leva o nome da família do comandante. Durante muitos anos alguns pensaram ser ele dono da galeria. Por um bom tempo, mesmo não sendo dono, marotamente Menescal não respondia. Deixava a dúvida no ar.

Se a galeria Menescal pode ser considerada um dos primeiros shoppings do Brasil, com uma oferta grande de serviços, dos famosos kibes a consultórios médicos, o repertório de Roberto Menescal também é bem amplo, e vai além de O Barquinho (Menescal e Bôscoli), Vagamente (da mesma dupla) e de Bye Bye Brasil (dele e de Chico Buarque). E é exatamente a riqueza deste repertório que o espetáculo tenta colocar a bordo. Reconhecidamente, um dos principais compositores da Bossa Nova, Roberto Menescal é das figuras mais atuantes do movimento que ainda navega com desenvoltura pelos sete mares. Ele pode estar no palco com Leila Pinheiro, Andy Summer, Bossacucanova, Cris Delano ou Danilo Caymmi, entre outros contemporâneos ou não de tempos de Bossa Nova.

Como compositor, Menescal tem parcerias além de Bôscoli e Chico Buarque, com Caetano Veloso, Costa Neto, Paulo Coelho, Paulo Feital, Nelson Motta, Paulinho Pinheiro, Carlos Lyra e até mesmo Carlos Drummond de Andrade.


Sobre o encontro
Aberto a novas possibilidades musicais, vide suas parcerias com Andy Summer, Bossa Cuca Nova e Leila Pinheiro, quando Menescal foi apresentado ao grupo vocal BeBossa, junto com o produtor Célio Albuquerque, percebeu que tal encontro poderia ser bastante produtivo. Chamou Wanda Sá, com quem regularmente se apresenta e, com o auxílio do líder e principal arranjador do grupo BeBossa, Zeca Rodrigues, montaram o espetáculo A Galeria do Menescal, que teve sua primeira apresentação no palco do Liceu Franco-Brasileiro, curiosamente um dos primeiros palcos da Bossa Nova, nos anos 60, onde até mesmo um iniciante Roberto Carlos (que na época queria ser João Gilberto) subiu ao palco.

A escolha do repertório foi a partir da identificação do grupo com cada música apresentada. Além do parceiro onipresente Boscoli, outros também marcam presença no cd, como Wanda Sá, Carlos Lyra, Paulo César Pinheiro, Chico Buarque, Paulo César Feital, Oswaldo Montenegro e Rosália de Souza.



Caso queira ter acesso rápido ao conteúdo do disco, por favor, acesse o link : http://sonora.terra.com.br/#/Cd/231441/a_galeria_do_menescal


Nestes outros links estão algumas apresentações do projeto: http://www.youtube.com/results?search_query=%22menescal%2C+wanda+s%C3%A1+e+bebossa%22&oq=%22menescal%2C+wanda+s%C3%A1+e+bebossa%22&aq=f&aqi=&aql=&gs_sm=3&gs_upl=2250l13129l0l14023l30l30l0l17l0l0l349l2049l0.4.4.1l9l0

    
Informações para imprensa     

Texto enviado por Célio Albuquerque para o Blog Mais Cultura!
Marcelo Teixeira.